quinta-feira, maio 03, 2012

O mapa astral do "filósofo"

Rodrigo Constantino

Soube que o "filósofo" Olavo de Carvalho, não satisfeito em usar seu espaço todo no Diário do Comércio para me atacar, dedicou boa parte de seu "talk show" (humorístico) ao mesmo fim. Soube ainda - e confesso que não fui checar, pois me falta estômago para aturar aquele show de horror -, que ele disse no programa que foi apenas um estudioso de Astrologia, e que eu nada sabia sobre seus trabalhos nessa área. Segundo o leitor que me passou tais informações, ele também assevera que a relação dele com a astrologia diferiu abissalmente dos astrólogos “de mídia” ou os calculadores de horóscopo de jornal. Se ele disse isso tudo mesmo, mentiu, como de praxe.

E como eu gosto de apresentar as provas, segue a reportagem que saiu na revista VEJA, 9 de abril de 1980, com o título "Alto Astral: Já se faz horóscopo por computador". A matéria é até favorável ao astrólogo... Olavo de Carvalho cobrava caro por suas "aulas". Para o "mestre", a astrologia era um "valioso campo de conhecimento para ser aplicado nas mais diversas áreas". A VEJA testou o Astroflash e o astrólogo Olavo de Carvalho, fornecendo os mesmos dados sobre uma pessoa conhecida, sem dizer seu nome. Ambos, computador e astrólogo Olavo de Carvalho, disseram coisas interessantes sobre o sujeito em questão, que era Fernando Gabeira.

Para mim, tudo não passa de embuste (e, uma vez embusteiro, sempre embusteiro). Mapa astral é baboseira pura (e não custa lembrar aos "olavetes" o que a Bíblia diz da astrologia*). Mas que o "filósofo" não venha me acusar de ignorância ou mentira sobre suas aptidões de astrólogo! Até a revista VEJA o levou bastante a sério como um dos "astrólogos de mídia". Ele deveria saber melhor que quando Júpiter se alinha a Marte, nunca é bom provocar um liberal apaixonado pela verdade...

* Em Isaías 47.13-14, Deus afirma: "Já estás cansada com a multidão das tuas consultas! Levantem-se pois, agora os que dissecam os céus e fitam os astros, os que em cada lua nova te predizem o que há de vir sobre ti. Eis que serão como restolho, o fogo os queimará; não poderão livrar-se do poder das chamas; nenhuma brasa restará para se aquentarem, nem fogo para que diante dele se assentem."

O resgate dos direitos humanos

Flavia Piovesan, O GLOBO


"Engravidei duas vezes, e os dois bebês tinham o mesmo problema: anencefalia. Na primeira vez, era uma gravidez programada, desejada. Soube aos 3 meses de gestação que o bebê era anencéfalo. Foi muito triste. Optei pelo aborto legal, mas enfrentei muita burocracia. Se você não tem condições financeiras de contratar um advogado para acompanhar o processo, não consegue. (...), eu só tive a autorização judicial para interromper a gravidez com 7 meses e meio de gestação. (...) Fiz aborto numa época já de risco. (...) Só os pais sabem a dor que é viver este processo. Interromper a gravidez aos 3 meses poderia evitar tanto sofrimento." (Depoimento de Vanessa Oliveira no jornal O Estado de S. Paulo, em 11 de abril de 2012)
Se não houvesse obtido autorização judicial para interromper a gravidez, Vanessa Oliveira, em tese, estaria a responder criminalmente pela prática de aborto, sujeita a pena de detenção de 1 a 3 anos (artigo 124 do Código Penal). No Brasil, o aborto só não é punido se não houver outro meio de salvar a vida da gestante ou se a gravidez resultar de estupro. O aborto constitui um grave problema de saúde pública, sendo a 4ª causa de morte materna no Brasil. A ilegalidade do aborto leva à sua clandestinidade, que, por sua vez, leva à sua realização em condições inseguras, gerando um evitável e desnecessário desperdício de vidas de mulheres, sobretudo das mais vulneráveis.
Após 8 anos de polêmica, este foi o cerne do histórico julgamento do STF, ao autorizar a interrupção da gravidez em caso de anencefalia fetal, em 12 de abril último. A partir da decisão - que tem efeitos gerais, imediatos e vinculantes relativamente a todo Poder Judiciário e à administração pública -, a rede pública de saúde terá que assegurar à mulher que decidir pela interrupção o abortamento legal. Para a ciência, a anencefalia é uma anomalia fetal grave e incurável, incompatível com a vida, amparada por um diagnóstico 100% seguro.
Três são os principais impactos do mais importante julgamento do STF. O primeiro deles atém-se à afirmação dos direitos humanos das mulheres, ao assegurar-lhes a liberdade de prosseguir ou não na gravidez de fetos anencefálicos, à luz de suas convicções morais. Louva a autonomia das mulheres, sua dignidade e seu direito à saúde física e psíquica. Para o STF, obrigar a mulher a manter a gravidez em hipótese de patologia que torna absolutamente inviável a vida extrauterina significa submetê-la a um tratamento cruel, desumano e degradante, equiparável à tortura. Seria desproporcional proteger o feto que não sobreviverá em detrimento da saúde mental da mulher. Na luta pelos direitos das mulheres, a este caso emblemático se soma a relevante decisão do STF pela constitucionalidade da Lei Maria da Penha (em fevereiro de 2012).
O segundo impacto corresponde à observância da laicidade estatal. Defendeu o STF a separação entre os dogmas religiosos de domínio privado e a razão pública e secular, que há de guiar o Estado. Para o STF, a ordem jurídica em um Estado Democrático de Direito não pode se converter na voz exclusiva da moral de qualquer religião. A interpretação constitucional deve primar pelo respeito à principiologia e racionalidade constitucional, conferindo força normativa à Constituição. Uma vez mais, o STF se lançou como veículo da razão pública, reforçando o princípio da laicidade estatal já destacado nos casos concernentes ao uso de células-tronco embrionárias para fins de pesquisa científica (em maio de 2008) e à proteção constitucional às uniões homoafetivas (em maio de 2011).
Finalmente, o terceiro impacto relaciona-se à consolidação do STF como órgão guardião da Constituição, com a especial vocação de proteger direitos fundamentais. As Cortes Constitucionais têm assumido a especial missão de fomentar a cultura e a consciência de direitos e a supremacia constitucional, tendo seus julgados o impacto de transformar legislação e políticas públicas, contribuindo para o avanço na proteção de direitos. Como lembra o ministro Celso de Mello: "O Poder Judiciário constitui o instrumento concretizador das liberdades constitucionais e dos direitos fundamentais. (...) É dever dos órgãos do Poder Público - e notadamente dos juízes e dos Tribunais - respeitar e promover a efetivação dos direitos humanos."
A emblemática decisão do STF simboliza, assim, o triunfo dos direitos humanos, sob a perspectiva da saúde e da justiça social.

Comentário: Concordo com o geral, mas discordo do terceiro impacto, que não considero positivo. O STF não deve legislar, pois isso é usurpar poderes do Congresso. Ele deve ser apenas o guardião da Constituição, sem ativismo. "Fomentar a cultura e a consciência", portanto, não deveria ser função do STF, assim como "transformar legislação". Por fim, não gosto nada do termo "justiça social", algo vazio, desprovido de sentido objetivo, usado para obliterar o próprio conceito de justiça. Dito isso, o artigo merece reflexão, pois é mesmo a imposição de uma tortura sem razão de ser forçar uma mãe a carregar por 9 meses um feto ancencéfalo na barriga. Coisa de quem se preocupa mais com a "vibe" de sua cruzada moral do que com o sofrimento do ser humano de carne e osso...

Our central bankers are intellectually bankrupt

Ron Paul, Financial Times


The financial crisis has fully exposed the intellectual bankruptcy of the world’s central bankers.
Why? Central bankers neglect the fact that interest rates are prices. Manipulating those prices through credit expansion or contraction has real and deleterious effects on the economy. Yet while socialism and centralised economic planning have largely been rejected by free-market economists, the myth persists that central banks are a necessary component of market economies.
Printing unlimited amounts of money does not lead to unlimited prosperity. This is readily apparent from observing the Fed’s monetary policy over the past two decades. It has pumped trillions of dollars into the economy, providing money to banks with the hope that this new money will spur lending and, in turn, consumption. These interventions are intended to raise stock prices, lower borrowing costs for companies and individuals, and maintain high housing prices.These economists understand that having wages or commodity prices established by government fiat would cause shortages, misallocations of capital and hardship. Yet they accept at face value the notion that central banks must determine not only the supply of one particular commodity – money – but also the cost of that commodity via the setting of interest rates.
But like their predecessors in the 1930s, today’s Fed governors behave as if the height of the credit bubble is the status quo to which we need to return. This confuses money with wealth, and reflects the idea that prosperity stems from high asset prices and large amounts of money and credit.
The push for easy money is not new. Central banking was supposed to have ended the types of periodic financial crises the US experienced throughout the 19th century. Yet US financial panics have only got worse since the centralisation of monetary policy via the creation of the Fed in 1913. The Depression in the 1930s; the haemorrhaging of gold reserves during the 1960s; the stagflation of the 1970s; the dotcom bubble of the early 2000s; and the current recession all have their root in the Fed’s loose monetary policy.
Each of these crises began with an inflationary monetary policy that led to bubbles, and the solution to the busts that inevitably followed has always been to reflate the bubble.
This only sows the seeds for the next crisis. Lowering interest rates in an attempt to forestall a recession in the aftermath of the dotcom bubble required massive credit creation that led to the housing bubble, the collapse of which we still have not recovered from today. Failing to learn the lesson of the bursting of both the dotcom bubble and the housing bubble, the Fed has pumped trillions of dollars into the economy and has promised to leave interest rates at zero through to at least 2014. This will only ensure that the next crisis will be even more destructive than the current one.
Not content with its failed attempts to prop up the US economy, the Fed has set its sights on bailing out Europe, too. Through currency swaps, it has committed to offering potentially hundreds of billions of US dollars to the European Central Bank and we cannot rule out the possibility of direct intervention.
The Fed’s response to the crisis suggests that it believes the current crisis is a problem of liquidity. In fact it is a problem of poorly allocated investments caused by improper pricing of money and credit, pricing which is distorted by the Fed’s inflationary actions.
The Fed has made banks and corporations dependent on cheap money. Instead of looking for opportunities to invest in real products that will serve the needs of consumers, Wall Street awaits the minutes of each Federal Open Market Committee meeting with bated breath, hoping that QE3 and QE4 are just around the corner. It is no wonder that long-term investment and business planning are stagnant.
We live in a world that seems to have abandoned the concept of savings and investment as the source of real wealth and economic growth. Financial markets clamour for more cheap money creation on the part of central banks. Hopes of further quantitative easing from the Fed, the Bank of England, or the Bank of Japan – or further longer-term refinancing operations from the ECB – buoy markets, while decisions not to intervene can cause stocks to plummet. Policy makers focus on spurring consumption, while ignoring production. The so-called capitalists have forgotten that capital cannot be created by government fiat.
Control of the world’s economy has been placed in the hands of a banking cartel, which holds great danger for all of us. True prosperity requires sound money, increased productivity, and increased savings and investment. The world is awash in US dollars, and a currency crisis involving the world’s reserve currency would be an unprecedented catastrophe. No amount of monetary expansion can solve our current financial problems, but it can make those problems much worse.

The writer is a US congressman and a candidate for the Republican party’s presidential nomination

Faust moderno

Contardo Calligaris, Folha de SP

Faz tempo que sonho em escrever e montar um "Faust". A peça aproveitaria as ideias das melhores versões do mito, desde as de Christopher Marlowe e de Goethe até a mais recente, que está em cartaz em São Paulo, no Sesc Santana: "Fogo-Fátuo", de Samir Yazbek (coautoria de Helio Cicero e montagem bonita de Antônio Januzelli).

Numa hora intensa, inteligente e, às vezes, francamente engraçada, a peça apresenta o encontro entre um Faust escritor em crise (disposto talvez a vender sua alma) e um Mefisto que se pergunta qual função ainda tem o diabo num mundo em que os homens não precisam dele para fazer o pior. Se você estiver em São Paulo ou passar por aqui até 27 de maio, confira como Faust e Mefisto encontram uma solução original aos males de ambos.

Volto ao meu sonho. Por que a história do homem que vende sua alma ao diabo me parece ser um mito crucial da modernidade?

Só topo vender a alma em troca de sucesso em minhas empreitadas terrenas se meu breve tempo de vida for, para mim, mais importante do que a eternidade no céu. Ou seja, Faust, para assinar o pacto, deve ser, se não ateu, suficientemente agnóstico para se preocupar mais com os homens do que com Deus.
Paradoxo: a aparição de Mefisto, interessado em comprar minha alma, confirma indiretamente a existência de Deus e torna o contrato impossível: eu venderia a alma ao Diabo à condição de não acreditar realmente nem na alma nem no Diabo.

Várias soluções desse paradoxo são possíveis. Será que Mefisto se daria o trabalho de oferecer mares e montes a Faust só pelo prazer de lhe infligir as penas do inferno? Talvez Mefisto compre almas não para aumentar o rebanho dos pecadores (para isso, mal é necessário pagar), mas para alistar novos diabos. E ser diabo, mesmo de segunda linha, pode ser uma séria tentação.

Outra possibilidade é que Faust seja um vigarista, capaz de enganar até Mefisto. Já ao assinar o pacto, ele saberia que Mefisto será privado de sua "justa" recompensa: bastará, para isso, que Faust se arrependa, na última hora.

De qualquer forma (nisto concordo com o Mefisto de Yzbek), o Faust que frequenta hoje os consultórios dos psicoterapeutas não precisa de diabo. Explico.

Hoje (mas a observação já começa a valer na época romântica, quando Goethe escreve seu "Faust"), o sentimento é frequente, em adolescentes e adultos, de ter vendido a alma, sem que por isso Mefisto tenha tentado comprá-la.

Diante de qualquer sucesso (inclusive nosso) agimos como se fosse coisa de empreiteira de obras públicas: levantamos a suspeita de que foi o fruto da venda da alma de quem se deu bem. Se conseguimos algum conforto (mesmo espiritual), é porque a gente se vendeu: traímos a nós mesmos.
Temos um casamento feliz? É porque renunciamos a procurar o amor de nossa vida. Somos prósperos? É porque topamos aquele emprego, em vez de tentar empreender por nossa conta. Temos paz de espírito? É porque desistimos de procurar a pedra filosofal -que era a única coisa que nos importava de verdade.
O Faust de hoje já vendeu sua alma: ele vive com o sentimento de que seu sucesso, por modesto que seja, custou-lhe a renúncia à sua vocação, ao seu desejo, ao seu ser.

As más línguas dirão que preferimos parecer covardes e vendidos a fracassarmos por incompetência na tentativa de realizar "nosso desejo". "Desisto da procura do Santo Graal para que meus filhos possam comer a cada dia" soa muito melhor do que "desisto porque cansei ou não sei procurar direito".
Mas não é só isso: o desejo, na nossa cultura, aparece quase sempre como uma coisa da qual desistimos, que fugimos, que reprimimos, ao menos em parte.

Claro, Freud tem razão: a vida em sociedade exige repressão e renúncias. Mas talvez a sensação constante de ter traído nosso desejo (sabe-se lá qual) expresse sobretudo a nostalgia de um mundo passado, em que era mais fácil saber quem éramos e por que estávamos no mundo.

Cada vez mais, somos livres para inventar nossas vidas. E o preço inevitável dessa liberdade é nossa indefinição. "Quem sou eu? Veremos: o futuro mostrará de que sou capaz." Quando o futuro chegar, a pergunta mudará: "Tudo bem, fiz isso e aquilo, até que me dei bem, mas será que fiz mesmo o que eu queria? Será que preenchi todo meu destino?".

Pois é, amigo, nunca vamos saber. Pois, justamente, o destino estava escrito naquela alma que a gente vendeu.

quarta-feira, maio 02, 2012

Culpado como um bandido

Rodrigo Constantino

O "filósofo" Olavo de Carvalho dedicou seu espaço inteiro no Diário do Comércio à minha pessoa. Como não o dou a mesma importância, não pretendo respondê-lo em meu precioso espaço de O Globo (que reservo para coisas mais sérias), mas sim aqui mesmo, no meu blog. Farei isso de forma breve, pois o tempo é escasso e existem outras prioridades. Mas é preciso fazê-lo, pois como este senhor ainda engana muitos inocentes úteis e fala em nome da direita, faz-se necessário desmascarar o embuste de vez em quando.

Olavo diz:

Num de meus últimos programas de rádio, critiquei en passant o sr. Rodrigo Constantino por conceder ao Estado, cujo poder ele abomina e diz querer limitar por todos os meios, o mais alto e presunçoso dos poderes – que é o de conceder ou negar a condição de ser humano a uma criatura proveniente de pai e mãe humanos.

A mentira já começa no "en passant", onde o autor tenta passar a imagem de que quase não se ocupou com ataques chulos e mentirosos a mim. Na verdade, Olavo de Carvalho me citou algumas vezes, e em vários "programas de rádio" (eu chamo aquilo de outra coisa, mas deixa para lá) nos últimos meses. Como foi ignorado solenemente, insistiu na esperança de receber alguma atenção recíproca. Foi o que fiz no vídeo citado. Ele deveria ser grato ao menos a isso.

Sim, é verdade que eu abomino o excesso de poder concentrado no estado (que escrevo com letra minúscula, ao contrário de Olavo de Carvalho). Mas não sou um anarquista. Reconheço que a vida em sociedade demanda a existência do estado, especialmente para cuidar da justiça. Tampouco sou jusnaturalista, ainda que tenha alguma simpatia pelo conceito. Logo, entendo que é função precípua do estado definir as leis, ainda que muitas possam ser consideradas injustas. O problema é que não acredito na viabilidade das alternativas (mercado de leis privadas, direito natural etc).

Isso não é o mesmo que afirmar, como quer Olavo de Carvalho, que eu penso que cabe ao estado dizer o que é certo ou errado. Não! Eu acho errado a escravidão, mas estados já a consideraram legal no passado. Eu também acho errado alguém ser obrigado a pagar 40% do que ganha em impostos, mas nem por isso sou anarquista (seria a lógica dedutiva, como diz Olavo de Carvalho, da premissa de que não aceito o estado impor qualquer valor arbitrário de imposto). 

Aliás, esta é a mesma tática que usam os anarquistas: oito ou oitenta, tudo ou nada. Se você acha errado imposto de 40%, então você deve achar errado qualquer imposto, para não cair em contradição lógica. Será que Olavo de Carvalho é um anarquista? Ou ele aceita o estado dizer quanto ele deve pagar de imposto? Mas nesse caso o estado poderia lhe impor 100% de imposto! Logo, ele defende ou o socialismo ou a anarquia. Qual será o caso?

Como fica claro acima, o que Olavo de Carvalho fez foi apenas apelar para uma retórica vazia, um reductio ad absurdum (ele comenta um livro de Schopenhauer sobre estratagemas de erística, e aprendeu a usá-los muito bem). Quem vai dizer quando o feto é um ser humano? Ora, como eu deixei claro no vídeo sobre o assunto, essa é a questão cabeluda! Cientistas discutem isso sem resposta adequada. E eu não tenho a pretensão de ter tal resposta sem margem a erros (ao contrário do que afirma Olavo, eu não me arrogo o monopólio da razão). 

O que eu sei é que não considero correto a imposição de uma visão religiosa sobre o tema. A resposta pode ser a sociedade de forma geral, o indivíduo de forma subjetiva. Isso não quer dizer que o estado tem a palavra definitiva sobre o assunto. Quer dizer apenas que nem todos são obrigados a aceitar a visão religiosa, e que nem todos que aceitam uma zona cinzenta nesta questão depositam fé messiânica no estado.

E, de fato, é a resposta que a maioria dos países civilizados e desenvolvidos deu ao dilema. Tanto é verdade que em praticamente todos eles o aborto é permitido no começo da gestação, e em casos especiais. Logo, à exceção das teocracias islâmicas e de países subdesenvolvidos (muitos com forte predominância católica), as sociedades chegaram à conclusão de que um feto de um dia não é o mesmo que um bebê de um ano. Conclusão esta, aliás, que está de acordo com o bom senso, excluindo aqueles mais fanáticos em suas crenças religiosas. 

Eis o que Olavo de Carvalho precisa necessariamente defender para manter sua proclamada lógica dedutiva: que em nenhum caso o aborto é defensável, incluindo aí feto anencéfalo, fruto de estupro ou com risco de vida para a mãe, e que tomar a pílula do dia seguinte é análogo a enforcar um bebê no berço, assassinato de um ser humano puro e simples. Pergunto quantas pessoas estão dispostas a sustentar esta bandeira, e quantas delas são fanáticos religiosos... Eu prefiro ficar com a imperfeita alternativa de que cabe à sociedade, de alguma forma, legislar sobre o assunto, reconhecendo que um feto de um dia não é um ser humano, e que direitos, valores e princípios conflitantes estão em jogo, demandando escolhas difíceis. 

Olavo conclui:

Serei um malicioso, um conjeturador de hipóteses rebuscadas, um "teórico da conspiração", ao supor que o estado terminal em que se encontram os partidos "de direita" do Brasil deve algo ao fato de aceitarem como doutrinários pessoas da estatura intelectual do sr. Constantino?

Aqui há uma confusão. Olavo não é malicioso, conjeturador de hipóteses rebuscadas e teórico da conspiração por causa do seu último "programa de rádio", e sim porque já o conheço de longa data e sei que ele é exatamente isso. A crença de que o desmantelamento da URSS foi obra arquitetada pela própria KGB, o excesso de poder mirabolante atribuído ao Foro de SP, a paranoia com o movimento homossexual, a acusação de que a ONU quer controlar o mundo por meio de um governo mundial, a obsessão com a Rede Globo como veículo da revolução cultural gramsciana, enfim, a lista é grande e o astrólogo sabe como teorias conspiratórias seduzem por simplificar um mundo complexo e fornecer bodes expiatórios para os males do mundo. Quem quiser ter uma palhinha do que estou falando, veja aqui o "filósofo" acusando a Pepsi de usar células de fetos abortados como adoçante.

Além disso, ele considera que a "direita" no Brasil está frita porque conta com intelectuais da minha estatura. Pergunto então: em quais países a "direita" está melhor representada e consegue resultados práticos melhores? Pois como citei acima, os países mais avançados do mundo permitem, em sua totalidade, o aborto em situações extremas e no começo da gestação. Será que o problema da nossa "direita" é o pensamento liberal que eu defendo? Ou será que a direita tacanha e saudosista de uma Idade Média idealizada, como aquela que Olavo de Carvalho representa, é que ilustra a decadência de nossa oposição "direitista"? Entre Bolívia, Brasil e Venezuela, ou Holanda, Austrália e Nova Zelândia, qual grupo possui mais liberdade individual e prosperidade? Será que a direita está melhor no Afeganistão e no Haiti do que na Inglaterra?

Pois no primeiro grupo há muito mais gente que pensa como Olavo de Carvalho, a ponto de o aborto ser vetado em todos os casos (agora o Brasil deu um passo à frente, sob duros ataques de Olavo de Carvalho e seus seguidores, permitindo o aborto de fetos anencéfalos para permitir que gestantes coloquem um fim, se assim desejarem, ao fardo de carregar no útero um feto que jamais será um ser humano de fato), enquanto no segundo grupo a minha postura é predominante nesse caso (e em outros). Logo, soa um tanto estranho e contraditório o "filósofo" acusar o liberalismo que eu defendo como causa da miséria de nossa oposição e da "direita" no país. Será que ele preferia o Talibã como ícone da nossa direita?  

Não, sr. Olavo de Carvalho, o principal problema da nossa "direita" (ao menos a parcela que você representa) é que ela ainda não saiu da Idade Média! Felizmente, o mundo saiu, e vocês não podem mais calar os "hereges" na marra. Se você pensa que há mais liberdade nos países que adotam sua postura extremista e proíbem o aborto em qualquer caso, tenho certeza que muitos vão concordar que Estados Unidos, Holanda, Austrália, Inglaterra e Nova Zelândia representam opções bem melhores que Afeganistão, Brasil, Haiti, ou Venezuela, onde o fanatismo religioso ainda não foi extirpado pelo iluminismo.   

Heróis da Liberdade


Rodrigo Constantino*

Pobre do país que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis. Será que Brecht estava certo quanto a esta profunda desconfiança com relação à necessidade de se criar heróis? O dramaturgo alemão nutria verdadeira ojeriza por mártires, pessoas dispostas a morrer pela causa. Mas será que Martin Luther King Jr. estava errado então, quando disse: “Se você não descobre uma causa pela qual valha à pena morrer, é porque você não está pronto para viver”?
Confesso não ter forte opinião formada sobre o assunto. Sempre tive uma tendência à iconoclastia, para ser sincero. Derrubar mitos era um hobby meu desde cedo. Sabendo-se que de muito perto nenhum ser humano resiste imune à lupa da moral, pois somos todos criaturas imperfeitas, a tarefa não era das mais impossíveis. Mas o iconoclasta é um destruidor com seu severo martelo, e o mundo, os homens e as boas causas necessitam de construtores, pessoas dispostas a enxergar o lado bom das coisas. Até que ponto os heróis, ainda que imperfeitos, não são cruciais ao mundo?
Entendo o receio que desperta nos mais céticos qualquer tipo de culto ao herói. Ele facilmente se transforma em culto à personalidade, um passo próximo demais da tirania. Nietzsche, que era um típico iconoclasta, coloca o dedo na ferida em O Anticristo, ao alertar:

A morte dos mártires, seja dito de passagem, foi uma grande desgraça na história; seduziu... Os mártires prejudicaram a verdade... Ainda hoje não se necessita senão de certa crueza na perseguição para proporcionar a quaisquer sectários uma honrosa reputação. Como? Pode uma causa ganhar em valor se qualquer uma lhe sacrifica a sua vida? É, pois, a cruz um argumento? Escreveram sinais de sangue no caminho que percorreram, e a sua loucura ensinava que com o sangue se atesta a verdade. Mas o sangue é a pior testemunha da verdade; o sangue envenena a mais pura doutrina e transforma-a em loucura e em ódio nos corações. Quando alguém se atira ao fogo pela sua doutrina, que prova isso? Mas verdade é que do próprio incêndio surge a própria doutrina.

Creio que não podemos ignorar estes riscos. Basta olhar para a história e verificar quanta atrocidade foi praticada em nome de mártires, de “heróis imaculados” que criaram verdadeiras seitas de seguidores fanáticos, deixando um rastro de sangue no caminho. Mas acho que também existe o outro lado da história. Graças aos atos heróicos de alguns indivíduos, o curso dos acontecimentos foi alterado para melhor. Podemos pensar em todos os corajosos que enfrentaram déspotas e contribuíram para a libertação de seus povos. Gandhi, os “pais fundadores” dos Estados Unidos, os abolicionistas. Precisamos de heróis, afinal?
O liberalismo tem seus heróis. Como não poderia deixar de ser, não há nada que se assemelhe ao culto à personalidade que vemos em ideologias populistas e coletivistas. O liberalismo, por definição, valoriza a liberdade individual e o indivíduo. Logo, não combina com a glorificação de ícones, de “messias salvadores” que vieram criar um “novo mundo”. Os maiores heróis do liberalismo sempre serão os milhões de anônimos, as pessoas comuns que labutam diariamente, de forma honesta, e colaboram com o progresso da sociedade. Isso não impede, porém, que os liberais possam enaltecer alguns gigantes da causa. Penso ser até mesmo saudável que o façam, com cautela, pois o bom exemplo serve de inspiração.
Os heróis da liberdade funcionam como um farol que ilumina o norte, o caminho a ser seguido por outros que desejam construir um mundo com mais liberdade, ainda que sempre imperfeito. Sejam pensadores, que colaboraram com a robustez dos argumentos liberais; ou estadistas, que meteram a mão na massa e, de forma menos pura, deram passos importantes na direção certa, todos merecem o reconhecimento por sua parcela de contribuição na infindável luta por mais liberdade. Hayek, Mises, Milton Friedman, Karl Popper e tantos outros no primeiro time; Ronald Reagan e Margaret Thatcher com merecido destaque no segundo. A lista, felizmente, é longa.
O herói de um será o vilão do outro, naturalmente. Não é possível chegar ao consenso aqui. Devemos concordar em divergir, e que cada um alimente a admiração por seus próprios heróis. Mas tendo a concordar com os pontos principais que o historiador Paul Johnson, em Os Heróis, distingue como essenciais para o reconhecimento dos heróis de hoje. São eles:
Primeiro, pela absoluta independência mental, que surge da capacidade de pensar tudo por si mesmo, e tratar com ceticismo qualquer consenso corrente sobre qualquer questão. Segundo, após decidir-se de forma independente, agir – com decisão e coerência. Terceiro, ignorar ou rejeitar tudo que os meios de comunicação lançam sobre nós, desde que permaneçamos convencidos de que estamos agindo certo. Finalmente, agir com coragem pessoal o tempo todo, independentemente das conseqüências para nós mesmos.

Para Paul Johnson – e eu concordo –, não há substituto para a coragem quando se trata de atos heróicos. Um maluco que enfrenta uma matilha de cães raivosos não é corajoso, pois desconhece o perigo. O viciado em adrenalina que testa a sorte o tempo todo, brincando com a morte, tampouco é um corajoso, mas sim suicida. Coragem é quando sabemos dos riscos envolvidos, sentimos medo, e mesmo assim decidimos agir. Nas palavras de Paul Johnson, a coragem é “A mais nobre e melhor de todas as qualidades, e o único elemento indispensável em todas as diferentes manifestações”.
O liberalismo, especialmente no Brasil, um país com forte tradição antiliberal, precisa urgentemente de pessoas com coragem para defendê-lo. A reação dos grupos de interesse será forte. Sindicalistas e pelegos incrustados no poder, políticos corruptos, empresários aliados do governo corrupto, funcionários públicos com fartos privilégios, intelectuais engajados, a lista de pessoas atingidas pelas necessárias reformas liberais é grande, e não devemos esperar outra coisa senão uma virulenta ou mesmo violenta reação. Mas não devemos esmorecer. O preço da liberdade é a eterna vigilância. Esta, por sua vez, exige coragem. E o liberalismo brasileiro precisa de seus heróis. Mãos à obra!

*Artigo inédito do livro LIBERAL COM ORGULHO (Ed. Lacre, 2011)

terça-feira, maio 01, 2012

Nova oportunidade

Paulo Guedes, O GLOBO

Nossos escândalos políticos têm sólidos fundamentos. Refletem uma transição inacabada do Antigo Regime para a Grande Sociedade Aberta. Suas raízes penetraram fundo nos três poderes. Foram ampliadas a hipertrofia do Estado e sua excessiva centralização administrativa, herdadas do regime militar. As práticas políticas degeneradas, funcionais para a tomada e a manutenção do poder, são também atribuíveis à omissão do Legislativo.

É inaceitável que a única forma de conduzir as atividades políticas, desde o financiamento de campanhas até a obtenção de maiorias parlamentares, seja uma prática sistemática de escândalos a céu aberto. Os políticos brasileiros nos devem a iniciativa de uma reforma para o exercício adequado de suas atividades que os tornem novamente nossos representantes. E a reincidência dos malfeitos reflete também a impunidade prevalente, filha bastarda do corporativismo no Congresso e da omissão do Poder Judiciário em suas diversas instâncias.

Serão temas recorrentes na mídia nos próximos meses a CPI do Cachoeira e o julgamento do Mensalão. Poucas vezes a degradação moral do Estado brasileiro esteve tão exposta. Tráfico de influência, desvio de recursos públicos, compra de votos de parlamentares. Mas, em vez de alimentar uma sensação derrotista diante de novos episódios de corrupção, prefiro destacar mais uma oportunidade para a reconstrução do Estado brasileiro.

O aperfeiçoamento do regime democrático à luz de uma mídia atuante exige que tanto o Legislativo (Cachoeira) quanto o Judiciário (Mensalão) façam a sua parte. A corrupção e a impunidade são sintomas de um quadro institucional de baixa qualidade. Além desse imprescindível aperfeiçoamento institucional, há outros temas importantes a serem debatidos neste ano eleitoral.

O novo pacto federativo, com a redistribuição de recursos e atribuições hoje concentrados na União. A Constituição de 1988 exige a redefinição dos parâmetros para a distribuição de recursos orçamentários, sob pena de extinção dos Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios. Outro tema associado será a distribuição dos royalties do petróleo. A presidente teria maciço apoio parlamentar para a descentralização operacional do Estado brasileiro. Apoio também para uma reforma administrativa que reduza o número de ministérios. O dinheiro tem de ir aonde o povo está. Longe de Brasília.

Notícias do hospício

João Pereira Coutinho, Folha de SP


1. NOVA York deu-nos a música de Stephen Sondheim, os combates de Rocky Marciano e os filmes de Woody Allen. Mas também nos deu Michael Bloomberg, um caso de fanatismo antitabagista que diverte e comove ao mesmo tempo.
Agora, depois de todas as restrições antitabagistas conhecidas (em restaurantes, escritórios, parques, praias etc.), parece que o "mayor" não exclui a proibição de fumo nas calçadas da cidade -e até, quem sabe, no interior dos lares.
Ponto prévio: não sei como será possível fiscalizar o cumprimento da lei na casa de cada cidadão. Detectores de fumaça obrigatórios? Câmeras idem? Gratificação para delatores da família, como na saudosa União Soviética? Mistério.
Uma coisa, no entanto, parece certa: o que começou como preocupação razoável sobre liberdade e saúde alheias converteu-se no pretexto ideal para que o poder político faça o que melhor sabe: eleger um inimigo da sociedade, despersonalizá-lo até a humilhação total e arregimentar legiões de talibãs contra ele, que desatam a tossir ante a ameaça do cigarro -quando, anteriormente, nem pensavam nisso.
Chegará o dia em que o fumante será o perfeito pária social -sem espaço para existir na civilização e sem uma toca onde possa refugiar-se da intolerância viscosa das massas. Já estivemos mais longe.
2. No mundo do desporto acontece de tudo: doping, rivalidades mortais, sacrifícios desumanos em nome da excelência. Mas que dizer de quem finge deficiências para concorrer nos jogos paraolímpicos?
A reportaggem é da revista alemã "Der Spiegel", e minha incredulidade é total: cresce o número de deficientes falsos que inventam cegueira, paralisia, até amputação -tudo em nome do desporto, da fama e, claro, do vil metal.
Exemplos? São incontáveis.
Monique van der Vost era uma celebridade na Holanda, uma das melhores ciclistas paraolímpicas do país. Só havia um pormenor: as pernas da sra. Monique funcionavam à perfeição. Os próprios vizinhos, temendo estar na presença de um gêmea, já a tinham visto a dançar pela casa. Não pretendo levantar falsos testemunhos, mas suspeito de que a dança era só forma de relaxamento antes das provas oficiais.
Monique não é caso único. Yvonne Hopft, cinco vezes medalha de ouro em provas paraolímpicas de natação para cegos, afinal não o era: hoje, afastada das competições, resolveu mudar de vida e até já tirou a permissão para dirigir.
Mas o melhor exemplo de fraude vem da equipe espanhola de basquete, que se apresentou em 2000, nos Jogos Paraolímpicos de Sidney, para disputar a medalha de ouro de deficientes mentais profundos.
A equipe conquistou a medalha de ouro, sem dúvida, mas parece que dez atletas tinham um Q.I. perfeitamente normal. A revista, infelizmente, não esclarece se o Q.I. era normal para qualquer ser humano ou apenas para um espanhol.
Seja como for, o Comitê Paraolímpico Internacional promete vigilância e penas duras aos farsantes. Aplaudo, comovido. Mas o que será pena dura para quem finge ser deficiente e ganha a vida com isso?
Nos meus momentos de delírio, penso que a única forma de punir seriamente os farsantes era infligir-lhes, temporariamente que fosse, a exata deficiência de que eles fingem ser portadores para enganar meio mundo. Tenho certeza de que o desporto paraolímpico ficaria mais respirável da noite para o dia.
3. E, por falar em deficiências, leio na imprensa brasileira que os gagos de Manaus poderão ter desconto de 50% nas contas do celular.
A intenção não é nova: Mato Grosso do Sul já tem legislação a respeito, informa o jornal "O Globo", o que significa que o cliente gago só tem que pedir uma avaliação médica a um fonoaudiólogo e entregar o documento da sua deficiência no operador telefônico respectivo.
Depois, não importa se ele demora mais tempo para falar o que tem a falar: a mão paternalista do governo ampara a sua gagueira com mais uma política de "discriminação positiva".
Um absurdo? Honestamente, creio que a notícia se comenta a ela própria. Uma consequência da medida, porém, parece-me inevitável a curto prazo: vai aumentar o número de gagos em Manaus.

A ética do trabalho


Rodrigo Constantino, O GLOBO

Vários países celebram hoje o Dia do Trabalho. A data tem origem em uma manifestação grevista ocorrida em Chicago no final do século 19, que acabou em tragédia. Desde então, os socialistas utilizam o 1o de maio para manifestações de cunho ideológico contra o capitalismo. Mas faz sentido isso?
Quem fez mais pelos trabalhadores: o capitalismo ou o socialismo? Quem permitiu crescentes salários e melhores condições de trabalho: a concorrência de empresas em busca do lucro ou os sindicatos?
Os trabalhadores que desfrutam dos maiores salários são justamente aqueles dos países mais capitalistas. Via de regra, há menos intervenção estatal na economia desses países, assim como no próprio mercado de trabalho. Vários desses países ricos sequer contam com salário mínimo, férias remuneradas, 13o salário ou outras “conquistas” celebradas por aqui. Entretanto, isso não é impeditivo para rendimentos melhores. Qual o segredo?
Não há mágica. Esses trabalhadores recebem mais porque são mais produtivos, em boa parte pela melhor qualificação, e também porque há maior concorrência entre as empresas. Quando muitos empregadores disputam a mão de obra escassa, seu valor tende a aumentar. Faz sentido: se uma empresa pagar um salário baixo para alguém eficiente, então outra empresa poderá contratá-lo pagando mais e ainda assim lucrar com isso.
É o capitalismo liberal o maior aliado dos trabalhadores. Sim, é verdade que nos primeiros anos da revolução industrial a vida dos trabalhadores não era nada fácil. Mas é preciso comparar isso com a alternativa da época. Se na Inglaterra a vida era árdua, com longas jornadas e baixos salários, na Polônia, distante do advento capitalista, a situação era infinitamente pior. 
O que hoje vemos na China ilustra bem isso. As condições de trabalho ainda são péssimas na média. Mas representam um enorme avanço frente ao passado socialista. E se engana quem pensa que para melhorar bastam decretos do governo e sindicatos fortes. Não se cria riqueza e produtividade com canetadas estatais. O que a China precisa é justamente de mais liberdade, de mais concorrência.
O país em melhor situação na Europa é a Alemanha, com desemprego muito inferior aos demais. Curiosamente, foi um governo de esquerda, de Gerhard Schroder, que fez as reformas liberalizantes no mercado de trabalho. As mudanças reduziram as restrições às demissões (o que facilita as contratações) e cortaram os benefícios para desempregados que recusavam ofertas de emprego ou participar de programas de treinamento. Os sindicatos, sob pressão, aceitaram moderar suas demandas salariais.
A Alemanha se tornou o país mais competitivo da região, enquanto vizinhos bem mais camaradas nas leis trabalhistas enfrentam enorme desemprego, especialmente entre os mais jovens. Na Itália, as máfias sindicais impedem qualquer reforma que torne seu mercado mais competitivo, e até assassinato já fez parte do rol de intimidação aos reformadores.
O Brasil, infelizmente, parece com os países periféricos da Europa nesse sentido. Para começo de conversa, o trabalho aqui nunca foi valorizado como deveria. A Corte portuguesa considerava trabalho coisa de escravo. Segundo conta Jorge Caldeira em seu livro sobre o Barão de Mauá, o Imperador D. Pedro II jamais perdoou o empresário por tê-lo feito se curvar com uma pá de prata em um gesto simbólico na cerimônia de inauguração de uma estrada de ferro em 1852.
Nossa língua fala em “ganhar” dinheiro para designar o salário, como se ele fosse um presente, enquanto em inglês se fala “fazer” dinheiro, denotando a necessidade de esforço e mérito. Muitos jovens sonham com um bom “emprego”, de preferência estável em alguma repartição pública, mas poucos enaltecem o trabalho meritocrático. Isso precisa mudar. Não é necessário ser calvinista para reconhecer a importância de uma ética do trabalho para o progresso de um povo.
Mas existem ainda inúmeros obstáculos, além do cultural, que dificultam a vida dos trabalhadores brasileiros. Eles são criados justamente pela ausência de um modelo de maior liberdade econômica. Os encargos são absurdos, a educação é precária e os sindicatos concentram muito poder. O imposto sindical representa uma afronta aos trabalhadores. Qualquer associação deveria ser facultativa. Somente assim os sindicatos terão incentivos para representar efetivamente os interesses dos trabalhadores.
Portanto, trabalhadores brasileiros, uni-vos! Não temos nada a perder além dos grilhões impostos pelo governo em conluio com as máfias sindicais. 

A "minoria" de 75%

Rodrigo Constantino

Muitos gostam de falar em nome das "minorias", incluindo aí mulheres, negros, índios e gays. A colunista de O Globo, Miriam Leitão, costuma escrever em favor das cotas para "negros" e com frequência apela para a cartada sexual, tratando as mulheres como vítimas de preconceito no mercado de trabalho (eu nunca a vi questionando se os salários médios das mulheres não são menores pelo simples fato de que elas engravidam e, portanto, buscam trabalhos mais flexíveis e com remuneração média inferior).

Mas o problema com tanta minoria é que a conta não fecha! Para começo de conversa, homens e mulheres já compõem aproximadamente meio a meio da população. Logo na largada, portanto, estaríamos falando de uma "minoria" de 50%, conceito um tanto estranho. Só que ainda resta adicionar as demais minorias, evitando a dupla contagem.

Como temos cerca de 40% da população que se diz negra ou parda, vamos assumir que a proporção de homens e mulheres segue o padrão geral. Assim, temos mais 20% do total da população representada por homens "negros", leia-se pardos (o suficiente para se obter privilégios neste novo Brasil com leis de segregação racial).

Só que não acabou! Ainda temos os índios, os gays, os deficientes e todos os demais grupos que a esquerda seleciona como mascotes para seu "altruísmo" espalhafatoso. Vamos admitir que 10% dos homens (para evitar a dupla contagem novamente) são compostos por estes grupos (aqui no Rio eu diria que só de homossexual deve ser mais que isso, mas sejamos conservadores). Temos então outros 5% do total da população feitos de "minorias" que são os alvos da bondade (com recursos alheios) dos esquerdistas em geral.

Se o leitor ou leitora acompanhou minhas contas, percebeu que já temos 75% de minorias no Brasil (50% de mulheres, 20% de homens "negros" e 5% de homens índios, gays ou deficientes). Haja poder concentrado nesta "maioria" de 25% para explorar o restante como é alegado pelos defensores das "minorias"! Como se vê, a vida do homem branco heterossexual saudável será cada vez mais dura para sustentar as vantagens criadas para as "minorias".

Como escreveu o filósofo Luiz Felipe Pondé em seu novo livro, Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, "A diferença entre a velha esquerda e a nova esquerda é que, para a velha, a classe que salvaria o mundo seria o proletariado (os pobres), enquanto, para a nova, é todo tipo de grupo de 'excluídos': mulheres, negros, gays, aborígines, índios, marcianos..."

Ayn Rand estava absolutamente certa quando disse que a menor minoria de todas é o indivíduo, e que aqueles que negam direitos individuais não podem alegar ser defensores das minorias. Que minoria é essa que perfaz 75% da população, esquerdistas? Podem agredir nossos direitos e nossos bolsos, mas preservem ao menos a aritmética!