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sábado, outubro 30, 2010

A Grande Ilusão



Rodrigo Constantino

Resolvi rever ontem o excelente filme "All the King's Men" (A Grande Ilusão), com o vencedor do Oscar de melhor ator, Sean Penn, além de outros "feras" como Jude Law, Anthony Hopkins e Kate Winslet. É um filme imperdível. Especialmente para nós brasileiros, que estamos vivendo algo muito semelhante ao que é retratado no filme. Willie Stark, interpretado por Sean Penn, é um humilde caipira do sul dos Estados Unidos, que chega ao governo do estado após discursos inflamados e populistas. Stark representa o "povo" pobre que vai finalmente fazer justiça após anos de abuso de poder das oligarquias locais. Em seus comícios de campanha, ataca com virulência os ricos, como culpados pela pobreza, e promete "mundos e fundos" sem explicar bem de onde vem o dinheiro. Na verdade, afirma que o dinheiro vem das grandes empresas, como Standard Oil, que possuem de sobra. Trata-se de demagogia ao extremo grau.

O jornalista interpretado por Jude Law, um idealista tão covarde a ponto de não concretizar sua paixão de juventude por medo de estragar a utopia com a realidade imperfeita, fica encantado pelo caipira "puro", e decide apostar em sua candidatura. Ele começa então a escrever diversos artigos, ajudando a construir o mito, o "homem do povo" honesto que vai lutar contra "tudo que está aí", contra a podridão das oligarquias. Acontece que Stark não passa de um cínico, um oportunista que desde cedo deseja o poder, e que se deixa corromper absolutamente pelo poder concentrado em suas mãos. De fato, Stark não foi simplesmente corrompido pelo poder; ele já era o mais corrupto, o mais esperto, usando seu manto de humildade justamente para chegar ao poder.

Quando na fase de conquista de seguidores, Stark é o típico sulista humilde, que sequer bebe, preferindo um suco. Após subir as escadas do poder, tudo muda. O caipira começa a beber sem parar, seus discursos ficam ainda mais exaltados e populistas, e a corrupção, outrora tão criticada, passa a ser seu cotidiano. Tudo para preservar o poder! Alianças espúrias, coerção, compra de votos, espionagem para intimidar seus opositores, Stark é o típico caudilho no poder. A inauguração de um hospital popular não passa de um estratagema para aparecer com o filho de um importante político do estado, já falecido, e para desviar recursos, claro. É tudo uma fachada. Parece familiar?

Não deixem de ver o filme. Não é um filme novo. Foi rodado em 2006, com base no romance clássico vencedor do Pulitzer de 1946 de Robert Penn Warren. Mas é impressionante a similaridade com nossa situação atual. O "messias salvador", homem humilde que vai finalmente combater a corrupção das oligarquias, não passa do mais corrupto de todos, seduzido pelo poder. Nada novo aqui. O porco Napoleão, de "A Revolução dos Bichos", de Goerge Orwell, no final já está exatamente igual ao homem explorador dos pobres animais, brindando com a velha oligarquia. Não é assim que sempre acontece, Collor, Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros e Lula? E ainda tem gente que acredita no mito, na grande ilusão!