“Anseio ardentemente por aquela condição
psíquica em que, livre de toda responsabilidade, sentirei a estupidez do mundo
como um destino.” (Karl Kraus)
Em
1951, Eric Hoffer escreveu um livro que logo se tornaria um clássico. The True Believer disseca as principais
características que levam alguém a aderir a uma seita de forma fanática, dando
início a um movimento de massa. O livro ainda é bastante atual, e serve como
alerta para as diferentes formas de fanatismo, que acabam sendo bastante
semelhantes entre si.
Os
movimentos de massa produzem em seus adeptos a disposição de sacrifício pela
causa santa, assim como um impulso à ação em conjunto. O entusiasmo, a
esperança, a intolerância e o ódio aos que são diferentes representam sintomas
deste tipo de fenômeno. Tais movimentos demandam fé cega de seus membros. A
submissão é infinitamente mais importante do que o pensamento individual, o
questionamento racional. Vale lembrar que Islã quer dizer justamente submissão,
e que os dogmas católicos sempre tiveram que ser aceitos por seus crentes sem
questionamento (creio porque absurdo).
Segundo
Hoffer, todos esses movimentos distintos apelam ao mesmo tipo de mente. Talvez
esta tenha sido a principal contribuição de seu livro: mostrar como são
parecidos, no fundo, movimentos que na aparência são tão díspares. Apesar de
vivermos em uma época “sem deus”, o fato é que vivemos em tempos bastante
“religiosos”, onde inúmeras seitas fanáticas proliferam. Por isso é tão
importante mergulhar mais na mente típica do fanático.
Os
principais tipos de movimento de massa que atraem estas pessoas são religiosos,
revolucionários e nacionalistas. Dentre estes, Hoffer considerava o
nacionalismo aquele com maior capacidade de duração nos tempos modernos,
citando como exemplos as revoluções francesa e russa, que desembocaram no
nacionalismo para sobreviver. Nem sempre o advento de tais movimentos será
totalmente maléfico. O caso de Ataturk na Turquia demonstra que estas mudanças
oriundas de movimentos nacionalistas podem deixar algum legado positivo também.
Mas os riscos são sempre enormes.
E o
que levaria tanta gente a aderir a tais movimentos? Para Hoffer, um dos
principais motivos é a angústia que a autonomia traz consigo para o indivíduo.
Temos uma tendência de culpar forças exógenas pelos nossos fracassos, e as
pessoas frustradas com suas vidas acabam desenvolvendo um fervor por mudanças
radicais. O sentimento profundo de insegurança em relação ao presente faz com
que estas pessoas abracem alguma boia de salvação que prometa um futuro melhor.
Os movimentos de massa oferecem a sensação de um poder irresistível do grupo
monolítico de moldar este futuro maravilhoso.
A
liberdade de escolha deposita no próprio indivíduo o peso de seus fracassos. Quanto
maior forem as alternativas de escolha, mais espaço há para frustrações. Para
Hoffer, muitos se unem aos movimentos de massa para escapar da responsabilidade
individual. Como disse um jovem ardente defensor do nazismo, a meta era ficar
“livre da liberdade”. Movimentos de massa fornecem aos fanáticos uma forma de
dissipar sua individualidade até o ponto de anulá-la por completo. A paixão
pela igualdade é também a paixão pelo anonimato. O fanático se transforma em
uma massa amorfa igual a todos os demais membros da seita, disfarçando então
seu complexo de inferioridade.
Para
uma massa dessas, o principal alvo de catequização e conversão é o indivíduo
que se sustenta por conta própria, que não depende de algum corpo coletivo que
lhe ofereça apoio. A mente independente, blindada de rótulos simplistas e
avessa a seitas, o indivíduo criativo que não necessita de um movimento de
massa para encontrar algum sentido em sua existência, este é o foco de inveja e
ódio dos fanáticos de todas as matizes. Eles precisam destruí-lo, se não forem
capazes de convertê-lo. Hoffer aponta que movimentos de massa podem nascer sem
deus, mas não sem um demônio: são os bodes expiatórios das seitas, culpados
pela desgraça que é o presente. Os judeus dos nazistas, os kulaks dos bolcheviques,
os ímpios dos crentes.
Não
se comunica com estes fanáticos por meio da razão, e sim da fé extravagante.
Eles precisam ser ignorantes acerca das dificuldades envolvidas nesta tarefa
vasta e hercúlea, muitas vezes utópica, de criar um novo mundo. A experiência
de casos passados atua como um inibidor aos revolucionários, e por isso o
desconhecimento da história costuma ser crucial na seleção dos adeptos. Os
envolvidos na Revolução Francesa, no bolchevismo e no nazismo eram em sua grande
maioria pessoas sem experiência política.
Uma
classe média em crise, que acaba de perder parte de seus bens e se encontra
frustrada com o presente, representa um terreno fértil para movimentos de
massa. Foi assim na Itália fascista e na Alemanha nazista. Um movimento em
ascensão prega a esperança imediata, um futuro róseo logo depois da esquina, uma
“boa nova” para os escolhidos, que impele seus membros à ação. Movimentos de
massa já estabelecidos contam com a promessa de um futuro fantástico, porém
distante, para manter acesa a chama da esperança. O Stalinismo era o ópio do
povo russo assim como religiões estabelecidas.
O
núcleo familiar representa um grande obstáculo a tais movimentos coletivistas.
Por isso quase todos eles combateram a família em suas origens. O Cristianismo
inicial, segundo o autor, foi um dos movimentos de massa mais hostis ao núcleo
familiar. Jesus teria dito que aquele que ama seu pai e sua mãe mais do que a
ele não seria digno de ser seu seguidor. O mesmo para aquele que amasse mais
seus filhos. Abraão seria o ícone perfeito deste tipo de fanático, ao se
mostrar disposto a sacrificar o próprio filho em nome de sua fé. A causa santa
vem em primeiro lugar, a família fica em segundo plano.
O
ser humano em geral clama pela sensação de pertencimento a algum grupo maior.
Suas frustrações alimentam ainda mais o desejo de sumir em meio a uma massa
uniforme. O tédio diante da vida, a falta de sentido na existência, tudo isso
joga mais lenha na fogueira, empurrando o indivíduo na direção da massa. Um movimento
de massa representa o pacote completo que exime o sujeito da responsabilidade
de desejar e arriscar por conta própria.
A
submissão ameniza o fardo de sua autonomia. Seu fanatismo retira a necessidade
de pensar e questionar por conta própria. A “certeza absoluta” da doutrina infalível
fornecida pelo movimento conforta a angústia da hesitação. A aventura
revolucionária lhe estimula e reduz o tédio de sua vida vazia. A causa fanática
alivia seu sentimento de culpa e pecado. O futuro fantástico lhe dá forças para
enfrentar o presente medonho, um fardo temporário, um vale de lágrimas e
sofrimento até o oásis por vir. O ideal glorioso e indestrutível oferece a
força que lhe falta como indivíduo, a eternidade que acalenta sua inexorável mortalidade
e aniquilação.
Eric
Hoffer não era otimista quanto à possibilidade de persuasão de um fanático.
Para ele, o apelo à razão não surtia tanto efeito sobre um fanático. Seus medos
e inseguranças lhe comprometem, e sua causa santa é uma necessidade de se
segurar a alguma coisa para aguentar a vida. O mais provável seria um fanático
se converter, não se convencer. Por isso é comum ver fanáticos pulando de seita
em seita. Para Hoffer, é mais fácil para um comunista fanático se converter ao
fascismo, chauvinismo ou Catolicismo do que se transformar em um liberal sóbrio
com mente aberta. Os ateus fanáticos, que encontram sua razão de ser em deus da
mesma forma que os crentes, pois vivem em função de sua negação, entravam para
o grupo dos fanáticos de Hoffer.
A
propaganda se faz importante para a ascensão do movimento de massa, mas sua
sustentação só será possível com base na coerção. Foi apenas após Constantino
que o Cristianismo conseguiu se estabelecer. A espada foi crucial para a
sobrevivência do movimento, e onde o Cristianismo não foi capaz de dominar o
poder estatal, ele raramente conseguiu se manter de forma permanente. O mesmo
vale para o Islã. Seu crescimento se deu por conquista no começo, e a conversão
foi um subproduto disso em muitos casos. A Reforma deslanchou quando ganhou o
apoio de príncipes e governos locais. A ameaça comunista era infinitamente
maior quando tinha o suporte de um dos exércitos mais poderosos do planeta.
Além
disso, a conquista e a conversão de outras pessoas acabam dando legitimidade ao
fanático. Trata-se do conhecido argumentum
ad populum. Bilhões de pessoas que acreditam em algo, isso quer dizer que
essa crença não pode estar errada! Eles ignoram o alerta de Anatole France, de
que “se 5 bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa
continua sendo estúpida”. Isso também explica porque os fanáticos, apesar de
desejarem exterminar uns aos outros, odeiam ainda mais aqueles que não
compartilham de fanatismo algum. Um fascista fanático pode até nutrir algum respeito
pelo comunista fanático, mas ambos desprezam o homem “sem fé”, sem uma causa
santa que o faz disposto aos maiores autossacrifícios, incluindo seu martírio.
Estes
fanáticos demandam um líder, alguém que assuma por eles o fardo da
responsabilidade. Este líder, segundo Hoffer, deve ter audácia, uma fé fanática
na causa santa, e a habilidade de despertar a devoção fervorosa no grupo. A
qualidade das idéias em si tem menor relevância. O que importa é o gesto
arrogante, o completo desprezo pela opinião dos outros, o desafio ao mundo.
Algum grau de charlatanismo é fundamental para a liderança do movimento de
massa. Os fatos precisam ser deturpados sempre a favor da seita, tarefa
facilitada pela necessidade de crença dos fanáticos. Os fanáticos estão ávidos por
obediência ao guru da seita. O crente deve ser acima de tudo uma pessoa
obediente e submissa.
Normalmente,
o movimento de massa joga descrédito e suspeita sobre o governo estabelecido,
mas acaba adotando as mesmas práticas ou até piores uma vez que consegue chegar
ao poder. Os revolucionários franceses adotaram o Terror, fazendo a monarquia
parecer suave. Os bolcheviques mataram milhões em poucos meses, mais do que o
regime dos czares em toda a sua existência.
O
filósofo John Stuart Mill lamentou sobre o Cristianismo: “Que os cristãos,
cujos reformadores pereceram na masmorra ou na fogueira como apóstatas ou
blasfemos – os cristãos, cuja religião exala em cada linha a caridade,
liberdade e compaixão... que eles, depois de conquistar o poder de que eram
vítimas, exerçam-no exatamente da mesma maneira, é demasiado monstruoso”. A
Igreja, uma vez estabelecida e cristalizada, soube ser autoritária e pegar
emprestado do Império Romano sua hierarquia e burocracia.
O
que todos os fanáticos condenam em conjunto é a democracia liberal do Ocidente,
acusada de decadente e pusilânime. Os indivíduos sob tal regime não estariam
mais dispostos ao sacrifício por uma causa santa. A perda de vigor, de fé cega,
seria sinal de podridão moral. Sem dúvida há alguma verdade nisso. De fato, as
democracias modernas dão sinais de covardia, ainda mais quando comparadas às
teocracias islâmicas e seus terroristas fanáticos dispostos a tudo pela causa. Falar
em reformas nunca tem o mesmo apelo emocional que falar em revolução, em
derrubar todo o sistema podre, passar uma borracha no presente injusto e criar
um novo mundo maravilhoso, ou então em resgatar um passado idealizado, um
jardim do Éden sonhado.
Mas,
como espero ter deixado claro acima, com base no excelente e importante livro
de Eric Hoffer, a troca deste marasmo imperfeito por um movimento de massa
revolucionário é algo extremamente perigoso. Talvez o mundo precise de alguns
fanáticos de vez em quando, que abraçam causas santas com fé cega. Talvez
alguns desses movimentos tenham tido efeitos líquidos positivos ao longo da
história. Só que é fundamental ter em mente o risco que eles representam.
Quando muitos sucumbem ao fanatismo e à submissão sem questionamentos
racionais, então a liberdade individual corre sério perigo. Os fanáticos podem
querer justamente fugir desta liberdade. Mas ela é crucial para o avanço da
civilização.
