quinta-feira, julho 31, 2008

Lei Seca: e-book

O Cláudio Shikida organizou um e-book sobre o tema, e nele consta um artigo meu.

Eis o link:

http://shikida.net/leiseca.pdf

A Indignação de Cora Rónai

Em artigo de hoje publicado no Segundo Caderno de O GLOBO, a colunista Cora Rónai escreveu, comentando o assalto de que foi vítima recentemente:

"A indignação que senti mais tarde, quando enfim deitei a cabeça no travesseiro e tratei de pôr as idéias em ordem, foi, apenas, uma amplificação da raiva surda que sinto contra a degradação constante do meu país. O que me sufoca é o governo: este, o outro, o próximo, o federal, o municipal, o estadual -- toda a corja responsável pela completa ausência do estado na cidade e no país.

Esses canalhas, que a cada mês me roubam, só em impostos diretos, muito mais do que me roubaram os assaltantes da Avenida Pasteur, são os verdadeiros merecedores do meu ódio, do meu desejo mais profundo e visceral de que ardam, para sempre, no fogo dos infernos.

Não sofro da patologia contemporânea de achar que todo bandido é vítima da sociedade. Não é. Pelo contrário. A sociedade, como um todo, trabalha muito duro para pagar aos seus funcionários, àqueles que deveriam cuidar para não houvesse crianças na rua, para que as escolas fossem não só suficientes como eficazes, para que toda a população tivesse assistência médica e iguais condições de planejamento familiar. ‘Aqueles, enfim, que, falhando todas as medidas preventivas, garantissem ao cidadão de bem o máximo de segurança, e ao malfeitor um mínimo de punição."

Parabéns, Cora! Eu queria deixar registrado aqui o meu apoio. É fundamental não perdermos a capacidade de ficar revoltados com esses governos safados, incompetentes e que ainda nos ROUBAM quase a metade do que ganhamos. Uma verdadeira CORJA, como você disse.

quarta-feira, julho 30, 2008

Barrando o Progresso



Rodrigo Constantino

“Em uma sociedade em avanço, qualquer restrição à liberdade reduz o número de coisas experimentadas e, portanto, reduz a taxa de progresso.” (H. B. Phillips)

Uma reportagem do jornal Valor de hoje (30/07/08) mostra de forma bem clara os entraves burocráticos que impedem o avanço tecnológico no Brasil. Moradores de Miami, nos Estados Unidos, poderão comprar água mineral produzida a partir do mar, com aplicação da nanotecnologia. A marca da nova garrafa, H2Ocean, nasceu da experiência de dois cientistas brasileiros, que há dez anos começaram a desenvolver a tecnologia de controle de minerais em água dessalinizada. Foram investidos dois milhões de dólares de quatro sócios privados, e o objetivo inicial era vender o produto no Brasil. Eles não contavam com nossa burocracia.

A empresa alega ter procurado a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2006 para realizar o pedido de registro do engarrafamento do produto. A resposta, segundo a empresa, teria sido a de que não há legislação específica para que esse tipo de água seja vendido no país por conta de sua fonte: o mar. A Anvisa foi procurada pelo jornal, e negou que tenha ocorrido um pedido de registro pela empresa. Mas a empresa mostrou cópia da página da Anvisa na internet onde consta o número do processo do registro e do protocolo. O primeiro pedido foi negado, e um segundo pedido foi feito. Depois de quatro meses, a Anvisa teria avisado que a empresa deveria “importar” uma legislação sobre o assunto. Tantas dificuldades levaram a empresa a mudar de estratégia e deixar o mercado brasileiro de lado. A opção foi priorizar o mercado americano, e o gerente da empresa, Rolando Viviani, explicou que “o registro da empresa saiu em três horas e a água foi analisada em 15 dias”. Em outras palavras, a empresa conseguiu resolver em três meses nos Estados Unidos aquilo que não foi capaz de resolver em quatro anos no Brasil.

A venda da H2Ocean começa mês que vem nos Estados Unidos, em três estados. O produto foi feito inicialmente na fábrica de Bertioga, em São Paulo, mas a unidade poderá ser desativada em breve, e a produção deve ser transferida para os Estados Unidos. Os brasileiros perdem a oportunidade de consumir o novo produto, a fábrica que gera empregos e a renda obtida com a venda do produto. Tudo por causa do excesso de burocracia, da lentidão do governo, da quantidade de regras e da incompetência da Anvisa. Fosse esse um caso isolado, tudo bem, pode acontecer. Mas o lamentável fato é que o governo brasileiro, absurdamente inchado e burocrático, representa o maior obstáculo ao progresso. Inovar por aqui é tarefa hercúlea! Falta de mão-de-obra qualificada, impostos elevados demais, burocracia asfixiante, ausência de garantia da propriedade privada, gargalos na infra-estrutura, violência e tantos outros problemas conhecidos tornam a vida dos empresários muito mais complicada. Mesmo quando cientistas brasileiros conseguem inovar, levantando capital para investir, o governo dá um jeito de mandá-los para os Estados Unidos, onde o ambiente de negócios é infinitamente mais amigável. Progredir assim fica difícil.

A esquerda, cuja mentalidade é responsável por esses entraves todos ao progresso capitalista, adotou como uma das bandeiras do eco-terrorismo o suposto risco da escassez de água potável no futuro. A paranóia é tão grande que crianças são doutrinadas para tomar banho fechando o chuveiro, para não “desperdiçar” água. De fato, se depender do governo e dos esquerdistas, todos os bens preciosos poderão se tornar rapidamente escassos, como vimos nos países socialistas. Agora, se deixarem o mercado em paz, as soluções logo aparecem. O planeta Terra é composto basicamente por água. Como podem achar que vai faltar água potável? Estão vendo muito Mad Max, talvez. Eis que cientistas brasileiros deram um jeito de fabricar, de forma economicamente viável, água mineral através do mar, mas a Anvisa impediu que o produto chegasse ao Brasil. Como diz a reportagem do jornal: “Para saber se o resultado é bom, o brasileiro vai ter de esperar. Ou passar em alguma ‘deli’ na próxima viagem à Disney”. Um triste retrato de nossa realidade, onde o governo vive barrando o progresso.

terça-feira, julho 29, 2008

Moralismo Udenista?



Rodrigo Constantino

"Não temos nenhuma evidência de que a corrupção fosse menor no passado; era menos visível." (Maria Hermínia Tavares de Almeida)

“A espetacularização de casos de corrupção só ganha espaço quando os discursos políticos estão esvaziados. Com uma agenda política cada vez mais próxima à do governo, a oposição enfrenta dificuldades em criticar quem está no poder e, por isso, prefere ataques morais à discussão sobre propostas. Assim, o debate de idéias recua para dar espaço ao noticiário policial. A análise é da cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular da USP”. Assim começa a matéria do jornal Valor sobre o 6º encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), entidade presidida pela cientista política Maria Hermínia.

Para a professora da USP, "se [as políticas do governo] são muito parecidas com o que a oposição fez quando estava no governo, o espaço para crítica é menor”. Não dá para negar que ela tem um ponto: as políticas do PSDB, PMDB e PT são mesmo convergentes em vários aspectos. Afinal, nenhum deles ousa romper o marasmo esquerdista que deposita no governo o poder de locomotiva econômica. Nem o governo FHC nem o governo Lula fizeram as necessárias reformas estruturais, preferindo fugir das questões trabalhista, previdenciária e tributária. Mas é inegável que ocorreram avanços maiores na era FHC, em termos institucionais. O governo Lula se limitou a manter o básico, principalmente em termos macroeconômicos, sem estragar as poucas conquistas anteriores. O resto foi uma dádiva de fora, uma sorte incrível que permitiu que o Brasil pudesse surfar uma onda benigna com o melhor contexto internacional das últimas décadas para os países emergentes. Portanto, há sim muito o que se criticar em termos de políticas do governo na gestão Lula.

Está errado então o resumo que ela faz ao afirmar que "é mais fácil criticar o governo pelo lado da moralidade do que pela política". É igualmente fácil criticar o governo por ambos os lados. Só que um não deve excluir o outro, de forma alguma. E a impressão que fica ao se ler a reportagem do jornal é que a professora da USP tenta justamente reduzir a importância da crítica moral, como se ela fosse resultado apenas da convergência da agenda dos partidos. Ela tenta ainda passar a imagem de que nada de diferente em termos morais foi praticado por este governo. Para ela, a maior exposição na mídia é que estaria por trás dessa noção de que o aspecto moral piorou na gestão petista. "Questões relacionadas à corrupção sempre existiram, mas agora acabam aparecendo mais", ela diz. Como assim? Quer dizer que o recorde de escândalos ininterruptos durante o governo Lula é fruto apenas da maior visibilidade do governo? Não tem nada a ver com uma maior produção de escândalos, justamente porque “nunca antes na história desse país” tivemos tanta corrupção? Será que a professora usou esse mesmo discurso no caso Collor? É muita cara-de-pau tentar simplificar as coisas dessa forma, para inocentar o PT. Mas não deixa de ser hilário ver essa turma “defendendo” o partido da “ética” com a afirmação de que ele é “apenas” tão corrupto quanto os outros, inclusive o PMDB.

A professora usa como exemplo para o argumento de que o tema corrupção sempre esteve presente a bandeira usada pela UDN entre 1946 e 1964, quando fazia oposição à coalizão varguista. Em primeiro lugar, devemos questionar a conclusão dela, de que o foco nessa questão moral seria conseqüência do esvaziamento do debate dos programas políticos. Ora, se ela mesmo afirma que o tema não é novo e sempre foi usado, por que antes ela afirmara que esse foco é fruto da convergência das agendas? Será que só quando o PT é vítima das críticas sobre moral é que essas críticas são inválidas, resultado da falta de assunto político? A UDN e os varguistas tinham uma agenda comum, por acaso? Em segundo lugar, será que a professora estaria insinuando que o moralismo é coisa de udenista apenas? Não temos todos uma obrigação moral de questionar a honestidade dos candidatos e do governo, de apontar os esquemas corruptos? Só porque sempre convivemos com a corrupção, devemos ignorar esse aspecto então?

Para Maria Hermínia, esses problemas, especialmente ligados ao financiamento de campanha, existem em todo lugar do mundo. A tentativa de limitar o estrago moral realizado pelo PT no governo ao aspecto de financiamento de campanha é lamentável. O “mensalão” foi bem mais que isso! O PT tentou concentrar todo o poder em suas mãos, pois o DNA autoritário está presente no partido. Os infindáveis escândalos têm ligação com a tentativa do PT de tomar toda a máquina estatal e expandir os seus tentáculos sobre as liberdades individuais. A professora questiona como podemos minimizar esses problemas de corrupção: "Mas com que regras é possível reduzir essa relação complicada entre interesses privados e agentes públicos?" Ora, será que não passa por sua cabeça que devemos reduzir justamente a quantidade de recursos que passa pelo poder político? Será que não está claro que devemos reduzir a concentração do poder no governo, já que é obviamente natural a organização de grupos de interesse quando o destino da economia depende do carimbo poderoso do governo? Essa solução evidente não é mencionada hora alguma pela cientista política. Parece que os “filhos” da USP encontram uma dificuldade enorme em navegar pelos caminhos da lógica quando isso representa redução do poder estatal.

A frase da epígrafe representa a postura atual dos defensores do PT: a tentativa de jogar tudo no mesmo saco podre e culpar o “sistema” em vez do partido. É verdade que a corrupção sempre existiu. E também é verdade que o modelo político tem boa dose de culpa, justamente porque concentra poder demais no governo. Mas é inegável que a gestão Lula levou a questão da corrupção a patamares assustadores, e nunca antes vistos. Justificar isso apenas com o argumento de maior exposição na imprensa é apelar de forma patética, é agredir o bom senso das pessoas que ainda não perderam o juízo. O PT banalizou a imoralidade e a corrupção. E se atacar a imoralidade dessa turma no poder é coisa de “moralista”, então fico feliz de ser considerado um desses. Quem perdeu a capacidade de se indignar com os escândalos de corrupção do governo, perdeu a noção de certo e errado. E esse é o primeiro passo para o caos total, para a barbárie.

segunda-feira, julho 28, 2008

Mentalidade Mercantilista - Vídeo

Vídeo caseiro onde explico as falácias mercantilistas, mostrando que essa visão de que comércio é um jogo de soma zero está totalmente errada. Importar não é ruim! E livre comércio não é um exército de burocratas de cada lado negociando contratos com mil cláusulas. Vamos tirar o governo da economia e deixar o comércio realmente livre!



http://youtube.com/watch?v=Crs1FBaOv7I

sexta-feira, julho 25, 2008

Mentalidade Mercantilista



Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Durante o reinado de Luís XIV, as finanças francesas ficaram sob o comando de Jean-Baptiste Colbert, um dos grandes defensores da doutrina mercantilista. Colbert acreditava que a chave para o sucesso era o superávit da balança comercial, com mais exportações que importações. Suas políticas incluíram o direcionamento de capital para empresas exportadoras, assim como medidas de substituição de importações, como tarifas protecionistas. O mercantilismo encara o comércio como um jogo de soma zero, onde para um ganhar o outro deve perder. É a lógica de guerra aplicada à economia. Adam Smith refutou a doutrina mercantilista em 1776, com seu livro clássico sobre a riqueza das nações. Infelizmente, vemos nas negociações em Doha que a mentalidade mercantilista ainda é predominante, prejudicando os consumidores do mundo todo.

Sempre tive dificuldade para entender porque chamam de “acordo de livre comércio” a negociação entre exércitos de burocratas e políticos de cada lado, assinando contratos com milhares de cláusulas. Não seria infinitamente mais simples retirar o governo da jogada e deixar o comércio realmente livre? A presença do governo nessas negociações politiza algo que deve ser apenas econômico. Acaba estimulando a organização de grupos de interesse, produtores que conseguem pressionar o governo para proteger seus mercados à custa dos consumidores. Se o governo de outro país cria barreiras para o comércio, prejudica seus consumidores e nossos produtores. Não há muito o que podemos fazer quanto a isto. Mas se o nosso próprio governo resolve “retaliar”, criando barreiras também, acaba prejudicando todos os consumidores brasileiros. A lógica parece ser a seguinte: se o outro resolve dar um tiro no próprio pé, então vamos dar um tiro no nosso próprio pé também!

Aqueles que acham saudável “proteger nossas indústrias” porque outros protegem sua agricultura, estão ignorando toda a lógica econômica. Exportamos para poder pagar pelas importações. Se, no limite, não tivéssemos mais capacidade de exportar nada, não poderíamos importar também. São dois lados da mesma moeda. Quem condena os subsídios agrícolas americanos e europeus, entende que protecionismo é ruim. Não faz sentido achar que protecionismo é ruim para os outros mas não para nós. Todos são consumidores, e o protecionismo beneficia apenas alguns produtores. Está na hora de proteger os consumidores.

Montaigne escreveu em seus Ensaios: "Os príncipes muito me dão quando nada me tiram, e fazem-me bem quando não me fazem mal; é tudo o que deles espero". Seria ótimo se o governo deixasse o comércio em paz, em vez de tentar “proteger” os brasileiros. Com as críticas de que as negociações em Doha não servirão para nada, um diplomata brasileiro teria questionado: “Então a gente está aqui para quê?” Boa pergunta. Aconselho o turismo. Os consumidores brasileiros agradecem. Já passou da hora de aposentar esta mentalidade mercantilista, que delega ao governo os cuidados do comércio.

quinta-feira, julho 24, 2008

O aumento dos juros

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

O Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou em 0,75 ponto percentual a taxa básica Selic, que chegou a 13% ao ano. O fantasma da volta da inflação tem assustado muita gente, e com razão. Representantes do setor produtivo condenam o aumento dos juros, mas erram o alvo: estão atacando o termômetro que marca a febre, em vez das causas da doença. A inflação é uma política de governo, que detém o monopólio da moeda. Na história econômica, os governos quase sempre abusaram deste enorme poder, emitindo moeda sem controle e derrubando seu valor. A inflação é o imposto mais perverso que existe, pois toma o dinheiro do povo muitas vezes sem seu conhecimento. O governo, para gastar, precisa aumentar impostos, emitir dívida, ou apelar para a inflação. O último método é o mais indireto, e por isso tão utilizado.

Por ignorância econômica, os consumidores acabam voltando sua revolta contra os empresários que aumentam preços, em vez de focar no verdadeiro culpado, o governo. O aumento dos juros é o resultado natural de uma política de inflação, lembrando que o juro é um preço de mercado, dependente da oferta e demanda. Mas novamente, a raiva é toda direcionada contra o órgão que reconhece esse aumento nos juros de mercado, como se a taxa de juros fosse um preço totalmente arbitrário, que pudesse ser definido pelo governo sem graves conseqüências econômicas. Dessa forma, poucos atacam as verdadeiras causas da inflação e a conseqüente elevação dos juros. O governo incha cada vez mais a máquina estatal, os gastos públicos batem recorde atrás de recorde, e a carga tributária já se encontra em patamar absurdo. Atacar o dragão da inflação somente com a política monetária, ignorando a política fiscal frouxa, é como usar uma bazuca para matar um mosquito. Não tem como evitar um grande estrago.

PS: O presidente americano George W. Bush disse, sem saber que era filmado, que Wall Street "ficou bêbado e agora está de ressaca", se referindo aos excessos cometidos no mercado financeiro americano. O presidente está certo. Ele apenas ignorou que foi justamente o governo, através do FED, que ofereceu bebida grátis para todos, através de um excesso de liquidez gerado por uma política monetária frouxa, que jogou a taxa de juros para 1% ao ano na era Greenspan. A ressaca será maior por conta disso, e caso o FED resolva garantir mais liquidez para evitar os ajustes necessários, o perigo é o resultado final ser uma cirrose!

quarta-feira, julho 23, 2008

A Busca de Sentido



Rodrigo Constantino

“Entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha.” (Viktor Frankl)

O doutor Viktor Frankl teve sua família inteira – à exceção de sua irmã – morta nos campos de concentração nazistas. Tamanho sofrimento não o impediu de escolher um caminho que desse sentido para sua vida, inclusive para todo esse sofrimento. A liberdade essencial que os seres humanos possuem é justamente a de escolher a atitude diante das circunstâncias encontradas na vida, por mais negativas que estas possam ser. No famoso livro Man`s Search for Meaning, Frankl faz um relato de sua experiência nos campos de concentração, assim como apresenta os principais pontos da logoterapia, sua criação psicoterapêutica cuja essência é justamente a busca do sentido existencial de cada indivíduo. A seguir, pretendo pular os detalhes dos horrores infligidos aos prisioneiros de Auschwitz, para tentar resumir a essência do pensamento de Frankl, cuja mensagem pode ser muito útil num mundo repleto de niilismo.

Diante das circunstâncias mais absurdas possíveis, Frankl compreendeu que a intensificação da vida interior ajudava o prisioneiro a fugir do vazio, da desolação e da pobreza espiritual de sua existência naquele inferno, onde sobreviver muitas vezes parecia uma péssima opção. Aqueles que se deixavam consumir pela apatia e pela sensação de que o mundo não faz sentido, após ser vítima de tanta injustiça e crueldade, costumavam durar menos. A postura diante daquelas terríveis circunstâncias fazia toda a diferença do mundo, tanto nas chances de sobrevivência como na forma de morrer – com ou sem dignidade. O que Frankl compreendeu foi que, mesmo rumo à morte provável, ele poderia ao menos dar algum sentido àquilo tudo. Sendo ele médico, ajudar os companheiros seria um propósito bem melhor do que simplesmente vegetar ou abandonar quaisquer esperanças de sair dali.

Claro que não é fácil tomar tal decisão, e o próprio Frankl lembra que, para julgar os demais, é preciso sinceramente tentar se colocar em seus lugares e perguntar se acha que faria diferente. Nessas circunstâncias mais extremas é que o verdadeiro caráter dos homens é testado. Seus valores mais básicos são colocados em dúvida, sob a influência de um mundo que não mais reconhece a vida humana e sua dignidade como valores. Mas se o homem não luta contra isso num último esforço de salvar seu respeito próprio, ele perde o sentimento de ser um indivíduo, um ser com uma mente, uma liberdade interior e um valor pessoal. Frankl afirma que “é muito difícil para alguém de fora compreender quão pouco valor era colocado na vida humana no campo”. Podemos apenas imaginar, já que aquelas pessoas eram tratadas como porcos. Neste ambiente, manter a individualidade deve ser uma tarefa hercúlea mesmo. No entanto, o fato é que alguns conseguiram, e isso faz toda a diferença.

As experiências nos campos de concentração mostraram que o homem é capaz de escolher mesmo nas situações mais aberrantes. Frankl conclui que o homem “pode preservar um vestígio de liberdade espiritual, de independência da mente, mesmo em tais circunstâncias terríveis de estresse psíquico e mental”. Tudo pode ser retirado do homem, menos uma coisa: sua liberdade de escolher a atitude em qualquer circunstância. Fundamentalmente, qualquer homem pode decidir o que será de si em termos mentais e espirituais. Ele pode manter sua dignidade mesmo no campo de concentração. E é justamente essa liberdade espiritual, segundo Frankl, que transforma a vida em algo com sentido, com um propósito. Ninguém pode tirar isso do indivíduo. O prisioneiro tinha diante de si uma oportunidade e um desafio. Era possível transformar aquele sofrimento numa vitória de sua força interior, utilizar aquelas experiências todas para seu crescimento pessoal, ou então ignorar o desafio e vegetar até morrer. Encontrar sentido no sofrimento foi a grande descoberta de Frankl. Viver significa sofrer também. E se a vida tem um sentido, então o sofrimento também deve ter. Frankl escolheu usar seu próprio sofrimento para se tornar uma pessoa melhor, para crescer por dentro. Transformar uma tragédia num triunfo pessoal pode ser um caminho para o sentido da vida.

A frase de Nietzsche, “aquele que tem um porque viver pode agüentar quase qualquer como viver”, é repetida com freqüência no livro de Frankl. Ao encontrar uma razão para viver, o homem parece disposto a encarar quase qualquer forma de vida. Esse motivo pode ser o amor por alguém, uma obra a ser realizada, ou qualquer meta que faça o indivíduo desejar continuar vivo, assumir a responsabilidade por sua existência e dar sentido a ela. Quem tem consciência do porque de sua existência, pode suportar quase qualquer coisa. Para Frankl, existem duas “raças” diferentes de pessoas: aquela de pessoas decentes e aquela de pessoas indecentes. Existem os dois tipos nos diferentes grupos da sociedade. A postura diante da vida, e também do sofrimento que dela faz parte, separa o joio do trigo.

De acordo com a logoterapia desenvolvida por Frankl, a busca pelo sentido da vida é a principal força motivacional dos indivíduos. O desejo de encontrar o sentido da vida contrasta com o desejo pelo puro prazer ou o desejo pelo poder. Alguns autores acreditam que esse sentido e os valores não passam de “mecanismos de defesa” do homem. Mas como o próprio Frankl coloca, ele não estaria disposto a viver apenas por conta dos seus “mecanismos de defesa”. Os homens são capazes de viver e mesmo morrer por causa de seus ideais e valores! Frankl considera o imperativo categórico da logoterapia a máxima “viva como se você estivesse vivendo já pela segunda vez e como se você tivesse agido da primeira vez tão errado como você está para agir agora”. Essa idéia desperta o senso de responsabilidade individual, convidando a pessoa a encarar o presente como um passado e, depois, compreender que esse “passado” ainda pode ser alterado. Quantas atitudes erradas nós podemos deixar de praticar através deste exercício simples!

O que incomodava Frankl na época em que o livro foi escrito, em 1946, ainda é relevante atualmente: o vácuo existencial que se tornara uma doença coletiva. No fundo, uma forma de niilismo, onde nada na vida parece ter qualquer sentido. Esse “fatalismo neurótico” é fortalecido por todas as crenças que negam a liberdade do homem. Claro que a vida é finita, e a liberdade é restringida por vários fatores externos. Não temos liberdade das condições, mas temos liberdade de reagir diante das condições. O homem não existe apenas, ele decide o que será de sua existência. Todo mundo tem a liberdade para mudar a qualquer instante. É uma questão de escolha, mesmo que graus distintos de dificuldade se apresentem por conta do ambiente. Um câncer terminal pode não ser mudado, mas podemos mudar como vamos enfrentá-lo. Os homens não são como máquinas. Aquilo que ele se torna, ele fez de si próprio!

A frustração existencial leva a todo tipo de fuga. Cabe a cada um decidir enfrentar os obstáculos e encontrar o sentido de sua própria vida. O mundo não é uma piada sem sentido, como os niilistas dizem. A forma como escolhemos agir faz toda a diferença no que somos. Freud acreditava que todos agiriam de forma uniforme diante da fome, com uma expressão igual de desespero por comida. Freud foi felizmente poupado do terror dos campos de concentração. Viktor Frankl não. E sua experiência pessoal mostra justamente o oposto: as diferenças individuais não desapareceram diante da fome extrema, criando uma reação uniforme; ao contrário, as pessoas se tornaram mais diferentes, suas máscaras caíram, “tanto dos suínos como dos santos”. Aqueles que conseguem reagir de forma digna mesmo diante de calamidades terríveis serão sempre minorias. Mas devemos lutar justamente para fazer parte desta minoria. Devemos dar o melhor de nós mesmos para viver com sentido, e não apenas sobreviver como máquinas vazias.

segunda-feira, julho 21, 2008

O Cisne Negro



Rodrigo Constantino

“Não importa quantos cisnes brancos você veja ao longo da vida; isso nunca lhe dará certeza de que cisnes negros não existem.” (Karl Popper)

Antes da descoberta da Austrália, as pessoas do Velho Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos, e tal crença era altamente corroborada pela evidência empírica. No entanto, bastou verificar a existência de um cisne negro para derrubar essa crença. Isso ilustra os graves limites de nosso aprendizado por observações. O livro The Black Swan, de Nassim Taleb, trata justamente desse interessante tema, e é possível notar a forte influência de Popper e de Hayek em sua análise. O livro é uma forma de apelo por maior humildade epistemológica, infelizmente algo em falta na maioria dos homens, que necessitam do conforto de previsões e, portanto, costumam ignorar os limites do nosso conhecimento. É um livro sobre a incerteza, sobre os raros eventos que mudam o rumo das coisas sem aviso prévio e sem que os modelos estatísticos possam antecipá-los.

A idéia central de Taleb está relacionada à cegueira em relação ao fator randômico das diferentes áreas da vida. Cada um pode observar sua própria história de vida para verificar quanto os fatos ocorridos divergiram dos planos traçados anteriormente. A escolha da profissão, o encontro com a futura mulher, as mudanças repentinas do rumo da vida, quanto cada uma dessas coisas havia sido corretamente prevista? A lógica do “cisne negro” torna aquilo que não sabemos algo muito mais relevante do que aquilo que sabemos. Os “pontos fora da curva” ocorrem com muito mais freqüência do que antecipamos, e nossa incapacidade de prevê-los é nossa incapacidade de prever o curso da história. Basta verificar os erros grosseiros das previsões passadas para se ter mais humildade em relação às previsões do futuro. É preciso deixar um espaço enorme para os eventos imprevisíveis. A maioria das descobertas tecnológicas, por exemplo, não foi planejada, mas sim fruto de “cisnes negros”. O mecanismo de tentativa e erro é crucial para garantir esse avanço. Taleb chega a afirmar que o livre mercado funciona porque permite que as pessoas tenham sorte.

Taleb define aquilo que chama de “tripé da opacidade”, algo que a mente humana sofreria ao entrar em contato com a história. Seriam eles: a ilusão de compreensão, com todos achando que sabem o que se passa num mundo que é bem mais complexo do que percebem; a distorção retrospectiva, que transforma a história mais clara após os fatos, organizando-os de forma bem mais simplista do que a realidade; a sobrevalorização da informação factual, particularmente quando “autoridades” criam categorias, quando idealizam os fatos de maneira platônica. Tentamos explicar os fatos do passado de forma bem mais simplista do que ocorreram, e tudo parece mais razoável e previsível depois disso. Em retrospecto, chegamos a questionar como outros foram capazes de ignorar o que estava para acontecer. A categorização dos fatos acaba produzindo uma redução de sua verdadeira complexidade. Taleb conclui que nossas mentes são brilhantes máquinas para explicar os fenômenos ocorridos, mas geralmente incapazes de aceitar a idéia da imprevisibilidade acerca do futuro.

O mundo seria dividido, segundo Taleb, entre Mediocristan e Extremistan, os conceitos que ele criou para explicar realidades diferentes. No primeiro caso, a distribuição normal da famosa curva de Gauss explica razoavelmente os eventos. No segundo caso, os eventos são escaláveis, e os resultados não se encaixam no padrão estatístico dominante. O peso dos indivíduos, por exemplo, faz parte do primeiro mundo. Já a renda deles está na segunda categoria. A profissão de garçom gera determinado salário médio, com certo desvio padrão. Mas a profissão de escritor produz resultados bem diferentes, com desigualdades monstruosas e disparidades muito distantes daquelas calculadas pela curva normal. As recompensas de uns poucos escritores que chegam ao sucesso são infinitamente maiores do que as da média, e muitos simplesmente não vendem quase nada. O mesmo vale para atores, onde poucos atingem a fama e a fortuna, enquanto muitos fracassam e ficam no total anonimato. Para Taleb, a sorte exerce um importante papel nesses resultados, mas a mente humana costuma atribuir tudo às habilidades e esforços apenas. O mundo é cada vez mais Extremistan, com as novas tecnologias e a globalização. No entanto, a maioria ainda usa as velhas ferramentas estatísticas do Mediocristan para analisar os fatos.

A observação de fatos passados para a inferência do futuro carrega enormes problemas. Um exemplo muito bom citado por Taleb é a alimentação de um peru desde o seu nascimento até o Dia de Ação de Graças. Supondo que ele recebeu certa quantia de comida a cada dia, por mil dias, o gráfico de seu peso ou tamanho no tempo será praticamente uma reta, com pouca variância. De fato, a confiança em relação ao futuro, com base nos dados passados, aumenta a cada dia, ainda que ele esteja cada vez mais próximo da morte. Algo funcionou por vários dias de forma bastante regular, até que, de repente, ele deixa de funcionar de forma inesperada. Esse tipo de erro – o uso ingênuo de observações passadas como representativo do futuro – é a causa de nossa incapacidade de compreensão do “cisne negro”. O capitão do Titanic afirmou, em 1907, que jamais estivera envolvido em qualquer acidente, com toda a sua experiência. Até que algo deu errado em 1912, e o navio afundou. Quanto realmente os dados passados podem ser utilizados para prever o futuro?

Nassim Taleb vem do mercado financeiro, e essa é uma área excelente para ensinar sobre imprevisibilidade. Em 1982, os grandes bancos americanos perderam praticamente todo o ganho acumulado anteriormente. Tudo que fora gerado antes, na história desses bancos, perdido em um único ano. Eles haviam emprestado grandes somas para países da América Central e do Sul, e esses países deram o calote na mesma época. Um “evento excepcionalmente raro”, conforme as estatísticas. No entanto, ocorreu. O crash de 1987 nas bolsas é outro exemplo, ou então a bancarrota do Long Term Capital em 1998, criado por economistas com prêmio Nobel, “gênios” que encaravam as finanças como algo pertencente ao mundo “normal”. Seus complexos modelos estatísticos não foram capazes de prever os fatos, que teriam probabilidade infinitesimal, mas aconteceram. A arrogância desses “cientistas” era enorme. Faltaram justamente mais humildade e ceticismo. Faltou entender que “cisnes negros” existem.

O viés de confirmação é um dos grandes inimigos na compreensão do “cisne negro”. A mente humana busca confirmar teorias através da observação dos fatos. Muitas pessoas confundem, por exemplo, a afirmação verdadeira de que “quase todos os terroristas são muçulmanos” com aquela falsa que diz que “todos os muçulmanos são terroristas”. Na verdade, uma minúscula parcela dos muçulmanos é terrorista, mas a confusão produz uma estimativa absurda de que cada muçulmano em particular pode ser um terrorista. As pessoas vão, então, observar os ataques terroristas, quase todos praticados por muçulmanos, e vão concluir que os muçulmanos são terroristas. As pessoas tendem a procurar fatos que corroboram com suas teorias prévias, e tratam esses fatos como evidências. A grande contribuição de Popper foi justamente inverter o ônus da prova, tentando refutar as teorias em vez de confirmá-las. A diferença é que milhões de cisnes brancos observados não provam que todos os cisnes são brancos, enquanto basta um único cisne negro para negar isso. Podemos nos aproximar da verdade através da negação de teorias, mas não pela sua verificação. É arriscado demais construir uma teoria geral com base nos fatos observados.

Um exemplo bobo do cotidiano pode ilustrar melhor o ponto. Todos conhecem a máxima “sorte de principiante”, a crença disseminada de que os jogadores costumam ter mais sorte no começo. No fundo, isso não passa de uma ilusão. Aqueles que começam a jogar serão sortudos ou azarentos. No entanto, aqueles com sorte tendem a insistir no jogo, acreditando que vencer é seu destino. Os outros, desanimados com as perdas iniciais, tendem a abandonar o jogo. Eles somem das estatísticas. Aqueles que continuam no jogo lembrarão a sorte inicial. Isso explica a tal “sorte de principiante”, nada mais. Chamamos isso de viés de sobrevivência, e o mesmo pode ser observado na análise de investidores bem-sucedidos. O cemitério está repleto de evidências silenciosas. No entanto, costumamos olhar apenas para os sobreviventes e inferir teorias que explicam seu sucesso, ignorando a quantidade enorme de pessoas com as mesmas habilidades que fracassaram no caminho. Essa noção está por trás também do insight de Bastiat, quando lembrou que existe aquilo que se vê, e aquilo que não se vê. Várias medidas do governo, por exemplo, são celebradas porque as pessoas focam apenas nos resultados imediatamente observáveis, esquecendo os mortos no caminho, aquilo que não se vê.

O mundo é bem mais complexo do que pensamos ou modelamos. Taleb expressa seu espanto no fato de que continuamos acreditando que somos bons em prever fatos usando ferramentas que excluem os raros eventos, mesmo diante de um histórico terrível de previsões passadas. Aprendemos com a história que não aprendemos muito com a história. Somos arrogantes em relação àquilo que achamos que sabemos, e ignoramos que aquilo que não se sabe pode ser fatal. Costumamos sobrevalorizar o que sabemos e subestimar a incerteza. Deveríamos ser bem mais céticos com os “profetas”, analisando sua taxa passada de erros. Isso serve para quase todos os campos, e há séculos que os “profetas” conquistam multidões dispostas a focar somente nos acertos, ignorando os erros. Nostradamus ficou famoso dessa forma, assim como atualmente temos a “mãe” Diná e outros “profetas”. Mesmo os economistas insistem na mania de fazer previsões como se fossem capazes de antecipar os complexos eventos futuros. Ambientalistas usam modelos estatísticos para inferir como será o clima um século na frente. Governos apelam para “especialistas” para desenhar planos econômicos com base em estimativas de décadas à frente. A necessidade humana de controlar ou antecipar o futuro garante o emprego de todos esses “profetas”. Poucos são os céticos que se dão ao trabalho de olhar para trás e verificar a quantidade de previsões erradas de todo tipo de especialista.

As inovações tecnológicas que mudaram o mundo nos últimos séculos foram, em grande parte, não planejadas. Além disso, quando uma nova tecnologia surge, costumamos subestimar ou sobrevalorizar sua importância de forma grosseira. Thomas Watson, o fundador da IBM, chegou a prever que não haveria necessidade para mais do que uns poucos computadores no mundo. Quando o Esperanto foi criado, muitos acharam que o mundo inteiro estaria se comunicando na mesma língua artificialmente desenhada. Diferente do que previram, não estamos passando nossos finais de semana em estações espaciais desde 2000. Quando o homem chegou à Lua, a Pan Am chegou a reservar viagens para lá. Ignorou apenas que estaria falida pouco depois. O Viagra deveria ser uma droga para a hipertensão. Das cem maiores empresas atuais, poucas estarão na lista em 50 anos.

Em suma, são infindáveis exemplos de mudanças relevantes sem previsão alguma, ou de previsões de mudanças incríveis que não se realizaram. O homem tem dificuldade de aceitar esse processo evolutivo como fruto de mudanças randômicas. Ele necessita da sensação de controle, da imagem de um designer inteligente por trás das mudanças, antecipando o futuro. No entanto, a criação de inúmeros produtos foi simplesmente algo não-intencional. Se hoje poucos acreditam na infalibilidade papal, muitos acreditam na infalibilidade dos diferentes “profetas”, especialmente se associados a alguma forma de autoridade, como um prêmio Nobel. O livro de Nassim Taleb é um ótimo antídoto contra essa doença, resgatando a humildade epistemológica presente em alguns pensadores da Antiga Grécia.

O conhecimento humano tem evoluído bastante, e isso é maravilhoso. Mas se o resultado desse maior conhecimento for a arrogância em relação ao futuro incerto, então seremos vítimas indefesas dos “cisnes negros” negativos, e também evitaremos muitos “cisnes negros” positivos. O conhecimento humano pode nos mostrar justamente os limites desse conhecimento, de nossa capacidade de prever o futuro. Como disse Hayek, “a razão humana não pode prever ou deliberadamente moldar seu próprio futuro; seus avanços consistem em descobrir onde esteve errada”. Basta encontrar apenas um cisne negro para derrubar uma crença milenar de que existem somente cisnes brancos!

quarta-feira, julho 16, 2008

Os Pilares do Nazismo



Rodrigo Constantino

“Deve ser sempre enfatizado que o nacionalismo econômico é um corolário do estatismo, seja o intervencionismo ou o socialismo.” (Mises)

Muitos historiadores tentaram explicar o surgimento do nazismo de diferentes formas. O enfoque do economista Mises, no entanto, é bastante peculiar, pois mostra como o nazismo foi um filhote da mentalidade estatizante que dominou o mundo na época, e a Alemanha em particular. O prisma econômico de Mises permite uma abordagem transparente, que desfaz uma das maiores inversões já criadas na história: a idéia de que o nazismo é de “direita” e, portanto, oposto ao socialismo e mais próximo do capitalismo. Socialismo, afinal, trata de um sistema econômico de organização da sociedade, defendendo meios públicos de produção, contra o pilar do capitalismo, que é a propriedade privada. Analisando por este ângulo, fica evidente a proximidade entre nazismo e socialismo, ambos totalmente opostos ao capitalismo de livre mercado.

Quando se fala em nazismo, o anti-semitismo é uma das primeiras características que vem à mente. Mises mostra, no entanto, que esse ódio racial foi apenas um pretexto utilizado pelos nazistas, transformando os judeus em bodes expiatórios. Era impossível diferenciar antropologicamente alemães judeus dos não-judeus. Não existem características raciais exclusivamente judaicas, e o “arianismo” não passava de uma ilusão. As leis nazistas de discriminação contra os judeus não tinham ligação com considerações da raça em si. Eles se uniram aos italianos e japoneses, sem ligação alguma com a “supremacia racial nórdica”, enquanto desprezavam os nórdicos que não simpatizavam com seus planos de domínio mundial. Tantas contradições não incomodavam os “arianos”, pois o racismo não era a causa do movimento, e sim um meio político para seus fins.

Tudo aquilo que representava um empecilho no caminho do poder total era considerado “judeu” pelos nazistas. Apesar de os nacionalistas alemães considerarem o bolchevismo uma criação judaica, isso não os impediu de cooperar com os comunistas alemães contra a República de Weimar, ou de treinar seus guardas de elite nos campos de artilharia e aviação russos entre 1923 e 1933. Também não os impediu de costurar um acordo de cumplicidade política e militar com a União Soviética entre 1939 e 1941. Mesmo assim, a opinião pública defende que o nazismo e o bolchevismo são filosofias implacavelmente opostas. O simples fato de que os dois grupos lutaram um contra o outro não prova que suas filosofias e princípios sejam diferentes. Sempre existiram guerras entre pessoas do mesmo credo ou filosofia. Se a meta for a mesma – o poder – então será natural uma colisão entre ambos. O rei Charles V disse uma vez que estava em pleno acordo com seu primo, o rei da França, pois ambos lutavam contra o outro pelo mesmo objetivo: Milão. Hitler e Stalin miravam no mesmo alvo. Ambos desejavam governar a Polônia, a Ucrânia e os estados bálticos. Além disso, disputavam o mesmo tipo de mentalidade, aqueles desesperados que estão dispostos a sacrificar a liberdade em prol de alguma promessa de segurança. Nada mais normal do que um bater de frente com o outro, quando sustentar o acordo mútuo ficou complicado demais. Não devemos esquecer que os socialistas de diferentes credos sempre lutaram uns contra os outros, e isso não os torna menos socialistas. Stalin não virou menos socialista porque brigou com Trotsky.

Os bolcheviques partiram na frente em termos de conquista de poder, e o sucesso militar de Lênin encorajou tanto Mussolini como Hitler. O fascismo italiano e o nazismo alemão adotaram os métodos políticos da União Soviética. Eles importaram da Rússia o sistema de partido único, a posição privilegiada da polícia secreta, a organização de partidos aliados no exterior para lutar contra seus governos locais e praticar sabotagem e espionagem, a execução e prisão os adversários políticos, os campos de concentração, a punição aos familiares de exilados e os métodos de propaganda. Como Mises disse, a questão não é em quais aspectos ambos os sistemas são parecidos, mas sim em quais eles diferem. O nazismo não rejeita o marxismo porque sua meta é o socialismo, e sim porque ele advoga o internacionalismo. Ambos são anticapitalistas e antiliberais, delegando todo o poder ao governo centralizado e planejador. No nazismo, a propriedade privada não foi abolida de jure, mas foi de facto, e os empresários eram nada mais do que “gerentes administrativos”, obedecendo a ordens do governo, que decidia sobre tudo, incluindo alocação de capital e preços exercidos.

Os judeus foram vítimas dos nazistas basicamente por representarem uma minoria que pode ser legalmente definida em termos precisos, o que era tentador numa era de intervencionismo estatal. Os nazistas souberam explorar isso usando os judeus como bodes expiatórios para os males criados pelo sistema econômico inadequado. Existiam aqueles que tentavam justificar o anti-semitismo denunciando os judeus como capitalistas, e existiam outros que culpavam os judeus pelo comunismo. As acusações contraditórias cancelam uma a outra. Com a derrota na primeira Guerra Mundial, o nacionalismo alemão conseguiu sobreviver arrumando um culpado para o fracasso. Os nacionalistas insistiram que eram invencíveis, mas alegaram terem sido sabotados pelos judeus. Se estes fossem eliminados, a vitória seria certa. O uso dessa minoria como bode expiatório serviu para a concentração de poder doméstico, assim como para o apoio de muitos no exterior, pois onde quer que houvesse alguém interessado em se livrar de um competidor judeu, lá poderia estar um apoio ao nazismo. De fato, não foi pequeno o apoio inicial que os nazistas receberam de fora. A humanidade pagou um elevado preço pelo anti-semitismo. Na União Soviética, os pequenos proprietários, os kulaks, exerceram esse papel de minoria culpada pelos males econômicos. Na essência, a tática é a mesma.

Os comunistas alemães abriram o caminho para o nazismo, ajudando a enterrar de vez o liberalismo no país. Os comunistas estavam ansiosos para tomar o poder através da violência. No começo de 1919, eles partiram para batalhas nas ruas de Berlim e conseguiram o controle de boa parte da capital. No final de 1918, a grande maioria da nação estava preparada para defender um governo democrático, segundo Mises. Mas esse choque criado pelos comunistas e marxistas, que se declararam a favor da ditadura do proletariado rejeitando a democracia, gerou enorme descrença no povo. Os alemães ficaram desiludidos com a democracia, sentindo-se enganados, como se o apelo pela democracia fosse apenas um meio de conquistar os tolos. Democracia passou a ser sinônimo de fraude. Os nacionalistas foram rápidos em aproveitar essa mudança de mentalidade. Os métodos marxistas foram usados pelos nacionalistas, que haviam lido Lênin e Bukharin. Um plano para a tomada do poder tinha sido traçado. Em 1919, a escolha política alemã era entre o totalitarismo bolchevique, sob a ditadura de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, ou o parlamentarismo. No entanto, os comunistas, apesar de minoria, não estavam dispostos a aceitar a decisão democrática, e o único meio de detê-los era o uso da força. A intervenção militar dos nacionalistas foi vista como única saída por muitos alemães. Os nazistas chegaram ao poder graças à ameaça comunista. Ambos disputavam os mesmos adeptos, já que o liberalismo não era mais uma alternativa após tanta idolatria ao estado.*

É verdade que Hitler conseguiu subsídios das grandes empresas na primeira fase de sua carreira política. Mas ele tomou esse dinheiro como um rei toma o tributo de seus súditos. Se os empresários negassem o que era demandado, Hitler teria os sabotado ou mesmo usado violência. Os empresários preferiram ser reduzidos ao papel de gerentes administrativos sob o nazismo a ser liquidados pelo comunismo no estilo soviético. Não havia uma terceira opção naquele contexto. Tanto a força como o dinheiro eram impotentes contra as idéias, e estas apontavam na direção da estatização da economia. O próprio Hitler concluiu que não era necessário socializar os meios de produção oficialmente. Ele havia socializado os homens! Os empresários alemães contribuíram com parte do avanço nazista, assim como várias outras camadas da nação, incluindo as igrejas, tanto a católica como a protestante. O lamentável fato é que a maioria do povo alemão abraçou o nacional-socialismo.

O cenário catastrófico da economia foi crucial para criar um terreno fértil ao nazismo. Mas o fato de existir uma doença não explica, por si só, a busca por um determinado remédio. Esse remédio é procurado porque o doente acredita que ele pode curá-lo. Logo, o caos econômico na Alemanha só levou ao nazismo porque muitos passaram a acreditar que este era o caminho da salvação. E isso foi uma conseqüência das idéias estatizantes, mercantilistas, que espalharam a falácia de que mais espaço físico e recursos naturais deveriam ser conquistados pelos alemães para garantir o suprimento doméstico e a retomada do crescimento. A inflação que devastou a economia não era vista como resultado das políticas do governo, mas sim como um problema do capitalismo internacional. A mentalidade de guerra, que encara o comércio entre nações como um jogo de perde e ganha, foi fundamental para o crescimento nazista. Poucos compreendiam as vantagens do livre comércio, da divisão internacional de trabalho. Para os males causados pelo intervencionismo estatal, mais estado foi proposto como solução. A ignorância econômica da grande maioria dos alemães foi o que permitiu o avanço do nacionalismo-socialista radical.

Os aspectos fundamentais da ideologia nazista não diferem daqueles geralmente aceitos pelas demais ideologias estatizantes. O controle da economia deve ser estatal. O lucro é visto com enorme desdém. O planejamento centralizado é uma panacéia para os males econômicos. As importações são encaradas como uma invasão estrangeira negativa. O individualismo deve ser duramente combatido em prol do coletivismo. Eis o arcabouço ideológico que possibilitou a conquista do poder pelos nazistas, que derrubaram os concorrentes estatizantes porque estavam dispostos a defender até as últimas conseqüências esta mentalidade. Os pilares do nazismo foram erguidos sobre a mentalidade estatizante da época. A idolatria ao estado e a desconfiança em relação ao livre comércio sustentaram os dogmas nazistas. Mises afirma que somente através da destruição total do nazismo o mundo poderá retomar suas conquistas e melhorar a organização social, construindo uma boa sociedade. Infelizmente, os pilares de sua ideologia permanecem conquistando muitos adeptos, ainda que sob diferentes rótulos. São estes pilares que devem ser atacados para a garantia do progresso da civilização.

* O colega de Mises, o prêmio Nobel Hayek, também analisou o nazismo por um prisma semelhante, e concluiu que a relativa facilidade com que um jovem comunista podia se converter em nazista ou vice-versa era notória na Alemanha. Aqueles estudantes que detestavam a civilização liberal do Ocidente não sabiam ao certo o que escolher entre nazismo e comunismo, mas tinham em comum o ódio ao modelo liberal. Hayek explica a situação em O Caminho da Servidão: “É verdade que na Alemanha, antes de 1933, e na Itália, antes de 1922, comunistas e nazistas ou fascistas entravam mais freqüentemente em conflito entre si do que com os outros partidos. Disputavam o apoio de pessoas da mesma mentalidade e voltavam uns aos outros o ódio que se tem aos hereges. No entanto, seu modo de agir demonstrava quão semelhantes são, de fato. Para ambos, o verdadeiro inimigo, o homem com o qual nada tinham em comum e ao qual não poderiam esperar convencer, era o liberal da velha escola. Enquanto o nazista para o comunista, o comunista para o nazista, e para ambos o socialista, são recrutas em potencial, terreno propício à sua pregação – embora se tenham deixado levar por falsos profetas – eles sabem que é impossível qualquer tipo de entendimento com os que realmente acreditam na liberdade individual”. Mesmo o professor Eduard Heimann, um dos líderes do socialismo religioso alemão, escreveu que o liberalismo tem a honra de ser a doutrina mais odiada por Hitler. E pelos socialistas também.

terça-feira, julho 15, 2008

Queda dos Acidentes: Efeito da Lei Seca?



Rodrigo Constantino

“As estatísticas são como o biquíni: o que revelam é interessante mas o que ocultam é essencial.” (Roberto Campos)

A grande mídia, em especial a Globo, resolveu comprar a tese de que a nova “Lei Seca” resultou em uma queda drástica dos acidentes de trânsito. Em tudo que é jornal se lê que o número de acidentes caiu algo como 20% ou mais depois dos novos limites de bebida impostos pelo governo. Poucos leitores são críticos o suficiente para questionar estes dados. A confusão entre correlação e causalidade costuma enganar muita gente despreparada e leiga em estatística. Quando duas variáveis caminham juntas, não necessariamente uma é causadora do movimento da outra. Para se estabelecer o nexo causal, é preciso o uso da lógica dedutiva. Caso contrário, podemos acabar concluindo que o aumento de médicos é causa do aumento de doenças, já que onde há mais doentes costuma haver mais médicos também. Um imperador chegou a eliminar os médicos em seu país para acabar com as doenças!

Voltando ao caso da queda na taxa de acidentes após a aprovação da nova lei radical, que proíbe praticamente qualquer consumo de álcool pelo motorista, devemos questionar se a causa dessa redução nos acidentes se deve mesmo ao critério mais rigoroso da lei, ou a outros fatores. Um pouco de reflexão logo irá mostrar que faz muito mais sentido creditar o aumento da fiscalização, tanto pela polícia como pela mídia, em vez do novo patamar de álcool permitido. Simplesmente está ocorrendo uma fiscalização bem maior, principalmente porque a mídia está em cima. Afinal, a maioria dos acidentes causados por motoristas embriagados já estava na ilegalidade antes, com a lei anterior. O patamar antigo permitido já era baixo, e o grosso dos acidentes não é causado por motoristas que consomem um copo de cerveja ou uma taça de vinho, e sim por aqueles que estão realmente bêbados, sem condição alguma de conduzir o veículo. Sem falar que muita gente sóbria causa acidentes também, e nem todo imprudente está alcoolizado.

Será que devemos tolher a liberdade da grande maioria de indivíduos responsáveis por conta de uma pequena minoria de irresponsáveis? Não faz mais sentido punir aqueles que de fato colocam os demais em risco, dirigindo de forma claramente ameaçadora? Se este é o objetivo, a lei anterior era totalmente suficiente, e basta fiscalizar melhor. Comemorar a redução dos acidentes como se a causa fosse o maior rigor do limite de álcool é confundir correlação com causalidade.

Dito isso, resta fazer outros dois comentários. Em primeiro lugar, a conseqüência evidente da multa de quase mil reais para quem bebeu qualquer quantidade de álcool foi aumentar a corrupção na polícia, como previsto. Vários casos têm sido relatados de policiais cobrando até R$ 500 para liberar motoristas cujo único “crime” foi ter consumido uma taça de vinho no jantar com a mulher ou um chopp com os amigos. Era inevitável esse resultado, pois se concentrou poder demais nas mãos do agente da lei, e nada como a criação de dificuldades absurdas para a venda de facilidades ilegais. Os taxistas também celebraram a nova lei, e o movimento dos bares e restaurantes, como era de se esperar, caiu bastante. A Associação dos Bares e Restaurantes chegou a entrar na Justiça contra a nova lei. O impacto econômico da lei começa a ser sentido automaticamente, e isso não deve ser ignorado.

Em segundo lugar, é preciso lembrar que os fins não devem justificar quaisquer meios. Se a meta é apenas a redução dos acidentes, independente dos meios utilizados, há mais o que pode ser feito, muito mais radical ainda. Por exemplo: se todos forem impedidos de sair de carro à noite, a quantidade de acidentes irá desabar, sem dúvida. Mas qual terá sido o preço pago, em termos de liberdade individual? No limite, se os carros forem proibidos, acabam os acidentes com carros! Logo, antes de comemorar a redução dos acidentes, seria mais sábio entender as diferenças entre correlação e causalidade, e também refletir mais sobre a perda das liberdades individuais em nome dos resultados utilitaristas. Entendendo melhor essas estatísticas, fica claro que depois que passar essa fase de maior fiscalização, é provável que tudo volte a ser como era antes, à exceção do preço mais elevado da “cervejinha” dos policiais corruptos e da redução da liberdade dos indivíduos responsáveis. Não é proibindo o sofá que se combate o adultério!

domingo, julho 13, 2008

A Lição do Presidente Lula



Rodrigo Constantino

“Nada revela tanto o caráter de uma pessoa quanto as coisas que a fazem rir.” (Goethe)

Enquanto a Polícia Federal sob o governo Lula realizava operações midiáticas no Brasil, levantando a suspeita de uma politização da entidade, o presidente Lula estava no Vietnã, enaltecendo o regime comunista, onde o Estado Policial arbitrário sempre foi total e aniquilador. O encontro do presidente com o general Vo Nguyen Giap foi repleto de saudosismo ideológico, e o presidente brasileiro quebrou o protocolo para pedir uma foto do general comunista com uma fã, a ministra Dilma Rousseff. Lula teria enfatizado que Dilma tem uma “verdadeira adoração” pelo general. Quem estudou um pouco de história, isenta das mentiras e inversões marxistas, não pode evitar um calafrio pelo tipo de gente adorada pelos poderosos desse governo petista.

O general lutou contra a França pela “libertação” do Vietnã, e depois contra o “império” americano, contando com a ajuda chinesa. Com a publicação das memórias do dirigente vietnamita Hoang Van Hoan, foi conhecido o fato de que cerca de 30 mil soldados vindos de Pequim asseguraram, entre 1965 e 1970, a substituição das tropas norte-vietnamitas que tinham ido combater no sul. O general Vo Nguyen Giap, vencedor de Dien Bien Phu, reconheceu indiretamente, em 1964, a contribuição chinesa: “A partir de 1950, depois da vitória chinesa, o nosso exército e o nosso povo tiveram oportunidade de aprender lições preciosas com o Exército de Libertação do Povo Chinês. Nós pudemos nos educar graças ao pensamento militar de Mao Tse Tung. Esse foi o fator importante que determinou a maturidade do nosso exército e contribuiu para as nossas sucessivas vitórias”. A “educação” do ídolo de Dilma foi com ninguém menos do que o maior genocida da história da humanidade, responsável pela morte de cerca de 60 milhões de pessoas!

O Partido Comunista Vietnamita (na época chamado Partido do Trabalho) inscreveu nos seus estatutos, em 1951: “O Partido do Trabalho reconhece a teoria de Marx, Engels, Lênin e Stalin, e o pensamento de Mao Tse Tung, adaptado à realidade da Revolução Vietnamita, como o fundamento teórico do seu próprio pensamento e como a bússola que lhe indica a direção em todas as suas atividades”. Essa direção foi a mesma de todos os regimes comunistas: da destruição, miséria, escravidão, terror e genocídio. A ministra Dilma tinha essa mesma bússola quando usava o nome Estella e organizava assaltos. Ainda bem que ela não saiu vitoriosa naqueles tristes anos 60... Em vez de “anos de chumbo”, o país teria “rios de sangue”, como disse Roberto Campos.

O presidente Lula disse ainda que aprendeu com o Vietnã a gostar dos “fracos”, utilizando o velho romantismo de Davi contra Golias para espetar os Estados Unidos. Não obstante a gafe do presidente, já que atualmente os americanos são importantes parceiros comerciais do Vietnã, ele ignora que esses “fracos” lutavam pelo regime mais assassino e cruel da história, e que onde esses “fracos” venceram, reinaram o terror e a miséria. No Camboja, sem a intervenção americana, o Khmer Vermelho de Pol-Pot e outros marxistas tiveram a oportunidade de exterminar quase 30% de toda a população! Muitos focam apenas nas mortes com a Guerra do Vietnã, condenando os Estados Unidos, mas esquecem desse extermínio geral onde os americanos não se fizeram presentes nessa época. Mesmo no Vietnã, depois que os americanos se retiraram, morreu bem mais gente sob o regime comunista que Lula parece admirar. Na Coréia, os Estados Unidos conseguiram evitar uma unificação completa pelos comunistas. O resultado foi a Coréia do Sul, entre os países desenvolvidos e prósperos atualmente, enquanto a herança comunista é a Coréia do Norte, resquício da barbárie resultante da ideologia marxista.

O fato tão ignorado pelas esquerdas é que, nos tempos da Guerra Fria, o lado comunista tentava conquistar o mundo e impor seu regime de terror, enquanto os americanos lutavam para preservar a liberdade. Onde os comunistas invadiram e não houve reação com ajuda americana, prevaleceu a escravidão total. Mesmo os países que atacaram os Estados Unidos permaneceram livres, como Japão e Alemanha. No fundo, muito mais livres que antes, e mais prósperos depois também. Já a parte da Alemanha que ficou com os comunistas viveu sob uma cruel ditadura por décadas, até o Muro de Berlim ser derrubado em 1989, novamente com a ajuda e pressão dos americanos. É inegável para qualquer um que tem um pingo de honestidade, que os comunistas lutaram para transformar o mundo num verdadeiro inferno, enquanto os americanos, não obstante seus erros graves que merecem críticas, lutavam para preservar a liberdade. Sabemos para qual lado Dilma e os demais aliados de Lula torciam ou mesmo lutavam com armas: o lado podre. Pelo visto, mesmo depois de décadas que expuseram essa podridão toda, jogando o comunismo no lixo da história ao lado de seu primo nazismo, essa gente ainda defende o lado podre e sente admiração pelos ídolos comunistas, ícones desse terror espalhado pelo planeta.

Não satisfeito, o presidente Lula pediu uma foto com o general para mandar para “um amigo nosso que está doente, que é o Fidel Castro”. O presidente deveria escolher melhor suas amizades. Fidel é o mais antigo ditador do continente, e manteve uma cruel ditadura por meio século em Cuba, passando o poder para seu irmão depois, como se aquilo fosse um feudo familiar. A ilha-presídio virou um dos lugares mais miseráveis do mundo, e as liberdades mais básicas foram retiradas dos pobres cubanos. Milhares de inocentes foram fuzilados no paredón, sem falar de todos que morreram tentando fugir daquele inferno. Que tipo de gente pode ter em Fidel Castro um bom amigo? Alguém pode ser amigo de Hitler, ter admiração por Hitler, e ainda assim ser uma pessoa decente? Não há diferença essencial entre os casos, ao menos não para aqueles que não sofreram lavagem cerebral comunista.

Quem tiver mais interesse em conhecer detalhes do regime comunista e do caso específico do Vietnã, eu sugiro a leitura de O Livro Negro do Comunismo, escrito por ex-comunistas que conseguiram abrir os olhos e enxergar a verdade. São 12 páginas só do rastro de terror deixado pelos vietnamitas marxistas, e 900 páginas no total. Mas faço um importante alerta antes: tomem um Engov para ler o livro, pois os relatos de fatos descobertos e documentados embrulham o estômago de qualquer um minimamente humano. Esse estrago cruel feito pelos comunistas não parece incomodar aqueles que ainda hoje nutrem admiração pelo regime e por seus antigos líderes.

Diante do busto de Ho Chi Minh, o presidente Lula disse ainda: “O que vocês fizeram aqui foi muito mais que vencer uma guerra, foi uma lição de vida”. E que lição de vida! Ou seria mais adequado dizer... de morte?

sexta-feira, julho 11, 2008

As Algemas e os Ricos



Rodrigo Constantino

“Não roube! O governo detesta competição.” (Autor desconhecido)

O Ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que “se fizerem uma lei que determine que pobres sejam presos com algemas e ricos não”, a polícia seguirá esta regra. Os comentários do ministro deixaram ainda mais evidente que a prisão do banqueiro Daniel Dantas, filmada pela maior rede de televisão do país, que chegou junto com a Polícia Federal para presenciar o ato, tinha como um dos objetivos passar a imagem de que este governo também prende ricos empresários. O governo do PT tenta explorar um ranço marxista infelizmente ainda dominante no povo, que inveja os mais ricos e os enxerga como exploradores dos pobres.

Está sendo ignorado o verdadeiro propósito do uso de algemas durante prisões, que depende basicamente da periculosidade do alvo, do risco que este representa para a segurança iminente das pessoas. Ricos já são presos com o uso de algemas, quando necessário. Ou o ministro esquece que Fernandinho Beira-Mar é podre de rico? O parceiro das FARC, grupo terrorista que o ministro tem afinidades ideológicas, é um traficante milionário. E foi preso com o uso de algemas. Mas nesse caso fazia todo sentido lógico, pela ameaça que o bandido representa. Em contrapartida, não é todo pobre que deve ser preso com algemas. O uso das algemas, para resumir, não deve ter ligação alguma com a conta bancária do alvo, e sim com o risco que este representa para os cidadãos e policiais.

Quando um empresário acusado de corrupção possui residência fixa, um negócio de bilhões estabelecido no país e com endereço certo, e ainda responde a vários processos em andamento, não há necessidade de colocar algemas nele durante a prisão. Basta convidá-lo a acompanhar os policiais até a delegacia, que ele com certeza o fará, sem o risco de sacar uma arma e alvejar os policiais numa tentativa de fuga. Logo, fica claro que o uso das algemas, devidamente fotografadas pela mídia que fora avisada da operação com antecedência, tinha o intuito apenas de mexer com as emoções dos invejosos, que desejam ver empresários ricos na cadeia, independente da culpa ou não. O julgamento já foi feito antes, pela ideologia marxista.

Resta perguntar ao ministro Tarso Genro se todos os petistas envolvidos em escândalos infindáveis, seus companheiros de partido, serão presos também, em primeiro lugar, e se a mídia estará lá na hora, para filmar todos saindo com algemas nos punhos. Por onde andam Waldomiro Diniz, Delúbio Soares, José Dirceu, Marcos Valério, Duda Mendonça, José Genuíno, o assessor de seu irmão (o homem da cueca com dólares) e tantos outros “camaradas” envolvidos em vários crimes, inclusive formação de quadrilha? Nessa lista, temos inclusive um réu confesso de um dos crimes pelos quais Daniel Dantas foi parar na cadeia. Mas talvez por ser o “marqueteiro” do presidente Lula, ele não tenha sido preso com algemas filmadas pela televisão, ou nem sequer preso! Aliás, há algum petista preso? Algum envolvido no “mensalão” foi parar no xilindró?

Em vez de vibrar com a prisão espetacular de empresários ricos, o povo deveria pressionar pela prisão dos criminosos de forma geral, ricos ou pobres, e principalmente dos grandes corruptos do meio político. Estes estão todos soltos, rindo da cara dos otários pagadores de impostos. O uso de dois pesos e duas medidas acende um alerta grave de uso político da polícia, e qualquer um que preza pela liberdade deve condenar isso. Não custa lembrar que a polícia e o governo fizeram de tudo para ocultar da mídia a foto com a montanha de dinheiro apreendida com os “aloprados” petistas, para a compra de dossiê contra os tucanos. Já a foto do dinheiro usado como propina a mando de Daniel Dantas foi logo parar nas primeiras páginas dos jornais. É no próprio governo que estão os maiores criminosos do país, e todos desfrutam de privilégios e gozam de total impunidade.

Marx falava de uma luta de classes entre capital e trabalho. A verdadeira luta de classes atual ocorre entre pagadores e consumidores de impostos. É espantoso ver que o foco do povo se volta todo contra os empresários corruptores, ignorando que a principal causa de corrupção está no excessivo poder do governo na economia. Enquanto um carimbo do governo decidir o rumo de um setor inteiro, enquanto uma assinatura do presidente selar o destino das empresas, claro que os empresários vão criar grupos de interesse para comprar, através de “lobistas”, os políticos poderosos. Basta lembrar do setor de telecomunicações, onde a assinatura do presidente Lula alterou a lei e permitiu a compra da Brasil Telecom pela Telemar, depois que o filho de Lula vendeu seu “negócio” para a empresa e ficou milionário da noite para o dia. Devemos ter em mente que, para sobreviver até, muitos empresários precisam pagar por fora fiscais corruptos. Se todos seguissem todas as leis excessivas e absurdas desse manicômio legal chamado Brasil, o país já estava quebrado faz tempo!

Todos que já deram algum suborno para policiais que tentavam achacar com base em alguma lei estúpida, como esta nova que impede o motorista de tomar uma única taça de vinho, sabem do que estou falando. Todos que já trouxeram alguns produtos do exterior sem declarar, porque o governo resolve impedir a livre importação cobrando impostos extorsivos, sabem do que estou falando. Todos que já trabalharam ou contrataram trabalhadores sem assinar carteira, pois os encargos são proibitivos, sabem do que estou falando. Todos que já compraram algo em um camelô ou de um sacoleiro, sabem do que estou falando. Todos que já mandaram dinheiro para o exterior para fugir de confiscos criminosos feitos pelo próprio governo, sabem do que estou falando. Enfim, os exemplos são infindáveis, pois quando as leis são absurdas, a única solução muitas vezes é cair na “informalidade”, eufemismo para ilegalidade. Devemos boa parte de nossa riqueza a este ar rarefeito que somos muitas vezes forçados a respirar pela burocracia asfixiante.

O “pai fundador” dos Estados Unidos, autor da famosa Declaração de Independência, Thomas Jefferson, chegou a afirmar: “Se uma lei é injusta, um homem está não apenas certo em desobedecê-la, ele é obrigado a fazê-lo”. Claro que o império da lei deveria ser o foco de todo liberal. Mas não qualquer lei, e sim as leis básicas, isonômicas, que buscam justamente preservar as liberdades individuais. Os “crimes” citados acima não possuem vítimas. São indivíduos fugindo do crime legal praticado pelo próprio governo. Isso é ilegal, mas muitas vezes legítimo. Ou alguém acha que um guarda nazista estaria agindo de forma correta e legítima ao obedecer as leis que mandavam exterminar judeus?

Vamos lutar pelo fim da impunidade no país, mas também pela drástica redução de leis e do poder arbitrário do governo, o maior criminoso de todos. A legalidade não torna o roubo estatal legítimo. E o uso político da polícia representa uma das maiores ameaças à liberdade. A declaração de um Ministro da Justiça instigando o ódio entre ricos e pobres, com o uso simbólico e desnecessário das algemas, acende uma luz amarela. Eu ficaria um pouco mais tranqüilo se essas mesmas algemas tivessem sido usadas em todos os petistas acusados de vários crimes ou pegos em flagrante, e filmadas pela mídia. Como nada disso chegou perto de ocorrer, mesmo com confissões e provas concretas, tenho calafrios quando a reação do povo é aplaudir o uso de algemas na prisão de “ricos”, porque são ricos!

quinta-feira, julho 10, 2008

Vaca Flatulenta



A histeria do "aquecimento global" é tão grande que os cientistas estão estudando agora o impacto da flatulência das vacas na emissão de gases na atmosfera. Parece piada. E deveria ser...

quarta-feira, julho 09, 2008

Estado Policial



Rodrigo Constantino

"De novo, é um quadro de 'espetacularização' das prisões; isso é evidente e dificilmente compatível com o Estado de Direito." (Gilmar Mendes, presidente do STF)

Em mais uma mega-operação midiática, a Polícia Federal prendeu o banqueiro Daniel Dantas, o ex-prefeito Celso Pitta e o especulador Naji Nahas, entre outros. No trio mais famoso, não há santo, e não pretendo defendê-los com esse artigo. No entanto, é preciso defender o Estado de Direito, a liberdade individual, e para isso se faz necessário criticar a atuação policial. Muitos aplaudem a “eficiência” da Polícia Federal sob o governo Lula. Não posso compartilhar desses aplausos. Afinal, onde estão os quarenta quadrilheiros do “mensalão” liderado pelo PT? Por que José Dirceu e Luiz Eduardo Greenhalgh não foram presos nem filmados com algemas também? Por que não vemos a mesma postura da polícia quando se trata dos petistas envolvidos em infindáveis esquemas criminosos? Lembram que a polícia nem mesmo queria mostrar a montanha de dinheiro apreendida com petistas “aloprados” para a compra do dossiê contra o PSDB paulista? O uso de dois pesos e duas medidas é contrário ao conceito de império da lei. O uso político da polícia é um dos maiores riscos para a liberdade.

Os acusados que foram presos, não obstante os indícios de culpa em várias das acusações, não representam ameaça imediata à segurança dos cidadãos, possuem residência fixa e têm direito de responder em processo judicial. Por que o uso de algemas na operação, que contou com participação da mídia logo no começo da manhã, já devidamente escalada? O Ministro da Justiça, Tarso Genro, mencionou algo sobre a função de “educação” dessa forma de atuar da polícia. Que educação exatamente? Aquela que ensina sobre a máxima de que os amigos do rei recebem tudo, e seus inimigos enfrentam a lei? Por que foi negada a prisão dos petistas também acusados pelo Ministério Público no mesmo esquema? A Polícia Federal vai merecer aplausos somente no dia em que atuar de forma claramente isonômica e transparente, sem levantar suspeitas de que sofre a influência política do governo e sem parecer mais preocupada com o show na mídia do que com os resultados concretos de seus atos.

Muitas pessoas podem parabenizar a operação “Satiagraha” por comemorar que ricos também são presos. Não deveria ser um bom motivo para aplausos. Ricos ou pobres, não importa, deveriam obedecer as mesmas leis. Há muita impunidade no país, inclusive para pobres. O foco deve ser a redução da impunidade, ponto. Mas isso levanta outro problema também: o excesso de leis absurdas em nosso código penal. O governo transforma quase todo mundo em “criminoso”, pela quantidade e qualidade assustadoras das nossas leis. Qualquer empresário, grande ou pequeno, sabe das enormes dificuldades de atender todas as demandas legais nesse manicômio tributário chamado Brasil. São tantas dificuldades criadas pelas leis, que várias facilidades acabam sendo vendidas ilegalmente pelas autoridades depois. Devemos lembrar que todos aqueles que trabalham sem carteira assinada, por exemplo, estão fugindo da legalidade. Isso representa quase a metade da nossa mão-de-obra! A sonegação muda apenas de magnitude com o crescimento das empresas, mas o ato é o mesmo em sua essência, assim como a prostituta que cobra R$ 30 pelo sexo não é menos prostituta que aquela que cobra R$ 500. Está mais do que na hora de questionar se boa parte do problema não está no próprio governo e suas leis absurdas.

Digo isso não para defender esses acusados em particular, pois como já comentei, não há santo ali. O nome de Daniel Dantas já apareceu em vários escândalos antigos, e onde há tanta fumaça costuma haver fogo também. Celso Pitta é outro que apresenta vários indícios de culpa também. Meu ponto é outro. Minha preocupação é de mais longo prazo. Uma tática bastante manjada de governos autoritários sempre foi colocar todos os cidadãos como reféns do governo, de alguma forma na ilegalidade, para depois obter controle total sobre suas vidas. Os empresários sempre foram um alvo preferido, e o apoio de um público dominado pelo ranço marxista, que enxerga exploração na troca voluntária entre capital e trabalho, aumenta drasticamente os riscos de abuso do governo.

O caso russo é bom para ilustrar os perigos da mistura entre polícia e governo. Todos os oligarcas e demais empresários carregavam alguma mancha no currículo, até porque a herança socialista fez com que os bem relacionados conseguissem aproveitar uma onda de privatizações feitas às pressas, para evitar o retorno comunista. No entanto, Putin resolveu destruir apenas alguns oligarcas: aqueles que não aceitaram se curvar diante de seu poder político, colocar a mídia como veículo de propaganda estatal ou permanecer fora das disputas eleitorais. Foi assim que Gusinsky e Berezovosky tiveram que fugir para não acabarem presos, destino que Khodorkovsky não conseguiu evitar. Putin passou a controlar a mídia toda e concentrou muito poder nas mãos, transformando a Rússia praticamente numa ditadura velada. Poucos ousam desafiar o governo publicamente agora. Sabem muito bem qual o resultado disso.

Vale aqui citar um trecho do poema Despertar é Preciso, do russo Vladimir Maiakóvski:

“Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma Flor do nosso jardim e não dizemos nada.
Na segunda noite, Já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”


E para não deixar dúvidas quanto à mensagem, segue o poema First They Came..., atribuído ao pastor luterano Martin Niemöller:

“Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas, mas, como eu não era comunista, eu me calei. Depois, vieram buscar os judeus, mas, como eu não era judeu, eu não protestei. Então, vieram buscar os sindicalistas, mas, como eu não era sindicalista, eu me calei. Então, eles vieram buscar os católicos e, como eu era protestante, eu me calei. Então, quando vieram me buscar... Já não restava ninguém para protestar.”

Vamos protestar contra as suspeitas de uso político da Polícia Federal enquanto é tempo. Não para defender esses que foram presos na mais recente operação espetacular, pois eles provavelmente merecem ser punidos, o que caberá à Justiça decidir. Mas sim para preservar o Estado de Direito, a garantia de todo cidadão contra o próprio governo arbitrário, o império das leis isonômicas, enfim.

segunda-feira, julho 07, 2008

A Falácia do Polilogismo



Rodrigo Constantino

“A humanidade precisa, antes de tudo, se libertar da submissão a slogans absurdos e voltar a confiar na sensatez da razão.” (Mises)

Em 1944, o economista Ludwig von Mises escreveu Omnipotent Government, onde explica o crescimento da idolatria ao Estado que levou ao nazismo na Alemanha, fomentando um ambiente de guerras ininterruptas. Em uma parte do livro, Mises explica uma das coisas que os nazistas pegaram emprestado do marxismo: o polilogismo. Até a metade do século XIX, ninguém contestava o fato de que a estrutura lógica da mente é comum a todos os seres humanos. “Todas as inter-relações humanas são baseadas na premissa de uma estrutura lógica uniforme”, diz Mises. Podemos nos comunicar justamente porque apelamos a algo comum a todos, a estrutura lógica da razão.

Claro que alguns homens podem pensar de forma mais profunda e refinada que outros, assim como algumas pessoas não conseguem compreender um processo de inferência em longas cadeias de pensamento dedutivo. Mas isso não nega a estrutura lógica uniforme. Mises cita como exemplo alguém que pode contar apenas até três, lembrando que mesmo assim sua contagem, até seu limite, não difere daquela feita por Gauss ou Laplace. É justamente porque todos consideram este fato inquestionável que os homens entram em discussões, trocam idéias ou escrevem livros. Seria simplesmente impossível uma cooperação intelectual entre os indivíduos sem isso. Os homens tentam provar ou refutar argumentos porque compreendem que as pessoas utilizam a mesma estrutura lógica. Qualquer povo existente reconhece a diferença entre afirmação e negação, pode entender que A não pode ser, ao mesmo tempo, o contrário de A.

No entanto, apesar desse fato ser bastante evidente, ele foi contestado por Marx e pelos marxistas, entre eles o “filósofo proletário” Dietzgen. Para eles, o pensamento é determinado pela classe social da pessoa, e o pensamento não produz verdades, mas ideologias. Para os marxistas, os pensamentos não passam de um disfarce para os interesses egoístas da classe social a qual esse pensador pertence. Nesse contexto, seria inútil discutir qualquer coisa com pessoas de outra classe social. O que se segue disso é que as “ideologias não precisam ser refutadas por meio do raciocínio discursivo; elas devem ser desmascaradas através da denúncia da posição da classe, a origem social de seus autores”. Se uma teoria científica é revelada por um burguês, o marxista não precisa atacar seus méritos. Basta ele denunciar a origem burguesa do cientista.

O motivo pelo qual os marxistas buscaram refúgio no polilogismo pode ser encontrado na incapacidade de refutação por métodos lógicos das teorias econômicas “burguesas”. Quando o próprio Mises demonstrou que o socialismo seria impraticável pela impossibilidade de cálculo econômico racional, os marxistas não apontaram qualquer erro em sua análise lógica. Preferiram apelar para o estratagema do polilogismo, fugindo do debate com a desculpa de que sua teoria era uma defesa dos interesses de classe. O sucesso dessa tática marxista foi incrível, sem precedentes. Foi usado como “prova” contra qualquer crítica racional feita ao marxismo e sua pseudo-economia. Isso permitiu um crescimento assustador do estatismo moderno.

Conforme Mises lembra, “o polilogismo é tão intrinsecamente sem sentido que ele não pode ser levado consistentemente à suas últimas conseqüências lógicas”. Nenhum marxista foi corajoso o suficiente para tentar fazer isso. Afinal, o princípio do polilogismo levaria à inferência de que os ensinamentos marxistas não são objetivamente verdadeiros, mas apenas afirmações “ideológicas”. Os marxistas negam essa conclusão lógica de sua própria postura epistemológica. Para eles, sua doutrina é a verdade absoluta. São completamente inconsistentes. O próprio Marx não era da classe dos proletários. Mas para os marxistas, alguns intelectuais conseguem se colocar acima desse paradoxo. Os marxistas, claro. Não é possível refutar isso, pois se alguém discorda, apenas prova que não faz parte dessa elite especial, capaz de superar os interesses de classe e enxergar além.

Os nacionalistas alemães tiveram que enfrentar o mesmo tipo de problema dos marxistas. Eles não eram capazes de demonstrar suas declarações ou refutar as teorias econômicas contrárias. “Logo”, explica Mises, “eles buscaram abrigo sob o telhado do polilogismo, preparado para eles pelos marxistas”. Algumas mudanças foram necessárias para a adaptação, mas a essência é a mesma. Basta trocar classe por nação ou raça, e pronto. Cada nação ou raça possui uma estrutura lógica própria e, portanto, sua própria economia, matemática ou física. Pela ótica marxista, pensadores como Ricardo, Freud, Bergson e Einstein estavam errados porque eram burgueses; pela ótica nazista, eles estavam errados porque eram judeus. O coletivismo, seja de classe ou raça, anula o indivíduo e sua lógica universal.

Tanto o polilogismo marxista como o nacional-socialista se limitaram à afirmação de que a estrutura lógica da mente é diferente para as várias classes ou raças. Nenhum deles tentou elaborar melhor isso, tampouco demonstrar como exatamente ocorria tal diferença. Nunca entraram nos detalhes, preferindo, ao contrário, concentrar o foco na conclusão. No fundo, o polilogismo tem todas as características de um dogma. Se há divergência de opinião dentro da própria classe ou raça, ele adota um mecanismo peculiar para resolver a questão: os oponentes são simplesmente tratados como traidores. Para os marxistas e nazistas, existem apenas dois grupos de adversários: aqueles errados porque não pertencem à mesma classe ou raça, e aqueles oponentes da mesma classe ou raça que são traidores. Com isso, eles ignoram o incômodo fato de que há dissensão entre os membros da sua própria classe ou raça.

Deixo os comentários finais com o próprio Mises: “O polilogismo não é uma filosofia ou uma teoria epistemológica. Ele é uma atitude de fanáticos limitados, que não conseguem imaginar que alguém pode ser mais razoável ou inteligente que eles mesmos. O polilogismo também não é científico. Ele é a substituição da razão e da ciência por superstições. Ele é a mentalidade característica de uma era do caos”.

sexta-feira, julho 04, 2008

Nascido em 4 de Julho



Rodrigo Constantino

“Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. (Declaração da Independência Americana, 4 de Julho de 1776)

Hoje é o aniversário daquilo que foi um dos marcos mais importantes do mundo, a Declaração da Independência Americana. Ali estaria selada, em poucas palavras, a função básica do governo, afirmando categoricamente a soberania do povo sobre o Estado. Cada indivíduo seria livre na busca pela sua própria felicidade. As regras seriam iguais, não os resultados.

Infelizmente, o homem tem memória curta, e esquece-se das aulas básicas de seus grandes pensadores. A visão de curto prazo, aliada à mentalidade de se dar bem explorando os outros, faz com que uma multidão troque a liberdade por algum favor do governo. A ignorância, somada ao desejo de ganho fácil, faz com que a massa deposite sua esperança num messias salvador, delegando função paternalista ao Estado. A perfídia, com pitadas de romantismo utópico, faz com que uma elite formadora de opinião condene a meritocracia e pregue soluções coletivistas para os problemas do mundo, levando ao socialismo ineficiente e injusto.

O governo não está acima do povo, mas sim depende de seu consentimento para ser validado. E isso não quer dizer, de forma alguma, que uma maioria está livre para fazer o que bem entender. A democracia não deve levar a uma simples ditadura da maioria, onde dois lobos e uma ovelha votam para decidir a janta. Os direitos individuais deverão ser sempre respeitados, e era esse o foco da Declaração que fundou a República americana. Cada indivíduo deve ser livre para perseguir sua felicidade, sem invadir a liberdade do outro. Reparem que não há como um governo garantir a felicidade, mas apenas o direito de cada um buscar a sua, livre da coerção alheia. E notem também que nesse percurso, o direito de um não pode destruir o direito do outro. Essa valiosa lição é hoje amplamente ignorada, com governos prometendo cada vez mais, sem se importar que para dar algo a alguém, precisa antes tirar de outro.

Na sabedoria de homens como Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, construíram-se os pilares que criariam a nação mais próspera do mundo. Não há superioridade racial, não há fatores genéticos, não há maiores recursos naturais, não há sorte. Foram os princípios adotados por estes homens que possibilitaram um meio amigável ao progresso humano. Foi a liberdade individual que estimulou o empreendedorismo e a inovação. Foi o conceito de troca voluntária, básico do capitalismo liberal, que permitiu tamanho avanço. Os Estados Unidos são o que são hoje por mérito de um modelo eficiente, justo e adequado à natureza humana individualista. Infelizmente, até os americanos vêm se afastando do conceito original que tanto os distanciaram do resto do mundo. O Leviatã estatal tem crescido por lá, alimentando-se das liberdades individuais tão valiosas.

O pequeno texto da Declaração de Independência deveria ser relido com maior freqüência, pois seus ensinamentos são constantemente esquecidos num mundo onde idéias coletivistas entram cada vez mais em moda. Trocam o objetivo conceito de justiça pelo abstrato termo "justiça social", como se os burocratas do governo devessem decidir como configurar a sociedade de cima para baixo, escravizando seu povo para isso. Ofuscam a liberdade individual em nome da visão coletivista, como se existisse um "interesse nacional" ou "bem público" que justificasse o sacrifício dos indivíduos. O liberalismo dos “pais fundadores” compreendia que cada indivíduo é um fim em si próprio.

A esperança é a última que morre. Mesmo que distante do ideal de liberdade individual e da isonomia das leis, vários países adotaram a democracia ou ampliaram as liberdades individuais nas últimas décadas. Vamos continuar sonhando – e lutando – para que aquelas sábias palavras proferidas há mais de dois séculos tenham profundo impacto nos indivíduos. Hoje, dia 4 de Julho, o mundo todo deveria comemorar. Afinal, não se trata somente do aniversário de uma nação livre, mas sim da própria liberdade. Antes dos Estados Unidos da América, os países eram calcados em tradições coletivistas, sem este foco na liberdade individual. Como defensor da liberdade, fico muito feliz de ter nascido em 4 de Julho. Viva a liberdade!

quarta-feira, julho 02, 2008

Do Inferno Para a Liberdade




Rodrigo Constantino

“A complacência de hoje é paga com a angústia de amanhã; e se ela persiste, com o sangue de depois de amanhã.” (Suzanne Labin)

“Uma manhã chuvosa, como a minha alma”. Assim Ingrid Betancourt inicia a carta que escreveu em 2007 no cativeiro, e que chegou aos seus familiares após a prisão de guerrilheiros das Farc em Bogotá. Ela estava seqüestrada desde 2002 pelos guerrilheiros marxistas, e seus relatos serviram para despertar o mundo para a situação caótica dos reféns mantidos pelas Farc. Seu desespero era tão grande, que ela passou a ver a morte como “uma opção amena”. A distância de seus filhos foi descrita como um veneno em sua infinita solidão, “como se me injetassem cianureto nas veias, gota a gota”. Ela escreve que parou de comer, e que não sentia mais vontade de nada, pois o melhor é não querer nada, “para pelo menos ficar livre de desejos”, já que a resposta dos guerrilheiros era ‘não’ para tudo. “A vida aqui não é vida, é um desperdício lúgubre do tempo”, ela desabafa na carta emocionada. Todos “são obrigados a dormir no fundo de um buraco qualquer, deitados em qualquer lugar, como animais”. Felizmente, todo esse enorme sofrimento chegou ao fim para Ingrid, que foi resgatada pelo Exército colombiano hoje.

Após ser resgatada junto com um grupo de 14 reféns, Ingrid deu um depoimento onde agradeceu a Deus e aos soldados da Colômbia pela “operação impecável” dos militares. Os agentes se infiltraram nas Farc e se disfarçaram usando camisetas de Che Guevara, ídolo dos terroristas. As Farc já vinham sofrendo várias derrotas por causa de uma ação mais dura do governo Uribe, incluindo o ataque na fronteira do Equador que resultou na morte do segundo homem na hierarquia do grupo. Nessa operação, ocorreu a apreensão do computador com importantes dados das Farc, como a milionária quantia de ajuda acertada com o governo Chávez. Fora isso, o líder dos guerrilheiros, Manuel Marulanda, morreu, representando mais um duro golpe contra os criminosos. O cerco foi se fechando, e alguns guerrilheiros se entregaram. As Farc estão, finalmente, desmoronando, depois de mais de 40 anos espalhando o terror pela Colômbia. A brilhante operação que libertou Ingrid e outros reféns representa praticamente um xeque-mate para os guerrilheiros financiados pelas drogas. Tomara que o golpe final não demore! Afinal, vários reféns ainda estão sob o domínio dos guerrilheiros.

O governo Uribe está de parabéns, assim como os militares envolvidos no resgate. Uribe tem lutado praticamente isolado contra os guerrilheiros, já que muitos presidentes latino-americanos são aliados ou obsequiosos com as Farc. O Foro de São Paulo, criado pelo PT de Lula e Marco Aurélio Garcia, ao lado do ditador Fidel Castro, tem dado inclusive declarações de apoio aos guerrilheiros. A resolução no 9 do X Encontro do Foro diz “ratificar a legitimidade, justeza e necessidade de luta (das Farc)”. O governo Lula se recusa a definir as Farc como terroristas. Durante o governo de Olívio Dutra, o representante das Farc, Hernan Rodriguez, foi recebido pelo governador no Palácio Piratini. A revista VEJA trouxe denúncia da existência de documentos da ABIN relatando apoio financeiro das Farc para candidatos petistas. Sabe-se que as Farc celebraram a vitória de Lula nas eleições. A esquerda, de forma geral, prega sempre uma maior “negociação” entre as partes, ignorando que de um lado está o governo democraticamente eleito, e do outro um grupo de traficantes e seqüestradores assassinos. É como se defendessem uma negociação entre a polícia e Fernandinho Beira-Mar!

A esquerda francesa também pregava, na década de 1930, mais “conversa” com Hitler, e os comunistas exortaram os trabalhadores a abandonarem as fábricas bélicas pouco antes da invasão dos nazistas. A mesma esquerda costuma defender a diplomacia com terroristas, como se fosse possível debater com Osama Bin Laden num chá em Londres! No fundo, essa postura pode ser fruto da covardia em alguns casos, e da safadeza em outros, pois há alguma afinidade com os bandidos por motivos ideológicos. Tudo que é contra o capitalismo liberal e seu maior ícone, os Estados Unidos, passa a ser visto como um aliado. Nos Estados Unidos, costuma prevalecer a máxima de que com terrorista não se negocia. A atitude mais dura de Uribe contra as Farc merece, nesse sentido, fortes aplausos. Ela que tem sido importante no desmantelamento dos guerrilheiros. Não os discursos vazios e a retórica “humanista” dos presidentes esquerdistas que, no fundo, preferem as Farc ao governo de Uribe.

No Brasil, o que mais se aproxima das Farc é o MST, grupo de invasores criminosos que vivem com o financiamento de verbas estatais. São inspirados pelo marxismo também, e usam o mesmo tipo de ideologia para incitar a inveja e o ódio nas pessoas e partir para a pilhagem das propriedades privadas. O MST, o embrião crescido das Farb (Forças Armadas Revolucionárias do Brasil), tem agido impunemente, depredando propriedades, obstruindo o progresso, e doutrinando desde cedo as crianças em suas “escolas”, onde o marxismo é o dogma a ser seguido por uma seita fanática. Novamente, a esquerda é conivente com os criminosos, chamando-os de “movimento social”. Quando muito, criticam de forma tímida alguns meios, mas aprovam os fins. O MST ainda não tem o mesmo poder das Farc, mas vem crescendo, alimentado pelo próprio governo. É preciso cortar o mal pela raiz, e impedir esse avanço urgentemente. A primeira medida deveria ser cortar os recursos repassados para todas as ONGs ligadas ao movimento criminoso. A segunda medida seria atuar com rigor contra os invasores. O difícil é esperar isso de um governo cúmplice do movimento, quando o próprio presidente Lula veste literalmente o boné dos invasores.

Mas hoje é uma data que deve ser celebrada. A principal refém das Farc foi libertada pelo Exército colombiano, e os guerrilheiros estão mais perto do fim agora. Uma família separada pelos marxistas poderá se reunir novamente. Infelizmente, não é o fim do sofrimento para muitos outros que ainda são vítimas desses criminosos. Qualquer um que valoriza a vida e a liberdade tem a obrigação moral de condenar veementemente essa ideologia assassina. Os prisioneiros das Farc, assim como os prisioneiros de Cuba, do Zimbábue e da Coréia do Norte, os regimes comunistas ainda existentes, têm o direito de ser livre também. E todos aqueles que ainda conseguem defender tamanha barbaridade, não passam de cúmplices desses seqüestradores. Sejamos francos: quem ainda prega o comunismo não tem caráter! Ingrid Betancourt saiu direto do inferno para a liberdade. Esses safados desejam o contrário para todos nós: tirar nossa liberdade e nos lançar no inferno!

Carro Blindado para Todos!



Rodrigo Constantino

“É de fundamental importância procurar analisar uma política intervencionista por suas conseqüências como um todo; não apenas por seus efeitos no curto prazo, mas também no longo prazo.” (Mises)

A mentalidade predominante no Brasil é a de total desconfiança em relação a iniciativa privada e, por conseqüência, uma crença tola no governo, que passa a ser encarado como um deus. O empresário é visto como um explorador, fruto do ranço marxista, e os consumidores preferem delegar aos políticos – logo eles! – uma suposta proteção dos seus interesses. É essa postura que explica uma crescente intervenção estatal nos mais diversos assuntos privados, como se a caneta do governo fosse mágica. Os ingênuos acreditam que são os decretos estatais que criam a riqueza e garantem uma vida cada vez mais confortável e segura para a maioria. Nada mais falso.

O mais novo avanço sobre a liberdade dos mercados é o Projeto de Lei 1668/07, do deputado Sandro Matos (PR-RJ), que torna o airbag obrigatório para todos os veículos. De acordo com o projeto, o equipamento deverá ser instalado no painel frontal dos automóveis tanto para o motorista, quanto para o passageiro. As empresas terão três anos para se adaptar. A finalidade é inegavelmente nobre. Afinal, quem seria contra mais segurança para todos? O “pequeno” problema é que segurança não cai do céu, e custa dinheiro. Muitas vezes, custa caro. E a conta tem que ser paga. A grande ilusão é achar que as montadoras irão arcar com os custos extras e ponto final. É evidente que os custos adicionais serão repassados para o preço final do produto, tornando-o mais caro e talvez inacessível para muitos.

O airbag foi inventado por John W. Hetrick nos Estados Unidos, em 1952. Um inventor americano, Allen K. Breed, desenvolveu um componente para o uso automotivo, e sua inovação foi vendida em 1967 para a Chrysler. Um mecanismo similar foi oferecido pela Ford pouco tempo depois. Na década de 1970 o uso do airbag para carros de passeio decolou, salvando muitas vidas. A iniciativa privada havia atendido uma demanda dos seus consumidores por maior segurança. O sistema de freio ABS é um outro exemplo nessa direção. Os próprios produtores vão melhorando seus produtos de acordo com a demanda dos consumidores, que exercem suas preferências diariamente num plebiscito ininterrupto chamado mercado. Para cada gosto e para cada bolso, diferentes opções vão sendo oferecidas. É o maravilhoso sistema que chamamos de capitalismo de livre mercado.

Mas os políticos precisam justificar seus salários elevados, e abusam da ignorância de muitos leigos em relação a este complexo mecanismo de mercado. Eles, então, começam a demandar essas melhorias em todos os produtos, como se o decreto estatal fosse, na verdade, o criador dessa evolução. Se um laboratório em busca do lucro criou um remédio importante, depois de bilhões em investimentos com pesquisa, então todos devem ter acesso ao remédio, através da força da lei. Não importa que isso vá reduzir novos investimentos. Se uma empresa criou um computador que facilita a vida de muitos, então todos devem ter “direito” a este produto importante, e em nome da “igualdade” o governo cria o programa de “inclusão digital”. E claro, se a montadora oferece um novo item de segurança, então todos devem poder desfrutar dessa maior segurança, independente do seu custo. O governo, com o aval de muitos defensores desse modelo de idolatria ao estado, age como uma criança mimada, que observa os bens ao seu redor e acha que possui um “direito natural” sobre eles. Não entende como foram criados e o que permite a sua constante evolução.

Na prática, suas medidas criam inúmeras barreiras para novos avanços. Aquilo que se vê é o que parece um ganho imediato por todos os privilegiados com a imposição estatal. Aquilo que não se vê é o elevado custo dos entraves ao progresso. Sem falar do prejuízo para os que pagam a conta, muitas vezes sem tomar conhecimento. O caso do airbag obrigatório é um bom exemplo disso. O governo resolve que o item é fundamental e, portanto, decide impor sua presença em todos os veículos, inclusive carros populares. Como riqueza não cai do céu, o preço desses carros terá que subir. Se alguém antes podia ter um carro, mesmo que sem o airbag, agora ele pode não ter mais condições de comprá-lo. Vai acabar a pé, graças à maravilhosa intenção do deputado. O que é melhor: ter um carro sem airbag ou não ter carro algum e depender do transporte público nacional? O que é mais seguro? Quem deve decidir isso?

Segundo dados da Câmara dos Deputados, o deputado Sandro Matos, autor do projeto de lei, foi Sócio-Proprietário da Sapataria Pinóquio em 1987, e Sócio-Proprietário da Sapataria Coelho da Rocha em 1992. Será que o deputado acha que os demais deputados sabem melhor do que ele, como empresário, o que deve ser produzido para atender a demanda por calçados dos seus consumidores? Será que deveria ser uma tarefa do governo decidir qual tipo de sola os sapatos devem ter, de acordo com critérios arbitrários de segurança? Será que tamanha tutela estatal é realmente necessária? Se uma empresa que fabrica sapatos na Itália desenvolver um novo tipo de produto mais seguro para os pés, mas que custa bem mais caro, será que o governo deve impor o uso deste novo material a todos os fabricantes nacionais?

O consumidor acaba sempre sendo tratado como um mentecapto incapaz de escolher por conta própria. Ora, alguém realmente acha que a existência do freio num carro é resultado da obrigação legal, caso contrário carros seriam vendidos sem freio por aí? Claro que não! O freio é indispensável, e nenhum consumidor iria escolher um carro sem freio. Pode escolher sem o ABS, isso sim. Mas nunca sem freio algum. O mesmo já não é verdade para o airbag, que pode ser bastante útil, mas depende da escolha e aversão a risco do consumidor. O airbag representa um avanço na questão da segurança, não resta dúvida. Mas seus benefícios devem ser comparados aos seus custos, e a decisão caberá a cada indivíduo, de acordo com suas próprias preferências. O governo não deve se meter nisso. Não cabe ao governo nos proteger de nós mesmos! Devemos ser livres inclusive para correr riscos mortais.

Quem discorda disso, não deveria ficar limitado ao airbag então. Afinal, se a meta é apenas garantir maior segurança aos motoristas, independente dos custos e efeitos práticos disso, há muito mais o que pode ser imposto pelo governo. Sabemos que o Rio, cidade do deputado Sandro Matos, é um local muito violento. Algumas pessoas perdem a vida por causa de balas perdidas ou assaltos no trânsito. Se é para prometer maravilhas e ignorar os custos disso, vamos logo defender, em nome da “igualdade”, carros populares blindados para todos!