Rodrigo Constantino
Deu no GLOBO: O exército de Quaquá: prefeito de Maricá contrata segurança privada por R$ 2,1 milhões
Quanto vale a segurança pessoal de um prefeito? No caso de Maricá, cidade da Região Metropolitana do Rio com 134 mil habitantes, a proteção do chefe do Executivo, Washington Quaquá (PT), custa R$ 2,1 milhões por ano, apesar de a Polícia Militar ter como dever garantir a proteção dele — que só anda de carro blindado — e de toda a população do município. O dinheiro público banca a despesa de um grupo de 24 homens armados durante 24 horas por dia. Por mês, o município desembolsa cerca de R$ 173 mil para evitar que Quaquá seja vítima de qualquer ataque. O serviço se estende ao vice-prefeito, professor Marcos Ribeiro, também do PT, que tem direito à metade desse contingente.
Os pagamentos são feitos à Guepardo Vigilância e Segurança Empresarial Ltda., empresa com sede em Niterói, também na Região Metropolitana. O prazo do contrato, publicado em 2 de maio deste ano no Diário Oficial do município, é de um ano e 17 dias. O termo firmado entre a prefeitura e a empresa prevê a “prestação de segurança pessoal privada armada no desenvolvimento de atividades de segurança de pessoas para atendimento das autoridades”.
Haja risco de vida para justificar um aparato tão grande de seguranças! Não será culpado quem pensar que é o próprio Barack Obama o prefeito de Maricá. Ou, então, podemos aderir a uma tese diferente: muitos petistas, apesar do discurso popular (populista?), quando chegam ao poder aderem ao estilo nababesco de vida dos típicos milionários, sendo que jogam a conta para ombros alheios.
E quem poderia acusá-los de não ter um "bom" exemplo em cima, no topo da hierarquia do partido? Alguém lembra que o metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, assim que eleito, usou carro oficial exclusivo em desfile para a sua cadela? Alguém lembra dos tecidos egípcios comprados para forrar os cômodos do Palácio? Alguém lembra de familiares do ex-presidente usando aviões da FAB por diversão?
O "argumento" usado por Quaquá para contratar mais de 130 "cumpanheiros" para cargos de confiança é que ele é contra o "estado mínimo". Percebe-se! Os petistas, pelo visto, apreciam um "estado máximo" para caber todos os seus camaradas. E quem paga a conta dessa farra toda? Ora bolas, nós, os defensores do estado mínimo.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
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quarta-feira, julho 31, 2013
terça-feira, julho 23, 2013
Para Safatle, EUA = Alemanha Oriental
Rodrigo Constantino
Vladimir Safatle não costuma perder a oportunidade de atacar os Estados Unidos. Hoje, em sua coluna da Folha, não foi diferente. Ele até usou no título o nome do livro de Étienne de La Boétie: Servidão Voluntária. Descobrimos, com o professor, que os Estados Unidos não são mais uma democracia, e que se assemelham muito ao regime comunista da Alemanha Oriental. Vejamos:
"Eu não tenho nada para esconder. Por isso, pouco me importa que os EUA vejam meus e-mails, desde que isso nos permita vivermos em um mundo mais seguro."
Eu encontrei tal afirmação em um "post" no qual seu autor comentava uma notícia sobre o caso Edward Snowden. A primeira coisa que me veio à mente foi a lembrança de ter ouvido essa frase antes, mas em um contexto relativamente diferente.
Décadas atrás, um conhecido que estudava na antiga Alemanha Oriental, dissera: "Pouco me importa saber que a Stasi [polícia secreta da antiga Alemanha Oriental] me espione. Esse é o preço para defender o socialismo".
[...]
Hoje, quase 25 anos depois [da queda do Muro de Berlim], impressiona perceber quão parecidos são, em sua cegueira ideológica, essas duas pessoas que julgam defender mundos diferentes. É engraçado perceber como, no fundo, eles querem a mesma coisa: sacrificar, de uma vez por todas, a liberdade no altar de seus medos e obsessões.
Vladimir Safatle não costuma perder a oportunidade de atacar os Estados Unidos. Hoje, em sua coluna da Folha, não foi diferente. Ele até usou no título o nome do livro de Étienne de La Boétie: Servidão Voluntária. Descobrimos, com o professor, que os Estados Unidos não são mais uma democracia, e que se assemelham muito ao regime comunista da Alemanha Oriental. Vejamos:
"Eu não tenho nada para esconder. Por isso, pouco me importa que os EUA vejam meus e-mails, desde que isso nos permita vivermos em um mundo mais seguro."
Eu encontrei tal afirmação em um "post" no qual seu autor comentava uma notícia sobre o caso Edward Snowden. A primeira coisa que me veio à mente foi a lembrança de ter ouvido essa frase antes, mas em um contexto relativamente diferente.
Décadas atrás, um conhecido que estudava na antiga Alemanha Oriental, dissera: "Pouco me importa saber que a Stasi [polícia secreta da antiga Alemanha Oriental] me espione. Esse é o preço para defender o socialismo".
[...]
Hoje, quase 25 anos depois [da queda do Muro de Berlim], impressiona perceber quão parecidos são, em sua cegueira ideológica, essas duas pessoas que julgam defender mundos diferentes. É engraçado perceber como, no fundo, eles querem a mesma coisa: sacrificar, de uma vez por todas, a liberdade no altar de seus medos e obsessões.
[...]
Em um mundo onde até mesmo um louco assassinando alguém a machadinha transformou-se em um atentado terrorista, não é difícil imaginar como viveremos em um Estado de exceção permanente. O que me intriga é por que ainda chamar de "democracia" a uma situação assim.
E eis que chegamos à conclusão, segundo Safatle, que os Estados Unidos não são uma democracia, vivem sob um regime totalitário tal como a Alemanha comunista, onde não há mais privacidade alguma ou qualquer resquício de liberdade individual.
Com todas as críticas que o governo americano merece, especialmente sob a gestão do esquerdista Obama (não custa lembrar), tal afirmativa é um disparate, explicado somente por uma agenda de quem deseja desqualificar a nação norte-americana custe o que custar.
segunda-feira, julho 22, 2013
Pondé sobre a espionagem americana
Rodrigo Constantino
A coluna de Luiz Felipe Pondé hoje na Ilustrada da Folha é um choque de realismo para aqueles mais românticos, que sonham com um mundo sem espionagem, com total preservação de nossas privacidades. Pondé recusa a visão maniqueísta de preto ou branco, reconhecendo que, no mundo real, uma zona cinzenta de "sujeira" sempre existirá em nome de objetivos maiores. Ele diz:
Quando Obama disse que ninguém pode viver com segurança e privacidade com 0% de inconveniência, pensei: Obama virou gente grande. Mas não foi assim que o mundo reagiu. Quase todo mundo ficou horrorizado, e eu, fiquei horrorizado com mais um show de infantilidade do mundo em que vivemos. É um mundo "teenager" mesmo.
E por que o Brasil seria vigiado? Talvez porque suspeita-se que o Brasil esteja na rota entre o dinheiro do crime internacional e terroristas. E a América Latina está à beira de uma virada socialista, só não sabe quem não quer ver. Corrupção, autoritarismo, gestão inepta da economia e populismo sempre foram paixões secretas do socialismo.
A CPI do "Obamagate" é um truque nacionalista (tipo Guerra das Malvinas) para desviar a atenção da nossa crise econômica, apesar de muitos brincarem de revolução enquanto a economia vai para o saco nas mãos de um governo que aumentou os gastos públicos com embaixadas em repúblicas das bananas, criação de ministérios inúteis e "investimento" na inadimplência como forma de ganhar votos.
A diferença entre um "teenager" (ainda que com PhD, PostDoc e livre-docência) e alguém que sofre para ser um pouco menos "teenager" é saber que o mundo não é preto e branco e que se você é responsável por muitas coisas, você nem sempre vive com luvas de pelica.
Não é bonito o que o Obama fez. Mas todo mundo que tem as responsabilidades que o Obama tem faz coisas assim quando ocupa o lugar do Obama.
Por muito menos, vigiamos a geladeira para ver quantos iogurtes tem, os armários da cozinha para ver quantos sacos de açúcar tem, e as sacolas das empregadas para ver se elas não estão levando algum pacotinho de carne.
Nada disso é bonito, apenas é assim. Para manter as coisas funcionando, pessoas tem que fazer coisas que não são muito bonitinhas. Eu sei que os inteligentinhos facilmente entram em surto, mas que vão brincar no parque, com segurança, de preferência.
As redes sociais, esse grande bacanal de narcisismo, são um prato cheio para sermos vigiados. Sites nos dão nosso perfil de consumo e nossa "linha da vida". Celulares nos avisam quando algo acontece em nossa conta e em nosso cartão de crédito, e isso tudo é muito "prático", não?
Muitos alertas têm sido feitos, mas é sempre bom lembrar: quando o produto é gratuito, é porque o "produto" é você. Muita gente posta intimidades nas redes sociais, transforma sua vida em um livro aberto, e depois reclama que isso é usado por outros? É preciso mais cuidado, pois sabemos que, no mundo moderno, as informações digitais não estão seguras. Teremos que conviver com essa realidade. Pondé conclui:
Este evento revela a óbvia violência à privacidade que as redes sociais significam. A ideia de que elas são uma ferramenta da democracia pode ser uma ideia também infantil.
Além de elas serem um elemento de alto risco com relação a linchamentos e violência espontânea, elas nos tornam vulneráveis de modo direto na medida em que estar "na rede" significa estar dependente de uma "teia" (de aranha) tecnológica de controle bastante vulnerável a tutela das empresas que nos oferecem a própria ferramenta. Por isso o nome é TI, tecnologias da informação.
Há muito se sabe que é mais fácil subornar um blogueiro do que um jornal gigantesco (o blogueiro é mais barato...). Agora fica mais claro ainda que a manipulação via redes sociais é muito maior do que via mídia "clássica".
Todo mundo sabe que não pode marcar encontros amorosos ilegítimos via e-mail ou mensagem de celular, como alguém fica escandalizado que a internet não seja segura? Parece papo de falsa virgem de 50 anos.
Em breve esqueceremos isso e continuaremos a postar fotos, falar bobagens, marcar revoluções no final de tarde e propor utopias que requentam a falida autogestão. E viajar para fazer compras em Miami com segurança e usando Visa.
Snowden, e seus 15 minutos, é mais um falso herói para falsos adultos.
A coluna de Luiz Felipe Pondé hoje na Ilustrada da Folha é um choque de realismo para aqueles mais românticos, que sonham com um mundo sem espionagem, com total preservação de nossas privacidades. Pondé recusa a visão maniqueísta de preto ou branco, reconhecendo que, no mundo real, uma zona cinzenta de "sujeira" sempre existirá em nome de objetivos maiores. Ele diz:
Quando Obama disse que ninguém pode viver com segurança e privacidade com 0% de inconveniência, pensei: Obama virou gente grande. Mas não foi assim que o mundo reagiu. Quase todo mundo ficou horrorizado, e eu, fiquei horrorizado com mais um show de infantilidade do mundo em que vivemos. É um mundo "teenager" mesmo.
E por que o Brasil seria vigiado? Talvez porque suspeita-se que o Brasil esteja na rota entre o dinheiro do crime internacional e terroristas. E a América Latina está à beira de uma virada socialista, só não sabe quem não quer ver. Corrupção, autoritarismo, gestão inepta da economia e populismo sempre foram paixões secretas do socialismo.
A CPI do "Obamagate" é um truque nacionalista (tipo Guerra das Malvinas) para desviar a atenção da nossa crise econômica, apesar de muitos brincarem de revolução enquanto a economia vai para o saco nas mãos de um governo que aumentou os gastos públicos com embaixadas em repúblicas das bananas, criação de ministérios inúteis e "investimento" na inadimplência como forma de ganhar votos.
A diferença entre um "teenager" (ainda que com PhD, PostDoc e livre-docência) e alguém que sofre para ser um pouco menos "teenager" é saber que o mundo não é preto e branco e que se você é responsável por muitas coisas, você nem sempre vive com luvas de pelica.
Estou de acordo que o mundo não é dividido de forma simplista entre "bonzinhos" e "malvados". Também estou de acordo que nosso governo usa como pretexto para desviar o foco da crise atual o caso da espionagem. Também concordo que há razões para que os Estados Unidos queiram espionar a América Latina sim. Com isso tudo estou de acordo com Pondé. Mas aqui começo a discordar um pouco:
Sim, é verdade que todos vão fazer mais ou menos o que foi feito. Mas, em primeiro lugar, talvez não na mesma magnitude, e há que se ter mecanismos de pesos e contrapesos para impedir um avanço desmedido do "olho grande" estatal em nossas vidas. Em segundo lugar, há uma escalada de poder concentrado no "Grande Irmão" que incomoda - ou deveria incomodar - qualquer liberal.
Por fim, Obama sempre gozou de um salvo-conduto, enquanto Bush era o demônio em pessoa. Quando Obama mostra ser ainda mais invasivo que Bush em nossas liberdades, isso merece duras críticas sim, até para mostrar que a esquerda não é esse ícone de respeito às liberdades civis como propagado; muito pelo contrário!
Feita essa ressalva, volto ao ponto de concordância com Pondé. O filósofo esfrega na cara de muita gente a hipocrisia de quem condena uma coisa na teoria, e faz outra na prática:
[...]
As redes sociais, esse grande bacanal de narcisismo, são um prato cheio para sermos vigiados. Sites nos dão nosso perfil de consumo e nossa "linha da vida". Celulares nos avisam quando algo acontece em nossa conta e em nosso cartão de crédito, e isso tudo é muito "prático", não?
Muitos alertas têm sido feitos, mas é sempre bom lembrar: quando o produto é gratuito, é porque o "produto" é você. Muita gente posta intimidades nas redes sociais, transforma sua vida em um livro aberto, e depois reclama que isso é usado por outros? É preciso mais cuidado, pois sabemos que, no mundo moderno, as informações digitais não estão seguras. Teremos que conviver com essa realidade. Pondé conclui:
Este evento revela a óbvia violência à privacidade que as redes sociais significam. A ideia de que elas são uma ferramenta da democracia pode ser uma ideia também infantil.
Há muito se sabe que é mais fácil subornar um blogueiro do que um jornal gigantesco (o blogueiro é mais barato...). Agora fica mais claro ainda que a manipulação via redes sociais é muito maior do que via mídia "clássica".
Todo mundo sabe que não pode marcar encontros amorosos ilegítimos via e-mail ou mensagem de celular, como alguém fica escandalizado que a internet não seja segura? Parece papo de falsa virgem de 50 anos.
Em breve esqueceremos isso e continuaremos a postar fotos, falar bobagens, marcar revoluções no final de tarde e propor utopias que requentam a falida autogestão. E viajar para fazer compras em Miami com segurança e usando Visa.
Snowden, e seus 15 minutos, é mais um falso herói para falsos adultos.
sexta-feira, julho 19, 2013
Detroit e a lição de Schumpeter
Rodrigo Constantino
Deu no GLOBO: Detroit se torna a maior metrópole americana a pedir concordata
Símbolo da industrialização, da classe média e do sonho americanos, Detroit não resistiu a 50 anos de esvaziamento, falta de planejamento e desleixo fiscal, entrando ontem com pedido de concordata na Justiça federal de Michigan, na maior declaração de insolvência municipal da história dos EUA.
A icônica capital automotiva do país não conseguiu acordo com credores e sindicatos de servidores públicos para reescalonar a dívida estimada em US$ 18,5 bilhões e solicitou supervisão judicial para implementar um plano de reequilíbrio de suas finanças.
[...]
O desfecho, esperado nas últimas três semanas à medida que as negociações emperraram, é desolador para uma cidade que já teve a maior renda per capita dos EUA. Hoje, Detroit tem 710 mil habitantes, uma população 63% menor do que na década de 50, quando era a quarta maior cidade dos EUA; perdeu empresas e cérebros e vive um cenário de terra arrasada, com serviços públicos decadentes e bairros inteiros desertos.
Há 78 mil prédios comerciais abandonados por toda a cidade e, todos os anos, 13 mil residências deixam ter moradores. Neste quadro de asfixia, a base fiscal municipal encolheu muito e Detroit passou a não fechar mais as contas há cinco anos, recorrendo freneticamente à emissão de títulos para cumprir obrigações.
— O que o cidadão de Detroit precisa entender é que a situação na qual nos encontramos é o ápice de anos e anos e anos chutando a lata adiante na estrada — disse há um mês Kevyn Orr, que esteve à frente do bem-sucedido plano de reestruturação da Chrysler.
Lar de Ford, GM e Chrysler — as três irmãs, que são as maiores montadoras americanas e ironicamente foram resgatadas da falência pela Casa Branca após a eclosão da crise de 2008 —, Detroit vive cinco décadas de desindustrialização, provocadas pela consolidação das fabricantes de automóveis e autopeças e o deslocamento de fábricas para áreas do subúrbio da capital de Michigan, outros estados e mesmo países, ante a competição asiática.
Deu no GLOBO: Detroit se torna a maior metrópole americana a pedir concordata
Símbolo da industrialização, da classe média e do sonho americanos, Detroit não resistiu a 50 anos de esvaziamento, falta de planejamento e desleixo fiscal, entrando ontem com pedido de concordata na Justiça federal de Michigan, na maior declaração de insolvência municipal da história dos EUA.
A icônica capital automotiva do país não conseguiu acordo com credores e sindicatos de servidores públicos para reescalonar a dívida estimada em US$ 18,5 bilhões e solicitou supervisão judicial para implementar um plano de reequilíbrio de suas finanças.
[...]
O desfecho, esperado nas últimas três semanas à medida que as negociações emperraram, é desolador para uma cidade que já teve a maior renda per capita dos EUA. Hoje, Detroit tem 710 mil habitantes, uma população 63% menor do que na década de 50, quando era a quarta maior cidade dos EUA; perdeu empresas e cérebros e vive um cenário de terra arrasada, com serviços públicos decadentes e bairros inteiros desertos.
Há 78 mil prédios comerciais abandonados por toda a cidade e, todos os anos, 13 mil residências deixam ter moradores. Neste quadro de asfixia, a base fiscal municipal encolheu muito e Detroit passou a não fechar mais as contas há cinco anos, recorrendo freneticamente à emissão de títulos para cumprir obrigações.
— O que o cidadão de Detroit precisa entender é que a situação na qual nos encontramos é o ápice de anos e anos e anos chutando a lata adiante na estrada — disse há um mês Kevyn Orr, que esteve à frente do bem-sucedido plano de reestruturação da Chrysler.
Lar de Ford, GM e Chrysler — as três irmãs, que são as maiores montadoras americanas e ironicamente foram resgatadas da falência pela Casa Branca após a eclosão da crise de 2008 —, Detroit vive cinco décadas de desindustrialização, provocadas pela consolidação das fabricantes de automóveis e autopeças e o deslocamento de fábricas para áreas do subúrbio da capital de Michigan, outros estados e mesmo países, ante a competição asiática.
A falência de Detroit tem muitas lições. O sindicalismo forte, a gastança estatal, o populismo, enfim, as bandeiras de esquerda que inexoravelmente cobram um alto preço da população. Mas talvez a principal delas seja sobre a "destruição criadora" de que falava Schumpeter.
O capitalismo é dinâmico, concorrido, com grande avanço tecnológico. Isso assusta, sem dúvida, mas é o que garante o progresso, a geração de mais riqueza e conforto. Mas, para fazer parte desse fantástico sistema, é necessário encarar os desafios com realismo, e se adaptar, se tornar sempre mais competitivo.
Detroit viveu seus anos áureos com as grande montadoras, mas essa fase passou. Em boa parte pelo elevado custo imposto a essas empresas, pelo poder sindical, pelos impostos estatais, pela mão de obra mais cara, as empresas buscaram alternativas para sobreviver. Michael Moore preferiu fazer populismo com isso, e ficar rico no processo, em vez de entender e explicar que não restava opção: era se adaptar, ou morrer.
O protecionismo comercial serve apenas para preservar empregos e empresas ineficientes, o que tem data de validade, é temporário. Não dá para fugir da realidade dos mercados para sempre, a não ser que se feche como um ouriço, tal como a Coreia do Norte. Ninguém pode celebrar o resultado, não é mesmo?
Concorrência incomoda, mas é parte do jogo, e parte fundamental. Detroit achou que dava para ignorar isso, e deu no que deu. Obama fez alarde de que não deixaria Detroit quebrar. Agora Obama, outro típico populista de esquerda, terá que conviver com mais esta lição dos mercados: a realidade é inexorável. O processo evolutivo do capitalismo não tolera acomodados e perdulários.
quarta-feira, julho 17, 2013
Em cima do muro?
Rodrigo Constantino
A reportagem de capa do Segundo Caderno do GLOBO fala de novo livro sobre Bruce Springsteen, especificamente sobre a história do show que ele fez na Alemanha em 1988, meses antes da queda do Muro. O que há de instrutivo nisso é a roupagem que a esquerda sempre usa para parecer neutra, isenta, imparcial, acima das disputas partidárias ou ideológicas. O cantor teria dito, segundo a matéria:
Não sou a favor ou contra nenhum governo. Estou aqui para tocar rock and roll para vocês, na esperança de que um dia todas as barreiras sejam derrubadas.
Muito bonito, não é mesmo? Nos remete até à música "Imagine", de John Lennon. Só tem um detalhe chato: é mentira! Springsteen, ou "The Boss", como gosta de ser chamado, tem partido, ideologia, e é ativista. Ganha uma mariola quem acertar para qual lado ele faz campanha? O lado esquerdo, claro!
Bruce endossou a campanha de Obama e fez shows para levantar recursos para o então candidato Democrata. Além disso, seus discursos politizados clamam sempre por "justiça social", leia-se mais impostos. Afinal, Bruce é identificado como um "homem do povo", próximo dos operários de chão de fábrica. Tirando o fato de que ele é podre de rico e faz de tudo para pagar menos impostos...
O cantor, que ganha milhões enquanto posa como guardião das classes baixas, economiza milhares de dólares em impostos com mecanismos um tanto obscuros. Ele se declara um fazendeiro dentro do limite estadual que lhe garante subsídios fiscais em toda a sua enorme propriedade. A ganância parece ruim apenas quando é dos outros.
Além disso, algo como 15% da venda total de seus discos se dá pelo canal de distribuição da Wal-Mart. A gigantesca rede de varejo, como sabemos, é vista como inimiga número um dos trabalhadores simples, pois não aderiu ao jogo de sindicalização que, no fundo, atende aos interesses apenas dos sindicalistas.
Obviamente, o show não teve efeito direto na queda. Houve a pressão popular, o Gorbachev e outros fatores que contribuíram decisivamente para isso.
A reportagem de capa do Segundo Caderno do GLOBO fala de novo livro sobre Bruce Springsteen, especificamente sobre a história do show que ele fez na Alemanha em 1988, meses antes da queda do Muro. O que há de instrutivo nisso é a roupagem que a esquerda sempre usa para parecer neutra, isenta, imparcial, acima das disputas partidárias ou ideológicas. O cantor teria dito, segundo a matéria:
Não sou a favor ou contra nenhum governo. Estou aqui para tocar rock and roll para vocês, na esperança de que um dia todas as barreiras sejam derrubadas.
Muito bonito, não é mesmo? Nos remete até à música "Imagine", de John Lennon. Só tem um detalhe chato: é mentira! Springsteen, ou "The Boss", como gosta de ser chamado, tem partido, ideologia, e é ativista. Ganha uma mariola quem acertar para qual lado ele faz campanha? O lado esquerdo, claro!
Bruce endossou a campanha de Obama e fez shows para levantar recursos para o então candidato Democrata. Além disso, seus discursos politizados clamam sempre por "justiça social", leia-se mais impostos. Afinal, Bruce é identificado como um "homem do povo", próximo dos operários de chão de fábrica. Tirando o fato de que ele é podre de rico e faz de tudo para pagar menos impostos...
O cantor, que ganha milhões enquanto posa como guardião das classes baixas, economiza milhares de dólares em impostos com mecanismos um tanto obscuros. Ele se declara um fazendeiro dentro do limite estadual que lhe garante subsídios fiscais em toda a sua enorme propriedade. A ganância parece ruim apenas quando é dos outros.
Além disso, algo como 15% da venda total de seus discos se dá pelo canal de distribuição da Wal-Mart. A gigantesca rede de varejo, como sabemos, é vista como inimiga número um dos trabalhadores simples, pois não aderiu ao jogo de sindicalização que, no fundo, atende aos interesses apenas dos sindicalistas.
Volto ao ponto inicial: sempre que alguém afirmar que não quer saber de ideologia ou partido, que é contra "tudo isso que está aí", que não gosta desse debate ultrapassado entre direita e esquerda, saiba que há enorme probabilidade de você estar diante de um esquerdista. Bruce Springsteen é um caso claro disso. Vejam o que o autor do livro diz sobre o impacto do show na queda do Muro de Berlim:
Sentiram falta de algum nome na lista? Pois é. Nada de Ronald Reagan, provavelmente o maior responsável individual pela queda do Muro! Mas o socialista GOrbachev, que tentava salvar o regime, é citado com destaque. Acima de ideologias? Sei...
Muito cuidado com aqueles que pairam "acima" da política. Obama era um deles. E seu viés é totalmente de esquerda. Quase sempre é assim.
sexta-feira, julho 05, 2013
Espião francês pode?
Rodrigo Constantino
Deu na Folha: França mantém amplo esquema de espionagem
O governo da França mantém um amplo esquema de espionagem usado para interceptar, sem autorização judicial, ligações telefônicas e mensagens na internet, afirmou ontem o jornal "Le Monde".
A publicação comparou a estrutura ao Prism, sistema de vigilância dos EUA cuja existência foi revelada pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden.
A revelação constrange o governo do presidente François Hollande, que havia protestado contra a coleta de dados pelos americanos.
De acordo com o "Le Monde", a espionagem feita no país é ilegal e não obedece a nenhum tipo de controle externo.
O governo francês não havia comentado o assunto até a noite de ontem.
Deu na Folha: França mantém amplo esquema de espionagem
O governo da França mantém um amplo esquema de espionagem usado para interceptar, sem autorização judicial, ligações telefônicas e mensagens na internet, afirmou ontem o jornal "Le Monde".
A publicação comparou a estrutura ao Prism, sistema de vigilância dos EUA cuja existência foi revelada pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden.
A revelação constrange o governo do presidente François Hollande, que havia protestado contra a coleta de dados pelos americanos.
De acordo com o "Le Monde", a espionagem feita no país é ilegal e não obedece a nenhum tipo de controle externo.
O governo francês não havia comentado o assunto até a noite de ontem.
Onde estão os esquerdistas? Onde está a revolta dos artistas e intelectuais da gauche caviar? Quando o alvo do ataque é o governo americano, sai de baixo; especialmente se for um governo Republicano! Obama tem recebido muitas críticas sim, por usar a abusar de mecanismos que, sob Bush, eram alvo de repúdio absoluto. Mas mesmo Obama já recebe uma crítica bem mais suave do que receberia Bush. E isso só porque ele não pode mais ser reeleito.
Mas quando é o governo francês... aí a turma dos "direitos civis" fica bem mais discreta, calma. Quando é o governo francês sob um socialista como Hollande então! Esse tipo de duplo padrão demonstra que falta muita imparcialidade nos debates. Governantes mais alinhados com o pensamento de esquerda gozam de uma espécie de salvo-conduto para abusar do poder.
Isso não está certo, e precisa mudar. Mas, para tanto, é preciso colocar a busca pela verdade e a objetividade das críticas acima da ideologia. Talvez seja pedir muito desses artistas e intelectuais...
segunda-feira, julho 01, 2013
Imagina se fosse com Bush...
Rodrigo Constantino
A crise gerada pelo vazamento de informações sigilosas de espionagem do governo americano se internacionalizou. O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha convocou o embaixador norte-americano no país, Philip Murphy, para pedir esclarecimentos sobre alegações de que a Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) dos EUA espionou instituições da União Europeia.
Abro aqui um parêntese: não vejo Edward Snowden, o ex-técnico da CIA responsável pelos vazamentos, como um herói libertário, ao contrário de muitos colegas. Claro que há efeitos positivos no que ele fez, mas nem por isso seus atos são defensáveis, já que, para liberais como eu, os fins nobres não justificam quaisquer meios. Isso sem falar que não costumo ter muita simpatia por "heróis da liberdade" cujo alvo prioritário é sempre o governo americano, e que depois ainda buscam refúgio nas piores ditaduras mundo afora. Fecho o parêntese.
O que eu queria falar aqui pode ser resumido em uma perguntinha básica: alguém consegue imaginar qual seria a reação em geral caso essas denúncias todas ocorressem durante o governo Bush? O governo americano usando os drones de forma compulsiva e sem controle ou transparência, a Associated Press sendo monitorada pelo governo, a Receita Federal (IRS) investigando opositores políticos com mais afinco, e espionagem envolvendo até a Europa? Sério, qual seria a reação das pessoas, da grande imprensa?
Posso imaginar Michael Moore com sua corpulenta presença diária na imprensa, alegando que vive sob a pior ditadura do mundo. Noam Chomsky diria que nem Hitler chegou tão longe. A CNN não falaria de outra coisa. Sean Penn viajaria até Cuba para abraçar Fidel Castro e apontar como deveria ser um regime verdadeiramente livre. Oliver Stone diria que a América tinha que ter perdido a Guerra Fria para o mundo poder viver com liberdade sob a União Soviética.
E não só por lá. Aqui, Arnaldo Jabor daria ataques histéricos semanalmente em suas colunas de jornal, e faria acusações terríveis na televisão. Todos ficariam chocados e não falariam de outra coisa: o governo americano sob Bush com esse histórico seria visto como a mais cruel e nefasta ditadura que o mundo já viu! Ninguém pode duvidar disso...
O fato de não ser nada parecida a reação quando é Obama no poder diz muito sobre a esquerda. Mostra como ela parte de um duplo padrão de julgamento, como ela apela para um salvo-conduto quando quem abusa do poder é "um dos seus". Sim, há críticas aqui e acolá, sem dúvida. Até porque Obama não pode mais ser reeleito, e a esquerda já prepara o terreno para outro - ou outra - messias, que virá "salvar a Pátria" e quiçá a humanidade.
A esquerda monopoliza os fins nobres, as virtudes, e quando alguém se mostra autoritário, corrupto, vendido ou incompetente, então ela ou fecha os olhos, ou pior!, diz que o governante em questão "aderiu à direita". A esquerda precisa permanecer pura. É uma tática pérfida, nojenta, asquerosa, mas que infelizmente ainda engana muitos inocentes úteis.
Observar a reação dessa gente diante dos escândalos do governo Obama é bastante instrutivo. Trata-se de um silêncio constrangedor se comparado ao que seriam os ataques raivosos no caso de um governo Republicano. Um peso, duas medidas. Essa é a marca registrada da esquerda. É lamentável...
A crise gerada pelo vazamento de informações sigilosas de espionagem do governo americano se internacionalizou. O Ministério das Relações Exteriores da Alemanha convocou o embaixador norte-americano no país, Philip Murphy, para pedir esclarecimentos sobre alegações de que a Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) dos EUA espionou instituições da União Europeia.
Abro aqui um parêntese: não vejo Edward Snowden, o ex-técnico da CIA responsável pelos vazamentos, como um herói libertário, ao contrário de muitos colegas. Claro que há efeitos positivos no que ele fez, mas nem por isso seus atos são defensáveis, já que, para liberais como eu, os fins nobres não justificam quaisquer meios. Isso sem falar que não costumo ter muita simpatia por "heróis da liberdade" cujo alvo prioritário é sempre o governo americano, e que depois ainda buscam refúgio nas piores ditaduras mundo afora. Fecho o parêntese.
O que eu queria falar aqui pode ser resumido em uma perguntinha básica: alguém consegue imaginar qual seria a reação em geral caso essas denúncias todas ocorressem durante o governo Bush? O governo americano usando os drones de forma compulsiva e sem controle ou transparência, a Associated Press sendo monitorada pelo governo, a Receita Federal (IRS) investigando opositores políticos com mais afinco, e espionagem envolvendo até a Europa? Sério, qual seria a reação das pessoas, da grande imprensa?
Posso imaginar Michael Moore com sua corpulenta presença diária na imprensa, alegando que vive sob a pior ditadura do mundo. Noam Chomsky diria que nem Hitler chegou tão longe. A CNN não falaria de outra coisa. Sean Penn viajaria até Cuba para abraçar Fidel Castro e apontar como deveria ser um regime verdadeiramente livre. Oliver Stone diria que a América tinha que ter perdido a Guerra Fria para o mundo poder viver com liberdade sob a União Soviética.
E não só por lá. Aqui, Arnaldo Jabor daria ataques histéricos semanalmente em suas colunas de jornal, e faria acusações terríveis na televisão. Todos ficariam chocados e não falariam de outra coisa: o governo americano sob Bush com esse histórico seria visto como a mais cruel e nefasta ditadura que o mundo já viu! Ninguém pode duvidar disso...
O fato de não ser nada parecida a reação quando é Obama no poder diz muito sobre a esquerda. Mostra como ela parte de um duplo padrão de julgamento, como ela apela para um salvo-conduto quando quem abusa do poder é "um dos seus". Sim, há críticas aqui e acolá, sem dúvida. Até porque Obama não pode mais ser reeleito, e a esquerda já prepara o terreno para outro - ou outra - messias, que virá "salvar a Pátria" e quiçá a humanidade.
A esquerda monopoliza os fins nobres, as virtudes, e quando alguém se mostra autoritário, corrupto, vendido ou incompetente, então ela ou fecha os olhos, ou pior!, diz que o governante em questão "aderiu à direita". A esquerda precisa permanecer pura. É uma tática pérfida, nojenta, asquerosa, mas que infelizmente ainda engana muitos inocentes úteis.
Observar a reação dessa gente diante dos escândalos do governo Obama é bastante instrutivo. Trata-se de um silêncio constrangedor se comparado ao que seriam os ataques raivosos no caso de um governo Republicano. Um peso, duas medidas. Essa é a marca registrada da esquerda. É lamentável...
segunda-feira, dezembro 24, 2012
Sejamos pragmáticos
João Luiz Mauad, O GLOBO
Tão logo surgiram as primeiras notícias do mais recente massacre de crianças nos
Estados Unidos, começaram as pressões para a revisão da lei de controle de armas.
O presidente Obama, por exemplo, em discurso emocionado, disse que algo precisava
ser feito com urgência para evitar futuros episódios semelhantes e conclamou o
Congresso a discutir a questão “sem ideologias”. Portanto, sejamos pragmáticos.
Quem quer que pretenda analisar os fatos e as possíveis soluções de forma racional
e objetiva precisa, antes de mais nada, colocá-los em perspectiva. Muito embora
massacres como aquele sejam cruéis e chocantes, é necessário relativizá-los
para saber até que ponto uma ação política restritiva das liberdades individuais,
francamente conflitante com alguns princípios constitucionais fundamentais da nação
americana, seria realmente necessária, urgente e efetiva.
Vejamos então alguns dados empíricos relevantes. No livro "Risco: a Ciência e a
Política do Medo", o jornalista canadense Dan Gardner calculou que a probabilidade
de um estudante americano ser assassinado na escola era praticamente irrisória
- menos de 1 em 1,5 milhão. Muitos sequer imaginam, mas nos últimos 30 anos
morreram, em média, três vezes mais pessoas atingidas por raios nos EUA do que
vítimas de atiradores possessos – 51 a 18 por ano.
Diante desses números, a pergunta lógica é: vale à pena fazer alguma coisa para
tentar reduzir ainda mais as chances desses massacres, tendo em vista os eventuais
efeitos colaterais indesejáveis dessas medidas? Em outras palavras, será que o
tratamento não seria pior que a doença?
Calcula-se que existam na América 310 milhões de armas não militares nas mãos dos
cidadãos (mais de uma arma por cabeça), enquanto o índice de homicídios praticados
por tais armas é de cerca de 4 para cada 100.000 pessoas, com tendência fortemente
declinante nas últimas décadas. Não se sabe quantos crimes são evitados, todos os
dias, por conta do farto arsenal mantido pela população ordeira, mas a lógica nos
induz a pensar que tirar do cidadão a prerrogativa de legítima defesa só dará mais
vantagem e confiança aos bandidos. Senão, vejamos:
No Brasil, o acesso a uma arma, pelo menos legalmente, é muito difícil, quase
impossível. Apesar disso, o índice de homicídios por armas de fogo está na casa
dos 20 para cada 100.000 habitantes ou 5 vezes o padrão americano. Chacinas por
aqui também não faltam, vide São Paulo nos últimos meses. A experiência brasileira
demonstra, portanto, que dificultar a aquisição legal de armas não é sinônimo de
segurança, muito pelo contrário.
Sejamos pragmáticos: alterar a constituição de um país, em vigor de forma eficaz
há mais de 2 séculos, por conta de alguns casos isolados, ainda que chocantes,
não é uma decisão sensata. Políticas públicas não devem ser ditadas no calor
das emoções, simplesmente para apaziguar os ânimos mais exaltados, até porque
boa parte das pessoas não conhece as estatísticas ou vislumbra os possíveis
efeitos colaterais de certas políticas. O clamor público, quase sempre irracional ou
manipulado ideologicamente, nunca foi bom conselheiro.
sábado, novembro 24, 2012
Mais um super-herói nacional
Guilherme Fiúza, O GLOBO
José Dirceu acertou uma: disse que o populismo chegou ao Supremo Tribunal Federal. E chegou mesmo. Não no mérito do julgamento do mensalão, que é o que Dirceu quer desclassificar. Mas nas maneiras e nos discursos afetados dos ministros, em especial o presidente que a Corte acaba de empossar, Joaquim Barbosa — o novo herói brasileiro.
O presépio está ficando completo: a “presidenta”, afilhada do ex-operário, que indicou o negro para a elite do Judiciário. Negro como Barack Obama, o presidente da nação mais rica, que ganhou o Nobel da Paz sem fazer nada — não por seus belos olhos, mas pela cor da sua pele. O mundo politicamente correto é racista.
Depois do Nobel “étnico”, Obama começou a trabalhar e mostrou enfim quem era: um líder fraco, canastrão, tentando se equilibrar entre o conservadorismo americano e seu símbolo de defensor dos fracos. Não agradou verdadeiramente a ninguém. Conseguiu uma reeleição apertada contra um dos piores candidatos republicanos dos últimos tempos. E já saiu anunciando aumento de impostos para os “ricos” — a única coisa que os populistas sabem fazer: garfar quem produz e quem investe para engordar a burocracia estatal.
Claro que Obama não vai produzir bem-estar social nenhum desse jeito, sangrando uma economia asfixiada a pretexto de distribuir renda. Os esquerdistas que emergiram na Europa panfletando contra o rigor fiscal alemão já começaram a dar com os burros n’água. As sociedades cresceram demais, e o que pode salvá-las é mais dinamismo, e não mais impostos e gastos estatais. Mas o mito do governante bonzinho que vai salvar a todos parece indestrutível.
O Brasil vive esse sonho de ter um governo mais humano por ser presidido por uma mulher. As pessoas acreditam em qualquer coisa. Basta ver os argentinos dando corda para os delírios autoritários de Cristina Kirchner (o presépio progressista tinha que ter uma viúva profissional). Cristina e Dilma são irmãs gêmeas em certas decisões maternais, como a redução na marra das tarifas de energia. O desastre decorrente dessa bondade já se consumou na Argentina, e começa a se consumar no Brasil, com as ações das empresas do setor desabando vertiginosamente. É comovente como o populismo arruína as estruturas de um país sem perder a ternura.
Enquanto a propaganda do oprimido funcionar, o governo sabe que não precisa governar. A última pérola é a campanha publicitária da Infraero. Como se sabe, o governo Dilma não planeja nada (não dá tempo), e aí vem a Copa do Mundo jogar um holofote nos remendos da infraestrutura. O que faz então o governo? Propaganda. Após anos de escárnio no Aeroporto Internacional do Galeão, onde já se viu até passageiro arrastando bagagem pela escada por falta de elevador, o contribuinte tem que ouvir agora a mensagem de que a Infraero está trabalhando pelo seu conforto etc. Podem zombar, os brasileiros não ligam.
Nem se importam que o ministro da Justiça faça comício contra as prisões brasileiras, quando seus companheiros mensaleiros se encaminham para elas. José Eduardo Cardozo disse que preferia morrer a ir preso no Brasil. Aparentemente, também prefere a morte a ter que descer do palanque e administrar as prisões. Com a crise de violência em São Paulo, um preposto do ministro apareceu para declarar que ofereceu uma maleta detetora de celulares ao governador paulista. O mais importante era avisar à imprensa que o governo tucano não respondera à generosa oferta. Em meio à onda de mortes, a estratégia do governo popular era fazer pegadinha partidária.
Cardozo disse que as prisões brasileiras são medievais. Em seguida, por coincidência, Dias Toffoli, o ministro do PT no Supremo, declarou que as penas de prisão para os mensaleiros são medievais. Os brasileiros não se incomodam de ter um juiz partidário fingindo que julga seus companheiros, e aí ficam achando que o que julga de verdade é herói.
Onde está o heroísmo de Joaquim Barbosa? Ele foi o relator de um processo julgado sete anos depois do fato — e nesse intervalo o partido dos réus fez a festa em três eleições. A estratégia petista de fazer o mensalão sumir no retrovisor só não deu certo porque a imprensa gritou contra o escândalo do escândalo — e praticamente empurrou o STF para o julgamento.
Joaquim fez bem o seu trabalho. Mas também fez bravatas, mostrou pouca serenidade em bate-bocas com colegas (tivera um embate público quase infantil com Gilmar Mendes), se empolgou às vezes com sua própria mão pesada, mostrou-se intolerante e preconceituoso ao dizer a jornalistas que eles estavam fazendo “pergunta de branco”. Tomou posse no STF com discurso militante, para delírio dos progressistas que o veneram por sua origem pobre e pela cor da sua pele.
O Brasil mimou o ex-operário e não aprendeu nada com isso. Continua em busca do seu super-herói social. Os parasitas da nação agradecem. Eles se saem muito bem no reino da fantasia.
terça-feira, novembro 13, 2012
A ideologia de Obama
Rodrigo Constantino, O GLOBO
Será que um marido em busca de uma “transformação fundamental” de sua esposa lhe tem amor sincero? Parece estranho alguém que ama tentar mudar a essência do ser amado. Mas esta tem sido justamente a promessa de Obama: “transformar fundamentalmente” a América.
A imprensa pinta um Obama pragmático e moderado, enquanto os republicanos são atacados de forma caricatural, como um bando de ultraconservadores reacionários. Obama estaria acima das ideologias, enquanto os republicanos seriam dogmáticos. Será que esta imagem corresponde à realidade?
Se o marxismo foi sempre uma desgraça em seus resultados, parece inegável seu sucesso na propaganda. Em parte, isso se deve ao verniz científico que esta religião secular conseguiu criar. Os marxistas não eram crentes, mas donos da razão. Aquilo não era uma profecia calcada na fé, e sim uma certeza científica.
Os “progressistas” são os herdeiros intelectuais desta farsa. Escondem sua ideologia sob o manto da ciência — pseudociência, na verdade.
Em cada frase proferida por Obama e seus acólitos, há a crença de que o Estado é a grande locomotiva do progresso. Os empresários são tratados com desconfiança, o mercado é perigoso e aumentar impostos é sempre desejável. Obama chegou a afirmar que defenderia impostos maiores sobre ganhos de capital, mesmo sabendo que isso não levaria a uma arrecadação maior. Era uma questão de “justiça” para ele.
Suas medidas na área econômica têm se mostrado ineficientes, com resultado medíocre. Não importa: a esquerda sempre pode argumentar que sem elas a coisa estaria ainda pior. Culpam o antecessor, que deixou uma “herança maldita”. Reagan também assumiu uma economia em frangalhos, mas conseguiu resultados bem melhores. Ele acreditava no mercado, não na clarividência estatal.
Obama é elogiado pela coragem de seus gastos bilionários para estimular a economia, além do resgate das montadoras. Não é fácil entender que coragem é essa em torrar o dinheiro dos pagadores de impostos ou salvar empresas ineficientes, favorecendo os ricos de Wall Street e os sindicalistas, enquanto o déficit fiscal explode. O futuro foi hipotecado para não haver sofrimento hoje. Isso é um ato de coragem?
Com retórica de luta de classes, Obama expandiu o assistencialismo, e nunca houve tanto americano dependendo de esmolas estatais. A meritocracia cedeu espaço para o coletivismo. O sonho americano parece cada vez mais distante.
Outro grande troféu de Obama foi seu programa de saúde, o Obamacare. Trata-se de uma espécie de SUS americano. Ninguém quer debater sobre seus resultados práticos. Basta o monopólio dos fins nobres: só um insensível pode ser contra este programa. Será? Os esquerdistas nunca pensam nas conseqüências não intencionais de suas medidas. Mas elas existem, e temos vários exemplos. O próprio SUS...
Quando se trata do clima, Obama novamente demonstra sua ideologia: abraçou com vontade o alarmismo. Antes, o ecoterrorismo era feito em nome do “aquecimento global”, e agora se fala em “mudanças climáticas”, termo mais vago. A seita verde busca uma capa científica, mas há vários furos nas previsões catastróficas de seus profetas.
Mas a solução para o problema está dada: mais poder e recursos concentrados no Estado! Pouco importa se, na prática, esta mentalidade pariu fracassos gritantes como o da Solyndra, empresa que recebeu milhões do governo Obama e foi à falência. Vale mais a retórica messiânica. Obama se colocou como um deus capaz de “salvar o planeta”. Mas são os outros que acabam acusados de arrogantes!
Nas liberdades civis, quando Bush aprovou o Patriot Act foi um escândalo, mas quando Obama expandiu seus poderes arbitrários, constrangedor silêncio. Vários outros exemplos ilustram o claro viés ideológico de Obama e da imprensa.
Não há nada errado, a princípio, em ter uma ideologia. Todos têm uma (algumas mais embasadas que outras). O problema é a desonestidade de se vender como moderado e pragmático (o pragmatismo é uma ideologia!), quando se carrega uma profunda crença ideológica escondida.
Obama não é, definitivamente, um moderado; ele tem uma visão de mundo para a América, e ela difere bastante daquela dos “pais fundadores”, que criou a nação mais próspera e livre do mundo. Seus principais gurus eram todos esquerdistas radicais. Ele adoraria ver seu país cada vez mais parecido com a França “progressista”, cujo presidente socialista acaba de aprovar imposto de 75% para os mais ricos. Resta só alguém avisar a Obama que este modelo de bem-estar social está totalmente falido...
terça-feira, novembro 06, 2012
Dos Estados Unidos à Europa
João Pereira Coutinho, Folha de SP
1. Os americanos vão hoje às urnas. Não sou vidente. Não vou cansar o leitor com análises detalhadas sobre os "swing states", os votos colegiais, as últimas pesquisas. Tudo é possível.
Mas, dentro do possível, confesso que gostaria muito que Mitt Romney ganhasse. Eu sei, heresia: lemos a imprensa "liberal" (no sentido americano da palavra, ou seja, esquerdista) e Romney é apresentado como um fanático que acredita em extraterrestres. Pior: um fanático que pretende entregar os Estados Unidos à plutocracia doméstica, de que ele faz parte.
Mas, dentro do possível, confesso que gostaria muito que Mitt Romney ganhasse. Eu sei, heresia: lemos a imprensa "liberal" (no sentido americano da palavra, ou seja, esquerdista) e Romney é apresentado como um fanático que acredita em extraterrestres. Pior: um fanático que pretende entregar os Estados Unidos à plutocracia doméstica, de que ele faz parte.
Barack Obama, pelo contrário, é a personificação da bondade e do realismo. Mesmo Guantánamo, que continua a funcionar, tem outro sabor com Obama: no tempo de Bush, a prisão era o inferno terreno e a prova da malignidade republicana. Com Obama, Guantánamo é um jardim de infância.
Sejamos sérios: o julgamento sobre Obama, quatro anos depois, não pode ser brando ou entusiasmante. Fato: em 2008, Obama recebeu de herança uma nação quebrada. Novo fato: em 2008, Obama dispunha de condições incomparáveis --aprovação popular em níveis estratosféricos, Congresso favorável etc.-- para fazer mais e melhor.
Não fez. Um crescimento econômico que se arrasta penosamente nos 2% é tímido, para usar um eufemismo. O desemprego perto dos 8% seria o suficiente para que ele perdesse a reeleição. E a República, agravando o desvario iniciado por George W. Bush, continua dramaticamente endividada --e a endividar-se.
Como escreveu certeiramente Tim Stanley, no "Daily Telegraph", o problema de Obama não é ser o anti-Bush. É, ironia das ironias, repetir os erros de Bush ao permitir um Estado sem controle na despesa e disposto a infiltrar-se na vida comum do cidadão comum.
É por isso que a eleição de hoje não é apenas mais uma eleição na história da América. É, como afirma Romney e sobretudo o seu candidato a vice, Paul Ryan, uma espécie de plebiscito sobre o tipo de sociedade que a América pretende ser no século 21.
Para Obama, o ideal seria que a América se aproximasse da Europa e do modelo de bem-estar social.
Infelizmente, alguém deveria explicar ao presidente Obama que a crise corrente que ameaça destroçar a União Europeia está diretamente relacionada com a insustentabilidade desse modelo social.
Cuidado, América: para Europa, já basta a que temos.
2. E por falar em Europa: leio no "Times Literary Supplement" uma passagem notável das memórias de Madame de Staël.
Conto rápido: já depois da Revolução de 1789, o ministro de guerra Louis de Narbonne-Lara discursava na Assembleia Legislativa.
A páginas tantas, o infeliz ministro introduziu no discurso a expressão "apelo aos mais distintos membros desta Assembleia". Foi a revolta geral, com os jacobinos a relembrarem ao ministro que, naquela Assembleia, todos os membros eram igualmente distintos.
A história é interessante para conhecermos a cabeça do fanatismo igualitário em ação. Mas mais interessante é a observação de Madame de Staël: "para os jacobinos", escreve ela, "a aristocracia de talento era tão repugnante como a aristocracia de berço".
Relembro esta história, hoje, ao saber que na mesma França da Bastilha o presidente François Hollande pretende banir do sistema educativo os deveres de casa.
Corrijo: Hollande não quer banir os deveres. Pretende apenas que eles sejam integralmente realizados na escola, não em casa. Isso permitirá que as diferenças socioeconômicas das famílias não tenham qualquer interferência no respectivo mérito escolar dos filhos. Todos iguais, todos na escola.
Claro que, para sermos perversos, poderíamos perguntar ao senhor presidente o que tenciona ele fazer se alguns alunos, em manifesto desrespeito igualitário, violarem a medida. Como?
Estudando na escola e, depois, estudando um pouco mais em casa, ou nos cafés, ou nas bibliotecas. Será permitida essa busca da excelência extracurricular?
Estudando na escola e, depois, estudando um pouco mais em casa, ou nos cafés, ou nas bibliotecas. Será permitida essa busca da excelência extracurricular?
Ou o Estado francês, em nome da igualdade, também pretende instalar um policial em cada casa, café ou biblioteca, disposto a vigiar e punir o mais leve sintoma de curiosidade intelectual?
Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.
sábado, outubro 20, 2012
Em defesa do preconceito
Rodrigo
Constantino, para a revista VOTO
Como alguém pode
defender o preconceito em pleno século 21? Isso automaticamente nos remete ao
racismo, à xenofobia, ao machismo, a todas as formas de sentimentos tribais que
tanta desgraça causaram no mundo. Mas será que todo preconceito é mesmo ruim? O
que exatamente seria não ter preconceitos? São as questões que Theodore
Dalrymple aborda em seu livro In Praise
of Prejudice, cujo titulo já mostra sua coragem na era moderna.
O que seria uma
pessoa desprovida de preconceitos? O dicionário possui várias definições para a
palavra, entre elas: conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos
adequados. As demais costumam já incorporar o sentido pejorativo da atualidade,
como sentimento desfavorável a algum grupo, superstição, discriminação racial
etc. Quero focar justamente na primeira delas, que melhor representa sua
etimologia.
Alguém sem
preconceitos seria, então, alguém cujas opiniões formadas são todas derivadas
do devido conhecimento adequado. Estou para conhecer este deus onisciente em
forma humana! Basta uma rápida reflexão honesta para constatarmos que temos
inúmeras opiniões sobre vários assuntos os quais não possuímos conhecimento tão
profundo assim. Pegamos carona em ombros alheios, confiamos em certas
autoridades, formamos, enfim, algum tipo de crença cujos pressupostos não
dominamos totalmente. Eis o preconceito.
Claro que o ideal
é passar as idéias pelo crivo de nossa razão, principalmente aquelas mais importantes
e relevantes em nossas vidas. Como disse Sêneca, “Se queres submeter tudo a ti
mesmo, submete-te primeiro à razão”. Perfeito. Mas cabe perguntar: quem pode
submeter tudo a si mesmo? Essa pessoa
teria que dominar profundamente todos os campos da ciência, filosofia, ética, medicina,
direito, economia etc. Enfim, teria de ser aquele deus em forma humana citado
acima.
Alguns
preconceitos serão inevitáveis em nossas vidas. A começar pelas autoridades que
escolhemos então para confiar. Isso não coloca todo preconceito em pé de igualdade,
tampouco é uma justificativa para os sentimentos mais tribais que vemos por aí.
Mas é, sim, um alerta contra certo tipo de gente que alega não ter preconceito algum, que não abraça nenhuma ideologia
(visão de mundo), que fala somente em nome da razão prática. Estes,
paradoxalmente, costumam ser os mais preconceituosos e ideológicos de todos!
Como disse Jonah
Goldberg em The Tyranny of Clichês, “O
pragmatismo é o disfarce que os progressistas e outros ideólogos vestem quando
querem demonizar ideologias concorrentes”. Todos possuem uma visão de mundo,
seja lá como ela foi formada (espera-se que com boa dose de reflexão e
questionamentos, assim como bastante foco nos dados empíricos). Se esta visão
ou ideologia passa no teste da realidade ou não, isso é outra questão. Pela
complexidade da vida, haverá espaço para diferentes interpretações em temas
mais polêmicos.
O que parece
arrogante é esta visão de que somente o seu ponto de vista possui fundamento
empírico e desprovido de preconceito ou ideologia, sendo todos aqueles que
discordam de você vítimas dessas armadilhas. Esta arrogância é típica dos
progressistas modernos que afirmam ser isentos de viés ideológico, reagindo
somente aos fatos e à sua razão.
Um ícone dessa
turma é o presidente americano Barack Obama, que repete com freqüência que está
blindado de tais preconceitos, agindo somente de acordo com aquilo que funciona
na prática. Obama tem claramente uma visão de mundo, aquela alinhada ao
socialismo light europeu, especialmente da França. Mas tenta posar como um ser
pragmático e acima desses dogmas políticos. Não convence.
Thomas Sowell
desnudou os progressistas modernos: “Ninguém é mais dogmaticamente insistente
na conformidade do que aqueles que advogam ‘diversidade’”. De fato, basta
verificar como a esquerda que prega diversidade e ausência de preconceitos
costuma demonstrar ódio aos diferentes, como os capitalistas liberais, por
exemplo. “Não somos preconceituosos, desde que não se trate de um capitalista
porco e insensível”, eles poderiam dizer, se fossem mais honestos.
Voltando a
Dalrymple, ninguém é uma tabula rasa capaz de processar do zero tudo que
importa na vida. Todos nós, inevitavelmente, teremos nossa cota de
preconceitos. Que saibamos, então, escolher bons preconceitos, ao invés
daqueles que alimentam os piores sentimentos que todos nós somos capazes de
nutrir no âmago de nosso ser.
Que as
autoridades escolhidas, principalmente em aspectos morais, sejam exemplos de
decência em suas vidas. Que respeitemos a sabedoria dos antepassados, presente
em hábitos e costumes, compilados na tradição. E que possamos julgar tais
tradições à luz de nossa própria razão sempre que possível, reconhecendo,
porém, os limites evidentes desta empreitada, ou seja, evitando o risco da
arrogância, daquilo que os gregos chamavam húbris.
Por fim, que
possamos nos manter sempre cautelosos com aqueles que juram não ter nenhum tipo
de preconceito ou ideologia. Desses tipos, eu confesso alimentar profundo
preconceito!
sexta-feira, outubro 19, 2012
quinta-feira, outubro 18, 2012
quarta-feira, outubro 17, 2012
quinta-feira, outubro 04, 2012
Primeiro debate americano: o massacre
Rodrigo
Constantino
O
primeiro debate entre Obama e Mitt Romney foi um verdadeiro massacre. Obama
sofreu nocaute. O formato do debate é bastante interessante, e permitiu
contestações diretas, assim como cada postura ficou evidente para os eleitores.
Romney
se mostrou bem mais seguro e firme nas propostas, encurralando Obama várias
vezes. As linhas ideológicas divisórias ficaram bastante demarcadas. Romney
defendeu abertamente o capitalismo, a empresa privada, o lucro, a
descentralização do poder, enquanto Obama sustentou sua visão mais estatizante.
Ambos
visaram o eleitor da classe média, mas não resta dúvida de que Romney
apresentou os melhores argumentos em defesa da criação de empregos, função
básica dos pequenos empresários espremidos pela gestão Obama. Romney teve a
coragem de defender bandeiras ecologicamente incorretas também, como mais
licenças para extração de petróleo e até carvão.
Por
outro lado, cutucou Obama várias vezes com a questão da energia verde,
lembrando que Obama destinou US$ 90 bilhões para projetos que não geraram emprego
algum, e ainda levaram a escândalos como o do caso Solyndra. Romney ainda citou
o fato de que vários desses beneficiados foram colaboradores da campanha de
Obama, um duro golpe no capitalismo de compadres do presidente.
Romney
foi insistente ao negar as acusações de Obama sobre o ”seu“ projeto de corte de
déficit de US$ 5 trilhões, comparando Obama aos seus filhos, que tentam
transformar uma mentira em verdade com base na repetição. Obama comparado a uma
criança mentirosa: não tem preço!
Obama,
totalmente sem noção, afirmou que a Previdência Social está bem encaminhada nos
Estados Unidos. Além disso, partiu para o jogo de culpar heranças malditas pela
péssima situação econômica, incapaz de apresentar bons dados após seus quatro
anos no poder. Romney soube explorar bem essa questão, frisando que Obama teve
tempo para melhorar as coisas, e tudo que fez colocou o país na rota errada. Vão
insistir no erro por mais quatro anos?
Sobre
saúde pública, houve claras diferenças. Obama defendeu seu modelo coletivista,
o ObamaCare, uma espécie de SUS, chegando a afirmar que era um problema os
planos de saúde quererem lucrar (!!!). Já Romney pregou mais descentralização,
liberdade para cada estado decidir suas políticas, e lembrou que o setor
privado costuma ser bem mais eficiente ao prover serviços.
O
excesso de regulação no setor bancário, por meio da absurda Dodd-Frank, um
calhamaço de milhares de páginas aprovado sem ninguém ler, que acaba protegendo
os grandes bancos, também foi atacado diretamente por Romney. Em relação ao
setor de educação, Romney defendeu o direito de cada aluno escolher, ou seja, o
voucher. Ponto para ele!
Em
linhas gerais, Romney deixou bem mais evidente sua defesa do regime capitalista
liberal, resgatou a Constituição, citou a importância da responsabilidade
individual e atacou a visão centralizadora estatal, típica de Obama. Já o
presidente parecia apático, em contraste com a energia do opositor, e quase
gaguejou ao defender o capitalismo, que não lhe é tão caro assim.
Retórica
por retórica, eis a conclusão deste primeiro debate presidencial: Mitt Romney
defende a iniciativa privada movida pelo lucro, enquanto Obama defende os
projetos grandiloquentes estatais por meio de planejamento central. Em outras
palavras, Romney representa os Estados Unidos; Obama, a França. A diferença
ficou registrada de forma evidente. Cabe aos eleitores americanos decidir qual
rumo desejam para esta grande nação.
terça-feira, setembro 25, 2012
terça-feira, setembro 18, 2012
Primaveras ou invernos?
João Pereira Coutinho, Folha de SP
UM FILME amador sobre a vida do profeta Maomé incendiou a sempre pacífica "rua árabe". O embaixador americano na Líbia foi morto. Embaixadas americanas no Oriente Médio foram atacadas. E até lanchonetes da Kentucky Fried Chicken tiveram a sua dose de violência e destruição.
Confesso: eu já almocei na KFC. Também tive vontade de a destruir depois de provar o menu da casa. Mas será que a qualidade do produto merece um ato tresloucado?
Escutei Barack Obama. Escutei Hillary Clinton. Escutei o secretário-geral da ONU, um nome impronunciável que não vou checar. Escutei toda gente que é gente e a sentença, sem surpresa, é a mesma: o filme é nojento, ofensivo, ignorante; mas nada disso justifica a violência que ele provocou.
Concordo com a segunda parte. Só não concordo com a primeira porque não sabia que Obama, Clinton, Ban Ki-moon (sim, chequei) e "tutti quanti" eram críticos de cinema.
É indiferente saber se o filme é bom ou mau, nojento ou refinado, ofensivo ou altamente elogioso para o islã. Não é função de nenhum chefe político tecer comentários sobre a qualidade do que se diz, faz ou pensa em países ocidentais, onde a liberdade de expressão é um valor sacramental.
E a liberdade de expressão comporta tudo: o repelente, o ofensivo, o ignorante, o sacrílego. Se existem fanáticos que não gostam desse modo de vida, o problema não é do Ocidente. O problema é dos fanáticos.
Claro que, para além da violência superficial que se espalhou pelo Oriente Médio, existem questões mais perversas: e se os atos dos fanáticos não estiverem apenas relacionados com o filme?
E se o ódio ao Ocidente for a verdadeira gasolina que faz arder esses atos? E se a Primavera Árabe, afinal, foi apenas uma forma de trocar velhos tiranos por novos?
A mídia ocidental, que cavalgou romanticamente a Primavera Árabe, recua de horror ante a possibilidade. Na Líbia do detestável Gaddafi, no Egito do detestável Mubarak, ou na Tunísia do detestável Ben Ali, só podem florescer democracias civilizadas, respeitadoras dos direitos humanos e onde a liberdade individual não tem preço.
Eis a suprema falácia do pensamento progressista, que o filósofo John Gray, em artigo recente para a BBC, destruiu sem piedade: o fato de derrubarmos um ditador não significa necessariamente que as alternativas serão melhores. E por quê?
Aqui, Gray faz o que melhor sabe: mamar forte no pensamento do seu pai espiritual, o historiador das ideias Isaiah Berlin (1909 - 1997).
No ensaio clássico "Dois Conceitos de Liberdade", que pode ser lido no livro "Estudos sobre a Humanidade" (Companhia das Letras), Berlin já tinha avisado que os valores mais importantes em política não podem ser confundidos uns com os outros.
Liberdade é liberdade, não é igualdade. Igualdade é igualdade, não é liberdade. Democracia é democracia, não é justiça.
Por outras palavras: o voto da maioria pode ser uma condição para a existência de regimes livres.
Mas pode também ser o contrário: uma forma de liquidar a liberdade individual. Basta que a maioria, por exemplo, opte por um regime baseado na sharia islâmica, e não pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.
E essa perversão nem sequer é uma exclusividade do islã. Será preciso recordar que Adolf Hitler é o exemplo mais eloquente de alguém que usou a democracia para liquidar a democracia?
Hoje, no mundo islâmico, sabemos que ditaduras criminosas foram derrubadas. Mas também sabemos que islamitas tomaram o poder no Egito ou na Tunísia. E que várias facções, com vários graus de radicalismo fundamentalista, lutam pelo poder dentro de cada um desses países.
O que não sabemos nem escutamos são vozes liberais dentro do Egito ou da Tunísia defendendo regimes democráticos respeitadores dos direitos humanos e da liberdade individual.
Na década de 1960, perguntaram ao premiê chinês Zhou Enlai o que ele pensava sobre a Revolução Francesa de 1789. Resposta: "Ainda é muito cedo para dizer".
Faço minhas as palavras dele sobre as primaveras que podem virar invernos.
terça-feira, setembro 11, 2012
Ultraconservadores
Rodrigo
Constantino, para a revista Voto
A
imprensa brasileira sempre se refere aos Republicanos americanos como
“ultraconservadores”. Quando Paul Ryan foi escolhido como vice na chapa de Mitt
Romney, o destaque em nossa mídia foi o mesmo em todo lugar: um
“ultraconservador” fora apontado para satisfazer os anseios da direita radical
do “Tea Party”. Os membros deste movimento chegaram a ser chamados de
“fascistas” pelo colunista Arnaldo Jabor em artigo recente.
Faz
sentido usar este rótulo? O que defende, via de regra, o Partido Republicano?
Quais são as ideias de Paul Ryan? Há alguma semelhança entre tais ideias e o
fascismo, cujo ícone máximo foi Mussolini?
Antes
de entrar na questão, vale dizer que não nutro muita simpatia pelos
conservadores americanos. Considero-me um liberal, não no sentido americano,
cuja esquerda “progressista” usurpou até mesmo o termo, que em seu conceito
clássico quer dizer mais liberdade individual (entendida como ausência de
coerção estatal). E os liberais clássicos possuem importantes divergências com os
neoconservadores americanos, que ignoram em boa parte a tradição conservadora
inglesa, que data de Edmund Burke.
Dito
isso, quais são as principais bandeiras conservadoras nos Estados Unidos hoje?
Se dependesse de nossa imprensa, a imagem pintada seria a de um neandertal.
Nossos colunistas e jornalistas olham para a direita americana como se esta
fosse formada basicamente por fundamentalistas religiosos, saudosistas da era
medieval, que adorariam puxar suas mulheres pelo cabelo e manter escravos
negros.
Naturalmente,
uma pequena parcela da ala mais reacionária pode até se encaixar neste
estereótipo, mas não faz nenhum sentido generalizar desta forma. Seria como
dizer que todos os Democratas são comunistas que sonham com o modelo soviético,
porque eles sem dúvida existem no partido.
Portanto,
quando nossos “especialistas” pintam este quadro medonho, de criacionistas que
abominam a ciência e de individualistas insensíveis que não ligam para os
pobres, podemos estar certos de que se trata de uma caricatura absurda e
injusta, feita deliberadamente ou por ignorância. Ao colocarem todos no mesmo
saco, pretendem contaminar uma direita legítima com os excessos de um extremo
numericamente insignificante.
E o
que prega a direita então? Podemos usar até mesmo os radicais do “Tea Party”
como exemplo. Sim, há gente extremista ali, manipulada por populistas de
plantão. Mas, na essência, a mensagem libertária do movimento não guarda
absolutamente nenhuma similaridade com aquilo que poderia ser chamado de
“ultraconservador”, muito menos “fascista”. Na verdade, trata-se da antítese do
fascismo!
Ora,
o “Tea Party” defende muito menos estado, até mesmo um estado mínimo, que
interfere muito pouco na vida dos indivíduos. O que há em comum com o fascismo,
onde tudo é dentro do estado, para o estado? A visão autoritária, que trata
cidadãos como súditos incapazes que necessitam da tutela estatal, está
justamente representada pela esquerda democrata americana, cada vez mais
intervencionista, a ponto de alguns falarem em “fascismo de esquerda”.
Lembremos que o próprio Mussolini foi socialista.
Tentando
resumir as principais bandeiras da direita americana, sabendo que vou pecar
pelo simplismo, elas seriam: maior autonomia individual, sem tanto controle paternalista
estatal; livre mercado, sem tantos resgates e subsídios por parte do governo;
uma visão de papel predominante dos Estados Unidos como nação que lidera o
mundo pelo exemplo (e pela força, quando necessário); o resgate de valores
familiares tradicionais.
O
resumo acima é muito reducionista e não abrange a complexidade da política
americana. Mas acredito ter abordado os principais pontos, e justamente aqueles
que tanto incomodam a nossa esquerda. Você é contra a tentativa de Obama de
criar o SUS americano? Você acha que o estado não deve ser empresário nem
arrecadar quase a metade do que é produzido pela iniciativa privada em nome da
“justiça social”? Você rejeita o aborto e não acha legal ter um filho gay,
ainda que respeite as escolhas no âmbito individual? Você não abraça o
multiculturalismo sem restrições, por considerar que os valores da civilização
Ocidental são superiores ao do Islã? Você é contra a legalização de todas as
drogas?
Então
parabéns: você é um “ultraconservador” pela ótica de nossa imprensa. Claro que
é possível discordar de parte dessas crenças conservadoras sem ser um
socialista. Eu mesmo tenho discordâncias com algumas posturas da direita
americana, como já disse. Mas isso é bem diferente de rotular alguém de
“ultraconservador” só porque não aderiu ao credo politicamente correto dos
“progressistas”, defensores de altos impostos, tutela paternalista do estado e
total relativismo moral.
Temo
o dia em que uma pessoa que discorda da ideia “progressista” de que manter um
harém de meninas, meninos e até cabras, ou de tirar à força 75% do ganho dos
mais ricos, seja tachado por nossa mídia de “ultraconservador”. O termo perdeu
totalmente seu sentido.
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