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quinta-feira, abril 05, 2012

Começou a choradeira das cigarras italianas

Deu no Financial Times: Employers attack Italy’s labour reforms

Alguns trechos da reportagem:

Italy’s leading industrialists and employers have slammed Mario Monti’s revised labour market reforms as inadequate and counterproductive after initial plans were watered down to appease trade unions and the centre-left Democratic party.

“The text is very bad,” Emma Marcegaglia, head of the Confindustria employers association, told the Financial Times on Thursday. “It is not what we agreed,” she added, referring to more than two months of talks that culminated in the government’s initial proposals in late March.

[...]

But subsequent reform efforts, including liberalisation of the services sector, were disappointing. “On cuts in public spending, we have seen nothing so far,” she added.


Comentário: Como tenho dito faz tempo, não será fácil este doloroso encontro das cigarras europeias com a dura realidade! A Itália, uma espécie de Brasil da Europa, não faz reformas há anos. Sua economia vem perdendo competitividade a cada dia. As leis trabalhistas são absurdamente benevolentes e irrealistas. No passado, até assassinato a quem pregava mudanças ocorreu. Não é fácil mexer nas máfias sindicais. São poderosas demais. Tampouco é fácil reduzir os gastos públicos. Os marajás não largam o osso facilmente. Porém, a crise se impõe sobre os sonhos dos esquerdistas. A brincadeira acabou. É hora de acordar, e trabalhar! Resta saber se vão fazer isso a tempo de salvar o país, ou se terão de caminhar ainda mais na direção da Grécia e de Portugal antes de caírem na real.

terça-feira, março 27, 2012

Máfias sindicais italianas

Rodrigo Constantino

Deu no Financial Times: OECD urges ‘ambitious’ eurozone reform

Diz um trecho da reportagem:

The OECD indirectly backed Mr Monti’s reform agenda, and called on Italy among others to reduce restrictions on labour mobility, ease job protection and reform the wage bargaining system.

Qualquer economista sabe que é preciso flexibilizar as leis trabalhistas na Europa e reduzir a enorme quantidade de regalias artificiais que impedem maior dinamismo no mercado de trabalho. O desemprego está em patamares elevados, especialmente para os mais jovens, menos produtivos na média. O welfare state cobra seu pesado custo!

Mas politicamente é muito difícil reformar o mercado de trabalho, pois uma máfia sindical tomou conta da situação. Na Inglaterra, uma líder corajosa como Thatcher conseguiu dobrar a espinha dos mafiosos. Mas faltam lideranças na Europa hoje! E um governo tecnocrata como o de Mario Monti não tem o respaldo popular para enfrentar este desafio. Monti já começa a perder apoio.

Há dez anos, Marco Biagi, um economista reformador, tentava implementar na Itália mudanças nas leis trabalhistas, nos moldes propostos por Monti hoje. Seu destino: foi baleado e morto! É assim que a máfia sindical costuma agir quando enxerga risco aos seus privilégios, obtidos sempre à custa dos trabalhadores e pagadores de impostos.

Será que Monti dessa vez consegue levar adiante as reformas? Espero que sim, mas é cedo para dizer. Os obstáculos são enormes, e acho difícil ele ter força suficiente para mexer nesse vespeiro. O mais provável é mudar pouca coisa, e as máfias sindicais preservarem seu poder.

Roberto Saviano sabe como é mexer com a máfia italiana. E os sindicatos podem não ser a Camorra, mas não estão muito longe disso. Apenas mais uma coisa que faz a Itália parecer o Brasil da Europa...

sexta-feira, julho 15, 2011

A Itália agora é a bola da vez dos mercados internacionais?

Rodrigo Constantino, Valor Econômico (Palavra do Gestor)

Os investidores voltaram sua atenção para a Itália, causando nova rodada de estresse nos mercados. A situação na Europa ainda é insustentável, e qualquer dado negativo desperta novamente o mau humor dos investidores. Uma renegociação da dívida grega é apenas questão de tempo, e cada novo dia ganho pelos políticos representa um passo a mais na direção do inevitável.
O mal que assola a região apresenta variações sobre o mesmo tema. Governos irresponsáveis tiveram que resgatar um setor financeiro em frangalhos após uma bolha de crédito, o que tornou as finanças públicas ainda mais assombrosas. Carga tributária elevada, burocracia asfixiante, baixa competitividade, inúmeros privilégios criados pelo Estado social, e ainda explode uma crise financeira no colo de governos populistas. A combinação é terrível demais.
Primeiro a Grécia, depois Irlanda e Portugal. Mas muitos ainda com a esperança de que o estrago seria restrito a estas economias menores. A Espanha já vem tirando o sono dos investidores há meses, mas poucos falavam da Itália (e ninguém fala ainda da França). Acontece que a Itália possui, depois da Grécia, o maior endividamento público em relação ao PIB na região. São 120% de dívida sobre o PIB. Como metade desta dívida está no próprio mercado local, e o déficit fiscal foi de “apenas” 5% do PIB em 2010, os investidores preferiram focar em países com situação mais grave.
Agora não mais. “Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápido à sua própria natureza”, alertava Sêneca. A Itália entrou no radar dos investidores, e, ao se esmiuçar seus números, o arrepio é automático. Além do gigantesco tamanho de sua dívida, os vencimentos próximos criam a necessidade de rolagem num mercado cada vez mais debilitado.
O Banco Central Europeu parece perto do seu limite para absorver os títulos podres que o mercado rejeita. Já faz tempo que o óbito do ortodoxo Bundesbank foi decretado. Só que o tamanho da dívida italiana cria um risco sistêmico. Uma coisa é Grécia, ou mesmo Portugal; outra, bem diferente, é a Itália com seus quase dois trilhões de euros em títulos!
Para piorar, os bancos estrangeiros possuem quase um trilhão de euros em títulos italianos. É a maior exposição da região, seguida pela Espanha. E os dois maiores bancos italianos possuem ativos de 1,6 trilhões de euros, para um patrimônio de apenas 125 bilhões de euros. Se a aversão ao risco continuar, haverá necessidade de aumento de capital em breve.
O BCE não pode ser o eterno depósito de lixo dos bancos europeus. Os pagadores de impostos em algum momento se revoltarão de forma mais dura. Se, por um lado, os alemães não querem mais bancar a farra dos países irresponsáveis, por outro lado os cidadãos destes países não querem aceitar ajustes dolorosos. A magnitude da necessidade do ajuste fiscal chegou a um patamar tão elevado que choques sociais parecem inevitáveis. E os políticos optaram por empurrar o problema com a barriga, o que apenas amplia a necessidade de ajustes futuros.
Com este cenário tão sombrio, um ativo parece fora de preço: o euro. Duas possíveis explicações vêm à mente: primeiro, a compra pela China, em busca de diversificação ou manipulação monetária para manter sua competitividade vis-à-vis seus concorrentes europeus; segundo, o fato de que o denominador é o dólar, outra moeda enfraquecida por problemas similares. Os dados mais fracos da economia americana e o discurso sempre “dovish” do presidente do Fed não ajudam.
O diferencial de juros também favorece a Europa. O problema é quando a preocupação deixa de ser com o retorno sobre o capital e passa a ser com o retorno do capital. Neste caso, o pequeno diferencial de juros perde importância relativa. E quando o quadro geral é de “risk-off”, a corrida ainda é para o dólar, além do ouro, claro.
No último artigo neste espaço, questionei se era finalmente o momento de adicionar risco na bolsa brasileira, concluindo que sim, a despeito dos problemas econômicos e políticos do país. O mais importante para o investidor do Ibovespa é acertar o futuro da China. Se esta evitar o “hard landing”, então a compra perto dos 60 mil pontos parece atraente. E o último dado do crescimento chinês reforça a visão otimista.
Mas creio ser crucial buscar proteção contra catástrofes neste ambiente. Sendo a Europa o grande calcanhar de Aquiles no momento, acredito que a venda do euro neste patamar pode ser um bom “hedge”. O risco, no curtíssimo prazo, é o Congresso americano não aprovar o aumento do “debt ceiling”.