Mostrando postagens com marcador ufanismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ufanismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, julho 30, 2013

Xô, ufanismo!

Ação da CSN no ano. Fonte: Bloomberg

Rodrigo Constantino

Em sua coluna de hoje na Folha, o empresário Benjamin Steinbruch critica aqueles que ele chama de pessimistas infundados. Para o empresário, essa gente atrasa o país. Diz ele:

A pior coisa que pode acontecer a uma pessoa, a uma empresa ou a um país é se deixar levar por ondas de pessimismo. E o Brasil corre esse risco neste momento.

Se levarmos a sério discursos de alguns analistas, o país estaria à beira de uma hecatombe econômica e política.

A inflação estaria perigosamente descontrolada; a atividade econômica, no caminho inevitável da recessão; as contas públicas, totalmente desarrumadas; as contas externas, no rumo do default; a corrupção, em ritmo desenfreado em todas as esferas públicas e privadas.

Temos efetivamente problemas com inflação, atividade econômica, contas públicas, contas externas, corrupção e em muitas outras áreas. Mas só pessoas impregnadas por pessimismo doentio ou mal-intencionadas podem considerar esses problemas como insuperáveis.

Como tenho sido um desses "pessimistas", falo que, de minha parte, não considero o país perto de uma "hecatombe", tampouco considero nossos problemas "insuperáveis". Dito isso, nós temos, sim, graves problemas, que o empresário minimiza, e eles não são insuperáveis, mas exigem radical mudança no curso atual. Algo que não há indício algum de que o governo pretende fazer, ainda mais com esse tipo de negligência de grandes empresários.

Steinbruch adota a tese de que nossa inflação não incomoda tanto, e que boa parte foi um surto do preço de alimentos. Falso. Perigosamente falso. O empresário tem sido um dos maiores defensores da redução de juros, mesmo sem condições para tanto. O preço chegou, em forma de inflação elevada e resiliente. Fingir que o problema não existe não é solução; apenas agrava seu risco. Ele diz:

A inflação, de fato, subiu, ultrapassou a teto da meta de 6,5% ao ano. Foi puxada pela alta dos preços dos alimentos, impulso que já passou. O mais recente IPCA-15 mostrou que estamos próximos da inflação zero, com possibilidade até de deflação no índice oficial de julho, agora sob influência da queda dos custos de alimentos e transportes.

Isso não significa que acabaram as preocupações com a inflação, até porque os preços dos serviços continuam em alta e o efeito câmbio pode impactar preços neste segundo semestre. Mas também não é o caso de propagar a ideia de que está de volta o velho dragão dos tempos da hiperinflação.

A "hiperinflação" pode não ser uma ameaça iminente, mas já vivemos em um cenário de estagflação (baixo crescimento e alta inflação), o que é extremamente prejudicial ao país. Essa postura confortável que o empresário demonstra diante do quadro beira à irresponsabilidade. É o povo mais pobre que mais sofre com a alta de preços. 

Steinbruch não vê risco de recessão à frente também:

A atividade econômica está fraca, muito aquém do desejável. A indústria, principalmente, muito prejudicada pela concorrência das importações, reduziu investimentos. Mas o país não segue a rota inevitável da recessão.

Mas se o governo insistir na toada atual, esse risco é bem real. Como eu disse, ele não é "inevitável", mas para evitá-lo é preciso alterar o curso. O governo atual pretende fazer isso? Nenhuma pista, nenhuma evidência disso até agora. Muito pelo contrário...

Nesse trecho, Steinbruch endossa a tese bem furada e cara-de-pau, levantada pelo ex-presidente Lula e repetida pela presidente Dilma, de que as manifestações ocorrem por conta do sucesso da gestão nos últimos anos:

Imagino, portanto, que as ruas estão pedindo um novo salto de qualidade ao país. Beneficiadas pelos avanços das últimas duas décadas, reclamam por infraestrutura, educação, saúde e combate à corrupção.

Eis, talvez, o principal problema do atual governo e, pelo visto, de alguns empresários que apoiam o governo: vivem na ilusão e ignoram a realidade. O pessimismo que condenam é somente um realismo bem fundamentado. Conclui o empresário:

Nem otimismo ingênuo, nem pessimismo doentio. Essa seria uma boa norma de conduta para todos os que torcem pelo Brasil e batalham pela melhoria de vida dos brasileiros.

De acordo! Resta saber se é "pessimismo doentio" apontar para os grandes riscos de catástrofe à frente, caso o rumo permaneça o atual. Ou se é o caso de falar em "ufanismo boboca" para aqueles que pintam um cenário de céu de brigadeiro, inclusive justificando as manifestações que tomaram as ruas do país com base nesse quadro fantástico. 

É "pessimismo doentio", por exemplo, mostrar ao empresário que o valor da empresa que ele controla, a CSN, despencou esse ano, perdendo quase a metade de seu valor somente nesses seis meses? Ou seria isso mais um sinal de alerta que merece profunda atenção?

segunda-feira, setembro 17, 2012

História do Brasil Vira-Lata


Prefácio de História do Brasil Vira-Lata, novo livro de Aurélio Schommer

Rodrigo Constantino

“A nossa tragédia é que não temos um mínimo de autoestima”. Assim resumia de forma seca o escritor Nelson Rodrigues, aquilo que chamou de “complexo vira-lata” do povo brasileiro. Por que os brasileiros gostam tanto de depreciar sua própria história e cultura? Há motivos concretos para esta postura derrotista?

O livro de Aurélio Schommer representa um trabalho minucioso de pesquisa e reflexão para tentar responder estas questões. Nele, mitos são derrubados, sem, entretanto, cair no erro contrário de enaltecer uma realidade distorcida. A história da formação cultural brasileira é contada com riqueza de detalhes e casos específicos, que servem para ilustrar a mensagem do autor.

Interesses de grupos organizados e questões ideológicos representam grandes entraves a uma análise mais isenta de nosso passado. A visão idílica de “bom selvagem” que transforma os índios em mentecaptos indolentes, o racialismo que segrega a população de forma arbitrária, fechando os olhos para nossa mestiçagem, e a visão um tanto distorcida do valor dos portugueses que aqui chegaram em 1500, prejudicam um olhar imparcial sobre os fatos.

As características do brasileiro típico podem ser encaradas como negativas ou positivas, dependendo do ponto de vista. O brasileiro é amigável ou pacato? Ele é flexível ou acomodado? Tolerante ou preguiçoso? Muitos pensadores importantes depositaram no clima relevância enorme para definir os fatores culturais de um povo. Estaria o Brasil fadado então a este destino tropical de sombra e água fresca?

A Austrália, para ficar em um só exemplo, foi colônia de prisioneiros, e hoje é um país de primeiro mundo. Cultura evolui. Esta é uma das principais mensagens do livro. Hábitos e costumes mudam. O Brasil tem um passado com coisas boas e coisas ruins. Seus principais traços culturais apresentam um lado positivo e um lado negativo.

A interculturalidade, por exemplo, fruto do grande "melting pot" pacífico que é nosso país, pode ser um grande trunfo em um mundo com choque de etnias e religiões. A flexibilidade e o jogo de cintura podem ser formas adaptativas interessantes se não descambarem para a malandragem e o jeitinho.

O mais importante de tudo talvez seja justamente abandonar esta tradição autodepreciativa e passar a assumir a responsabilidade pelo nosso presente e futuro. Que país teremos 20 anos à frente? Que país nossos filhos e netos herdarão? Essa resposta depende apenas daquilo que vamos fazer, de nossas atitudes, e não de um apego excessivo às origens, em boa parte míticas, que servem como desculpa para nossa negligência diante de nosso destino.

Este livro funciona como um despertador para esta dura realidade. Não podemos nos escusar de nossos fracassos com base na eterna depreciação do povo brasileiro. Isso não é o mesmo que fechar os olhos para os problemas reais e abraçar um ufanismo boboca. Ao contrário: é preciso enxergar com clareza aonde residem os problemas, sem, entretanto, fechar os olhos para os acertos e qualidades.

Há muito que poderia ser mudado com boa educação e melhores oportunidades. O Brasil não está condenado, seja pelo clima, seja por suas raízes culturais, a ser o eterno país do futuro. A tarefa não será fácil. Por isso mesmo está na hora de arregaçar as mangas e começar um processo acelerado e sustentável de mudanças rumo ao progresso. Isso começa justamente por deixar de lado este discurso autodepreciativo, esse velho “complexo vira-lata” espalhado pelo povo brasileiro.

"Nenhum povo é incorrigível”, afirma o autor. Cultura não é algo fixo e imutável. Sem falar que temos sim aspectos culturais positivos, como fica claro no decorrer da leitura. Se o livro de Aurélio servir para resgatar esta herança positiva, derrubando certos mitos resistentes, e ainda jogar luz sobre os verdadeiros problemas que impedem um avanço cultural em nosso país, então ele terá cumprido sua função com maestria. 

segunda-feira, setembro 26, 2011

Nova campanha: Fifa, tira a Copa do Brasil

Minha nova campanha. Peguei meio pesado na arrogância, dando uma de Pondé, mas é para chamar a atenção da turma mesmo. Nada contra o futebol, mas tudo contra o ufanismo boboca e o "pão & circo". O brasileiro teria duas vantagens: economizar recursos públicos reduzindo pretexto para roubo; e ver a humilhação mundial do PT.

sexta-feira, julho 01, 2011

Protecionismo e ufanismo: dois lados da mesma moeda


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

O tema da fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour gerou forte reação na imprensa. A celeuma demonstra que o país está cansado de tanta safadeza nesta simbiose entre governo e grandes empresários. O aporte esperado de R$ 4 bilhões via BNDESpar é escandaloso demais, sintomático demais. A turma do andar de cima perdeu qualquer resquício de vergonha na cara, e resta aos simples mortais reagir, reclamar, fazer barulho.

Acredito no poder das idéias, e é fundamental não desistir, expor o que está na raiz desta relação mais que suspeita entre governo e grandes empresários. E o que seria isso então? Acredito que a mentalidade ainda predominante no país de que cabe ao governo ser locomotiva da economia, assim como um nacionalismo infantil que aplaude tudo que é “brasileiro”. Enquanto estas crenças ultrapassadas não mudarem, casos absurdos como este serão regra. Sai Abílio Diniz e entra algum outro oportunista qualquer, aproveitando-se dos privilégios do governo e da docilidade de um povo ignorante.

O que devemos atacar, mais até do que a própria malandragem do empresário paulista que declarou publicamente sua admiração ao governo atual, é a existência deste instrumento disponível para o uso dos malandros. Afinal, se tem algo que não falta no Brasil é malandro! Note-se que o Pão de Açúcar abusou da retórica nacionalista, com os aplausos do ministro mercantilista Pimentel, para justificar o uso imoral do BNDES na operação. Em carta aos acionistas em 2010, o presidente do Grupo Pão de Açúcar, já com elevada participação dos franceses do Casino, estampou em letras garrafais o “ORGULHO DE SER BRASILEIRO”. Às vezes eu tenho é vergonha disso.

“Precisamos manter o controle nacional no setor de varejo”, reza a cartilha ufanista. O motivo concreto ninguém explica, pois não tem explicação mesmo. Para os consumidores, não faz a menor diferença qual a nacionalidade dos principais acionistas das empresas varejistas. O que importa é ter livre concorrência, apenas isso. Em suma, o que importa é ter livre mercado, o oposto deste modelo fascista que concentra poder pela via política.