sexta-feira, novembro 28, 2008

Deu no Valor

Previdência Ponzi - O DIA

Rio - O senador Paulo Paim (PT-RS) apresentou três projetos de mudanças na Previdência Social que, em caso de serem aprovados, gerariam um impacto anual de R$ 76 bilhões nas contas públicas. As propostas suscitaram reação negativa até mesmo de seus correligionários. A líder do PT no Senado, Ideli Salvatti, ironizou: "Daqui a pouco será preciso criar uma República só para os projetos do Paim".

O mundo vive grave crise, e o setor privado começa a cortar gastos. Apenas Brasília parece uma ilha da fantasia, isolada da crise e aumentando gastos. Isso não é sustentável. A discussão sobre a Previdência é apresentada como disputa entre as almas generosas que desejam cuidar dos idosos de um lado, e misantropos que não ligam para o sofrimento alheio do outro.

Essa é uma caricatura absurda. Não basta boa intenção para ajudar os aposentados. É preciso respeitar os limites orçamentários. E isso é justamente o que não costuma acontecer quando se trata do governo. No fundo, a forma como o modelo previdenciário foi desenhado causou esta situação insustentável, uma verdadeira bomba-relógio.
A Previdência foi criada como esquema compulsório de pirâmide. Os mais jovens são obrigados a pagar pela aposentadoria dos mais velhos, sem ligação com a quantia poupada ao longo da vida de trabalho. A criação de contas individuais, nas quais a aposentadoria depende de quanto foi poupado, é a única forma justa de proteger os idosos e evitar estas crises.

Hoje, os poupadores são obrigados a investir suas aposentadorias nas promessas dos políticos, que ignoram a "insensível" calculadora. Mas não existe almoço grátis, e um dia a conta chega, cobrando elevados juros. A pirâmide, então, cai.

Link para o site de O DIA

quarta-feira, novembro 26, 2008

Os Seis Milagres do Socialismo



Por Bennett Owen

- Não há desemprego, mas ninguém trabalha;
- Ninguém trabalha, mas todos recebem salários;
- Todos recebem salários, mas não há nada para comprar com o dinheiro;
- Ninguém pode comprar nada, mas todos são donos de tudo;
- Todos são donos de tudo, mas ninguém está satisfeito;
- Ninguém está satisfeito, mas 99% do povo vota pelo sistema.

terça-feira, novembro 25, 2008

Doutrinação Ideológica



Rodrigo Constantino

“O homem, como qualquer outro animal, é por natureza indolente; se nada o estimula, mal se dedica a pensar e se comporta guiado como um autômato.” (Albert Einstein)

Na última edição da revista Veja, a entrevista com a antropóloga Eunice Durham merece destaque. Ela constata um fato bastante conhecido, mas infelizmente muito ignorado no país: a péssima qualidade do nosso ensino se deve basicamente à péssima qualidade dos nossos professores. As universidades de pedagogia estão totalmente impregnadas de ideologia, e os aspirantes a professor são bombardeados com jargões de esquerda. Cria-se um ciclo vicioso e perverso, onde os professores não passam de papagaios de chavões ideológicos, doutrinando seus alunos da mesma forma.

Eu posso atestar isso por experiência própria. Minha filha, que completou apenas sete anos e, portanto, freqüenta o primeiro ano do ensino fundamental, teve que fazer uma pesquisa sobre Zumbi dos Palmares, por conta do feriado de cunho racista, o Dia da Consciência Negra. Eu sugeri que ela levasse a reportagem O Enigma de Zumbi, também da revista Veja, pois trata exatamente do assunto pedido, de uma forma menos convencional. Estudos mais recentes feitos por historiadores mostram que Zumbi, muito provavelmente, tinha escravos. Ou seja, ele lutava pela sua própria abolição, mas não pela de todos os escravos. Isso derruba o mito criado sobre sua pessoa, e faz todo o sentido, pois na época era comum os negros terem escravos também. Diga-se de passagem, a escravidão em alguns lugares da África durou até o século XXI, sendo uma das últimas regiões do mundo a abolir a escravidão.

Devemos constatar o fato infeliz de que a escravidão acompanhou a humanidade desde os primórdios. Cada povo conquistado acabava virando escravo do conquistador. O próprio termo slave vem de “eslavo”, porque os Vikings escravizaram os eslavos. A prática nefasta da escravidão terminou com a pressão exercida desde as idéias iluministas, com base no direito natural de Locke, abraçado pelos “pais fundadores” dos Estados Unidos. A Declaração de Independência escrita por Jefferson foi uma das principais armas contra a escravidão, usada pelos grandes abolicionistas. Mas resgatar esses fatos todos não interessa nada à agenda politicamente correta da esquerda, que tenta vender uma imagem distorcida da história, onde brancos malvados escravizaram os negros inocentes. A esquerda no fundo parece desejar a segregação em raças, alimentando o ódio por causa da cor. A própria bandeira das cotas raciais não passa de um racismo com o sinal invertido. Em vez de julgar indivíduos com base no caráter, como sonhava Martin Luther King Jr., acaba-se julgando justamente a cor da pele.

Mas voltando ao caso de minha filha, eis que sua professora simplesmente afirmou que a reportagem sobre Zumbi era falsa. Ponto. Nada mais foi dito, nenhum dado novo foi citado, nenhum argumento foi preciso. A professora se limitou ao apelo da autoridade, que se tratando de uma criança indefesa de sete anos, chega a ser uma crueldade. Não houve uma mínima preocupação em estimular a curiosidade nela, em despertar o desejo de buscar mais conhecimento, de querer a verdade. Não passou pela cabeça da professora que o pensamento crítico é fundamental, que as crianças devem aprender a pensar, e não a repetir dogmas. Provavelmente sem se dar conta, a professora repetiu a doutrinação ideológica que deve ter sofrido em sua faculdade. Zumbi não teve escravos. A reportagem, com base em vários estudos novos de diferentes historiadores, é falsa. Simples assim. Ela tem que ser falsa, pois, caso contrário, afeta todo o discurso politicamente correto da esquerda.

O caso não é isolado, tampouco novidade. Minha filha mesmo, na mesma escola, “aprendeu” no Dia do Índio que os índios eram bonzinhos, e que os brancos malvados acabaram com eles. Não obstante o fato de que nenhum desses professores vive numa oca, resta perguntar se eles já ouviram falar de Montezuma, ou de Ataualpa, ou então da prática comum de canibalismo entre os índios brasileiros. Arrancar coração de inocentes, muitas vezes crianças, para fazer oferenda aos deuses é ser “bonzinho”? Nem quero pensar o que é ser malvado para essa gente. Se até mesmo o genocida Fidel Castro é idolatrado por muitos deles... No fundo, a mentalidade de “bom selvagem”, herança maldita de Rousseau, dominou o pensamento dos “intelectuais”. Cortez e Pizarro podem ter sido cruéis, mas nada muito diferente do que seus inimigos indígenas. Por que vender a falsa imagem de que os índios eram “bonzinhos” e viviam no paraíso até que os homens brancos malvados estragaram tudo? Por que fazer isso com crianças indefesas, que carregam essas crenças com elas? Por que fechar suas mentes com dogmas, em vez de ensinar a pensar por conta própria, a buscar de forma independente e honesta a verdade? Isso sim é uma crueldade sem tamanho!

É importante salientar que minha filha estuda em colégio privado. Se isso ocorre com freqüência nas escolas privadas, imagine o que se passa no ensino público! A lente marxista filtra todos os fatos antes de chegar aos alunos. Estes não aprendem a pensar de forma crítica, mas sim a repetir dogmas. E ainda acusam os outros de alienação! A inversão da realidade sempre foi uma prática comum da propaganda socialista. Para piorar a situação, o governo tem poder demais sobre o ensino no país, e isso apenas reforça o ciclo vicioso, pois é do interesse dos que governam manter o povo na ignorância. Quem aprende a pensar por conta própria, a desenvolver um raciocínio verdadeiramente crítico, não costuma ser vítima fácil dos oportunistas de plantão, em busca de votos para concentrar mais poder. A inteligência crítica não combina com o populismo tupiniquim.

Essa contaminação ideológica no ensino não é monopólio nacional, ainda que a situação esteja muito grave no Brasil. Mas nos Estados Unidos mesmo ocorre algo parecido, e não é de espantar o fato de que o ensino caseiro tem crescido bastante nas últimas décadas. Os pais andam cansados de tanta ingerência estatal no ensino de seus filhos, de tanta doutrinação ideológica, que em vez de formar seres pensantes, deforma a mente dos indivíduos. Antes de pregar que a educação é a solução para todos os males do mundo, cada um deveria questionar qual educação. Pois educação não é panacéia, principalmente se for doutrinação ideológica, em vez de educação verdadeira. Diploma apenas não é educação nem aqui, nem em Cuba, onde até as prostitutas possuem um. Os pais precisam lutar contra esta tendência preocupante, caso não queiram ver seus filhos virando papagaios de dogmas marxistas.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Fabricando Dinheiro, Destruindo Riqueza



Rodrigo Constantino

“The great inflations of our age are not acts of God. They are man-made or, to say it bluntly, government-made. They are the offshoots of doctrines that ascribe to governments the magic power of creating wealth out of nothing and of making people happy by raising the ‘national income’.” (Mises)

Em As Aventuras de Jonas, O Ingênuo, Ken Schoolland explica, de forma divertida e simples, inúmeros princípios da liberdade. Por mais incrível que isso possa parecer, o livro, escrito para crianças, é uma fonte muito melhor para aprender noções básicas de economia do que artigos de certos economistas com Prêmio Nobel. O foco na lógica dos argumentos é muito mais importante que o apelo à autoridade. Um caso típico está na questão do dinheiro e a origem da inflação. Um macro-economista como Paul Krugman, por exemplo, recomenda o déficit fiscal do governo como meio para estimular a economia e, portanto, a produção de riqueza. Imprimir dinheiro para gastar seria uma forma de aquecer o consumo e, por tabela, aumentar a produção e o emprego. A carroça vem na frente dos bois, puxando-os! Mas Jonas, o garoto ingênuo que se perde numa ilha, faz perguntas incômodas. Ele pergunta coisas bem simples, que renomados e premiados economistas preferem simplesmente ignorar.

Quando Jonas escuta um ruído de máquinas que parecem uma impressora, ele fica animado, pensando se tratar de um jornal. No entanto, ele acaba descobrindo que o barulho vem da Casa da Moeda. Sua imediata decepção é porque ele pensava estar diante de uma impressora de considerável importância, responsável por divulgar notícias relevantes sobre a cidade. Mas o casal nativo explica que aquela é a impressora mais importante da ilha, pois pertence ao órgão responsável pela felicidade de muitas pessoas. As impressoras trabalham para imprimir montanhas de dinheiro, para fazer as pessoas felizes. Jonas parece achar aquilo uma grande idéia. Ora, se ele pudesse imprimir algum dinheiro... Mas ele logo é interrompido, e o casal explica que isso é impossível. Qualquer um que tente imprimir dinheiro sem ter sido incumbido disso pelo governo é considerado um “falsificador”, e é jogado atrás das grades. Esses “salafrários” não são tolerados na cidade.

Eis a explicação deles: “Quando falsificadores imprimem dinheiro e gastam-no, o dinheiro deles invade as ruas e tira o valor do dinheiro das outras pessoas. Qualquer pobre alma que tenha uma renda fixa de salário, poupança ou aposentadoria iria logo constatar que seu dinheiro perdeu valor”. Mas, naturalmente, Jonas ficou confuso. Ele disse: “Pensei que o senhor havia dito que imprimir montanhas de dinheiro torna as pessoas felizes”. O casal foi forçado a concordar, mas frisou que apenas a impressão oficial de dinheiro era capaz de fazê-las felizes. O casal explicou que no caso de papel impresso oficialmente, chamavam de “financiamento do déficit”, e que ele era parte de um “elaborado e sofisticado plano de gastos”. Se o dinheiro for oficial, então os responsáveis por sua impressão não são ladrões. Na verdade, os que gastam esse dinheiro são os membros do governo, pessoas generosas que “gastam o dinheiro em projetos para as pessoas leais que gentilmente votam neles”.

Jonas tinha apenas mais uma pergunta: “O que acontece com os salários, as economias e as aposentadorias de todo mundo? Vocês tinham dito que o valor do dinheiro diminui quando mais dinheiro é impresso. Isso também acontece quando é o governo que imprime o dinheiro? E todos ficam satisfeitos com isso?” O casal respondeu que sim, que todos ficavam felizes quando o governo gastava dinheiro com eles, pois haviam muitas necessidades, e que os governantes eram muito escrupulosos em sua busca das origens dos problemas na ilha. O clima e o azar, por exemplo, eram as principais causas de suas dificuldades. Eram eles os responsáveis pelo aumento dos preços e queda do padrão de vida. Sem falar dos estrangeiros! Os inimigos externos eram um grande infortúnio para os moradores da ilha, pois vendiam produtos com preços altos, prejudicando os negócios na ilha, e com preços baixos também, tirando os empregos locais. Para proteger os moradores da ilha desses estrangeiros havia os sábios do governo. Eles eram capazes de decidir o que é bom para o povo.

A conversa teve que ser interrompida, pois o casal estava com pressa para ir encontrar o gerente de investimentos no banco. É que eles não queriam perder a oportunidade da onda de entusiasmo com os negócios de compra de terras e metais preciosos. O homem disse: “Coitados dos pobres que não aproveitaram o boom como nós aproveitamos!” E Jonas foi embora sem compreender direito porque as pessoas ficavam felizes quando o governo imprimia dinheiro, mas porque ninguém mais poderia fazer o mesmo. A questão, eu creio, não foi bem explicada por nenhum dos mais famosos macro-economistas até hoje, incluindo o mais recente Prêmio Nobel, Paul Krugman. Por que razão mesmo é bom para a economia e a felicidade das pessoas – especialmente os mais pobres – quando o governo resolve imprimir dinheiro de papel? E por que exatamente a mesma lógica não se aplica quando os “falsificadores” resolvem imprimir um papel igual? Algum Nobel de economia poderia responder?

quarta-feira, novembro 19, 2008

O Mito do Contexto



Rodrigo Constantino

“O relativismo cultural e a doutrina do contexto fechado constituem sérios obstáculos à disposição de aprender com os outros.” (Karl Popper)

Para Karl Popper, uma das componentes do irracionalismo moderno é o relativismo, entendido como a doutrina segundo a qual a verdade é relativa à nossa formação intelectual. Em outras palavras, a verdade mudaria de contexto para contexto, o que impossibilitaria um entendimento mútuo entre culturas, gerações ou períodos históricos diferentes. Eis a frase que define esse “mito do contexto”, segundo Popper:

A existência de uma discussão racional e produtiva é impossível, a menos que os participantes partilhem um contexto comum de pressupostos básicos ou, pelo menos, tenham acordado em semelhante contexto em vista da discussão.

Para Popper, esta afirmação é não apenas falsa, mas também perigosa. Se acolhida de forma generalizada, pode inclusive contribuir para o aumento da violência, minando a unidade da humanidade. Sem dúvida uma discussão entre participantes que não compartilham do mesmo contexto pode ser difícil, mas é um exagero afirmar que é impossível ter um debate proveitoso sem esta premissa. Popper vai além, e acredita que um debate entre pessoas com várias idéias em comum pode ser bastante agradável, mas talvez não seja tão proveitoso quanto um debate entre pessoas com pontos de vista totalmente divergentes.

Uma história muito usada para reforçar o mito do contexto é aquela contada por Heródoto, o pai da historiografia. Diz ela que o rei persa Dario I, querendo dar uma lição aos gregos residentes em seu império, teria chamado esses gregos e perguntado por qual preço eles estariam dispostos a devorar os cadáveres dos seus próprios pais. Naturalmente, os gregos responderam que por preço algum aceitariam fazer isso. Em seguida, Dario I teria chamado um grupo de indianos que tinham por hábito comer os pais mortos. Através de um intérprete, ele perguntou aos indianos, na presença dos gregos, por qual preço aceitariam queimar os restos de seus parentes falecidos. Os indianos teriam ficado indignados, exortando o rei a não dizer blasfêmias. Os adeptos do relativismo costumam usar este exemplo como evidência de que há um abismo intransponível dependendo do contexto. Mas Popper não concorda.

Na verdade, Popper sustenta que tal discussão não teria sido infrutífera. A experiência do confronto entre hábitos tão diferentes sem dúvida permitiu algum aprendizado novo aos envolvidos. A conclusão de Heródoto é que devemos olhar com tolerância para os costumes que são diferentes dos nossos, e isso já seria um resultado positivo do choque de culturas. O fosso existente entre contextos ou culturas diferentes pode ser ultrapassado, e essa é a tese de Popper. O próprio avanço da civilização Ocidental é fruto do choque de diferentes culturas. Podemos aprender com os diferentes contextos, e podemos evoluir em nosso conhecimento acerca do mundo. O método que permite este aprendizado é o da crítica. Conforme coloca Popper, “uma das principais tarefas da razão humana é tornar o universo em que vivemos algo compreensível para nós”. Essa é a tarefa da ciência. E todos os povos têm capacidade de utilizá-la.

As barreiras às discussões racionais e críticas são muitas, sem dúvida. Os elementos pessoais ou emocionais podem dificultar esse debate. O instinto de tentar “vencer” um debate precisa ser vencido pela razão, pois uma “vitória” no debate não significa nada, “ao passo que a mínima clarificação de um problema que se tenha – mesmo a menor contribuição para uma compreensão mais clara da sua própria posição ou da de um opositor – constitui um grande sucesso”. Tentar, em suma, se aproximar genuinamente da verdade, eis um ideal importante que pode ser buscado. Por outro lado, uma expectativa extremamente otimista em relação aos debates, de que é possível obter freqüentemente como resultado a vitória da verdade sobre a falsidade, pode levar a uma frustração que conduz ao pessimismo generalizado sobre a fecundidade das discussões.

Mantendo-se o realismo acerca das dificuldades desses debates, ele pode produzir efeitos extremamente positivos. As leis e costumes de um povo fazem enorme diferença para todos que vivem sob a sua alçada. Alguns costumes podem ser cruéis, bárbaros, enquanto outros podem aliviar o sofrimento ou favorecer a cooperação mútua e voluntária. Alguns povos respeitam a liberdade individual, outros não, ou em grau bem menor. Como afirma Popper, “estas diferenças são extremamente importantes e não podem ser postas de lado ou ignoradas pelo relativismo cultural ou através da afirmação de que leis e costumes diferentes se devem a padrões diferentes, ou a diferentes formas de pensamento, ou a diferentes marcos conceituais que são, por isso, incomensuráveis ou incomparáveis”. Popper acha justamente o contrário: devemos tentar compreender e comparar. Devemos tentar avaliar quem tem as melhores instituições, e devemos aprender com elas através de um olhar crítico.

Hegel e Marx foram, talvez, os mais influentes pensadores do mito do contexto. Para Marx, a ciência era dependente das classes sociais. Haveria uma ciência proletária e outra burguesa, cada qual prisioneira de seu contexto. A classe é que definiria o pensamento do indivíduo, sendo totalmente impossível um debate racional. A falibilidade humana pode representar um perigoso atrativo para tais doutrinas. O fato de existir parcialidade em todos os seres humanos não quer dizer que uma aproximação da verdade seja inviável. O curioso é que o próprio Marx, que não era proletário, arrogava-se a capacidade de pensar por esta classe, uma gritante contradição à sua própria crença. É evidente que o contexto pode influenciar nossos pensamentos. Mas parece claro também que os homens desfrutam da magnífica capacidade de olhar crítico, de debate racional independente de seu contexto. Não existe uma razão diferente para cada situação. Existe uma razão, que pode não ser infalível, mas em compensação é capaz de nos afastar dos erros e, portanto, nos aproximar da verdade.

A conclusão fica com Popper: “As prisões são os contextos. E aqueles que não gostam de prisões opor-se-ão ao mito do contexto. Acolherão com agrado a discussão com um parceiro vindo de outro mundo, de outro contexto, pois tal oferece-lhe a oportunidade de descobrir as suas amarras até aí não sentidas, ou de quebrá-las e desse modo ultrapassarem-se a si próprios. Mas o sair da prisão não é, seguramente, uma questão de rotina: só pode ser o resultado de um esforço crítico e de um esforço criativo”.

terça-feira, novembro 18, 2008

A Declaração da Abolição



Rodrigo Constantino

“Não há nada tão forte quanto uma idéia cuja hora é chegada.” (Victor Hugo)

A escravidão é uma prática nefasta que, infelizmente, acompanhou a humanidade por longos séculos. Não fazia distinção por raça ou cor, e praticamente todos os povos conquistados viravam escravos dos conquistadores. O próprio termo slave vem de eslavos, que foram vítimas da escravidão por séculos. Com o Iluminismo, as idéias pela liberdade individual foram ganhando mais força, e a noção de “direito natural” proposta por Locke plantaria as sementes da abolição da escravatura. Tais idéias tiveram ampla influência nos “pais fundadores” dos Estados Unidos. A Declaração de Independência americana foi sem dúvida um importante marco na luta contra a escravidão. Apesar do fato lamentável de que alguns dos “pais fundadores” tinham escravos, como o próprio Thomas Jefferson, é inegável que suas idéias foram cruciais para o combate à escravidão.

A jornalista Stephanie Schwartz Driver, autora de um livro sobre a Declaração, afirma: "Desde a década de 1820, a linguagem da Declaração de Independência e as promessas nela contidas foram discutidas com grande efeito retórico pelo movimento abolicionista. [...] Os abolicionistas baseavam sua causa em princípios morais, retomando a idéia da lei natural advogada por Jefferson na Declaração de Independência e utilizando esse documento para defender seus argumentos". De fato, os principais abolicionistas compreenderam que na própria Declaração já havia todo o argumento necessário para abolir a escravidão.

Em 1823, o importante abolicionista inglês David Walker fez o seguinte discurso inflamado: "Vejam suas declarações, americanos!!! Vocês compreendem sua linguagem? Escutem o que foi declarado ao mundo no dia 4 de julho de 1776 - 'Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas - que TODOS OS HOMENS SÃO CRIADOS IGUAIS!! Que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade'!! Comparem sua própria linguagem acima, extraída da Declaração de Independência, com as crueldades e os assassinatos cometidos por seus pais impiedosos e por vocês próprios contra nossos pais e contra nós - homens que nunca lhes fizemos, nem a seus pais, a mínima provocação!!!!!".

O começo da petição da abolição da escravatura, assinada por 19 escravos em New Hampshire, também deixa evidente a influência do texto da Declaração: "A petição dos abaixo-assinados, nativos da África, agora detidos à força em regime de escravidão no estado mencionado, muito humildemente atesta: Que o Deus da natureza lhes deu vida e liberdade, nos termos da mais perfeita igualdade com outros homens; Que a liberdade é um direito inerente à espécie humana, a qual não deve ser abdicada, senão por consentimento, para o bem da vida social; Que a tirania pública e privada e a escravatura são igualmente detestáveis às mentes conscientes da igual dignidade da natureza humana". Eram as idéias dos “pais fundadores” sendo usadas uma vez mais para a luta pela liberdade.

William Lloyd Garrison, abolicionista e fundador do The Liberator, principal jornal abolicionista, fez alusão direta ao texto da Declaração também: "Acredito na parte da Declaração de Independência em que se estabelece, como verdades evidentes por si mesmas, 'que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade'. Logo, sou um abolicionista". Garrison voltou às idéias dos “pais fundadores” em 1833: "Ao som do chamado das trombetas, três milhões de pessoas levantaram-se do sono da morte e se precipitaram para a luta sangrenta; acreditando ser mais glorioso morrer instantaneamente como homens livres do que desejável viver uma hora como escravos. Eles eram em pequeno número - pobres em recursos; mas a honesta convicção de que a Verdade, a Justiça e o Direito estavam do seu lado os tornou invencíveis".

O ex-presidente John Quincy Adams atuou como defensor dos escravos perante a Suprema Corte no famoso caso Amistad, em 1841. Os escravos tomaram o controle do navio enquanto estavam acorrentados, matando a tripulação e poupando apenas dois navegadores, mas foram capturados novamente em solo americano. Sua defesa foi toda calcada na Declaração: "No momento em que se chega à Declaração de Independência e ao fato de que todo homem tem direito à vida e à liberdade, um direito inalienável, este caso está decidido. Não peço nada mais em nome desses homens desafortunados senão o que se encontra nessa Declaração". A Suprema Corte confirmou a decisão de libertar o grupo de escravos.

Abraham Lincoln reconheceu na Declaração de Independência os pilares contra a escravidão: "Tenho convicção de que todos os registros do mundo, desde a data da Declaração de Independência até três anos atrás, poderiam ser investigados em vão à procura de uma única afirmação, de um único homem, de que o negro não foi incluído na Declaração de Independência”. Após ser eleito presidente em 1861, Lincoln foi mais direto ainda: "Nunca tive um sentimento político que não nascesse dos sentimentos incorporados à Declaração de Independência".

Por falar em Lincoln, Martin Luther King Jr., em seu conhecido discurso no Lincoln Memorial em 1963, sobre o sonho de viver numa nação onde os indivíduos fossem julgados pelo caráter, e não pela cor, disse: "Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória, da qual todos os americanos seriam beneficiários. Essa promissória dizia que todos os homens, sim, o homem branco e o homem negro, teriam garantidos os direitos inalienáveis de 'Vida, Liberdade e busca da Felicidade'. [...] Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá para sempre o verdadeiro significado do credo: 'Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais'".

No Brasil, o combate à escravidão contou com um forte aliado na figura de José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Seus argumentos, em discurso pronunciado na Assembléia-Geral em 1824, eram claramente influenciados pela visão liberal dos “pais fundadores” americanos. O pilar de seu discurso era moral. Contra os defensores da escravidão com base no direito de propriedade, eis o que Bonifácio argumentou: “Não é, pois, o direito de propriedade, que querem defender, é o direito da força, pois que o homem, não podendo ser coisa, não pode ser objeto de propriedade”. E acrescentou ainda: “Não basta responder que os compramos com o nosso dinheiro; como se o dinheiro pudesse comprar homens! – como se a escravidão perpétua não fosse um crime contra o direito natural”. Em resumo, a escravidão é injusta, pois ignora que todos os homens merecem tratamento igual perante as leis, e que nascem livres.

Como fica claro acima, a escravidão, uma prática comum até poucas décadas atrás, foi finalmente abolida no Ocidente, graças às idéias iluministas com base no direito natural à liberdade. A Declaração de Independência foi, talvez, a mais importante arma contra a escravidão. Nossa liberdade não deriva do consentimento de uma autoridade qualquer, como o governo ou mesmo a maioria. Quem discorda disso, precisa aceitar como legítima a escravidão se a maioria de um povo a desejar. O principal argumento contra a escravidão, mesmo nos casos onde a maioria de um povo vota por ela, pode ser encontrado nas magníficas palavras da Declaração de Independência americana. Ela pode até mesmo ser chamada de Declaração da Abolição!

PS: Muitas pessoas, vítimas de uma mentalidade marxista, acreditam que a escravidão acabou apenas por fatores econômicos. Nada mais falso! Em primeiro lugar, essas pessoas precisam explicar porque demorou tantos séculos para isso. Em segundo lugar, devem explicar também porque foram os países mais liberais do Ocidente que acabaram com tal prática, apesar de interesses contrários dentro desses próprios países. Não devemos esquecer que a escravidão continuou por muito mais tempo dentro da própria África, por exemplo, e que os países comunistas também mantiveram este regime nefasto. No fundo, a visão de mundo que julga todos os acontecimentos apenas como resultado de interesses econômicos dá um triste atestado sobre o caráter da própria pessoa. Como disse Benjamin Franklin, “ele que é da opinião que o dinheiro fará qualquer coisa pode muito bem ser suspeito de fazer qualquer coisa por dinheiro”. Há muito mais que dinheiro no mundo. A paixão pela liberdade não pode ser comprada. Eis o sentido da Declaração de Independência americana.

segunda-feira, novembro 17, 2008

A Doença do Sistema de Saúde



Rodrigo Constantino

“A mudança mais importante que o controle extensivo do governo produz é uma mudança psicológica, uma alteração no caráter das pessoas.” (Hayek)

Como um obstetra que realizou mais de quatro mil partos, o congressista Ron Paul conhece de perto os problemas do sistema americano de saúde pública. Em sua análise, o escalonamento dos problemas começou quando a idéia de que todos podem ter um excelente tratamento “grátis” ganhou força. A realidade econômica simplesmente não comporta tantas promessas feitas pelo welfare state. Nos cálculos de Ron Paul, os passivos a descoberto do sistema previdenciário e de saúde nos Estados Unidos somarão US$ 50 trilhões nas próximas décadas. Se as tendências recentes continuarem, em 2040 o orçamento federal inteiro será consumido pela Previdência Social e o Medicare. A conta não fecha.

Normalmente, o debate sobre esse delicado tema envolve muita emoção, mas pouca razão. A discussão é apresentada como uma disputa entre as almas generosas que desejam cuidar de seus companheiros de um lado, e misantropos egoístas que não ligam para o sofrimento alheio do outro. Essa é uma caricatura absurda e oportunista. O duro fato que precisa ser enfrentado é que simplesmente não existem os recursos suficientes para sustentar esses generosos programas de governo no longo prazo. Negar este fato não irá ajudar em nada aqueles que dependem do sistema público de saúde. Ao contrário, a degradação dos hospitais públicos e o encarecimento dos remédios e tratamentos médicos colocam os mais pobres numa situação extremamente delicada.

Um dos pontos mais importantes para Ron Paul pode ser resumido na epígrafe de Hayek acima. Quando o governo resolve controlar demais as coisas, inclusive atos de caridade que sempre ocorreram de forma voluntária, ele acaba produzindo um efeito indesejado no caráter das pessoas. Ron Paul questiona quantos médicos estariam praticando tarefas voluntárias se não houvesse tanta intervenção do governo no setor. Uma grave conseqüência do welfare state é justamente a mentalidade de que não precisamos praticar atos de caridade, pois alguém já faz isso por nós – e cobrando pesados impostos para tanto. Antes do crescimento assustador do Estado de Bem-Estar social, a norma sempre foi a prática de medicina grátis por parte de inúmeros médicos. Mas as pessoas perderam a crença de que a liberdade funciona, pois ninguém mais consegue conceber como pessoas livres poderiam solucionar problemas sem o uso de ameaças de violência – que é a essência das soluções através do governo. Atualmente, todos encaram com naturalidade a “solidariedade compulsória” através do governo.

Ron Paul lamenta o quão rápido se esqueceu que os Estados Unidos já foram o ícone do sistema de saúde eficiente no mundo, o motivo da inveja de muitos outros países. Os americanos tinham os melhores médicos e hospitais, e os pacientes recebiam tratamentos de alta qualidade por custos acessíveis, enquanto várias entidades privadas de caridade forneciam serviços de saúde para os mais pobres. Os seguros de saúde existiam para os casos mais raros, como deve ser a função de um seguro, e pagavam em dinheiro as visitas rotineiras aos médicos. A idéia de um seguro é justamente proteger contra uma catástrofe imprevista, tal como uma enchente, um incêndio, um acidente ou uma doença mais grave. Claramente algo está errado com o sistema quando nós precisamos de seguro para visitas de rotina ao médico, totalmente previsíveis e parte de nossas vidas. Essa mudança é fruto da interferência estatal no setor.

Quando os hospitais e médicos competem pelos clientes, eles devem focar sempre no melhor atendimento para o menor custo, como qualquer outro serviço. A idéia de que com saúde essa lógica não mais se aplica tem sido mortal para o setor. Afinal, quando terceiros pagam a conta, não há mais interesse em cobrar menos, mas sim em cobrar o máximo possível. Não é o cliente mesmo quem está arcando diretamente com os custos. Além disso, o setor sempre foi alvo das promessas populistas dos governos e, portanto, um dos primeiros a receber recursos provenientes das políticas inflacionárias. O governo imprime moeda para gastar, e gasta com o sistema de saúde, gerando inflação no setor, que acaba prejudicando os mais pobres.

O modelo de impostos também gera grandes distorções ao permitir a redução dos tributos para o empregador, mas não para os indivíduos que compram diretamente um seguro de saúde. Para piorar a situação, o Health Maintenance Organization Act de 1973 forçou quase todos os empregadores a oferecer planos de saúde para seus empregados. O resultado disso foi o casamento entre emprego e seguro-saúde, que deixa os desempregados sem a necessária cobertura para catástrofes. No fundo, este tipo de imposição legal costuma seguir sempre a mesma lógica: protege o status quo à custa dos demais, garantindo privilégios para quem já está empregado. Não seria maravilhoso se a empresa fosse obrigada a oferecer plano de saúde completo para todos, creches para os filhos dos empregados, academias de ginástica para seus funcionários, vale-transporte, vale-refeição, vale-alimentação, etc.? E tudo isso, naturalmente, sem redução dos salários! Sim, seria maravilhoso, se fosse tão simples, e se as leis econômicas pudessem ser alteradas por decreto estatal. Mas se fosse esse o caso, era mais fácil o governo decretar que todos estão ricos logo de uma vez!

Na prática, essas intervenções estatais no setor de saúde acabam gerando uma deterioração na qualidade dos serviços, com o concomitante aumento de custos. Ron Paul sugere que todos analisem como os veteranos de guerra são tratados nos hospitais públicos para esse fim específico. Se os heróis americanos são tratados dessa forma lamentável, o que esperar para os cidadãos comuns? A solução para esses males, segundo Ron Paul, é simplesmente tirar o governo do setor de saúde, que era bem mais acessível e eficiente antes dele se meter tanto. O sistema de saúde americano está doente. E a causa é um vírus chamado vulgus politicus. Está na hora de atacar esse vírus e resgatar a boa saúde do sistema.

sábado, novembro 15, 2008

Krugman, O Alquimista



Rodrigo Constantino

“O Estado é a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo.” (Frédéric Bastiat)

Em seu recente artigo “Economia da Depressão”, o economista Paul Krugman defende a gastança do governo como solução para a crise. As crenças keynesianas de Krugman estão mais vivas que nunca, e o autor inverte a lógica econômica toda, achando que o consumo em alta é que gera investimentos produtivos, que por sua vez gera crescimento econômico. Eis o raciocínio dele:

“A alta do desemprego resultará em redução do consumo... O consumo fraco levará a cortes nos planos de investimentos das empresas. E a economia enfraquecida resultará em novas perdas de empregos, o que gerará um novo ciclo de contração”.

Não deixa de ser bem curioso ver os mesmos economistas que sempre condenaram o “excesso de consumo” dos americanos, colocando agora a culpa da crise na queda do consumo dos americanos! Ora, se o mal fora causado justamente pelo consumismo desenfreado, segundo eles mesmos, um corte no consumo não seria parte da solução dos problemas? Que lógica econômica é essa que condena o consumo pela crise e demanda mais consumo como solução?

Paul Krugman defende claramente a irresponsabilidade fiscal do governo como meio para resolver a crise. Ele diz isso com todas as letras:

“Quando a economia da depressão prevalece, regras usuais da política econômica deixam de se aplicar: a virtude se torna vício, a cautela é arriscada e a prudência é insensatez. [...] Em momentos normais, é bom se preocupar com o déficit orçamentário e responsabilidade fiscal é uma virtude que teremos de reaprender assim que passar a crise. Quando a economia da depressão está em vigor, porém, essa virtude se torna vício. [...] Por fim, em tempos normais, modéstia e prudência quanto às metas de uma nova política costumam ser boas. Nas condições atuais, porém, é muito melhor pecar pelo exagero do que pela cautela. O risco, caso o plano de estímulo venha a se provar mais forte que o necessário, seria o de que a economia se reaqueça e gere inflação, mas o Federal Reserve sempre pode combater essa ameaça por uma elevação nas taxas de juros”.

A constatação na epígrafe do economista francês do século XIX nunca foi tão verdadeira. De fato, todos parecem encarar o governo como uma força divina, um ente abstrato que produz recursos do nada. De onde o governo obtém seus recursos? De Marte, por acaso? Ora, o governo pode levantar recursos apenas tirando da sociedade, ou seja, criando impostos ou emitindo dívida e moeda. Quando o governo gasta mais do que arrecada, como sugere Krugman, ele está apenas hipotecando o futuro daquela sociedade. Esses macro-economistas que adoram dados agregados, esquecendo que existem apenas indivíduos concretos, não são muito diferentes dos alquimistas, que acham ser possível fazer ouro do nada.

Uma reflexão sobre Robinson Crusoé sozinho numa ilha evitaria muitos erros grosseiros em economia. Pensando em termos micro, ficaria evidente que para consumir é preciso antes produzir, e que consumir à base de crédito é apenas trocar consumo futuro por consumo presente. Mas a conta deve ser paga sempre! Se o consumo sem lastro na produção fosse mesmo a locomotiva do crescimento econômico, e se o governo pudesse estimular isso imprimindo moeda e gastando, não haveria miséria no mundo faz tempo! Para quem entende isso, fica claro que a proposta de Krugman, pela irresponsabilidade fiscal do governo, significa apenas jogar para o futuro os problemas. O que Krugman está sugerindo, sem rodeios, é produzir um crescimento artificial no presente, deixando a conta para ser paga no futuro.

Em termos individuais, seria o mesmo que alguém, passando pela necessidade de aperto nos gastos, simplesmente tomar mais dívida com um agiota para manter o consumo presente. Enfrentar a dura realidade de que gastou por conta antes, e que agora deverá sacrificar o consumo para poupar novamente, não passa pela cabeça dos alquimistas. Para estes, a recessão é um mal que deve ser evitado a qualquer custo, mesmo ao custo da inflação, o imposto mais perverso para os pobres. Em tempos de crise, tudo vale para essa turma, como se a lógica econômica fosse alterada de acordo com a situação. Seria como ignorar a lei da gravidade num momento de crise, simplesmente porque me recuso a aceitar a inevitável queda após pular de um prédio. As leis econômicas não podem ser manipuladas pelo governo. E é realmente espantoso que um economista que acaba de ganhar o Prêmio Nobel ignore este fato. Estão transformando a ciência econômica num misticismo tolo, e o mais novo Nobel de economia não passa de um grande alquimista.

sexta-feira, novembro 14, 2008

quinta-feira, novembro 13, 2008

O Conundrum do Dólar



Rodrigo Constantino

“The typical human inclination is to treat the anomalies as both temporary and reversible. People tend to dismiss the noise as containing no meaningful information.” (Mohamed El-Erian)

O termo conundrum ficou conhecido quando o então presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, usou-o para descrever seu estado de perplexidade diante dos fatos da época. O Fed aumentava os juros de curto prazo, mas as taxas de longo prazo não reagiam como o esperado. Quando estamos diante de um paradoxo desses, onde a história não ajuda muito a explicar a situação, a tendência natural, como afirma Mohamed El-Erian em When Markets Collide, costuma ser ignorar a coisa como um ruído qualquer. Muitas vezes a anomalia será mesmo um ruído. Mas outras vezes pode ser uma mudança estrutural importante, que somente depois ficará mais evidente. Ignorar os paradoxos pode ser muito perigoso. E atualmente, um claro conundrum é a reação do dólar frente às medidas do governo americano.

Se alguém dissesse há apenas dois anos atrás tudo o que o governo americano estaria fazendo agora, provavelmente seria levado para um hospício. Ninguém iria acreditar que em tão pouco tempo o governo americano iria aprovar pacote de US$ 700 bilhões, oferecer linhas de crédito de mais de US$ 1 trilhão através do Fed, expandir a base monetária em 25% num único mês, garantir os depósitos de todos os indivíduos sem lastro para tanto, assumir o controle de seguradoras, bancos e empresas de crédito imobiliário, salvar empresas automotivas em dificuldades, e tudo isso com uma dívida que já passou dos US$ 10 trilhões. Se fosse o governo venezuelano, tudo bem. Se fosse até mesmo o governo brasileiro, isso seria bastante crível. Mas o governo americano tomando passos tão largos rumo ao socialismo? Seria impensável. É o que o desespero de uma crise grave pode fazer. E sem dúvida alguma, se alguém por acaso acreditasse que isso tudo aconteceria mesmo, iria prever uma catástrofe para o valor da moeda americana. No entanto, o dólar tem se valorizado em relação às outras moedas. Eis o grande paradoxo atual.

Do seu patamar mínimo, o dólar já se valorizou cerca de 20% em relação à cesta de moedas usada para calcular o índice. E fez isso justamente durante todos esses anúncios de medidas estatizantes! Quem poderia imaginar que esse seria o resultado da política expansionista sem precedentes? Ignorar esse paradoxo como um simples ruído pode ser fatal. Tentar solucionar o quebra-cabeça é fundamental para uma adequada compreensão do que se passa no mundo. Uma das possíveis explicações pode estar na piada dos dois caçadores na floresta. Eles se deparam com um leão enquanto descansam, e um deles rapidamente coloca seu tênis. O outro, perplexo, pergunta se ele acredita que pode correr mais rápido que o leão. O amigo retruca: “Claro que não! Mas eu posso correr mais rápido que você”. Em outras palavras, não podemos julgar o impacto das ações do governo americano ignorando as ações dos demais governos. Como disse o especulador Martin Zweig, algumas vezes perdemos de vista a floresta quando focamos apenas nas árvores.

As recentes medidas do governo americano sem dúvida colocam o futuro do dólar em xeque, mas os Estados Unidos ainda podem ser vistos como um “porto seguro” se comparados com outros países. Para onde os poupadores vão correr? Para a Europa, numa crise ainda mais grave, com uma carga tributária já absurda e uma previdência totalmente falida? A Alemanha já está em recessão, a França está em decadência faz tempo, e a dívida do governo italiano supera o PIB do país. Vão correr para a China, ficando totalmente na mão do PCC e seu poder arbitrário? Para a América Latina ou para a África? Melhor nem responder. Quando olhamos para a floresta, constatamos que os Estados Unidos, com todas as suas imperfeições, ainda conseguem se destacar perante os concorrentes. Há maior “império da lei” na América, e mesmo com a gastança do governo americano, ele ainda parece mais responsável que outros governos, mais perdulários ainda. Em terra de cego, quem tem um olho é rei.

Outra possível explicação para o puzzle do dólar está num dado mais imediato: o grau de alavancagem em dólar fora dos Estados Unidos foi simplesmente absurdo. A aposta contra o dólar foi vencedora por um longo período, e parecia certo que esta tendência iria continuar. O famoso carry trade passou a incluir o dólar também, além do já tradicional iene japonês. Com uma baixa taxa de juros nos Estados Unidos, e todos apostando na mesma direção do dólar, o mundo inteiro tomou dívida na moeda americana para investir em outros mercados. Foi isso que permitiu uma onda incrível de abertura de capital no Brasil, por exemplo, com forte participação de estrangeiros. O dólar chegou a valer apenas R$ 1,60, e perdeu valor contra praticamente todas as moedas emergentes.

Mas quando a crise chegou, forçando um impressionante movimento de reversão dessa alavancagem em dólar, os investidores descobriram como é perigoso ficar exposto ao risco de escassez da moeda no mundo. Todos aqueles que apostaram contra o dólar nesses últimos anos, com o uso de elevada alavancagem, tiveram que correr ao mesmo tempo para comprar a moeda americana e zerar suas apostas. Isso fez com que o dólar experimentasse uma forte valorização contra essas moedas. A liquidação acelerada de dívida em dólar fez com que a moeda se apreciasse, a despeito da expansão monetária realizada pelo Fed. Essa parece uma razoável explicação para o conundrum do dólar atualmente.

No presente momento, vivemos um conflito de forças: de um lado, a pressão deflacionária por causa da recessão causada pela reversão de uma era de crédito fácil e abundante; do outro lado, os governos levando ao limite seus balanços, imprimindo moeda e ofertando crédito para substituir a função dos bancos, afetados duramente pela crise. Qual será o resultado final desta queda de braço? Não sabemos ao certo. Os mercados parecem precificar uma dura recessão à frente, já que a inflação implícita nos títulos do governo americano está abaixo de 1% ao ano para os próximos dez anos. Ou seja, mesmo com essa alucinada impressão de moeda, drástica redução de juros e expansão fiscal do governo, a inflação não parece ser uma séria preocupação ainda. O foco está todo voltado para a queda da atividade econômica. O desemprego já está em 6,5% nos Estados Unidos, provavelmente rumo aos 10%.

Mas não devemos esquecer que é totalmente possível ter recessão e inflação ao mesmo tempo. Chama-se estagflação, e os Estados Unidos mesmo já viveram isso na década de 1970. Trata-se do pior cenário possível, com desemprego em alta e perda de valor da moeda. Ao tentar evitar a todo custo um ajuste necessário, após anos de excessos causados em parte pelo próprio estímulo do governo, o governo pode estar plantando justamente as sementes da estagflação. O conundrum do dólar pode estar ocultando esse risco no momento, pelos motivos citados acima. Mas quando a poeira baixar, os mercados poderão focar no risco inflacionário também, além do problema da recessão. Serão tempos interessantes – e difíceis – os próximos anos. Nem mesmo o ouro tem sido uma boa proteção, talvez pela venda forçada de muitos investidores que precisam fazer caixa de qualquer maneira para honrar seus compromissos. Será que estamos vivendo uma delicada situação, onde se ficar o bicho pega, e se correr o bicho come?

quarta-feira, novembro 12, 2008

Votar em Paes foi votar no PT!


"Temos uma aliança forte com o presidente Lula, com o PT nacional e local. O Partido dos Trabalhadores tem um papel importante e quadros qualificados para essas funções." (Eduardo Paes, prefeito eleito pelo PMDB em aliança com o PT)

Individualismo Versus Racismo



Rodrigo Constantino

“No longo prazo, a única forma que o racismo pode ser superado é através da filosofia do individualismo, a qual eu tenho promovido por toda a minha vida.” (Ron Paul)

Em seu mais famoso discurso, Martin Luther King Jr. fala do sonho de viver num país onde as pessoas deixem de ser julgadas pela cor da pele, e passem a ser julgadas pelo seu caráter. MLK ressalta a importância das “magníficas palavras” contidas na Declaração de Independência Americana, que defende o direito inalienável à liberdade para todos os indivíduos. Essa é exatamente a postura de Ron Paul, assim como a de vários libertários que rejeitam qualquer tipo de mentalidade coletivista. Como diz Ron Paul em The Revolution, nossos direitos não chegam a nós porque pertencemos a algum grupo, e sim porque somos indivíduos. E como indivíduos é que devemos julgar uns aos outros.

O racismo nada mais é do que um tipo de coletivismo que enxerga a cor da pele como a característica predominante em cada um. Ron Paul afirma: “O racismo é uma forma odiosa particular de coletivismo onde os indivíduos são tratados não pelos seus méritos, mas com base na identidade de grupo”. Para Ron Paul, a filosofia do individualismo é o maior desafio intelectual que o racismo já enfrentou. Por outro lado, a politização do tema pode ser um empecilho para o término desta “desordem do coração”, como Ron Paul chama o racismo. Os “pais fundadores” dos Estados Unidos, entre eles os autores da mesma Declaração de Independência admirada por Martin Luther King Jr., ficariam chocados ao observar como a sociedade americana se tornou politizada, passando a tratar cada assunto no qual há divergências como um problema federal a ser solucionado em Washington. O meio adotado pode ser muitas vezes contraproducente, afastando ainda mais o desejado fim.

Ron Paul explica que o governo exacerba o pensamento racista e ataca o individualismo, porque sua própria existência encoraja a organização das pessoas em linhas raciais para fazer lobby por benefícios e privilégios ao seu grupo. No fundo, isso vale não apenas para a questão racial, mas para todas as outras. Vemos os homossexuais se organizando para demandar privilégios também, e inúmeros outros grupos que ignoram o indivíduo para abraçar algum coletivismo qualquer. Mas o que deveria importar mesmo não é a preferência sexual, ou então a cor da pele de alguém, e sim seu caráter, sua conduta, seus valores e princípios. Uma pessoa pode ser íntegra ou não, e isso claramente não tem relação alguma com a cor da pele ou a preferência sexual.

É espantoso ter de repetir uma obviedade dessas em pleno século XXI, mas infelizmente essa obviedade ainda não é parte do senso comum, mesmo que seja puro bom senso. A mentalidade racista, que separa e julga pessoas usando como critério a cor da pele, ainda é uma triste realidade no mundo em que vivemos. E isso vale para ambos os lados, é importante lembrar. O regime de cotas é uma prova disso. Assim como a postura de muitos americanos dos guetos que “acusam” um negro de estar “agindo como branco” caso ele não aceite as regras locais de conduta, muitas vezes prejudiciais ao indivíduo. Se o negro do gueto rejeita as letras agressivas do rap ou a forma de falar do grupo, ele pode acabar sendo vítima da hostilidade dos demais, um ato claro de racismo com sinal invertido. No Brasil, o mesmo comportamento já pode ser observado em favelas, onde a vulgaridade do funk deve ser a norma seguida para merecer a aceitação do grupo.

Deixo a conclusão com Ron Paul (tradução livre): “Nós não devemos pensar em termos de brancos, negros, hispânicos, e outros grupos do tipo. Este tipo de pensamento apenas nos divide. O único pensamento ‘nós-versus-eles’ que podemos nos permitir é o de povo – todo o povo – versus o governo, que rouba e mente para todos nós, ameaça nossas liberdades, e rasga nossa Constituição”.

segunda-feira, novembro 10, 2008

O Manifesto de Ron Paul



Rodrigo Constantino

“Quando as pessoas temem o governo, isso é tirania; quando o governo teme as pessoas, isso é liberdade.” (Thomas Jefferson)

O candidato democrata Barack Obama foi eleito presidente americano com um repetitivo discurso de mudança. Mas como lembra o senador Ron Paul, o termo “mudança” na política sempre significa mais do mesmo: mais governo, mais inflação, mais guerras desnecessárias e mais centralização de poder. Para quem tem dificuldade de enxergar grandes diferenças entre os Democratas e os Republicanos atualmente – pois ambos passaram a representar o Big Government na prática, o manifesto The Revolution, de Ron Paul, representa uma leitura imprescindível. No fundo, a “revolução” pregada nada mais é do que um retorno às raízes, ou seja, um resgate da Constituição americana, que tem sido jogada no lixo a cada novo mandato. Em outras palavras, Ron Paul defende a postura “radical” de recuperar as lições esquecidas dos “pais fundadores” dos Estados Unidos.

A cada quatro anos, dois candidatos dominam o debate político americano com poucas divergências fundamentais, mas fingindo representar filosofias radicalmente opostas de governo. Até mesmo na questão das guerras não há tanta divergência quanto alguns pensam. Ron Paul lembra que Hillary Clinton e John Kerry, do Partido Democrata, votaram pela guerra do Iraque, sem falar das várias intervenções militares durante o governo de Bill Clinton, como em Kosovo e Somália. As questões fundamentais da política externa americana nunca são trazidas para os debates. Como de praxe, Ron Paul vai buscar nos “pais fundadores” apoio contra esta postura intervencionista americana. O primeiro presidente americano, George Washington, considerava que a grande regra de conduta em relação às demais nações deveria ser uma extensão das relações comerciais, tendo o mínimo necessário de conexões políticas com elas.

A mentalidade de não-intervenção não é a mesma que a de “isolacionismo”. Ao contrário, Ron Paul defende o livre comércio, a diplomacia e a liberdade para viagens. Os isolacionistas verdadeiros são aqueles que pregam embargos, sanções e barreiras comerciais. Ron Paul acredita que a América pode ser um líder através do exemplo, e não da força. Sendo um modelo de liberdade em casa, os Estados Unidos fariam mais pela causa da liberdade no mundo do que tentando “exportar” a democracia. Além disso, Ron Paul se mostra convicto do fracasso dessa postura beligerante americana. É claro que ela não justifica o terrorismo, mas sem dúvida fornece um motivo para a organização de grupos terroristas contra os Estados Unidos. O ressentimento de povos atacados serve como base para o terror. Entre as conseqüências não-intencionais das intervenções militares americanas está justamente o que a CIA chama de blowback, aumentando o perigo de um ataque vingativo contra os americanos.

Além disso, Ron Paul questiona a lógica dos conservadores que desconfiam da eficiência de um governo interventor demais no cenário doméstico, mas depositam enorme fé na capacidade desse mesmo governo apresentar excelentes resultados mundo afora. Sem falar que essa concentração de poder para as metas ambiciosas imperialistas acaba inevitavelmente se voltando contra o próprio povo. Basta lembrar o que o Patriot Act após o atentado de 11 de Setembro representou em termos de perda de liberdades individuais. Os governos sempre procuraram monstros externos para combater, justificando assim seu aumento de poder. Sob as condições de tempos de guerra, as propostas socialistas sempre têm se tornado a regra. Os grandes empresários “amigos do rei” aproveitam essa simbiose entre governo e economia para obter privilégios à custa do povo.

Isso não quer dizer, naturalmente, que nenhuma guerra é justificável. Um país tem total direito de atacar se for atacado. Mas essas situações peculiares que transformam uma guerra em um direito legítimo estão longe de representar a maioria dos casos de envolvimento americano em guerras. Além disso, Ron Paul chama a atenção para o fator inconstitucional cada vez mais freqüente nas guerras que o governo americano entra: o Poder Executivo decide, enquanto o poder de declarar guerra pertence ao Poder Legislativo. Presidentes poderosos costumam apresentar maior risco de uso deste último recurso, enquanto o Congresso, sob maior pressão popular, tem mais dificuldade de apelar para uma guerra. Os povos não gostam de guerras. Com isso em mente que os “pais fundadores” delegaram ao Congresso tal poder, e não ao Executivo.

A política externa americana chegou a um ponto onde seu custo de manutenção excede US$ 1 trilhão por ano. O governo americano possui tropas na Coréia por mais de cinqüenta e cinco anos! Existem tropas americanas na Europa e no Japão pelo mesmo período. Ron Paul pergunta: Quantos anos são suficientes? A presença de tropas americanas nesses locais deveria ser desde o começo, algo temporário. Mas Milton Friedman estava certo quando disse que não há nada tão permanente quanto um programa “temporário” de governo. Ron Paul acredita que esse excesso de extensão militar dos Estados Unidos poderá literalmente quebrar o país, fazer com que sua moeda perca muito mais valor. Ele enxerga o risco do retorno do alistamento obrigatório também, que transforma indivíduos em propriedade do governo. E ele lamenta profundamente o fato de que tais assuntos cruciais não são seriamente debatidos, já que ambos os lados políticos concordam que a nação necessita de tropas em 130 países!

Thomas Jefferson acreditava que a confiança no governo é em todo lugar a mãe do despotismo. A Revolução Americana foi toda feita com base nessa desconfiança em relação aos governantes. A idéia sempre foi limitar o poder central, e estimular o autogoverno dos cidadãos. A mensagem revolucionária de Ron Paul é exatamente essa: preservar a liberdade individual. Os indivíduos têm direito à vida e à liberdade, e a agressão física deve ser utilizada apenas de forma defensiva. O principal argumento contra as invasões governamentais na vida dos indivíduos é moral, e não utilitarista, como a eficiência econômica. Devemos respeitar o próximo como um ser racional, e buscar nossos objetivos através da persuasão e da razão, e não da ameaça e coerção. O governo é força, e não razão. Por isso Ron Paul tenta reacender a chama da liberdade que outrora criou a nação mais livre do mundo. Sua revolução é apenas a continuação pacífica da Revolução Americana e dos princípios dos “pais fundadores”, ou seja, liberdade, autogoverno, a Constituição e uma política externa não-intervencionista. Eis uma revolução que vale a pena defender!

sexta-feira, novembro 07, 2008

As Agências de Risco



Rodrigo Constantino

“O mercado é um ininterrupto plebiscito, onde as preferências e os eventuais erros estão sujeitos a um permanente processo de revisão e ajustamento.” (Roberto Campos)

Eu venho tentando mostrar, em diferentes artigos, que as impressões digitais do governo americano estão em todas as cenas do crime nessa crise. O foco aqui será o evidente fracasso das agências de risco, que deveriam ter antecipado de alguma forma os elevados riscos dos complexos instrumentos financeiros por trás da bolha imobiliária. Muitos críticos do livre mercado aproveitaram essas falhas para condenar o conflito de interesses entre agências de risco e clientes do setor financeiro. De fato, este conflito existe, pois as agências devem avaliar os riscos daqueles que pagam sua conta. Mas, como era de se esperar, as “falhas de mercado” não foram resolvidas pela intervenção estatal. Ao contrário, elas foram agravadas.

Em 1975, surgiu o termo Nationally Recognized Statistical Rating Organization (NRSRO), quando a Securities and Exchange Comission (SEC) promoveu regras sobre a adequação de capital dos bancos e corretoras. A SEC achava que essas instituições financeiras não precisavam manter reservas no mesmo montante do capital para se proteger contra uma possível corrida ao banco, caso elas tivessem investimentos altamente líquidos e seguros. Essa segurança estaria refletida em seus credit ratings, determinados por algumas agências de risco altamente respeitadas. No começo dos anos 1980, existiam sete dessas agências reconhecidas como NRSRO, mas com as fusões, o número caiu para três nos anos 1990. De forma resumida, o setor passou a contar com um “monopólio regulatório”, criado justamente pelo governo.

Vários investidores grandes, como os bancos e fundos de pensão, sofrem restrições regulatórias para suas decisões de alocação de capital. A idéia é controlar o risco de suas posições através de limites impostos pela SEC. Esses investidores não podem, por exemplo, investir em instrumentos cuja nota de crédito está abaixo de certo nível. Como apenas as NRSRO contam na avaliação do crédito para efeito regulatório, o resultado foi uma enorme barreira à entrada de novos players, garantindo o oligopólio das três grandes: Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch. Essa posição de oligopólio, garantida pelo governo, levou a um aumento da negligência dessas agências na avaliação de risco.

Para piorar a situação, o Federal Reserve (Fed) manteve a taxa de juros artificialmente baixa por longo período, estimulando uma busca desenfreada por mais retorno. Mas, como havia a restrição regulatória da SEC, obrigando uma nota elevada de crédito, logo surgiu uma demanda específica em Wall Street: instrumentos com mais retorno, mas o mesmo grau de risco, segundo as NRSRO. Como dizia Roberto Campos, “tudo o que é rigorosamente proibido é ligeiramente permitido”. Sabemos que não existe almoço grátis, e que retornos mais elevados sempre implicam em riscos maiores também. Mas onde houver demanda, haverá oferta, ainda mais em se tratando dos cérebros jovens e brilhantes de Wall Street. Com o custo de oportunidade a 1% ao ano, graças ao Fed, e com os grandes investidores limitados pelas regras de risco da SEC, as agências de risco apareceram para resolver o problema. Surgiram então os complexos instrumentos de securitização, com notas máximas de risco (AAA), mas com retornos maiores que o normal para este patamar de risco. Os investidores, desesperados por mais yield, resolveram acreditar em almoço grátis. Até eles quebrarem a cara com o estouro da crise imobiliária, descobrindo que tinham comprado gato por lebre.

Como fica claro acima, as tentativas do governo de solucionar as supostas falhas de mercado apenas jogaram mais lenha na fogueira. Qual é o grande ativo de uma agência de risco? Sem sombra de dúvida, é a sua credibilidade. Somente com a confiança dos investidores uma agência de risco pode sobreviver no livre mercado. Se a agência sacrificar sua credibilidade para obter um ganho imediato, concedendo uma nota mais elevada do que deveria para um cliente, ela não irá sobreviver muito tempo, pois ninguém mais levará a sério suas avaliações futuras. No entanto, o governo resolveu blindar as três grandes agências desse risco de mercado, garantindo um monopólio regulatório para elas. Assim, elas podem dar a nota que for, perdendo credibilidade junto aos investidores, que seu negócio está protegido, pois os instrumentos financeiros continuam precisando de suas notas para acessar os grandes investidores.

No mercado financeiro, ninguém mais leva a sério essas agências de risco. Elas são totalmente atrasadas, reduzindo as notas de crédito somente quando a empresa já está à beira da falência e os investidores já puniram suas ações de forma violenta. Ou então concedendo o grau de investimento para um país somente depois que os investidores já anteciparam as melhoras e colocaram tudo no preço. No livre mercado, isso jamais seria possível. Mas como o governo exige o selo dessas agências, elas conseguem não apenas sobreviver, como prosperar. O investidor Warren Buffett, de olho nisso, chegou a investir na Moody’s através de sua Berkshire Hathaway.

As agências são como vigias da qualidade do crédito. Mas quem vigia os vigias? Deveria ser o próprio mercado, punindo aqueles que dormem no ponto. Mas o governo resolveu interferir nesse processo, garantindo o cargo permanente de vigia para três dessas agências, mesmo que elas cometam inúmeras falhas. E quando as falhas não são punidas, pode estar certo de que elas irão ocorrer com mais freqüência.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Sobre a Vitória de Obama - Vídeo

Vídeo caseiro comentando a vitória de Barack Obama nas eleições americanas. Comento a questão racial, as idéias de Obama, quem são os grandes entusiastas dessa vitória, e lamento o culto à presidência, essa mania moderna de tratar o governo como um deus, e o presidente como um "messias salvador" capaz de resolver os males do mundo num passe de mágica.

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quarta-feira, novembro 05, 2008

Essa Turma Comemora a Vitória de Obama!

A Vitória de Obama



Rodrigo Constantino

“Ninguém é mais dogmaticamente insistente na conformidade do que aqueles que advogam a ‘diversidade’”. (Thomas Sowell)

Aquilo que a esquerda no mundo todo sonhava virou realidade: Barack Hussein Obama é o presidente dos Estados Unidos! Sua campanha bilionária foi mesmo de tirar o chapéu. Conseguiu mobilizar muita gente, conquistar através de seu carisma a emoção de milhões de eleitores cansados de um governo medíocre. O repetitivo uso das palavras “mudança” e “esperança” foi uma grande arma, que nos remete ao caso brasileiro nas eleições passadas. Não obstante o fato de que a mudança pode ser para pior, e que a esperança pode ser a “grande falsária da verdade”, como nos ensinou Baltazar Gracian, resta questionar quais as verdadeiras qualidades de Obama que fizeram com que tanta gente ficasse tão empolgada com sua eleição.

Muitos repetem automaticamente a questão racial, comemorando que se trata do primeiro presidente negro americano. Besteira! Os negros já conquistaram inúmeros cargos importantes na política americana, e o simples fato de Obama ter disputado pelo maior partido americano, o Partido Democrata, já seria suficiente para mostrar que a cor da pele não é mais um impeditivo ao cargo máximo da política. Afinal, ele derrotou nas primárias a poderosa família Clinton! Um parêntese: Qualquer um com tanta sede pelo poder é a última pessoa que deveria ter poder. Além disso, aqueles que citam o aspecto racial parecem não notar que estão justamente aderindo ao racismo que dizem combater. Ora, por que devemos comemorar a eleição de alguém por causa da cor da pele? Isso é exatamente aquilo que Martin Luther King Jr. não queria! Seu sonho era uma nação onde as pessoas não fossem julgadas pela cor da pele, e sim pelo caráter. Qual o caráter de Obama? Algum empolgado defensor sabe? Quais são as grandes idéias de Obama? Algum emocionado defensor sabe? Pelo visto, querem Obama porque ele é negro, e isso é racismo puro, ainda que com sinal trocado.

Na verdade, a questão racial serviu desde o começo da campanha para blindar Obama contra críticas. A poderosa agenda “politicamente correta” vem ganhando mais espaço, e se alguém questiona a capacidade administrativa do candidato negro, é logo tachado de “racista”. Os cariocas conhecem bem essa patrulha, usada quando a então governadora petista Benedita se envolveu em escândalo de uso indevido do dinheiro público. O racismo é sempre execrável, mas isso vale para os dois lados. Se alguém deixa de votar num candidato apenas por causa da cor da pele, isso é tão abominável quanto alguém votar num candidato apenas por causa da cor da pele. Infelizmente, creio que isso aconteceu em grande escala nessas eleições americanas. Afinal, quantos eleitores de Obama realmente conheciam suas principais idéias? Qual o grande currículo de Obama, cuja “profissão” na vida sempre foi ser político? Como disse Charles de Gaulle, “a política é um assunto sério demais para ficar nas mãos dos políticos”. Obama nunca quis gerar riqueza no setor privado. Pelo visto, ele tinha algo mais “nobre” em mente: usar a riqueza alheia para pregar a “justiça social”. Não sei quanto ao leitor, mas eu admiro mais a trajetória de um Michael Bloomberg da vida...

As idéias de Obama são claramente intervencionistas, alinhadas com a agenda “progressista” que condena o livre mercado. Qual a coerência da esquerda brasileira, que sempre acusou os americanos de pregar o liberalismo enquanto pratica o protecionismo em casa, em defender Obama? Ora, Obama é o candidato dos subsídios agrícolas, o candidato do protecionismo comercial, justamente tão atacado no Brasil – e com razão. Eu já não cobro coerência da esquerda faz muito tempo. Afinal, os mesmos que condenam esse protecionismo americano adoram quando o próprio governo adota medidas protecionistas, e ainda recebem o francês Bovè, ícone dos subsídios agrícolas da Europa, com tapete vermelho no Fórum Social Mundial. Ou então condenam o embargo americano a Cuba pela miséria da ilha-presídio, ao mesmo tempo em que chamam de “exploração” o comércio com os americanos. Está mais do que na hora da esquerda decidir se o livre comércio é algo bom ou ruim! E poderia aproveitar para resolver se é desejável que o governo tire dinheiro do pagador de impostos para dar aos banqueiros, pois o PROER foi motivo de fúria em nossa esquerda, enquanto hoje ela aprova os pacotes de ajuda do governo aos bancos. Melhor não tentar entender a “lógica” esquerdista...

Algo muito interessante nessa vitória de Obama foi o entusiasmado apoio que ele recebeu de tantos antiamericanos ferrenhos, os mais patológicos de todos. Será que Ahmadinejad, Raúl Castro, Lula e tantos outros que sempre destilaram seu ódio ao “império” americano e seu modus vivendi, repentinamente passaram a gostar dos Estados Unidos? Não parece estranho que os maiores inimigos dos Estados Unidos estavam do lado de Obama? Fora isso, ele recebeu amplo apoio dos maiores inimigos internos dos Estados Unidos também. Os fortes sindicatos, que tentam garantir privilégios à custa dos demais trabalhadores, doaram milhões para a campanha de Obama. A grande imprensa foi toda favorável a Obama. Os “intelectuais”, que costumam ser bajuladores de ditaduras esquerdistas mundo afora, estavam todos com Obama. Os atores de Hollywood, sempre prontos para atacar os Estados Unidos e defender regimes nefastos, deram total apoio a Obama. Enfim, mesmo se não soubesse nada das idéias de Obama, já ficaria contra ele, somente pela lista assustadora de empolgados defensores de sua vitória.

Espero que o governo de Obama não seja um desastre para os Estados Unidos, como foi o governo de Bush. Mas acho difícil evitar um avanço ainda maior do governo nas liberdades individuais. Infelizmente, os pilares ideológicos dos “pais fundadores” da nação estão cada vez mais enterrados por lá também. A própria idolatria ao presidente, o culto ao “messias salvador”, com inúmeras pessoas chorando de tanta emoção com a crença de que os males serão solucionados através da magia estatal, demonstra como o país se afastou dos princípios liberais de seus fundadores. Estes enxergavam com enorme desconfiança o governo, visto como um “mal necessário”, cuja função básica era apenas preservar as liberdades e o direito de propriedade privada. Algo muito diferente da imagem que muitos têm do governo atualmente, uma espécie de Deus capaz de criar riqueza num estalo de dedos. E Obama é seu mais novo profeta, o representante do próprio Deus na Terra.

O que a vitória de Obama realmente representa é isso: a crescente tendência de aumento do governo e concomitante redução da liberdade individual; a vitória da agenda “politicamente correta” que prega a “diversidade” enquanto é totalmente intolerante com certas diferenças; a vitória dos dogmáticos que pregam a “mudança” enquanto desejam apenas mudar os outros; e, por fim, o uso inadequado da questão racial, que não passa de racismo com sinal trocado.

domingo, novembro 02, 2008

Os Defensores da Política Inflacionária



Rodrigo Constantino

“Inflação é o complemento fiscal do estatismo e do governo arbitrário”. (Ludwig von Mises)

Em The Theory of Money and Credit, Ludwig von Mises deixa claro que a inflação não é um ato divino, mas sim um resultado de políticas de governo. Ela é um subproduto das doutrinas que delegam ao governo o poder mágico de criar riqueza do nada e fazer o povo feliz através do aumento da “renda nacional”. O dinheiro é apenas um meio de troca para facilitar o escambo de produtos, através do uso de um denominador comum. Mas o que de fato se troca são bens e serviços, e a riqueza deve, portanto, ser criada pelos indivíduos. O produtor troca seus produtos no mercado para satisfazer suas demandas, recebendo em troca aquilo produzido por outros. Essa divisão de trabalho permite um ganho enorme de produtividade. Mas para consumir é preciso sempre produzir.

Isso parece bastante óbvio, mas infelizmente muitos economistas ignoram este fato da realidade. Estes acabam defendendo a ilusão de que o governo pode aumentar a riqueza real através de um estímulo artificial na atividade econômica, expandindo a circulação de dinheiro. O crédito fácil é visto como um substituto para o capital, e esse caminho leva inexoravelmente a graves crises. O que esses economistas não costumam levar em conta é que a transação de crédito é apenas uma troca de bens presentes por bens futuros. Aqueles que pouparam seu capital emprestam para aqueles que valorizam mais seu uso imediato, e a taxa natural de juros depende das diferentes preferências intertemporais dos agentes. A grande confusão de muitos – economistas e leigos – está na mistura dos conceitos de riqueza e dinheiro. Ambos não são sinônimos.

Mises expõe de forma brilhante os fundamentos monetários que garantem a liberdade de mercado. A doutrina liberal enxerga a economia de mercado como a melhor, se não a única possível, forma de organização da sociedade. A propriedade privada dos meios de produção costuma alocar capital para os mais hábeis em atender a demanda dos consumidores. Sendo um sistema de cooperação pacífica sob a divisão de trabalho, a economia de mercado necessita de instituições que protejam seus membros da agressão violenta de inimigos. A sociedade precisa de um aparato de defesa. Mas automaticamente surge o perigo de abuso desse poder. A força policial do Estado pode se voltar contra o próprio povo, e como evitar isso tem sido o grande problema político da humanidade. No entanto, o abuso de poder não é apenas físico. Ele pode ocorrer no âmbito monetário também. Por isso Mises achava impossível compreender o conceito de “dinheiro sólido” sem levar em conta que ele é um instrumento para a proteção das liberdades civis contra os caminhos despóticos dos governos. Ideologicamente esse conceito pertence ao mesmo grupo das constituições e “bills of rights”.

Nesse contexto, Mises entende que a grande vantagem do padrão-ouro é justamente blindar o poder de compra da moeda contra as políticas governamentais. O controle parlamentar das finanças públicas funciona somente se o governo não puder apelar para gastos não-autorizados através do aumento da circulação de papel-moeda. A política inflacionária costuma ser bastante popular, em grande parte pela compreensão inadequada de seus efeitos. Aqueles que demandam tal política estão sempre focando apenas em um lado da equação – o seu próprio. O que eles desejam é um aumento nos preços daquelas commodities e serviços que eles vendem, enquanto gostariam de ver os demais preços inalterados. Os ingênuos encaram a emissão de moeda pelo governo como uma espécie de milagre econômico. O fiat money é como se fosse um fiat lux! O governo cria algo ex nihilo, num estalo de dedos. O lastro para esse dinheiro não precisa ser mais do que o toner das impressoras do Tesouro. Um papel emitido pelo governo assume automaticamente o poder de ser trocado por qualquer mercadoria desejada. É a alquimia finalmente alcançada. Mises ironiza: como parece tímida a arte das bruxas se comparada com aquela do Departamento do Tesouro!

A ignorância do público é indispensável para esta política inflacionária. Mas, como dizia Lincoln, não é possível enganar todas as pessoas o tempo todo. Quando as massas entendem os esquemas dos governantes, e notam que o aumento dos preços é generalizado e artificial, então os planos inflacionários entram em colapso. O dinheiro só é aceito como tal se o comércio assim desejar. Quando o dinheiro compulsório do governo perde sua credibilidade, o próprio mercado adota algum mecanismo substituto. O papel-moeda passa a não valer mais nada, como aconteceu na Alemanha e Brasil, e ocorre atualmente no Zimbábue.

O padrão-ouro é um concorrente de peso para os governos, justamente porque o ouro quase sempre foi escolhido naturalmente como moeda. Mas os governos não gostam dessa concorrência, pois o padrão-ouro anula sua capacidade de usar o imposto inflacionário como disfarce para mais gastos. Quando muitos críticos do padrão-ouro alegam que ele fracassou, faz-se necessário lembrar que isso não ocorreu espontaneamente, mas sim como resultado de ações deliberadas dos governos. Todos os aparatos coercitivos do governo tiveram que ser usados para abolir o padrão-ouro, incluindo a proibição de compra e venda do ouro ou seu uso como moeda oficial em contratos comerciais. Até mesmo nos Estados Unidos a compra de ouro chegou a ser proibida em 1933. O padrão-ouro não faleceu naturalmente, mas foi assassinado pelo governo.

O padrão-ouro impede a falaciosa política de “pleno-emprego”. Como os salários acabam sendo mais rígidos por conta da pressão de sindicatos e decretos do governo – como o salário mínimo, cria-se artificialmente uma classe de desempregados, que estaria trabalhando se fosse possível cobrar menores salários. O governo adota então uma política de “pleno-emprego” para combater um mal criado por ele próprio. Como já entendia muito bem Keynes em 1936, reduz-se o salário real dos empregados, através do aumento de preços, para impedir uma redução em seu nível nominal. Keynes acreditava que esse caminho ofereceria menor resistência, mas talvez ele estivesse subestimando a capacidade dos trabalhadores de compreender a situação. O foco dos sindicatos nos índices de inflação, em vez de olhar apenas o salário nominal, comprova isso.

Aquilo que os inimigos do padrão-ouro costumam enxergar como seu grande vício pode ser justamente sua grande virtude: ele é incompatível com uma política expansionista de crédito. Qualquer um pode entender que uma maçã para consumo hoje vale mais do que uma maçã disponível para consumo em um ano. Mas os expansionistas acreditam que os juros são um entrave à expansão da produção, e que representam uma criação maligna dos interesses egoístas dos emprestadores. No entanto, é impossível substituir bens de capital inexistentes por papel-moeda ou crédito artificial. A expansão monetária pode causar um boom momentâneo, mas acaba inevitavelmente em recessão ou mesmo depressão. A festa bancada por crédito fácil acaba sempre em ressaca, e se esta for combatida com mais e mais liquidez artificial, pode acabar em cirrose.

O poder da impressão de dinheiro artificial nas mãos do governo sempre foi um enorme risco para a liberdade e prosperidade dos povos. Esse poder foi utilizado de forma abusiva desde quando o imperador romano Diocleciano resolveu reduzir o teor metálico das moedas, fazendo com que perdessem valor real. Em situações mais emergenciais, essa prerrogativa sempre costuma ser usada pelos governos. Em tempos de uma suposta ameaça de guerra ou crise econômica, os governantes acreditam na necessidade urgente de aumento dos gastos públicos, mas muitas vezes a maioria do povo não concorda. O governo então ignora a saída democrática de propor uma votação sobre os necessários sacrifícios momentâneos, preferindo o caminho do engano, através da política inflacionária. Não há transparência sobre os custos reais das medidas, e o governo se aproveita da ignorância das massas. O recurso inflacionário garante ao governo os fundos que ele não conseguiria captar através dos impostos diretos ou por emissão de dívida. Eis o verdadeiro motivo para uma política inflacionária. Seus defensores são inimigos do “dinheiro sólido” e, concomitantemente, da liberdade individual.

PS: A teoria sobre ciclos econômicos da Escola Austríaca nunca foi tão útil como nos dias atuais. Diante da crise financeira que segue fazendo vítimas no mundo todo, eis que o Federal Reserve, o banco central americano, expandiu a base monetária em 25% num único mês! Este aumento não tem precedentes desde que os dados começaram a ser computados. O governo coloca sua impressora de papel-moeda para rodar em um ritmo alucinado, na esperança de evitar uma dolorosa recessão necessária após um longo período de crédito abundante, estimulado pela política de juros artificialmente baixos. Para aqueles que não acreditam na alquimia, em milagres ou no toque de Midas do governo, estes dados são inquietantes. Especialmente para aqueles com poupança em dólar...

sábado, novembro 01, 2008

Governo Lula regulamenta a caipirinha



Finalmente o governo do presidente Luísque Inácio Lula da Silva usa seu típico autoritarismo para algo que ele entende!!! Esse é mesmo o país da piada pronta.

'Diário Oficial' publica regra para fazer caipirinha

O Ministério da Agricultura publicou, no Diário Oficial da União de sexta-feira, um regulamento técnico que estabelece "padrões de identidade e qualidade" para se preparar uma autêntica caipirinha. Segundo a publicação, as regras servem tanto para a bebida produzida no Brasil quanto à feita no exterior.

O regulamento, assinado pelo ministro Reinhold Stephanes, explica que os principais ingredientes são a cachaça, o limão e o açúcar. "O açúcar aqui permitido é a sacarose - açúcar cristal ou açúcar refinado -, que poderá ser substituída total ou parcialmente por açúcar invertido e glicose, em quantidade não superior a 150 g/l e não inferior a 10 g/l, não podendo ser substituída por edulcorantes sintéticos ou naturais", detalha o texto.

Além disso, o regulamento do ministério informa que o limão pode ser usado em sua "forma desidratada". A água pode ser adicionada à bebida alcoólica, mas apenas com objetivo de "padronização da graduação alcoólica do produto final", que deve variar entre 15% e 36%.

Entre as normas, estão também a proibição de "adição de qualquer substância ou ingrediente que altere as características sensoriais naturais do produto final" e da "utilização de corantes". Além disso, é proibido usar "flaconetes, sachês, conta-gotas, spray, ampolas, copos-medidas" na produção da caipirinha.

O ministério também publicou regras para a utilização do licor, bebida alcoólica mista, batida, bebida alcoólica composta, aperitivo e aguardente composta.