O caso da Irlanda é interessante, pois mostra os riscos do sistema bancário atual. A Irlanda era o patinho feio da Europa, um país bem mais pobre que os demais. Após uma série de reformas liberais, a economia irlandesa cresceu mais de 6% ao ano por uma década, tornando-se um caso de sucesso, com uma das maiores rendas per capita da região (chegou a quase US$ 45.000). Mas... o sistema bancário expandiu o crédito sem limites, colocando todas as conquistas em risco. Alguns oportunistas de esquerda aproveitam para atacar... as reformas liberais, como se estas fossem causa dos problemas. Não são! São o motivo do relativo sucesso, que mesmo após esta crise toda, gerada pelos bancos e pela bolha imobiliária mundial, ainda mantém a Irlanda como uma nação próspera.
O artigo do Mises.org hoje fala justamente do caso irlandês. Vale a pena a leitura. Segue um trecho relevante:
"In some sense Ireland was even too competitive. Ireland has the lowest corporate tax rate in the Economic and Monetary Union (at 12.5 percent). The tax rate attracted banks from all over the world to expand their businesses on the island. As a consequence, Ireland's banking sector expanded substantially. During the boom years, banks earned immense profits through their privilege of credit expansion and their implicit government backing. As a result of the credit expansion, an Irish housing bubble developed. And its burst caused substantial losses and even insolvency for Irish banks.
While banking profits during the boom were private, its losses were socialized on September 30, 2008, when the Irish government guaranteed all Irish bank liabilities. As of late 2010, Ireland has injected about €50 billion into its banking system. The Irish problems were created, not by an excessive welfare system, but by the socialization of the losses of a privileged banking system."
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
terça-feira, novembro 30, 2010
O papel da oposição
Rodrigo Constantino, O Globo
Democracia não é a ditadura da maioria. O regime democrático requer condições básicas para funcionar, tais como liberdade de imprensa, limite constitucional ao governo, independência dos poderes e uma sólida oposição. Todos estes importantes pilares estão enfraquecidos no Brasil. O último deles será o foco deste artigo.
Mais de 40 milhões de brasileiros mostraram nas urnas que não estão satisfeitos com os rumos do país. Trata-se de um brado retumbante que garante legitimidade aos opositores do governo. Resta saber se a oposição vai cumprir com responsabilidade, união e coragem esta função delegada por tantos brasileiros. É o que se espera dela, e cabe às suas lideranças o papel de coordenar seus partidos nesta direção comum. Eximir-se desta tarefa significa trair milhões de eleitores.
O papel da oposição é fundamental para fortalecer a democracia. Hibernar por quatro anos para reaparecer nas eleições é suicídio político. Compreende-se o receio de enfrentar um governo popular como o do presidente Lula, mas ter deixado de fazê-lo foi como dar um tiro no próprio pé. Com Dilma na presidência, sem o mesmo carisma, esta negligência passa a ser indefensável.
Ao que tudo indica, a oposição terá uma excelente oportunidade para mostrar a que veio, lutando em defesa dos milhões de brasileiros que não suportam mais tantos impostos. Mal acabara a contagem das urnas, e a coligação eleita já falava em recriar a CPMF, com nome diferente para ludibriar o povo. Trata-se de um verdadeiro “estelionato eleitoral”, uma vez que a própria Dilma chegou a afirmar que não aumentaria os impostos, já em patamares indecentes no Brasil.
Segundo Alberto Carlos Almeida, em “O dedo na ferida”, o povo brasileiro sabe que paga muitos impostos, e gostaria que eles fossem reduzidos. Almeida acredita que há o script pronto, mas falta o ator. Eis a chance da oposição. O povo brasileiro está mais atento, e dificilmente cairá na retórica do governo, de que é preciso mais recursos para a saúde. O povo entendeu que dinheiro não tem carimbo, e que seus impostos acabam desviados para destinos menos nobres, como corrupção e inchaço da máquina pública.
A questão da recriação da CPMF será um teste crucial para verificar se ainda há oposição de fato neste país. Em vez de o governo criar mais imposto, ele deveria focar na redução dos gastos públicos, que estão em trajetória explosiva. A pressão inflacionária já começa a incomodar, e usar somente a política de juros para combatê-la significa usar uma bazuca para matar uma formiga: o estrago é geral.
O presidente Lula, no afã de eleger sua candidata, mandou às favas a responsabilidade fiscal durante o final de seu governo. Não só a gastança pública saiu de controle, como o crédito estatal também foi estimulado de forma irresponsável. O resultado foi um forte crescimento econômico, fator extremamente relevante para decidir a eleição. Mas a fatura ainda terá que ser paga. Se o governo Dilma não reverter o quadro, demonstrando maior austeridade fiscal, o crescimento será insustentável, tornando-se mais um vôo de galinha. Os “desenvolvimentistas”, estes alquimistas da ciência econômica, terão que aceitar a realidade como ela é.
Além da CPMF, existem várias outras batalhas que a oposição deve lutar. Os escândalos do Enem, para começo de conversa, ou então o trem-bala, cujo orçamento está claramente subestimado, e mesmo assim já representa enorme desperdício de recursos públicos frente a tantas alternativas mais urgentes. Ou ainda o estranho episódio envolvendo a Caixa Econômica e o Banco PanAmericano. Há muito que explicar nestes casos. A oposição não pode deixar tudo por conta da imprensa.
Há também a postura neutra lamentável do governo, quando a ONU resolveu condenar a teocracia iraniana por desrespeito aos direitos humanos. Para o governo, “negócios são negócios”. Cabe à oposição sustentar que esta não pode ser a postura de um país que ainda leva em consideração a questão ética. Milhões de brasileiros esperam esta reação da oposição.
Existem muitos outros pontos em que o papel da oposição se faz necessário para a construção de uma democracia mais sólida. O povo merece o contraditório, até para poder julgar melhor os atos do governo. Quando a oposição está fragilizada, desorganizada e passiva, a democracia corre perigo. A experiência mexicana mostrou como isso pode ser fatal. A oposição precisa resolver seus problemas internos e assumir seu papel legítimo em prol da democracia brasileira. Milhões de brasileiros contam com isso.
Democracia não é a ditadura da maioria. O regime democrático requer condições básicas para funcionar, tais como liberdade de imprensa, limite constitucional ao governo, independência dos poderes e uma sólida oposição. Todos estes importantes pilares estão enfraquecidos no Brasil. O último deles será o foco deste artigo.
Mais de 40 milhões de brasileiros mostraram nas urnas que não estão satisfeitos com os rumos do país. Trata-se de um brado retumbante que garante legitimidade aos opositores do governo. Resta saber se a oposição vai cumprir com responsabilidade, união e coragem esta função delegada por tantos brasileiros. É o que se espera dela, e cabe às suas lideranças o papel de coordenar seus partidos nesta direção comum. Eximir-se desta tarefa significa trair milhões de eleitores.
O papel da oposição é fundamental para fortalecer a democracia. Hibernar por quatro anos para reaparecer nas eleições é suicídio político. Compreende-se o receio de enfrentar um governo popular como o do presidente Lula, mas ter deixado de fazê-lo foi como dar um tiro no próprio pé. Com Dilma na presidência, sem o mesmo carisma, esta negligência passa a ser indefensável.
Ao que tudo indica, a oposição terá uma excelente oportunidade para mostrar a que veio, lutando em defesa dos milhões de brasileiros que não suportam mais tantos impostos. Mal acabara a contagem das urnas, e a coligação eleita já falava em recriar a CPMF, com nome diferente para ludibriar o povo. Trata-se de um verdadeiro “estelionato eleitoral”, uma vez que a própria Dilma chegou a afirmar que não aumentaria os impostos, já em patamares indecentes no Brasil.
Segundo Alberto Carlos Almeida, em “O dedo na ferida”, o povo brasileiro sabe que paga muitos impostos, e gostaria que eles fossem reduzidos. Almeida acredita que há o script pronto, mas falta o ator. Eis a chance da oposição. O povo brasileiro está mais atento, e dificilmente cairá na retórica do governo, de que é preciso mais recursos para a saúde. O povo entendeu que dinheiro não tem carimbo, e que seus impostos acabam desviados para destinos menos nobres, como corrupção e inchaço da máquina pública.
A questão da recriação da CPMF será um teste crucial para verificar se ainda há oposição de fato neste país. Em vez de o governo criar mais imposto, ele deveria focar na redução dos gastos públicos, que estão em trajetória explosiva. A pressão inflacionária já começa a incomodar, e usar somente a política de juros para combatê-la significa usar uma bazuca para matar uma formiga: o estrago é geral.
O presidente Lula, no afã de eleger sua candidata, mandou às favas a responsabilidade fiscal durante o final de seu governo. Não só a gastança pública saiu de controle, como o crédito estatal também foi estimulado de forma irresponsável. O resultado foi um forte crescimento econômico, fator extremamente relevante para decidir a eleição. Mas a fatura ainda terá que ser paga. Se o governo Dilma não reverter o quadro, demonstrando maior austeridade fiscal, o crescimento será insustentável, tornando-se mais um vôo de galinha. Os “desenvolvimentistas”, estes alquimistas da ciência econômica, terão que aceitar a realidade como ela é.
Além da CPMF, existem várias outras batalhas que a oposição deve lutar. Os escândalos do Enem, para começo de conversa, ou então o trem-bala, cujo orçamento está claramente subestimado, e mesmo assim já representa enorme desperdício de recursos públicos frente a tantas alternativas mais urgentes. Ou ainda o estranho episódio envolvendo a Caixa Econômica e o Banco PanAmericano. Há muito que explicar nestes casos. A oposição não pode deixar tudo por conta da imprensa.
Há também a postura neutra lamentável do governo, quando a ONU resolveu condenar a teocracia iraniana por desrespeito aos direitos humanos. Para o governo, “negócios são negócios”. Cabe à oposição sustentar que esta não pode ser a postura de um país que ainda leva em consideração a questão ética. Milhões de brasileiros esperam esta reação da oposição.
Existem muitos outros pontos em que o papel da oposição se faz necessário para a construção de uma democracia mais sólida. O povo merece o contraditório, até para poder julgar melhor os atos do governo. Quando a oposição está fragilizada, desorganizada e passiva, a democracia corre perigo. A experiência mexicana mostrou como isso pode ser fatal. A oposição precisa resolver seus problemas internos e assumir seu papel legítimo em prol da democracia brasileira. Milhões de brasileiros contam com isso.
sexta-feira, novembro 26, 2010
Simples ou Simplista?

Rodrigo Constantino
“Para todo problema complexo, há uma resposta clara, simples e errada.” (H. L. Mencken)
O caos da criminalidade carioca suscitou intensos debates sobre quais são suas principais causas e como resolver o problema. Algumas pessoas, imbuídas das melhores intenções, mas armados com uma visão extremamente limitada, logo partem para as soluções “mágicas”, aquelas que parecem demasiadamente simples. Porém, quando se trata de problemas complexos como este, a única certeza é de que não existem panacéias. Qualquer solução simples será, na verdade, simplista.
É o caso daqueles que pregam a legalização das drogas como saída para o problema. Estou de acordo com o argumento de que sua proibição tem sido uma importante causa da criminalidade, pois concentrou poder nos bandidos. Durante a Lei Seca nos Estados Unidos, era Al Capone quem mandava. Com seu fim, vieram as respeitadas empresas de bebidas alcoólicas. É preciso rever esta política de proibição, sem dúvida, ao menos para as drogas mais leves como a maconha, responsáveis por boa parte do faturamento dos traficantes. Mas legalização não é panacéia.
Basta pensar que há consumo de drogas ilegais no mundo todo, e que nem por isso as cidades de países desenvolvidos se parecem com o Rio neste aspecto. As milícias que tomaram conta das favelas ganham dinheiro em cima da venda de serviços legais também, como botijão de gás, transporte de vans ou TV a cabo (neste caso nem tão legal assim, pois são os famosos “gatos”). As máfias russas cobravam cerca de 30% do faturamento das empresas apenas para “protegê-las” das próprias máfias. Onde não há Estado de Direito, o uso da força, da coerção de algum poder paralelo será a regra, não a exceção, independente de qual produto ou serviço está sendo ofertado.
A bandeira “social” também é utilizada por muitos românticos como panacéia. Normalmente uma bandeira da esquerda, ela também peca por falta de realismo. Em primeiro lugar, ao tratar bandidos cruéis e insensíveis como simples “vítimas da sociedade”. Claro que o ambiente é importante, que as favelas são locais inadequados para se criar crianças, e que o convite ao crime representa constante ameaça e tentação. O homem é, em parte, um produto do meio. Mas só em parte! Há o livre-arbítrio, e basta pensar que a maioria dos moradores de favelas é formada por pessoas honestas, e não assassinos. A política do “coitadinho”, que transmuta vilão em vítima, tem prestado grande desserviço ao combate ao crime.
Investimentos sociais, sendo que o principal deles é mais liberdade econômica para se criar riqueza e empregos, são importantes, não resta dúvida. Mas não são mágicos. Enquanto a impunidade for total, os bandidos, reagindo aos incentivos, serão ousados e destemidos. O crime compensa. Por isso que o confronto duro com marginais é parte essencial da solução do problema. A turma de “direitos humanos” precisa reconhecer este fato. Fechar os olhos para a realidade é insistir no autoengano, alimentando mais ainda o monstro. A polícia tem que agir com firmeza sim, e é legítimo abrir fogo contra bandidos altamente armados, prontos para uma guerra.
Mas o confronto e mesmo a tomada de território pelo Estado tampouco serão soluções mágicas. São medidas necessárias de curto prazo, mas não resolvem os problemas estruturais. Estes demandam muito tempo, reformas sérias, trabalho conjunto da sociedade, mudança na polícia, na economia, no sistema penitenciário, na mentalidade das pessoas e no judiciário. A criminalidade que tomou conta do Rio é obra não de uma geração, mas de décadas de descaso das autoridades, a começar pelo governador Leonel Brizola, que transformou as favelas em verdadeiras fortalezas do crime, impedindo a ação policial necessária nestes locais.
Aquilo que foi gestado por décadas, não poderá ser solucionado num piscar de olhos. Mas as recentes ações do governo demonstram que há luz no fim do túnel. Ao menos parece que a trajetória foi alterada, colocando o governo no rumo certo. Há uma estratégia, e os bandidos estão sendo asfixiados. Naturalmente, como nos lembra Thomas Sowell, “a maioria dos problemas não é resolvida; apenas dá lugar a novas preocupações”. Nem tudo está dominado, como muitos pensavam. Mas estamos longe da paz. Novos problemas irão surgir com estas medidas. Os bandidos não vão desaparecer. As drogas continuam sendo elevada fonte de renda, e onde há demanda, sempre haverá oferta.
Para questões tão complexas, não existem soluções definitivas. Podemos apenas melhorar o quadro, ir gradualmente mudando a situação na direção de um modelo mais civilizado, que possa resgatar o título de “cidade maravilhosa” que o Rio merece. Mãos à obra!
E o caseiro Francenildo, hein?
Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal
O Estadão destaca em manchete: “Palocci é confirmado na Casa Civil”. O poderoso cargo, que já foi ocupado por José Dirceu, Dilma Rousseff e Erenice Guerra, sempre foi palco de grandes escândalos de corrupção. O governo Dilma começa mal quando aponta para tal função crucial do governo ninguém menos que Palocci, já envolvido em diversos escândalos diferentes. Como diz a máxima: “À mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”. O ministério da Casa Civil deveria ser ocupado por alguém acima de qualquer suspeita. Palocci está muito longe de representar algo parecido.
Em 2005, Palocci se viu envolvido no escândalo do “mensalão”, após ser acusado por Rogério Buratti, seu ex-secretário em Ribeirão Preto, de receber entre 2001 e 2004 R$ 50 mil mensais de propina da empresa Leão&Leão, que seria favorecida em licitações da prefeitura. Palocci foi denunciado em 2006 pelo Ministério Público de São Paulo por crimes de formação de quadrilha, peculato e adulteração de documentos públicos. Em 2007, ele foi condenado em primeira instância pela Justiça, por irregularidades em Ribeirão. A lista continua.
Mas o caso que o derrubou do governo Lula, mostrando que estava completa a transformação do médico de fala mansa (Dr. Jeckyl) no “monstro” (Mr. Hyde) do livro de Stevenson, foi a quebra de sigilo do pobre caseiro Francenildo Costa, que era testemunha da presença do então ministro na mansão alugada em Brasília para a chamada "república de Ribeirão Preto". O episódio, totalmente bizarro, expôs a verdadeira natureza de Palocci.
O uso da máquina estatal como instrumento de espionagem particular é uma das maiores ameaças ao Estado de Direito, e tal crime não pode ser ignorado pelos liberais, só porque Palocci tem fala mansa e prega mais austeridade fiscal. O Mr. Hyde sempre estará lá, pronto para vir à tona sempre que for necessário para o projeto petista de poder.
quinta-feira, novembro 25, 2010
Rio em guerra
Vídeo onde comento os fatos recentes ocorridos no Rio, com o confronto entre Bope e traficantes, alegando que esta situação caótica é obra de décadas de negligência do governo, com o auxílio das ONGs de "direitos humanos" que sempre defenderam os piores bandidos como simples "vítimas da sociedade". É preciso intensificar o ataque contra estes criminosos!
Campanha "Fora Palocci"
Rodrigo Constantino
Pragmatismo tem limite! Entendo que Palocci seja visto como uma ilha de bom senso num mar de mediocridade que é o PT. Em terra de cego, quem tem um olho é rei. O médico de fala mansa, que sempre esteve mais próximo da razão quando se tratava de defender a austeridade fiscal no governo Lula, é visto pelo mercado como um pilar de credibilidade do futuro governo Dilma. O mercado é amoral, e quer resultado. Mas não creio que seja do interesse dos brasileiros, no longo prazo, sacrificar a questão ética em troca de um pouco mais de segurança.
"Aqueles que desistiriam da liberdade essencial para comprar um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade, nem segurança", disse Benjamin Franklin. E parte da liberdade essencial é condenar alguém envolvido até o pescoço em escândalos de corrupção. Para refrescar a memória, recomendo a leitura do capítulo do livro "O Chefe", de Ivo Patarra, sobre o caso da "máfia do lixo", envolvendo Palocci.
Isso sem falar da quebra de sigilo bancário do pobre caseiro Francenildo Costa, que era testemunha da presença de Palocci na mansão alugada em Brasília para a chamada "república de Ribeirão Preto". Quem persegue de forma tão autoritária um simples caseiro, usando o aparato estatal como instrumento particular de espionagem, não pode ocupar cargo algum no governo! Nem ministro da Casa Civil, nem Secretário-Geral da Presidência. Não podemos ser "pragmáticos" a ponto de sacrificar valores tão fundamentais numa democracia como o direito de privacidade do cidadão comum.
Estou iniciando minha campanha isolada em nome da ética na política: Fora Palocci!
quarta-feira, novembro 24, 2010
Individualismo, sim; Sociopatia, não!

Rodrigo Constantino
Cada indivíduo deve ser um fim em si mesmo. Nas palavras de Kant, “ninguém poderá obrigar-me a ser feliz à sua maneira”. Esta tem sido a máxima dos liberais desde então, em contraposição aos coletivistas, que colocam algum coletivo qualquer, seja raça, nação, ou classe, como a finalidade nobre, transformando indivíduos em simples meios sacrificáveis.
Uma das grandes defensoras do individualismo foi Ayn Rand, cuja novela “A Revolta de Atlas” apresenta seu arquétipo de super-homem, John Galt. A frase em destaque no rancho de Galt resume bem sua filosofia: “Juro pela minha vida e meu amor por ela que nunca vou viver em função de outro homem, nem pedir a outro homem que viva em minha função”. Sem dúvida, trata-se de um individualismo exacerbado, mas compreensível como antídoto de uma individualista radical que fora vítima da mais nefasta experiência coletivista: a União Soviética.
Na novela anterior, “A Nascente”, Rand já esboçara este perfil de herói por meio de Howard Roark. Em determinada passagem, o vilão Ellsworth Toohey, um coletivista invejoso, quer saber o que Roark pensa dele, após um de seus golpes bem-sucedidos contra Roark. Este se limita a responder: “Eu não penso em você”. A mais completa indiferença frente ao mal existente na humanidade. Eis uma meta interessante. Mas digna somente dos deuses. Tanto que a própria Ayn Rand, de carne e osso, não conseguia ser indiferente, tendo que atacar seus inimigos através de suas novelas. Na fantasia, ela fugiu para seu paraíso, um lugar onde somente os melhores – todos com os mesmos valores e crenças – viviam. Narciso acha feio o que não é espelho.
A verdade é que Aristóteles já havia percebido que o homem é um “animal social”. Quem não é impelido a estar com outros homens, dizia ele, “ou é um deus ou um bruto”. Como nenhum ser humano é perfeito, então aquele que se mostra totalmente indiferente aos homens, mesmo aos piores, só pode ser um bruto. No fundo, todos nós necessitamos do convívio social, ainda que a sociedade seja vista como uma espécie de “baile de máscaras”, com seus ritos hipócritas e regras bobas de civilidade. O equilíbrio entre o puro individualismo, que escuta somente o chamado de potência de que falava Nietzsche, e a vida gregária, parece ser o grande desafio de todos.
Como organizar a sociedade de forma a preservar o máximo possível da liberdade individual, sem matar a própria comunidade? Esta é a questão que atormenta todos os pensadores individualistas desde sempre. Para Freud, estamos fadados a experimentar o “mal-estar na cultura”, pois o homem tem que abrir mão de parte de sua liberdade para viver em sociedade. As possibilidades de satisfação individual são reduzidas neste convívio, mas a alternativa é ainda pior. Renunciar a certos impulsos, ou sublimá-los, passa a ser questão de sobrevivência do próprio indivíduo na cultura.
Freud diz: “Portanto, o ímpeto libertário se dirige contra determinadas formas e exigências da cultura ou contra a cultura em geral. Não parece que se possa levar o homem, através de algum tipo de influência, a transformar a sua natureza na de um cupim; é provável que ele sempre defenda sua pretensão à liberdade individual contra a vontade da massa”. Encontrar um equilíbrio conveniente tem sido a luta da humanidade. O individualista estará sempre fadado à frustração na sociedade. Afinal, ele não é um inseto gregário como o cupim.
Antecipando Freud em mais de um século, Adam Smith já tinha notado que mesmo o “altruísmo” tinha uma natureza egoísta. A primeira frase de seu “Teoria dos Sentimentos Morais” é: “Por mais egoísta que se suponha o homem, evidentemente há alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte de outros, e considerar a felicidade deles necessária para si mesmo, embora nada extraia disso senão o prazer de assistir a ela”.
Mas, independente da causa original do sentimento de empatia, o fato é que os seres humanos, à exceção dos psicopatas, estão inclinados a olhar para o próximo sem indiferença. Por projeção ou não, o sofrimento alheio incomoda, a felicidade pode contagiar, e a banalidade do mal choca. Humanos de carne e osso não ficam indiferentes aos Tooheys da vida, mas sim revoltados. Levar os outros em consideração, ligar para o que se passa em volta, estar preocupado com o destino de outras pessoas, nada disso é necessariamente coletivismo. O individualista pode perfeitamente demonstrar traços “altruístas”. A diferença é que seu altruísmo estará voltado para indivíduos, e não abstrações coletivas.
“É fácil amar a Humanidade”, dizia Nelson Rodrigues, completando que “o difícil é amar o próximo”. O individualista rejeita o amor por abstrações coletivas, não por outros indivíduos. Para Karl Popper, a associação que Platão fez entre individualismo e egoísmo, em seu sentido pejorativo, tinha como estratégia manchar a imagem do primeiro, de forma a defender seu coletivismo. Mesmo o Cristianismo, lembra Popper, recomenda amar “teu próximo”, não “tua tribo”. Mas a visão distorcida platônica prevaleceu, e até hoje os individualistas são erroneamente confundidos com egoístas insensíveis, ou pior, sociopatas.
Quem tratou de forma clara deste tema foi Mário Vargas Llosa, escrevendo sobre o livro “O Estrangeiro”, de Albert Camus. Seu personagem principal, Meursault, não aceita “jogar o jogo” da sociedade, repleta de hipocrisias e máscaras. Ele se recusa a ser um ator no teatro da vida. Mas, conforme lembra Vargas Llosa, “não existe sociedade, quer dizer, convivência, sem um consenso dos seres que a integram, de respeito a certos ritos ou formas que devem ser respeitadas por todos”. Sem isso, haveria apenas uma “selva de bípedes libérrimos onde somente sobrevivem os mais fortes”. Meursalt pode não saber, mas ele também interpreta um papel: o de “ser livre ao extremo, indiferente às formas entronizadas da sociabilidade”.
Mário Vargas Llosa acredita que “no fundo de todos nós existe um escravo nostálgico, um prisioneiro que queria ser tão espontâneo, franco e anti-social” como o personagem de Camus. Mas mesmo os espíritos mais livres reconhecem que há um preço a se pagar pela cultura, qual seja, o de renúncia à soberania absoluta, aos impulsos que poderiam colocar em risco a vida em sociedade. Se todos fossem puro instinto, até a instituição da família estaria em perigo, e com ela os próprios indivíduos.
O parecer de Vargas Llosa não é favorável ao tipo “libertário” representado por Meursault. Em sua opinião, o estrangeiro de Camus vive num mundo desumanizado, e mostra a “imagem deprimente de um homem a quem a liberdade não engrandece moral ou culturalmente; talvez, destrua sua espiritualidade e o prive de solidariedade, de entusiasmo, de ambição, e o torne passivo, rotineiro e instintivo, num grau pouco menos que animal”. Em suma, um bruto no sentido aristotélico.
O individualista deve sim colocar sua própria felicidade no topo da hierarquia de valores, e não deve levar tanto em conta o que os outros pensam o tempo todo dele. Ele tem o direito de existir para a própria felicidade. Aquele que vive sempre preocupado com tudo que dizem ou pensam dele não passa de um escravo. Mas isso não é sinônimo de total aversão à vida em comunidade, ainda que esta exija, em contrapartida, o convívio com suas infindáveis imperfeições e limites à própria liberdade plena. Esta só existe mesmo nas utopias.
Rio em guerra
Rodrigo Constantino
A violência e ousadia dos bandidos cariocas estão em patamares cada vez mais assustadores. São várias causas que levaram a esta situação periclitante, mas as três mais importantes são: impunidade, impunidade e impunidade!
Tenho vários artigos mais antigos sobre o tema, todos eles batendo basicamente nesta mesma tecla. Estamos deixando a barbárie tomar conta da "cidade maravilhosa". Pergunto: até quando? Guerra é guerra. Guerra não é paz, como "pensam" os orwellianos "pacifistas", que pretendem reagir à agressão dos bandidos com rosas.
No artigo A Janela Quebrada, falo da necessidade de uma política de "tolerância zero", mesmo com os delitos menores. O ambiente de impunidade é nosso maior inimigo. A mesma mensagem é passada no artigo Chega de Impunidade!, de 2006.
A reação aos ataques ousados destes bandidos deve ser em dobro! Todos os demais problemas estruturais devem ser atacados também, sem dúvida. Mas no curto prazo, a meta deve ser "tolerância zero" com estes marginais. Chega de passar a mão na cabeça de assassinos como se fossem "vítimas da sociedade". Chega de impunidade! Ou vamos ficar como o México em pouco tempo...
terça-feira, novembro 23, 2010
Detran: piada de mau gosto!
Rodrigo Constantino
Os cariocas são obrigados a fazer vistoria anual nos carros, mesmo que seja um carro novinho, quase 0 km (meu caso). Somos forçados a encarar filas gigantescas, funcionários incompetentes e muitas vezes truculentos. Tudo isso para mandar ligar as setas, a lanterna e apertar a buzina.
Não obstante tanta palhaçada, já sem graça alguma para os trabalhadores, que perdem muitas vezes um dia inteiro nesta novela, há um agravante: não é possível agendar a vistoria dentro do prazo! Pela lentidão e incompetência dos "funças" que parasitam nesta máfia chamada Detran, o fato é que o proprietário do veículo tem que ficar atento não só ao prazo limite da vistoria, mas com meses de antecedência!
Resumo da ópera bufa: estou trafegando com um carro que tem apenas 10 mil km rodados, e de forma ilegal, tudo porque o Detran tem que fazer uma vistoria estúpida e caça-níquel, e não consegue nem mesmo agendar tal vistoria no curto prazo. Se um guarda me parar, vai rebocar o carro novinho em folha, por culpa do Detran. Os serviços prestados pelo governo não são uma maravilha?
Os cariocas são obrigados a fazer vistoria anual nos carros, mesmo que seja um carro novinho, quase 0 km (meu caso). Somos forçados a encarar filas gigantescas, funcionários incompetentes e muitas vezes truculentos. Tudo isso para mandar ligar as setas, a lanterna e apertar a buzina.
Não obstante tanta palhaçada, já sem graça alguma para os trabalhadores, que perdem muitas vezes um dia inteiro nesta novela, há um agravante: não é possível agendar a vistoria dentro do prazo! Pela lentidão e incompetência dos "funças" que parasitam nesta máfia chamada Detran, o fato é que o proprietário do veículo tem que ficar atento não só ao prazo limite da vistoria, mas com meses de antecedência!
Resumo da ópera bufa: estou trafegando com um carro que tem apenas 10 mil km rodados, e de forma ilegal, tudo porque o Detran tem que fazer uma vistoria estúpida e caça-níquel, e não consegue nem mesmo agendar tal vistoria no curto prazo. Se um guarda me parar, vai rebocar o carro novinho em folha, por culpa do Detran. Os serviços prestados pelo governo não são uma maravilha?
Liberdade com pão de queijo
Rodrigo Constantino
Impecável. Esta é a palavra que define o primeiro Fórum da Liberdade em Minas Gerais, organizado pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE). Há mais de duas décadas o IEE organiza o Fórum da Liberdade em Porto Alegre, evento que cresceu tanto a ponto de se tornar o maior fórum liberal da América Latina, quiçá do mundo! Inúmeras personalidades importantes já passaram pelo evento, que preza por sua pluralidade de idéias, sempre respeitando o contraditório (esquerdistas são invariavelmente convidados, ao contrário do que ocorre no Fórum Social Mundial, onde liberais jamais são chamados).
Desta vez o IEE abraçou o desafio de levar este incrível evento para Minas Gerais. E com que sucesso o instituto realizou esta tarefa! Foi o primeiro Fórum da Liberdade em BH, mas a criatura já nasceu grande. Mais de 500 pessoas compareceram ao evento, fora outros tantos que puderam acompanhar as palestras por transmissão via internet. A organização estava impecável, e as palestras foram excelentes. Foi, sem dúvida, um evento nota 10!
Os discursos da presidente do IEE capítulo BH, Sílvia Araújo, e do presidente do IEE Felipe Quintana foram diretos ao ponto, atacando o modelo político perverso que vigora no país, asfixiando a iniciativa privada de forma criminosa. Não pude deixar de notar que toda vez em que Felipe Quintana criticava algum absurdo do governo, ele olhava diretamente para Antônio Anastasia, o governador de Minas Gerais ali presente. Eis a cultura disseminada pelo IEE: falar o que deve ser dito com coragem. O discurso do governador mostrou que ele acusou o golpe. Anastasia, na defensiva, disse que o Estado não deve ser nem mínimo nem gigante, mas sim do tamanho "necessário". O diabo é que governantes sempre acham que o necessário é infinitamente maior do que o realmente necessário!
Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, foi homenageado com o Prêmio Liberdade. E que homenagem merecida! A revista Veja tem sido um dos principais pilares na defesa da liberdade no país, com seu jornalismo investigativo que já derrubou ministros importantes envolvidos em escândalos de corrupção. Para medir o valor do trabalho em prol da liberdade da revista Veja, basta verificar a virulência com a qual os mais retrógrados dinossauros da esquerda carnívora atacam o veículo de comunicação. O discurso de Civita, como de praxe, foi excelente, com sua tradicional defesa do que chama de "indissolúvel interdependência" para a liberdade: livre iniciativa, liberdade de expressão e democracia.
No primeiro painel, sobre Liberdade e Prosperidade, Jorge Gerdau mostrou como os obstáculos criados pelo governo dificultam a vida dos empresários, que são quem cria riqueza e empregos no país. Ele se mostrou bastante preocupado com a dificuldade de sobrevivência do parque industrial construído com hercúleo esforço ao longo de décadas. As políticas do governo, especialmente sua gastança exagerada, impedem a queda mais acentuada dos juros, mantendo a taxa de câmbio extremamente valorizada e, com isso, prejudicando a indústria nacional.
Paulo Rabello de Castro fez uma palestra dinâmica em seguida, tocando em pontos importantes que são muitas vezes ignorados pelos liberais. Sua idéia é levar o capitalismo para o povo, sem medo de usar o termo "social". Paulo chamou de "estelionato eleitoral" a tentativa de resgatar a CPMF, uma vez que durante toda a campanha o tema não foi levantado, e sequer há algo do tipo no programa apresentado pela coligação que levou Dilma à vitória. Por excesso de pragmatismo, talvez, sua maior escorregada foi chamar Lula de um "grande homem". Nem aqui, nem na China!
O segundo painel, Para que serve o Estado?, foi muito interessante, a despeito do começo enfadonho. O primeiro palestrante foi um garoto de 23 anos, Felipe Salto, sem muita experiência em palestras. Ele cometeu o pecado dos pecados numa palestra: leu tudo do começo ao fim. Foi bastante cansativo. Mas logo em seguida o quadro mudou da água para o vinho, com a excelente palestra de Stefan Melnik sobre o liberalismo clássico e seus pilares. Locke e Kant foram usados para mostrar a importância de se limitar o escopo do governo, preservando assim a liberdade individual. Todo liberal, ao contrário de conservadores ou esquerdistas, desconfia do Estado, sempre. Eis o recado principal.
O ilustre Ives Gandra finalizou o painel, fazendo um discurso espetacular, levantando fortes aplausos quando disse que eram as autoridades políticas que deveriam nos chamar de "vossa excelência", e não o contrário. Afinal, somos nós os senhores, e eles os empregados. Infelizmente estamos muito longe desta cultura liberal, e Ives Gandra lembrou que na própria Constituição, o povo é tratado como "administrado", e não como cidadão livre. O jurista também destacou que o modelo de monarquia parlamentar tem tido mais sucesso no mundo com a estabilidade política do que modelos alternativos. Food for thought.
O último painel, o qual tive a honra de ser o mediador, falou sobre a reforma agrária. O primeiro palestrante foi o professor José Ambrósio, defensor da reforma agrária, mas que não defende o MST, movimento que teria se apropriado ilegitimamente deste "nobre fim". Em seguida falou o príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que chamou os assentamentos do INCRA de "favelas rurais". Ele mostrou como é o agronegócio que garante a produtividade no campo.
Para fechar o painel, a senadora Kátia Abreu fez um ótimo discurso, mostrando o absurdo dos critérios arbitrários que o governo usa para desapropriar fazendeiros "improdutivos". Ela disse estar lendo Gramsci para conhecer melhor seus oponentes. Aproveitei para perguntá-la como podemos lutar, na prática, contra os invasores de terras, uma vez que o próprio presidente, que deveria ser o guardião da lei e da propriedade privada, toma café com um bandido feito Stédile, que deveria estar atrás das grades. A senadora disse confiar na Justiça, o último recurso daqueles que querem apenas preservar suas propriedades e produzir alimentos. Espero que possamos mesmo confiar na Justiça, pois se depender da presidente eleita, estamos perdidos: ela também veste literalmente o boné do MST, e Kátia Abreu lembrou da importância simbólica de se vestir um boné, significando apoio ao movimento criminoso.
A palestra especial de encerramento ficou por conta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. À primeira vista, surge a dúvida de o que alguém como FHC está fazendo num evento liberal. Sou um crítico do governo FHC em diversos aspectos, e vejo como sintoma de nosso atraso o fato de que ele é "acusado" pela esquerda jurássica do país de "neoliberal". Mas devo reconhecer que foi uma agradável surpresa sua palestra. Tocou em pontos importantes, condenou o "personalismo caudilhesco" que tem predominado na América Latina, usou dois grandes pensadores, Tocqueville e Nabuco, para defender um modelo com mais liberdade, e chamou a atenção para o risco da ausência de uma oposição mais organizada. FHC criticou bastante a falta de debates no país, onde decisões são tomadas de forma totalmente centralizada e sem a devida discussão prévia. Os liberais podem não morrer de amores por FHC, e com razão. Mas uma coisa é inegável: quanta diferença entre ele e Lula!
Em resumo, fiquei muito feliz ao ver o sucesso do evento em Minas. O IEE e todos os envolvidos na organização do fórum estão de parabéns. Fica registrado aqui um parabéns especial ao empresário Salim Mattar, da Localiza, por sua energia e dedicação em prol da luta pela liberdade. Lamento apenas que o Fórum da Liberdade não ocorra no Rio de Janeiro também. Na verdade, deveria ter um fórum em cada capital!
Os liberais contam com os melhores argumentos teóricos, com toda a experiência empírica a seu favor, mas pecam pela falta de melhor organização e divulgação de suas idéias. O IEE vem fazendo um excelente trabalho neste sentido, mas ainda é pouco. Precisamos de mais institutos e fóruns debatendo os valores liberais país afora. Os brasileiros, muitas vezes mantidos na ignorância por falta de oportunidade, precisam conhecer melhor os pilares do liberalismo, doutrina responsável pelo progresso material e também espiritual das nações mais desenvolvidas.
Impecável. Esta é a palavra que define o primeiro Fórum da Liberdade em Minas Gerais, organizado pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE). Há mais de duas décadas o IEE organiza o Fórum da Liberdade em Porto Alegre, evento que cresceu tanto a ponto de se tornar o maior fórum liberal da América Latina, quiçá do mundo! Inúmeras personalidades importantes já passaram pelo evento, que preza por sua pluralidade de idéias, sempre respeitando o contraditório (esquerdistas são invariavelmente convidados, ao contrário do que ocorre no Fórum Social Mundial, onde liberais jamais são chamados).
Desta vez o IEE abraçou o desafio de levar este incrível evento para Minas Gerais. E com que sucesso o instituto realizou esta tarefa! Foi o primeiro Fórum da Liberdade em BH, mas a criatura já nasceu grande. Mais de 500 pessoas compareceram ao evento, fora outros tantos que puderam acompanhar as palestras por transmissão via internet. A organização estava impecável, e as palestras foram excelentes. Foi, sem dúvida, um evento nota 10!
Os discursos da presidente do IEE capítulo BH, Sílvia Araújo, e do presidente do IEE Felipe Quintana foram diretos ao ponto, atacando o modelo político perverso que vigora no país, asfixiando a iniciativa privada de forma criminosa. Não pude deixar de notar que toda vez em que Felipe Quintana criticava algum absurdo do governo, ele olhava diretamente para Antônio Anastasia, o governador de Minas Gerais ali presente. Eis a cultura disseminada pelo IEE: falar o que deve ser dito com coragem. O discurso do governador mostrou que ele acusou o golpe. Anastasia, na defensiva, disse que o Estado não deve ser nem mínimo nem gigante, mas sim do tamanho "necessário". O diabo é que governantes sempre acham que o necessário é infinitamente maior do que o realmente necessário!
Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, foi homenageado com o Prêmio Liberdade. E que homenagem merecida! A revista Veja tem sido um dos principais pilares na defesa da liberdade no país, com seu jornalismo investigativo que já derrubou ministros importantes envolvidos em escândalos de corrupção. Para medir o valor do trabalho em prol da liberdade da revista Veja, basta verificar a virulência com a qual os mais retrógrados dinossauros da esquerda carnívora atacam o veículo de comunicação. O discurso de Civita, como de praxe, foi excelente, com sua tradicional defesa do que chama de "indissolúvel interdependência" para a liberdade: livre iniciativa, liberdade de expressão e democracia.
No primeiro painel, sobre Liberdade e Prosperidade, Jorge Gerdau mostrou como os obstáculos criados pelo governo dificultam a vida dos empresários, que são quem cria riqueza e empregos no país. Ele se mostrou bastante preocupado com a dificuldade de sobrevivência do parque industrial construído com hercúleo esforço ao longo de décadas. As políticas do governo, especialmente sua gastança exagerada, impedem a queda mais acentuada dos juros, mantendo a taxa de câmbio extremamente valorizada e, com isso, prejudicando a indústria nacional.
Paulo Rabello de Castro fez uma palestra dinâmica em seguida, tocando em pontos importantes que são muitas vezes ignorados pelos liberais. Sua idéia é levar o capitalismo para o povo, sem medo de usar o termo "social". Paulo chamou de "estelionato eleitoral" a tentativa de resgatar a CPMF, uma vez que durante toda a campanha o tema não foi levantado, e sequer há algo do tipo no programa apresentado pela coligação que levou Dilma à vitória. Por excesso de pragmatismo, talvez, sua maior escorregada foi chamar Lula de um "grande homem". Nem aqui, nem na China!
O segundo painel, Para que serve o Estado?, foi muito interessante, a despeito do começo enfadonho. O primeiro palestrante foi um garoto de 23 anos, Felipe Salto, sem muita experiência em palestras. Ele cometeu o pecado dos pecados numa palestra: leu tudo do começo ao fim. Foi bastante cansativo. Mas logo em seguida o quadro mudou da água para o vinho, com a excelente palestra de Stefan Melnik sobre o liberalismo clássico e seus pilares. Locke e Kant foram usados para mostrar a importância de se limitar o escopo do governo, preservando assim a liberdade individual. Todo liberal, ao contrário de conservadores ou esquerdistas, desconfia do Estado, sempre. Eis o recado principal.
O ilustre Ives Gandra finalizou o painel, fazendo um discurso espetacular, levantando fortes aplausos quando disse que eram as autoridades políticas que deveriam nos chamar de "vossa excelência", e não o contrário. Afinal, somos nós os senhores, e eles os empregados. Infelizmente estamos muito longe desta cultura liberal, e Ives Gandra lembrou que na própria Constituição, o povo é tratado como "administrado", e não como cidadão livre. O jurista também destacou que o modelo de monarquia parlamentar tem tido mais sucesso no mundo com a estabilidade política do que modelos alternativos. Food for thought.
O último painel, o qual tive a honra de ser o mediador, falou sobre a reforma agrária. O primeiro palestrante foi o professor José Ambrósio, defensor da reforma agrária, mas que não defende o MST, movimento que teria se apropriado ilegitimamente deste "nobre fim". Em seguida falou o príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, que chamou os assentamentos do INCRA de "favelas rurais". Ele mostrou como é o agronegócio que garante a produtividade no campo.
Para fechar o painel, a senadora Kátia Abreu fez um ótimo discurso, mostrando o absurdo dos critérios arbitrários que o governo usa para desapropriar fazendeiros "improdutivos". Ela disse estar lendo Gramsci para conhecer melhor seus oponentes. Aproveitei para perguntá-la como podemos lutar, na prática, contra os invasores de terras, uma vez que o próprio presidente, que deveria ser o guardião da lei e da propriedade privada, toma café com um bandido feito Stédile, que deveria estar atrás das grades. A senadora disse confiar na Justiça, o último recurso daqueles que querem apenas preservar suas propriedades e produzir alimentos. Espero que possamos mesmo confiar na Justiça, pois se depender da presidente eleita, estamos perdidos: ela também veste literalmente o boné do MST, e Kátia Abreu lembrou da importância simbólica de se vestir um boné, significando apoio ao movimento criminoso.
A palestra especial de encerramento ficou por conta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. À primeira vista, surge a dúvida de o que alguém como FHC está fazendo num evento liberal. Sou um crítico do governo FHC em diversos aspectos, e vejo como sintoma de nosso atraso o fato de que ele é "acusado" pela esquerda jurássica do país de "neoliberal". Mas devo reconhecer que foi uma agradável surpresa sua palestra. Tocou em pontos importantes, condenou o "personalismo caudilhesco" que tem predominado na América Latina, usou dois grandes pensadores, Tocqueville e Nabuco, para defender um modelo com mais liberdade, e chamou a atenção para o risco da ausência de uma oposição mais organizada. FHC criticou bastante a falta de debates no país, onde decisões são tomadas de forma totalmente centralizada e sem a devida discussão prévia. Os liberais podem não morrer de amores por FHC, e com razão. Mas uma coisa é inegável: quanta diferença entre ele e Lula!
Em resumo, fiquei muito feliz ao ver o sucesso do evento em Minas. O IEE e todos os envolvidos na organização do fórum estão de parabéns. Fica registrado aqui um parabéns especial ao empresário Salim Mattar, da Localiza, por sua energia e dedicação em prol da luta pela liberdade. Lamento apenas que o Fórum da Liberdade não ocorra no Rio de Janeiro também. Na verdade, deveria ter um fórum em cada capital!
Os liberais contam com os melhores argumentos teóricos, com toda a experiência empírica a seu favor, mas pecam pela falta de melhor organização e divulgação de suas idéias. O IEE vem fazendo um excelente trabalho neste sentido, mas ainda é pouco. Precisamos de mais institutos e fóruns debatendo os valores liberais país afora. Os brasileiros, muitas vezes mantidos na ignorância por falta de oportunidade, precisam conhecer melhor os pilares do liberalismo, doutrina responsável pelo progresso material e também espiritual das nações mais desenvolvidas.
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