sexta-feira, maio 11, 2012

Ao sabor do voluntarismo

Rogério Furquim Werneck, O GLOBO

A política macroeconômica voltou a ser pautada pelo voluntarismo. O governo parece convencido de que basta a força de sua vontade para que as mazelas da economia sejam rapidamente corrigidas, uma a uma. O câmbio pode ser tão depreciado quanto se queira, as taxas de juros, reduzidas à vontade e o crescimento do PIB, acelerado ao sabor das conveniências políticas. Já era tempo de o país ter aprendido que as coisas não são tão simples. E que experiências voluntaristas desse tipo não passam de surtos coletivos de autoilusão, fadados a enfrentar uma conta salgada no final, quando a inexorável coerência entre as variáveis macroeconômicas se restabelece de forma socialmente perversa. Mas a verdade é que, entre nós, tal aprendizado se tem mostrado bem mais difícil do que se esperava.

O quadro de dificuldades que vêm marcando a economia brasileira é bem conhecido: um regime fiscal que requer elevação sem fim da carga tributária, taxa básica de juros excepcionalmente alta, spreads gigantescos nas operações de crédito, taxa de câmbio com tendência à apreciação, poupança interna baixa, investimento público atrofiado, perda de competitividade da indústria, crescimento econômico medíocre e inflação bem acima da meta.

Inconformado com a perspectiva de mais um ano de crescimento do PIB abaixo de 3%, com desempenho pífio da indústria de transformação, o governo decidiu sair em campo para acertar as coisas a seu modo. Já há algum tempo, o regime de câmbio flutuante havia sido convertido num arranjo de câmbio fixo, no qual o governo tentava impedir que a taxa caísse abaixo de R$ 1,60. Nos últimos meses, contudo, o governo tem recorrido a todo tipo de intervenção para, a qualquer custo, manter o câmbio acima de R$ 1,90.

Do lado das taxas de juros, o Planalto parece convicto de que agora tem condições de dar solução definitiva ao problema. Não só prolongou - já não se sabe até quando - o vigoroso movimento de redução da Selic que teve início em agosto, como desencadeou cruzada nacional pela redução de spreads bancários, com palavras de ordem em discurso de 1 de maio, determinações férreas a bancos públicos e admoestações a bancos privados.

A preocupação com a agenda de redução de taxa de juros e dos spreads bancários é mais do que louvável. O que é lamentável é a ideia de que os desafios envolvidos nessa agenda complexa possam ser enfrentados no grito, a golpes de voluntarismo.

Salta aos olhos que a rápida depreciação do câmbio e a redução imprudente da taxa básica de juros, com efeitos amplificados pela substancial diminuição concomitante de spreads cobrados por bancos públicos - compelidos a expandir crédito e municiados de novas transferências diretas de recursos do Tesouro -, configuram ambiente propício a agravamento do quadro inflacionário em 2013.

Quando isso acontecer, o que fará o governo? O que vem sendo mencionado em Brasília é que, mesmo que os estímulos à demanda se mostrem excessivos, a taxa básica de juros não voltará a ser elevada. Se necessário, o governo recorrerá a medidas macroprudenciais. A menos, claro, que simplesmente assuma de vez sua já indisfarçável disposição de tolerar, num prazo mais longo, uma taxa de inflação bem mais alta que a meta atual.

O curioso é que, enquanto sobra voluntarismo na condução da política macroeconômica, falta determinação na gestão de outras áreas cruciais. O PAC continua entravado. Na esteira da sucessão de escândalos do ano passado, boa parte das cadeias de comando que acionam o investimento público teve de ser desmantelada. E, justo agora, quando, a duras penas, estava tentando remontá-las, o governo se viu às voltas com novas dificuldades, decorrentes da instalação da CPI do caso Cachoeira-Delta. Como a Delta é a maior empreiteira do PAC e tem obras em nada menos que 25 estados, foi preciso montar às pressas uma deprimente operação de contenção de danos. Que, tudo indica, não será capaz de impedir que, mais uma vez, os programas de investimento sejam seriamente afetados.

A ideologia verde

João Luiz Mauad, O GLOBO

Com a aproximação da Conferência Rio+20, as declarações apocalípticas dão o tom do debate. O ministro Gilberto Carvalho, por exemplo, declarou que “o mundo se acabaria rapidamente se fosse universalizado o padrão de consumo das elites”. No mesmo diapasão, o neoconservaciocista Delfim Neto – ninguém menos que um dos idealizadores da escandalosa Transamazônica - foi categórico, em entrevista ao Globo: “Conflitos serão inevitáveis. Não há como o planeta sustentar nove bilhões de pessoas com renda de US$ 20 mil cada”.

Essa gente não tem a menor imaginação. No início do Século XIX, quando a Terra era habitada por apenas 1 bilhão de pessoas, Thomas Malthus previu que a população mundial cresceria em proporções geométricas, enquanto a produção de alimentos e outros recursos cresceria em progressão aritmética. “A morte prematura visitará a humanidade em breve, que sucumbirá em face da escassez de alimentos, das epidemias, das pestes e de outras pragas”, profetizou.

Em 1968, quando a população mundial era de 3,5 bilhões, o ecologista Paul Ehrlich, um colecionador de prêmios e comendas científicas, escreveu um livro (The Population Bomb) onde previu que, como resultado da superpopulação, centenas de milhões de pessoas morreriam de fome nas décadas seguintes. Num discurso de 1971, ele previu que "até o ano de 2000, o Reino Unido será simplesmente um pequeno grupo de ilhas empobrecidas, habitadas por cerca de 70 milhões de famintos."

De lá para cá, a população mundial dobrou e, embora ainda haja problemas sociais graves a resolver, principalmente ligados à pobreza, as previsões alarmistas de Malthus e Ehrlich jamais se concretizaram. Pelo contrário, graças às novas tecnologias e ao crescimento esponencial da produtividade, o percentual de subnutridos nos países em desenvolvimento, em relação ao total da população, vem apresentando uma firme tendência declinante há quatro décadas, tendo baixado de 33% em 1970 para 16% em 2004.

O chamado “movimento verde” nasceu da justa indignação de alguns com o desmatamento, a poluição do ar, dos rios e dos mares, além da preocupação com os riscos para a saúde humana provenientes da atividade industrial. Com o tempo, entretanto, o movimento foi sendo dominado e transformado por ideólogos esquerdistas, preocupados não com a poluição ou com a nossa saúde, mas com a política e o poder. A partir desse ponto, a doutrinação, o proselitismo e a disseminação do pânico foram tão fortes que as teorias mais bizarras tornaram-se politicamente corretas.

A essência da ideologia verde está na crença de que a humanidade deve minimizar o seu impacto sobre a natureza, custe o que custar. Vide a gritaria contra a aprovação do novo Código Florestal, uma lei extremamente preservacionista e restritiva à atividade econômica, sem similar no mundo, mas que, mesmo assim, conseguiu desagradar os xiitas. Mas os seus principais inimigos são mesmo os combustíveis fósseis, as hidrelétricas e termonucleares, que, não por acaso, ao todo significam quase 98% da produção de energia do planeta, e sem os quais o mundo para.

O que os adeptos desse radicalismo se recusam a enxergar é que nós, seres humanos, só sobrevivemos e prosperamos através da transformação da natureza, sem o quê não satisfazemos as nossas necessidades mínimas. Nosso bem estar está diretamente ligado à nossa capacidade de tornar o ambiente a nossa volta menos agressivo e mais hospitaleiro. Pensem por um minuto no que seria de nós sem os modernos sistemas de esgotamento sanitário, a água encanada, as construções mais seguras, resistentes e protegidas das intempéries naturais, a comida fresca e farta, as vacinas e os remédios, os meios de transporte e comunicação rápidos e eficientes.

Graças a Deus, as gerações que nos precederam visaram o progresso. Elas tiveram orgulho de construir fábricas, abrir estradas, perfurar poços e escavar a terra a procura de novos recursos. Felizmente, não estavam contaminados pela ideologia verde. O desenvolvimento econômico que eles nos legaram, longe de ser nocivo, é uma verdadeira dádiva, que nos forneceu as ferramentas e a tecnologia necessárias para tornar o nosso habitat mais saudável e acolhedor. É verdade que tudo isso resultou em alguma poluição e desmatamento. No entanto, mesmo esses indesejáveis efeitos negativos têm sido superadas com bastante êxito pelas nações mais avançadas.

É claro que a solução não está na restrição do consumo, mas no aumento da produtividade e no desenvolvimento tecnológico. Sem falar que os mais prejudicados, caso esse fanatismo ambientalista prevaleça, serão os mais pobres, caso sejam privados do uso de fontes de energia eficientes e baratas, e, consequentemente, da chance de poderem um dia usufruir do padrão de vida dos países ricos.

Delta e JBS: Sinergia perfeita


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Muita gente ficou estupefata com a notícia de que a J&F Holding, controladora da JBS, queria comprar a construtora Delta, de Fernando Cavendish. Automaticamente perguntaram: o que um frigorífico tem em comum com uma construtora? Quais são as possíveis sinergias entre seus negócios?

Falta imaginação para essas pessoas. Claro que há sinergias, e elas são enormes. Os ganhos de escala dos negócios da holding, agora comandada pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, são potencialmente gigantescos. Explico.
Não é que o abate de gado bovino pode eventualmente ser realizado por tratores da construção civil, ou que resíduos de argamassa possam ser utilizados no pasto dos bois. Não é nada disso. É que ambos os negócios cresceram rápido demais, mudando de patamar em pouco tempo, basicamente pelos mesmos motivos. Juntos, o crescimento pode ser ainda maior!
E quais são esses motivos? Ora, a proximidade com o governo, é claro. A Delta deu um salto no faturamento porque conquistou inúmeras obras públicas em leilões, todos extremamente transparentes, como sempre ocorre no Brasil. Tem uma carteira bilionária que depende do governo.

Já a JBS foi comprando várias empresas, e sempre contando com o financiamento subsidiado do BNDES, que aplica critérios apenas técnicos em suas análises de crédito, como todos sabem. O banco estatal colocou tanta grana na empresa que teve de se tornar sócio grande dela, por falta de capacidade de pagamento da dívida, que acabou convertida em ações.
Agora já ficou bem mais evidente qual a sinergia entre ambas. O acionista majoritário da JBS pretende ser político, governador de Goiás. O ex-dono da Delta adora políticos, e até colocava guardanapos na testa em um estranho ritual com os auxiliares do governador do Rio, Sérgio Cabral. Faz todo sentido unir forças para ter mais escala.

JBS e Delta são dois ícones do nosso capitalismo de estado. Elas se merecem. São os brasileiros que não merecem esta fusão...

quinta-feira, maio 10, 2012

Stimulus Spending Keeps Failing

Robert Barro, WSJ

The weak economic recovery in the U.S. and the even weaker performance in much of Europe have renewed calls for ending budget austerity and returning to larger fiscal deficits. Curiously, this plea for more fiscal expansion fails to offer any proof that Organization for Economic Cooperation and Development (OECD) countries that chose more budget stimulus have performed better than those that opted for more austerity. Similarly, in the American context, no evidence is offered that past U.S. budget deficits (averaging 9% of GDP between 2009 and 2011) helped to promote the economic recovery.

Two interesting European cases are Germany and Sweden, each of which moved toward rough budget balance between 2009 and 2011 while sustaining comparatively strong growth—the average growth rate per year of real GDP for 2010 and 2011 was 3.6% for Germany and 4.9% for Sweden. If austerity is so terrible, how come these two countries have done so well?

The OECD countries most clearly in or near renewed recession—Greece, Portugal, Italy, Spain and perhaps Ireland and the Netherlands—are among those with relatively large fiscal deficits. The median of fiscal deficits for these six countries for 2010 and 2011 was 7.9% of GDP. Of course, part of this pattern reflects a positive effect of weak economic growth on deficits, rather than the reverse. But there is nothing in the overall OECD data since 2009 that supports the Keynesian view that fiscal expansion has promoted economic growth.

For the U.S., my view is that the large fiscal deficits had a moderately positive effect on GDP growth in 2009, but this effect faded quickly and most likely became negative for 2011 and 2012. Yet many Keynesian economists look at the weak U.S. recovery and conclude that the problem was that the government lacked sufficient commitment to fiscal expansion; it should have been even larger and pursued over an extended period.





This viewpoint is dangerously unstable. Every time heightened fiscal deficits fail to produce desirable outcomes, the policy advice is to choose still larger deficits. If, as I believe to be true, fiscal deficits have only a short-run expansionary impact on growth and then become negative, the results from following this policy advice are persistently low economic growth and an exploding ratio of public debt to GDP.

The last conclusion is not just academic, because it fits with the behavior of Japan over the past two decades. Once a comparatively low public-debt nation, Japan apparently bought the Keynesian message many years ago. The consequence for today is a ratio of government debt to GDP around 210%—the largest in the world.

This vast fiscal expansion didn't avoid two decades of sluggish GDP growth, which averaged less than 1% per year from 1991 to 2011. No doubt, a committed Keynesian would say that Japanese growth would have been even lower without the extraordinary fiscal stimulus—but a little evidence would be nice.

Despite the lack of evidence, it is remarkable how much allegiance the Keynesian approach receives from policy makers and economists. I think it's because the Keynesian model addresses important macroeconomic policy issues and is pedagogically beautiful, no doubt reflecting the genius of Keynes. The basic model—government steps in to spend when others won't—can be presented readily to one's mother, who is then likely to buy the conclusions.

Keynes worshipers' faith in this model has actually been strengthened by the Great Recession and the associated financial crisis. Yet the empirical support for all this is astonishingly thin. The Keynesian model asks one to turn economic common sense on its head in many ways. For instance, more saving is bad because of the resultant drop in consumer demand, and higher productivity is bad because the increased supply of goods tends to lower the price level, thereby raising the real value of debt. Meanwhile, transfer payments that subsidize unemployment are supposed to lower unemployment, and more government spending is good even if it goes to wasteful projects.

Looking forward, there is a lot to say on economic grounds for strengthening fiscal austerity in OECD countries. From a political perspective, however, the movement toward austerity may be difficult to sustain in some countries, notably in France and Greece where leftists and other anti-austerity groups just won elections.

Consequently, there is likely to be increasing diversity across countries in fiscal policies, and this divergence will likely make it increasingly hard to sustain the euro as a common currency. On the plus side, the differing policies will provide better data to analyze the economic consequences of austerity.

Mr. Barro is a professor of economics at Harvard and a senior fellow at Stanford's Hoover Institution.

A gangue do guardanapo

Contardo Calligaris, Folha de SP

A FOTOGRAFIA da semana, para mim, é a de Fernando Cavendish (dono da Delta) e Sérgio Cabral (governador do Rio), com outros políticos e empresários, alegres além da conta, todos arvorando um guardanapo branco amarrado na cabeça -isso, num restaurante de Paris (o do hotel Ritz, ao que parece), em 2009.

A cena me lembra um caso recente. Um casal de brasileiros frequenta habitualmente um restaurante de Manhattan, porque o lugar é simpático e porque o maître também é brasileiro. Uma noite, no dito restaurante, uma mesa acomoda um grupo especialmente barulhento de mais oito brasileiros: os homens competem clamando seus pedidos de vinhos caros, e as mulheres competem gritando as compras do dia.

O maître recebe o casal de "habitués" pedindo em voz baixa: "Por favor, não vamos falar português, prefiro que eles não saibam que somos brasileiros".

É difícil assumir a brasilidade quando, na boca dos emergentes, o "brado retumbante" é o barulho de quem ambiciona se apresentar ao mundo pelo chacoalho do trocado que tem no bolso.

A mobilidade social brasileira é rapidíssima: em uma geração, criam-se fortunas (com ou sem a cumplicidade do poder público corrupto). Nesse ritmo acelerado de ascensão social, os novos ricos, em regra, adotam o luxo como puro símbolo de status, sem o tempo de elaborar uma cultura que lhes permita apreciá-lo. Com isso, escreveu justamente Elio Gaspari (Folha de 2/5), tentando ser chiques, eles são bregas: sua ostentação revela a falta de um gosto próprio e a vontade de ocultar sua origem recente.

Os novos ricos se envergonham de seu passado mais humilde e tentam ocultá-lo num agito fanfarrão que, justamente, revela aquela procedência que eles gostariam de espantar. Enquanto isso, os outros, como o maître de Manhattan, envergonham-se dos privilegiados de seu país.

Mas tudo isso não nos diz ao que vêm, na festa de Cavendish e companhia, os lenços na cabeça.

Para quem não viu a foto: são guardanapos dobrados em triângulos, cuja base é amarrada ao redor da testa, de modo que o pano recaia sobre os cabelos e a ponta seja eventualmente segurada na nuca. Ou seja, são bandanas.

Pioneiros, vaqueiros e bandeirantes a caminho do Oeste usavam uma bandana, que, ao redor do pescoço, servia para proteger a boca da poeira e dos insetos ou, amarrada de baixo do chapéu, estancava o suor. Antes disso, o mesmo lenço segurava o cabelo dos piratas. Depois disso, nos anos 1960 e 1970, ele segurava o dos motoqueiros rebeldes da contracultura.

A bandana é, tradicionalmente, um apetrecho de quem se engaja (real ou metaforicamente) no vento e na poeira dos caminhos menos percorridos. O ideal do cowboy, do "easy-rider", do aventureiro, do pirata, do surfista errante ou do roqueiro pode se encarnar em usuários mais sedentários, mas não menos ousados -à condição, claro, que eles precisem segurar o cabelo (é o caso, por exemplo, dos chefes de cozinha de hoje). Mas como esse mesmo ideal se encarnaria nos clientes brasileiros do Ritz de Paris?

Talvez a bandana da foto de Cavendish, Cabral etc. seja apenas uma versão da gravata na testa daqueles primos bêbados, que, no fim de uma festa de casamento, escolhem mostrar a todos os outros ("inibidos", "caretas" e "obviamente" invejosos) que eles, sim, sabem se divertir e são os verdadeiros heróis do hedonismo -os que não recuam diante do prazer. Isso, claro, até eles vomitarem num canto (conselho: nunca fique num casamento depois da saída dos noivos).

Ou talvez Cavendish, Cabral etc. achem que eles são mesmo os novos "easy-riders", cowboys ou bandeirantes. Mas qual é, então, sua aventura? Em que jornada eles precisam segurar o cabelo para correr livres no vento?

O guardanapo branco do Ritz é uma curiosa bandana: ele diz que a aventura desses pretensos aventureiros é apenas a de esbanjar seu privilégio (mais ou menos legal), sonhando em ser o objeto da inveja de todos. Em síntese: o guardanapo do Ritz é a bandana perfeita para quem quer surfar nas costas dos bananas (que seríamos nós).

Elio Gaspari prometeu uma viagem a Dubai para quem explicasse as bandanas do grupo de Cavendish etc. Se ajudei, renuncio desde já à viagem oferecida. Receio encontrar, em Dubai, o mesmo pessoal do Ritz ou seus amigos. Prefiro que Gaspari me convide para um jantar qualquer. Aliás, nem precisa me convidar. Mas o jantar é sem bandanas, ok?

Um texto marginal

Demétrio Magnoli, Estadão

"Basta ver o caráter marginal daqueles que se opõem ferozmente a essas políticas...". A frase, escandida pelo ministro Joaquim Barbosa num aparte casual, contém a chave para a compreensão da decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as políticas raciais. Os juízes da Corte Maior não se preocuparam com a Constituição, mas unicamente com o lugar ocupado pelos defensores e pelos opositores das cotas raciais na cena política nacional. Eles disseram "sim" ao poder, definindo seu próprio lugar no grande esquema das coisas.

Cortes Supremas servem para interpretar o texto constitucional, nos inúmeros casos em que a letra da Lei não oferece resposta explícita. No artigo 5.º, a Constituição afirma que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza". No artigo 19, que "é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos municípios criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si". No artigo 208, que "o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um". A letra da Lei é explícita, cristalina: dispensa interpretação. O STF, simulando interpretá-la, reuniu-se em assembleia constituinte e revogou o princípio da igualdade perante a lei. Os juízes encarregados de zelar pela Constituição qualificaram-na como um texto marginal.

O princípio da igualdade perante a lei está formulado nas Constituições americana e indiana em termos similares aos da nossa. Nos EUA, desde 1978 a Corte Suprema proferiu decisões cada vez mais contrárias às políticas de preferências raciais. Na Índia, logo após a independência, a Corte Suprema vetou tais políticas - e então o Congresso emendou o texto constitucional, descaracterizando o princípio da igualdade dos cidadãos. Por que, em contraste flagrante, os juízes do STF preferiram reescrever a Constituição de forma a inscrever a raça na lei?

No Brasil, a igualdade legal dos cidadãos é um "princípio fraco", introduzido nas Constituições por imitação. O "princípio forte" sempre foi o das relações pessoais, fundamento real dos intercâmbios das elites econômica, política e intelectual. Na lógica do Direito, o princípio da igualdade funciona como fonte dos direitos e garantias individuais. Tal conexão explica a importância atribuída ao "princípio fraco" na Constituição de 1988: o gesto político e jurídico de ruptura com o ciclo da ditadura militar era a promessa de um novo início, isento das máculas do passado. O STF está dizendo que aquele gesto representou um desvio de percurso - e já se esgotou. De certo modo, os juízes têm razão: bem antes da sessão de julgamento das cotas raciais, as principais correntes políticas do País imolaram o princípio da igualdade no altar de seus compromissos com as ONGs racialistas, que são minorias organizadas e influentes.

O conceito de preferências raciais adquiriu estatuto oficial no governo Fernando Henrique Cardoso, por meio do Programa Nacional de Direitos Humanos de 1996. No governo Lula a noção genérica de "discriminação positiva" desdobrou-se na política de cotas raciais. Dilma Rousseff prometeu, no início de sua campanha presidencial, expandir os programas de cotas para a pós-graduação. José Serra, candidato da oposição, manteve silêncio absoluto sobre as políticas de raça, avalizando tacitamente a orientação do governo Lula. A cooperação objetiva entre os grandes partidos rivais e a continuidade histórica das iniciativas racialistas na transição de um governo para o outro formam o pano de fundo da decisão unânime do STF. Eis a razão por que Joaquim Barbosa, como seus colegas, enxerga na Constituição um texto "marginal".

O estandarte da igualdade legal dos cidadãos condensa a narrativa de uma sociedade contratual formada por indivíduos livres das amarras do sangue e da tradição. A narrativa é a praça histórica comum aos liberais e aos socialistas. Os primeiros ergueram o princípio da igualdade no combate aos privilégios de sangue do Antigo Regime. Os segundos enxergaram nele a ferramenta das lutas pelo voto universal e pela liberdade de associação e de greve. No Brasil, contudo, essa história quase nada significa para os partidos que representam as duas correntes. O STF que aboliu o princípio da igualdade é a Corte Maior de um país onde José Sarney foi declarado um personagem acima da lei, Fernando Collor pontifica numa CPI sobre a corrupção e Sérgio Cabral protagoniza cenas dignas do Antigo Regime no palco apropriado da Cidade Luz.

Na sessão de julgamento do STF, o relator, Ricardo Lewandowski, alvejou sem rodeios o artigo 5.º da Constituição, atribuindo ao princípio da igualdade um sentido meramente "formal". O mesmo relator comandou, em 2009, a rejeição do pedido de instauração de processo contra o ex-ministro Antônio Palocci por violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Meses depois, a Caixa Econômica Federal informou em juízo que a violação decorreu de ordem emitida por Palocci. O escárnio do "princípio fraco", da igualdade legal, serve sempre ao desígnio de instaurar o império do "princípio forte", das relações pessoais.

O juiz Marco Aurélio Mello exprimiu a aspiração de generalização das políticas de cotas, como querem as ONGs racialistas. Num país em que, ao contrário dos EUA ou da África do Sul, jamais existiu segregação racial oficial, não há fronteira objetiva separando "brancos" de "negros". A difusão das preferências raciais nos concursos públicos e no mercado de trabalho em geral demanda uma série imensa de atos legais e administrativos de rotulação racial das pessoas. Em nome do combate ao racismo, o Estado deve fabricar raças em escala nacional, disse o STF. No afã de descartar a Constituição, aquele texto marginal, nenhum deles registrou a contradição explosiva entre meios e supostos fins.

Os alemães devem ser idiotas

Carlos Alberto Sardenberg, O GLOBO

Você precisa reduzir o colesterol e entrar em forma. Um médico recomenda restrição alimentar - tipo peixe levemente grelhado com legumes no vapor, água com gás e o requinte máximo de uma rodela de limão - mais uma carga pesada de exercícios físicos. Diários. O outro diz que você pode chegar ao mesmo resultado comendo o que gosta, talvez reduzindo os doces, e jogando umas partidas de bocha.

Havendo alguma chance de que esta segunda opção funcione, você será um idiota se escolher a primeira. Ou seja, os alemães são uns idiotas. Essa é a conclusão inevitável que se tira do modo como muita gente apresenta as alternativas de política econômica em disputa na Europa.

Dizem: a chanceler Angela Merkel recomenda - mais do que isso, impõe o regime da austeridade, sacrifício e suor do rosto. François Hollande, o presidente eleito da França, admite que é preciso ter algum cuidado com a alimentação, as contas públicas, mas oferece o caminho do crescimento acelerado e, melhor, sem muito trabalho.

Por exemplo, diz que vai reduzir a idade mínima de aposentadoria de 62 para 60 anos. Na Alemanha, é de 63 anos, mas está subindo para 65 e pode chegar a 67, em alguns casos. Hollande também vai garantir a jornada semanal de 35 horas - uma bandeira de seu Partido Socialista. Na Alemanha, a jornada média chega às 41 horas, sendo a mais longa entre os europeus mais ricos. E os salários na França são mais elevados do que na Alemanha.

Como se dizia: é melhor ser rico com saúde do que pobre doente, não é mesmo? Melhor trabalhar menos, ganhar mais, e aposentar-se antes...

Tem uns probleminhas, porém. O desemprego na Alemanha está na faixa dos 5%, um dos níveis mais baixos do mundo. Na França, é o dobro. Na saída da crise, a Alemanha cresceu acima de 3,2% em 2010 e 2011. A França, metade disso.

Hollande alegou, durante a campanha, que a França cresceu pouco justamente por causa da receita de austeridade - redução do gasto público, especialmente - imposta pelo presidente Sarkozy, uma espécie de sub-Merkel.

Não faz sentido. Sarkozy não aplicou a austeridade, de cuja ideia se afastou justamente por medo de perder a eleição, nem fez qualquer reforma estrutural importante. Conseguiu, é verdade, elevar a idade de aposentadoria para 62 anos, mas essa mudança só começaria a valer mais à frente - de modo que ainda não trouxera qualquer efeito antes de ser declarada morta. Também prometera colocar a França de volta ao trabalho, eliminando a jornada de 35 horas, mas conseguiu apenas algumas exceções, caras.

Já a Alemanha fez boa parte dessas reformas estruturais no início dos anos 2000 - e isso, ironia, com um governo de esquerda, do social-democrata Gerhard Schröder. A partir daí, assentou as bases do crescimento da década seguinte e, especialmente, a capacidade de escapar da crise mais rapidamente.

De onde tiraram que a receita alemã não funciona? É um equívoco enorme apresentar a receita Merkel como a da recessão, em oposição à agenda de crescimento de Hollande.

Merkel está dizendo duas coisas: primeiro, que não é possível crescer de maneira sustentada aumentando déficits e dívidas públicas já elevadas; segundo, também não se cresce sem reformas estruturais que devolvam competitividade às economias nacionais.

Ou seja, a França cresce pouco e tem desemprego alto não por causa da austeridade - o governo gasta lá o equivalente a 56% do PIB, recorde europeu - mas pela falta de competitividade e excesso de despesa e impostos.

Como resolver a falta de crescimento? Ora, é simples, diz Hollande: crescendo mais...

E sabe o que deve acontecer? Nada, além da retórica. O governo Hollande acabará sendo muito parecido com o de Sarkozy - nada de mudanças sensíveis. Merkel vai topar algum plano de novos investimentos europeus, com um dinheirinho de algum fundo de desenvolvimento, para o pessoal dizer que se aplicou a agenda do crescimento.

Como as contas públicas francesas não estão em situação dramática, há um estímulo para continuar levando assim: crescimento baixo, desemprego alto - mas uma boa vida para quem está empregado ou aposentado. As futuras gerações que se danem.

Um astrólogo desesperado

Rodrigo Constantino

Como tenho muitos "amigos" em comum com o "filósofo" Olavo de Carvalho no Facebook, acabo sabendo que este senhor dedica boa parte de seu tempo para me atacar. Em mais um artigo em seu espaço no Diário do Comércio, Olavo começa logo me dando uma aula de português. Alguns leitores novos podem ter ficado perplexos com tanto esforço para detalhe tão insignificante. Mas eu explico.

É que Olavo é um sujeito muito vaidoso, tão vaidoso a ponto de estimular a reverência e idolatria de seus seguidores, os "olavetes", que tratam o "mestre" como uma espécie de profeta. Tamanha reverência patética (quem quiser ter uma idéia do nível da turma basta uma rápida visita no meu canal do YouTube) acabou afetando o "filósofo", que já tinha um ego gigantesco. E na época do "debate" no Orkut, eu cometi a ousadia de consertar um erro seu de português, quando ele disse "entre eu e você". O correto, como hoje ele deve ter aprendido, seria "entre mim e você". Essas coisas acontecem, ainda mais no calor de uma discussão. Desde então, entretanto, Olavo não perdoa este erro que apontei em público. Mas como não sou como ele, até agradeço pela aula de gramática. Confesso que escrevi com pressa, pois o tempo é escasso e valioso, como eu disse.

Noto que Olavo de Carvalho, como eu já esperava, vai continuar mendigando minha atenção até, quem sabe?, eu ocupar meu espaço no GLOBO para falar de sua pessoa. Sonhar é bom. Olavo, que já teve trabalhos razoavelmente importantes, foi ficando esquecido, esquecido, acusando conspirações da esquerda para a perda de seu espaço na grande imprensa, até lhe (acertei?) restar um programa (humorístico?) de rádio, repleto de palavrões que o autor confunde com argumento e masculinidade. Parece que ele invoca um santo no começo, e depois desanda a xingar todo mundo. Uma espécie de Bispo Macedo misturado com Walter Mercado. Ou seria Alborguetti?

Mas vamos ao raro conteúdo do texto novo, pois Olavo prefere focar bastante na forma (eu entendo, quando se está desesperado pela falta de argumentos, apela-se aos detalhes da escrita errada). Olavo acha que é afetação minha de superioridade falar que não lhe (acertei novamente?) dou muita atenção. Afinal, eu até chamei um personagem de um romance que escrevi (ainda não publicado) de Otávio de Ramalho, não é mesmo? Vamos aos fatos: Olavo foi solenemente ignorado por mim durante alguns anos, enquanto citava meu nome com frequência neste seu programa de rádio, como soube por terceiros (e em alguns casos fui checar, apenas para ver uma espécie de riso de hiena por trás do vídeo quando o "mestre" tascava um palavrão no ar - o que é aquilo?). Até que resolvi dar uma resposta.

Aqui cometi um erro que gostaria de reparar. Dei importância exagerada à influência de Olavo na direita brasileira, confesso. Ele mesmo apontou esta falha, e frisou sua completa insignificância (exagerando, por sua vez, a importância do Instituto Millenium e outras entidades do tipo). Mas deve ter sido um viés pela interseção enorme de "amigos" no Facebook. Eu realmente fiquei com a impressão de que Olavo ainda era uma voz influente em nossa parca direita. Por isso reagi. Além disso, sua postura na questão específica do aborto de fetos anencéfalos é exatamente a mesma dos evangélicos ignorantes, que ninguém vai negar enorme peso na política nacional. Logo, fiquei com a impressão de que os "olavetes" eram mais do que alguns gatos pingados que gostam de xingar os outros e idolatrar um guru ex-astrólogo, ex-marxista e agora sei lá o que.

Voltando ao Otávio de Ramalho, creio que Olavo terá de concluir que tenho certa obsessão por Marta Suplicy também. Explico. É que um dos personagens do livro é a mulher do trabalhador, e seu nome é Marta em homenagem a esta senhora petista. Não, eu não passo meus dias pensando nela. Tampouco tenho alguma tara oculta por sua pessoa. Era apenas alguém do lado de lá que eu usei como inspiração para a personagem. O mesmo vale para o padre. Virou Otávio de Ramalho pois é o tipo que conheço que invoca santos e apela para a religião nos debates. Confesso que para certas falas do personagem, a inspiração nem veio de Olavo, quem eu passei a ignorar por longo período, como já citado, mas sim de Nivaldo Cordeiro, colega meu de debate na Rede Liberal, e "olavete" fanático. Olavo nem mesmo leu meu livro, mas sabe exatamente, com base em uma frase minha, o que eu criei ali e qual o motivo psicológico disso (se ele fosse mesmo psicólogo, o CRP já teria confiscado sua carteira). É assim que funciona um embusteiro...

Mas entendo a alegria de Olavo por ter recebido esta homenagem. Se soubesse que teria esta reação, eu teria lhe (é isso mesmo?) contado antes. Ele, pelo visto, precisa de mais atenção da minha parte. Afinal, ele tem um dever "jornalístico" (isso foi piada?) de analisar o estado mental das classes influentes (eu não sabia que tinha esse peso todo, e o próprio Olavo, contradizendo-se, tenta me acusar de ter poucos seguidores, alegando que meu vídeo sobre sua pessoa só disparou quando ele o citou - o que é mentira). E fez tal análise, convenhamos, da mesma forma que fazia mapa astral antigamente. Ou seja, sem um pingo de responsabilidade e seriedade. Uma vez embusteiro, sempre embusteiro. Esse é Olavo de Carvalho, o ícone de uma ala (minoritária?) da nossa direita.

PS: Sobre eu depositar no estado o poder de decidir quando começa a vida e, portanto, não ser um liberal, já respondi aqui. Na verdade, é o Olavo quem quer que o estado diga que a vida humana começa na concepção, e quer isso com base em sua crença religiosa. Os países MAIS liberais adotam minha postura, enquanto as teocracias autoritárias adotam a dele. Mas ele insiste que tem a razão nesse ponto ainda, apelando para uma falácia escancarada.

quarta-feira, maio 09, 2012

O BC e o coelhinho da Páscoa

Rodrigo Constantino

O Estadão escreveu um importante editorial hoje alertando para os riscos de um BC politizado. O jornal afirma que "já não pode haver dúvida sobre a influência da presidente Dilma Rousseff na política oficial de juros, principal instrumento da administração monetária". A postura do BC tem sido claramente arriscada, para não dizer irresponsável. Os sinais de subserviência política são evidentes. O editorial conclui: "O resultado é um perigoso e indisfarçável retrocesso na gestão da política monetária".

O presidente do BC, Alexandre Tombini, não gostou nada das acusações, e escreveu uma resposta publicada no site da instituição. Nela, Tombini garante: "O Banco Central tem assegurada total autonomia para tomar decisões de política monetária, sem quaisquer interferências de outros órgãos do governo ou de agentes econômicos". Mas a pergunta que não quer calar é: quem ainda acredita nisso?

Em um ato falho talvez, Tombini usa em nota oficial o termo "presidenta" quando tenta negar a influência da presidente nas decisões de política monetária. Ora ora, meu caro Tombini, quem ainda não percebeu que a senha para detectar em um segundo um servo da presidente é justamente o uso dessa agressão à língua portuguesa que é o uso do termo presidenta? Sinto muito, mas você se entregou já nesse momento.

Tombini afirma: "A presidenta da República, Dilma Rousseff, já afirmou publicamente que a condução da política monetária é da alçada exclusiva do Banco Central do Brasil". Eis o problema: dependemos da palavra da presidente, que pode não valer tanto assim para os investidores. O que vale mais são as atitudes e as instituições. Cabe perguntar: por que o Banco Central não goza de independência jurídica ainda? Por que sua autonomia não foi lavrada em lei, com mandato intercalado entre presidente da República e presidente do BC, como ocorre nos países desenvolvidos?

É verdade que isso também não é uma garantia gravada em pedra e imutável, pois mesmo o independente BCE corre sérios riscos de politização. Mas ao menos não teríamos uma "autonomia" tão frágil assim, não é mesmo? A presidenta diz, então é verdade? Desculpa, mas nós investidores não funcionamos dessa forma...

Por fim, Tombini tenta assegurar o critério estritamente técnico para as decisões do BC: "Todas as decisões tomadas pela atual diretoria colegiada seguem análises e  critérios estritamente técnicos, que são explicitados nos documentos oficiais do Banco Central". Há controvérsias! Para quem quer outra opinião, recomendo os artigos de Alexandre Schwartsman na Folha, ou alguns meus mesmo, como esse em que falo dos malabarismos do BC, e esse, onde questiono o tal modelo SAMBA utilizado. 

Em suma, temos (ainda) liberdade de expressão sim, e cada um fala o que quer. O Estadão acusa o BC de estar domesticado, e o presidente do BC reage em defesa da "presidenta" e sua mesmo. Cada um acredita em quem quiser, claro. Tem gente que acredita em Papai Noel, em coelhinho da Páscoa, e até em nosso BC totalmente independente da pressão política da presidenta! Viva a liberdade de credo...

terça-feira, maio 08, 2012

Roberto Civita não é Rupert Murdoch

Editorial de O GLOBO

Blogs e veículos de imprensa chapa branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT desfecharam uma campanha organizada contra a revista "Veja", na esteira do escândalo Cachoeira/Demóstenes/Delta.

A operação tem todas as características de retaliação pelas várias reportagens da revista das quais biografias de figuras estreladas do partido saíram manchadas, e de denúncias de esquemas de corrupção urdidos em Brasília por partidos da base aliada do governo.

É indisfarçável, ainda, a tentativa de atemorização da imprensa profissional como um todo, algo que esses mesmos setores radicais do PT têm tentado transformar em rotina nos últimos nove anos, sem sucesso, graças ao compromisso, antes do presidente Lula e agora da presidente Dilma Roussef, com a liberdade de expressão.

A manobra se baseia em fragmentos de grampos legais feitos pela Polícia Federal na investigação das atividades do bicheiro Carlinhos Cachoeira, pela qual se descobriu a verdadeira face do senador Demóstenes Torres, outrora bastião da moralidade, e, entre outros achados, ligações espúrias de Cachoeira com a construtora Delta.

As gravações registraram vários contatos entre o diretor da Sucursal de "Veja" em Brasília, Policarpo Jr, e Cachoeira. O bicheiro municiou a reportagem da revista com informações e material de vídeo/gravações sobre o baixo mundo da política, de que alguns políticos petistas e aliados fazem parte.

A constatação animou alas radicais do partido a dar o troco. O presidente petista, Rui Falcão, chegou a declarar formalmente que a CPI do Cachoeira iria "desmascarar o mensalão".

Aos poucos, os tais blogs começaram a soltar notas sobre uma suposta conspiração de "Veja" com o bicheiro. E, no fim de semana, reportagens de TV e na mídia impressa chapas brancas, devidamente replicados na internet, compararam Roberto Civita, da Abril, editora da revista, a Rupert Murdoch, o australiano-americano sob cerrada pressão na Inglaterra, devido aos crimes cometidos pelo seu jornal "News of the World", fechado pelo próprio Murdoch.

Comparar Civita a Murdoch é tosco exercício de má-fé, pois o jornal inglês invadiu, ele próprio, a privacidade alheia.

Quer-se produzir um escândalo de imprensa sobre um contato repórter-fonte. Cada organização jornalística tem códigos, em que as regras sobre este relacionamento — sem o qual não existe notícia — têm destaque, pela sua importância.

Como inexiste notícia passada de forma desinteressada, é preciso extremo cuidado principalmente no tratamento de informações vazadas por fontes no anonimato.

Até aqui, nenhuma das gravações divulgadas indica que o diretor de “Veja” estivesse a serviço do bicheiro, como afirmam os blogs, ou com ele trocasse favores espúrios. Ao contrário, numa das gravações, o bicheiro se irrita com o fato de municiar o jornalista com informações e dele nada receber em troca.

Estabelecem as Organizações Globo em um dos itens de seus Princípios Editoriais: "(...) é altamente recomendável que a relação com a fonte, por mais próxima que seja, não se transforme em relação de amizade. A lealdade do jornalista é com a notícia".

E em busca da notícia o repórter não pode escolher fontes. Mas as informações que vêm delas devem ser analisadas e confirmadas, antes da publicação. E nada pode ser oferecido em troca, com a óbvia exceção do anonimato, quando necessário.

O próprio braço sindical do PT, durante a CPI de PC/Collor, abasteceu a imprensa com informações vazadas ilegalmente, a partir da quebra do sigilo bancário e fiscal de PC e outros.

O "Washington Post" só pôde elucidar a invasão de um escritório democrata no conjunto Watergate porque um alto funcionário do FBI, o "Garganta Profunda", repassou a seus jornalistas, ilegalmente, informações sigilosas.

Só alguém de dentro do esquema do mensalão poderia denunciá-lo. Coube a Roberto Jefferson esta tarefa.

A questão é como processar as informações obtidas da fonte, a partir do interesse público que elas tenham. E não houve desmentidos das reportagens de "Veja" que irritaram alas do PT.

Ao contrário, a maior parte delas resultou em atitudes firmes da presidente Dilma Roussef, que demitiu ministros e funcionários, no que ficou conhecido no início do governo como uma faxina ética.