quarta-feira, dezembro 28, 2011

A sexta maior do mundo!

Rodrigo Constantino

A notícia levou os nacionalistas ao delírio: a economia brasileira, medida pelo imperfeito PIB, ultrapassou a do Reino Unido e assumiu a sexta posição no ranking mundial. Não é fantástico? Somos mais ricos que os ingleses! Ou será que não é bem assim?

Na verdade, não é nada assim. E por vários motivos. Em primeiro lugar, o “detalhe” mais óbvio, que até uma pequena criança é capaz de compreender: o Reino Unido produz aquele valor de bens e serviços com pouco mais de 60 milhões de habitantes, enquanto o Brasil produz seu PIB com cerca de 200 milhões. Em outras palavras, a produção per capita dos brasileiros ainda é bem menor do que a dos ingleses, e isso é muito mais relevante que o valor absoluto. Afinal, já passamos o PIB da Suíça, com seus 7,6 milhões de habitantes, faz tempo, e não creio que devemos soltar fogos de artifício por conta disso.

Mas não é apenas isso. O PIB mede um fluxo de produção a valor corrente, e isso depende de muitos fatores, tais como a taxa de câmbio e o preço das commodities, quando se trata de um país com relevante exportação de bens básicos como o Brasil. A Inglaterra está passando por uma dolorosa fase de ajustes, com retração econômica e desvalorização de sua moeda. Os países emergentes, especialmente aqueles com fartos recursos naturais como o Brasil, estão com outra dinâmica, crescendo mais e vendo suas moedas se valorizarem.

O governo Dilma não tem mérito pelo que se passa no Chile ou na Austrália, evidentemente. O Brasil, para falar a verdade, cresce aquém de seus pares. E não deixa de ser curioso que o governo tente jogar a culpa da queda do crescimento brasileiro na crise mundial, ao passo que evita reconhecer o crédito da pujança global, particularmente a chinesa, pela fase de maior crescimento econômico aqui. Dois pesos, duas medidas.

Fora isso, outros indicadores devem ser levados em conta para se medir (ou tentar medir) o sucesso de uma sociedade. O IDH é um deles, ainda que também bastante imperfeito. Mas não é preciso ir tão longe. Basta olhar ao redor do país e ver a quantidade de miséria, de favelas, a criminalidade, a infraestrutura caótica, a concentração ilegítima de renda graças aos privilégios do governo, a corrupção, a impunidade, para notar que apenas nacionalistas muito bobocas celebram um dado tão insignificante como este.

Sim, somos o sexto PIB do mundo. Sim, passamos o PIB do Reino Unido. E daí? Com tantos problemas que nos saltam aos olhos diariamente, é o caso de perguntar: Who cares?! Alguém aí melhorou de vida após saber desta notícia? Então que tal voltarmos nossa atenção para a imensa quantidade de problemas que temos de resolver para tornar o Brasil um país melhor, mais próspero, livre e justo? Podemos começar com a questão da impunidade, crucial para nosso futuro. Alguém viu Fernando Pimentel por aí? A propaganda estatal sobre o PIB acima do inglês é apenas “para inglês ver” – ou, no caso, para nacionalistas ingênuos acreditarem que isso muda muita coisa.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Censura

Censura, para os petralhas, significa não tomar o mesmo partido deles. Vejamos o caso deste livro "Privataria Tucana". Uma chuva de spam, orquestrada pelo bunker virtual dos petistas, tentou criar uma sensação de que o livro trazia notícias bombásticas e, por isso, seria ignorado ("censurado") pela grande imprensa. Em primeiro lugar, os veículos de imprensa são propriedade particular, e devem ter a liberdade de escolher os seus assuntos. Em segundo lugar, propriedade privada não censura. Somente o governo tem este poder. Propriedade privada seleciona temas entre alternativas, para seu espaço limitado e escasso. Quantos livros são lançados por mês no país? E quantos recebem atenção da grande mídia? São todos aqueles ignorados (a grande maioria) fruto de censura? Se meu livro não for resenhado pela revista VEJA, isso quer dizer que eu fui censurado? Percebe-se que petistas adoram deturpar a linguagem. Mas eis que agora alguns artigos críticos, detonando o livro, foram de fato publicados na grande imprensa. O livro, depois de muita propaganda petista, não foi mais ignorado; foi analisado, e refutado. E agora os petralhas reclamam que a imprensa só critica o livro, ou seja, nova "censura". Conclui-se que, para petralhas, só não há censura quando a grande imprensa CONCORDA com a propaganda mentirosa do PT. Hello, George Orwell...

PS: Uma rápida aula sobre linguagem para os petralhas que pululam neste site. Eu não censuro comentários. Eu SELECIONO aqueles que são publicados em MEU site, da mesma forma que até um petralha comunista seleciona quem pode ou não entrar em SUA própria casa. Chama-se PROPRIEDADE PRIVADA, aquilo que é fundamental para a civilização, e que petistas tanto atacam. Os critérios de seleção são MEUS. E como qualquer um pode observar, as críticas são aceitas e publicadas, DESDE QUE educadas e centradas em argumentos, e não pura ofensa. O problema é que talvez seja exigir demais de um petista o foco nos argumentos. Se fosse o caso, ele já teria deixado de ser petista há muito tempo!

Um começo medíocre

Rodrigo Constantino, O GLOBO

O governo Dilma completa seu primeiro ano. O que pode ser dito sobre sua gestão até aqui? De forma resumida, o governo não parece à altura dos desafios que o país enfrenta. A sensação que fica é que a presidente deseja empurrar os problemas com a barriga, na expectativa de que cheguemos logo em 2014.
Durante as eleições, foi vendida a imagem de que Dilma era uma eficiente gestora que atuava nos bastidores. Deve ser uma atuação muito discreta mesmo, pois os resultados custam a aparecer. O que vimos foi uma série de atrasos em importantes obras públicas, além do corte nos investimentos como meio para atingir as metas fiscais, já que o governo foi incapaz de reduzir os gastos correntes. A privatização dos caóticos aeroportos nem saiu ainda!
A economia perdeu força e chega ao fim do ano com crescimento pífio. O Ibovespa cai quase 20%. A inflação deve romper o topo da já elevada meta, com o setor de serviços subindo mais de 9%. Trata-se do resultado dos estímulos estatais do modelo “desenvolvimentista”, que olha apenas o curto prazo. O BNDES, com seu “orçamento paralelo”, tenta compensar a ausência das reformas que dariam maior dinamismo à economia.
O país vive em um verdadeiro manicômio tributário, não apenas pela magnitude dos impostos, como por sua enorme complexidade. O que o governo fez? Tentou resgatar a CPMF. A receita tributária sobe sem parar, fruto da gula insaciável do governo. Para piorar, há sinais de incrível retrocesso protecionista, como na elevação do IPI para carros importados.
Nossas leis trabalhistas são ultrapassadas, distribuindo privilégios demais aos que possuem carteira assinada à custa daqueles na informalidade. As máfias sindicais vivem do indecente “imposto sindical”. O que fez o governo para reverter este quadro?
A demografia brasileira ainda permite algum tempo para reformar o sistema previdenciário antes de uma catástrofe nos moldes da Europa, lembrando que lá os países ao menos ficaram ricos antes de envelhecerem. Mas o Brasil, mesmo com população jovem, apresenta um rombo previdenciário insustentável. Onde está a reforma?
A educação pública no Brasil continua de péssima qualidade, e a presidente resolveu manter Fernando Haddad no ministério mesmo depois de seguidos tropeços. O MEC está cada vez mais ideologizado. Nada de concreto foi feito para enfrentar o corporativismo no setor e impor maior meritocracia.
Alguns podem argumentar que existe “vontade política”, mas a necessidade de preservar a “governabilidade” não permite grandes mudanças. Ora, foi o próprio PT quem buscou este modelo de poder! O presidente Lula teve oito anos para lutar por uma reforma política, mas o “mensalão” pareceu um atalho mais atraente. O governo ficou refém de uma colcha de retalhos sem nenhuma afinidade programática. Tudo se resume à partilha do butim da coisa pública.
O resultado está aí: “nunca antes na história deste país” tivemos tantos escândalos de corrupção em apenas um ano de governo. Seis ministros já caíram por conta disso, e outro está na corda bamba. E aqui surge o grande paradoxo: a popularidade da presidente segue em patamar elevado. A classe média parece ter acreditado na imagem de “faxineira” intolerante com os “malfeitos”. Se a gestora eficiente não convence mais em uma economia em franca desaceleração, então ao menos se tem a bandeira ética como refúgio.
Mas esta não resiste a um minuto de reflexão. Todos os escândalos foram apontados pela imprensa, e a reação do governo sempre foi a de ganhar tempo ou proteger os acusados. O caso mais recente, do ministro Fernando Pimentel, que prestou “consultorias” milionárias entre um cargo público e outro, derruba de vez a máscara da “faxina”. O caso se assemelha bastante ao de Palocci, e a própria presidente Dilma declarou que este só saiu porque quis.
Não há intolerância alguma com “malfeitos”. Ao contrário, este é um governo envolto em escândalos, cuja responsabilidade é, em última instância, sempre da própria presidente, que escolhe seus ministros. É questão de tempo até a maioria perceber que esta “faxina ética” não passa de um engodo.
O governo Dilma, em seu primeiro ano, não soube aproveitar o capital político fruto da popularidade elevada: não apresentou nenhuma reforma relevante; não cortou gastos públicos; reduziu os investimentos; ressuscitou fantasmas ideológicos como o protecionismo; não debelou a ameaça inflacionária; e entregou fraco crescimento. Isso tudo além dos infindáveis escândalos de corrupção. Um começo medíocre, sendo bastante obsequioso.

Querem impor a mordaça

Marco Antonio Villa, O GLOBO

Não é novidade a forma de agir dos donos do poder. Nas três últimas eleições presidenciais, o PT e seus comparsas produziram dossiês, violaram sigilos fiscais e bancários, espalharam boatos, caluniaram seus opositores, montaram farsas. Não tiveram receio de transgredir a Constituição e todo aparato legal. Para ganhar, praticaram a estratégia do vale-tudo. Transformaram seus militantes, incrustados na máquina do Estado, em informantes, em difamadores dos cidadãos. A máquina petista virou uma Stasi tropical, tão truculenta como aquela que oprimiu os alemães-orientais durante 40 anos.

A truculência é uma forma fascista de evitar o confronto de ideias. Para os fascistas, o debate é nocivo à sua forma de domínio, de controle absoluto da sociedade, pois pressupõe a existência do opositor. Para o PT, que segue esta linha, a política não é o espaço da cidadania. Na verdade, os petistas odeiam a política. Fizeram nos últimos anos um trabalho de despolitizar os confrontos ideológicos e infantilizaram as divergências (basta recordar a denominação "mãe do PAC").

A pluralidade ideológica e a alternância do poder foram somente suportadas. Na verdade, os petistas odeiam ter de conviver com a democracia. No passado adjetivavam o regime como "burguês"; hoje, como detém o poder, demonizam todos aqueles que se colocam contra o seu projeto autoritário. Enxergam na Venezuela, no Equador e, mais recentemente, na Argentina exemplos para serem seguidos. Querem, como nestes três países, amordaçar os meios de comunicação e impor a ferro e fogo seu domínio sobre a sociedade.

Mesmo com todo o poder de Estado, nunca conseguiram vencer, no primeiro turno, uma eleição presidencial. Encontraram resistência por parte de milhões de eleitores. Mas não desistiram de seus propósitos. Querem controlar a imprensa de qualquer forma. Para isso contam com o poder financeiro do governo e de seus asseclas. Compram consciências sem nenhum recato. E não faltam vendedores sequiosos para mamar nas tetas do Estado.

O panfleto de Amaury Ribeiro Junior ("A privataria tucana") é apenas um produto da máquina petista de triturar reputações. Foi produzido nos esgotos do Palácio do Planalto. E foi publicado, neste momento, justamente com a intenção de desviar a atenção nacional dos sucessivos escândalos de corrupção do governo federal. A marca oficialista é tão evidente que, na quarta capa, o editor usa a expressão "malfeito", popularizada recentemente pela presidente Dilma Rousseff quando defendeu seus ministros corruptos.

Sob o pretexto de criticar as privatizações, focou exclusivamente o seu panfleto em José Serra. O autor chegou a pagar a um despachante para violar os sigilos fiscais de vários cidadãos, tudo isso sob a proteção de uma funcionária (petista, claro) da agência da Receita Federal, em Mauá, região metropolitana de São Paulo. Ribeiro - que está sendo processado - não tem vergonha de confessar o crime. Disse que não sabia como o despachante obtinha as informações sigilosas. Usou 130 páginas para transcrever documentos sem nenhuma relação com o texto, como uma tentativa de apresentar seriedade, pesquisa, na elaboração das calúnias. Na verdade, não tinha como ocupar as páginas do panfleto com outras reportagens requentadas (a maioria publicada na revista "IstoÉ").

Demonstrando absoluto desconhecimento do processo das privatizações, o autor construiu um texto desconexo. Começa contando que sofreu um atentado quando investigava o tráfico de drogas em uma cidade-satélite do Distrito Federal. Depois apresenta uma enorme barafunda de nomes e informações. Fala até de um diamante cor-de-rosa que teria saído clandestinamente do país. Passa por Fernandinho Beira-Mar, o juiz Nicolau e por Ricardo Teixeira. Chega até a desenvolver uma tese que as lan houses, na periferia, facilitam a ação dos traficantes. Termina o longo arrazoado dizendo que foi obrigado a fugir de Brasília (sem explicar algum motivo razoável).

O panfleto não tem o mínimo sentido. Poderia servir - pela prática petista - como um dossiê, destes que o partido usa habitualmente para coagir e tentar desmoralizar seus adversários nas eleições (vale recordar que Ribeiro trabalhou na campanha presidencial de Dilma). O autor faz afirmações megalomaníacas, sem nenhuma comprovação. A edição foi tão malfeita que não tomaram nem o cuidado de atualizar as reportagens requentadas, como na página 170, quando é dito que "o primo do hoje candidato tucano à Presidência da República..." A eleição foi em 2010 e o livro foi publicado em novembro de 2011 (e, segundo o autor, concluído em junho deste ano).

O panfleto deveria ser ignorado. Porém, o Ministério da Verdade petista, digno de George Orwell, construiu um verdadeiro rolo compressor. Criou a farsa do livro invisível, isto quando recebeu ampla cobertura televisiva da rede onde o jornalista dá expediente. Junto às centenas de vozes de aluguel, Ribeiro quis transformar o texto difamatório em denúncia. Fracassou. O panfleto não para em pé e logo cairá no esquecimento. Mas deixa uma lição: o PT não vai deixar o poder tão facilmente, como alguns ingênuos imaginam. Usará de todos os instrumentos de intimidação contra seus adversários, mesmo aqueles que hoje silenciam, acreditando que estão "pela covardia" protegidos da fúria fascista. O PT não terá dúvida em rasgar a Constituição, se for necessário ao seu plano de perpetuação no poder. O panfleto é somente uma pequena peça da estrutura fascista do petismo.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Segurança tem custo


Rodrigo Constantino, revista VOTO

Vivemos em uma época um tanto acovardada, em que muitos passaram a crer que é possível eliminar os riscos da vida delegando a responsabilidade ao governo. Com o auxílio das leis, vamos impor alimentos saudáveis, banir o tabaco da face da Terra, cortar a fritura e a gordura, produzir automóveis ultra-seguros e por aí vai. Tudo em nome de uma vida mais protegida e prolongada. Poucos se dão conta, porém, de que esta obsessão por mais segurança tem custos.

Vejamos o caso do automóvel. A paranóia para se evitar acidentes, sempre atacando os sintomas em vez das causas, já levou à criação de uma lei intolerante ao extremo com o consumo de álcool. O sujeito que sair para jantar com a mulher e beber uma taça de vinho estará cometendo um crime se pegar no volante depois. O custo indireto desta medida radical pode ser a redução do faturamento dos restaurantes, suborno para policiais, multa para o governo, ou mais gasto com táxi. Tudo por causa da maldita taça de vinho!

A intenção é boa: impedir que bêbados sem condição alguma peguem na direção dos carros, colocando a vida dos outros em evidente perigo. Mas o custo de exagerar na dose – não da bebida, mas da lei – pode ser muito alto. A dificuldade de se medir seu efeito indireto faz com que a maioria note somente os resultados diretos no curto prazo: a redução de acidentes. Mas se esta é a única meta, e se vamos ignorar seus custos, então banir de uma vez o uso do automóvel seria ainda mais eficiente para acabar com os acidentes.

Quando colocamos a situação desta forma, a maioria compreende que tal medida seria absurda, pois seu custo seria muito elevado. Mas estamos apenas discutindo uma questão de grau. A tal “Lei Seca” também impõe pesados custos, e estes devem ser levados em conta na hora de decidir a questão. O ponto principal é reconhecer que a segurança tem custos, e ela não deve, por si só, ser o único objetivo. Há outros valores em jogo, e devemos evitar o sensacionalismo daqueles que repetem que “salvar vidas não tem preço”. Tem sim, e ele pode ser bem elevado!

Os economistas aprendem logo cedo que os recursos são escassos, e que seu uso passa constantemente por uma concorrência entre diferentes alternativas. A segurança é mais um item que deve ser levado em conta, mas não o único. Ainda sobre automóveis, podemos pensar nos itens de segurança de um carro. Freios ABS, airbags, blindagem, tudo isso pode realmente oferecer mais segurança para o usuário. Mas nem por isso vamos assumir que são isentos de custo.

Quando o governo obriga os fabricantes a incluir esses itens nos modelos básicos, isso envolve preços maiores para os consumidores. Ignorar este efeito é fugir da realidade. Se todos os carros terão que oferecer airbags de fábrica, isso quer dizer que o custo será repassado para o preço final. Em outras palavras, o governo está decidindo pelo consumidor o que ele deve valorizar mais entre as alternativas concorrentes. Talvez o consumidor preferisse um sistema de som mais potente. Ou talvez ele achasse melhor economizar esta quantia e usá-la para outra finalidade qualquer.

Logo, sempre que o governo apela para a mensagem de maior segurança para impor medidas, deve-se ter em mente o que ele está fazendo de fato: escolhendo pelos consumidores. A premissa por trás desta mentalidade paternalista é que os próprios consumidores são incapazes de escolher por conta própria. Assume-se que o usuário não valoriza tanto sua própria segurança, e que ele assim deveria fazer. Trata-se de uma visão autoritária e depreciativa do indivíduo, tratado como mentecapto.

Viver é arriscado. É impossível, além de indesejável, eliminar todos os riscos. E, como os recursos são escassos e segurança tem custo, deve-se sempre encarar a busca por maior segurança como um “trade-off”, ou seja, algo é deixado de lado em troca dela. Quando observamos a coisa por este prisma realista, a questão que surge é a seguinte: quem deve escolher? Muitos pensam que cabe ao governo esta escolha. São os adeptos de uma crença autoritária e elitista, um tanto platônica até, de que os governantes são mais esclarecidos e devem impor suas preferências aos demais.

Outros aceitam que as escolhas devem ser do próprio indivíduo, que por sua vez deve assumir a responsabilidade por elas. Se viver é arriscado e se mais segurança significa menos de algum outro bem, então é o próprio indivíduo quem deve pesar os prós e contras e decidir, quando apenas a sua segurança está em jogo. É a postura dos liberais que, como Thomas Sowell, reconhecem que não há nada mais perigoso do que deixar algumas pessoas tomarem as decisões pelas quais outros terão que pagar pelos custos.

Como sabia Hayek, outro grande liberal, a liberdade concedida somente quando se sabe a priori que seus efeitos serão benéficos não é liberdade. Ser livre, afinal, significa ser livre para cometer grandes erros ou correr riscos mortais. Segurança custa caro, e quando imposta sacrifica o que há de mais valioso para o indivíduo: sua liberdade. Agradeço a preocupação dos demais, mas podem deixar que da minha segurança eu mesmo cuido!

Saudades de Deus

LUIZ FELIPE PONDÉ, Folha de SP

Tem coisa mais monótona do que discutir sobre a existência ou não de Deus? Ninguém crê em Deus "por razões lógicas". Isso é papo furado. Ninguém "decide" ter fé.
Tentar provar que Deus existe porque ele seria "uma necessidade da razão" me parece um engodo.
Primeiro porque a razão é risível em suas necessidades, como diria o cético Michel de Montaigne (século 16). A pergunta pela origem de tudo que existe (como numa espécie de aristotelismo aguado) não prova nada. Temos inúmeras necessidades que não são autoevidentes -por exemplo, que o bem deva vencer ao final das coisas.
Muitas vezes o mal vence e pronto. Quase sempre. Por outro lado, é interessante se pensar de onde veio a matéria que explodiu um dia e o lugar onde ela explodiu.
Mas isso nada prova acerca do Deus ocidental. O princípio pode ser uma mecânica estúpida.
Aliás, o chamado "argument from evil" (argumento a partir do mal) do ateísmo é famoso. Autores grandes como Dostoiévski e Kafka, entre outros, já o frequentaram de forma brilhante.
O argumento basicamente é o seguinte: se Deus é bom, por que o mundo é mau? Alguns já chegaram a supor que Deus seria mesmo mau, como o próprio Kafka.
Duas questões são importantes apontar nesse debate, uma com relação aos crentes, outra aos ateus.
Primeiro os crentes. Uma falácia comum por parte dos crentes é supor que seria impossível você ser uma pessoa razoavelmente moral sem alguma forma de religião. A história prova que ateus e crentes dividem o mesmo lote de miséria moral. Pouco importa ser ou não crente.
Pessoalmente, acho que o acaso decide: o temperamento (o acaso de você ter nascido "assim ou assado") é quase sempre o juiz do comportamento humano e não "valores" religiosos ou éticos seculares (não religiosos).
Portanto, a tentativa de afirmar que, se você é ateu você necessariamente não é "bom", é pura falácia. Tampouco penso que uma religião faça falta para todas as pessoas. Muita gente vive sem crise sem acreditar em coisa nenhuma "do outro mundo". Isso não significa que ela seja sempre feliz (tampouco os religiosos o são), a (in)felicidade depende de inúmeros fatores.
E mais: "crer ou não crer" não é algo que você escolhe, "acontece". Grandes teólogos como Santo Agostinho, Lutero e Calvino diziam que a "fé é uma graça" (simplificando a coisa), alguns receberam o dom e outros não (portanto, ela "acontece", como eu dizia acima, não é você quem escolhe ter ou não). Acho essa ideia bem mais elegante do que esse papo furado acerca das necessidades racionais, sociais, morais ou psíquicas da crença.
Quanto aos ateus, acho risível a ideia de que o ateísmo seja uma "conquista" da razão ou de alguma forma de rigor moral ou "coragem cosmológica".
Nada disso, como já disse antes, e repito, até golfinhos conseguem ser ateus em sua maravilhosa vida aquática. Fiquei ateu quando tinha oito anos.
O ateísmo me parece, entre todas as hipóteses sobre o universo, a mais fácil, simples, rápida e quase "fast food theory" (teoria fast food).
Não precisamos nos esforçar muito para perceber que podemos talvez um dia descobrir a causa "natural" do universo, ou acabarmos como espécie antes de descobrir qualquer coisa. E "who cares" se sumirmos um dia?
E mais: é quase evidente que somos uma raça abandonada na face da Terra e a indiferença dos elementos naturais para conosco (sejam eles externos ou internos ao nosso corpo) salta aos olhos.
E mais: a possibilidade de estarmos sozinhos é sempre mais fácil do que acompanhados por um ser maravilhoso, dono do universo e que sabe cada fio do cabelo que você tem na cabeça.
Não há nenhuma evidencia definitiva de que Deus ou que qualquer outra entidade divina exista. O ônus da prova é de quem crê. Além do fato de que os japoneses, caras bem inteligentes, não creem em Jesus na maioria das vezes.
Acho Deus uma hipótese acerca da origem das coisas mais elegante do que a dos golfinhos. Mas, por outro lado, a ideia de que um dia o pó tomou consciência de si mesmo e constatou sua dolorosa solidão cósmica é bela como uma ópera.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Argentina: a meta dos petistas


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

O ataque do governo Kirchner à imprensa independente atingiu patamares venezuelanos, quiçá cubanos, nos últimos dias. A tentativa de calar o grupo Clarín vem desde o governo anterior do falecido Nestor Kirchner. Os meios usados são sempre truculentos, como na operação em que mais de 200 fiscais da Receita foram à sede do jornal para buscar qualquer indício de ilegalidade. Desta vez, a intenção é cortar a matéria-prima do jornal: o papel.

O senador Miguel Pichetto, líder da bancada governista, foi direto ao ponto: “O Clarín é inimigo do governo”. Simples assim. O governo não tolera críticas, e precisa usar – a abusar – das leis arbitrárias para impedir o trabalho destes “inimigos”. Outro senador governista explicou a lógica da medida que poderá aumentar a participação acionária do Estado na fornecedora de papel: “Se a lei levará ou não a uma expropriação não sabemos, ainda não fazemos futurologia. Mas se isso ocorrer, não será expropriada a liberdade de expressão, mas uma empresa”. Ah bom!

O que se passa na Argentina nos remete ao alerta feito por Hayek em seu brilhante O Caminho da Servidão, onde o economista austríaco demonstra que a liberdade econômica é fundamental para preservar a liberdade política. Em outras palavras, se o governo pode intervir de forma arbitrária na economia, ele pode manter qualquer um como refém. Basta ele ser dono de uma simples fornecedora de papel, por exemplo, para ele controlar toda a mídia impressa. O cão não morde a mão que o alimenta.

Os lamentáveis, porém previsíveis acontecimentos argentinos devem servir de alerta aos brasileiros. O governo petista, antes com o presidente Lula e agora com Dilma, vem tentando expandir os tentáculos estatais na economia, infelizmente com sucesso. E o controle da imprensa independente tem sido uma verdadeira obsessão de muitos petistas. Se os argentinos, mais educados que nós na média, não foram capazes de evitar tal destino trágico, o que garante que nós iremos escapar desta sina?

Toda mobilização será necessária para proteger a liberdade de imprensa por aqui. Afinal, sabemos que aquilo que a Argentina está conseguindo fazer é a meta de muitos petistas. Alguns devem inclusive estar com baba de inveja escorrendo pelo canto da boca, sonhando com o dia em que a revista Veja e os jornais O Globo e Estadão dependerão da aprovação do governo para obter papel.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Fascismo quase disfarçado

JOSÉ SERRA, O Globo

Nos anos recentes, o ímpeto petista para cercear a liberdade de expressão e de impressa vem sendo contido por dois fatores: a resistência da opinião pública e a vigilância do Supremo Tribunal Federal. Poderia haver também alguma barreira congressual, mas essa parece cada vez mais neutralizada pela avassaladora maioria do Executivo.

É um quadro preocupante, visto que o PT só tem recuado de seus propósitos quando enfrenta resistência feroz. Aconteceu no Programa Nacional de Direitos Humanos, na sua versão petista, o PNDH-3. Aconteceu também na última campanha eleitoral, quando a candidata oficial precisou assumir compromissos explícitos com a liberdade para evitar uma decisiva erosão de votos.

Mas não nos enganemos. Qualquer compromisso do PT com a liberdade e a pluralidade de opinião e manifestação será sempre tático, utilitário, à espera da situação ideal de forças em que se torne finalmente desnecessário. Para o PT, não basta a liberdade de emitir a própria opinião, é preciso "regular" o direito alheio de oferecer uma ideia eventualmente contrária.

O PT construiu e financia ao longo destes anos no governo toda uma rede para não apenas emitir a própria opinião e veicular a informação que considera adequada, mas para tentar atemorizar, constranger, coagir quem por algum motivo acha que deve pensar diferente. Basta o sujeito trafegar na contramão das versões oficiais para receber uma enxurrada de ataques, xingamentos e agressões à honra.

Outro dia um prócer do petismo lamentou não haver, segundo ele, veículos governistas. Trata-se de um exagero, mas o ponto é útil para o debate. Ora, se o PT sente falta de uma imprensa governista, que crie uma capaz de estabelecer-se no mercado e concorrer. Mas a coisa não vai por aí. O que o PT deseja é transformar em governistas todos os veículos existentes, para anular a fiscalização e a crítica.

O governo Dilma Rousseff deve ter batido neste primeiro ano o recorde mundial de velocidade de ministros caídos sob suspeita de corrupção. E parece ainda haver outros a caminho. As acusações foram veiculadas pela imprensa, na maioria, e a presidente considerou que eram graves o bastante, tanto que deixou os auxiliares envolvidos irem para casa. Mas, no universo paralelo petista, e mesmo na alma do governo, trata-se apenas de uma conspiração da imprensa.

Pouco a pouco, o PT procura construir no seu campo a ideia de que uma imprensa livre é incompatível com a estabilidade política, com o desenvolvimento do país e a busca da justiça social. E certamente tentará usar a maioria congressual para atacar os princípios constitucionais que garantem a liberdade de crítica, de manifestação e o exercício do direito de informar e opinar.

Na vizinha Argentina assistimos ao fechamento do cerco governamental em torno da imprensa. A última medida nesse sentido é a estatização do direito de produzir e importar papel para a atividade. O governo é quem vai decidir a quanto papel o veículo tem direito. É desnecessário estender-se sobre as consequências desse absurdo.

O PT e seus aliados continentais têm tratado do tema de modo bastante claro, em todos os fóruns possíveis. Seria a luta contra o "imperialismo midiático", conceito que atribui toda crítica e contestação a interesses espúrios de potências estrangeiras associadas a "elites" locais. Um arcabouço mental que busca legitimar as pressões liberticidas. Um fascismo (mal)disfarçado.No cenário sul-americano, o Brasil vem por enquanto resistindo bastante bem a esses movimentos, na comparação com os vizinhos. Ajudam aqui a Constituição e a existência de uma sociedade civil forte e diversificada. Mas nenhuma fortaleza é inexpugnável. Especialmente quando a economia depende em grau excessivo do Estado, e portanto do governo.

Nenhuma liberdade se conquista sem luta, sabemos disso. Lutamos contra a ditadura, ombreados, inclusive, aos que só estavam conosco porque a ditadura não era deles. Mas essa liberdade que obtivemos precisa ser defendida a todo momento, num processo dinâmico, pois os ataques a ela também são permanentes.

What Ron Paul Thinks of America


By DOROTHY RABINOWITZ, WSJ

Ron Paul's supporters are sure of one thing: Their candidate has always been consistent—a point Dr. Paul himself has been making with increasing frequency. It's a thought that comes up with a certain inevitability now in those roundtables on the Republican field. One cable commentator genially instructed us last Friday, "You have to give Paul credit for sticking to his beliefs."

He was speaking, it's hardly necessary to say, of a man who holds some noteworthy views in a candidate for the presidency of the United States. One who is the best-known of our homegrown propagandists for our chief enemies in the world. One who has made himself a leading spokesman for, and recycler of, the long and familiar litany of charges that point to the United States as a leading agent of evil and injustice, the militarist victimizer of millions who want only to live in peace.

Hear Dr. Paul on the subject of the 9/11 terror attacks—an event, he assures his audiences, that took place only because of U.S. aggression and military actions. True, we've heard the assertions before. But rarely have we heard in any American political figure such exclusive concern for, and appreciation of, the motives of those who attacked us—and so resounding a silence about the suffering of those thousands that the perpetrators of 9/11 set out so deliberately to kill.

There is among some supporters now drawn to Dr. Paul a tendency to look away from the candidate's reflexive way of assigning the blame for evil—the evil, in particular, of terrorism—to the United States.

One devout libertarian told me recently that candidate Paul "believes in all the things I do about the menace of government control, and he's a defender of the Constitution—I just intend to take what I like about him." The speaker, educated and highly accomplished in his field (music), is a committed internationalist whose views on American power are polar opposites of those his candidate espouses. No matter. Having tuned out all else that candidate has said—with, yes, perfect consistency—it was enough for him that Dr. Paul upheld libertarian values.

This admirer is representative of a fair number of people now flocking to the Paul campaign or thinking of doing so. It may come as a surprise to a few of them that in the event of a successful campaign, a President Paul won't be making decisions based just on the parts of his values that his supporters find endearing. He'd be making decisions about the nation's defense, national security, domestic policy and much else. He'd be the official voice of America—and, in one conspicuous regard, a familiar one.

The world may not be ready for another American president traversing half the globe to apologize for the misdeeds of the nation he had just been elected to lead. Still, it would be hard to find any public figure in America whose views more closely echo those of President Obama on that tour.

Most of Dr. Paul's supporters, of course, don't actually imagine he can become president. Nor do they dwell on the implications of the enlarged influence conferred on him by a few early primary victories (a third-party run is not something he rules out, the ever-consistent Dr. Paul has repeatedly said under questioning).

A grandfatherly sort who dispenses family cookbooks on the campaign trail, candidate Paul is entirely aware of the value of being liked. He has of late even tried softening the tone of some of his comments on the crime of foreign aid and such, but it doesn't last long. There he was at the debate last Thursday waving his arms, charging that the U.S. was declaring "war on 1.2 billion Muslims," that it "viewed all Muslims as the same." Yes, he allowed, "there are a few radicals"—and then he proceeded to hold forth again on the good reasons terrorists had for mounting attacks on us.

His efforts on behalf of Iran's right to the status of misunderstood victim continued apace. On the Hannity show following the debate, Dr. Paul urged the host to understand that Iran's leader, Mahmoud Ahmadinejad, had never mentioned any intention of wiping Israel off the map. It was all a mistranslation, he explained. What about Ahmadinejad's denial of the Holocaust? A short silence ensued as the candidate stared into space. He moved quickly on to a more secure subject. "They're just defending themselves," he declared.

Presumably he was referring to Iran's wishes for a bomb. It would have been intriguing to hear his answer had he been asked about another Ahmadinejad comment, made more than once—the one in which the Iranian leader declares the U.S. "a Satanic power that will, with God's will, be annihilated."

There can be no confusions about Dr. Paul's own comments about the U.S. After 9/11, he said to students in Iowa, there was "glee in the administration because now we can invade Iraq." It takes a profoundly envenomed mindset—one also deeply at odds with reality—to believe and to say publicly that the administration of this nation brought so low with grief and loss after the attack had reacted with glee. There are, to be sure, a number of like-minded citizens around (see the 9/11 Truthers, whose opinions Dr. Paul has said he doesn't share). But we don't expect to find their views in people running for the nation's highest office.

The Paul comment here is worth more than a passing look. It sums up much we have already heard from him. It's the voice of that ideological school whose central doctrine is the proposition that the U.S. is the main cause of misery and terror in the world. The school, for instance, of Barack Obama's former minister famed for his "God d— America" sermons: the Rev. Jeremiah Wright, for whom, as for Dr. Paul, the 9/11 terror assault was only a case of victims seeking justice, of "America's chickens coming home to roost."

Some in Iowa are reportedly now taking a look at Dr. Paul, now risen high in the polls there. He has plenty of money for advertising and is using it, and some may throw their support to him, if only as protest votes. He appears to be gaining some supporters in New Hampshire as well. It seemed improbable that the best-known of American propagandists for our enemies could be near the top of the pack in the Iowa contest, but there it is. An interesting status for a candidate of Dr. Paul's persuasion to have achieved, and he'll achieve even more if Iowans choose to give him a victory.

Ms. Rabinowitz is a member of the Journal's editorial board.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

The Financial Crisis on Trial


By PETER J. WALLISON, WSJ

The SEC fingers the government-backed mortgage buyers, not Wall Street greed

The Securities and Exchange Commission's lawsuits against six top executives of Fannie Mae and Freddie Mac, announced last week, are a seminal event.

For the first time in a government report, the complaint has made it clear that the two government-sponsored enterprises (GSEs) played a major role in creating the demand for low-quality mortgages before the 2008 financial crisis. More importantly, the SEC is saying that Fannie and Freddie—the largest buyers and securitizers of subprime and other low-quality mortgages—hid the size of their purchases from the market. Through these alleged acts of securities fraud, they did not just mislead investors; they deprived analysts, risk managers, rating agencies and even financial regulators of vital data about market risks that could have prevented the crisis.

The lawsuit necessarily focuses on 2006 and 2007, the years that are still within the statute of limitations. But according to the SEC complaint, the behavior went on for many years: "Since the 1990s, Freddie Mac internally categorized loans as subprime or subprime-like as part of its loan acquisition program," while its senior officials continued to state publicly that it had little or no exposure to subprime loans.

The GSEs began acquiring large numbers of subprime and other low-quality loans in the mid-1990s, as they tried to comply with the government's affordable-housing requirements—quotas for mortgage purchases imposed by the Department of Housing and Urban Development (HUD) under legislation enacted by Congress in 1992.

These quotas initially required that, of all the loans bought by Fannie and Freddie in any year, 30% had to have been made to borrowers earning at or below the median income in their communities. The quotas, however, would increase—they rose to 40% in 1996, 50% in 2000, and 55% in 2007. HUD also added and raised quotas for "special affordable" loans that were to be made to borrowers with low or very low incomes (in some cases a mere 60% of the area median income).

It is certainly possible to find prime mortgages among borrowers whose incomes are below the median, but this becomes more difficult as the quota percentages increase. Indeed, by 2000 Fannie and Freddie were offering to buy zero-down payment loans and buying large numbers of subprime mortgages in order to meet the HUD quotas.

According to the SEC, for example, Fannie failed to disclose a low-quality loan known as an Expanded Approval (EA) mortgage—even though these loans had the highest rate of "serious delinquency" (90 days past due, and almost certainly going to foreclosure) in Fannie's book. Those EA loans—as then-Chairman Daniel Mudd told the House Financial Services Committee in April 2007—"helped us meet our HUD affordable housing requirements."

Meeting these quotas made Fannie and Freddie important factors in the financial crisis. Relying on the research of my colleague Edward Pinto at the American Enterprise Institute, I stated in my dissent from the majority report of the Financial Crisis Inquiry Commission that there were approximately 27 million subprime and other risky mortgages outstanding on June 30, 2008, and a lion's share was on Fannie and Freddie's books. That has now been largely confirmed by the SEC's data.

The SEC also charges that Fannie and Freddie's disclosures grossly understated the number of subprime and other risky loans they were holding or securitizing. For example, Freddie's Information Statement and Annual Report to Stockholders, in March 2006, reported that for 2005 and 2004 the company's exposure to subprime loans was "not significant." According to the SEC complaint, subprime mortgages at this point constituted 10% of Freddie's exposures.

Similarly, Fannie held over $94 billion in EA loans in 2007, according to the SEC—"11 times greater than the 0.3% ($8.3 billion)" in subprime loans Fannie disclosed for that year. (According to an SEC press release, both GSEs have agreed with the commission's "Statement of Facts" about their disclosure failures, without admitting or denying liability. They also agreed to cooperate with the commission's litigation against the former executives.)

Fannie and Freddie were the dominant players in the U.S. mortgage markets, by far the largest buyers of mortgages and mortgage-backed securities of all kinds. Statements by these two firms that their exposure to subprime mortgages was "not significant" or ".03 percent" would be read by analysts and other mortgage market participants as strong indications that relatively few subprime and other low-quality mortgages were outstanding.

My own research, as a member of the Financial Crisis Inquiry Commission (and a dissenter from its majority report), did not turn up any analyst report or other public statement before the 2008 crisis that came close to estimating the actual number of subprime or other low-quality mortgages outstanding.

These failures to disclose subprime holdings meant that banks and other financial institutions, risk managers, analysts, rating agencies and even regulators may well have underestimated the risks of continuing to acquire, hold and distribute mortgages and mortgage-backed securities. Thus, when the bubble deflated in 2007, the financial system, and particularly the largest financial institutions, were primed for immense losses.

Mr. Wallison is a senior fellow at the American Enterprise Institute.

Want Growth? Try Stable Tax Policy


By JOHN B. TAYLOR, WSJ

The two-month payroll tax cut being debated in Washington reduces to the absurd the recent revival of short-term Keynesian stimulus programs. That such a temporary cut would stimulate the recovery and get employment growing defies common sense.

There is no hard evidence that the temporary payroll tax cut of this year stimulated the economy, and another one for the first two months of next year will obviously do even less. In fact, economic growth declined after this year's temporary tax cut was implemented, so proponents need to appeal to dubious "things-would-have-been-worse" arguments.

Like the one-time rebate of 2001, the temporary tax cut of 2008, the cash-for-clunkers and stimulus payments of 2009, or similar policies tried back in the 1970s, these temporary policies consistently fail to stimulate sustainable recoveries. And as this history shows, extending the temporary reduction from two months to six months or even to 12 months would be at best a marginal improvement.

Even economists who claim that these policies stimulate—such as those at forecasting firm Macroeconomic Advisers—admit that they cost jobs as they are turned off, leaving the recovery no better off. Republican presidential candidates Michele Bachmann and Mitt Romney are right to call the payroll tax scheme, respectively, a "temporary gimmick" and "just a Band-Aid."

But the policies are worse than doing nothing at all. Rather than stimulate the economy, they hold the economy back by creating policy unpredictability and by distracting Washington from crucial long-term reforms that are key to restoring economic growth and creating jobs.

Indeed, this type of temporary tax change is making the entire tax system unpredictable. According to the Joint Committee on Taxation, the payroll tax cut is only one of 84 tax provisions expiring this year, about the same as in 2009 and in 2010. This is 10 times greater than the number of provisions that expired in 1999. As shown in a paper presented this October by economists Scott Baker and Nicholas Bloom of Stanford University and Steven Davis of the University of Chicago Booth School of Business, this increase in policy uncertainty is one of the factors slowing economic growth.

Many of these temporary changes, such as the "three year depreciation for race horses two years old or younger," serve special interests, illustrating their unfairness and economic inefficiency as well as unpredictability. The "temporary and targeted" mantra in support of stimulus packages has wrought an on-again, off-again discretionary fiscal policy in which Congress puts virtually the whole tax system up for grabs each year.

Some claim that such policy unpredictability is not a problem, arguing that an obvious lack of demand rather than policy uncertainty is holding the economy back. But demand is low in part because firms are reluctant to hire workers or invest long term not knowing what tax rates and other provisions will be. Demand for investment will increase if policy unpredictability is reduced. And consumption demand will increase if workers' incomes increase on a more permanent basis, which requires a sustainable recovery with much lower unemployment, not the current short-termism of stimulus packages.

Others say that these temporary stimulus policies actually work by pointing to the Reagan tax cuts. But the 1980s tax cuts were not temporary—they lowered tax rates permanently, and that is why they were so effective.

Extending the payroll tax cut from two months to six or 12 months does not reduce policy uncertainty by much. People who now say that we need another temporary tax cut to avoid a devastating tax hike will certainly say the same thing at the end of those six or 12 months, creating the same partisan debates and unpredictability and also raising serious doubts about the future of Social Security, which is of course funded from the payroll tax.

A more promising and lasting approach would be to take on payroll tax reform as part of Social Security reform. Though not feasible in the last two weeks of the year, taking a small step in that direction would be a big positive step for the economy.

Currently there is significant debate over whether Social Security can be reformed without a future increase in the payroll tax. Many of the reform proposals put forth last year by the Congressional Budget Office (CBO) in its report on "Social Security Policy Options" call for such an increase. So it is not surprising that many firms and workers expect a permanent increase in the payroll tax down the road, regardless of temporary measures. A credible bipartisan agreement not to include a payroll tax increase as part of future Social Security reform would effectively be a permanent tax cut.

There are many reforms that do not require a tax increase. One, put forth by the CBO in its report, would simply keep real benefits adjusted for inflation from rising in the future as they are now expected to do. In this "golden rule" reform, each generation transfers to the next generation the same real benefit that it received from previous generations.

There are other reforms worth considering, including shifting future benefits toward those with lower lifetime earnings. But the point is to take some action now that creates more policy predictability and thereby brings about a robust sustainable recovery.

Mr. Taylor, a professor of economics at Stanford and a senior fellow at Stanford's Hoover Institution, is the author of "First Principles: Five Keys to Restoring America's Prosperity" out next month by W.W. Norton.

terça-feira, dezembro 20, 2011

A vida de Václav Havel na verdade


Por Jirí Pehe, Valor

Muito antes do colapso do regime comunista na Tchecoslováquia, em 1989, Václav Havel era uma das figuras mais notáveis da história tcheca - já um dramaturgo de sucesso quando tornou-se o líder não oficial do movimento de oposição. Embora ele esperasse voltar a escrever, a revolução o catapultou à presidência da Tchecoslováquia e, depois que o país fragmentou-se, em 1993, ele foi eleito presidente da nova República Tcheca, cargo que ocupou até 2003.

Uma carreira política enraizada em coincidência histórica tornou Havel um político incomum. Não apenas ele trouxe à política pós-1989 uma certa desconfiança em relação aos partidos políticos, mas como ex-dissidente Havel considerava fundamental enfatizar a dimensão moral da política - uma posição que o colocou em rota de colisão com os pragmáticos e tecnólogos do poder, cujo principal representante, Václav Klaus, o sucedeu como presidente.

A vida pública de Havel poderia ser dividida em três períodos distintos: o artista (1956-1969), o dissidente (1969-1989) e o político (1989-2003) - porém ele sempre combinou essas três sensibilidades em suas atividades públicas. Como dramaturgo promissor na década de 1960, ele foi certamente muito "político", concentrando-se sobre o absurdo do regime. Ele também foi um dos críticos mais duros contra a censura e outras violações dos direitos humanos, o que fez dele um dissidente, mesmo durante a liberal "Primavera de Praga" de 1968.

Havel foi posto na lista negra e perseguido abertamente após a invasão soviética da Tchecoslováquia em agosto daquele ano, mas continuou escrevendo peças antitotalitárias. Em 1977, ele e mais de 200 outros dissidentes fundaram o movimento de direitos humanos Carta 77, que rapidamente estabeleceu-se como uma força da oposição. Havel foi um dos três primeiros porta-vozes do movimento.

No ano seguinte, ele escreveu um ensaio seminal, "O Poder dos Sem Poder", em que descreveu o regime "normalizador" pós-1968 na Tchecoslováquia como um sistema moralmente falido e baseado em mentiras que permeavam tudo. Em 1979, ele foi condenado a uma pena de prisão de cinco anos por sua atividade no Comitê dos Processados Injustamente, um desdobramento do Carta 77 que monitorava abusos contra os direitos humanos e perseguições na Tchecoslováquia. Ele foi libertado perto do fim de seu mandato após contrair pneumonia (uma fonte de sérios problemas de saúde pelo resto de sua vida). Seu "Cartas a Olga", ensaios filosóficos escritos na prisão e dirigidas à sua esposa, rapidamente tornou-se um clássico da literatura antitotalitária.

Como presidente da Tchecoslováquia, Havel continuou a mesclar sua sensibilidades política, dissidente e artística. Ele insistia em escrever seus próprios discursos, concebendo muitos deles como obras filosóficas e literárias, onde não só criticava a tecnologia desumanizada da política moderna, com também várias vezes apelou para que os tchecos não caíssem em consumismo e política partidária insensata.

Havel tinha uma concepção de democracia baseada em uma sociedade civil forte e em moralidade. Isso o distinguia de Klaus, a outra figura líder na transformação pós-comunista, que defendia uma transição rápida e despojada, se possível, de inconvenientes escrúpulos e impedimentos morais impostos pelo Estado de Direito. O conflito entre eles chegou ao auge em 1997, quando o governo liderado por Klaus caiu após uma série de escândalos. Havel qualificou o sistema econômico criado pelas reformas pós-comunistas de Klaus como "capitalismo mafioso".

Embora Klaus nunca tenha retornado ao posto de primeiro-ministro, sua abordagem "pragmática" predominou na política tcheca, especialmente após Havel ter deixado a presidência em 2003. Na verdade, a maior derrota de Havel pode estar no fato de que a maioria dos tchecos agora veem seu país como um lugar onde os partidos políticos servem como agentes de poderosos grupos econômicos (muitos deles criados pelo processo de privatização, muitas vezes corrupto, supervisionado por Klaus).

Nos últimos anos de sua presidência, adversários políticos de Havel o ridicularizavam como um moralista ingênuo. Muitos tchecos comuns, por outro lado, passaram a desgostar dele, não só pelo que parecia ser um moralismo implacável, mas também porque recolocava diante deles sua própria falta de coragem durante o regime comunista. Embora ele continuasse desfrutando respeito e admiração no exterior, ainda que somente por prosseguir em sua luta contra abusos dos direitos humanos em todo o mundo, em seu país sua popularidade sofreu um abalo.

Porém isso cessou. Os tchecos, dada a crescente insatisfação com a herança onipresente de corrupção no sistema político atual e outras deficiências, passou a apreciar cada vez mais a importância dos recursos morais de Havel. Na verdade, agora, depois de sua morte, está bastante consolidada sua imagem como a de alguém que previu muitos dos problemas atuais, e não apenas em seu país - ainda enquanto presidente, ele repetidamente chamava a atenção para as forças autodestrutivas da civilização industrial e do capitalismo mundial.

Muitos se perguntam o que tornou Havel excepcional. A resposta é simples: decência. Ele era um homem decente e de princípios. Não lutou contra o comunismo por objetivos pessoais ocultos, mas simplesmente porque tratava-se, em sua opinião, de um sistema indecente e imoral. Quando, como presidente, apoiou bombardeios contra a Iugoslávia em 1999 ou a iminente invasão do Iraque em 2003, não discursou sobre objetivos geopolíticos ou estratégicos, mas sobre a necessidade de fazer cessar os abusos contra os direitos humanos por ditadores brutais.

Uma atuação balizada por tais crenças em sua carreira política fez de Havel um político do tipo que o mundo contemporâneo já não vê. Talvez seja por isso que, num momento em que o mundo - e a Europa em particular - enfrenta um período de profunda crise, está ausente a clareza e a linguagem corajosa capaz de produzir mudanças significativas.

A morte de Havel, um grande crente na integração europeia, é, portanto, altamente simbólica: ele foi um dos últimos de uma raça extinta de políticos que poderia liderar efetivamente em tempos extraordinários, porque seu compromisso primeiro foi para com a decência comum e o bem comum, e não com o objetivo de manter-se no poder. Para que o mundo possa atravessar suas várias crises com sucesso, seu legado precisa permanecer vivo. (Tradução de Sergio Blum)

Jirí Pehe foi conselheiro político de Vaclav Havel de setembro de 1997 a maio de 1999. Atualmente, é diretor da New York University, em Praga.

Todo ser humano ama a liberdade?

“Não há nada inevitável sobre a marcha da democracia, e nem o desenvolvimento econômico nem a sua ausência é uma varinha mágica que fará com que um ditador desapareça”. Esta frase que conclui o daily do GaveKal hoje toca em um ponto verdadeiro e paradoxal: mesmo uma ditadura comunista, fechada para o mundo, miserável, pode sobreviver por um longo período (a URSS durou 70 anos e só caiu graças às pressões EXTERNAS, e Cuba está aí até hoje). Erram aqueles que pensam que o choro e o desespero dos coreanos do norte são impostos pela ditadura. Alguns casos sim. Mas muitos choram de verdade. Após décadas de lavagem cerebral, são como cães adestrados. O que nos remete à La Botie e sua “servidão voluntária”. Uma ditadura, por mais opressora que seja, sempre conta com apoio das massas para sobreviver, de uma forma ou de outra. A repressão mantém os dissidentes calados, afastados ou mortos. Mas as massas, muitas vezes, clamam pelo “paizão” autoritário. E ISSO sustenta muitas ditaduras: a demanda do povo estupidificado. Gramsci compreendeu que era mais importante essa batalha cultural do que as armas. O ser humano é mesmo um bicho estranho, que nem sempre valoriza tanto assim a liberdade...

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Capitalism and the Right to Rise


In freedom lies the risk of failure. But in statism lies the certainty of stagnation

By JEB BUSH, WSJ

Congressman Paul Ryan recently coined a smart phrase to describe the core concept of economic freedom: "The right to rise."

Think about it. We talk about the right to free speech, the right to bear arms, the right to assembly. The right to rise doesn't seem like something we should have to protect.

But we do. We have to make it easier for people to do the things that allow them to rise. We have to let them compete. We need to let people fight for business. We need to let people take risks. We need to let people fail. We need to let people suffer the consequences of bad decisions. And we need to let people enjoy the fruits of good decisions, even good luck.

That is what economic freedom looks like. Freedom to succeed as well as to fail, freedom to do something or nothing. People understand this. Freedom of speech, for example, means that we put up with a lot of verbal and visual garbage in order to make sure that individuals have the right to say what needs to be said, even when it is inconvenient or unpopular. We forgive the sacrifices of free speech because we value its blessings.

But when it comes to economic freedom, we are less forgiving of the cycles of growth and loss, of trial and error, and of failure and success that are part of the realities of the marketplace and life itself.

Increasingly, we have let our elected officials abridge our own economic freedoms through the annual passage of thousands of laws and their associated regulations. We see human tragedy and we demand a regulation to prevent it. We see a criminal fraud and we demand more laws. We see an industry dying and we demand it be saved. Each time, we demand "Do something . . . anything."

As Florida's governor for eight years, I was asked to "do something" almost every day. Many times I resisted through vetoes but many times I succumbed. And I wasn't alone. Mayors, county chairs, governors and presidents never think their laws will harm the free market. But cumulatively, they do, and we have now imperiled the right to rise.

Woe to the elected leader who fails to deliver a multipoint plan for economic success, driven by specific government action. "Trust in the dynamism of the market" is not a phrase in today's political lexicon.

Have we lost faith in the free-market system of entrepreneurial capitalism? Are we no longer willing to place our trust in the creative chaos unleashed by millions of people pursuing their own best economic interests?

The right to rise does not require a libertarian utopia to exist. Rather, it requires fewer, simpler and more outcome-oriented rules. Rules for which an honest cost-benefit analysis is done before their imposition. Rules that sunset so they can be eliminated or adjusted as conditions change. Rules that have disputes resolved faster and less expensively through arbitration than litigation.

In Washington, D.C., rules are going in the opposite direction. They are exploding in reach and complexity. They are created under a cloud of uncertainty, and years after their passage nobody really knows how they will work.

We either can go down the road we are on, a road where the individual is allowed to succeed only so much before being punished with ruinous taxation, where commerce ignores government action at its own peril, and where the state decides how a massive share of the economy's resources should be spent.

Or we can return to the road we once knew and which has served us well: a road where individuals acting freely and with little restraint are able to pursue fortune and prosperity as they see fit, a road where the government's role is not to shape the marketplace but to help prepare its citizens to prosper from it.

In short, we must choose between the straight line promised by the statists and the jagged line of economic freedom. The straight line of gradual and controlled growth is what the statists promise but can never deliver. The jagged line offers no guarantees but has a powerful record of delivering the most prosperity and the most opportunity to the most people. We cannot possibly know in advance what freedom promises for 312 million individuals. But unless we are willing to explore the jagged line of freedom, we will be stuck with the straight line. And the straight line, it turns out, is a flat line.

Mr. Bush, a Republican, was governor of Florida from 1999 to 2007.

sexta-feira, dezembro 16, 2011

O alarme de Krugman e a austeridade


Por Amity Shlaes, Valor

Então, é oficial. O "The New York Times", ou pelo menos o colunista Paul Krugman, declarou que estamos em uma depressão mundial. E chegou bem a tempo para o Natal.

A democracia está em jogo, sustentou Krugman em sua coluna de 11 de dezembro e a Europa, social e economicamente, se inclinará ao fascismo, se não deixar de buscar uma "austeridade cada vez mais rigorosa, sem esforço de contrabalanço para promover o crescimento".

São suposições importantes e previsões assustadoras. Krugman, no entanto, sente-se à vontade em fazê-las porque diz ter evidências. Sua evidência de que a democracia europeia cambaleia em favor de uma repressão é o caso da Hungria, membro da União Europeia (UE), mas que ainda tem sua própria moeda, o florim. No país, o partido governista Fidesz defende políticas que suprimem a liberdade de expressão, a independência judicial e a mídia jornalística.

Quanto à teoria de que a austeridade desacelera o crescimento, Krugman evoca a Grande Depressão. Fazê-lo traz autoridade por si só, já que a Grande Depressão é misteriosa e sua força na imaginação pública é forte.

O colunista, frequentemente, faz referências ao relato em três estágios. No fim dos anos 20 ou início dos 30, o presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover, cometeu um erro fatal e impôs medidas de austeridade, na forma de aumentos de impostos e cortes orçamentários. A economia dos EUA faliu. O presidente Franklin Roosevelt veio, gastou e começamos a nos recuperar. Depois de 1936, Roosevelt hesitou e apertou o cinto governamental - de novo, a austeridade. Caímos em depressão econômica. A economia não voltou às taxas de crescimento de 1929 até o aumento de gastos da Segunda Guerra Mundial.

Nem todos entre nós concordam com os detalhes desse roteiro. Hoover, por exemplo, aumentou os gastos. Argumentar, no entanto, que a austeridade, caso tivesse sido promovida em grau suficiente, teria promovido o crescimento e a recuperação nos anos 30 é embarcar em uma aventura condicional vulnerável.

Há evidências de que a austeridade promoveu o crescimento no passado e não o fascismo. Esses exemplos podem ser menos conhecidos, mas sugerem que a austeridade pode trazer a recuperação com mais velocidade do que quando se gasta.

Um forte exemplo na história dos EUA é a recessão no início dos anos 20. O governo reagiu à desaceleração sem gastar; cortou-se pela metade. A recuperação foi tão rápida que poucas pessoas se lembram dessa recessão.

Para seguir o modelo de Krugman de selecionar um único país, podemos observar a Austrália dos anos 30. No início da década, a Austrália, assim como os EUA, sofria de deflação e desemprego acentuado. A renda nacional havia encolhido em todos os anos entre 1925 e 1932. Nesse ano, o índice de desemprego chegou a 19,7%. O governo considerou substituir o padrão-ouro com um "padrão-mercadorias", atrelado às commodities.

Os australianos se perguntavam se os gastos poderiam trazer a recuperação. O poderoso premiê de Nova Gales do Sul, J.T. Lang, procurou focar seus eleitores em um projeto de obras públicas, a grande ponte Sydney Harbour Bridge, que foi completada em 1932. Muitas autoridades imaginaram que ainda mais liquidez seria a resposta para os problemas da Austrália.

Como a escritora Anne Henderson destaca na nova biografia de Joseph Lyons, o primeiro-ministro do país na época, o governo federal australiano afastou-se da política de gastos e optou pela austeridade. A partir de 1932, Lyons liderou o país em meio a uma campanha de corte de orçamento para reduzir em 20% todos os gastos desvinculados, que o governo pode usar livremente, o que incluiu os salários do setor público. Lyons e outros líderes se comprometeram a pagar dívidas australianas, no que ficou conhecido como o "plano dos premiês".

"A Austrália converteu empréstimos imensos em Londres" e recomprou dívidas "para assegurar, aos que emprestavam dinheiro, a solidez da política da Austrália", contou-me Henderson, por e-mail. Os impostos foram elevados em uma campanha total para transformar o déficit federal em superávit. A Austrália permitiu-se apenas um ano de déficit.

De início, as pessoas disseram que Lang, e não Lyons, estava certo. De 1933 em diante, no entanto, a Austrália começou a recuperar-se. Em 1936, o desemprego havia recuado para cerca de 11%. E continuou em queda. A Austrália recuperou-se com muito mais velocidade que os EUA.

Em 1935, um Lyons triunfante navegou aos EUA, no cruzeiro italiano Renault, para relatar o sucesso de seu governo: "Tivemos de cortar salários e aposentadorias cruelmente durante o auge da Depressão", disse Lyons a repórteres no píer, em Nova York. Naquele momento, contudo, já estava recuperando as aposentadorias. Ao cortar, a Austrália deu à sua economia a chance de crescer e, à sua moeda a crucial credibilidade. Lyon pode ter elogiado Mussolini, mas a Austrália não virou fascista.

Outros contam a história da Austrália de forma diferente. Enfatizam a depreciação da libra australiana e a resultante melhora das relações de troca. Ou argumentam que a Austrália, pequena, e os EUA, um país poderoso, não são comparáveis.

A questão é, contudo, que esses tipos de dados, da Hungria à Austrália, precisam ser examinados cuidadosamente. Os roteiros normalmente conhecidos nem sempre são os certos.

E nem sempre são análogos ao presente. O experimento de austeridade de David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, é recente demais para ser declarado como um fracasso. A recuperação pode ser lenta, como foi a da Austrália. O Reino Unido, no entanto, verá os benefícios a sua competitividade relativa criados pelos cortes mais cedo do que tarde. O dinheiro que evita a incerta área do euro fluirá para o Reino Unido.

Em resumo, só porque alguém evoca a Grande Depressão não significa que uma nova era fascista esteja sobre nós. Ou que é hora de uma "suspensão da descrença".

(Tradução de Sabino Ahumada)

Amity Shlaes é colunista da Bloomberg News e diretora do Four Percent Growth Project, no Bush Institute.

2027


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Bangu, tarde ensolarada. Detento puxa conversa com o novo colega de cela:

– Ei, por que você foi preso?

– Meu filho me denunciou para o Conselho Tutelar. Ele me desobedeceu e foi brincar em vez de estudar, depois tirou zero na prova, e ainda agrediu verbalmente a mãe quando demos uma bronca nele. Não resisti: dei-lhe uma palmada. Foi um ato involuntário. Perdi o controle, reconheço. Fui enquadrado na Lei da Palmada. E você?

– Acendi um cigarro dentro de casa. Local fechado é proibido. Minha empregada me denunciou para o Conselho de Saúde e Higiene. Argumentou que sua saúde estava em risco por conta do meu cigarro. Já é a segunda vez que vou preso. Antes foi por exagerar na fritura em plena praça pública. Os Agentes da Saúde me pegaram no flagra, com o agravante de ter crianças no local.

– E aquele outro ali, calado no canto? Você sabe por que ele está aqui?

– Sim. É um pequeno empresário. Tinha a concessão de TV para um município do interior, e cometeu a imprudência de transmitir uma propaganda de doces no meio da tarde! Os fiscais do Conselho Tutelar foram no mesmo dia com dez viaturas da polícia e prenderam o homem, e depois ainda fecharam sua emissora. Ele parece estar em depressão.

– Puxa vida. E aquele ali, agitado ao extremo?

– Esse foi preso ao tentar comprar uma aspirina com receita médica falsificada. Ele alega ter forte dor de cabeça, mas estava sem dinheiro para uma consulta médica particular, e a fila do SUS...

Enquanto os dois continuavam conversando, lá fora do presídio uma grande estátua do Grande Líder Lula brilhava aos últimos raios crepusculares daquela quente tarde de 2027.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Liberais, uni-vos!


Rodrigo Constantino *

"Sou chamado a responder rotineiramente a duas perguntas. A primeira é 'haverá saída para o Brasil?'. A segunda é ' que fazer?'. Respondo àquela dizendo que há três saídas: o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo. A resposta à segunda pergunta é aprendermos de recentes experiências alheias." (Roberto Campos)

O Brasil não precisa reinventar a roda. Claro que particularidades culturais demandarão alguns ajustes no modelo. Mas podemos observar as experiências alheias e aprender com elas. Acima de tudo, sabemos o que não funciona, o que já é meio caminho andado. Experimentamos inúmeras receitas no passado, todas elas derivadas, de alguma forma, da mentalidade coletivista que delega ao governo responsabilidade pelo progresso. Falhamos.
Está mais que na hora de mudar o rumo do país. Nós, liberais, não devemos ter medo de defender aquilo que acreditamos ser o modelo mais eficiente e justo. Não podemos sucumbir à pressão de grupo, à ditadura do politicamente correto. O Brasil precisa de pensadores, de formadores de opinião, sem medo de expor suas crenças. O debate precisa se pautar por argumentos sólidos, por teorias robustas e por casos empíricos bem analisados. E o liberalismo possui larga vantagem sobre qualquer modelo alternativo nesses quesitos.
O que falta, talvez, é melhorar a comunicação com o público maior, saber “vender” de forma mais eficiente a ideia. Os liberais não devem, por exemplo, ignorar as emoções só porque pensam estar do lado da razão. Seres humanos se mobilizam por diversos fatores, e as emoções talvez sejam os mais relevantes. O liberalismo precisa conquistar as mentes e também as almas, evitando dogmatismos. Liberalismo não é seita.
Sabemos que a luta é desigual, pois os coletivistas apelam às emoções mais instintivas e tribais dos homens, muitas vezes de forma pérfida. Mas não podemos desistir da luta só porque o desafio é enorme. Isso seria perder a guerra na largada. E os pilares da civilização não são tão fortes como alguns gostariam de crer. Sem um trabalho incessante daqueles dispostos a manter acesa a chama da liberdade, séculos de civilização podem ruir em poucos anos e a barbárie triunfar.
Se isso é possível – e a história mostra que é – mesmo nas civilizações mais avançadas, o que dizer do caso brasileiro, onde a tradição cultural passa longe dos mais básicos valores liberais? O esforço aqui deve ser redobrado. Ainda estamos nos estágios preliminares, tentando justamente construir os pilares civilizacionais. Os obstáculos são gigantescos. Os grupos de interesses ameaçados pela mudança do status quo vão reagir. E, ainda mais importante, a maioria, imbuída de crenças coletivistas, com forte rejeição ao livre mercado, aos empresários e até ao lucro, vai demonstrar resistência às mudanças também.
Cabe aos liberais exercitar seu poder de persuasão, aprofundar seus argumentos e embalar melhor seu conteúdo. De nada vai adiantar culpar os outros pelo fracasso da empreitada, se ele ocorrer. É preciso lutar sem esmorecer. É necessário vencer, pelo futuro de nossos filhos e netos, que merecem viver em um país mais próspero, livre e justo. A saída é o liberalismo, ou então o aeroporto. Eu escolhi ficar e lutar. Espero contar com a ajuda de todos os outros simpatizantes dos valores liberais.

* Epílogo do meu novo livro, LIBERAL COM ORGULHO

Geisel e Lula

Carlos Alberto Sardenberg, O GLOBO

Não foi por acaso que parte da esquerda brasileira encantou-se com a política econômica do presidente Ernesto Geisel, na década de 70. O general, que trazia uma bronca dos americanos, tinha uma visão muito ao gosto da chamada ala desenvolvimentista da América Latina: o Estado comanda as atividades, investindo, financiando, subsidiando, autorizando (ou vetando) os negócios e a atuação de empresas. Mais ainda: com a força das estatais e seus bancos, o governo organiza companhias para atuar em determinadas áreas.

O presidente Geisel, claro, tinha mais poderes do que os governantes da democracia. Todos os setores importantes da economia estavam nas mãos de estatais, de modo que o controle era mais direto. Além disso, havia o AI-5. Quando o presidente dizia a um empresário ou banqueiro o que deveria fazer, a proposta, digamos assim, tinha uma força extra.

Mas Lula arranjou um modo de recuperar o modelo, no que foi apoiado e seguido por Dilma. Geisel, por exemplo, era o dono da Vale. Lula não era, mas pressionou a mineradora, impôs negócios e terminou substituindo o presidente da companhia. Geisel montou as famosas companhias da área petroquímica, tripartites, constituídas por uma empresa estrangeira, uma nacional privada e uma estatal, na base do um terço cada. Aliás, convém notar: não faltaram multinacionais interessadas. O capital não se move por ideologia, mas por... dinheiro. Devia ser um bom negócio entrar num país sem competição, com apoio de um governo local que não devia satisfações ao Legislativo, ao Judiciário ou à imprensa.

Do mesmo modo, as multinacionais do petróleo, hoje, vão topar (ou não) o novo modelo de exploração do pré-sal não por motivos políticos, mas pela possibilidade de ganhar (ou não) dinheiro.

Lula, no regime democrático, substituiu o AI-5 pela ampla base partidária, cooptada e/ou comprada com vantagens e cargos. Na economia, sobraram instrumentos poderosos, como os bancos públicos, especialmente o braço armado de empréstimos especiais do BNDES. Além disso, em um país de carga tributária tão elevada, qualquer redução dá uma vantagem enorme ao setor escolhido. O governo Lula-Dilma usa e abusa desse recurso.

Geisel ampliou a ação da Petrobras, levando-a à petroquímica, ao comércio externo e ao varejo dos postos de gasolina. O presidente Lula também mandou a Petrobras ampliar seus negócios e tratou de devolver à estatal parte do poder que perdera com a lei do petróleo de 1997, colocando-a como dominante no pré-sal.

Geisel tocou grandes obras, grandes projetos. Lula, idem. Não é coincidência que o petista tenha retomado usinas nucleares que constavam do Brasil Potência do general. Geisel tinha outra grande vantagem. Na época, não tinha licença ambiental, não tinha Ministério Público, nem sindicatos, nem juízes, nem ONGs para suspender obras.

Já Lula e Dilma passam o tempo todo tentando driblar esses "estorvos", mas vai tudo mais devagar. Inclusive porque a repartição do governo por critérios partidários retira eficiência da administração, abre espaço para a corrupção.

O governo Geisel deixou uma ampla coleção de cemitérios fiscais e empresariais. Sua presidência beneficiou-se da estabilidade promovida pelas reformas da dupla Bulhões/Roberto Campos, no governo Castello Branco, e de uma conjuntura mundial favorável. Enquanto o Brasil conseguiu financiamento externo, com os bancos internacionais passando para os países em desenvolvimento os petrodólares, a juros baratos, o modelo ficou de pé. Com a crise mundial dos anos 70, com inflação e recessão, consequência da alta dos preços do petróleo, de alimentos e, em seguida, do choque de juros, a fonte secou e o Brasil quebrou.

Resultaram estatais tão grandes quanto ineficientes. E empresas privadas que não resistiam à menor competição. Sem as tetas do governo, simplesmente sumiram, deixando empresários ricos e uma conta para o contribuinte.

Convém pensar nisso quando Lula e Dilma forçam os bancos públicos a ampliarem seus financiamentos. Quando levam a Petrobras e empresas privadas a investimentos provavelmente acima de suas capacidades. Ou quando o governo toca essas obras enormes, como a transposição do Rio São Francisco ou o trem-bala.

Como Geisel, Lula também herdou uma estabilidade construída pela administração anterior e se beneficiou de um ambiente internacional extremamente favorável.

O ambiente internacional está mais hostil. E já são visíveis alguns ossos de esqueletos: obras atrasadas e mais caras, investimentos ficando pelo caminho, indústrias locais protegidas (e ineficientes), gasto público elevado, desequilíbrios econômicos voltando, como a persistente inflação.

terça-feira, dezembro 13, 2011

O show precisa continuar

Rodrigo Constantino, O GLOBO

Tudo que um governante mais deseja é uma desculpa para aumentar gastos. Quando ela vem embalada por uma teoria econômica, melhor ainda. Eis o que explica a popularidade do "desenvolvimentismo". Ninguém gosta de austeridade quando está no poder.
A economia brasileira ficou estagnada no terceiro trimestre, e deve crescer menos de 3% este ano (o ministro Guido Mantega previa 5,5%). Falta ao país uma dinâmica sustentável de crescimento. Mas, como o governo não faz reformas estruturais que permitiriam um vôo de águia, resta retomar os estímulos artificiais e produzir novo vôo de galinha.
Os "desenvolvimentistas" apontam apenas em uma direção. Nunca se lembram do termo "anticíclico" na era da bonança. É raro ver um deles pregando redução de gastos públicos ou aumento de juros durante os momentos de rápido crescimento e risco inflacionário. Nestas horas eles somem. Quando a economia ameaça esfriar, eles voltam demandando estímulos. O foco é sempre no curto prazo. Como disse o grande guru deles, "no longo prazo estaremos mortos". Esquecem que hoje é o longo prazo de alguns anos atrás.
O governo Dilma já anunciou novos pacotes de estímulos e mais aporte de capital nos bancos públicos. Onde foram parar aqueles "cortes" prometidos de R$50 bilhões nos gastos públicos? E a redução dos empréstimos do BNDES? A "Bolsa-Empresário", ao contrário, vai receber mais recursos! O problema é que cada novo estímulo produz mais inflação que crescimento. O resultado pode ser a conhecida estagflação.
O governo brasileiro parece mirar no modelo chinês, mas ignora diferenças cruciais. A China pratica a maior arbitragem de mão de obra da história, mergulhando tardiamente em sua revolução industrial, com um exército de chineses dispostos a trabalhar 18 horas diárias por salários pífios. O investimento passa de 40% do PIB, mais que o dobro do Brasil.
Mesmo assim, há claros sinais de esgotamento do modelo chinês. A inflação incomoda e houve péssima alocação de capital, pois as decisões são políticas, com desrespeito ao livre mercado. O governo realizou um gigantesco programa de estímulo após a crise de 2008, mas a conta chegou. Será inviável continuar crescendo 10% ao ano. A desaceleração chinesa vai gerar impactos negativos em nossa economia, dependente da exportação de recursos naturais.
O modelo mais parecido com o nosso pode ser, na verdade, o argentino, com acelerada inflação, controle estatal crescente e perda gradual de competitividade. O governo populista de Kirchner tenta quebrar o termômetro em vez de consertar os rumos da economia. O IBGE de lá, que calcula a inflação, foi politizado e perdeu totalmente sua credibilidade. Ainda não estamos nesse estágio. Mas quem garante que o governo, no desespero de salvar o crescimento imediato a qualquer custo, não vai seguir esta trilha? O risco claramente existe.
A conta das políticas "desenvolvimentistas" vai chegar cedo ou tarde, com juros. Enfrentar a dura realidade não será tarefa fácil. O crescimento sustentável depende de investimentos em capital físico e humano, além de um ambiente favorável aos negócios. Tudo aquilo que nos falta. O governo brasileiro expande o crédito público, reduz os juros na marra, sobe o salário mínimo por decreto, arrecada imposto demais, e gasta muito mal. Trata-se claramente de um modelo insustentável, com foco demasiado no curto prazo.
A economia brasileira ganhou na loteria chinesa e está gastando por conta, hipotecando seu futuro. Parece uma cigarra irresponsável, acreditando que o verão será eterno. Mas o inverno inexoravelmente chegará. O governo não tem como impedir este fato com mais estímulos. Isso pode apenas postergar um pouco o encontro com a realidade. Em contrapartida, aumentará o sofrimento futuro também. Não existe almoço grátis.
O "desenvolvimentismo" nunca conseguiu produzir prosperidade de forma sustentável. Ele ignora as verdadeiras causas da riqueza das nações. Ao focar somente no curto prazo, e ao depositar uma fé ingênua na capacidade do governo de atuar como locomotiva da economia, a cartilha "desenvolvimentista" estará sempre fadada ao fracasso. Não será diferente desta vez.
O Brasil pode estar na moda. Mas moda passa. Melhor aproveitar enquanto a festa continua, pois depois virá a ressaca e não vai adiantar culpar o "mercado" (vide a Europa). As sementes da próxima crise foram plantadas pelo próprio governo. Mas quem liga? O show precisa continuar. Afinal, vem eleição aí...

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Marketing do desejo

LUIZ FELIPE PONDÉ, Folha de SP

"Mais importante do que o sucesso é passar uma imagem de sucesso." Você pode ouvir uma frase como esta em qualquer palestra brega de motivação em recursos humanos.
Já disse antes que acho palestras assim a coisa mais brega que existe. Mais brega do que isso só mesmo achar que o mundo melhorou porque existe o Facebook.
A melhor forma de manter a dignidade na era do Facebook (se você não resistir a ter um) é não contar para ninguém que você tem um Facebook. Quase tudo é bobagem nas redes sociais porque o ser humano é banal e vive uma vida quase sempre monótona e previsível.
E a monotonia é o traje cotidiano do vazio. E a rotina é o modo civilizado de enfrentar o caos, outra face do vazio.
A ideia de que aprendemos a falar porque quisemos "conhecer" o mundo é falsa. Segundo os evolucionistas, é mais provável que tenhamos aprendido a falar para falar mal dos outros e fofocar.
O "Face" é, neste sentido, um artefato paleontológico que prova que nada mudou.
Sempre se soube que não basta à mulher de Cesar ser honesta, ela tem que parecer honesta, portanto, a imagem de honesta é mais importante do que a honestidade em si. Mas aqui, o foco é diferente: aqui a questão é a hipocrisia como substância da moral pública. Todo mundo sabe que a mentira é a mola essencial do convívio civilizado.
No caso de frases como a citada no primeiro parágrafo, comum em palestras de motivação em recursos humanos, é que são oferecidas como "verdades construtivas de comportamento". E não como o que verdadeiramente são: estratégias para desgraçados e "losers" se sentirem melhor.
Ficamos covardes. Fosse esta geração de jovens europeus (que só sabe pedir direitos e iPads) que tivesse que enfrentar Hitler, ele teria ganhado a guerra.
Provavelmente esses estragados por décadas de "estado de bem-estar social" teriam dito "não à guerra em nome da paz". Grande parte do estrago que Hitler fez no início foi causada por gente que gostava de dizer que a paz sempre é possível. Gente medrosa mesmo.
Mas nossa época, como eu costumo dizer muitas vezes, é a época do marketing de comportamento. A "ciência da mentira dos losers". Dentro desta disciplina geral, existe o marketing do desejo, especializado em mentir para as pessoas dizendo que "sim, confie no seu desejo que tudo dará certo".
Mesmo alguns psicanalistas (vergonha da profissão) embarcaram nesse otimismo de classe média. "Nunca traia seu desejo", dirão os traidores da psicanálise.
Sabe-se muito bem que é o desejo que nos trai porque ele está e vai além do que, muitas vezes, conseguimos suportar.
Uma das grandes tragédias de nosso tempo é o fato de que não existem mais recursos "simbólicos" para aqueles que resistem ao desejo em nome de "um bem maior", como no caso da família, do casamento, ou simplesmente resistir a virar canalhas com desculpas do marketing. O legal é ser "escroto" se dizendo "livre". A "ética do desejo", que recusa abrir mão do próprio desejo em nome de algo maior do que ele, destruiu a noção de caráter.
Para a moçada do marketing do desejo, resistir ao desejo é coisa de gente idiota e mal resolvida porque ter caráter não deixa você muito feliz o tempo todo.
É verdade que resistir ao desejo não garante felicidade alguma, mas uma cultura dominada pela ideia de felicidade é uma cultura de frouxos. Mas outra verdade, não menor do que a anterior, é que o desejo pode ser um companheiro traiçoeiro. A afetação da felicidade faz de nós retardados mentais. Eu nunca confio em gente feliz.
O mestre Freud dizia que o desejo é desejo de morte. Afirmação dura. Mas o que ela carrega em si é o que já sabemos: o desejo nos aproxima do nada (morte) porque desvaloriza tudo que temos. Por isso, quando movidos por ele, sem o cuidado de quem se sabe parte de uma espécie louca, flertamos com o valor zero de tudo.
Nada disso significa abrir mão do desejo, mas sim saber que ele nos faz animais que caminham sobre tumbas que sorriem para nós como mulheres fáceis. Resistir ao desejo talvez seja uma das formas mais discretas de amar a vida.

domingo, dezembro 11, 2011

Demóstenes Torres


O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) não tem medo de se identificar com a direita democrática, num país onde há hegemonia da esquerda na política. Combate, com argumentos, as injustas cotas raciais, a despeito da pressão dos grupos organizados. Condena o uso do Estado para fins particulares. Tem sido firme e coerente ao atacar os desvios de recursos públicos. Denuncia a doutrinação ideológica pelos órgãos estatais, como o MEC. Não teme pregar maior rigor penal para reduzir a criminalidade, mesmo isso sendo “politicamente incorreto”. Defende a urgência de um partido que tenha a democracia, a economia de mercado e sólidos valores morais como plataforma. Talvez como nenhum outro parlamentar, representa aquilo que está tão em falta em nosso país atualmente: uma oposição verdadeira e com propostas alternativas concretas para um país mais livre, justo e próspero. - Meu comentário para a edição especial da Revista ÉPOCA desta semana, sobre os 100 mais influentes de 2011.

sábado, dezembro 10, 2011

Debate Hayek vs Keynes

Minha palestra no debate Hayek vs Keynes na Academia Brasileira de Letras, organizado pelo IBMEC (Virginia Barbosa), onde explico de forma sucinta a Teoria Austríaca de Ciclos Econômicos (TACE), situando-a na crise econômica atual.

Pimentel e os delitos explicáveis

Guilherme Fiuza, O GLOBO

O caso Pimentel não traz novidade alguma. Corno dizem os governistas, não há motivo para espanto. Tudo foi feito absolutamente dentro das normas vigentes. E as normas vigentes no governo popular, após farta literatura, todos já sabem quais são: usar a política como meio de vida. e o poder público como agenciador particular.

Fernando Pimentel, ministro do Desenvolvimento. Indústria e Comércio Exterior, ex-prefeito de Belo Horizonte e amigo de Dilma Rousseff, cavou R$ 2 milhões como consultor "para sobreviver". Faz sentido. Um amigo da presidente da República não pode ter uma sobrevivência qualquer. E quem tem um currículo desses não pode pensar pequeno. Assim o ministro se tornou um sobrevivente diferenciado.

Antes de criticar Fernando Pimentel, ponha-se no lugar dele. Você termina seu mandato de prefeito da capital mineira e ainda falta um ano para a campanha presidencial. que você vai coordenar às custas do seu partido. A vitória na eleição é bem provável, mas ainda faltarão dois anos para você virar ministro. Nesse momento de insegurança, que alternativa lhe resta a não ser prestar uma consultoria milionária?

E por que um cliente privado, com interesses vitais no Estado, contrataria para elaborar projetos técnicos e cenários econômicos um homem-forte do partido que governa o país? Elementar: porque ele é um excelente economista. Fernando Pimentel tinha sido prefeito, era o braço direito da candidata de Lula, provável futuro ministro e, depois, candidato forte a governador. Por que uma entidade empresarial com interesses nas três esferas de governo entregaria, desprezando todos os PhDs do mercado, seu projeto ao neoconsultor Pimentel?

Naturalmente, por causa do seu súbito e insuperável talento profissional. O estudo custou R$ 1 milhão, mas ninguém poderá conhece-Io: o consultor não entregou uma linha escrita ao cliente. Segundo ele. foi uma "consultoria direta". Difícil definir esse novo conceito, mas, pelo preço, deve ser muito bom.

Um consultor bem-sucedido também precisa ter sorte. Pimentel conseguiu arranjar o sócio perfeito: outro excelente profissional, capaz de conciliar o trabalho na consultoria com um cargo na Prefeitura de BH — conseguido, aliás, pelo próprio Pimentel. Aí vêm as coincidências da vida: pouco depois de pagar cerca de R$ 500 mil aos consultores, uma construtora conseguiu um contrato de quase RS 100 milhões com a Prefeitura. Sem dúvida, uma consultoria pé-quente.

Mas o Brasil é um país de invejosos, e já estão querendo derrubar o ministro Pimentel. Antonio Palocci sabe bem o que é isso: você passa a vida fazendo assembleia, chega ao poder com o suor do seu rosto, monta com o partido a sua carteira de clientes, mas não pode fazer o primeiro milhão que já querem puxar seu tapete. A maior injustiça de todas, porém, quem está sofrendo é a presidente Dilma.

Em menos de um ano de governo, já rolaram seis dessas cabeças privilegiadas que ela escolheu para dirigir (e digerir) o Brasil. A presidente aparece como autora dessas de- capitações em série, que a maldosa opinião pública chama de faxina. Não é verdade. Dilma não tem nada a ver com isso.

Pelo contrário. Ela não queria demitir nenhum dos seis— mesmo depois de reveladas suas peripécias privadas com dinheiro público. A opinião pública não notou esse detalhe (estava sonhando com a faxineira), mas, diferentemente da consultoria direta de Pimentel, está tudo registrado. Com o inesquecível Carlos Lupi, por exemplo, a presidente foi praticamente uma mãe.

Depois da primeira leva de convênios piratas desenterrados no Ministério do Trabalho— num rombo de quase R$ 300 milhões —. Dilma aproveitou uma calmaria nas manchetes para tentar sepultar o caso: 'O passado passou, gente!” Mas o passado voltou com tudo — e trouxe até cenas explícitas, como o ministro saindo de avião arranjado por empresário-cliente (onde ele dissera nunca ter entrado).

A presidente não só continuou firme, como peitou a Comissão de Ética Pública contra a demissão do ministro. Com a revelação de que Carlos Lupi ocupara simultaneamente dois cargos públicos, afrontando a Constituição. Dilma finalmente tomou uma providência: anunciou que pediria ao ministro uma "explicação convincente" para o delito.

Mesmo protegido pelo novíssimo conceito dos delitos explicáveis. Lupi caiu. De podre.

Mas a luta continua. Pimentel, o braço direito, já foi instruído pela presidente a manter a "normalidade da agenda". Emissários do palácio afirmaram que R$ 2 milhões não é um valor "tão astronômico assim". Tradução: o delito de Pimentel é muito mais explicável que o de Palocci. Nada como ter bons parâmetros em casa.

O braço direito de Dilma já foi Erenice Guerra, banida pelos invejosos só porque vendeu influência na Casa Civil. A semelhança com o know how do braço direito atual deve ser mera coincidência.

Until Europe Meets Again

Editorial do WSJ

The script could have been written in advance—Europe's leaders, meeting amid market turmoil about the consequences of failure, came together in Brussels Thursday night and Friday, and sure enough, went home declaring victory.

Broadly speaking, German Chancellor Angela Merkel got her way: The latest incarnation of the deal to save the euro involves mostly a promise by everyone to be a little more German about spending, deficits and debt. Most of the details remain to be worked out, but without an amended EU treaty the legal authority for any of it is a loose end.

On the plus side, there is no multitrillion-euro bailout fund (with Germany inevitably paying most of it), and no promise from the European Central Bank to monetize everyone's debt, either directly or laundered through the International Monetary Fund. ECB President Mario Draghi deserves at least some of the credit for upholding the central bank's independence.

Mrs. Merkel's demand of more fiscal discipline is also correct, but an agreement that offers the European Court of Justice as the enforcer is, well, amusing. What court will go toe to toe with Italian or French unions? When German rectitude meets Italian street politics, who do you think will win?

You will also look in vain for any provision addressing Europe's central problem—stagnant economic growth. If you believe, as most Europeans now do, that government spending equals economic growth, then "budget discipline" becomes mainly a bludgeon for enforcing the tax increases needed to chase high levels of spending. This will drive Europe into a long-term austerity trap. Europe needs major spending cuts and entitlement and pension reform. But outside Germany, political leaders are still holding out for an ECB rescue.

The Obama Administration has been especially unhelpful, running a quiet campaign for the ECB to crank up the presses to bail out the spenders and bond-holding banks. This U.S. interference undermines Mrs. Merkel and others seeking fiscal reform while encouraging those who think the ECB is the only way out.

We wish the Germans well in driving a hard bargain in return for writing a big check, but there is a better way. That would be to return to the euro as it was originally conceived: Countries share a currency but are responsible for their own fiscal policies, including the consequences of default.

This would require that France and Germany recapitalize their banks in the event of a major sovereign default. Interest-rate spreads among euro-zone countries would continue to be wider than before the crisis began, perhaps for many years, but this would be its own form of fiscal discipline. Spreads going forward would provide a kind of early-warning system, without the need for a new bureaucracy to enforce discipline.

No one in Europe seems to have the stomach for that. So we are stuck with these summit sequels and the certainty of more uncertainty. Meanwhile, Adam Smith's market discipline will grind on mercilessly to impose its own solution.