Rodrigo Constantino, O Globo
(08/12/09)
Nenhum governo gosta da liberdade de imprensa. Afinal, a imprensa investiga fatos, sendo importante fator de contenção do avanço do poder estatal sobre nossas liberdades. Governos com viés autoritário toleram ainda menos esta liberdade de investigar e criticar. Não por acaso, todas as ditaduras tentam controlar a imprensa, vista como inimigo prioritário em seus projetos de poder absoluto.
Na América Latina, a liberdade de imprensa está cada vez mais ameaçada. Cuba representa a situação extrema, onde a distopia “1984”, de George Orwell, tornou-se realidade. Somente o governo divulga as “notícias”, enquanto a blogueira Yoani Sanchez sofre um ataque brutal apenas por tentar relatar o cotidiano da ilha. A Venezuela de Chávez caminha a passos largos nessa direção. Na Argentina, o casal K vem desferindo duros golpes aos principais veículos de imprensa. E no Brasil, desde a tentativa fracassada de controle através do Conselho Nacional de Jornalismo, o governo não desistiu do sonho de amordaçar a imprensa.
Eis o contexto da Conferência Nacional de Comunicações (Confecom), que será realizada no próximo dia 14 em Brasília. Sob o manto da “democratização” da imprensa, o governo pretende estender seus tentáculos por todo o setor, asfixiando sua liberdade. A resolução estratégica lançada pelo PT para o evento pode ser resumida em uma única palavra: censura. Aquilo que o partido chama de “controle social” nada mais é do que os antigos conselhos comunistas. A palavra final fica com o governo, o novo censor disfarçado de “fiscal” da transparência. Eufemismos, no entanto, não podem ocultar a natureza da coisa.
Existem diversas formas de o governo tentar manipular a imprensa. A mais óbvia é através de suas polpudas verbas de propaganda, incluindo as estatais. Num país com enorme presença do governo na economia, este fator merece destaque. O cão não morde a mão que o alimenta. Além disso, o governo decide sobre as concessões, mantendo as empresas como reféns. Essa tem sido a arma preferida do caudilho Chávez. Por fim, num país com excesso de leis e burocracia, onde o custo da legalidade plena é praticamente proibitivo, o governo sempre pode ameaçar as empresas com o achaque dos fiscais. Cristina Kirchner usou essa tática contra o “Clárin”.
O arsenal de munições do governo é vasto. Até mesmo uma herança da ditadura Vargas sobrevive, a “Hora do Brasil”, que invade as rádios do país todo na hora do “rush”. Um canal “chapa-branca” de televisão também foi criado, mas felizmente o público o ignora por completo. O custo acaba sendo “apenas” os impostos cobrados para sustentar a máquina de proselitismo. Agora o governo tenta uma vez mais controlar a imprensa.
Em “Areopagítica”, publicada em 1644, John Milton defendia que cada um pudesse julgar por conta própria o que é bom ou ruim: “Todo homem maduro pode e deve exercer seu próprio critério”. Para ele, a censura “obstrui e retarda a importação da nossa mais rica mercadoria, a verdade”. Thomas Jefferson, influenciado por tais idéias, afirmou que escolheria uma imprensa sem governo no lugar de um governo sem imprensa, se tivesse que decidir. Por outro lado, Trotsky e Lênin consideravam a imprensa uma arma perigosa, e desejavam proibir a circulação de jornais “burgueses”. A História mostrou os riscos dessa mentalidade.
Nós não precisamos do filtro do governo na imprensa. O que precisamos é de mais liberdade ainda. Se alguns grupos concentram muito poder por conta de seu tamanho, então a solução é mais competição, não mais governo.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
terça-feira, dezembro 08, 2009
segunda-feira, dezembro 07, 2009
"The Economist": incoerência da postura diplomática brasileira

No editorial sobre Honduras, a revista britânica "The Economist" aponta a contradição gritante da postura diplomática do governo Lula:
"Brazil also did badly. It allowed its embassy to become Mr Zelaya’s campaign headquarters, but failed to achieve his reinstatement. So much for Brazil’s claim never to intervene in the internal affairs of others. This was different, say Brazilian diplomats, because it was a coup. Yet Brazil has snuggled up to Cuba and Iran, stayed silent when Nicaragua’s Daniel Ortega stole a municipal election last year, and kept mum as Mr Chávez has neutered the institutions of Venezuelan democracy."
Ou seja, o velho "dois pesos e duas medidas", que nosso governo atual adora usar. Além disso, a revista aponta o verdadeiro risco à democracia na região, que não vem de golpes militares, mas de golpes dentro da própria "democracia", como faz Chávez na Venezuela:
"[...] contrary to Brazil’s claim, the biggest threat to Latin American democracy today is—happily—not coups: it is elected presidents who themselves corrode democracy as, to an extent, Mr Zelaya did. Mr Lobo’s election provides one answer to that, but the way it came about was ugly, damaging and ought not to be repeated."
Aos poucos, a máscara do governo Lula vai cair lá fora também, deixando transparecer a realidade por trás da imagem criada: uma cambada de hipócritas!
sexta-feira, dezembro 04, 2009
A Esquizofrenia de Krugman

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal
O economista Paul Krugman advertiu que uma bolha pode estar em gestação no Brasil. Ele disse: “O Brasil está indo bem, mas isso não quer dizer que vá se tornar uma superpotência econômica no ano que vem. Os mercados, porém, estão agindo como se isso fosse ocorrer”. Krugman disse ainda que pretende colocar seu dinheiro onde está sua boca, ou seja, vender ativos brasileiros que possui em seu portfólio. Para o Prêmio Nobel, “os mercados estão perdendo o contato com a realidade”.
Eu tendo a concordar com o diagnóstico. Já escrevi para o jornal Valor Econômico alguns artigos alertando para o risco de uma bolha nos ativos brasileiros, com claros sinais de espuma. Mas não deixo de ficar perplexo com a origem desse diagnóstico: ninguém menos que o maior defensor de suas causas! Krugman é talvez o mais ativo proponente dos estímulos fiscais e monetários do governo americano. Ele acha que o governo foi muito tímido em sua maciça injeção de liquidez nos mercados e aumento astronômico de gastos. Para ele, o governo deveria ter feito muito mais!
Ora, mas essa política de juros artificialmente reduzidos a zero e expansão de gastos públicos foi justamente a principal causa da corrida desesperada por ativos estrangeiros, entre eles os brasileiros. Sem chance de retorno em casa, os investidores partiram para o “carry trade” com o dólar: tomam dívida nessa moeda e compram qualquer coisa fora. Boa parte da alta na bolsa brasileira e da valorização do real pode ser explicada por essas medidas pregadas pelo próprio Krugman, que agora se faz de desentendido diante de suas conseqüências inevitáveis. Primeiro Krugman pede uma bolha para curar os efeitos da outra que estourou, e depois reclama que temos uma nova bolha?
Estou preocupado com a saúde mental do economista preferido do New York Times e de muitos esquerdistas, que enxergam em suas teorias keynesianas justificativas para aumentar o tamanho do governo na economia. Seria o caso de uma esquizofrenia?
quinta-feira, dezembro 03, 2009
Deu no Valor Eonômico
Palavra do gestor:
Onde está a estratégia de retirada dos estímulos?
Rodrigo Constantino
03/12/2009
Alguns dados já mostram que as economias reagem positivamente aos estímulos fiscais e monetários dos governos do mundo todo e as bolsas disparam de forma ainda mais espetacular. O clima de euforia está de volta. Se Greenspan teve sua parcela de culpa na bolha anterior por manter a taxa de juros artificialmente reduzida por tempo demais, parece que isso já foi esquecido. Bernanke deseja repetir o feito: uma nova bolha para "curar" os males causados pela anterior.
Politicamente, a inação diante de um "credit crunch" causado por excesso de crédito fácil pode ser fatal. Os governantes são impelidos a agir, evitando o sofrimento da fase de ajustes. Tal como um organismo exposto por tempo demais à euforia gerada pelo excesso de bebida, a economia precisa enfrentar uma fase de ressaca para eliminar os excessos da bolha. Mas ressaca nunca é algo popular, e todo político luta para postergar sua chegada. Na última crise, não foi diferente e o grau de injeção de liquidez foi impressionante.
O Federal Reserve (Fed, Banco Central americano) assumiu o papel dos bancos comerciais em dificuldade, estendendo seu balanço de forma assustadora. Sua independência em relação ao governo americano encontra-se ameaçada. Além disso, o próprio governo vem expandindo seus gastos de forma insustentável, com um déficit acima de US$ 2 trilhões este ano. E para piorar a situação, o governo americano não está sozinho nessa empreitada.
O governo chinês, por exemplo, vem mantendo um crescimento da base monetária próximo de 25% ao ano. O Banco Central Europeu mantém uma política agressiva de juros baixos. O Banco da Inglaterra idem. Em suma, todos os governos e seus braços monetários estão inundando os mercados financeiros com moeda de papel na esperança de reativar o crescimento econômico. Porém, este depende de investimentos produtivos, resultante de mais poupança. Não é possível manter de forma sustentável um crescimento dependente da injeção de moeda pelos bancos centrais ou de gastos públicos. Cedo ou tarde, a conta terá de ser paga pelo aumento dos juros ou dos impostos.
O foco dos bancos centrais nos índices de inflação pode ofuscar a visão da realidade. Com capacidade ociosa na economia, desemprego elevado e bancos ainda relutantes em aumentar o crédito novamente, os estímulos fiscais e monetários demoram a bater nos preços finais de bens e serviços. Um tipo diferente de inflação ocorre: a do preço dos ativos. Em outras palavras, uma nova bolha especulativa acaba sendo estimulada e muitos passam a confundi-la com uma recuperação econômica verdadeira. Mas faltam os alicerces básicos para uma retomada econômica sustentável. Quando as doses de injeção de liquidez forem reduzidas ou revertidas, o impacto poderá ser brutal. Os mercados, como um viciado, necessitam de cada vez mais doses apenas para manter o clima de euforia.
Surge a importante questão: onde está a estratégia de retirada dos estímulos? Paul Volcker, o ex-chairman do Fed, teve coragem de subir drasticamente as taxas de juros na década de 1980 para debelar a inflação galopante. Mas Jimmy Carter era um presidente fraco e o banco central conseguiu atuar com independência política. Reagan, que assumiu depois, nutria simpatia pelo livre mercado e apoiou as medidas impopulares do Fed. Será que Bernanke teria a mesma coragem de Volcker, sendo ele um defensor da política de jogar dólares do helicóptero para evitar uma depressão? Será que Obama está disposto a encarar uma recessão dura para evitar uma inflação descontrolada?
Com custos políticos elevados demais, parece razoável supor que o Fed ficará atrás da curva: vai aguardar uma confirmação plena da recuperação econômica antes de subir os juros. A inflação será uma preocupação secundária ante o foco no crescimento econômico. Mas, postergando a retirada dos estímulos, o governo estará também ampliando sua necessidade no futuro. Os vigilantes dos títulos do governo americano parecem ignorar este risco por enquanto.
Mas o dólar já acusa o golpe. Como a Geni da música, a moeda americana vem apanhando de todo mundo. A aposta do momento tem sido o "carry trade" com o dólar, ou seja, assumir passivo nesta moeda e investir em qualquer outro ativo estrangeiro. O euro já chegou a US$ 1,50 e o ouro disparou para US$ 1.200 a onça. Afinal, nenhum banco central pode imprimir ouro. O fato é que o dólar está em xeque. E se o governo americano não tiver uma estratégia decente de saída para essa sinuca de bico atual? Até quando os credores em dólares vão suportar esta situação?
Rodrigo Constantino é economista e gestor de recursos
Onde está a estratégia de retirada dos estímulos?
Rodrigo Constantino
03/12/2009
Alguns dados já mostram que as economias reagem positivamente aos estímulos fiscais e monetários dos governos do mundo todo e as bolsas disparam de forma ainda mais espetacular. O clima de euforia está de volta. Se Greenspan teve sua parcela de culpa na bolha anterior por manter a taxa de juros artificialmente reduzida por tempo demais, parece que isso já foi esquecido. Bernanke deseja repetir o feito: uma nova bolha para "curar" os males causados pela anterior.
Politicamente, a inação diante de um "credit crunch" causado por excesso de crédito fácil pode ser fatal. Os governantes são impelidos a agir, evitando o sofrimento da fase de ajustes. Tal como um organismo exposto por tempo demais à euforia gerada pelo excesso de bebida, a economia precisa enfrentar uma fase de ressaca para eliminar os excessos da bolha. Mas ressaca nunca é algo popular, e todo político luta para postergar sua chegada. Na última crise, não foi diferente e o grau de injeção de liquidez foi impressionante.
O Federal Reserve (Fed, Banco Central americano) assumiu o papel dos bancos comerciais em dificuldade, estendendo seu balanço de forma assustadora. Sua independência em relação ao governo americano encontra-se ameaçada. Além disso, o próprio governo vem expandindo seus gastos de forma insustentável, com um déficit acima de US$ 2 trilhões este ano. E para piorar a situação, o governo americano não está sozinho nessa empreitada.
O governo chinês, por exemplo, vem mantendo um crescimento da base monetária próximo de 25% ao ano. O Banco Central Europeu mantém uma política agressiva de juros baixos. O Banco da Inglaterra idem. Em suma, todos os governos e seus braços monetários estão inundando os mercados financeiros com moeda de papel na esperança de reativar o crescimento econômico. Porém, este depende de investimentos produtivos, resultante de mais poupança. Não é possível manter de forma sustentável um crescimento dependente da injeção de moeda pelos bancos centrais ou de gastos públicos. Cedo ou tarde, a conta terá de ser paga pelo aumento dos juros ou dos impostos.
O foco dos bancos centrais nos índices de inflação pode ofuscar a visão da realidade. Com capacidade ociosa na economia, desemprego elevado e bancos ainda relutantes em aumentar o crédito novamente, os estímulos fiscais e monetários demoram a bater nos preços finais de bens e serviços. Um tipo diferente de inflação ocorre: a do preço dos ativos. Em outras palavras, uma nova bolha especulativa acaba sendo estimulada e muitos passam a confundi-la com uma recuperação econômica verdadeira. Mas faltam os alicerces básicos para uma retomada econômica sustentável. Quando as doses de injeção de liquidez forem reduzidas ou revertidas, o impacto poderá ser brutal. Os mercados, como um viciado, necessitam de cada vez mais doses apenas para manter o clima de euforia.
Surge a importante questão: onde está a estratégia de retirada dos estímulos? Paul Volcker, o ex-chairman do Fed, teve coragem de subir drasticamente as taxas de juros na década de 1980 para debelar a inflação galopante. Mas Jimmy Carter era um presidente fraco e o banco central conseguiu atuar com independência política. Reagan, que assumiu depois, nutria simpatia pelo livre mercado e apoiou as medidas impopulares do Fed. Será que Bernanke teria a mesma coragem de Volcker, sendo ele um defensor da política de jogar dólares do helicóptero para evitar uma depressão? Será que Obama está disposto a encarar uma recessão dura para evitar uma inflação descontrolada?
Com custos políticos elevados demais, parece razoável supor que o Fed ficará atrás da curva: vai aguardar uma confirmação plena da recuperação econômica antes de subir os juros. A inflação será uma preocupação secundária ante o foco no crescimento econômico. Mas, postergando a retirada dos estímulos, o governo estará também ampliando sua necessidade no futuro. Os vigilantes dos títulos do governo americano parecem ignorar este risco por enquanto.
Mas o dólar já acusa o golpe. Como a Geni da música, a moeda americana vem apanhando de todo mundo. A aposta do momento tem sido o "carry trade" com o dólar, ou seja, assumir passivo nesta moeda e investir em qualquer outro ativo estrangeiro. O euro já chegou a US$ 1,50 e o ouro disparou para US$ 1.200 a onça. Afinal, nenhum banco central pode imprimir ouro. O fato é que o dólar está em xeque. E se o governo americano não tiver uma estratégia decente de saída para essa sinuca de bico atual? Até quando os credores em dólares vão suportar esta situação?
Rodrigo Constantino é economista e gestor de recursos
quarta-feira, dezembro 02, 2009
Populismo na América Latina - Vídeo
Trecho da palestra que dei no colóquio do Instituto Millenium sobre o populismo na América Latina.
terça-feira, dezembro 01, 2009
O ‘mensalão’ do DEM

Rodrigo Constantino
Os novos escândalos em Brasília suscitam reflexões sobre o sistema político totalmente podre no país. O governador José Arruda foi pego num profundo esquema de corrupção. As imagens dos vídeos, ao contrário do que afirma o presidente Lula, falam por si só. Não há como negar fatos tão escancarados. Ou Arruda era chefe de uma quadrilha, ou fazia parte dela, de forma passiva. A desculpa esfarrapada de que o dinheiro servia para comprar panetones para crianças carentes ofende o bom senso daqueles que ainda o possuem nesse país. O Brasil virou mesmo um grande circo, e os palhaços somos nós!
O primeiro ponto a ser abordado é o estágio de metástase que o câncer da corrupção chegou no Brasil. Todos os grandes partidos parecem verdadeiras máfias organizadas, com as metas de chegar ao poder, desviar recursos públicos e se perpetuar na mamata. Como explicar milhões gastos em campanhas para receber um salário de poucos milhares? Haja altruísmo! Claro que a realidade é outra: a política virou um negócio lucrativo para mafiosos. Gente inescrupulosa é atraída para a política para “se dar bem” à custa dos nossos impostos. Eis a verdadeira luta de classes existente no país: de um lado consumidores dos impostos, e do outro os pagadores. Quando as vantagens de ser um parasita são grandes demais, o resultado é cada vez menos hospedeiro pagando a conta.
Os principais partidos estão cada vez mais parecidos. O PT teve seu esquema nacional de “mensalão”, o PSDB teve o seu em Minas Gerais e agora o DEM apresenta sua versão no Distrito Federal. Iludem-se aqueles que sonham com a chegada de um novo partido “diferente de tudo isso que está aí”, formado por santos honestos e preocupados somente com o “bem-geral”. A política é um jogo sujo, e acaba atraindo os piores tipos. Claro que existem exceções, mas esse “jogo democrático” não passa de uma guerra pelo poder, onde os fins justificam quaisquer meios. Alguém realmente acha que o PV de Marina Silva seria tão diferente no poder? Alguém acredita que Ciro Gomes mudaria tudo isso?
A mudança não vai ocorrer através do próprio meio político, com a tomada de poder pelos “bons revolucionários”. O corporativismo dessa gente é de assustar. Mesmo políticos “concorrentes” ficam receosos nessas horas, tímidos nos ataques, sem demandar medidas drásticas e imediatas, justamente porque sabem que amanhã podem ser eles no vídeo. Todos têm rabo preso. Além disso, parece paradoxal esperar um grande programa de redução do poder político através da conquista do próprio poder político. Não é por aí que vem alguma mudança estrutural. Mas de onde ela virá então?
Eis onde surge a importância da luta no campo das idéias. Somente mudando a mentalidade da maioria das pessoas poderemos mudar essa realidade lamentável. Educando as massas, enfim! Mas não através do próprio governo, naturalmente. Como esperar educação liberal, de boa qualidade, que estimula um olhar crítico, justamente através daquele interessado em manter o povo na completa ignorância? O governo tem interesse em manter o povo refém, reverenciando o próprio governo como uma espécie de deus. Somente quando esta mentalidade mudar haverá menos escândalos de corrupção. Afinal, esta é diretamente proporcional à concentração de poder e recursos no governo. Quando o sucesso de uma empresa depende da canetada de um burocrata, parece lógico que a corrupção será fomentada. É preciso retirar o governo da economia!
Outra causa importante da corrupção é a impunidade. Uma reforma no Judiciário é fundamental, para reduzir a morosidade dos julgamentos. Acabar com os privilégios dos políticos também é primordial para evitar que tudo acabe em “pizza”. Mas, novamente, isso só será viável através da mudança da mentalidade das pessoas. Enquanto os eleitores votarem nos políticos corruptos porque recebem migalhas em troca, porque estão satisfeitos com a economia etc., o recado será perverso: a imoralidade não tem custo. É preciso dar um basta a isso, eliminar da vida pública aqueles que, pelo menos, foram pegos roubando. Isso não vai garantir que os novos eleitos sejam honestos, pelos motivos expostos acima. Mas ao menos será um recado um pouco mais duro para os que foram pegos com a boca na botija. O recado das urnas já é um começo.
Por fim, os liberais só têm a agradecer pelo fato de o PFL ter mudado de nome para DEM. Nessas horas fica mais claro porque o movimento liberal deve ser apartidário, lutando principalmente no campo das idéias. Um partido como o DEM não deve mesmo usar o termo “liberal” em sua sigla. O que César Maia tem de liberal, por exemplo? Qual o programa do DEM que realmente defende valores liberais? Nós, liberais, não queremos ligações com fisiologistas de “direita”, que pregam concentração de poder no governo.
Claro, o DEM pode abrigar algumas pessoas sérias e até com genuíno viés liberal. Até torço para que essas pessoas consigam expulsar os velhos caciques do partido e mudar sua cara. Mas qual a probabilidade real disso? A esperança é a grande falsária da verdade! Não parece mais provável que essas pessoas sérias é que serão eliminadas do partido? Infelizmente, sim. Por isso, quando me perguntam por que não entro para a política, respondo que não toleraria o seu jogo sujo, e por conseqüência não sobreviveria por muito tempo nela (ou literalmente). Prefiro tentar mudar alguma coisa através de artigos como esse. É mais saudável para minha saúde física e mental.
segunda-feira, novembro 30, 2009
Ayn Rand na Globonews - HOJE!

A vida da escritora e filósofa russo-americana Ayn Rand se assemelha a um roteiro de cinema.
Judia, fugitiva da revolução russa, chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920, como sonho de ser atriz e escritora. Conheceu o famoso diretor de Hollywood, Cecil B. DeMille e se tornou atriz de filmes mudos, roteirista e escritora. Casou-se com o ator Frank O’Connor e se tornou uma das mais influentes escritoras dos Estados Unidos.
O correspondente Jorge Pontual conversou com a escritora Anne Heller, que acaba de lançar a mais completa biografia de Ayn Rand, para uma conversa sobre a autora cujos livros ainda são sucesso de vendas 50 anos depois de lançados, como os casos de The Fountainhead (A Nascente) e Atlas Shrugged (Quem é John Gault?).
Ayn Rand forjou o conceito de “objetivismo”, que defende o uso da razão, da ética e do individualismo como instrumentos para que o ser humano decida seu próprio destino e valores morais, tendo a opção de não se sacrificar por outro ser humano ou ser alvo do sacrifício de outros. A entrevista será levada ao ar segunda, dia 30/11, às 23:30
Para quem tiver interesse, ainda tenho alguns exemplares do meu livro "Egoísmo Racional" para vender. Custa R$ 20 e posso mandar pelo Correio. Basta mandar um email para mim, fazer o depósito e passar o endereço. Email: constantino.rodrigo@gmail.com
Presente de Grego

Rodrigo Constantino
A revista VEJA desta semana tem uma matéria sobre o livro Scroogenomics, do economista americano Joel Waldfogel, bem interessante. Em todo Natal bilhões de dólares são destruídos no mundo todo. "A cada dezembro, presentes ruins transformam em pó algo em torno de 25 bilhões de dólares ao redor do mundo", diz. "Isso faz do Natal uma das mais formidáveis máquinas de destruição de valor já criadas pela humanidade". Eis a passagem que merece destaque:
"A ideia central de Waldfogel tem a ver com o conceito de valor – que é diferente do de preço. O valor de um produto tem algo de subjetivo. Está relacionado à satisfação que ele proporciona. Um gasto é bom para o consumidor final quando a satisfação obtida com o produto excede o preço pago. Na situação inversa, destrói-se valor. Embora às vezes a percepção de nossos próprios interesses possa ser turvada, de maneira geral, diz Waldfogel, quando saímos de casa para comprar uma roupa ou um CD, sabemos escolher direito. Mas, quando outras pessoas escolhem por nós, a relação entre valor e preço fica negativa."
Desde Carl Menger sabemos que o valor é subjetivo. Esse é um dos pilares mais importantes da Escola Austríaca, fundada por Menger. Partindo dessa lógica, fica até bastante óbvio concluir que presentes de Natal acabam destruindo valor. Afinal, o preço pago por quem compra o presente dificilmente será equivalente ao valor extraído por quem o recebe. Se a própria pessoa pudesse escolher, usando a mesma quantia, sem dúvida saberia melhor o que ela mesma prefere. Por isso os "vale-presentes" estão ficando mais comuns, apesar de parecerem mais "frios".
"Dar dinheiro seria mais simples, mas na maioria dos países há um estigma associado aos presentes em dinheiro. Em certas situações, eles são considerados até mesmo rudes", diz Waldfogel. Mas isso não muda o fato de que seria mais eficiente, do ponto de vista do valor gerado para a sociedade.
Faltou apenas à reportagem concluir o óbvio, indo além na mesma lógica: não apenas presentes de Natal destroem valor, mas - e principalmente, os gastos públicos são as verdadeiras máquinas de destruição de valor! No caso do presente, ainda temos a boa intenção de quem compra, que conhece o beneficiário e deseja agradá-lo. Mesmo assim não há garantia de sucesso. Mas no caso dos gastos do governo a situação é muito pior. Não só quem gasta não se importa muito com quem supostamente recebe os benefícios dos gastos, como não é ele quem paga a conta.
Os gastos do governo são problemáticos justamente por esta característica: governantes vão às compras usando o dinheiro da "viúva", retirado na marra, sem consentimento, e não estão muito preocupados com os benefícios gerados por tais gastos. Não são santos, afinal de contas, mas indivíduos que buscam a satisfação de seus próprios interesses. Na verdade, existe um grande incentivo à corrupção, quando governantes gastam o dinheiro dos outros com si próprios. Até um carro oficial para levar uma cadela sozinha pode resultar disso!
Se o presente de Natal pode ser ruim para a economia, como tenta mostrar Waldfogel, imagine o grande presente de Grego que é o gasto público!
sábado, novembro 28, 2009
O Esquerdismo dos Intelectuais
Rodrigo Constantino
Por que tantos cineastas são de esquerda, defensores do intervencionismo estatal na sociedade? Essa pergunta pode ser feita de forma ainda mais abrangente: por que tantos intelectuais desprezam o livre mercado e aderem ao socialismo? Parte da resposta talvez esteja na aleatoriedade das escolhas do público.
Em O Andar do Bêbado, Leonard Mlodinow mostra como o acaso muitas vezes influencia a ponto de determinar nossas vidas. Logo no primeiro capítulo, o autor usa como exemplo para ilustrar a aleatoriedade de eventos justamente o setor de cinema em Hollywood. Ele mostra como chega a ser imprevisível detectar um padrão de comportamento no sucesso ou fracasso dos lançamentos dos principais estúdios. A sorte acaba exercendo um papel fundamental no resultado de bilheteria dos filmes.
Um dos exemplos é o filme A Bruxa de Blair, que custou aos produtores meros US$ 60 mil, mas que rendeu US$ 140 milhões em bilheteria, o triplo do que rendeu O Exorcista, filme cujo custo foi estimado em US$ 80 milhões. Claro que a qualidade do filme é importante, assim como a competência do produtor, diretor, roteirista, atores, etc. Mas o ponto é que são tantos fatores que determinam o desempenho de um filme, ele sofre tantas influências imprevisíveis e incontroláveis, que não seria possível afirmar com grande dose de confiança qual filme será um estouro e qual será um fiasco.
Vários filmes milionários, com atores super famosos, foram vergonhosos fracassos, sem que ninguém pudesse ter previsto isso antes. Por outro lado, filmes que diversos estúdios rejeitaram, por considerá-los terríveis, tornaram-se verdadeiros blockbusters. Isso não ocorre somente com filmes. O mesmo se passa com livros, onde escritores como John Grisham e J.K. Rowling tiveram suas obras rejeitadas dezenas de vezes, antes de virarem celebridades. Não é nada fácil antecipar quais serão os best-sellers e quais ficarão encalhados nas prateleiras.
Nada disso anula a relevância da capacidade. Como o próprio Mlodinow explica, “isso não quer dizer que a habilidade não importe – ela é um dos fatores ampliadores das chances de êxito - , mas a conexão entre ações e resultados não é tão direta quanto gostaríamos de acreditar”. Talvez o talento seja uma condição necessária, mas não suficiente para o sucesso. Até porque cinema e literatura são meios altamente competitivos. E, principalmente, porque as preferências e modismos das massas são imprevisíveis. Aquilo que o grande público vai gostar não é algo simples de prever.
Mas o que isso tudo tem a ver com o esquerdismo predominante em Hollywood e entre os intelectuais? Ora, essa característica aleatória das escolhas do público pode ser muito cruel com os autores. Um dia eles são estrelas, quase deuses, e no outro podem estar esquecidos, mergulhados numa fase decadente. Nada garante o sucesso sustentável. O público, por qualquer motivo aparentemente inexplicável, pode lotar as salas de cinema para ver um filme que nenhum chefão de Hollywood achava que faria sucesso, e pode também se recusar a assistir uma produção milionária com atores já renomados.
A imprevisibilidade e a instabilidade da demanda produzem muita ansiedade nos produtores. Ficar à mercê dos ventos do momento, que podem mudar de direção sem aviso prévio, pode ser desesperador. A competição acirrada e essa demanda randômica assustam. Além disso, muitos produtores gostam de fazer filmes “cabeça”, enquanto nada garante que esta seja a demanda do grande público. Esse fator é ainda mais visível no caso francês. Se ao menos houvesse uma maneira de evitar tanto sofrimento e angústia! Infelizmente, existe uma forma de fugir desta tensão: não depender tanto da demanda. E como isso seria possível? Garantindo antecipadamente uma espécie de reserva de mercado, através do governo, claro.
Desta forma, a simbiose entre produtores e governantes permite satisfação mútua para ambos os lados. No caso de Hollywood a troca é mais sutil e indireta, enquanto no Brasil o acordo é mais direto e escancarado. Os produtores fazem filmes com o suporte do governo, recebendo financiamento dos impostos, cotas nas salas de cinema são reservadas para filmes nacionais e agora o governo pretende levar os filmes para os mais pobres através dos “cinemas populares”. Já os governantes, donos da caneta poderosa, fazem com que os filmes mais alinhados aos seus interesses sejam os vencedores nessa disputa política. Filmes enaltecendo políticos em particular e o governo em geral, acabam sendo os escolhidos para os privilégios. Quem sai perdendo é o público, como sempre...
Resumindo, a aleatoriedade da demanda do público pode ser uma, entre outras*, das causas do esquerdismo predominante no meio intelectual. Os produtores acabam buscando refúgio na segurança do governo, onde a troca de favores fala mais alto. Dessa forma, eles não precisam se submeter à “tirania do mercado”, ou seja, aos gostos e preferências dos consumidores.
* Outras possíveis explicações para a predominância esquerdista no meio intelectual foram levantadas por gente como George Stiegler e Hayek.
sexta-feira, novembro 27, 2009
A Bolha na China
Vejam nessa reportagem a cidade fantasma na China. Os incentivos distorcidos do sistema, que depende das decisões de burocratas e políticos cuja meta é apenas crescimento do PIB, acabam gerando esse tipo de absurdo. Uma cidade nova e fantasma, num país com mais de um bilhão de habitantes, a maioria gente pobre que ainda vive no meio rural. A obsessão pelo crescimento do PIB, uma invenção keynesiana que não capta corretamente a qualidade da economia (gasto do governo é positivo para o PIB!), tem produzido o que os austríacos chamam de "malinvestments". Até quando a bolha chinesa aguenta? Eis a questão...
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