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segunda-feira, setembro 17, 2012

Ipad baby


Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

Vivemos numa era narcísica. Mas o narcisismo pode assumir formas mais sofisticadas do que ficar se olhando no espelho e escrevendo imbecilidades no Facebook: "Olha eu vomitando!".
Mesmo ter filhos, hoje, pode ser uma das faces mais comuns do narcisismo. Ter filho é narcisismo quando ele é parte de seu ferramental de sucesso: trabalho, casa própria, sexo saudável, carro novo, ioga, alimentação balanceada, filho.
Quando vir uma mãe tirando muitas fotos histéricas dela mesma com seu filho, saiba que você está diante de um poço de narcisismo que afoga a pobre criança num mar de projeções de si mesma. Segura o filho nas mãos como troféu de sua própria suposta beleza e saúde.
Sim, ser mãe pode ser objeto de enorme crítica. Ou pai. Falar mal da maternidade ou paternidade é para iniciantes e coisa de crítica festiva.
Mães são autoritárias, chantagistas, loucas, ausentes, presentes demais, enfim, infernais às vezes. Mas hoje, numa época dominada pela covardia chique, que teme dizer seu nome, covardia, covardia, covardia, podemos fazer um discurso chique para negar a maternidade.
Com isso não quero dizer que toda mulher deva ser mãe. Longe de mim achar isso. Acho que você pode não ser mãe e não ser ridícula por isso. Suspeito apenas da negação da maternidade quando ela vem acompanhada de uma "ira contra a mãe" ou quando vem acompanhada de alguma "teoria" contra a maternidade. Sempre suspeito de teorias e não de práticas.
Trata-se de um caso semelhante ao ateísmo: todo ateísmo militante é infantil e reativo. Toda crítica à maternidade é infantil e reativa. Um ateu e uma mulher que não quer ser mãe devem ser blasé com relação a Deus e a ter filhos. Se o lábio tremer ao falar de Deus e das mães, você está diante de um ressentido.
O filósofo francês do século 17, Blaise Pascal, dizia que variamos as formas de "divertissement" (divertimento, autoengano), mas a fuga sempre fracassa. Sempre reencontro a causa da minha fuga, o medo do vazio. O narcisista é uma criança em pânico diante desse vazio.
Vivemos a época mais covarde da história humana. A emancipação moderna se revelou um retrocesso em termos de coragem: todo mundo tem medo, mas nega e critica as formas de vínculos afetivos longos (maternidade, paternidade, casamento, etc.) para não enfrentar seus fracassos afetivos. Sou um miserável solitário, mas minto dizendo que escolhi sê-lo.
Mas voltemos ao filho como troféu narcísico. Outro dia, num desses domingos preguiçosos (o ócio nos aparenta aos deuses), fui almoçar, minha mulher e eu, num desses lugares frequentados pela classe chique da zona oeste paulistana. Uma região habitada por "bikes". Precisa dizer qual é?
Interessante como gente pobre sempre andou de bicicleta, mas agora, quando a bicicleta virou "bike", virou assunto da prefeitura. O trânsito, sofrido, tem que abrir espaço para as "bikes".
Em Copenhague, capital da Dinamarca, uma das capitais mundiais das "bikes", podemos ver o "ethos" dessa moçada que se acha salvadora do mundo: lá eles atropelam gente e caminhões, movidos pela sua consciência de (falsa) superioridade moral urbana. Aqui já começa o mesmo processo.
Mas dizia que estávamos num desses restaurante "descolados", mas rotineiros, da classe chique da zona oeste paulistana. Perto, um casal "desfilava" seu filho. Durante algum tempo, todo mundo era obrigado a ouvir a beleza estridente da maternidade narcísica.
Trajes descolados, jeans rasgados e caros, camisetas tipo Hering, tênis surrados. Cabelos assanhados no modo correto, iPhones, bebê brincando com iPad, risadas altas.
A criança, coitada, era quem menos gritava. Os pais, já os pais, estes faziam tudo para ele berrar, como numa demonstração de que, sim, "somos pais descolados que amam seu filho e
queremos que ele grite e brinque para mostrar que não o reprimimos". O filho ali tinha o mesmo estatuto que o iPad: um trunfo numa era narcísica. Assim como um carro coreano branco enorme.
E fotos, muitas fotos, em todas as posições imagináveis em meio à pasta de domingo. Imagino que postaram no "Face".

segunda-feira, setembro 10, 2012

O Facebook como espelho


Luli Radfahrer, Folha de SP

Ainda me lembro da época em que o público de um espetáculo musical estava lá para ouvir música, talvez para cantar e dançar, certamente não para fotografar e ser fotografado.
Silenciosamente algo mudou. A popularização das câmaras e das redes de compartilhamento parece ter despertado até nos mais tímidos uma compulsão por mostrar tudo o que é vivido, mesmo que seja um acontecimento banal.
"Se não fotografou e não publicou, então não existe." O exibicionismo é expresso em páginas, video-casts, perfis e linhas do tempo que parecem relatórios clínicos de narcisistas compulsivos, em suas várias formas: fotografias com caras e bocas, opiniões rasas a respeito de praticamente tudo, vídeos em que nada de interessante acontece e a triste alegria coletiva com o grotesco e a humilhação.
A exposição é razoavelmente recente. Uma das primeiras autobiografias dedicadas ao registro do cotidiano é "Confissões", de Rousseau. Arrojado e provocador para o século 18, o iluminista francês ficaria chocado com o tamanho da exibição de hoje. Desde os anos 1980, quando yuppies, computadores pessoais e o culto ao corpo abriram canais para a expressão individual, o particular é cada vez mais público e amplificado.
Celulares e redes de compartilhamento transformaram os 15 minutos de fama em uma espécie de "Show de Truman" universal, em que registros banais e confissões diversas tornaram todos um pouco inseguros, verificando a composição de sua figura no espelho do Facebook e corrigindo seu discurso e conduta de acordo com as menções e aprovações recebidas.
Nem o Narciso mitológico seria tão autocentrado. Aquele que morreu afogado ao se apaixonar por sua figura refletida em um espelho d'água poderia argumentar que não sabia que via um reflexo. Como muitos usuários de redes sociais, ele se apaixonou por uma tela e sucumbiu ao confundi-la com a realidade.
Essa confusão entre o real e o fictício publicado é uma das faces mais assustadoras do narcisismo digital. Muitos têm uma visão de realidade tão distorcida pela percepção alheia, tão fragmentada e amplificada pelos perfis e grupos a que pertencem, que geram especulações maiores do que pode supor sua vã fenomenologia.
A vida na vitrine da interface, livre da moderação e da compostura que qualquer grupo social demanda, cria uma gigantesca câmara de eco, em que mensagens são referências de referências de referências, perdendo significado e substância no processo.
O sucesso de uma trilogia pornô, derivada de uma fantasia de fã da série "Crepúsculo", que por sua vez é derivada das clássicas histórias de vampiros, é o exemplo mais recente.
Impulsionado pela indicação do amigo do amigo do amigo nas redes sociais, "50 Tons de Cinza" se transformou no maior best-seller do país que um dia foi de Shakespeare e Charles Dickens.
Há uma certa melancolia na situação. Ambientes que permitem tanta exposição e manifestação de identidades múltiplas demandam coerência de pensamento para que seus atores não se tornem reféns das personagens que representam.
Sem contar que todo esse egocentrismo é muito, muito chato.

terça-feira, abril 24, 2012

Redes e aquários

João Pereira Coutinho, Folha de SP

Há um novo crime na praça. E eu sou culpado aos olhos de amigos, colegas, até leitores. Não respondo a e-mails de imediato. Só passados alguns minutos -ou algumas horas.
Defendo-me como posso. Digo, a sério, que só consulto a internet duas vezes por dia -ao acordar e ao deitar. Questão de higiene -mental. Curiosamente, quase sempre estou a escovar os dentes.
Ninguém acredita. E, quem acredita, diz que isso não é desculpa: existem uns celulares que recebem e-mails em tempo real e permitem respostas em tempo real.
Agradeço a informação, mas não era preciso: eu próprio já recebi e-mails do gênero, que terminam com a declaração solene "esta mensagem foi enviada por iPhone".
Nunca sei que responder: mostrar-me abismado com a proeza e aplaudir a grande honra que o sujeito me concedeu?
Às vezes, há situações bizarras. Alguém envia um e-mail. Minutos depois, envia outro, só para perguntar se eu recebi o primeiro. Duas ou três horas depois, vem mais um -dessa vez, uma repetição do inicial, para o caso de eu não ter lido.
Essa comunicação unilateral termina com um quarto ou um quinto, em que sou acusado das maiores baixezas (indiferença, preguiça, hostilidade etc.).
Em poucas horas, alguém iniciou e terminou uma comunicação comigo sem que eu jamais estivesse presente para dizer "presente!". Que se passa com o mundo?
Os especialistas no assunto, psicólogos e sociólogos que pesquisam os paradoxos da internet, afirmam que estamos cada vez mais ligados e exigimos respostas cada vez mais rápidas uns dos outros. Certo, especialistas do óbvio, certíssimo.
A questão, porém, deve ser outra: que tipo de gente a internet está a produzir no século 21?
Foi precisamente essa pergunta que o escritor Stephen Marche formulou em artigo para a revista "The Atlantic" ("Is Facebook Making Us Lonely?"). As conclusões não são otimistas: estamos todos ligados, mas essa sensação de contato permanente não significa que o nosso isolamento (e a nossa solidão) decresceu.
O Facebook é, inevitavelmente, um caso clássico: que significa esse imenso continente virtual onde "existem" 845 milhões de pessoas, onde se publicam bilhões de comentários diários e onde se postam 750 milhões de fotos por semana?
Stephen Marche não faz parte dos luditas modernos para quem o Facebook é a "bête noir" da civilização ocidental. A resposta dele, depois de ler os últimos estudos sobre o fenômeno, é de uma sensatez que arrepia: a internet é um meio, não um fim. O que somos como seres sociais depende da forma como usamos as redes sociais.
Que o mesmo é dizer: quem usa o Facebook para substituir a realidade não aumenta o seu "capital social". Pelo contrário, pode mesmo sentir o isolamento típico de um peixe que contempla o mundo através do vidro do aquário. Paralisante. Angustiante.
No artigo, o autor cita um neurocientista da Universidade de Chicago, John Cacioppo, que oferece uma metáfora ainda melhor: podemos usar o carro para ir ao encontro de amigos; ou podemos dirigir sozinhos pelas ruas da cidade. O mesmo carro, duas atitudes distintas.
A internet, e as redes sociais que ela comporta, é apenas um instrumento para, não um substituto de. O desafio, leitor, não está em quebrar o aquário. Está em sair dele de vez em quando.
Sair. Desligar. Não estar disponível. Ou, como escreve Stephen Marche, "termos a oportunidade de nos esquecermos de nós próprios".
Eis, no fundo, a observação mais luminosa do ensaio: a nossa constante disponibilidade para os outros é apenas uma manifestação mais profunda do nosso insuportável narcisismo. E o narcisismo, como sempre, nasce de uma insegurança que procuramos preencher com o culto doentio do ego.
Pensamos que somos tão imprescindíveis que temos de estar presentes 24 horas por dia na vida alheia. E vice-versa: pensamos que somos tão importantes que os outros têm de estar permanentemente disponíveis para nós.
Lamento, amigos. Lamento, colegas. Lamento, leitor. Os meus silêncios não têm nada de pessoal. Nem eu nem você somos assim tão importantes.

segunda-feira, abril 16, 2012

Narcisismo no "Face"

Luiz Felipe Pondé, Folha de SP

Cuidado! Quem tem muitos amigos no "Face" pode ter uma personalidade narcísica. Personalidade narcísica não é alguém que se ama muito, é alguém muito carente.
Faço parte do que o jornal britânico "The Guardian" chama de "social media sceptics" (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado "sombrio" do Facebook (22/3/2012).
Ser um "social media sceptic" significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na "história", sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.
As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.
E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.
Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico "A Cultura do Narcisismo", um livro essencial para pensarmos o comportamento no final de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.
Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o "outro", apenas exigindo do mundo um amor incondicional.
Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, "um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros" marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no "Face".
A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no "Face". Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços "tóxicos" (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no "Face" a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.
Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.
Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso...), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma...), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.
Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle.
O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de "amigos" irreais. O dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do "Face".
Portanto, a "culpa" não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal "matéria" da escola.
A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade.

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

O fenômeno Facebook


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

O Facebook realizará este ano sua esperada abertura de capital. A empresa deve ser avaliada, segundo analistas, na casa dos US$ 100 bilhões. Há, em seu valor de mercado, muita expectativa de crescimento futuro nos lucros. O potencial é realmente fantástico quando se leva em conta seus quase um bilhão de usuários, todos voluntariamente expondo ao site seus gostos e preferências. Ainda há formas hoje desconhecidas para se explorar este gigantesco banco de dados com propaganda e outros serviços.

Não é possível afirmar ainda se este valor elevado fará jus aos lucros futuros ou se o Facebook sinaliza uma nova etapa de bolha tecnológica. O que se pode dizer é que seu crescimento meteórico é um fenômeno que ilustra bem o dinamismo capitalista na era da informação. Várias empresas nasceram em garagens ou em dormitórios de universidades, usando capital limitado e escasso no primeiro momento, para depois se tornarem concorrentes de peso que ameaçam gigantes estabelecidos.

A tecnologia é um dos setores com menor intervenção estatal, com mais concorrência, e com forte presença de capitalistas ávidos por retornos fantásticos. Uma combinação interessante, que por tentativa e erro (e inúmeros defuntos no caminho) acaba produzindo os novos vencedores que mudam a cara da modernidade. A “destruição criadora” de que falava Schumpeter encontra neste setor seu ambiente mais fértil. Por isso há tanta novidade, tanto crescimento, tanto avanço e, pasmem!, preços declinantes para os consumidores. É o capitalismo em sua essência funcionando para melhorar a vida das pessoas.

Apenas a título de curiosidade, o Facebook, se for avaliado em US$ 100 bilhões mesmo, terá a metade do valor da GE, empresa centenária com quase 300 mil funcionários (o Facebook tem pouco mais de 3 mil). A Coca Cola vale US$ 150 bilhões e tem 140 mil funcionários. A IBM, com seus mais de 400 mil funcionários, fatura US$ 100 bilhões, lucra US$ 15 bilhões, mas vale “apenas” pouco mais de US$ 200 bilhões. Microsoft vale US$ 250 bilhões, Oracle vale US$ 150 bilhões, Intel vale US$ 135 bilhões e Google vale quase US$ 200 bilhões. A Apple vale mais de US$ 400 bilhões (grande Steve Jobs!).

Os gigantes de hoje podem ser os nanicos de amanhã. Não há garantias de sobrevivência. É preciso estar o tempo todo na vanguarda do progresso, atendendo da melhor forma possível a demanda, ou melhor, criando nova demanda ainda desconhecida! O fenômeno Facebook ilustra bem esta realidade.

PS: Aqueles demagogos que atacam os 1% mais ricos, como se fossem um grupo estanque, ignoram estes dados, não sabem como é concorrida e arriscada a vida dos empreendedores, e, acima de tudo, pensam que riqueza é um bolo fixo que deve ser dividido de forma mais “justa”, enquanto outros inovam justamente para criar riqueza nova e tornar o mundo um lugar melhor. Se ao menos estes contassem com um ambiente mais amigável de negócios e com menos intervenção estatal... que mundo melhor poderíamos ter!

sábado, agosto 27, 2011

Solidão coletiva


Rodrigo Constantino

"Um paciente chegou no consultório médico e disse: - Doutor, não levanto a cabeça, não falo com ninguém, quando falam comigo não presto atenção, pareço um idiota. O que eu tenho, doutor? Um Blackberry, respondeu o médico”. Toda piada tem um fundo de verdade, como dizem. Neste caso, ela é a mais pura verdade. As aceleradas mudanças tecnológicas estão produzindo grandes mudanças sociais também. Aonde isso vai parar, ninguém sabe ainda.

Preocupada com tendências desta natureza, a especialista do MIT, Sherry Turkle, reuniu no livro Alone Together décadas de experiência no estudo do impacto social da tecnologia. Como o subtítulo já diz, ela tenta responder porque esperamos mais da tecnologia e menos de cada um. Na primeira parte do livro, o foco é voltado para os robôs sociais, e como isso afeta os seres humanos. Na segunda parte, ela trata das redes sociais, da conectividade ininterrupta e de como estamos perdendo intimidade com isso. Em resumo, o mundo estaria cada vez mais habitado por pessoas interligadas sempre, mas mais solitárias ainda.

Antes de dar prosseguimento aos principais pontos da autora, gostaria de destacar que é típico dos homens desconfiar de avanços tecnológicos. Como já sabia o filósofo David Hume, "o hábito de culpar o presente e admirar o passado está profundamente arraigado na natureza humana". O desconhecido assusta. Dito isso, creio que existem mudanças que realmente despertam apreensão legítima, as quais compartilho com Turkle. Estarmos atentos a estes riscos é um passo importante para mitigar os problemas que inevitavelmente irão surgir com os novos hábitos.

Muitos encaram computadores e aparelhos tecnológicos como simples ferramentas, mas ignoram que os seres humanos muitas vezes são moldados por tais ferramentas. No mundo moderno, o medo da decepção nos relacionamentos com outros seres humanos, que sempre existiu, encontrou uma poderosa válvula de escape nos robôs e redes sociais. Esta fuga não se dá sem custos. Alguns já começam a tratar as máquinas como se tivessem qualidades humanas, e os humanos como se fossem objetos descartáveis. A vida virtual deixa de ser uma simples fuga temporária das agruras da vida real, para se transformar na própria vida principal do indivíduo. Ficamos menos humanos neste processo.

Nós somos seres vulneráveis, solitários e com medo da intimidade. As conexões digitais oferecem a ilusão de companhia, sem as demandas da amizade. As pessoas se tornam descartáveis. Todos “curtem” a “felicidade” alheia. A autenticidade é substituída por avatares, por perfis irreais que criamos para evitar nossas imperfeições reais. A tensão presente no encontro pessoal dá lugar à blindagem da tela do computador ou à garantia de que um robô jamais irá nos trair. Pessoas são arriscadas; robôs ou amigos virtuais são seguros. Mas esta é uma falsa segurança, que existe apenas com o preço de anular qualquer relação realmente humana.

Assim como Turkle, eu consigo enxergar o lado positivo das mudanças. Podemos encontrar e manter contato com velhos amigos, famílias separadas geograficamente podem ficar conectadas mais facilmente, a recreação comedida é saudável, temos mais acesso a informação, comércio, etc. Mas nem por isso devemos fechar os olhos para o lado negativo. Ele existe. Infelizmente, muitos descartam os alertas como mera nostalgia ou algum impulso retrógrado, como no caso dos ludistas na Revolução Industrial. Creio ser um engano agir assim. Alguns efeitos negativos não devem ser menosprezados de forma alguma, em minha opinião.

A primeira parte do livro, que lida com os robôs sociais, ainda parece distante da realidade brasileira. Alguns insights, todavia, são importantes. Afinal, é o que nos espera. No Japão, idosos já estão sendo cuidados por robôs, e crianças também desfrutam de babás robôs. Turkle realizou inúmeras experiências e relata várias delas no livro. Um dos riscos principais, segundo ela, é que o relacionamento com robôs não ensina estas crianças nada sobre a alteridade, sobre a habilidade de tentar ver o mundo pela ótica do outro. Sem isso, não é possível ter empatia genuína.

O relacionamento com um robô é totalmente egocêntrico. Acostumada com esta relação “sem riscos”, sem as demandas da amizade verdadeira, a criança pode se tornar inapta para a vida em sociedade, optando pela reclusão em seu mundo fechado. O que elas pedem dos robôs é aquilo que elas sentem falta, como carinho e atenção. Mas eles jamais podem oferecer tais coisas de forma verdadeira. Uma máquina tratada como um amigo é algo que anula qualquer sentido tradicional do conceito de amizade. A máquina sempre será indiferente a nossos sentimentos, por mais que seu desempenho nos convença do contrário.

Na segunda parte do livro, os brasileiros já poderão se identificar com muito mais facilidade. Afinal, somos recordistas nas redes sociais. Turkle argumenta que nos apresentamos como pessoas diferentes daquelas que realmente somos, normalmente uma fantasia daquilo que gostaríamos de ser. Um tipo de relacionamento incerto surge, concomitantemente ao risco de tratarmos os outros como objetos descartáveis, que existem apenas para nossa diversão temporária ou conforto. Todos querem centenas de “amigos” em seu perfil, curtindo cada passo de suas “vidas”. Tudo absolutamente superficial.

Com a incessante conectividade, as pessoas acabam ficando sozinhas como precondição para estarem juntas, pois é mais fácil se comunicar estando focado, sem interrupção, quando o local de encontro é a tela do aparelho. Seja na praça pública, na estação de trem ou no metrô, cada um mantém suas conversas partindo da premissa de que as demais pessoas são não apenas anônimas, mas ausentes. As pessoas ficam ansiosas quando não estão conectadas ou quando aguardam um próximo email ou comentário no Twitter ou Facebook. Ninguém mais suporta a solidão e a espera.

A vida nas redes sociais deixa de ser uma fuga esporádica para se transformar na melhor coisa da vida. Todo o resto pode ser ignorado ou “pausado” para responder uma nova mensagem. Muitos deixam de viver aquele momento de forma genuína, pensando apenas em postar as fotos do evento na rede, ou fazer algum comentário no Twitter. Vive-se para os outros, pelas aparências, pela quantidade de gente que vai “curtir” sua experiência, e não mais pela própria experiência em si. Alguns acabam viciados na hiperatividade em rede, na adoção de diversas tarefas simultâneas, como se isto fosse sinônimo de produtividade. Na verdade, estão se enganando, fazendo tudo de forma incompleta, pois precisam da sensação de hiperatividade.

Outro problema que costuma emergir dos novos hábitos é a superficialidade das trocas de mensagens. Como cada um recebe centenas diariamente, e criou-se o hábito de responder a quase todas, as mensagens precisam ser extremamente simples. A comunicação deve ser instantânea, o que é incompatível com problemas complexos. Além disso, esta postura encoraja o desapego às pessoas. Como temos que responder a centenas de mensagens, naturalmente despersonalizamos cada uma delas.

De forma similar, quando temos centenas de “amigos” no Facebook, acabamos tratando indivíduos como uma unidade. Amigos se tornam fãs. Eles se transformam em algo próximo de objetos. Buscamos compaixão, mas na “intimidade” online encontramos com freqüência a crueldade de estranhos. Estamos todos juntos, mas sozinhos. Uma solidão coletiva.