terça-feira, julho 17, 2012

Mutilações


João Pereira Coutinho, Folha de SP

1. Temas JUDAICOS são sempre sucesso de bilheteria. Quatro dias atrás estive na TV portuguesa para falar de circuncisão. Não sou especialista no procedimento e, da última vez que confirmei, o meu prepúcio estava intacto.
Mas nada disso impediu as dezenas de insultos que recebi por e-mail. Curioso: na Europa do século 21, "judeu" (melhor: "judeuzinho") continua a ser forma de agressão. Mesmo que você não seja.
Como Tayllerand disse dos Bourbon, a Europa não aprendeu nada e não esqueceu nada. Nem a Europa, nem a Alemanha: o meu comentário televisivo analisava a decisão recente de um tribunal alemão que condenou a circuncisão.
Atenção à diferença: o tribunal de Colônia não condenou, como deveria, um caso de negligência médica que provocou hemorragias graves numa criança judia de 4 anos.
O tribunal foi mais longe e condenou a prática "in toto": a circuncisão é um atentado contra a integridade das crianças em nome das concepções religiosas dos seus pais.
Não vou reproduzir nesta Folha, um jornal de família, o conteúdo de algumas mensagens que recebi. Mas as mais moderadas batiam no mesmo ponto: se eu já condenei publicamente a mutilação genital feminina nos países muçulmanos, como posso tolerar a circuncisão?
A ignorância não é apenas atrevida. É também ridícula. Comparar a circuncisão à mutilação genital feminina é, resumindo, não entender nada sobre uma e outra.
A circuncisão, realizada por mãos habilitadas, é um procedimento seguro, rotineiro e, segundo vários estudos científicos, pode mesmo ser vantajoso na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.
A mutilação genital feminina é apenas isto: uma mutilação movida pelo ódio masculino ao prazer sexual da mulher. No espírito e no método, a circuncisão e a mutilação não habitam o mesmo planeta.
E agora? Agora, calma: a decisão de um tribunal não cria legislação sobre o assunto. Mas as comunidades judaicas (e também muçulmanas) do país temem que a decisão seja um perigoso precedente, transformando a liberdade religiosa numa caricatura.
Porque este é o ponto -para judeus, muçulmanos, mas também cristãos, agnósticos ou ateus: devem as famílias ter liberdade para educarem os seus filhos como entenderem? Ou é função do Estado impor à sociedade os preconceitos de um político ou de um juiz?
Como leitor de John Locke (1632 - 1704), eu julgava que a questão já estava resolvida havia quatro séculos: depois de guerras religiosas intratáveis, a Europa aprendeu que a tolerância era a única forma de evitar a carnificina. A Alemanha, como sempre, parece disposta a rever esses ensinamentos.
2. E por falar em mutilações: o leitor sabe o que aconteceu no Mali? Eu conto: fanáticos islamitas tomaram de assalto a cidade de Timbuktu. E destruíram, com impressionante ferocidade, dezenas de mausoléus e centenas de estátuas ligados à tradição sufista.
A mídia ocidental está horrorizada com a falta de etiqueta do pessoal da Al Qaeda e lembra que Timbuktu é um patrimônio cultural da humanidade.
Não é, não: para a Al Qaeda, falamos de idolatria. E a idolatria só tem uma resposta: a bomba.
Aliás, o caso do Mali não é único. Dentro do fanatismo islâmico, o mundo ainda recorda a destruição dos budas milenares de Bamyian, no Afeganistão, pelo Taleban.
Mas não é preciso viajar para tão longe de forma a contemplar o fanatismo em ação. No Ocidente, também temos os nossos fanáticos: gente alegadamente "culta" e "civilizada" que gosta de apagar ou destruir tudo aquilo que considera ofensivo para a religião do nosso tempo: a religião politicamente correta.
Todos os dias, alguém sugere a proibição de um autor (o americano Mark Twain, racista); a proibição pura e simples de uma obra ("A Divina Comédia", homofóbica); e a criminalização de termos alegadamente ofensivos para minorias ou populações indígenas.
Claro que, para sermos justos, os nossos fanáticos politicamente corretos não viajam de camelo nem usam trapos medievais da cabeça aos pés.
Mas se fosse possível um mapa mental das suas cabeças, aposto que não haveria grandes diferenças em relação aos selvagens do Mali.

Paternalismo libertário

Meu artigo de hoje para o OrdemLivre sobre este "ornintorrinco" ideológico.

segunda-feira, julho 16, 2012

Chávez's War on the Media


By MARY ANASTASIA O'GRADY, WSJ


Suppose the country you live in is holding a presidential election and the incumbent is running for another term. Suppose further that the economy is in bad shape. The ranks of the unemployed and poor have swelled, the government is spendthrift, and the central bank is no longer independent.

The president takes no responsibility. He blames everything on the rich. He says they are exploiting the working classes and don't pay their fair share in taxes. Fomenting class envy and resentment is his stock in trade. Now suppose there are is no independent media.

Welcome to Venezuela. Think the country can hold a fair presidential election?

South America's oil dictatorship kicked off the campaign season on July 1. Hugo Chávez, who has been the commander in chief of the military government since 1999, hopes to keep his job when Venezuelans go to the polls on Oct. 7. Henrique Capriles Radonski, the former governor of the state of Miranda, is out to unseat him.

Outside observers, including the international media, are treating the race like a real battle of ideas. But how can that be when there is no free speech?

Let's put aside for a moment all the obvious problems. Forget about the lack of an independent electoral body to ensure fairness in voter registration, at polling stations, and when tallying ballots. Forget about how Mr. Chávez makes up rules as he goes along and then gets the judiciary that he controls to bless them. Forget too that the state-owned oil monopoly (known by the Spanish-language initials PdVSA) is his campaign war chest, and the central bank prints money on demand. For now, consider only the military dictatorship's capacity to control the message.

Mr. Chávez and his cronies in the Venezuelan elite know better than anyone that he is running a Ponzi scheme. The key to maintaining some support is keeping his impoverished constituents from seeing the light, and that means controlling the narrative. Or as President Obama might say, the ability to "tell a story."

Venezuelans don't read much but they do watch a lot of television, so independent broadcasting had to go. It wasn't hard to get rid of it. Television stations require government licensing. In the Chávez economy, many television ventures also depend on government advertising to remain viable. So it was made clear to the uncooperative that their permits would not be renewed or that their bread and butter would be cut off.

At one time there were three independent, national broadcast-television stations and many regional broadcasters willing to criticize the government. Today, all largely have been silenced or expelled from the market. Meanwhile, there are now at least four state-owned national broadcasters dedicated to polishing the image of Mr. Chávez and his Bolivarian revolution.

One dissident broadcaster—Globovision—remains. But it reaches only the cities of Valencia and Caracas, and its permit expires in 2015. In 2010, its owner, Guillermo Zuloago (who also owned two car dealerships), had to go into hiding when Mr. Chávez put out an order for his arrest on charges of hoarding Toyotas. (Chávez price and capital controls have produced shortages of many things, so a car dealer holding inventory for delivery to customers can easily be accused of unlawful hoarding.) Mr. Zuloago now resides in the United States.

The government also imprisoned for a time Globovision's second-largest shareholder and later stripped him of his property. Recently the company paid a fine of nine million bolivars ($2 million using the official exchange rate) for broadcasting news of a prison riot.

Scores of independent radio stations also have closed under chavismo. Only a few willing to run some criticism of the president have survived. It matters too that PdVSA is also the largest contractor to the private sector, which means the business community has had to knuckle under to survive.

There are still brave reporters and opinion writers who dare to challenge the status quo, despite the shrinking number of television and radio outlets. But they run great risks.

According to Alberto Jordán, a journalism professor at the Central University of Venezuela who once supported Mr. Chávez, many have paid dearly for doing their work. Mr. Jordán, a columnist for the Venezuelan daily El Universal, wrote recently that underchavismo there have been 300 government-orchestrated court cases against journalists.

In multiple cases—from reporting on drinking water contamination, the shortages of goods or anything that might cause "anxiety" among the population—reporters have been put on notice that they could be subject to criminal prosecution. There is nothing like the threat of doing time in a Venezuelan cell to focus a journalist's mind on state-approved reporting.

It is also worth noting that while independent journalists are silenced, Mr. Chávez uses executive decrees to take over the airwaves whenever he wants to give speeches. These famous discourses run for hours.

So can challenger Capriles win the election? Perhaps. But if you've ever witnessed a demagogue running for re-election, you can appreciate how difficult it will be without an independent media.

O infiel

Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

Confesso: sou um infiel. Não no sentido de infidelidade amorosa, mas religiosa. Não creio no aquecimento global por causas antropogênicas (trocando em miúdos, não acho que nossos carros estejam aquecendo o planeta, e se o Sol fosse um Deus como uns pirados achavam que ele era, estaria rindo de nós e nossos ridículos celulares).

Freud estava certíssimo quando dizia que a maturidade é para poucos e viver uma infância retardada é um modo "seguro" de não enfrentar a vida adulta, que é sofrida, incerta, injusta e inviável.

Isso mesmo, repito para que meu pecado conste nos autos: não creio que o aquecimento global seja causado por emissão de gás carbônico, acho (inclusive tem cientista que afirma isso, os ecocéticos) que o recente aquecimento começou antes dos últimos cem anos, nos quais nosso gás carbônico cresceu, e ciclos de esquentamento e esfriamento sempre ocorreram.

Inclusive aquele aquecimento que se deu entre 50 mil e 20 mil anos atrás (muito conhecido por quem estuda religiões pré-históricas como eu), foi bem benéfico para nossos ancestrais, assim como também o foi o da Idade Média.

Não há consenso acerca das causas antropogênicas do aquecimento global, há sim consenso (todo mundo que estuda religião sabe disso) ao redor do fato que apocalipse sempre deu dinheiro. Gastava-se dinheiro com indulgências na Baixa Idade Média, por que não seria o medo do fim do mundo ainda hoje uma mina de dinheiro?

O mercado do apocalipse verde tem seus sábios-profetas-cientistas, mágicos, gurus espirituais, nutricionistas-sacerdotes de alimentação sagrada, mercado de cristais sustentáveis, enfim, tudo que há nos fanatismos humanos.

Ninguém saiu às ruas (muito menos nus) pela mecânica newtoniana, pela relatividade de Einstein, pelo empirismo de Bacon ou pelo evolucionismo darwiniano. Aliás, que mania mais "teenager" essa de tirar a roupa toda hora. Já estão barateando os seios.

As pessoas saem às ruas porque o verdismo é uma espiritualidade fanática como qualquer outra, regada a comunismo requentado: o verdismo é uma melancia, verde por fora, vermelho por dentro. A certeza daqueles que não comem carne acerca do pecado dos que comem é mais forte do que a condenação do orgasmo feminino pelas autoridades eclesiásticas mais idiotas que caminharam pela Europa nas Idades Média e Moderna.

Acho que a ciência do aquecimento global que afirma categoricamente que somos nós que aquecemos o planeta está mais para astrologia (sem querer ofender a astrologia) do que para astrofísica. Estamos perdendo um tempo danado deixando que as tribos dos sem-roupa fique atrapalhando um cuidado mais técnico acerca do futuro do planeta.

Isso não quer dizer que não exista um problema de sustentabilidade no mundo, apenas que os fanáticos verdes nem sempre ajudam a enfrentá-lo.

A "verdade científica" em jogo é o que menos importa, mesmo porque nenhuma controvérsia científica ao redor do tema pode ser vista como algo diferente de heresia. Discordar não é ser visto como alguém que debate teorias científicas, como deve ser o convívio saudável em qualquer ciência, mas sim como recusa de adesão a uma forma de verdade superior e pura.

As bobagens do tipo "teoria gaia" ofuscam os corações e mentes, como todo fanatismo sempre o fez, e impede muitas vezes de ver que a natureza em sua beleza é muitas vezes mais Medeia do que Gaia.

Em 1755, quando o grande terremoto destruiu Lisboa, a comunidade intelectual europeia se esforçou para eliminar das causas a "vontade de Deus". Hoje, supostos cientistas reintroduzem a forma mais vagabunda de metafísica na ciência, a da "deusa natureza".

Os coitados do Kant e do Newton nunca imaginaram que um dia iríamos retroceder às trevas assim. Andamos sim em círculos.

A pergunta que não quer calar é: se está certo quem diz que quando se quer saber a verdade sobre a sociedade deve-se seguir o dinheiro, cabe a nós identificarmos quem está ganhando rios de dinheiro com esse fanatismo que já se constituiu em mais um fator a dificultar sairmos do buraco econômico em que estamos.

domingo, julho 15, 2012

A batalha do século

A mão pesada do estado x a mão invisível do mercado


Democratas de ocasião


Ferreira Gullar, Folha de SP

Deixei a poeira assentar para dar meu palpite sobre a polêmica surgida com o impeachment do presidente Fernando Lugo, do Paraguai. Ao saber da notícia, logo previ a reação que teriam os presidentes de alguns países sul-americanos, inclusive o Brasil.
E não deu outra. Hugo Chávez e Cristina Kirchner, como era de se esperar, reagiram de pronto e com a irreflexão que os caracteriza. Logo em seguida, manifestou-se Rafael Correa, do Equador, que, com a arrogância de sempre, rompeu relações com o novo governo paraguaio. Chávez decidiu cortar o fornecimento de petróleo àquele país. E o Brasil? Fiquei na expectativa.
Como observou certa vez García Márquez, o Brasil é um país sensato e, acrescento eu, talvez por nossa ascendência portuguesa, pé no chão. E assim foi que Dilma primeiro mandou seu ministro das Relações Exteriores qualificar o impeachment de "rito sumário". Ou seja, não teria sido dado a Lugo tempo para se defender.
Sucede que o próprio Lugo, presente à sessão do Congresso quando se votou seu impedimento, declarou: "Aceito a decisão do Congresso e estou disposto a responder por meus atos como presidente".
Não disse que o Congresso agira fora da lei nem que tinha sido impedido de se defender. De acordo com as normas constitucionais paraguaias, recorreu à Suprema Corte e ao Tribunal Superior de Justiça, que não atenderam a seus recursos por considerarem constitucional a deposição e legítima a entrega do governo ao vice-presidente.
Só depois que os vizinhos tomaram a inusitada atitude de repelir a decisão do Congresso paraguaio foi que Lugo mudou de opinião e decidiu formar um governo paralelo, este, sim, destituído de qualquer base legal.
Fala-se em golpe, mas só um presidente já politicamente inviável é impedido com o apoio praticamente unânime do Congresso: 76 votos a 1 na Câmara de Deputados e 39 a 5 no Senado. Fora isso, nem os militares nem o povo paraguaios se opuseram. Pelo contrário, o impeachment de Lugo parece fruto de uma concordância nacional. Nessa decisão pesou, sem dúvida, o Partido Liberal, de centro-direita. Mas foi com o apoio deste que ele se elegera presidente da República.
O que houve então? Um complô de que participaram todos os partidos e quase a totalidade dos deputados e senadores? Se fosse isso, o povo paraguaio teria saído às ruas para protestar e denunciá-los. Só uns poucos o fizeram. As Forças Armadas, os intelectuais, os sindicatos protestaram? Ninguém.
O inconformismo com o impeachment de Lugo veio de fora do país: de Hugo Chávez, Cristina Kirchner, Evo Morales, Dilma Rousseff, que se apresentam como defensores da democracia. Serão mesmo?
Vejamos. Hugo Chávez suspendeu o funcionamento de 60 emissoras de rádio e televisão que se opunham a seu governo, criou uma espécie de juventude nazista para atacar seus opositores e fez o Congresso mudar a Constituição para permitir que ele se reeleja indefinidamente. Cristina Kirchner apropriou-se da única empresa que fornece papel à imprensa argentina, de modo que, agora, jornal que a criticar pode parar de circular.
Já Rafael Correa processa um jornal de oposição por dia, exigindo indenizações bilionárias. Democratas como esses há poucos. Dilma mandou seu chanceler a Assunção para pressionar o Congresso paraguaio e evitar o impedimento de Lugo, como o faziam antigamente os norte-americanos conosco.
Como se vê, há um tipo de democrata que só defende a democracia quando lhe convém. Mas, mesmo que Chávez, Cristina, Morales, Correa e Dilma fossem exemplos de líderes democráticos, teriam ainda assim o direito de se sobrepor às instituições paraguaias e à opinião pública daquele país?
Como o impeachment de Lugo consumou-se de acordo com a Constituição paraguaia e pela quase unanimidade dos parlamentares, o único argumento do nosso chanceler foi o de ter sido feito em "rito sumário". No entanto, que chance deram eles ao Paraguai para se defender das sanções que lhe foram impostas? Nenhuma. Essas sanções, além de sumárias, são também ofensivas às instituições do Estado paraguaio e a seu povo.

sexta-feira, julho 13, 2012

Em defesa de Olavo de Carvalho e contra a ditadura gaysista

O artigo foi retirado do site pois o Mídia Sem Máscara postou o seguinte aviso:

"O deputado Jean Wyllys nega ter sido o autor dos e-mails ameaçadores enviados a Olavo de Carvalho. Uma rápida averiguação parece confirmar o que ele diz. Pelo menos os e-mails não foram enviados pelo sistema de e-mail da Câmara. Vieram pelo Emkei's Fake Mailer, um site que oferece serviço de envio de e-mails com remetentes falsos. http://emkei.cz/. O que vamos fazer agora é por em ação a Polícia Federal para rastrear a identidade do remetente e tomar contra ele as providências cabíveis."

Lamento que tal "rápida averiguação", ainda mais sendo rápida, não tenha sido feita antes. Ao deputado Jean Wyllys, de quem discordo de praticamente todas as posições políticas, fica meu pedido de desculpas por ter ajudado a divulgar sua suposta afirmação sobre o direito de crianças fazerem o que quiserem com seus corpos.

Quem precisa de crescimento?


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Confesso que acordei um tanto sombrio hoje. Deve ser o clima, com essas nuvens carregadas. Ou talvez seja a sexta-feira 13. Sei lá. O que sei é que minha paciência, normalmente elevada, chegou ao limite e explodiu. Portanto, data venia, mas não posso ficar calado diante das novas afirmações de nossa ilustre “presidenta”.

Dilma disse: "Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para as suas crianças e adolescentes, não é o PIB". Não é lindo isso? Não obstante o mistério de o que exatamente este governo tem feito de bom para nossas crianças e adolescentes, resta descobrir como será o futuro deles se a economia ficar estagnada.

Mas eis o que realmente revira meu estômago: não era este o governo que ainda há pouco se vangloriava porque nosso PIB ultrapassara o do Reino Unido? O governo dança conforme a música. A presidente cada vez mais se parece com seu antecessor, o Zelig, o camaleão humano que sabe se adaptar para qualquer público e ocasião. Haja cara-de-pau!

O Secretário de Política Econômica do Ministério das Finanças, Márcio Holland, pede paciência. Como eu disse no começo, a minha se esgotou. Para o economista, existe crescimento acima de 7%, mas sem democracia, sem estabilidade e com má distribuição de renda. Ora, ora, temos vários casos com crescimento bem maior que o nosso, com democracia e maior estabilidade, como o Chile ou países asiáticos.

Além disso, resta descobrir onde estão a grande estabilidade e a boa distribuição de renda no Brasil. À democracia eu concedo o benefício da dúvida, mas quando se trata do PT é sempre bom estar alerta. Ela tem resistido, a duras penas, a despeito do PT, e não por causa dele.

Acordei sombrio, dizia eu. Pensei na excelente coleção dos “reis malditos”, de Maurice Druon, uma vez que a superstição com a sexta-feira 13 pode ter ligação com o extermínio dos Cavaleiros Templários a mando de Felipe O Belo, no começo do século 14.

No livro, o autor coloca no Grão-Mestre dos Templários, Jacques DeMolay, as últimas palavras que amaldiçoaram seus algozes: “Eu convoco vocês ao Tribunal dos Céus antes do término deste ano!” Não chego a tanto. Mas convoco este governo ao tribunal dos dados econômicos objetivos até o final do ano!    

quinta-feira, julho 12, 2012

Os outros que ajudam (ou não)

Contardo Calligaris, Folha de SP

Muitos anos atrás, conheci um alcoólatra, que, aos 40 anos, quis parar de beber. O que o levou a decidir foi um acidente no qual ele, bêbado, quase provocara a morte da companheira que ele amava, por quem se sentia amado e que esperava um filho dele.

O homem frequentou os Alcoólatras Anônimos. Deu certo, mas, depois de um tempo, houve uma recaída brutal. Desanimado, mas não menos decidido, com o consenso de seu grupo dos AA, o homem se internou numa clínica especializada, onde ficou quase um ano --renunciando a conviver com o filho bebê.

Ele voltou para casa (e para as reuniões dos AA), convencido de que nunca deixaria de ser um alcoólatra --apenas poderia se tornar, um dia, um "alcoólatra abstêmio".

Mesmo assim, um dia, depois de dois anos, ele se declarou relativamente fora de perigo. Naquele dia, o homem colocou o filhinho na cama e, enfim, sentou-se na mesa para festejar e jantar.

E eis que a mulher dele chegou da cozinha erguendo, triunfalmente, uma garrafa de "premier cru" de Château Lafite: agora que ele estava bem, certamente ele poderia apreciar um grande vinho, para brindar, não é?

O homem saiu na noite batendo a porta. A mulher que ele amava era uma idiota? Ou ela era (e sempre tinha sido) companheira, não da vida do marido, mas de sua autodestruição? Seja como for, a mulher dessa história não é um caso isolado.

Quem foi fumante e conseguiu parar, quase certamente encontrou um dia um amigo que lhe propôs um cigarro "sem drama": agora que você parou, vai poder fumar de vez em quando -só um não pode fazer mal.

Também há parentes e próximos que patrocinam qualquer exceção ao regime que você tenta manter estoicamente: se for só hoje, uma massa não vai fazer diferença, nem uma carne vermelha. Seja qual for a razão de seu regime e a autoridade de quem o prescreveu, para parentes e próximos, parece que há um prazer em você transgredir.

Em suma, há hábitos que encurtam a vida, comprometem as chances de se relacionar amorosa e sexualmente e, mais geralmente, levam o indivíduo a lidar com um desprezo do qual ele não sabe mais se vem dos outros ou dele mesmo.

Se você precisar se desfazer de um desses hábitos, procure encorajamento em qualquer programa que o leve a encontrar outros que vivem o mesmo drama e querem os mesmos resultados que você. É desses outros que você pode esperar respeito pelo seu esforço --e até elogio (quando merecido).

Hoje, encontrar esses outros é fácil. Há comunidades on-line de pessoas que querem se livrar de seu sedentarismo, de sua obesidade, do fumo, do alcoolismo, da toxicomania etc. Os membros de uma comunidade registram e transmitem, todos os dias, seus fracassos e seus sucessos. No caso do peso, por exemplo, há uma comunidade cujos membros instalam em casa uma balança conectada à internet: o indivíduo se pesa, e a comunidade sabe imediatamente se ele progrediu ou não.

Parêntese. A balança on-line não funciona pela vergonha que provoca em quem engorda, mas pelos elogios conquistados por quem emagrece. Podemos modificar nossos hábitos por sentirmos que nossos esforços estão sendo reconhecidos e encorajados, mas as punições não têm a mesma eficácia. Ou seja, Skinner e o comportamentalismo têm razão: uma chave da mudança de comportamento, quando ela se revela possível, está no reforço que vem dos outros ("Valeu! Força!").

Já as ideias de Pavlov são menos úteis: os reflexos condicionados existem, mas, em geral, se você estapeia alguém a cada vez que ele come, fuma ou bebe demais, ele não parará de comer, fumar ou beber --apenas passará a comer, fumar e beber com medo.

Volto ao que me importa: por que, na hora de tentar mudar um hábito, é aconselhável procurar um grupo de companheiros de infortúnio desconhecidos? Por que os próximos da gente, na hora em que um reforço positivo seria bem-vindo, preferem nos encorajar a trair nossas próprias intenções?

Há duas hipóteses. Uma é que eles tenham (ou tenham tido) propósitos parecidos com os nossos, mas fracassados; produzindo nosso malogro, eles encontrariam uma reconfortante explicação pelo seu.

Outra, aparentemente mais nobre, diz que é porque eles nos amam e, portanto, querem ser nossa exceção, ou seja, querem ser aqueles que nós amamos mais do que nossa própria decisão de mudar. Como disse Voltaire, "Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu".

terça-feira, julho 10, 2012

O fator ideológico

Rodrigo Constantino, O GLOBO

O ano era 2002. Lula tinha sido eleito e escolhera Dilma para o Ministério de Minas e Energia. Os futuros ministros faziam reuniões com investidores para acalmar os tensos mercados. Eu trabalhava em uma grande gestora carioca. Estive em uma dessas reuniões com Dilma. Foi meu único encontro com a atual presidente.

Um dos presentes perguntou como o governo faria para atrair os necessários investimentos ao setor, uma vez que o discurso corrente era de que a rentabilidade não deveria ser elevada. Com dedo em riste e tom autoritário, Dilma disparou: “Quem foi que disse que é preciso ter alto retorno nesse setor?”

Eis o que eu queria dizer: desde então tenho como certo o fator ideológico entranhado em Dilma. Muitos falam em gestora eficiente, pragmática, mas eu só consigo enxergar ideologia.

Até mesmo o Itamaraty foi infectado pelo vírus ideológico, como ficou claro no caso do Paraguai. O Barão do Rio Branco, ao assumir o ministério das Relações Exteriores, declarou: "Não venho servir a um partido político: venho servir ao Brasil, que todos desejam ver unido íntegro, forte e respeitado". Ele não teria vez no governo Dilma, que se mostra apenas um capacho de Hugo Chávez.

O prêmio Nobel de Economia Friedrich Hayek chamava a atenção para a “arrogância fatal” de certas ideologias. Ela seria basicamente a crença de que é possível controlar tudo nos mínimos detalhes, de cima para baixo. Planejadores centrais que desprezam os sinais do mercado e pensam ser possível ignorá-lo para sempre: são os arrogantes. O fatal fica por conta dos estragos que costumam causar na economia.

Pois bem. A economia brasileira seguiu nos últimos anos um modelo claramente insustentável, calcado em crédito e consumo. O governo ignorou a necessidade de reformas estruturais que aumentassem a nossa produtividade. A farra foi boa enquanto durou, financiada pela acelerada expansão do crédito, possível pela alta no preço das commodities que exportamos para a China.

Esta fase de bonança se esgotou. O PIB cresceu apenas 2,7% em 2011, e esse ano mal deve chegar a 2%, muito longe dos 4,5% que o ministro Mantega projetava. Para piorar, a inflação ainda segue acima do centro da elevada meta. Qual tem sido a reação do governo?

Ideológica, claro. Imbuído da falsa crença de que pode simplesmente estimular mais ainda o consumo e o crédito, o governo tem apelado para pacotes quase semanais. Os resultados são pífios ou negativos? Não tem problema. Basta aumentar a dose!

A ideia de que o consumo do governo pode estimular de forma sustentável o crescimento econômico não passa de uma falácia, que já foi refutada no século 19 por Bastiat. O economista francês citou o exemplo de uma janela quebrada para fazer seu ponto.

Algum vândalo joga uma pedra que estilhaça a janela de uma loja. Algumas pessoas tentam consolar o dono da loja alegando que ao menos ele estará gerando emprego ao consertar a janela. Afinal, se janelas nunca fossem quebradas, de que iriam viver os reparadores de janelas?

Esta linha de raciocínio míope ignora aquilo que não se vê de imediato. Sim, o conserto da janela iria propiciar um ganho para o vidraceiro. Mas o que seria feito desse dinheiro gasto caso a janela não tivesse sido quebrada? Qual o uso alternativo para este recurso escasso? Eis a questão!

O mesmo ocorre com o gasto público. O governo não produz riqueza. Para ele gastar, antes ele precisa tirar de alguém que produziu. Ele pode fazer isso por meio de impostos, emissão de dívida ou de moeda (imposto inflacionário).

De qualquer forma ele estará transferindo recursos de um lado para o outro, normalmente cobrando um grande pedágio por isso. Mas ele não estará criando riqueza. Logo, os gastos públicos não estimulam a economia: eles apenas retiram recursos do setor privado, que costuma alocá-los de forma bem mais eficiente.

Outro efeito perverso desta política é a seleção dos campeões, que deixa de ser feita pelo mercado (mérito) e passa a depender das escolhas do governo. No dia do anúncio do último pacote, o índice de ações da Bovespa caiu mais de 1%, mas as ações da Marcopolo subiram mais de 6%. O governo divulgou uma grande compra de caminhões para “estimular” o crescimento econômico. Alguém pagou por isso.

Esta ideologia centralizadora está fadada ao fracasso. Ela produz ineficiência e lobby por privilégios, mas não consegue aumentar a produtividade da economia. Infelizmente, a presidente acredita neste modelo, e vai insistir nele até quebrar a (nossa) cara. Não podemos desprezar o fator ideológico deste governo.