Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador humor. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, maio 20, 2013

Piada de português

Rodrigo Constantino, para o blog português Blasfémia

Eu sou do tempo em que todos contavam piadas de português, loiras, judeus, bichinhas, e estes, normalmente, eram os que mais riam de tais piadas. A capacidade de fazer humor com a própria situação, com as caricaturas de seu próprio grupo ou classe ou nação, parece-me característica fundamental de uma sociedade madura e livre.

Mas eu dizia que sou de outro tempo, que parece anos-luz de distância. Ocorre que nem cheguei aos 40 anos! Isso demonstra o quão rápido foi a deterioração do quadro. Vivemos, hoje, na era do politicamente correto, onde “almas sensíveis” querem tolher a liberdade de expressão, pois se sentem no direito de não serem “ofendidas” enquanto grupo.

Um bom exemplo desse sintoma preocupante se deu por agora, quando o programa de humor “CQC” foi alvo de um inquérito policial por fazer piadas de português. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) de São Paulo está investigando a denúncia de que o programa teria ofendido a honra da comunidade portuguesa com piadas. Isso sim é uma piada! E de muito mau gosto...

O líder do “CQC”, Marcelo Tas, tocou no ponto nevrálgico da coisa: “Estamos entrando em uma fase surrealista com relação à liberdade de expressão, está na hora de o país debater isso. Só espero que isso não deságüe em censura”. Infelizmente, nós já vivemos sob censura! A praga do politicamente correto corrói nossa sociedade há anos, e tal como um câncer em metástase, avança sobre as células da liberdade cada vez mais rápido.

Participei com Marcelo Tas, Leandro Narloch e Reinaldo Azevedo de um painel justamente sobre a liberdade de expressão e o politicamente correto, há cerca de dois anos, em evento organizado pelo Instituto Millenium. Na ocasião, “brinquei” com Tas, alertando que temia pelo futuro de sua profissão em um mundo cada vez mais hostil ao humor. Como fica claro, eu tinha razão e fui até profético. Só não esperava que fosse tão cedo assim.

Os humoristas correm risco quando a afetação das “minorias” torna-se algo majoritário. É triste, muito triste, ver que essa “marcha das minorias oprimidas” tomou conta de tudo, e que o senso de humor é mais uma vítima desse movimento intolerante e autoritário, com cores fascistas.

Walter Block disse: “É fácil ser um defensor da liberdade de expressão quando isso se aplica aos direitos daqueles com quem estamos de acordo”. A liberdade de expressão é testada quando não estamos de acordo, até mesmo quando nos sentimos ofendidos. Afinal, se há algo como o direito de não se sentir ofendido, é melhor suspender de vez a liberdade de expressão, pois alguém sempre será ofendido pelo contraditório.

Basta pensar nas religiões e nos fanáticos religiosos, assim como nas ideologias. Será que os fundamentalistas islâmicos têm o direito de não serem “ofendidos” com a “blasfêmia” dos infiéis? O Ocidente avançou mais e preserva melhor as liberdades individuais, e por isso mesmo temos tanta gente fazendo piada com a fé alheia, ou até mesmo ataques virulentos àquele que, para milhões de crentes, era Deus em pessoa.

Podem ser ofensas gratuitas, desrespeitosas, coisa de idiota. Mas os néscios devem ser livres, pois se rejeitarmos tal premissa, nós cairemos em um governo totalitário, com um grupo de censores decidindo o que é estúpido, e o que pode ser dito. Eu prefiro pecar pelo excesso do outro lado, mesmo que isso implique em piadas grosseiras, em humor negro, em falta de sensibilidade. Melhor isso à ditadura do politicamente correto, que asfixia nossa liberdade, nossa criatividade, nosso fundamental senso de humor para sobreviver e viver melhor em um mundo já tão duro e, tantas vezes, sem sentido.

Portanto, espero que esse artigo possa servir para a reflexão de nossos queridos patrícios. Infelizmente, não tenho tantas esperanças. Afinal, desde quando português consegue interpretar direito um texto elaborado como esse? Ora pois!

terça-feira, dezembro 11, 2012

Apologia da flexibilidade


João Pereira Coutinho, Folha de SP

É sem dúvidas uma lamentável tragédia: Jacintha Saldanha era enfermeira em um hospital de Londres. Recebeu uma ligação de dois radialistas australianos que se fizeram passar pela rainha Elizabeth 2ª e seu filho, o príncipe Charles.
A intenção dos radialistas era obter informações sobre a gravidez de Kate Middleton. Jacintha acreditou na pegadinha, passou a ligação a uma colega do hospital. Que revelou o estado de saúde da duquesa com pormenores.
Ninguém sabe o que se passou nas horas seguintes. Exceto que Jacintha Saldanha lidou mal com a brincadeira e apareceu morta. A polícia suspeita de suicídio.
Existem duas formas de olhar para o caso. A primeira é seguir o coro dos indignados, denunciar a cultura pop pela sua vulgaridade mendaz e até pedir a cabeça dos dois radialistas.
Mas existe uma segunda forma de olhar para o mesmo caso. De preferência, lendo um pequeno grande livro que até a circunspecta revista "The Economist" elegeu como um dos melhores do ano.
Foi escrito pela psicanalista Philippa Perry e o título diz tudo: "How to Stay Sane" (como se manter são, Macmillan, 160 págs.).
Primeiras conclusões: a "sanidade" não pode ser confundida com noções pedestres de "felicidade individual", vendidas por analfabetos infelizes em manuais de autoajuda.
Muito menos se confunde com variações mais modestas de "normalidade": a pretensão de definir o que é a "normalidade" não passa de um sintoma de anormalidade.
Para Philippa Perry, que escreve o ensaio com um pé na neurologia, outro na psicanálise, sem esquecer os ensinamentos imperecíveis dos Clássicos, "sanidade" pressupõe equilíbrio entre a rigidez dos nossos princípios e o caos da vida como ela é.
Ou, em linguagem platônica, "sanidade" é saber usar a razão para que nenhum dos dois cavalos que puxam a quadriga da alma -o cavalo do Espírito e o cavalo do Apetite- possam tomar, por si só, as rédeas da marcha.
Claro que os genes e a constituição orgânica do indivíduo têm uma importância decisiva nesse grau de sanidade.
A esse respeito, relembro um texto lido há uns anos, num tratado sobre a história da loucura, e escrito por um médico do hospício inglês de Bedlam em 1816 que nunca mais esqueci. Cito de cor: os pensamentos desarranjados, escrevia o doutor William Lawrence, têm a mesma relação para o cérebro que os vômitos para o estômago, a asma para os pulmões e qualquer outra maleita para o seu órgão correspondente.
Quando li essa passagem, sublinhei-a com um ponto de exclamação. Ou talvez com um ponto de lamentação: quantas vidas não teriam sido poupadas à culpabilização, à vergonha e ao sofrimento se as neurociências, pateticamente entretidas a aplicar "mitos gregos às partes íntimas" (obrigado, Nabokov), tivessem olhado mais cedo para o seu órgão correspondente?
Divago. Ou talvez não: porque se os genes têm importância para certas maleitas, não terão para todas.
E, por vezes, somos nós, seres racionais, que devemos procurar a palavra mais importante na gramática da sanidade. "Flexibilidade", escreve Philippa Perry.
Que o mesmo é dizer: olhar para os nossos princípios com uma boa dose de ceticismo e ironia. Não nos levarmos demasiado a sério. E, sobretudo, não levar a vida -frágil, fugaz e nem sempre rósea- demasiado a sério.
Na triste história de Jacintha Saldanha, é fácil criminalizar os dois radialistas. É fácil criminalizar uma brincadeira. É fácil acreditar que, sem uma pegadinha daquelas, a vida de Jacintha continuaria harmoniosa e feliz.
Duvido. Muito. E a única coisa que lamento é não ter existido ninguém -um colega de hospital, um amigo, um familiar, até um doente - que não tenha conferido a uma mera brincadeira a sua real dimensão.
E que, mesmo respeitando os princípios de verdade e honradez que faziam parte do código da enfermeira, não a tenha levado a rir de uma simples pegadinha. Porque nenhuma pegadinha daquelas justifica um suicídio.
No fundo, talvez seja essa a única moral da história: quando não temos a flexibilidade necessária para nos rirmos da vida, é a morte que acaba por se rir de nós.

sexta-feira, março 30, 2012

O Brasil perdeu o que tinha de melhor

Mário Guerreiro, Filósofo

O brasileiro pode ter muitos defeitos e eu os tenho apontado há algum tempo, mas um defeito ele nunca teve e dificilmente terá: falta de senso de humor – um dos mais graves defeitos do ser humano!
O brasileiro é capaz de rir até mesmo da própria desgraça, e nas situações trágicas em que ele perde tudo, só não perde essa extraordinária capacidade.
Por incrível que pareça um hai-kai de Matsuo Basho - grande poeta japonês do período Tokugawa - expressa, com grande sutileza, exatamente isso que eu disse a respeito do brasileiro.
Um ladrão entrou na sua casa e levou tudo quanto lá havia, mas parece que, do ponto de vista do poeta, só não levou mesmo o que não podia levar...

O ladrão
Só se esqueceu de levar
A lua da janela

Há quem veja nessa capacidade de rir de si próprio sinais de desdém em relação a tudo e ausência de amor próprio do brasileiro considerando que “desgraça pouca é bobagem”.
Mas o grande Nietzsche que seguramente não carecia de amor próprio e de indiferença a tudo, não que disse que “Zombo daquele que não zomba de si próprio”?!
Contrariamente aos que vêem os sinais de falta de autoestima e desdém no riso do brasileiro, eu vejo sinais das virtudes da determinação e da superação dos maiores infortúnios. “Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”. “O que não mata, engorda”. “Brasileiro, profissão: esperança”.
Afinal, o que importa não é o que nos atinge, mas sim a maneira como somos atingidos e nossa reação diante da coisa. “O que dá pra rir dá pra chorar; questão de peso e de medida, problema de hora e de lugar”.
O Brasil é um país fora de série, tanto no que tem de bom como no que tem de ruim. Tem uma personalidade sui generis. Nossos políticos nos fazem rir e nossos humoristas nos fazem pensar na política.
Mas há ao menos dois tipos de humorista: aqueles cujo senso de humor lhes é endógeno: nascem com ele, vivem com ele e morrem com ele.
Como Voltaire que, no seu leito de morte, recebeu um padre e este ansioso por convertê-lo, disse para ele “Meu filho, eu sou um embaixador de Deus”.
E Voltaire: “Então, mostre-me então suas credenciais.”
E aqueles que fazem rir por ofício, como coveiros que não cavam covas para malhar os braços nem por lazer e diversão.
Os primeiros fazem humor em cena e fora de cena: são mesmo assim e não conseguem ser diferentes do que são. Os segundos só o fazem por dever de ofício: fora de cena ou desempenhando atividades sérias, eles carecem totalmente de senso de humor.
Vejam o caso de Agildo (Barata) Ribeiro. Ele é um sujeito bem humorado dentro e fora cena. O humor é parte constituinte de seu ser. Antes, durante e depois do Cabaré do Barata, aquele quadro cômico da TV em que Agildo conversava com bonecos caricatos de políticos famosos, como Brizola, Maluf, Lula, etc.
Vejam o caso de Luís Fernando Veríssimo. Quando ele se propõe a fazer humor cria estórias e tipos assaz hilariantes, como o Analista de Bagé, o maior psicanalista vivo depois de Freud. Bá! Índio velho muy vivo!
Porém, quando ele fala sério em seus artigos de jornal exala um esquerdismo delirante e perde totalmente seu sense of humour. Só me faz rir para não chorar ou para não decepcionar um velho amigo que contou uma piada “infame”.
Mas não é desses dois humoristas que eu pretendo falar, mas sim de outros dois.
No ano da graça ou da desgraça de 2012, lá pelos terríveis Idos de Março em que Júlio César foi traiçoeiramente apunhalado por seu filho adotivo Brutus e alguns senadores de Roma, o Brasil ficou de luto.
Perdeu dois de seus maiores humoristas: Chico Anysio e poucos dias depois Millôr Fernandes. Cada qual desenvolveu um estilo de humor, mas ambos foram excelentes no que faziam.
Chico criava um humor mais popular, embora nem sempre tivesse se limitado a simples bazófia ou ao besteirol. Muitas vezes seu humor era crítico dos costumes e dos tipos humanos. Foi talvez o mais rico criador de tipos, depois de Balzac na Comédia Humana – que, como A Divina Comédia de Dante, não era coisa para rir - pois criou mais de 200 tipos ao longo de sua carreira.
Examinando detidamente seus tipos mais conhecidos, podemos perceber na sua caracterização uma aguçada observação de figuras populares, principalmente do Nordeste bem conhecido por ele, que era de Maranguape (CE).
Mas ele não se limitou a ser um humorista regional nordestino. Sua tipologia incluía tipos cariocas, paulistas e até a gaúcha Salomé ao telefone conversando com figuras importantes do cenário nacional com a maior intimidade de uma conversa de comadres.
Foram tantos e tão interessantes que careço de espaço para falar sobre eles. Destaco o Painho, aquele pai-de-santo baiano que desmunhecava [Tivesse sido criado hoje, Chico seria considerado homofóbico e teria sido censurado!].
Destaco Bento Carneiro, o vampiro brasileiro, e seu fiel escudeiro Calunga. Segundo penso, o tipo mais hilariante do ponto de vista plástico da indumentária e da maquiagem.
Lembro-me bem do dia em que ele cravou os caninos no pescoço de numa vítima, mas tudo que conseguiu foi quebrar os dentes, podres que estavam por ele não ter dinheiro para pagar dentista. No Brasil, até vampiro, para sugar o sangue, é incompetente!
E havia também tipos políticos, como o notável deputado Justo Veríssimo, o representante do povo mais sincero de todos os tempos, que tinha um projeto para acabar com a fome no Brasil.
Não distribuindo por toda parte bolsas-família, mas sim dando comida envenenada para os pobres. De fato, sem pobres não há pobreza, a não ser pobreza de espírito. Mas isto não tem remédio que cure!
Justo Veríssimo era dotado de uma franqueza cavalar capaz de superar Immanuel Kant e Benjamin Franklin, que alegavam nunca ter mentido em todas as suas vidas. Ele estava sempre dizendo coisas que políticos só costumam dizer em off, cercado de apaniguados complacentes.
Coisas tais como: “Eu quero mais que os pobres se explodam”, “Eu só quero mesmo é me arrumar”. “Quem gosta de pobre é empada de botequim e chinelo velho”.
Se Chico fazia um humor mais popular, mas nunca descambando para o baixo nível e para a grosseria, Millôr fazia um humor mais intelectual, mas nunca descambando para o hermetismo e para o pedantismo.
Além de humorista, ele era um ótimo dramaturgo e tradutor de Shakespeare, por quem tinha grande admiração.
Conheci Chico ouvindo a Rádio Mayerink Veiga. Quando eu era criança não perdia A Cidade se Diverte, onde Chico Anysio entrava no ar juntamente com Matinhos, Walter Dávila, Emma Dávila e outros Conheci Millôr lendo a revista Cruzeiro em que ele adotou o pseudônimo de Vão Gogo e tinha uma coluna chamada Pif-Paf.
Nunca ninguém foi capaz de escrever peças de teatro tão breves e desconcertantes como as do Teatrinho Relâmpago, um vapt-vupt que terminava invariavelmente com o refrão: Cai rapidamente o pano.
Anos depois ele passou a escrever no Pasquim, juntamente com o Jaguar, Paulo Francis e outros. E finalmente encerrou sua carreira em Veja.
Para mim, Millôr foi o humorista brasileiro mais inteligente e perspicaz, de uma coerência a toda prova, que sempre se manteve fiel ao que pensava e nunca teve medo de dizer o que pensava, mesmo sabendo que iria desagradar a muitos.
Ora, nem Cristo conseguiu agradar a todos e aquele que tenta fazer tal coisa sempre acaba desagradando a si próprio.
Seu livro A Bíblia do Caos é uma ótima seleção das melhores do Millôr. E entre suas melhores e das últimas foi uma a respeito dos guerrilheiros de 1968 que, na Nova República, receberam polpudas indenizações e pensões vitalícias para suas viúvas.
Millôr chegou à conclusão de que sua ação guerrilheira nada mais era do que um investimento de longo prazo...
Mas eu não tinha dito que nossos políticos são pândegos e nossos humoristas nos fazem pensar na política?!