segunda-feira, março 31, 2008

Entre Bonobos e Chimpanzés


Rodrigo Constantino

"Eis a beleza da reciprocidade: a generosidade compensa." (Frans de Waal)

"Podemos tirar o primata da selva, mas não a selva do primata". Eis como Frans de Waal começa seu livro Eu, Primata, onde argumenta que costumamos culpar a natureza pelo que não gostamos em nós, mas esquecemos de dar-lhe crédito pelo que gostamos. O biólogo holandês foca bastante no comportamento do nosso outro parente primata, muitas vezes ignorado, que são os bonobos. Ao contrário dos chimpanzés, eles apresentam comportamento bem mais pacífico, resolvem disputas através do sexo e são comunidades matriarcais. Para ressaltar nossa natureza violenta, muitos citam os chimpanzés, e deixam de lado os bonobos, nosso outro parente próximo que desmente a idéia de que nossa linhagem é puramente sanguinária.

Para Waal, "o chimpanzé, brutal e sedento de poder, contrasta com o pacato e erótico bonobo; são como dr. Jeckyll e mr. Hyde". Para ele, "nossa natureza é um casamento incômodo dos dois". Isto estaria por trás dos sentimentos opostos onde ora nos vemos como a "jóia da criação" e ora como os grandes vilões do mundo. Não é possível negar inúmeras características humanas, especialmente no meio político*, que nos remetem ao comportamento dos chimpanzés. A busca desenfreada pelo poder desperta o que há de pior nos seres humanos. Mas, por outro lado, a sensibilidade e a empatia dos mais pacíficos bonobos são igualmente detectáveis em nossa espécie. Habitam em nossa natureza vestígios tanto de um quanto do outro. A diferença fundamental entre nossos dois parentes mais próximos, segundo Waal, é que "um resolve as questões de sexo com poder, e o outro, as questões de poder com sexo".

Frans de Waal não concorda com a visão pessimista de que os homens são os lobos dos homens, e que somos a única espécie na Terra que pode vencer os instintos básicos, como se estes fossem todos de natureza negativa. Para ele, assim como para Darwin, nossas características humanitárias baseiam-se em instintos sociais que temos em comum com outros animais. Existem diversos relatos de ações nobres praticadas por animais, como uma gorila que ajudou um menino que caiu no zoológico ou uma chimpanzé que tentou salvar um pássaro machucado. O que consideramos um código moral pode muito bem ter sua origem no próprio processo evolutivo. As pessoas confundem muitas vezes o processo com o resultado, achando que a seleção natural, por ser um processo cruel e impiedoso de eliminação, tem necessariamente que produzir criaturas cruéis e impiedosas. Waal chama essa confusão entre processo e produto de "erro de Beethoven", lembrando que o mestre criou suas sofisticadas sinfonias num verdadeiro chiqueiro. Coisas maravilhosas podem nascer em circunstâncias atrozes.

O animal homem, com características similares tanto aos chimpanzés como aos bonobos, supera seus parentes próximos tanto do lado positivo da escala como do negativo. Para ser cruel, o homem é capaz de atrocidades espantosas, como os regimes nazista e comunista demonstraram. Mas para fazer o bem, o homem também demonstra uma capacidade bastante superior, pelo grau de empatia que é capaz de sentir, pois pode se imaginar no lugar do sofredor como nenhum outro animal. Temos uma natureza tanto competitiva como solidária. "Para serem bem-sucedidos, os animais sociais têm de ser falcões e pombas", afirma Waal. Quanto maior a dependência mútua, maiores as chances de harmonia no convívio. Afinal, quando o seu sucesso depende do sucesso alheio, a hostilidade perde muito de seu sentido. Por isso a globalização e a divisão de trabalho acabam funcionando como entraves para guerras, enquanto o isolamento favorece a hostilidade entre grupos.

A reciprocidade é um conceito fundamental para o convívio social. Sua origem pode estar na assistência aos parentes, favorecendo as chances de sobrevivência dos genes. Uma vez surgida a sensibilidade, seu alcance pode ter se expandido. A bondade que as religiões e filosofias recomendam já fazia parte de nossa condição humana. Para Waal, "não estão invertendo o comportamento humano, apenas ressaltando capacidades preexistentes". A empatia e a simpatia são sentimentos naturais aos humanos, tanto que uma pessoa que não as demonstra é vista como mentalmente doente e perigosa, um psicopata. Empatia, definida como a capacidade de ser afetado pelo estado de outro indivíduo ou criatura, é algo que outros animais além do homem também são capazes de expressar. Macacos em experimentos deixaram de puxar uma maçaneta que lhes fornecia comida quando companheiros ao lado levavam choque como resultado dessa ação. Um deles ficou doze dias sem comer!

A explicação de Waal para este ato altruísta não está na preocupação com o bem-estar alheio, mas na aflição causada pela aflição dos outros. Essa reação teria enorme valor para a sobrevivência. "Se outros demonstram medo e aflição, pode haver boas razões para que você também se preocupe", ele explica. Quando um pássaro no chão subitamente sai voando, todos os outros copiam. O que ficar para trás pode ser a presa. O pânico se alastra depressa provavelmente por este motivo, inclusive entre humanos. O auto-reconhecimento, que somente os grandes primatas apresentam, permite uma forma superior de empatia. Bonobos são capazes de consolar, perdoar e ajudar outros bonobos. A regra de ouro diz que não devemos tratar os outros como não desejamos ser tratados. Os nossos parentes mais próximos podem não conhecer de forma consciente esta regra, mas a seguem mesmo assim.

Os seres humanos não são insetos gregários, e Waal entende isso quando diz: "Não é o grupo o primeiro interesse de todo indivíduo, e sim ele próprio e sua família imediata". Mas isso não nos impede de alimentar sentimentos solidários. Afinal, tal postura está no nosso próprio interesse, além de ser totalmente natural. "Dar-se bem com os outros é uma habilidade crucial, pois as chances de sobreviver fora do grupo, em meio a predadores e vizinhos hostis, são desalentadoras", diz Waal. Somos seres sociais, sentimos necessidade de pertencer a um grupo. Mas isso não significa coletivismo, a ponto de colocar o grupo acima dos indivíduos, tampouco considerar estes simples meios sacrificáveis para o bem maior. Waal reconhece que "ser egoísta é inevitável e necessário, mas até certo ponto".

Quem ignora isso desconhece a nossa natureza. "Apesar dos imensos esforços doutrinários dos regimes comunistas, as pessoas se recusam a submergir em nome do bem comum", lembra o autor. Ele conclui sobre isso: "Somos sensíveis a interesses coletivos, mas não a ponto de abrir mão dos nossos interesses individuais. O comunismo ruiu devido a uma estrutura de incentivos econômicos em dessintonia com a natureza humana. Infelizmente isso só ocorreu depois de ter causado mortes e sofrimentos imensos".

O homem não é um escravo de seus genes. Ele possui o livre-arbítrio, ainda que influenciado por inúmeros fatores fora de seu poder. Além disso, ele também não é um chimpanzé ou um bonobo, mesmo que tenha um ancestral comum e compartilhe de uma estrutura genética bem parecida. Possuímos o instrumento epistemológico mais potente de todos: a razão. Podemos questionar sobre isso tudo, diferente dos outros primatas. Não obstante, observar nossos parentes próximos pode elucidar diversas coisas sobre certas tendências comportamentais. São influências que chamamos de "instinto", ainda que o nome possa gerar confusão. No entanto, o foco tem sido todo voltado para o comportamento dos violentos chimpanzés. Frans de Waal presta um bom serviço ao mostrar melhor outro parente, muito mais empático e amigável que o chimpanzé. Nossos "instintos básicos" não devem ser comparados somente aos desse primata. Em termos de uma "moral natural", estamos entre os bonobos e os chimpanzés.

* Waal questiona: "Alguém já ouviu um candidato admitir que quer o poder? Obviamente o termo ‘servir’ tem duplo objeto: quem acredita que é apenas pensando no nosso benefício que eles mergulham no mar de ofensas pessoais da democracia moderna? Será que os próprios candidatos acreditam nisso? Que sacrifício absolutamente incomum seria! Trabalhar com chimpanzés é um alívio: eles são os políticos sinceros pelos quais todos ansiamos". O curioso é tanta gente entender isso e, ainda assim, encarar o governo, formado por esses políticos em busca de poder próprio, como uma espécie de deus. O governo, formado por "chimpanzés egoístas", será o ente altruísta e clarividente. Talvez seja a maior e mais comum contradição do mundo!
PS: Sugiro o seguinte vídeo no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=Rh8gfIcjQNY

sexta-feira, março 28, 2008

Macunaíma


Novas pesquisas mostram que apenas 11% do povo brasileiro considera o governo Lula ruim ou péssimo. Em outras palavras: praticamente 90% dos brasileiros não prestam! Simples assim. Defender este governo é apoiar a imoralidade, a corrupção, o autoritarismo. O povo tem mesmo o governo que merece...

Conversa de Bar


O presidente Lula, com elevada aprovação, não tem compromisso algum com suas palavras. Se sempre foi uma metralhadora giratória de baboseiras e contradições, agora ficou ainda pior. A última foi sua declaração de que ligou para o presidente americano e disse: "Bush, o problema é o seguinte, meu filho, nós ficamos 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar. Resolve, resolve a tua crise". Fico imaginando o tradutor, falando "Bush, my son". Mas sabemos que Lula não ligou para ninguém. Ele mente mesmo, de forma compulsiva. E ainda enalteceu o PROER, adotado para salvar os bancos brasileiros no passado, sendo que o PT foi o maior crítico dessa ajuda na época. Assim é Lula, o maior consumidor de óleo de peroba do país, quiçá do mundo!

O Pacificador


O presidente Lula afirmou que Hugo Chávez foi o grande pacificador no conflito entre Equador e Colômbia. Chávez aproveitou sua visita ao Brasil para apoiar o MST, o bando de criminosos que incita e usa a violência o tempo todo. Chávez é aquele que anda comprando armas sem parar, e manda milhões para os terroristas das Farc. São estranhos os conceitos de paz do presidente Lula. Se o belicoso Chávez é um grande pacificador, nem quero imaginar o que Lula enxerga como um sujeito violento...

Prefeito Insano



Enquanto a dengue, doença de país pobre, continua se alastrando pelo Rio, o prefeito César Maia estava em Salvador, rezando para que os mosquitos fossem para o oceano. Não obstante nosso prefeito achar que mosquitos são como uma frente fria, resta lembrar da seguinte máxima: "Duas mãos trabalhando fazem mais que milhares rezando". Infelizmente, nosso prefeito ignora isso, e prefere rezar a fazer algo concreto. Quando coloca suas mãos para "trabalhar", é para escrever artigos no seu blog. O prefeito surtou de vez!

Covardia


Um deputado holandês lançou um filme mostrando trechos do Corão que incitam a violência. No vídeo, uma menininha de apenas 3 anos aparece falando mal dos judeus, vítima de lavagem cerebral. Uma das primeiras cenas é o atentado bárbaro de 11 de Setembro de 2001 nas torres gêmeas. O governo holandês se mostrou preocupado e criticou a iniciativa do deputado. Aparentemente, seria injusto falar que os islâmicos defendem o uso da violência (com certeza não é a maioria). O receio é que o vídeo que fala que os muçulmanos são violentos pode gerar uma onda de protestos... muito violentos. Para protestar contra a acusação de que são violentos, alguns muçulmanos radicais podem resolver matar uns holandeses inocentes. E a ofensa, segundo os covardes, vem de quem os chama de violentos, não da retaliação violenta...

Nacionalismo

Eis que por conta de um dia o empresário que fundou a Jet Blue poderá competir no mercado nacional. Afinal, ele é um "brasileiro", e essa é uma exigência para abrir uma empresa no setor aéreo. O caso é tão patético que ajuda a expor a estupidez do nacionalismo boboca. O que importa, para os consumidores, a nacionalidade dos empresários? Absolutamente nada! O importante é ter bons serviços e preços adequados, o que ocorre somente quando há livre concorrência. Deixem todos os gringos entrar nos setores que desejarem! O livre mercado é o maior amigo dos consumidores. O nacionalismo, que mantém uma Petrobrás estatal, é apenas a "doença infantil da humanidade", como disse Einstein.

quinta-feira, março 27, 2008

As Seqüelas da Crise



Rodrigo Constantino

"Se a incoordenação social da liberdade econômica é um defeito, maior, socialmente, é o defeito que nasce de essa liberdade se coordenar." (Fernando Pessoa)

Quando a economia americana entrou em depressão na década de 1930, uma das conseqüências mais negativas de longo prazo foi a crença amplamente disseminada de que a culpa estava no livre mercado, e não na hiperatividade do próprio governo. Tal mito foi responsável por um aumento assustador da intervenção estatal na economia, com graves resultados para o país. O New Deal foi visto por muitos como a salvação, ignorando-se os efeitos perversos dessa política ao longo do tempo. Os maiores gastos estatais foram causa da elevada inflação que assolou a nação depois, assim como o excesso de intervenção prejudicou a economia. A maioria era míope demais para enxergar esses efeitos, separados por décadas em alguns casos. Os economistas da Escola Austríaca faziam parte da minoria que era capaz de fazer a ligação causal lógica entre as medidas e os efeitos. Porém, tal como Cassandra, eram vítimas da maldição de que podiam ver melhor os perigos, mas não seriam escutados.

Na crise atual dos Estados Unidos, há o mesmo risco. A crise, por si só, já cobra um elevado preço, gerando perdas bilionárias, risco de desemprego e recessão. Tais são os efeitos nefastos no curto prazo. No entanto, existe um risco grande de mais longo prazo, que é a mentalidade mudar e demandar mais governo. Muitos correm o risco de sucumbir novamente à crença falsa de que foi o livre mercado o responsável pela crise, e que cabe ao governo "clarividente" evitar tais riscos no futuro, através de maior intervenção e regulação. Até mesmo o bom economista Martin Wolf, economista-chefe do Financial Times, aderiu a esta tese. Eis como ele começou seu artigo sobre o resgate do Bear Stearns: "Lembre a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado morreu". Wolf parece ter perdido a confiança no poder de autoterapia do mercado. Para ele, os Estados Unidos "estão mostrando os limites da desregulamentação". Mas será que é isso mesmo?

Felizmente, nem todos aceitam este diagnóstico. A respeitada revista britânica The Economist fez um excelente relatório sobre a crise atual, e afirmou que a crítica de que esta crise é o produto da desregulamentação no setor financeiro ignora um ponto importante: os piores excessos na bagunça das securitizações ocorreram precisamente onde a regulamentação pretendia proteger os bancos e investidores dos perigos do crescimento de crédito descontrolado. As regulamentações oferecem não apenas proteção, mas caminhos inteligentes para se ganhar dinheiro as contornando. As regras que exigem capital adequado para ativos também criam incentivos para que os bancos criem mecanismos que livrem os ativos dessa necessidade. As centenas de bilhões de dólares nos mecanismos mais "cinzentos" como SIVs foram resultado dessa tentativa de fugir das regras. As agências de risco também sofrem a pressão de incentivos perversos. A obrigação legal de vários fundos de pensão de investir somente em títulos com rating máximo criou distorções nos preços dos bonds, que puderam ser exploradas com elevados ganhos enquanto a festa durou.

Em resumo, muitas regras criadas pelo próprio governo acabam gerando efeitos indesejáveis, pois o mercado vai se ajustando e explorando as oportunidades que surgem pela intervenção arbitrária do governo. Além disso, a política de juros baixos adotada pelo Federal Reserve no passado pode ter contribuído para lançar lenha na fogueira, estimulando uma busca mais irresponsável por maiores retornos. Alan Greenspan teria sua parcela de culpa, ainda que seja um grande defensor, na teoria, da flexibilização dos mercados e redução da intervenção estatal na economia. O Fed de Bernanke está novamente hiperativo na tentativa de evitar o pior. O dólar acusa o golpe, perdendo valor frente às demais moedas, e uma nova bolha pode ser incentivada com essas medidas. Mas um dos grandes riscos existentes hoje é o retorno da descrença em relação ao livre mercado, depositando-se uma fé tola nos agentes do governo, que são seres humanos falhos também, e sob mecanismos inadequados de incentivos. Aqueles que ingenuamente encaram o governo como uma espécie de deus, capaz de resolver todas as falhas do mercado, ignoram tanto a lógica econômica como as evidências empíricas. O excesso de intervenção estatal na economia é um grande veneno. A atração dos leigos pela cicuta pode ser uma das grandes seqüelas desta crise.

sexta-feira, março 21, 2008

Direto do Sarcófago


Rodrigo Constantino

O artigo do presidente do Ipea Márcio Pochman, no jornal Valor de quinta-feira (20-03-08), foi realmente um show de horrores. É tanta besteira que mal sei por onde começar as críticas. Normalmente, nem vale a pena perder tempo com isso, mas nesse caso creio se tratar de uma exceção, por dois motivos: a elevada posição do autor, dirigindo um importante órgão de pesquisas econômicas do governo; o fato de estas falácias contidas no artigo serem repetidas ad nauseam pela esquerda, desinformando os leigos no assunto. Faz-se necessário expor, portanto, a mentalidade absurda presente no texto.

Logo no começo, o autor tenta colocar no mesmo saco podre o capitalismo e o comunismo: “Sabe-se, contudo, que simultaneamente ao desarranjo do império soviético, o centro da nata do capitalismo mundial convive com sinais de perda de influência no novo cenário econômico internacional”. O que Pochman quer dizer com isso? Será que ele está tentando afirmar que o capitalismo e seu grande ícone, os Estados Unidos, fracassaram tanto quando a União Soviética fracassou? Isso foi alguma piada sutil que eu não consegui entender? A economia americana ainda responde por cerca de um quarto do PIB mundial. Poderia alguém no cargo ocupado por Pochman ignorar este fato?

O economista tenta explicar: “Nos dias de hoje, a China já responde por um quarto da produção mundial de máquinas de lavar, um terço da de televisores, dois quintos da de microondas, metade da de câmeras, dois terços da de foto copiadoras e 90% da de brinquedos eletrônicos”. Ótimo! Eis a maravilha do mundo globalizado: cada um pode focar naquilo que possui vantagem comparativa. Os Estados Unidos viraram uma economia basicamente de serviços, enquanto a China se transformou na indústria mundial, principalmente de produtos mais simples, por enquanto. Todos ganham com essas mudanças.

Mas Pochman parece ter entendido tudo errado sobre as causas do recente sucesso chinês: “De posse de duas a cada três gruas do mundo, o país do meio na Ásia constrói a base material mais moderna da atualidade, reinventando o sistema econômico com inovação e padrão tripartite de gestão da produção (empresa, sindicato e Estado)”. A China não reinventou nada, ela apenas permitiu um funcionamento mais livre do mercado. Com suas zonas livres, menor intervenção estatal, capital estrangeiro abundante e o direito de propriedade melhor estabelecido, o país conseguiu retirar milhões da miséria, uma herança socialista. A China está melhorando a despeito do Estado, não por causa dele. Pelo contrário: ainda há intervenção demais, como no caso do setor financeiro. Isso prejudica o país, diferente do que Pochman acha. Isso sem falar da completa falta de liberdade em diversos campos, pois não devemos esquecer que a China convive com uma ditadura.

As pérolas continuam: “O desarranjo imposto pelas administrações recentes nos Estados Unidos somente consegue ser superado pelo largo fracasso do modelo neoliberal defendido pelos organismos multilaterais e aceito passivamente por diversos governos latino-americanos e caribenhos”. Não obstante ser muito cedo para falar em “desarranjo americano”, de onde será que Pochman tirou esta idéia maluca de que o neoliberalismo falhou na América Latina? Ele simplesmente nunca nos deu o ar de sua graça! Os países que abraçaram o liberalismo – ou um grau mais elevado de liberdade – prosperaram, enquanto a América Latina fracassou justamente por se afastar deste modelo, mantendo um governo inchado, gestor de empresas, interventor ao extremo na economia. Como pode alguém que comanda o Ipea inverter tanto a realidade dessa forma?

Mas o economista não parece satisfeito, e continua cavando mais fundo no buraco: “O resultado hoje é reconhecido: abertura comercial, privatização e internacionalização da produção não permitiram expansão sustentada do crescimento, tampouco transferência tecnológica e expansão social”. Desde quando abertura comercial e privatização prejudicam algum país? Não existem casos deste tipo! Podemos analisar os casos do Chile, Irlanda, Espanha, Austrália, Nova Zelândia, Islândia, todos eles são exemplos de sucesso das reformas liberais, que Pochman tanto condena. O governo brasileiro, por outro lado, continua dono de várias estatais sem sentido, como o Banco do Brasil e a Petrobrás, e nossa abertura comercial foi muito tímida. Não foi a globalização que falhou: foi a sua falta!

Mas para quem pensa que viu absurdo suficiente, está enganado: “O projeto de país circunscreveu ao primitivismo do combate à inflação, acreditando que, por conseqüência, o crescimento econômico se sustentaria por si próprio”. Pochman, recentemente, reclamou que o presidente Lula foca demais na inflação. Será possível que ainda exista economista que acredita na falsa dicotomia de mais inflação, mais emprego? Não foi suficiente observar que os países com maiores taxas sustentáveis de crescimento foram justamente os países com menor índice de inflação? O que Pochman está sugerindo? Que o país aceite conviver com um pouco mais de inflação, para gerar um crescimento artificial? Inflação, como bem sabem os brasileiros, é o imposto mais perverso que existe, pois ataca diretamente os mais pobres. Com amigos como Pochman, os pobres brasileiros não precisam de inimigos!

As idéias do presidente do Ipea parecem surgir direto de um sarcófago. São tão ultrapassadas, tão absurdas, tão refutadas pela lógica econômica e pelas evidências empíricas, que espanta ainda serem levadas a sério nesse país. Mas, caso fossem apenas motivo de piada, como deveriam ser, aí sim o tal neoliberalismo teria chegado ao país, e com certeza a realidade seria muito diferente. Seria muito melhor!

quarta-feira, março 19, 2008

O Excesso de Legislação


Rodrigo Constantino

"O que sempre fez do Estado um verdadeiro inferno foram justamente as tentativas de torná-lo um paraíso." (Hoelderlin)

Uma das características mais marcantes do mundo moderno é a crença na onisciência e clarividência do Estado. Este ente praticamente se transformou num Deus para muitos. E uma das conseqüências mais nefastas dessa mentalidade é o excesso de legislação, que asfixia a liberdade dos indivíduos. Em 1853, o filósofo Herbert Spencer escreveu um artigo, Over-Legislation, chamando a atenção para este lamentável fato. O que era um perigo já em seu tempo e na Inglaterra, tornou-se uma ameaça constante no mundo atual, principalmente no Brasil. Aqui, o governo cria infinitas leis sobre cada mínimo detalhe da vida cotidiana, transformando indivíduos em súditos.

Todos os dias as pessoas observam várias falhas nas ações governamentais e, não obstante, demandam sempre novos atos do governo e um time de burocratas para atingir os efeitos desejáveis. Repetem que falta apenas "vontade política", e para cada novo fracasso do governo, mais governo é visto como necessário. Em nenhum outro campo a fé eterna e inabalável dos homens pode ser mais bem notada. A iniciativa privada tem sido responsável pelos grandes avanços da humanidade, pelo progresso na saúde, pelas técnicas de produção modernas que permitem mais conforto a todos, pelos revolucionários métodos de transporte, pelas inovações da informática e mais uma infinidade de coisas. No entanto, permanece em muitos uma grande desconfiança em relação ao setor privado e aos empresários que buscam lucros, enquanto o governo fica blindado e protegido de todas as desgraças que causa, sendo visto como panacéia pelos esperançosos. Eis que o caminho para o combate a todos os males é o governo, para estes crentes.

Uma coisa é garantir a cada indivíduo o direito de perseguir seu próprio bem; outra coisa bem diferente é perseguir este bem por ele. Se definirmos como o principal dever do Estado a proteção de cada indivíduo contra os demais, então todas as outras ações estatais entram na definição de proteger o indivíduo contra si mesmo – contra sua estupidez, preguiça, irresponsabilidade, incapacidade etc. Trata-se de uma postura arrogante e ingênua. A proposição que os advogados de muito governo precisam aceitar é que, as coisas que as pessoas não serão capazes de obter por conta própria, serão oferecidas por uma parte do povo apontada pela lei. Os funcionários públicos amam seus vizinhos mais que eles mesmos! A filantropia dos burocratas é mais forte que o egoísmo dos cidadãos!

Esta fé tola no governo gera uma quantidade absurda de leis, regulando sobre tudo da esfera privada. Mas estes atos do governo não apenas falham; eles costumam piorar a situação. Como Spencer reconhece, milhares de famílias foram arruinadas pelos efeitos dos esforços legislativos para oferecer mais segurança material a elas. Poucas pessoas conseguem enxergar com clareza a ligação causal dessas medidas e dos fracassos que se seguem no decorrer do tempo. A miopia dos leigos faz com que apenas os efeitos de curto prazo sejam notados, ignorando-se as conseqüências negativas no longo prazo. O organismo social é complexo, e cada parte afeta a outra, muitas vezes de forma imprevisível. Nos esforços de curar males específicos, os legisladores causaram continuamente males colaterais que eles não esperavam.

Na iniciativa privada, aqueles que são mais competentes costumam obter sucesso, enquanto os incompetentes acabam ficando para trás. Nas organizações estatais isto não é verdade. As empresas privadas precisam alterar seu curso rapidamente se emergências surgem. Mas o setor público vive da rotina e da hierarquia, com os privilégios que lhes são garantidos. A vitalidade do setor privado advém da livre competição, enquanto as agências estatais sucumbem com freqüência à inércia. Quando a conexão entre o lucro obtido e o trabalho executado é destruída, a eficiência quase sempre é deixada de lado. Além disso, a corrupção é um resultado praticamente inevitável do modelo estatal de gestão.

Na maioria dos casos apontados como falhas do funcionamento da livre iniciativa, a aparente falta do setor privado é um resultado das interferências prévias do governo. Por um problema gerado pelo próprio governo, mais governo é a solução oferecida. Querem que sanguessugas curem a leucemia! Como um alquimista que atribui suas constantes decepções a alguma desproporção nos ingredientes, alguma impureza ou temperatura aplicada, e nunca à futilidade do processo ou impossibilidade de sua meta; todo fracasso das legislações do governo são explicadas, pelo crente do Deus Estado, como sendo culpa de algum detalhe qualquer, da falta de vontade dos políticos envolvidos, da ganância de alguns homens. Todas as superstições demoram a morrer, e Spencer temia que esta crença na onipotência do governo não seria uma exceção. Ele estava certo, infelizmente.

E no Brasil, mais do que em muitos outros países, sabemos disso muito bem. As leis brasileiras, incontáveis, tratam até da forma pela qual o pão será vendido! Temos um excesso incrível de legislação, incluindo uma enxurrada de medidas "provisórias" dignas de uma ditadura *, fruto da mentalidade de que o governo é um ente perfeito, uma espécie de Deus. Todos os fracassos diários deste ente "maravilhoso" não foram suficientes para abalar a fé dos crentes. Para estes, se ao menos tivéssemos um pouco mais de governo para resolver os nossos males, viveríamos num paraíso! O que importa a experiência mostrar que o inferno é gerado justamente pelo excesso de legislação? Quando os fatos vão contra a fé, os crentes simplesmente os ignoram. E eis o motivo de tanta gente demandar mais governo nesse país.

* O presidente Lula disse recentemente: "Todos sabem, deputados e senadores também, que é humanamente impossível governar sem medidas provisórias". Quando o tema era a CPMF, o presidente apelou para a mesma tática. Talvez seja o ideal tornar impossível o seu "governo". Afinal, como Henry David Thoreau já disse, "o melhor governo é aquele que governa menos". Chega de tantas Medidas Provisórias!