Rodrigo Constantino
“Regimes plantados com baionetas não deitam raízes.” (Ronald Reagan)
O professor de história em Yale, John Lewis Gaddis, compilou em um curto livro os principais fatos sobre a traumática Guerra Fria, que marcou a segunda metade do século XX. Como o próprio autor destaca em História da Guerra Fria, o mundo “é um lugar melhor pelo fato de o conflito ter-se travado da forma como o foi e ser vencido pelo lado que o venceu”. Gaddis julga com objetividade o que se passou, compreendendo que de fato havia um lado lutando pelos valores corretos e outro lado representando o “Império do Mal”, como chamou Reagan.
Venceu a Segunda Guerra uma coalizão cujos membros mais importantes já estavam em guerra, ao menos ideológica e geopolítica. Aquela vitória “exigiria que os vencedores deixassem de ser o que eram ou desistissem de muito do que esperavam atingir com aquela guerra”. Os cidadãos dos Estados Unidos proclamavam, com razão, que viviam na mais livre sociedade da face da Terra, enquanto os bolcheviques haviam adotado a concentração de autoridade como forma de derrubar inimigos e consolidar uma base para exportar a revolução pelo resto do mundo. A URSS era, ao final da Segunda Guerra, “a sociedade mais autoritária da face da Terra”. O embate que se travava era, portanto, entre esses dois modos contrastantes de ver o mundo. De um lado a liberdade individual e a democracia, e do outro o autoritarismo estatal e o terror. E em 1945, ainda não estava claro, para muitos, qual seria a onda do futuro.
Nas próprias palavras de Gaddis: “Ambas as ideologias que definiam aqueles dois mundos se destinavam a oferecer esperança: para isto, antes de mais nada, serve uma ideologia. Uma delas, no entanto, para funcionar veio a depender da instalação do medo. A outra não precisava deste recurso. Neste ponto está a assimetria ideológica fundamental da Guerra Fria”. Não é por acaso que o lado que precisou erguer um muro para impedir a própria saída do povo foi o comunista.
A postura soviética era claramente ofensiva, enquanto os americanos ficaram a maior parte do tempo na defensiva. “A meta de Stalin não era restaurar o equilíbrio de poder na Europa”, como diz Gaddis, “mas dominar o continente tão completamente quanto Hitler quisera”. Roosevelt e Churchill insistiram repetidamente com Stalin para que permitisse eleições livres nos estados bálticos, na Polônia e noutras áreas da Europa oriental. Na Conferência de Yalta, Stalin concordou em fazê-lo, mas sem a menor intenção de cumprir o prometido. Como Roosevelt disse pouco antes de sua morte, “Stalin quebrou todas as promessas feitas em Yalta”.
O enorme telegrama que George Kennan, respeitado membro do serviço diplomático na embaixada americana em Moscou, enviou para o Departamento de Estado em 1946 tornou-se o fundamento da estratégia dos Estados Unidos em relação à União Soviética por todo o restante da Guerra Fria. Nele, Kennan insistia que a intransigência de Moscou não resultava de qualquer iniciativa do Ocidente, mas decorria das necessidades internas do regime stalinista e nada poderia ser feito num futuro previsível para alterar este quadro. “Os líderes soviéticos tinham que tratar o mundo exterior como hostil porque isso lhes dava o único pretexto para a ditadura sem a qual não sabiam governar”. Seria necessária então uma contenção de longo prazo das tendências expansivas russas.
Praticamente todas as guerras “quentes” que ocorreram durante a Guerra Fria foram iniciativas do lado comunista, tentando expandir suas fronteiras e colonizar outros países. Os americanos e seus aliados entravam em cena para impedir esse imperialismo, defendendo os invadidos. Mas não houve confronto militar direto soviético-americano, nem mesmo em função da Coréia, ainda que provas recentes levaram a crer que Stalin autorizou o emprego de aviões de caça soviéticos, pilotados por soviéticos, sobre a península coreana, onde engajaram caças americanos pilotados por americanos. Mas o fato é que o temor do uso de bombas atômicas em larga escala funcionou como um freio entre as duas grandes potências, impedindo um confronto direto oficialmente. Como constatou Churchill, “é para a universalidade da destruição potencial que devemos olhar com esperança e até mesmo confiança”.
Um dos episódios mais tensos da Guerra Fria foi a crise dos mísseis em Cuba. Khruschev encarava a instalação de mísseis em Cuba principalmente como uma tentativa de propagar a revolução pela América Latina. Kennedy e seus auxiliares encararam a instalação dos mísseis, da qual tomaram conhecimento apenas em outubro de 1962, como a mais perigosa de uma longa série de provocações que remontavam às ameaças dos dirigentes do Kremlin à Inglaterra e à França durante a crise de Suez, seis anos antes. Foi um dos momentos mais delicados da Guerra Fria, e Gaddis considera que “o que evitou que ocorresse uma guerra no outono de 1962 foi a irracionalidade do terror absoluto que tomou conta de ambos os lados”.
O professor John Gaddis não ignora, de forma alguma, os erros cometidos pelos americanos durante a Guerra Fria. A própria criação da CIA e suas atividades clandestinas são citadas, levando-se em conta o debate que o assunto gerou dentro dos próprios Estados Unidos. Até que ponto o realpolitik era aceito? Até onde cabia a máxima maquiavélica de que o homem virtuoso precisa aprender a não ser virtuoso, de acordo com as necessidades? Como conciliar os valores domésticos com a política externa mais pragmática? Podemos condenar as atividades da CIA com o benefício do retrospecto, mas seria injusto não levar em conta o cenário da época, com a real ameaça comunista batendo à porta com força. Esta ambivalência moral, entretanto, não significava equivalência moral, já que os Estados Unidos nunca julgaram necessário violar direitos humanos na escala em que a União Soviética e seus aliados tinham praticado. Mas felizmente a Grande Sociedade Aberta venceu, e um presidente americano foi forçado a renunciar por escândalos e mentiras, mostrando que os fins não justificavam os meios, e que o império da lei ainda valia.
Nos últimos capítulos, Gaddis fala dos grandes líderes que surgiram, dentro de um contexto histórico, para acelerar o processo de desmantelamento do comunismo e término da Guerra Fria. Figuras como Reagan, Thatcher, Walesa, Václav Havel e João Paulo II seriam peças fundamentais no desfecho desta fase sombria que viveu a humanidade. Compare-se a estes nomes figuras pitorescas como Mao Tse Tung, Stalin, Pol Pot, Kim Il-Sung, Fidel Castro, Ho Chi Minh e Ceausescu, e não resta dúvidas de que um lado lutava pela liberdade e valores decentes da humanidade, enquanto o outro representava o mal encarnado, o terror e a violência. Gorbachev recebeu muitos méritos pela queda soviética, mas na verdade tentara salvar o socialismo tomando emprestadas idéias capitalistas. Nunca abandonou de verdade o ideal socialista, ainda que não estivesse disposto a usar a força para sustentá-lo. Como um não vive em o outro, Gorbachev acabou contribuindo para o fim da União Soviética.
Segundo Gaddis, “a Guerra Fria pode bem ser lembrada como o ponto a partir do qual força militar, o elemento definidor de ‘poder’ nos cinco séculos anteriores, deixou de sê-lo”. Afinal, “a União Soviética se desfez com todo seu poder militar, inclusive a capacidade nuclear, perfeitamente intacto”. A Guerra Fria, não obstante todas as suas atrocidades, podia ter sido muito pior. “Começou com uma volta do medo e terminou com um triunfo da esperança”.
O triste é saber que muitos torciam pelo lado errado, e até hoje não perdoaram os americanos por terem vencido a Guerra Fria. Este socialismo envergonhado é uma das causas do antiamericanismo patológico que vem crescendo desde então. Seus defensores irão perder, uma vez mais.