quarta-feira, janeiro 16, 2008

Crenças Místicas


Rodrigo Constantino

"Uma teoria está sujeita ao tribunal da razão somente." (Mises)

O povo brasileiro é um povo bastante inclinado a aceitar passivamente crenças totalmente místicas, das mais absurdas possíveis. Concebo que esta é uma característica universal, mas o caso brasileiro chama a atenção pelo seu grau de crendice. Possivelmente, entre os principais fatores que explicam isso estão a miséria e a ignorância, ainda que não os únicos. Quanto menos instruído for o povo, e quanto maiores forem suas demandas básicas não atendidas, mais fértil é o terreno para a propagação do vírus do misticismo. O obscurantismo em que a Idade Média estava em boa parte mergulhada é evidência disso. As crenças irracionais se alastram na escuridão, alimentando-se do desespero de suas vítimas. As duas paixões humanas que mais contribuem para este caminho são o medo e a esperança. A manipulação desses sentimentos por oportunistas de plantão sempre foi um prato cheio para regimes autoritários e de exploração. O medo da morte e da punição eterna sempre fez muitas vítimas e prisioneiros. A esperança de ser salvo e viver para sempre no paraíso idem. Em certo sentido, podemos afirmar que o Iluminismo ainda não nos deu o ar de sua graça.

Os exemplos que podem ser citados são quase infinitos. Basta andar pelas ruas para verificar a quantidade de gente que ainda crê em macumba, para começo de conversa. A astrologia, em sua forma mais embusteira, ainda faz muitos adeptos por aqui. Não são poucos, mesmo entre as classes mais abastadas, que tomam os patéticos horóscopos como guias de suas vidas. Em um estágio um pouco superior estão vários que encaram o mapa astral como uma ciência séria. Milhares de pessoas visitam as cartomantes ou jogam búzios para "prever" o futuro. Muitos conseguem levar a sério a "materialização" de espíritos divulgada por Chico Xavier. Todo ano milhões sujam os mares na virada do ano com oferendas para Iemanjá. As igrejas mais impostoras de todas, num ambiente bem concorrido, conquistam novas vítimas para seus rebanhos a cada dia, não obstante as constantes provas de safadeza dos seus líderes. A homeopatia, com seu processo de "dinamização", é encarada como medicina verdadeira, ainda que as substâncias sejam completamente diluídas no "remédio". Vários adotam os cristais para "energizar" suas vidas. As crenças importadas do oriente viram moda, provavelmente pelo charme do desconhecido e esotérico. Quanto maior o ocultismo, mais cool é pertencer à seita. A ignorância é enaltecida, e os questionamentos são coisa de "chatos". O lance é não entender direito mesmo. Não é preciso pensar, apenas "sentir". O povo brasileiro coloca realmente as emoções acima da razão como instrumento cognitivo. Não poderia ter outro resultado.

A arte de questionar, exigindo argumentos embasados, respeitando a lógica e a razão, demandando evidências empíricas e científicas, não é muito comum por aqui. O ceticismo não faz exatamente parte de nossa cultura. Se a estátua de uma santa, por exemplo, aparece com "sangue" nos olhos, como se lágrimas fossem, logo uma legião de crentes jura se tratar de um milagre. É um desejo incrível de crer, solapando a capacidade de questionar. E se for um caso simples de charlatanice, fácil de fazer? Não vem ao caso. Alguns casos isolados de cura após a ingestão de uma pílula "santa" são divulgados, e logo há uma fila enorme para ser agraciada pelo milagre. Por que entender o efeito placebo? Imagens aparecem nas janelas de vidro, e logo a massa dos desesperados brada sobre um novo milagre. Para quê perguntar que tipo de fenômeno químico pode causar estas manchas? Por que lembrar que a mente humana adora buscar padrões no caos, como a brincadeira comum de enxergar figuras nas nuvens?

Nada disso. O acaso, como os seguidores espíritas de Alan Kardec adoram repetir, não existe. Tudo tem que ter um motivo, uma ligação causal. O determinismo conquista muitos seguidores, pois retira a responsabilidade. O livre-arbítrio assusta, e por isso mesmo afasta muitos da busca pela liberdade. É mais fácil buscar consolo ou conforto em uma explicação exógena qualquer. Se algo vai mal, é o destino. Se eu sou de um jeito que não me agrada, não posso fazer nada para mudar. Assim Deus quis, ou é meu "karma". Se um relacionamento deu errado, é porque tinha que dar. Se eu joguei fora as muletas, mas não voltei a andar direito, é porque faltou fé apenas. Se um filho fica muito doente, é porque este é o desígnio de Deus. Se morrer um ente querido, é porque estava em sua hora. E por aí vai. A lista de fugas não acaba nunca. Encarar a realidade é tarefa árdua, e a maioria opta pela saída mais fácil, ainda que falsa.

Muitas pessoas acham que não devemos debater religião. Eu não concordo, e nunca aceitei direito esta blindagem do tema. Há uma capa de proteção que torna as religiões, por mais irracionais que sejam, inatacáveis. Quem condena o misticismo tolo é tachado de insensível. Eu não me importaria tanto com as fugas alheias, se elas não tivessem conseqüências muitas vezes nefastas para minha própria vida. Mas a verdade é que as crenças dos vizinhos exercem influência no meu cotidiano, até porque eles votam, ou porque desejam impor seus dogmas aos "hereges". Não se satisfazem em crer isoladamente nas sandices, mas precisam de novos colegas, pois tentam compensar a falta de qualidade com a quantidade. Quando se trata de uma fuga boba em busca de consolo, quando como milhões rezam para santos pedindo auxílio, não vejo problemas maiores. Posso lamentar pela fraqueza em si, que tantas vezes escraviza o indivíduo. Mas não seria nada tão grave assim. O problema é que esse ambiente de misticismo exacerbado transborda para o restante, inclusive para a política. A crença num messias salvador, no Deus Estado, nas promessas estúpidas dos candidatos, tudo isso concentra poder e reduz, portanto, a liberdade individual. Uma coisa está atrelada a outra.

Falta justamente um modus operandi correto, de questionar mais, de procurar entender as coisas sob a lente da razão e aceitar suas limitações, sem a necessidade do misticismo como substituto para a nossa ignorância. Tudo isso acaba tendo como causa o mesmo fenômeno, qual seja, o desprezo pela razão e a tendência a adorar e idolatrar soluções mágicas e confortantes. Se a escolha será entre a Igreja Universal ou o socialismo, não importa muito. Pode ser inclusive uma mistura de cristianismo com socialismo, como na "Teologia da Libertação". Trata-se do mesmo tipo de fuga, de uma crença mística obtida através das emoções. O profeta disse, só pode ser verdade. Não vem ao caso questionar, bastando o apelo à autoridade. O importante é ter fé. Os crentes "sabem" A Verdade, pois ela foi "revelada". Está no livro "sagrado", a Bíblia ou o Manifesto Comunista. O rebanho é intolerante com os "dissidentes", pois como a crença é dogmática, e não proveniente de reflexão profunda, faz-se necessário calar os que apontam as incoerências e contradições. O caso entre religiões e questionamentos nunca foi de muito amor. Muitas vezes acabou em fogueira.

Não é por acaso que o fanatismo religioso – e aqui incluo o comunismo ateu, uma ideologia com todas as características de seita dogmática – derramou rios de sangue durante a história da humanidade. O antídoto para essas crenças místicas, algumas mais perigosas e outras mais inofensivas, é aquilo que todas elas, no fundo, combateram: a razão. "Si tibi vis omnia subjicere, te subjice rationi" (se queres submeter tudo a ti mesmo, submete-te primeiro à razão). Sêneca acertou na mosca ao dizer isso. E aquele que abdica desse instrumento, está aceitando a escravidão, pois delega a algo de fora o controle sobre sua vida, sem questionamento. É a cegueira voluntária. Por isso que o mesmo Sêneca afirmou ainda: "A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil". Está na hora do povo brasileiro começar a questionar mais suas crenças. Passou da hora de absorver as principais lições iluministas. E por falar nisso, finalizo com o alerta de um dos grandes filhos do Iluminismo, um dos "pais fundadores" dos Estados Unidos, Benjamin Franklin: "O jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão".

domingo, janeiro 13, 2008

Flying Spaghetti Monster


Rodrigo Constantino

"I don't have a problem with religion. What I have a problem with is religion posing as science.” (Bobby Henderson)

Em 2005, uma nova religião foi fundada pelo físico Bobby Henderson, da Oregon State University. Trata-se de um protesto contra a inclusão nos ensinos, pelo Kansas State Board of Education, da “teoria” do disign inteligente como uma alternativa à teoria da evolução. Em uma carta aberta, Henderson professa sua crença num criador sobrenatural chamado Flying Spaghetti Monster, e a sua teoria de criação passa a se chamar “Pastafarianismo”. O físico alegou que tanto sua teoria quanto a do disign inteligente tinham a mesma validade científica. Um site chegou a oferecer um milhão de dólares para quem conseguisse provar empiricamente que Jesus não é o filho do Flying Spaghetti Monster. O desafio segue a linha daquele feito pelo criacionista Kent Hoving, que ofereceu um prêmio de US$ 250.000 para quem provasse que a evolução é a única forma possível pela qual a vida no universo surgiu.

Como sabemos bem desde Karl Popper, uma teoria que não pode ser testada dificilmente é uma boa teoria. No entanto, os crentes adoram apelar para essa fuga, revertendo o ônus da prova e mandando os não-crentes provarem a não existência de algo criado pela mente deles. É simplesmente impossível. Na mesma linha do Flying Spaghetti Monster, temos o dragão invisível de Carl Sagan, ou o bule que gira em órbita ao redor do Sol, de Bertrand Russell. Cada um pode inventar o que quiser. Tanto faz, já que nunca ninguém será capaz de comprovar a inexistência de algo que não existe. Basta alegar que nada existente nesse mundo, nenhum instrumento científico descoberto pelo homem, pode ainda detectar a existência do ser em questão. Ele nos é incognoscível. É preciso “sentir” sua existência! A razão deve ser colocada de lado, as evidências não importam, trata-se de uma questão de fé. E quanto mais absurda parece a fé, como a crença de que alguém possa nascer mesmo de uma mulher virgem, mais virtuosa ela é, pois mais irracional. É a fé pela própria fé, como um fim último. Tal como Tertuliano, que teria dito crer porque era absurdo.

Em O Capelão do Diabo, Richard Dawkins argumenta contra a pretensiosa idéia de que religião e ciência estejam convergindo. Em primeiro lugar, ele descarta o conceito bem mais vago de religião, perguntando: “Se conferirmos à ‘religião’ uma definição tão frouxa, como iremos nomear a verdadeira religão, a religião tal como as pessoas normais no banco da igreja ou no tapete das orações a entendem hoje?” E continua: “Se a palavra ‘Deus’ pode ser empregada como um sinônimo dos mais profundos princípios da física, como iremos nomear o ser hipotético que responde às preces, que intervém para salvar os pacientes que têm câncer ou para auxiliar a evolução em seus saltos mais difíceis; que perdoa os pecados ou morre por eles?” Em resumo, se Deus pode ser entendido como as leis da física, não faz muito sentido alguém rezar para a lei da gravidade. Eu mesmo faria como Frank Lloyd Wright e diria que acredito em Deus, mas soletro natureza. A religião aqui entendida é aquela dos livros “sagrados”, das “revelações”, do Deus antropomórfico criado pelos homens em busca de conforto. O Deus que pune, que perdoa, que se importa, enfim, com cada um de nós. Esta religião não pode ser misturada com ciência de forma alguma.

Isso não quer dizer que sabemos ou um dia saberemos todas as respostas através da ciência. Como o próprio Dawkins reconhece, “é bem possível que existam algumas questões profundas sobre o cosmo que permanecerão sempre para além da ciência”. Nosso conhecimento é limitado mesmo. “O engano está em pensar que, como conseqüência, elas não estão igualmente para além da religião”. Isso é um non sequitur. Por que o teólogo saberia algo a mais sobre estas delicadas questões? No extremo, em que a teologia difere de uma “duendologia”, ou seja, a pura especulação sobre algo criado pelos próprios humanos? Constatar nossas limitações, nossa ignorância, tudo bem. Mas depois concluir que, por isso, Deus existe, não faz o menor sentido. Menos sentido ainda tem afirmar que se sabe o que tal Deus deseja dos homens. Não se pode provar uma proposição negativa, e a ciência não tem meios de refutar a existência de um ser supremo. Mas se isso deve fazer com que todos sejam agnósticos, devemos ser igualmente agnósticos em relação à teoria de que há um bule de porcelana em órbita elíptica em torno do Sol, ou de que existe um Flying Spaghetti Monster que criou o universo. Como lembra Dawkins, “somos todos ateístas em relação a quase todos os deuses em que a humanidade já acreditou”, e que foram muitos. “Alguns de nós simplesmente desacreditamos num deus a mais”, conclui Dawkins.

Portanto, a honestidade intelectual me força a recusar o rótulo de agnóstico, pois, para tanto, eu teria que admitir ser um agnóstico em relação a todos os deuses, incluindo os gregos, o Alá dos muçulmanos, o cristão e até mesmo o Flying Spaghetti Monster. Fica claro que muitos são ateus, apenas não têm coragem de assumir. E quanto à possível convergência entre religião e ciência, deixo a palavra com Dawkins uma vez mais: “Para um juiz honesto, a alegada convergência entre a religião e a ciência é uma impostura rasa e vazia que visa simplesmente a conquista de uma imagem positiva junto ao público”.

Aqueles que exigem respeito, no sentido de defender uma idéia respeitável, devem apresentar bons argumentos para tanto. O apelo para a fé pessoal não é um bom juiz nesta causa. Tampouco é aceitável o argumentum ad populum, como se a quantidade de crentes tornasse uma crença verdadeira. Como os cristãos e os muçulmanos iriam resolver o problema? Isso sem falar que ambas as religiões começaram como seitas minoritárias. E para quem liga muito mesmo para a quantidade de adeptos no rebanho, vale dizer que a Igreja do Flying Spaghetti Monster, criada somente em 2005, já conta com 10 milhões de “fiéis”, segundo seu criador. E então, prezado leitor ou leitora: você é agnóstico em relação ao Flying Spaghetti Monster, um crente ou um ateu?

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Socialismo na Saúde


Rodrigo Constantino

O governo, através da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), anuncia uma série de medidas impostas às operadoras de planos de saúde e seguradoras. Estas empresas serão obrigadas a ampliar a cobertura de seus serviços, sem repassar os custos para os consumidores. A lista agora chega a quase três mil itens, e inclui até nutricionista, psicoterapia e fonoaudiologia, definindo quantas sessões por ano podem de cada um. O grau de ingerência estatal beira o absurdo total, possível somente num país com mentalidade predominante socialista. A matéria do jornal O Globo tinha o seguinte título: "Saúde Reforçada". Eis o grau de distorção dos conceitos por aqui. Praticamente todos consideram o governo o meio ideal para resolver os problemas. Aquele que nos toma na marra quase a metade de nossa renda, e entrega em troca serviços caóticos, é visto como uma espécie de deus aqui. Como as vítimas de "Síndrome de Estocolmo", os brasileiros amam seu algoz.

O nacional-socialismo que levou Hitler ao poder na Alemanha é um bom exemplo do que está acontecendo no Brasil atualmente. Muitos, por pura ignorância, chamam o nazismo de "extrema direita" e acham que, por isso, era uma espécie de capitalismo. Nada mais falso. O nazismo, uma outra vertente do socialismo, era totalmente anticapitalista e antiliberal. Um dos pilares básicos do capitalismo liberal é a propriedade privada. No nazismo, como nos demais tipos de socialismo, a propriedade era do Estado. Podia existir propriedade privada de jure, mas não de facto. O governo controlava tudo na economia, nos mínimos detalhes, e indicava burocratas para as empresas, decidindo o que ser vendido, quanto e para quem. Hitler teria dito: "Que significa ainda a propriedade e que significam as rendas? Para que precisamos nós socializar os bancos e as fábricas? Nós socializamos os homens".

Pois é justamente o que, infelizmente, parece estar acontecendo por aqui. Os homens, após tantos anos de lavagem cerebral, doutrinação ideológica e propaganda enganosa, acabaram "socializados". O coletivismo impera no país, o Estado é visto como o meio ideal para tudo, e há um enorme preconceito contra empresários. A mentalidade da maioria encara os consumidores como perfeitos idiotas, os empresários como safados pensando apenas em explorar os seus clientes, e os burocratas do governo como santos e clarividentes, que irão proteger os primeiros dos últimos. É preciso tutela estatal em tudo, eles pensam. Somente isso explica tanto controle estatal no crucial setor da saúde. Quando as pessoas passam a achar normal que o governo dite o que os planos devem oferecer e a que preço, é porque o câncer socialista já está em estágio de metástase.

O governo quer impor a obrigação dos planos de oferecer consultas ao psicanalista. Creio que tais burocratas é que deveriam consultar um bom psicanalista. Tanta sede por poder e ódio à liberdade só pode ser algo patológico!

O Retorno da Telebrás



Rodrigo Constantino

A Oi, antiga Telemar, fez uma proposta de quase R$ 5 bilhões pela compra do controle da Brasil Telecom. A megaoperadora resultante dessa fusão, caso ela ocorra, será controlada pelos grupos Andrade Gutierrez e Carlos Jereissati. O dinheiro para parte da compra seria proveniente do BNDES, e os fundos de pensão iriam aumentar suas fatias também. Para a operação sair, faz-se necessário um decreto presidencial alterando o Plano Geral de Outorgas, que não permite aos mesmos acionistas deter o controle de duas concessionárias. O governo já tornou público seu desejo de ver uma grande operadora nacional atuando com sócios estratégicos. Parece que vai conseguir isso, ou seja, o retorno da Telebrás. A operação é um escândalo do começo ao fim.

Em primeiro lugar, pouco deveria importar a nacionalidade dos sócios. O que os consumidores querem é bom serviço, possível com competição no livre mercado. Essa vontade declarada do governo de ter uma empresa nacional grande é ranço nacionalista, do mesmo tipo que já pariu a Lei da Informática, mantendo o país na era jurássica da tecnologia. Em segundo lugar, os sócios estratégicos em questão atuam no setor de construção civil e shopping center, respectivamente. Nenhum deles é player tradicional de telecomunicações. Em terceiro lugar, é uma afronta o modelo de controle dessas empresas, com uma estrutura de ações preferenciais e ordinárias que permite o controle votante com uma ínfima parcela do capital total.* Em quarto lugar, choca ver um decreto presidencial feito sob medida para uma transação, sendo que a isonomia no livre mercado fica prejudicada, já que outros grandes players, como o mexicano Carlos Slim, não podem desfrutar da mesma vantagem. Em quinto lugar, se fosse realizado um leilão, com qualquer empresa livre para fazer uma oferta, com certeza o valor seria maior, e os acionistas minoritários da Brasil Telecom receberiam mais pelo seu direito de tag along. Por fim, a aquisição ser feita com dinheiro do BNDES fecha de vez o esquema simbiótico entre governo e empresários "amigos do rei".

São estas coisas, vistas por muitos leigos como exemplo do capitalismo liberal, que perpetuam uma péssima imagem deste. A compra da Brasil Telecom pela Telemar, bem ao gosto do governo Lula, ansioso para resgatar a falecida Telebrás, não tem nada de capitalismo liberal. Está muito mais para mercantilismo, o câncer que assola este país. Não custa lembrar que foi a Telemar que transformou Lulinha, o filho do presidente, num milionário da noite para o dia!

* A holding Telemar Participações controla 53,8% das ações ordinárias da Tele Norte Leste Participações, mas somente 17,9% do capital total. Cada um dos grupos mencionados controla 10,3% da Telemar Part. A Tele Norte Leste Part., por sua vez, detém 81,9% do capital da Telemar, a operadora. Logo, através de uma conta simples, vemos que cada grupo em questão controla somente 1,5% do capital total da operadora (10,3% de 17,9% de 81,9%). Em outras palavras: colocando somente 1,5% do capital no negócio em si, esses grupos mandam na empresa!

Carro do Povo


Rodrigo Constantino

"O vício intrínseco do capitalismo é a partilha desigual do sucesso; o vício intrínseco do socialismo é a partilha eqüitativa do fracasso." (Winston Churchill)

A empresa indiana Tata Group lançou o carro mais barato do mundo, batizado de "nano". Deverá ser vendido por 2.500 dólares. Não no Brasil, claro, pois aqui os impostos absurdos chegam a tornar os carros importados até três vezes mais caro. Parece que os brasileiros são ricos, e podem se dar ao luxo de pagar bem mais por um carro do que um americano. Mas o anúncio deve ser comemorado, pois se trata de mais uma conquista capitalista. A tendência do capitalismo é justamente esta: inovar criando produtos cada vez mais acessíveis às massas, trazendo enorme conforto material para a humanidade.

Muitos criticam o capitalismo e a globalização afirmando que a diferença entre ricos e pobres aumentou. No fundo, o que deveria ser observado é a condição absoluta da riqueza, ou seja, quantos milhões conseguiram abandonar de vez a miséria. O fato de alguns milionários ficarem ainda mais ricos com a globalização não afeta negativamente a vida dos mais pobres. A riqueza não é estática e a economia não é jogo de soma zero. O fato de Bill Gates ser bilionário não é prejudicial aos pobres do mundo. Pelo contrário: graças às inovações da Microsoft, muitos puderam melhorar absurdamente de vida. O jogo é de ganhos mútuos.

Aqueles que se deixam seduzir pelo socialismo, ou seja, a idealização da inveja, acham que não deveria existir essa diferença entre uma Ferrari e um "nano", tratada como uma "injustiça social". Para esses, deve prevalecer a ditadura da mediocridade. Logo, condenam os extremos e demandam que todos tenham um carro médio, provavelmente produzido pelo governo, ente considerado um Deus por esses crentes. Mas para observar os resultados práticos dessa política, basta dar uma olhada em Cuba, onde os que conseguem ter um carro, possuem na verdade uma carroça da década de 1950. Enquanto isso, a nomenklatura dos aliados de Fidel esbanja suas Mercedes. Todos são iguais no socialismo, mas uns sempre mais iguais que os outros.

Dito isso, vale lembrar que a diferença nas riquezas se deve basicamente a questões de luxo. O lançamento do "nano" é um ótimo exemplo para análise. O rico pode ter uma BMW ou mesmo uma Ferrari. Mas a grande diferença estará em detalhes luxuosos, como a potência, a estética, o conforto. Ainda assim, o pobre que conseguir comprar o "nano", com apenas US$ 2.500, terá um meio de transporte praticamente tão eficiente quanto o dos ricos, no seu objetivo principal, que é a locomoção. Em outras palavras: no básico, as diferenças caíram, e muito! Qualquer americano de classe média possui ar condicionado, uma casa, um computador e um carro. Sua vida tem bem mais conforto que a de um nobre do passado. Graças ao capitalismo.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

O Socorro ao Masp


Rodrigo Constantino

"O Estado é a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver às custas de todo mundo." (Frédéric Bastiat)

Circula em São Paulo um "apelo aos Poderes Públicos" para que estes salvem o Museu de Arte de São Paulo, o Masp. O apelo ao S.O.S. estatal ocorre após o roubo dos quadros de Pablo Picasso e Cândido Portinari, avaliados em mais de R$ 100 milhões – e já devidamente recuperados pela polícia. O furto deixou evidente a precária situação da segurança do museu, e logo surgiram pessoas demandando a intervenção governamental na entidade. O apelo do grupo, que já conta com um site específico para isso (www.sosmasp.com.br), afirma ainda que o prédio do Masp pertence a Prefeitura, cedido em comodato à sociedade Masp por 40 anos. O prazo vence em novembro deste ano, e o grupo considera a ocasião perfeita para "se retirar das instâncias privadas vigentes o controle do Museu e para se inaugurar uma outra fase de sua história, mais eficiente e sobretudo mais compatível com suas necessidades atuais e futuras". Termina o apelo pedindo a intervenção estatal para permitir que o Masp torne-se, enfim, "o Museu de que a megalópole que somos necessita!".

Não obstante o sonho desprovido tanto de lógica quanto de evidências empíricas, de que a gestão estatal é mais eficiente que a privada, resta questionar alguns outros pontos nesse apelo. Em primeiro lugar, se um cofre de um banco for roubado, vamos demandar a estatização deste banco? Bem, na verdade o governo já é o maior banqueiro do país, através do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES. Esquizofrenia esquerdista à parte, já que a esquerda adora jogar a culpa dos nossos males nos "banqueiros", ignorando que o governo que eles tanto defendem é o maior deles, creio que somente os mais jurássicos socialistas defenderiam a transferência do controle de um banco para o governo por causa de um roubo de cofre. Roubos acontecem, ainda mais nesse país, onde o governo faz tantas coisas indevidas que não sobra recursos para focar no que realmente deveria: a segurança. Mas o apelo ao S.O.S. estatal no caso do Masp, creio eu, não deriva somente do roubo ocorrido, e sim do que foi roubado. Trata-se de arte! E isso é "patrimônio da humanidade", dizem. Uma "necessidade"!

Pois bem: quem define qual arte é "patrimônio da humanidade" e, portanto, deve ser bancada pelo governo, isto é, por todos que pagam impostos? Será que os burocratas do governo, humanos como todos, devem ter o poder arbitrário de decidir o que deve ser financiado pelos pagadores de impostos em nome da cultura? Com essa mentalidade, nosso governo já mandou Tati Quebra-Barraco, a cantora de funk, em uma viagem pela Europa, divulgando a "cultura nacional" para os gringos. Melhor nem comentar sobre os filmes financiados pelo governo, ou seja, o nosso dinheiro! Só de filmes fazendo propaganda comunista enganosa eu perdi a conta. É isso que deve ser função do governo? Eu penso que não. Acredito na liberdade de escolha individual, e sim, a arte faz parte dessa gama de opções que cada indivíduo deve ser livre para exercer suas próprias preferências. Eu posso não gostar de Tati Quebra-Barraco, ou dos filmes do "Zé do Caixão", e não acho justo ter que pagar pela "arte" deles. Assim como acho perfeitamente legítimo os outros não aceitarem pagar por aquilo que eu considero boa arte.

O termo "democracia" tem sido deturpado ao extremo, e já invadiu o campo da arte também. Arte "democrática", dizem, é aquela que permite o acesso a todos. Nada mais falso! Nem mesmo o show do socialista Chico Buarque pode ser visto por todos, já que os ingressos custam caro. E assim que deve ser mesmo. O preço será determinado pelo encontro da oferta e demanda, garantindo assim a liberdade dos indivíduos. Eu não sou menos livre porque não posso pagar para visitar todos os pontos culturais do mundo que gostaria de ver. Minha liberdade é ameaçada quando há coerção humana, quando um obstáculo criado pelos homens me impede de fazer algo. Mas é absurdo falar em escravidão quando a própria natureza nos limita. Ora, não sou escravo porque não tenho asas para voar! Para compensar essa limitação natural, os homens criaram o avião. Mas estes são fabricados por empresas, e operados também por empresas, e se eu desejo usufruir disso, tenho que pagar! A empresa aérea não reduz minha liberdade de voar por cobrar caro pela viagem. Eu jamais teria tal liberdade, para começo de conversa, não fosse ela. Muitos confundem esses conceitos, usando o termo escravidão onde ele não é adequado. Escravidão é quando a coerção humana me impede de fazer algo, não quando há uma limitação natural, como a minha falta de recursos, para fazer algo que eu desejaria.

Dito isso, fica mais fácil entender o que está por trás dos apelos pelo controle estatal dos "patrimônios da humanidade". Ora, um quadro não cai do céu, não nasce do nada. Ele foi pintado por um indivíduo, como propriedade privada, e adquirido por alguém também. Se desejo ter ou mesmo ver este quadro, tenho que pagar por isso, numa troca voluntária com seu dono. No fundo, a mentalidade que pede controle do governo funciona da seguinte maneira: quero ter o direito de usufruir de algo que gosto, sem ter o dever de pagar por isso. Logo, os outros pagarão para que eu possa degustar da arte que aprecio. Um bom exemplo é a Orquestra Sinfônica, inclusive citada no texto do apelo. Ora, eu posso detestar música clássica, preferindo heavy metal ou música eletrônica. Por que devo ter que pagar para manter uma Orquestra Sinfônica? Se a própria demanda por sua arte não for suficiente para sustentá-la, é porque ela simplesmente não deve existir. Assim funciona o mercado: sobrevivem aqueles que atendem de forma mais eficiente as demandas! Por isso filmes de Hollywood arrecadam tanto, enquanto filmes franceses quase não são vistos.

É extremamente arrogante e autoritário forçar os outros a pagar pelo que não desejam, impor as preferências dos burocratas a todos. Pode ser lamentável, mas se o povo quer assistir BBB, é um direito dele. De gustibus non est disputandum. Absurdo é aumentar impostos, que irão impactar a vida dos pobres, para que uma minoria da elite financeira possa ter sua orquestra "grátis", sustentada com o suor daqueles que não ligam a mínima para música clássica. O mesmo vale para os quadros de Picasso ou Portinari. Querem jogar os custos do museu no colo do Estado, ou seja, no colo de todos que pagam impostos, pobres e ricos. Não creio que uma família pobre, cujo salário mal dá para bancar uma moradia e alimentação decentes, ligue muito para Picasso. Alguém acha justo esses pobres terem que comprar produtos mais caros, por causa dos pesados impostos, para que um paulista rico possa ir ao museu estatal apreciar Portinari? Eu não. Entre o socorro ao Masp e o socorro aos pagadores de impostos, súditos de Brasília, fico com a segunda opção.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Medidas Radicais


Rodrigo Constantino

"O governo não consegue segurar a criminalidade? Pouco importa, basta desarmar o cidadão comum, de bem, esse que não comete crimes, e diante da insegurança oficializada, pediria pelo menos a ilusão de uma chance de se defender, por pequena que fosse." (Roberto Campos)

A criminalidade que nos envolve revolta, e assusta as pessoas normais. O problema é que o medo e o desespero, duas emoções fortes, ofuscam a clareza da razão. E os amedrontados partem para a escravidão voluntariamente, como ovelhas adestradas seguindo rumo ao abatedouro. É um destino cruel e muitas vezes auto-infligido. Faltam debates sérios e sobram soluções mirabolantes, que aniquilam os direitos básicos do cidadão de bem. Sobram propostas absurdas que servem apenas para depositar ainda mais poder nas mãos dos burocratas "iluminados". Sobram medidas "emergenciais" que agravam ainda mais nossa crise, sem atacar suas causas. O país se enfiou em um enorme buraco? Então que se pare de cavar!

Marginais recebem este rótulo pois andam à margem das leis. Curioso é que todas as "soluções" apresentadas passam por mais leis, mais controle, menos liberdade individual. Atacam somente os efeitos, nunca as causas. Se o crime é cometido através de uma arma de fogo, então vamos simplesmente proibir a arma. Na Suíça, a maioria das pessoas tem arma, e a criminalidade é muito baixa. Mesmo nos Estados Unidos, os estados que permitem o porte de arma possuem as taxas mais baixas de criminalidade. Mas são apenas fatos, e estes não costumam entrar nos "debates" por aqui, que geram muito calor e pouca luz. Bandido comete assalto com arma, então veta a arma! Como se eles fossem respeitar a nova lei.

Seguindo a mesma linha de "raciocínio", algumas pessoas arriscam maior ousadia ainda. Uma modalidade de assalto bastante popular atualmente é o uso de dois bandidos em uma moto. Qual a proposta, que parece ter seduzido até o governador Sérgio Cabral? Proibir que o motoqueiro carregue alguém na garupa! Perfeito. Tentando reduzir o crime, que existe por outros fatores, como a inoperância do Estado justamente onde ele deveria focar sua ação, acaba-se com o direito da grande maioria das pessoas de poder curtir sua moto com um amigo ou namorada. Vamos extrapolar essa visão para ver onde isso pode acabar.

Se as estatísticas amanhã provarem que boa parte dos crimes ocorre de noite, por que não vetar os indivíduos de saírem neste horário? Se ficar claro que a maior parte dos assaltantes são homens, basta baixar uma lei proibindo estes de saírem de casa. Ocorrem muitos assaltos a carros importados? Veta-se a venda desses carros. Muitos assaltos em ônibus? Vamos acabar com esse meio de transporte perigoso. A Baixada Fluminense concentra grande parte da criminalidade? Risca ela do mapa, proibindo sua existência. Existem diversos policiais corruptos que facilitam o esquema da bandidagem nas favelas? Então basta acabar com a polícia. Bandidos costumam assaltar por dinheiro? Ora, no extremo, vamos decretar o fim desse maldito! A lista de atrocidades em nome do combate ao crime seria infinita.

Poucos são os que de fato focam nas causas, tentando sempre preservar a liberdade dos inocentes. Normalmente, os bem intencionados cidadãos aprovam medidas autoritárias até o ponto em que não afetam a sua vida particular. Mentalidade interessante. Dane-se a liberdade dos outros, quero a minha! Raro será ver o motoqueiro que passeia com a namorada aplaudir uma lei que proíba tal lazer. O problema é que os defensores de algo absurdo assim não pensam que o mesmo "argumento" para uma lei dessas vale para anular a sua liberdade específica. Afinal, se não podemos mais ter motos circulando com alguém na garupa, pois algumas motos com duas pessoas são usadas para crimes, como ter carros circulando? Bandidos usam carros também! E bicicletas...

O engraçado disso tudo é que as pessoas que aprovam tais medidas desesperadas costumam ser esclarecidas o suficiente para entender que o Estado grande é uma das maiores causas dos nossos problemas. Mas não atentam para o fato de que estão delegando cada vez mais poder justamente ao Estado, que amanhã pode, em nome do combate ao crime, interferir ainda mais na vida privada do povo. O medo é uma arma e tanto nas mãos dos políticos. Querem curar o câncer com nicotina.

O Brasil não precisa, definitivamente, de mais leis e regras tolas que ditam o passo do cidadão nos mínimos detalhes. Não tem nada que atacar as conseqüências, e sim as causas. A impunidade é que gera o aumento da criminalidade. De que adianta então colocar mais leis no papel? O marginal já é alguém que não segue as leis, e assim age devido à percepção de impunidade. E para se ter a sensação de punição, o governo tem que concentrar seus recursos nessa área, e não em todo o resto que se mete, drenando recursos escassos e empobrecendo o povo, que ainda se vê forçado a pegar o pouco que sobra e bancar sua segurança privada, com cercas, guaritas ou até carros blindados. É o risco de ser pego e a gravidade da punição que seguram o crime. Se chegamos a um grau intolerável de criminalidade, que se decrete estado de sítio, reconheça-se que estamos em guerra civil, e se coloque as Forças Armadas na rua. Mas alguém minimamente inteligente realmente acredita que irá se sentir mais seguro apenas porque decretaram que está proibido ter arma ou andar com duas pessoas numa moto? Francamente...

Lembro que o eficiente programa de Tolerância Zero adotado em Nova Iorque reduziu drasticamente os índices de criminalidade por lá. Ele consistia basicamente na teoria da "janela quebrada", a qual diz que pequenos delitos impunes são um convite para novos e maiores crimes. Portanto, a polícia agiu com dureza contra todos os crimes, desde o grafitismo vândalo. Mas não se pensou por lá em simplesmente proibir o uso do metrô quando este era alvo de vários assaltos e outros crimes. Atacaram as causas do problema.

Normalmente, quando tento confrontar com esses argumentos os adeptos dessas medidas como desarmamento ou proibição de garupa na moto, me acusam de "radical", rótulo perfeito para encerrar um debate. Na falta de argumentos sólidos, o ataque vazio é a melhor defesa. Eu pergunto então: sacrificar a enorme maioria das pessoas pacíficas e inocentes que querem curtir sua moto com gente na garupa, pelo risco de alguns serem criminosos, não é radical?

sábado, janeiro 05, 2008

A Cura dos Charlatões



Rodrigo Constantino

“Não existe medicina alternativa, existe apenas medicina que funciona e medicina que não funciona.” (John Diamond)

Um dos grandes defensores da ciência atualmente é Richard Dawkins, cujo livro O Capelão do Diabo aborda diferentes tópicos de forma bastante interessante. Um dos temas tratados no livro é a medicina “alternativa”, onde o autor busca desmontar todas as falácias que sustentam a enorme popularidade deste tipo de tratamento, não restando pedra sobre pedra. Dawkins vai sem rodeios, direto ao ponto: “Não há nenhum limite óbvio para a credulidade humana. Somos dóceis vaquinhas ingênuas, vítimas ávidas dos curandeiros e charlatões que mamam e engordam às nossas custas”. A história da humanidade está repleta de casos de embusteiros que se cercam de uma aura de misticismo, explorando a ignorância e o desespero alheio.

Sociedades mais atrasadas demonstram uma inclinação maior a este tipo de crença, enquanto o avanço do conhecimento aumenta a confiança nas soluções científicas, testadas e aprovadas. Dawkins alega que “o mundo é misterioso o suficiente para dispensar a ajuda de feiticeiros, xamãs e vigaristas ‘paranormais’”. Ele abomina o relativismo cultural, descrito por ele como a “vertente de filosofia delirante” que nega a superioridade do método científico como caminho privilegiado para a verdade. Cada um teria a “sua” verdade, segundo os relativistas. Dawkins sugere que os cientistas devem responder à alegação de que a “fé” na lógica e na verdade científica não é nada além de fé da seguinte maneira: “O mínimo que se pode responder é que a ciência produz resultados”.

Em O Rio que Saía do Éden ele já havia dito: “Mostre-me um relativista cultural voando a 10 mil metros de altura e eu lhe mostrarei um hipócrita”. O fato é que o avião não consegue voar por causa de algum misticismo qualquer, que depende do prisma cultural, mas porque “engenheiros ocidentais cientificamente treinados acertaram nas contas”. Para Dawkins, “as pessoas são leais a outros sistemas de crença pela simples razão de que foram criadas daquela maneira e nunca chegaram a conhecer uma alternativa melhor”. Ou seja, “quando elas têm a sorte de poder escolher, os médicos e outros profissionais do gênero prosperam, ao passo que os feiticeiros entram em declínio”.

Um dos capítulos do livro é um prefácio escrito ao livro póstumo de John Diamond, quem Dawkins admira muito por sua coragem intelectual, isto é, a coragem de se manter fiel aos próprios princípios intelectuais mesmo diante da morte. Acometido pelo câncer, Diamond foi tentado por todo tipo de solução “mágica”, mas sempre se manteve fiel aos valores científicos. Na hora do desespero, os “abutres das terapias ‘alternativas’ ou ‘complementares’ começam a voar em volta”. Afinal, “a esperança é um produto vendável: quanto mais desesperadamente se necessitar de esperança, mais rica será a colheita”. A frase de Sebastien Faure resume bem a idéia: “As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão”. Quando há desespero, fica muito mais fácil vender soluções “milagrosas”, que dependem da fé, e nunca do conhecimento verdadeiro. Uma pílula “mágica” de papel, junto com muita fé, irá resolver o problema. E vemos vários desesperados jogando suas muletas e seus óculos fora, na tola esperança de que poderão andar ou enxergar normalmente, apenas com base na fé. Se a medida falha, como normalmente ocorre, então a culpa é do próprio doente, que não teve fé suficiente. Os embusteiros estão protegidos.

Há um abismo instransponível entre as curas “alternativas” e a medicina verdadeira. Na visão de John Diamond e também de Dawkins, “a medicina científica se define como um conjunto de práticas que se submetem ao suplício dos testes. A medicina alternativa é definida como um conjunto de práticas que não podem ser testadas, se recusam a ser testadas ou são invariavelmente reprovadas nos testes. Se for demonstrado em testes de duplo-cego adequadamente controlados que uma técnica terapêutica tem propriedades curativas, ela deixará de ser alternativa”. Em outras palavras, ou é verdade que um remédio funciona ou não é verdade. Para descartar o efeito placebo, extremamente comum, é fundamental aplicar tais testes. Muitos candidatos a medicamentos “ortodoxos” falham nos testes e são sumariamente abandonados. O rigor científico não é brincadeira, diferente da pretensão dos “curandeiros alternativos”, uma brincadeira que pode custar caro por alimentar falsas esperanças.

O motivo pelo qual tantos acabam impressionados pelas “curas alternativas” e “milagres” é explicado por Dawkins: “Boa parte da história da ciência, especialmente da ciência médica, consistiu numa progressiva libertação do fascínio superficial exercido pelas histórias individuais, que parecem – mas apenas parecem – revelar um padrão. A mente humana é uma contadora de casos obstinada e, mais que isso, busca avidamente encontrar padrões”. Ele oferece o antídoto: “A mente humana precisa aprender a suspeitar de sua propensão inata para enxergar padrões onde existe apenas acaso. É para isso que serve a estatística, e é por isso que nenhuma droga ou terapêutica deveria ser adotada até que seu efeito tivesse sido comprovado por um experimento submetido à análise estatística, no qual a inclinação da mente humana a encontrar padrões, tão sujeita a enganos, tenha sido sistematicamente afastada. Histórias pessoais nunca resultam em demonstrações satisfatórias de alguma tendência geral”.

Um dos alvos escolhidos por Dawkins como exemplo é a homeopatia, extremamente popular. Os homeopatas vivem insistindo que os testes científicos não são adequados para sua “medicina”. Um princípio fundamental da teoria homeopática é que o ingrediente ativo – a arnica, o veneno de abelha, ou seja o que for – deve ser sucessivamente diluído um grande número de vezes, até que não reste nem uma só molécula do ingrediente. Em outras palavras, a bolinha é um placebo! Para sair desse dilema embaraçoso, os homeopatas alegam que o modo de ação de seus remédios não é químico, mas físico. Dawkins diz: “Eles acreditam que, por algum mecanismo físico que os próprios físicos desconhecem, uma espécie de ‘traço’ ou de ‘memória’ das moléculas ativas se imprime nas moléculas de água empregada para diluí-las”. Acontece que isso é uma hipótese científica, que pode, portanto, ser testada. Todo homeopata que realmente acredita nisso teria todo interesse do mundo em testar tal hipótese. Não só sua medicina ganharia muito mais aceitação e confiança, como aquele que provasse a hipótese seria forte candidato ao prêmio Nobel. Curiosamente – ou nem tanto – não vemos os próprios homeopatas correndo para laboratórios a fim de testar suas teorias. Preferem buscar refúgio na alegação de que certas coisas simplesmente não se prestam à verificação científica. Assim até eu.

Em resumo, à medida que o conhecimento científico vai avançando, as sociedades vão deixando para trás os embustes das feitiçarias, macumbas e milagres. A crença nessas tolices poderia ser apenas um passatempo inofensivo, não fossem os efeitos perversos gerados pela falsa esperança. Os charlatões da cura prejudicam muitos inocentes ignorantes. A cura para os charlatões está no conhecimento científico, o seu grande inimigo.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

América Latina e Populismo


Rodrigo Constantino

"O capitalismo na América Latina ainda é, na melhor das hipóteses, uma luta." (Alan Greenspan)

O título desse artigo é o mesmo usado por Alan Greenspan em um capítulo de seu livro de memórias, A Era da Turbulência. O ex-presidente do Federal Reserve faz uma análise bastante acurada dos males que assolam a região. Diante da pergunta sobre a causa das crises econômicas freqüentes nas décadas de 1970, 1980 e 1990, Greenspan resume numa resposta simples, afirmando que, "com muito poucas exceções, a América Latina não conseguiu desarmar-se do populismo econômico que, em sentido figurado, desarmou todo um continente em sua competição com o resto do mundo". Em outras palavras, o capitalismo de livre mercado jamais deu o ar de sua graça por aqui, obstruído pelo eterno populismo.

O século XX não foi bom para a região. Greenspan lembra, com base nas análises do historiador econômico Angus Maddison, que a Argentina começou o século com um PIB per capita real maior que o da Alemanha e equivalente a quase três quartos do americano. No fim do século, o PIB per capita argentino tinha declinado para metade ou menos do da Alemanha e dos Estados Unidos. Como conclui Greenspan, "apenas a África e a Europa Oriental apresentaram desempenho pior". A América Latina parece estar competindo para ver qual continente fica mais miserável.

Greenspan explica o que entende por populismo: "Sob o populismo econômico, o governo cede às demandas do povo, sem levar muito em conta os direitos individuais ou as realidades econômicas sobre como aumentar ou mesmo apenas sustentar as riquezas do país". Em outras palavras, "ignoram-se as conseqüências econômicas adversas das políticas públicas, por deliberação ou sem intenção". Diante de uma série ininterrupta de fracassos, a busca por bodes expiatórios é constante. Os Estados Unidos são o alvo preferido. "Erroneamente", lamenta Greenspan, "ainda hoje os Estados Unidos são vistos como a principal causa da miséria econômica ao sul de suas fronteiras". Os povos latinos agem como devedores irresponsáveis, que vivem gastando mais do que ganham, e depois ficam culpando os bancos por sua situação calamitosa. O sucesso dos mais responsáveis e trabalhadores incomoda, e passa a ser acusado pela própria miséria, com a ajuda de uma visão marxista de que o ganho de um deve ser exploração do outro.

Esse populismo é "atitude muito pouco racional". Para Greenspan, é "mais um grito de dor". Ele explica: "Os líderes populistas fazem promessas irresistíveis para eliminar ou atenuar situações percebidas como injustas. As panacéias mais comuns são a redistribuição de terras e o indiciamento de uma elite corrupta que, alegadamente, rouba dos pobres; os líderes prometem terra, habitação e comida para todos". O termo ‘justiça’ é usado de forma abusiva, geralmente na acepção redistributiva, ao lado do termo ‘social’, na maioria das vezes indo contra o conceito objetivo de justiça. Esse populismo é o oposto de liberalismo: "Em todas as suas formas, evidentemente, o populismo econômico se opõe ao capitalismo de livre mercado". O duro é aturar a esquerda populista insistir que a culpa dos nossos males está justamente no "neoliberalismo", inexistente na região.

Reverter o quadro não é uma tarefa trivial. O populismo resiste mesmo diante dos mais contundentes fracassos. Greenspan diz: "A melhor evidência de que o populismo é basicamente uma reação emocional, em vez de algo baseado em idéias, é o próprio fato de não recuar, mesmo em face de reiterados fracassos". O povo latino-americano costuma colocar mesmo as emoções à frente da razão. O populismo é o resultado disso. Greenspan elabora sobre os motivos desse apelo emocional: "O populismo econômico imagina um mundo mais simples e direto, no qual as estruturas teóricas não passam de dispersões em relação às necessidades evidentes e prementes. Seus princípios são simples. Se há desemprego, o governo deve contratar os desempregados. Se o dinheiro está escasso e as taxas de juros, em conseqüência, estão altas, o governo deve impor limites artificiais ou, então, imprimir mais dinheiro. Se as importações estão ameaçando empregos, proíba as importações". Gustave Le Bon fez um ótimo estudo sobre a psicologia das massas, e uma das características mais básicas é justamente a simplicidade dos conceitos, para poder conquistar pelas emoções os seres mais simples do grupo. Um povo miserável e ignorante é um prato cheio para promessas populistas. O Fórum Social Mundial é a grande prova disso.

Os populistas ignoram as calculadoras: "A visão populista equivale à contabilidade por partidas simples. Registra apenas os créditos, como os benefícios imediatos da redução dos preços da gasolina. Acredito que os economistas devem praticar a contabilidade por partidas dobradas". O que Greenspan quer dizer é que os populistas desconhecem conceitos como "custo de oportunidade", e nunca levam em conta "aquilo que não se vê", como alertava Bastiat. A visão é totalmente míope, e vale apenas o que os olhos enxergam no curtíssimo prazo, sem nenhuma capacidade de compreensão dos nexos causais ao longo do tempo. Medidas populistas hoje acarretam estragos profundos no longo prazo, mas poucos entendem a ligação entre causa e efeito. Além disso, "no longo prazo todos estaremos mortos", pode alegar um "desenvolvimentista", ou seja, um populista típico.

Para atrair as massas, o populismo precisa recorrer a uma justificativa moral. Assim, afirma Greenspan, "os líderes populistas devem ser carismáticos e exibir uma aura de tocador de obras e até de competência autoritária". A lista de líderes compatíveis com essa definição é enorme, com diferentes graus de autoritarismo. Podemos pensar em Hitler, Mussolini, Getúlio Vargas, Stalin, Fidel Castro, Peron, Chávez, Mao, enfim, inúmeras figuras pitorescas, que hipnotizavam as massas com promessas fantásticas enquanto entregavam o caos como resultado. O comum entre esses líderes é aquilo que Greenspan comenta: "A mensagem econômica deles é simples retórica, salpicada de termos e expressões como ‘exploração’, ‘justiça’ e ‘reforma agrária’, sem qualquer menção a ‘PIB’ ou a ‘produtividade’". Um exemplo recente está em Robert Mugabe, no Zimbábue, que adotou várias medidas populistas e destroçou de vez a nação, que sobrevive atualmente com desemprego enorme e hiperinflação galopante. Chega a ser irônico constatar isso tudo e lembrar da entrevista de Heloísa Helena, então candidata à presidência e ícone do populismo nacional, para Miriam Leitão, onde ela afirmara que inflação não é um fenômeno isolado, e não ocorria num país apenas. A Venezuela, outro palco de intenso populismo do caudilho Chávez, acaba de divulgar o número oficial de inflação de 2007, de 22,5%. Com certeza o número real deve ser ainda maior, já que transparência não é o forte de regimes populistas.

Sobre o presidente Lula, eis o que Greenspan tem a dizer: "Luiz Inácio Lula da Silva, populista brasileiro com grande séquito, foi eleito presidente em 2002. Antecipando-se à sua vitória, o mercado de ações brasileiro caiu, as expectativas de inflação subiram e os tão ambicionados investimentos estrangeiros recuaram. Mas, para surpresa da maioria, inclusive minha, ele manteve em boa parte as políticas sensatas do Plano Real, que Cardoso, seu antecessor, adotara para combater a hiperinflação brasileira de princípios da década de 1990". Em outras palavras, o grande mérito de Lula foi não ter mexido nas reformas macroeconômicas de FHC. O resto é sorte por ter pego um cenário internacional extremamente benéfico.

Por fim, Greenspan faz um importante alerta sobre os riscos da democracia. Em primeiro lugar, ele lembra que "os verdadeiros democratas apóiam uma forma de governo em que a maioria predomina em todas as questões públicas, mas nunca transgredindo os direitos básicos dos indivíduos". Nessas sociedades, ele diz, "os direitos das minorias são protegidos contra as maiorias". Os próprios "founding fathers" dos Estados Unidos temiam os excessos da democracia, e para isso criaram o "Bill of Rights", limitando o poder do governo. Greesnpan continua: "A democracia é um processo tortuoso e, decerto, nem sempre é a forma de governo mais eficiente". No entanto, ele concorda com a tirada espirituosa de Winston Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as demais que já foram experimentadas de tempos em tempos".

O governo autoritário "não oferece as necessárias válvulas de segurança que, nas sociedades capitalistas, possibilitam a solução de conflitos de maneira pacífica". Esse motivo que faz Greenspan optar pela democracia nos remete ao mesmo comentário de Karl Popper, que escolhe a democracia não pela sua suposta superioridade nas decisões, mas pela capacidade de resolver problemas sem derramamento de sangue. No entanto, é crucial lembrar que a democracia é um meio, não um fim, que seria a preservação das liberdades individuais. E o populismo ignora justamente isso, pregando uma democracia fajuta que não leva em conta os direitos individuais, degenerando em tirania, como vemos na Venezuela dos "plebiscitos".

É uma pena que Greenspan, de longe, consiga fazer um diagnóstico tão acertado dos problemas da América Latina, enquanto tantos economistas próximos insistem nas "soluções milagrosas" do populismo. Quem tiver mais interesse no tema, sugiro a leitura do excelente livro de Alvaro Vargas Llosa, Liberty for Latin America, onde ele explica em detalhes o populismo na região.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

O Anticomunista Radical


Rodrigo Constantino

“Extremismo na defesa da liberdade não é vício algum... e moderação na busca pela justiça não é virtude alguma.” (Barry Goldwater)

Alguns leitores afirmam que gostam de boa parte do conteúdo daquilo que escrevo, mas criticam a forma com a qual me expresso, muitas vezes intolerante demais com os inimigos. Acusam-me de coisas como “radical” ou “extremista”, que não fazem muito sentido para mim. Afinal, radical em relação a que? Por que seria ruim ser radical na defesa da liberdade, por exemplo? Por que seria indesejável ser extremista no combate à tirania? Alegam que através de uma forma mais suave eu poderia conquistar mais gente com meus argumentos. Pode ser que sim. Eu li Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie. Um manual para políticos pragmáticos. Mas nunca afirmei que a minha intenção era política, ou seja, influenciar a maior quantidade de pessoas possível. Deixo isso com os profissionais da área. Meu objetivo é sustentar com bons argumentos aquilo que considero verdadeiro. Quero defender o justo e ser livre para falar o que penso, sem preocupação com os aplausos da platéia ou com leitores ofendidos por meus pontos. Por isso digo o que entendo como certas verdades incômodas, sem papas na língua. Minha intenção não é agradar a todos.

Um dos principais motivos para esta reação infelizmente comum por parte dos leitores está sempre associado a minha agressividade verbal com os comunistas. Sim, reconheço que uso palavras duras contra eles. Mas como agir diferente tendo conhecimento dos fatos? Como alguém que sinceramente defende a liberdade deve tratar um defensor de Stalin ou Fidel Castro? Onde está o grande equívoco em chamar de hipócrita um notório hipócrita, como fiz no artigo sobre o idolatrado arquiteto comunista que nutre profunda amizade pelo genocida do Caribe? Por mais que eu me esforce, não consigo entender esses apelos. Não vejo virtude alguma em compactuar com essa podridão que torna certos tipos intocáveis pelas críticas. Não acho razoável ter que contemporizar com quem considero parte da escória humana. Meu mundo simplesmente não funciona assim. Nele, os pingos estão nos “is” e os bois têm nome correto. O uso de eufemismos nunca me atraiu. Ser simpático com quem não presta não faz parte do meu código de conduta.

Os temas religiosos costumam desfrutar dessa aura de proteção, tratados como sagrados mesmo por aqueles que não enxergam nada de sagrado ali. Se você questionar a racionalidade de quem realmente acredita que o vinho se transforma em sangue de Cristo, ou que o corpo de Maria literalmente subiu ao Céu, você é acusado de ofensivo. A ofensa não está na crença irracional, dizem, mas naquele que mostra a irracionalidade.* O que sempre valeu para os assuntos religiosos se estende agora também para a postura ideológica e política. Chamar um comunista de comunista, com o desdém que todo comunista merece, passa a ser visto como ofensa. Mas defender o regime mais assassino de toda a história não. Isso pode. Não dá para aceitar! Como devemos lidar com aqueles que, se poder tivessem, nos mandariam para um Gulag na Sibéria? Como tratar aqueles imorais para quem os fins justificam quaisquer meios? Sim, porque comunistas são cúmplices dessas atrocidades, ao menos nas idéias. E por mais que digam que aquilo que existiu na União Soviética, China, Camboja, Cuba, Coréia do Norte etc., não era comunismo, mas o “socialismo real”, estão fugindo do ponto. Comunismo como fim de fato nunca existiu, pois não é possível com o ser humano como é, ainda bem. Mas os meios defendidos para esta pura idealização da inveja, como o controle estatal dos meios de produção, são sim aqueles empregados por todos os países socialistas, que inexoravelmente levam ao caos, miséria, terror e escravidão.

O teste final que faço com todos que pedem mais tolerância e suavidade com comunistas normalmente é muito bem sucedido. Eu simplesmente pergunto se eles estão dispostos a conceder o mesmo tratamento aos nazistas. A resposta costuma ser o silêncio, pois poucos relativistas estão dispostos a ir tão longe no seu relativismo. No máximo, eles reagem com uma fuga tradicional, falando que não são coisas comparáveis, sem explicar os motivos, e insistindo que sou radical demais. Ora, por que a analogia não é válida? Por que devemos ser obsequiosos com os defensores do comunismo ou socialismo, responsáveis pelo extermínio de milhões de pessoas, mas devemos ser intransigentes com os nacional-socialistas? Por que tratar com respeito imerecido os seguidores de Lênin, Stalin, Pol-Pot, Mao ou Fidel Castro, mas abominar os seguidores de Hitler, farinha do mesmíssimo saco podre? Por que defender a proibição do uso da suástica como símbolo, mas aceitar, até mesmo em partidos oficiais, a foice e o martelo, ícones do regime mais nefasto que já existiu? Nunca tive uma boa resposta, com argumentos decentes. E quem deseja respeito por suas idéias, deve apresentar um bom motivo para tanto, ou seja, argumentos embasados.

Portanto, pretendo continuar sendo um anticomunista “radical”, ou seja, intransigente com aqueles que odeiam a liberdade individual. Lembro do alerta de Karl Popper aqui: “Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância”. Ser radical contra o fanatismo islâmico, por exemplo, é uma virtude, não um vício. Ser radical contra os comunistas segue o mesmo princípio. Todo comunista é ou um completo ignorante ou um safado. Não há outra hipótese. O comunismo agride a lógica e os fatos empíricos. Um comunista inteligente, que domina o assunto econômico e político, e é honesto intelectualmente, além de íntegro como pessoa, existe tanto quanto unicórnios, gnomos e sereias. Por que devo medir minhas palavras ao constatar este fato? Por que é errado chamar um ignorante de ignorante ou um safado de safado? Por que a hipocrisia merece ser chamada por um nome mais belo? Por que devemos disfarçar a inveja como motivador daqueles que pregam a igualdade material? Para quem ainda discorda do meu “radicalismo”, sugiro o teste: tente pensar se seria capaz de respeitar um nazista como pessoa, considerando que ele pode ser tanto inteligente como íntegro. Boa sorte.

* Para quem acha esse exemplo também radical, lembro que a doutrina da assunção da Virgem Santíssima foi definida como artigo de fé pelo papa Pio XII há pouco tempo, em 1º de novembro de 1950, e é obrigatória para todos os católicos. Ela afirma claramente que o corpo de Maria subiu ao Céu e foi reunido à sua alma. Richard Dawkins, em O Capelão do Diabo, diante destes fatos, pergunta: “Por que a nossa sociedade aquiesceu de maneira tão cordata na conveniente ficção de que as visões religiosas têm alguma espécie de direito automático e indiscutível a uma posição respeitável?” Ou ainda: “Por que nós temos que respeitá-las pela simples razão de que elas são religiosas?” Eu acrescento: Por que seria assim também com o comunismo? Considerando que o comunismo é uma seita, nem seria preciso, na verdade, acrescentar nada. Fica valendo a pergunta de Dawkins mesmo, até hoje sem uma boa resposta, além do apelo à quantidade de crentes.