domingo, novembro 02, 2008

Os Defensores da Política Inflacionária



Rodrigo Constantino

“Inflação é o complemento fiscal do estatismo e do governo arbitrário”. (Ludwig von Mises)

Em The Theory of Money and Credit, Ludwig von Mises deixa claro que a inflação não é um ato divino, mas sim um resultado de políticas de governo. Ela é um subproduto das doutrinas que delegam ao governo o poder mágico de criar riqueza do nada e fazer o povo feliz através do aumento da “renda nacional”. O dinheiro é apenas um meio de troca para facilitar o escambo de produtos, através do uso de um denominador comum. Mas o que de fato se troca são bens e serviços, e a riqueza deve, portanto, ser criada pelos indivíduos. O produtor troca seus produtos no mercado para satisfazer suas demandas, recebendo em troca aquilo produzido por outros. Essa divisão de trabalho permite um ganho enorme de produtividade. Mas para consumir é preciso sempre produzir.

Isso parece bastante óbvio, mas infelizmente muitos economistas ignoram este fato da realidade. Estes acabam defendendo a ilusão de que o governo pode aumentar a riqueza real através de um estímulo artificial na atividade econômica, expandindo a circulação de dinheiro. O crédito fácil é visto como um substituto para o capital, e esse caminho leva inexoravelmente a graves crises. O que esses economistas não costumam levar em conta é que a transação de crédito é apenas uma troca de bens presentes por bens futuros. Aqueles que pouparam seu capital emprestam para aqueles que valorizam mais seu uso imediato, e a taxa natural de juros depende das diferentes preferências intertemporais dos agentes. A grande confusão de muitos – economistas e leigos – está na mistura dos conceitos de riqueza e dinheiro. Ambos não são sinônimos.

Mises expõe de forma brilhante os fundamentos monetários que garantem a liberdade de mercado. A doutrina liberal enxerga a economia de mercado como a melhor, se não a única possível, forma de organização da sociedade. A propriedade privada dos meios de produção costuma alocar capital para os mais hábeis em atender a demanda dos consumidores. Sendo um sistema de cooperação pacífica sob a divisão de trabalho, a economia de mercado necessita de instituições que protejam seus membros da agressão violenta de inimigos. A sociedade precisa de um aparato de defesa. Mas automaticamente surge o perigo de abuso desse poder. A força policial do Estado pode se voltar contra o próprio povo, e como evitar isso tem sido o grande problema político da humanidade. No entanto, o abuso de poder não é apenas físico. Ele pode ocorrer no âmbito monetário também. Por isso Mises achava impossível compreender o conceito de “dinheiro sólido” sem levar em conta que ele é um instrumento para a proteção das liberdades civis contra os caminhos despóticos dos governos. Ideologicamente esse conceito pertence ao mesmo grupo das constituições e “bills of rights”.

Nesse contexto, Mises entende que a grande vantagem do padrão-ouro é justamente blindar o poder de compra da moeda contra as políticas governamentais. O controle parlamentar das finanças públicas funciona somente se o governo não puder apelar para gastos não-autorizados através do aumento da circulação de papel-moeda. A política inflacionária costuma ser bastante popular, em grande parte pela compreensão inadequada de seus efeitos. Aqueles que demandam tal política estão sempre focando apenas em um lado da equação – o seu próprio. O que eles desejam é um aumento nos preços daquelas commodities e serviços que eles vendem, enquanto gostariam de ver os demais preços inalterados. Os ingênuos encaram a emissão de moeda pelo governo como uma espécie de milagre econômico. O fiat money é como se fosse um fiat lux! O governo cria algo ex nihilo, num estalo de dedos. O lastro para esse dinheiro não precisa ser mais do que o toner das impressoras do Tesouro. Um papel emitido pelo governo assume automaticamente o poder de ser trocado por qualquer mercadoria desejada. É a alquimia finalmente alcançada. Mises ironiza: como parece tímida a arte das bruxas se comparada com aquela do Departamento do Tesouro!

A ignorância do público é indispensável para esta política inflacionária. Mas, como dizia Lincoln, não é possível enganar todas as pessoas o tempo todo. Quando as massas entendem os esquemas dos governantes, e notam que o aumento dos preços é generalizado e artificial, então os planos inflacionários entram em colapso. O dinheiro só é aceito como tal se o comércio assim desejar. Quando o dinheiro compulsório do governo perde sua credibilidade, o próprio mercado adota algum mecanismo substituto. O papel-moeda passa a não valer mais nada, como aconteceu na Alemanha e Brasil, e ocorre atualmente no Zimbábue.

O padrão-ouro é um concorrente de peso para os governos, justamente porque o ouro quase sempre foi escolhido naturalmente como moeda. Mas os governos não gostam dessa concorrência, pois o padrão-ouro anula sua capacidade de usar o imposto inflacionário como disfarce para mais gastos. Quando muitos críticos do padrão-ouro alegam que ele fracassou, faz-se necessário lembrar que isso não ocorreu espontaneamente, mas sim como resultado de ações deliberadas dos governos. Todos os aparatos coercitivos do governo tiveram que ser usados para abolir o padrão-ouro, incluindo a proibição de compra e venda do ouro ou seu uso como moeda oficial em contratos comerciais. Até mesmo nos Estados Unidos a compra de ouro chegou a ser proibida em 1933. O padrão-ouro não faleceu naturalmente, mas foi assassinado pelo governo.

O padrão-ouro impede a falaciosa política de “pleno-emprego”. Como os salários acabam sendo mais rígidos por conta da pressão de sindicatos e decretos do governo – como o salário mínimo, cria-se artificialmente uma classe de desempregados, que estaria trabalhando se fosse possível cobrar menores salários. O governo adota então uma política de “pleno-emprego” para combater um mal criado por ele próprio. Como já entendia muito bem Keynes em 1936, reduz-se o salário real dos empregados, através do aumento de preços, para impedir uma redução em seu nível nominal. Keynes acreditava que esse caminho ofereceria menor resistência, mas talvez ele estivesse subestimando a capacidade dos trabalhadores de compreender a situação. O foco dos sindicatos nos índices de inflação, em vez de olhar apenas o salário nominal, comprova isso.

Aquilo que os inimigos do padrão-ouro costumam enxergar como seu grande vício pode ser justamente sua grande virtude: ele é incompatível com uma política expansionista de crédito. Qualquer um pode entender que uma maçã para consumo hoje vale mais do que uma maçã disponível para consumo em um ano. Mas os expansionistas acreditam que os juros são um entrave à expansão da produção, e que representam uma criação maligna dos interesses egoístas dos emprestadores. No entanto, é impossível substituir bens de capital inexistentes por papel-moeda ou crédito artificial. A expansão monetária pode causar um boom momentâneo, mas acaba inevitavelmente em recessão ou mesmo depressão. A festa bancada por crédito fácil acaba sempre em ressaca, e se esta for combatida com mais e mais liquidez artificial, pode acabar em cirrose.

O poder da impressão de dinheiro artificial nas mãos do governo sempre foi um enorme risco para a liberdade e prosperidade dos povos. Esse poder foi utilizado de forma abusiva desde quando o imperador romano Diocleciano resolveu reduzir o teor metálico das moedas, fazendo com que perdessem valor real. Em situações mais emergenciais, essa prerrogativa sempre costuma ser usada pelos governos. Em tempos de uma suposta ameaça de guerra ou crise econômica, os governantes acreditam na necessidade urgente de aumento dos gastos públicos, mas muitas vezes a maioria do povo não concorda. O governo então ignora a saída democrática de propor uma votação sobre os necessários sacrifícios momentâneos, preferindo o caminho do engano, através da política inflacionária. Não há transparência sobre os custos reais das medidas, e o governo se aproveita da ignorância das massas. O recurso inflacionário garante ao governo os fundos que ele não conseguiria captar através dos impostos diretos ou por emissão de dívida. Eis o verdadeiro motivo para uma política inflacionária. Seus defensores são inimigos do “dinheiro sólido” e, concomitantemente, da liberdade individual.

PS: A teoria sobre ciclos econômicos da Escola Austríaca nunca foi tão útil como nos dias atuais. Diante da crise financeira que segue fazendo vítimas no mundo todo, eis que o Federal Reserve, o banco central americano, expandiu a base monetária em 25% num único mês! Este aumento não tem precedentes desde que os dados começaram a ser computados. O governo coloca sua impressora de papel-moeda para rodar em um ritmo alucinado, na esperança de evitar uma dolorosa recessão necessária após um longo período de crédito abundante, estimulado pela política de juros artificialmente baixos. Para aqueles que não acreditam na alquimia, em milagres ou no toque de Midas do governo, estes dados são inquietantes. Especialmente para aqueles com poupança em dólar...

sábado, novembro 01, 2008

Governo Lula regulamenta a caipirinha



Finalmente o governo do presidente Luísque Inácio Lula da Silva usa seu típico autoritarismo para algo que ele entende!!! Esse é mesmo o país da piada pronta.

'Diário Oficial' publica regra para fazer caipirinha

O Ministério da Agricultura publicou, no Diário Oficial da União de sexta-feira, um regulamento técnico que estabelece "padrões de identidade e qualidade" para se preparar uma autêntica caipirinha. Segundo a publicação, as regras servem tanto para a bebida produzida no Brasil quanto à feita no exterior.

O regulamento, assinado pelo ministro Reinhold Stephanes, explica que os principais ingredientes são a cachaça, o limão e o açúcar. "O açúcar aqui permitido é a sacarose - açúcar cristal ou açúcar refinado -, que poderá ser substituída total ou parcialmente por açúcar invertido e glicose, em quantidade não superior a 150 g/l e não inferior a 10 g/l, não podendo ser substituída por edulcorantes sintéticos ou naturais", detalha o texto.

Além disso, o regulamento do ministério informa que o limão pode ser usado em sua "forma desidratada". A água pode ser adicionada à bebida alcoólica, mas apenas com objetivo de "padronização da graduação alcoólica do produto final", que deve variar entre 15% e 36%.

Entre as normas, estão também a proibição de "adição de qualquer substância ou ingrediente que altere as características sensoriais naturais do produto final" e da "utilização de corantes". Além disso, é proibido usar "flaconetes, sachês, conta-gotas, spray, ampolas, copos-medidas" na produção da caipirinha.

O ministério também publicou regras para a utilização do licor, bebida alcoólica mista, batida, bebida alcoólica composta, aperitivo e aguardente composta.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Conflito de Interesses



Rodrigo Constantino

“A sabedoria do mundo ensina que é melhor, para a nossa reputação, fracassar de modo convencional do que obter sucesso de forma não convencional.” (John Maynard Keynes)

O debate sobre o conflito de interesses nas empresas não é nada novo, mas com esta crise financeira ele retorna com força. O problema reside, basicamente, na dificuldade em alinhar o interesse de todos os funcionários com aquele dos acionistas e clientes. O trader da mesa proprietária de um banco de investimentos, por exemplo, conta com uma espécie de “opção grátis”, já que ele recebe um polpudo bônus se ganhar muito dinheiro operando, mas o máximo que pode perder se fracassar é seu emprego, mesmo que suas perdas sejam suficientes para levar o banco à falência. Não se trata de um alinhamento perfeito de interesses, naturalmente.

Além disso, como lembra a frase de Keynes na epígrafe, errar em grupo não costuma arranhar tanto a reputação, pois alguém sempre pode alegar que “todos” faziam a mesma aposta. Durante o estouro de uma bolha especulativa, por exemplo, o trader sempre pode se justificar com o argumento de que nada era muito previsível, tanto que todos foram pegos de surpresa. Do outro lado, torna-se praticamente insuportável justificar ganhos mais tímidos enquanto todos os concorrentes mostram retornos absurdamente elevados. Isso é um convite tentador e muitas vezes irresistível para participar da festa geral. E isso vale para várias atividades. O banco que está fornecendo crédito subprime e coletando taxas maiores estimula os concorrentes na mesma direção. Os hedge funds que aumentam a alavancagem e conseguem mais retorno pelo maior risco incentivam outros a fazer o mesmo. Até porque os clientes, que costumam perseguir retornos recentes, acabam migrando para os vencedores de curto prazo. A própria indústria dificulta bastante a postura mais sensata dos gestores. É da natureza humana, e o sóbrio no meio de um bando de bêbados é sempre o chato da turma.

Isso explica em parte os movimentos de manada comuns nos mercados financeiros. Para agravar a situação, as pessoas parecem ter memória curta. O fundador do Long-Term Capital Managment, John Meriwether, conseguiu levantar bilhões de dólares de clientes após o fiasco do fundo em 1998, em sua nova firma JWM. Perdeu novamente boa parte do dinheiro dos clientes. Muitos fundos, tentando alinhar os interesses de seus clientes, adotam o “high water mark", cobrando taxa de performance somente quando as perdas são cobertas por novos ganhos. Enquanto o cliente não estiver no azul, a empresa não cobra. O problema é que isso pode desestimular os gestores durante uma fase de grandes perdas, pois a remuneração da indústria está toda no variável, e não no salário fixo. Sabendo que ele dificilmente irá ganhar algum dinheiro nos próximos anos, após uma perda acentuada, o gestor pode simplesmente abandonar o barco, ou sair em bloco com outros gestores e analistas e fundar um novo fundo, deixando o histórico negativo para trás. Parece incrível que os clientes aceitem colocar dinheiro nessa nova estrutura, mas como mostra o exemplo de Meriwether, isso de fato acontece.

Como alinhar os interesses então? Não há mágica, tampouco resposta fácil. Por isso se chama conflito. Conceder sociedade aos principais funcionários ajuda muito, pois estão todos no mesmo barco. Mas não custa lembrar que os funcionários do Bear Stearns controlavam cerca de um terço do banco, e isso não impediu sua derrocada. O programa de stock options nas empresas tenta alinhar o interesse dos executivos ao dos acionistas, mas não é uma garantia certa também. Uma medida que pode fazer sentido é criar uma fórmula na qual o bônus não esteja atrelado somente ao ano corrente, mas sim dependente de outros períodos. Isso iria suavizar a sua oscilação, e colocaria o foco dos funcionários num prazo mais longo. Se o ano corrente é excelente, os funcionários não colocam tudo no bolso imediatamente, mas criam uma reserva para o caso de períodos ruins à frente. Uma fórmula ponderada, com diferentes pesos para os últimos anos, pode forçar um pouco mais de sensatez nos funcionários. Mas novamente, não há garantia de nada.

Por fim, aqueles que colocam toda a esperança nos reguladores do governo demonstram extrema ingenuidade. Keynes apontou o tal “animal spirits” dos homens, e vimos como ele de fato existe. Mas o que garante que os supervisores do governo serão diferentes? Por que alguém acha que os agentes do governo seriam imunes a este instinto humano? Não faz sentido algum acreditar nisso. Os reguladores são seres humanos imperfeitos também, sofrem pressões políticas, sucumbem às paixões humanas, não desfrutam de clarividência alguma. Concentrar poder demais em suas mãos não costuma resolver o problema dos conflitos de interesse, mas, ao contrário, pode muitas vezes agravá-lo. Se não é possível atingir um modelo de perfeição no livre mercado, tampouco é possível fazê-lo através do excesso de regulação. Temos que aceitar a idéia de que a perfeição não pertence ao mundo dos homens, justamente porque somos humanos, demasiado humanos.

terça-feira, outubro 28, 2008

Previsões Esquizofrênicas



Rodrigo Constantino

"O futuro está em aberto; não é predeterminado e, deste modo, não pode ser previsto – a não ser por acidente." (Karl Popper)

A mania dos seres humanos de tentar prever o futuro, de preferência exagerando para o bem ou para o mal, é no mínimo tão antiga quanto o Antigo Testamento. Mais recentemente, o nome de Malthus logo vem à mente quando pensamos em previsões pessimistas para o futuro da humanidade. Esta tendência não é exclusividade daqueles que antecipam um apocalipse. Muitos extrapolam uma fase de bonança também, imaginando um “novo paradigma” onde as crises seriam coisas do passado. Essas oscilações pendulares de humor são potencializadas no mercado financeiro, onde tudo parece acontecer mais rápido. O “guru” de Warren Buffett, Ben Graham, costumava dizer que investir é como ter um negócio com o Senhor Mercado, um maníaco-depressivo cujo humor oscila radicalmente entre medo e entusiasmo.

Nada disso é novidade. Durante o boom da década de 1920, vários “profetas” extrapolaram o cenário positivo, pouco antes do maior crash da história. O economista John M. Keynes teria dito, em uma conversa com Felix Somary em 1927, que não haveria mais crashes durante seu tempo. Myron E. Forbes, o então presidente da Pierce Arrow Motor Car Co, afirmou que não haveria interrupção alguma da prosperidade permanente da nação, no começo de 1928. O renomado economista Irving Fisher foi autor da infeliz declaração de que o preço das ações tinha atingido aquilo que parecia um permanente e elevado patamar. Ele disse isso em 1929! A Harvard Economic Society (HES) escreveu em novembro de 1929 que acreditava no caráter temporário da queda das ações, considerando uma depressão séria como algo improvável. Como fica claro, vários “especialistas” sucumbiram à tentação de colocar a esperança acima do realismo, e fizeram previsões otimistas que se mostraram totalmente infundadas.

Do lado dos eternos profetas do apocalipse existem inúmeros exemplos também. Em 1856, em plena crise econômica, Fredrich Engels escreveu para seu amigo Marx que ao longo do ano seguinte haveria "um dia de fúria como jamais ocorrera”. Ele previa que “toda a indústria européia irá ruir”, e antecipava “as classes proprietárias em apuros, completa falência da burguesia, guerra e devassidão ao enésimo grau". Desde então, vários marxistas antecipam o fim do capitalismo em cada nova crise econômica, apenas para ver seus sonhos esfarelarem uma vez mais. Como perguntou Thomas Sowell, por que ainda entramos em pânico quando escutamos previsões terríveis de grupos que estão no negócio de fazer previsões terríveis?

Várias pesquisas realizadas mostraram que os seres humanos de fato apresentam uma tendência a extrapolar o cenário atual, após algum tempo de ceticismo. Antes tem a fase de conservadorismo, onde os novos dados são vistos com desconfiança. E em seguida vem a fase de extrapolação do histórico recente, quando o caos parece ordenado num padrão conhecido. Isso normalmente acontece com os resultados trimestrais de empresas com o capital aberto. Quando uma seqüência de bons resultados ocorre, os investidores costumam levar algum tempo até incorporar essa tendência nas estimativas, mas uma vez feito isso, eles extrapolam a tendência até a perpetuidade. O resultado dessa característica demasiada humana costuma ser um aumento expressivo do volume negociado, justamente perto do topo dos mercados, quando a alta se torna exponencial. Muitos investidores abraçam tardiamente a tese de “novo paradigma”, e projetam uma contínua era de ouro. A ganância domina o medo, e quando o cenário é revertido, vários investidores são pegos em cheio na contramão.

Mas felizmente, o contrário também é verdadeiro. Após um período de pânico, onde o preço das ações despenca, muitos investidores jogam a toalha, abraçam o pessimismo e extrapolam o caos momentâneo. Alguns chegam a questionar a sobrevivência do sistema capitalista ou até da humanidade. Uma nova Idade das Trevas parece iminente. E justamente quando quase todos estão adotando esse tom catastrófico, as coisas começam a melhorar. As previsões escatológicas acabam refutadas uma vez mais.

Não é possível saber exatamente em qual ponto estamos atualmente. A crise sem dúvida é muito séria, a mais grave desde 1929. Acertar quando será o fim do poço é um exercício de pura adivinhação. O futuro é incerto. Mas uma previsão parece ser mais segura: não será o fim do mundo, nem do capitalismo. Não devemos levar tão a sério assim certas previsões esquizofrênicas demais.

Eleições: Análise








Comentário: A conclusão direta, sem eufemismos, é que os ignorantes e pobres votaram em Marta Suplicy e Eduardo Paes, enquanto aqueles com mais escolaridade e renda votaram em Kassab e Gabeira. Infelizmente, parece que o Rio tem mais ignorantes e pobres em termos relativos: lá em São Paulo deu Kassab, e aqui no Rio deu Paes mesmo. A pergunta é: por que esses governantes que dependem tanto da pobreza e da ignorância iriam lutar para REDUZIR ambas? Pensem nisso.

Outro ponto importante: Quase 70% dos eleitores cariocas NÃO votaram em Paes! Afinal, quase metade escolheu Gabeira, e outros 20% preferiram não votar. O voto nulo ou a abstenção se mostram cada vez mais um meio legítimo de protesto, para acabar com o voto obrigatório e para deixar claro que o eleitor não está satisfeito com NENHUM dos candidatos. Chega de "voto útil". É bom deixar claro para os políticos que não aprovamos nada disso que está aí.

Por fim, fica registrado aqui o meu total repúdio à vergonhosa atitude de Eduardo Paes, que se aproximou do presidente Lula e do PT de forma patética, chegando a mandar carta com pedido de desculpas poucos dias antes da eleição, apenas para conquistar mais alguns votos. Em São Paulo, ganhou a oposição ao governo federal, sem ter que se submeter a um papel lamentável desses. A crença no "toque de Midas" do presidente Lula foi derrubada, e isso porque a crise financeira nem chegou direito na economia "real" ainda. Os aliados de Paes não poderiam ter um nível pior, e seu foco no imediatismo vai lhe custar caro no futuro. O povo, ao menos a parte mais esclarecida, está cansado desse tipo de político oportunista, que joga qualquer escrúpulo na lata do lixo em troca de alguns votos extras. Kassab venceu e sem precisar de esmolas do governo federal. Paes vendeu sua alma ao diabo!

segunda-feira, outubro 27, 2008

Peter Schiff vs Arthur Laffer

Economista da Escola Austríaca prevê colapso da economia americana em 2006, com enorme precisão.

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A Grande Família



Rodrigo Constantino, para a Revista Banco de Idéias (Instituto Liberal)

“O patrimonialismo é a vida privada incrustada na vida pública.” (Octavio Paz)

Dando continuidade à sua obra Patrimonialismo e a Realidade Latino-Americana, Ricardo Vélez Rodríguez analisa em seu novo trabalho, a questão da cultura patrimonialista na região, dessa vez pela ótica da literatura. Em A Análise do Patrimonialismo Através da Literatura Latino-Americana, o autor utiliza esta “antropologia das antropologias” para estudar como a mentalidade que trata o Estado como um bem de família não é algo superficial, mas sim uma profunda característica de nossa cultura. A idéia de que o Estado é o “pai de todos” sobrevive ao longo dos séculos, permitindo a privatização do espaço público por uma “patota”. Este lamentável aspecto cultural da região foi muito bem capturado em obras de literatura, e Vélez selecionou algumas delas para sua análise, como O Outono do Patriarca, de García Márquez, O Ogro Filantrópico, de Octavio Paz, e O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Independente de o país em questão ser a Venezuela, o México ou o Brasil, a similaridade de aspectos fundamentais dos traços culturais que levam ao patrimonialismo é impressionante.

Em todos os casos, trata-se de Estados mais fortes do que a sociedade. Como o autor explica, “o Estado surge a partir da hipertrofia de um poder patriarcal original, que alarga a sua dominação doméstica sobre territórios, pessoas e coisas extrapatrimoniais, passando a administrá-los como propriedade familiar”. O aparato burocrático passa a controlar o aparelho estatal, normalmente girando em torno de uma figura central. A privatização do Estado ocorre através das práticas de nepotismo e clientelismo, e as leis deixam de ser impessoais, passando a representar um braço dos privilégios da “grande família”. Não há objetividade nem coerência nos decretos do caudilho. As origens disso vêm de longe, da tradição ibérica, e o Estado costuma ser visto como o grande empresário que garante a riqueza da nação. Os súditos precisam se “encostar” no Estado como fonte de enriquecimento. A figura do governante se confunde com a própria noção de Pátria, levando a um culto à personalidade. O controle sobre a mídia é vital, e informações devidamente manipuladas são repassadas à sociedade através de programas como “A Hora do Brasil” ou “Alô, Presidente”. Um tom messiânico é adotado por ele, resultando numa postura extremamente populista. A sede pelo poder é total. “O tirano quer ser Deus”, resume Vélez.

Em um Estado patrimonialista, não se distingue direito o que é público do que é privado. Todas as funções reduzem-se a incumbências ditadas pelo interesse de família ou de clã. Ao contrário de outras culturas, onde a política é um meio para favorecer os negócios, para os latino-americanos ela é o grande negócio em si. O princípio básico da economia patrimonialista, segundo Vélez, é: “privatização dos lucros, socialização dos prejuízos”. Quem não faz parte do andar de cima, acaba pagando as “aventuras dos tiranetes”. A variável política tem preponderância sobre a variável econômica. A troca de favores é o meio para o sucesso, e não a meritocracia. Conforme Octavio Paz constatou, “o Estado moderno é uma máquina, mas uma máquina que se reproduz sem cessar”. O patrimonialismo é a via que leva ao autoritarismo, através dessa crescente concentração de poder.

Infelizmente, a América Latina parece longe do dia em que tais características serão apenas um triste capítulo do passado. Se no passado figuras como Juan Vicente Gómez, Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas representavam os ícones desse patrimonialismo, atualmente Hugo Chávez, Evo Morales e mesmo o presidente Lula, sem falar do casal Kirchner, substituíram os antigos “patriarcas”. Em um estágio mais avançado de autoritarismo, está o exemplo dos irmãos Castro, que transformaram Cuba literalmente numa propriedade familiar. Buscar as origens desse traço cultural, inclusive presente em nossa literatura, pode ajudar a esclarecer melhor as causas que permitem a manutenção destes modelos na política latino-americana, tratada como uma cosa nostra desses populistas. Nesse contexto bastante atual é que o novo livro de Vélez torna-se uma leitura imprescindível, como complemento ao seu trabalho anterior.

sexta-feira, outubro 24, 2008

O Erro de Greenspan



Rodrigo Constantino

“O crédito fácil se transformou no Santo Graal da política monetária, principalmente sob a batuta de Alan Greenspan, ‘o Maestro supremo’.” (Ron Paul)

O ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, fez uma tímida mea culpa diante dos congressistas, ao confessar algumas falhas em sua gestão como banqueiro central. Greenspan alegou que sua confiança na capacidade de auto-regulação dos mercados se mostrou errada, para o delírio dos intervencionistas. Mas será que foi isso mesmo que aconteceu? A postura defensiva de Greenspan parece bastante natural, e o reconhecimento de um pequeno erro como regulador pode ocultar uma falha infinitamente mais grave. É mais fácil Greenspan jogar para o mercado a maior culpa, enquanto alivia o seu próprio fardo de ter, no fundo, contribuído muito para criar a bolha. Não faltaram críticos no passado que apontavam para esse erro bem mais sério do que apenas evitar os excessos do mercado. O grande erro de Greenspan não foi acreditar no poder de ajuste natural do mercado, mas sim ter colaborado muito para os seus excessos.

Eu mesmo fui um desses críticos no passado. Em um artigo escrito em abril de 2004, chamado “Amnésia Política”, utilizei vários trechos do próprio Greenspan escritos em 1966, num livro de Ayn Rand (Capitalism: The Unknown Ideal). A primeira frase do meu artigo foi: “No encontro entre um liberal e a política, é infinitamente mais provável que o primeiro seja corrompido pelo segundo, e não o contrário”. Essa introdução já expressava minha enorme decepção com Greenspan, ao constatar que aquele velho liberal havia cedido aos encantos do poder. A vaidade de Greenspan, aliás, parece evidente, e logo após se aposentar, depois de 18 anos à frente do Fed, ele já contava com uma autobiografia pronta. Greenspan, que fora discípulo de Ayn Rand e um defensor do laissez-faire e do padrão-ouro, chegando a culpar as ações do Fed pela Grande Depressão de 1929, acabou indo parar justamente no governo, concentrando um poder abusivo nas mãos.

Eis alguns trechos de Greenspan que eu destaquei no artigo: “Quando a economia nos Estados Unidos se submeteu a uma contração suave em 1927, o Fed criou mais reservas de papel na esperança de prevenir alguma falta possível da reserva bancária. [...] O crédito adicional que o Fed injetou na economia se espalhou para o mercado financeiro – provocando um crescimento especulativo fantástico. Em 1929 os desequilíbrios especulativos tinham-se tornado tão exagerados que a tentativa de enxugar as reservas adicionais precipitou uma aguda retração e a conseqüente desmoralização da confiança dos empresários. Em conseqüência, a economia americana desmoronou”. Em outras palavras, Alan Greenspan, ainda longe do poder, entendia como as ações do Fed, na tentativa de injetar liquidez nos mercados para evitar ajustes necessários, acabavam agravando os problemas.

Minha conclusão no artigo evidencia toda a decepção na época: “E pensar que este homem hoje senta na presidência do próprio Fed, injetando como ninguém liquidez nos mercados, tentando artificialmente manter o boom econômico, evitar a correção natural dos investimentos ruins realizados, usando o governo para ‘consertar’ os problemas da economia criados pelo próprio governo. O mundo perde muito com o fato de Greenspan ou ter esquecido o que disse em 1966, ou ter sucumbido às pressões políticas. Ele mesmo tem consciência de que é impossível alterar as leis econômicas através de mecanismos artificiais do governo. Mas a amnésia que o jogo político causa até mesmo nas cabeças mais lúcidas é incrível”.

E eu estava longe de ser o único crítico dessas medidas expansionistas adotadas por Greenspan! No Brasil, o economista Paulo Guedes sempre focou nesse aspecto, chegando a me dizer pessoalmente que o “mago” ainda seria vítima do ódio de muita gente, quando a bolha estourasse. No resto do mundo foram muitos os críticos, como os economistas “austríacos” do Mises Institute, ou Christopher Woods, estrategista do CLSA e autor de Greed & Fear, carta semanal aos seus clientes. O senador Ron Paul foi outro que acusou a irresponsabilidade de Greenspan muito antes de a bolha explodir. Na frase da epígrafe, o ex-candidato à presidência americana ridiculariza a fé tola nos poderes do Banco Central.

Essa crença nos poderes “mágicos” do Banco Central talvez seja um dos maiores indícios de irracionalidade dos tempos modernos. Em outro artigo meu intitulado O Templo, de 2006, comentei o livro A Term at the Fed, do ex-governador Laurence Meyer. Eis como começo: “A concentração de poder em poucas mãos sempre irá representar um enorme risco para os indivíduos. Isto não é diferente quando o assunto é economia. Por tratar-se de um campo com um jargão muito técnico, os leigos acabam vendo certas figuras como ‘sábios clarividentes’, delegando a esses as rédeas de toda a economia. Entretanto, não devemos esquecer que são apenas humanos sujeitos às falhas comuns da espécie, além de pressões externas e busca de interesses próprios”.

Infelizmente, muitos esqueceram essa lição, e durante a fase de bonança, Greenspan foi eleito o “Maestro” capaz de garantir a continuidade eterna da festa. Pior para ele que viveu o suficiente para ver o fim da festa, e está na defensiva tendo que se justificar. É uma pena que lhe falte mais coragem para assumir o verdadeiro erro, que foi ter se afastado de suas crenças antigas, seduzido pelo poder. Isso não iria apagar o passado, mas ao menos daria mais dignidade a ele nesse fim de vida. Se ele fizesse isso e se existisse vida após a morte, ao menos ele poderia reencontrar Ayn Rand com a cabeça erguida.

Artigo no jornal Valor

quinta-feira, outubro 23, 2008

Votar no Duda Paes é votar no PT!



Gabeira tem um passado que eu condeno, sem dúvida. Lutou a luta errada. Mas parece ter mudado, fala hoje em defesa de capitalismo, e fez um mea culpa de suas ações passadas. Mas e o Duda Paes? Se o seu passado não o condena, o mesmo não se pode dizer do seu presente e do seu futuro. Paes vem seguindo a trajetória típica do PMDB oportunista, se aliando ao que há de mais podre na política. E eis que agora comemora o apoio da terrorista Estella, mais conhecida como ministra Dilma. Essa não se arrepende de nada que fez no passado, incluindo planejamento de assaltos. Ao contrário: ela sente orgulho! Ela continua defendendo as barbaridades do passado. Ela segue na luta errada. E faz parte do partido mais nefasto do país, ainda pior que o PMBD: o PT, essa corja que tomou o poder no país. Você pretende votar em alguém que anda com essa turma barra-pesada? Eu não.