quarta-feira, abril 04, 2007

Uma Mente Lúcida



Rodrigo Constantino

“O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele nos pode dar é sempre menos do que nos pode tirar.” (Roberto Campos)

Não existe perfume francês que faça um fétido gambá virar um gatinho de estimação. Roberto Campos foi uma das mentes mais lúcidas que a política nacional já teve, e seu olfato era bem aguçado para detectar tais gambás disfarçados de gatos. Não foi por acaso que o apelidaram de “Bob Fields”, além de “entreguista”, já que a verdade, quando esfregada na cara, gera ressentimento nos pérfidos. Em sua coletânea de artigos Na Virada do Milênio, Campos oferece um vasto repertório racional contra os “heróis” dessa terra de Macunaíma que é o Brasil. O triste é que as críticas dele não ficaram obsoletas. Pelo contrário, são mais atuais que nunca.

Seu entendimento acerca do mercado era preciso, e até hoje vemos que muitos ainda não foram capazes de compreender tal conceito. O mercado “é apenas o lugar em que as pessoas transacionam livremente entre si”, o que não é pouco, “porque no seu espaço a interação competitiva entre os agentes econômicos eqüivale a um plebiscito ininterrupto”. Os agentes podem rever a todo momento suas escolhas, assim como a medição quantitativa de suas preferências lhes permite o cálculo racional. Os socialistas jamais assimilaram este fato.

Campos não pouca críticas aos socialistas. Para ele, estes, e em especial os marxistas, “sempre pensaram que existia um estado natural de abundância”. Nada mais simples, portanto, “que a economia de Robin Hood: tirar dos ricos para dar aos pobres”. Eis como Campos encarava tais figuras: “No meu dicionário, ‘socialista’ é o cara que alardeia intenções e dispensa resultados, adora ser generoso com o dinheiro alheio, e prega igualdade social, mas se considera mais igual que os outros”. Eles sempre souberam “chacoalhar as árvores para apanhar no chão os frutos”. O que não sabem é plantá-las! Nas palavras de Campos, “os esquerdistas, contumazes idólatras do fracasso, recusam-se a admitir que as riquezas são criadas pela diligência dos indivíduos e não pela clarividência do Estado”.

A metralhadora anti-esquerda, munida de sólidos argumentos, não pára por aí. Para Campos, nossas esquerdas não gostam de pobres, mas sim de funcionários públicos. Afinal, “são estes que, gozando de estabilidade, fazem greves, votam no Lula, pagam contribuição para a CUT”. Os pobres não fazem nada disso. “São uns chatos”. A elite não escapa ilesa: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar - bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês”. E conclui: “Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola”.

Roberto Campos presta uma rara homenagem, no Brasil, aos economistas da Escola Austríaca, que previram a derrocada socialista: “O colapso do socialismo não foi mero acidente histórico, resultante da barbárie da União Soviética ou da perversão de carniceiros como Stalin e Mao Tsé-Tung. Era algo cientificamente previsível. Os aludidos cientistas sociais teriam certamente chegado a essa conclusão se, ao invés de treslerem a história, tivessem lido os grandes liberais austríacos”.

Em uma nação onde o senso comum coloca o nazismo e o comunismo em extremos opostos, a lucidez de Roberto Campos ganha ainda mais valor ao compreender que ambos os regimes são, na verdade, irmãos de sangue: “Os dois monstros gêmeos, o comunismo e o nazismo, têm vocação genocida. Naquele, o genocídio de classe; neste, o genocídio de raça”. Para ele, a violência comunista foi “algo diabolicamente inerente à engenharia social marxista, que, querendo reformar o homem pela força, transforma os dissidentes primeiro em inimigos, e depois em vítimas”.

Sobre o golpe, ou contragolpe de 64, Roberto Campos comenta com um realismo sui generis também: “É sumamente melancólico - porém não irrealista - admitir-se que no albor dos anos 60 este grande país não tinha senão duas miseráveis opções: ‘anos de chumbo’ ou ‘rios de sangue’...”. Não creio que os revolucionários comunistas isentem de culpa nossos ditadores militares, que à exceção de Castello Branco, muito contribuíram para o atraso nacional. Mas isso não torna a avaliação de Campos menos verdadeira: “Comparados ao carniceiro profissional do Caribe, os militares brasileiros parecem escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio”.

O completo afastamento do modelo liberal, não obstante seu uso como bode expiatório para nossos males, era profundamente lamentado por Roberto Campos. Em sua opinião, “o que certamente nunca houve no Brasil foi um choque liberal”. O liberalismo econômico assim como o capitalismo não fracassaram na América Latina, “apenas não deram o ar de sua graça”. Em resumo, “o Brasil está tão distante do liberalismo - novo ou velho - como o planeta Terra da constelação da Ursa Maior!”.

A burocracia e a fome insaciável de recursos e poder do governo sempre foram alvos dos ataques de Campos. Para ele, “continuamos a ser a colônia, um país não de cidadãos, mas de súditos, passivamente submetidos às ‘autoridades’ – a grande diferença, no fundo, é que antigamente a ‘autoridade’ era Lisboa, hoje é Brasília”.

Enfim, Roberto Campos foi um defensor do livre mercado, das privatizações, do capitalismo, do império das leis objetivas. Combateu o nacionalismo retrógrado, o planejamento estatal, os impostos elevados e progressivos, a burocracia asfixiante, a concentração de poder, o socialismo em geral. Viveu a angústia de ver as idéias racionais desprezadas por políticos presos em uma mentalidade ultrapassada, que chegou a parir um absurdo como a Lei da Informática. Lamentou, enquanto muitos vibravam, a Constituição “besteirol” de 1988, que oferecia garantias irrealistas, promessas utópicas, plantando as sementes das desgraças que se seguiram. Sofreu com as imensas oportunidades perdidas, que mantiveram o Brasil longe de realizar seu potencial. Poderia ser um tigre mas agia como uma anta. E foi praticamente uma voz isolada e abafada por um uníssono ensurdecedor de idéias esquerdistas. Como ele mesmo reconheceu, “admitir o ‘liberalismo explícito’, num país de cultura dirigista, é coisa tão esquisita como praticar sexo explícito em público; não dá cadeia, mas gera patrulhamento ideológico”. Infelizmente, muito pouco mudou desde então...

terça-feira, abril 03, 2007

Ateísmo é Religião?



Rodrigo Constantino

“A religião é inteiramente subjetiva e depende exclusivamente da concepção única que cada um tem dela.” (Humboldt)

Algumas pessoas gostam de repetir que existe uma religião ateísta, que o ateu tem fé no seu ateísmo e acaba criando toda uma doutrina em volta dele. Será que isso faz algum sentido? Minha resposta é um enfático “não”, e pretendo explicar meu ponto a seguir.

Em primeiro lugar, o ateísmo parte de uma negação, por isso o prefixo “a” na palavra. Não é um sistema de valores, um conjunto de crenças. Pelo contrário. É tão somente a negação de uma determinada crença – no caso a existência de deus. O ateísmo não pode ser uma doutrina, pois não possui axiomas básicos nem preceitos que lhe sirvam de base. Como alguns já disseram, o ateísmo é uma religião assim como careca é uma cor de cabelo.

Na verdade, o ateísmo configura-se como um apanhado de objeções que não necessariamente estão ligadas entre si. Podem existir ateus por inúmeros motivos diferentes. Alguns podem sustentar sua postura com base em sólidos argumentos filosóficos, outros podem simplesmente negar a existência divina com base em emoções. Existem ateus de todos os diferentes tipos, para todos os gostos. O rótulo de ateu responde somente a um critério – que é a crença numa divindade – e nada mais diz sobre o restante. Um ateu pode ser um relativista moral ou não, um comunista ou um liberal, um sujeito pérfido ou honesto, e por aí vai.

Mas por que é importante explicar algo tão óbvio? Justamente porque alguns, principalmente os conservadores religiosos, pegam esta característica – ser ateu – e jogam todos que a possuem no mesmo saco, como se o ateísmo fosse algo monolítico. O motivo para fazerem algo tão sem cabimento parece evidente: desqualificar os liberais que são ateus, misturando-os com os comunistas. Tentam misturar o joio e o trigo para transformar tudo em joio, e restarem isolados como os bastiões da liberdade e da moralidade. É uma típica atitude de rebanhos, onde todos os “de fora” precisam ser desqualificados, para que os “de dentro” sintam-se mais seguros e moralmente superiores.

Assim, colocam no mesmo barco pessoas diametralmente opostas como Marx e Ayn Rand. Acusam todo o Iluminismo pela desgraça da Revolução Francesa, ignorando que o mesmo Iluminismo exerceu profunda influência na bem sucedida Revolução Americana. Por esta “brilhante lógica”, de que todo ateu é igual, e naturalmente comunista, teríamos uma lista muito interessante de “comunistas”, como a já citada Ayn Rand, John Stuart Mill, Humboldt, Hayek, Mises, Milton Friedman e outros. Todos seriam “agentes de Gramsci”, trabalhando pela destruição dos valores morais da civilização “judaico-cristã”, pensam os mais paranóicos. Considerei os agnósticos como sendo ateus também, pois para os religiosos fanáticos faz pouca diferença afirmar que deus não existe ou que não sabemos se existe. Afinal, eles “sabem”, têm certeza absoluta, e desfrutam inclusive da “Verdade” revelada. Quem não enxergou isso ainda é um infiel, provavelmente imoral e niilista.

Ora, usando a mesma “lógica” desses conservadores, eu posso afirmar que existe um dragão invisível na minha garagem, indetectável por qualquer método humano conhecido. Se o conservador falar que estou maluco e que o dragão não existe, ele passa a ser um “ateu” em relação ao meu dragão. Ele nega a minha crença, ele é um descrente. Basta que um comunista pense do mesmo jeito, e poderei então jogá-los no mesmo saco, afirmando que ambos são “ateus” em relação ao meu dragão invisível, e, portanto, são iguais. Nada mais estapafúrdio! Está certo que muitos conservadores são mesmo parecidos com socialistas, mas por vários outros motivos, e não por desacreditarem no dragão invisível.

De fato, o ateísmo é tão monolítico quanto a crença em deus. Afinal, quantos tipos distintos de crentes existem? Por acaso católicos, protestantes, judeus, budistas, muçulmanos, e todos os outros infinitos tipos de crentes numa divindade qualquer são iguais, compartilham da mesma fé e dos mesmos valores? Algumas religiões podem inclusive estar mais próximas daquilo que pensam alguns ateus do que de outras religiões. Os budistas, por exemplo, não compartilham de quase nada do que acreditam os seguidores da Opus Dei. A religião chamada Unitarian Universalism, da qual o criador da World Wide Web Tim Bernes-Lee é adepto, conta com grande número de ateus e agnósticos entre seus seguidores. Não precisamos ir muito longe: entre aqueles mesmos que se dizem cristãos, há uma gama enorme de tipos, muitos conflitantes entre si. E não custa lembrar que os conservadores repetem muito a expressão “civilização judaico-cristã”, como se judeus e cristãos fossem unha e carne desde os primórdios, criando uma civilização única, em vez de água e óleo, que não se misturam.

Em resumo, espero ter deixado bem claro que quando um conservador mistura liberais ateus com comunistas, apenas por conta do ateísmo em comum, é porque não tem argumentos para debater honestamente, e precisa apelar para uma falácia patética. Tamanha perfídia só pode ser resultado de muito desespero mesmo. Seria cômico, não fosse trágico.

segunda-feira, abril 02, 2007

A Ética do Sofrimento


Rodrigo Constantino

"Values, not disasters, are the goal, the first concern, and the motive power of life." (Ayn Rand)

Em meu último artigo A Questão do Aborto, perguntei qual era a vida que os religiosos realmente defendem quando condenam de forma intransigente qualquer caso de interrupção voluntária da gravidez. Creio que citar um caso sintomático do que tenho em mente quando faço tal pergunta seria útil para reforçar meu ponto e dar maior transparência ao que pretendo dizer.

Trata-se do caso da médica italiana Gianna Beretta Molla. Ela foi membro atuante da Ação Católica desde a adolescência, e tinha três filhos com o marido Pietro Molla. Aos 39 anos, engravidou novamente, mas descobriu que tinha um fibroma no útero. Existiam basicamente três opções para ela: retirar o útero doente e perder o filho, fazer um aborto ou submeter-se a uma cirurgia arriscada e tentar preservar a gravidez. Consta que Gianna nem hesitou, e submeteu-se à cirurgia em setembro de 1961. Em abril do ano seguinte, nasceu sua filha, e ela faleceu uma semana depois. Gianna foi canonizada pela Igreja Católica em maio de 2004, recebendo do Papa João Paulo II o título de "Mãe de Família". Seu suposto milagre ocorrera no Brasil em 1977, quando uma mulher que perdera totalmente o líquido amniótico no terceiro mês de gestação conseguiu "dar a luz" mesmo assim. Isso teria ocorrido após o pedido de intercessão da Santa Gianna, feito na presença do Bispo de Franca, Dom Diógenes Matthes.

Respeito o direito da médica de ter escolhido esse caminho, coerente com aquilo que ela sempre pregou. Afinal, ela teria dito às jovens da Ação Católica em 1946: "Se na realização de nossa vocação devêssemos morrer, seria esse o dia mais bonito da nossa vida!". Pensar assim é um direito dela. Pretendo apenas questionar a ética por trás desta mentalidade, assim como realçar que outros podem pensar diferente, e devem ser livres para tanto. Pela crença calcada num dogma religioso de que a vida humana já começa no dia da concepção, por conta da alma dada por Deus, Gianna optou pela sua provável morte, em vez de interromper aquela gestação de um feto que ainda não era vida humana de fato. Deixou quatro órfãos no mundo, um viúvo, além de ter perdido a própria vida. A questão é: será que é razoável colocar a vida do feto, que é um humano apenas em potencial, num patamar tão mais elevado que a vida e a felicidade de todos os outros já vivos? Não seria mais aceitável interromper a gravidez e se manter viva, além de poder criar com amor os três filhos já nascidos? Acho que os católicos podem viver como quiserem, contanto que respeitem o direito dos outros por uma vida diferente, onde a ética preza mais pela felicidade dos vivos que pela vida do feto.

Na verdade, podemos notar no catolicismo a presença dessa "ética do sofrimento" em vários assuntos diferentes. Um caso análogo é o da eutanásia, onde a vida vegetativa está acima da felicidade de todos os outros vivos, sãos e conscientes. Um indivíduo é seu corpo e sua mente. Sem mente, ele não passa de uma carcaça, e sem corpo não pode existir mente, pois fantasmas não existem. Mas os católicos consideram de maior importância a sobrevivência da carcaça sem consciência que a felicidade de todos os outros, já que a situação vegetativa é angustiante para os que amam o doente. Mesmo que o próprio indivíduo tenha deixado claro em vida que não gostaria de permanecer vivo em tais circunstâncias, essas pessoas não aceitam seu direito de morrer. Alegam que somente Deus tem o direito de tirar a vida que deu, ignorando que ao mesmo tempo defendem guerras onde inocentes certamente irão morrer. São "fatalidades necessárias", dizem, e muitas vezes é verdade, pois algumas guerras são necessárias para a própria sobrevivência dos bons. Mas é uma postura incoerente por parte daqueles que ignoram a vida e a felicidade de todos os outros para manter vivo um corpo sem mente ou um tecido de um centímetro sem sensação alguma. Ou seja, a guerra do Iraque pode ser defendida por católicos, com perdas de várias vidas inocentes, incluindo crianças, mas um aborto no começo da gestação é um assassinato cruel, assim como desligar uma máquina que mantém um corpo sem mente funcionando automaticamente. São estranhos conceitos esses.

Não dá para esperar algo muito diferente quando lembramos que o ícone máximo dos católicos é a figura de um homem que foi torturado e sacrificado. O próprio símbolo deles, a cruz, vem de crucificare, que quer dizer torturar. As religiões precisam de mártires. Algumas pregam que nobre é o sacrifício do corpo – para eles o caminho do pecado – e deitar numa cama de pregos ou viver como asceta num deserto é o grande objetivo da vida. Sacrificar o próprio corpo, eis o conceito de virtude para esses. O uso do cilício, o auto flagelo, todo tipo de agressão ao corpo é visto como um ato belo de fé. Viver é sofrimento, é carregar um fardo, é já nascer culpado por um pecado. A vida digna é a vida de suplício, penitência. O pai disposto a sacrificar a vida do próprio filho em nome da fé é símbolo da virtude. O homem já nasce ruim, pecador, e sua vida é repleta de sacrifícios para poder finalmente alcançar a felicidade eterna – depois da morte. Quanto mais sofrimento, quanto mais dor, quanto mais sacrifício, mais nobre e virtuosa é a vida do fiel.

Essa ética dá muito pouco valor à felicidade dos seres humanos nesta vida, a única que certamente existe. Há certo desprezo pela vida e felicidade dos homens. O sujeito independente, que não faz parte de rebanho religioso algum, feliz, costuma incomodar esses religiosos. Como é possível que ele condene veementemente esse sacrifício todo pregado pelas religiões? Como ele ousa colocar sua própria felicidade nesta vida acima de tudo, incluindo a fé num deus? Por isso insisto uma vez mais na questão: qual vida esses religiosos realmente defendem? A vida feliz dos seres humanos aqui nesse mundo? Ou a vida de uma carcaça sem consciência, não obstante todo o sofrimento dos seus familiares vivos? Quem sabe a vida de um tecido sem sensações que será um dia um ser humano, a despeito da infelicidade que isso pode causar na mulher grávida vítima de um estupro? Talvez a vida de um feto em detrimento de milhares de mulheres pobres que morrem tentando fazer aborto inseguro em espeluncas clandestinas? Eles não parecem se importar tanto assim com essas vidas. Eu simplesmente não consigo compartilhar dessa visão "ética" do mundo, onde o sofrimento parece estar acima da felicidade dos seres humanos. Prefiro trocar a "ética do sofrimento" pela "ética da felicidade".

domingo, abril 01, 2007

A Questão do Aborto


Rodrigo Constantino

“Rights do not pertain to a potential, only to an actual being; a child cannot acquire any rights until it is born.” (Ayn Rand)

Considero a questão do aborto uma das mais “cabeludas” de todas. Mexe com profundos sentimentos enraizados no ser humano, e não há como tocar no assunto polêmico sem despertar fortes paixões e revoltas. Já participei de muitos debates sobre o tema, e por isso acredito conhecer vários argumentos de ambos os lados. Na minha conclusão, a questão central passa pela definição de ser humano, de quando esta vida humana de fato começa. O feto é ou não um ser humano? Eis o que considero a pergunta mais importante sobre o assunto.

Dito isto, creio que seja útil passar por alguns pontos relevantes. Em primeiro lugar, aqueles que são enfaticamente contrários ao direito do aborto por motivos religiosos, pois assumem que o feto tem uma alma desde o dia da concepção e já é por isso um ser humano, precisam ser contra qualquer caso de aborto, para manter a coerência. Afinal, eles alegam que o aborto é o assassinato de um ser humano inocente, tal como seria matar um bebê. Logo, não podem existir exceções. Se colocam o direito à vida desse “humano” acima de tudo, não podem relativizar tal direito depois. Ninguém defenderia o direito de assassinato de um bebezinho, pelo motivo que fosse. Precisam, então, condenar o “assassinato” até mesmo no caso de um estupro. O fato de a mulher ter engravidado por conta de um estupro, e não um ato de amor consciente, seria irrelevante para o ponto de vista desses religiosos. Tem que ser, para não caírem em contradição. Quantos estão dispostos a manter uma postura intransigente em relação ao aborto mesmo no caso de uma mulher que foi estuprada?

Fora isso, seria interessante que esses religiosos explicassem melhor essa coisa de alma no dia da concepção. Pelo que já li a respeito, mesmo sendo leigo no assunto, existe a possibilidade do embrião se dividir depois de alguns poucos dias da concepção. Ora, o que acontece nesse caso sob a ótica religiosa? A alma se divide também? Uma nova alma é criada pelo The Guf para o novo zigoto? Pode ser possível o caso contrário, de dois embriões se fundirem. O que ocorre nesse caso? As almas fazem uma fusão também? Na verdade, seria interessante que os religiosos começassem provando a existência da alma, para não ficarem apenas na fé de um dogma, que muitos podem não compartilhar.

Os religiosos alegam ainda que o zigoto seja humano, pois já possui o DNA. Mas considero esse argumento muito fraco. Ora, até mesmo um fio de cabelo nosso contém o DNA, mas nem por isso consideramos assassinato de um ser humano o ato de cortar o cabelo. Um zigoto não tem cérebro, cabeça, habilidade de ver, escutar, cheirar, tocar, não possui órgãos internos, consciência, razão. Até a idade de um mês, por exemplo, um embrião humano não pode ser facilmente distinguido de um embrião de gato ou cachorro. Os que defendem o direito de escolha da mulher dizem que basicamente três características nos tornam humanos: habilidade de pensamento, senso moral e aparência física. O zigoto não exibe nenhuma delas.

Conheço o argumento aristotélico de ato e potência, que alguns usam para combater o direito do aborto. Mas como Leonard Peikoff disse, “não devemos confundir potencialidade com atualidade”. Um embrião é um ser humano em potencial. Ele pode, se a mulher desejar, se desenvolver até se tornar uma criança. Mas o que ele de fato é durante o primeiro trimestre de gestação não passa de uma massa de células que fazem parte do corpo da mulher. Peikoff diz: “Se nós considerarmos o que ele é em vez do que ele pode se tornar, devemos reconhecer que o embrião durante os três meses é algo mais primitivo que um sapo ou um peixe”. Comparar isso com uma criança é absurdo. Se devemos aceitar a lógica da potência e chamar um embrião de “criança não nascida”, poderíamos, pelo mesmo raciocínio, chamar qualquer adulto de “corpo ainda não morto”, e enterrá-lo vivo. Potência não é atualidade. Sementes plantadas podem virar árvores, se regadas, mas dificilmente alguém diria que essas sementes são uma floresta.

A massa de células que existe dentro da mulher é parte de seu corpo. Não é um ser que exista de forma independente, um organismo biologicamente formado, muito menos uma pessoa. Aquele que vive dentro do corpo de alguém não pode exigir direito sobre seu hospedeiro. Direitos pertencem apenas aos indivíduos, não a partes do indivíduo. Nenhuma outra pessoa, nem mesmo seu marido, tem o direito de dizer o que a mulher pode fazer com seu corpo. Trata-se de um princípio fundamental da liberdade.

Chegamos ao ponto de questionar o termo usado pelos que condenam o aborto: pró-vida. Seria o caso de perguntar: a vida de quem é realmente defendida como prioridade? Não parece ser a vida da mulher que não deseja um filho, pelo motivo que for, incluindo até mesmo o nefasto ato de um estupro. Com certeza não é a vida dessa mulher que está sendo colocada como uma prioridade. Também não parece ser o foco principal a vida da criança que nascerá. Se fosse esse o caso, essas pessoas deveriam dedicar muito mais energia e tempo para a vida após o nascimento, investindo pesado em movimentos de adoção e tudo mais. Afinal, não é algo muito bom ser um filho totalmente indesejado. Steven Levitt, da Escola de Chicago, tentou mostrar em seu livro Freakonomics que a redução da criminalidade americana teve como uma das mais importantes causas a legalização do aborto uma geração antes. Filhos indesejados, que os pais não gostariam de ter tido ou não estavam preparados, filhos de adolescentes solteiras sem maturidade alguma, têm infinitamente mais probabilidade de virarem criminosos.

Ter um filho é um ato deveras importante, que muda totalmente a vida das pessoas, e exige profunda responsabilidade, maturidade e equilíbrio psicológico. É algo maravilhoso, para aqueles que desejam isso. A atitude dos que condenam o aborto parece ser de pouca ou nenhuma preocupação com a vida dos seres humanos já existentes. Não importa o sofrimento dos pais que não desejam um filho, de uma mulher que foi estuprada, ou que terá que carregar por nove meses um feto anencéfalo que não sobreviverá. O sacrifício dessas vidas é exigido em troca da vida de um tecido que somente será um humano no futuro, se tudo correr bem. Ainda assim, os que condenam o aborto se intitulam “pró-vida”, numa cruzada onde a sensação de pertencer a um grupo “moralmente superior” é mais importante que os resultados concretos. Para eles, qualquer mulher que fez um aborto voluntário é uma espécie de Hitler. Seria indiferente, para eles, uma mulher tomar uma pílula que abortasse a gestação nos primeiros meses ou dar veneno para seu bebê vivo. Deveriam perguntar às mulheres que já sofreram aborto involuntário nos primeiros meses de gravidez – algo comum, se este sofrimento, mesmo para aquelas que desejavam ter um filho, é sequer comparável à dor da perda de um filho de verdade. Um feto não é um filho, é um filho em gestação.

Os “anti-aborto” tentam monopolizar a virtude, como se apenas aqueles que condenam o aborto defendessem a vida humana. Não posso deixar de perguntar uma vez mais: qual vida humana eles defendem? Pois entre a vida de uma mulher adulta e aquele minúsculo zigoto sem consciência ou sentimento, eu fico com a primeira opção. A felicidade e a liberdade de escolha do ser humano valem mais.

quarta-feira, março 28, 2007

A Escolha pela Pobreza



Rodrigo Constantino

“O problema com o catolicismo brasileiro é que entende de menos o Mercado e reverencia demais o Estado; seu desamor aos ricos excede seu amor aos pobres; gosta de distribuir riquezas, mas não se esforça por facilitar a criação delas. (Roberto Campos)

Da mesma fonte – a Bíblia – existem pessoas que chegam à defesa do capitalismo e pessoas que chegam à defesa do socialismo. Não vem ao caso discutir aqui qual dos dois lados está certo, até porque podemos encontrar várias passagens bíblicas que suportam ambos os opostos. Tanto é verdade que já existiram papas bem socialistas, como Paulo VI, e outros mais adeptos do livre mercado, como seu sucessor João Paulo II. O foco em questão é o fato de que a instituição católica, especialmente a brasileira, representa um grande entrave ao capitalismo liberal. A CNBB, por exemplo, assume posturas políticas claramente de esquerda, defendendo o retrocesso da nação. Alguns conservadores católicos podem afirmar que se trata de uns poucos bispos esquerdistas infiltrados na Igreja, mas desconfio que seja algo bem mais estrutural.

Roberto Campos, que estudou teologia e foi uma das mentes mais lúcidas que o país já teve, chegou a escrever:

“Há várias maneiras de prejudicar os pobres. Elas têm sido diligentemente utilizadas por pessoas e instituições, com intenções perigosamente boas. Comecemos pela Igreja Católica. Sua opção pelos pobres tem sido uma opção pela pobreza. De um lado, favorece a proliferação dos pobres, opondo-se a técnicas ‘artificiais’ de controle de natalidade, que são as únicas realmente eficazes, pois a abstenção sexual nas épocas férteis não é esporte fácil nos trópicos. De outro, contribui para a criação de uma mentalidade anticapitalista, pela suspicácia em relação ao lucro empresarial.”

Michael Novak, em seu livro The Universal Hunger for Liberty, tenta argumentar em prol da suposta união indissociável entre o catolicismo e o capitalismo de livre mercado. Mas ele mesmo reconhece que um grande obstáculo para o desenvolvimento econômico dos mais necessitados é justamente o fato de que muitas organizações católicas parecem acreditar mais em “redistribuição” e “caridade” que no estímulo às empresas, ao crescimento econômico através dos pequenos negócios. Para Novak, o espírito católico expressa melhor que o protestante a criatividade e os aspectos benéficos humanitários das sociedades liberais. Na prática, não parece ser esse o caso. Não vamos esquecer que países predominantemente católicos, como Espanha, Portugal e Irlanda, apenas muito recentemente têm migrado para mais perto do capitalismo liberal, sendo que o maior país católico do mundo, o Brasil, está muito longe disso ainda. Enquanto isso, os Estados Unidos, bem mais liberais, têm mais da metade do povo formada por protestantes, e apenas 24% de católicos, segundo pesquisa em 2002. A teoria de Novak parece mais fruto de um wishful thinking que de observação empírica.

O autor lembra ainda que no começo deste século, para a surpresa de todos, a Igreja Católica Romana é a religião que mais cresce no mundo, tendo hoje algo como um bilhão de fiéis. Só que ele mesmo cita que tal crescimento se dá basicamente na África, América Latina e Ásia, nas regiões mais pobres. Ou seja, os dados parecem confirmar a frase de Sebastien Faure, quando disse que “as religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão”. Dá até para suspeitar que a ICAR acordou para este fato e por isso resolveu “produzir” um santo brasileiro, finalmente. Mas seria teoria conspiratória demais. O homem das pílulas “milagrosas” de papel – também conhecidas como placebos – deve merecer mesmo este imponente título...

Alguns podem achar que implico desnecessariamente com a Igreja Católica. Não é nada disso. Acho que fé é algo da esfera pessoal, e não tenho nada com a escolha dos outros nesse sentido. Até, claro, o limite dessa escolha não impactar a minha vida particular. E eis onde reside todo o problema. No passado, qualquer um que defendia a liberdade tinha obrigação de condenar a Inquisição. Hoje, os métodos mudaram, mas a Igreja ainda exerce influência na vida dos “hereges”. O próprio Papa, após considerar o segundo casamento uma “praga social”, exortou os políticos católicos a votarem de acordo com os mandamentos da sua fé. A CNBB, aqui no Brasil, vive se metendo em assuntos políticos. Se a Igreja, grande latifundiária que é, quiser doar suas terras para os “movimentos sociais”, não tenho nada com isso. Mas quando defende o uso do meu dinheiro, através do governo, para financiar criminosos como os do MST, aí a coisa muda totalmente. Dar esmolas com o bolso dos outros é fácil. E imoral também.

Fora isso, somente o fato de existirem mais de 100 milhões de católicos no país que podem acabar seguindo a mentalidade predominante na elite da hierarquia católica já justificaria minha tentativa de oferecer um contraponto. Essa gente toda vota, afinal de contas. Logo, do mesmo jeito que busco combater com idéias a Igreja Universal e seu poder político crescente, faço o mesmo com a Igreja Católica. Quando esta incita seus fiéis a nunca usar a “pecaminosa” camisinha, por exemplo, me sinto no dever de ir contra, pois a elevada taxa de natalidade das camadas mais pobres gera profundo impacto na economia do país, sem falar do risco do HIV. Quando a CNBB faz acalorados discursos defendendo medidas claramente socialistas, me sinto na obrigação de condená-las, em defesa da liberdade.

Em resumo, não ligo muito para a fé religiosa que cada um resolve adotar. Como o time de futebol, isso é algo bem pessoal. O problema começa quando as instituições religiosas criam obstáculos e mais obstáculos para o progresso do país e a liberdade individual. E parece ser justamente esse o caso da Igreja Católica, especialmente a brasileira. Ela fez uma evidente escolha. E foi pela pobreza.

segunda-feira, março 26, 2007

Teoria e Prática


Rodrigo Constantino

“No revolution, no matter how justified, and no movement, no matter how popular, has ever succeeded without a political philosophy to guide it, to set its direction and goal.” (Ayn Rand)

Uma reação comum que vejo quando os pilares do liberalismo são apresentados é a aquiescência com toda a teoria, mas a discordância com a prática. Essas pessoas alegam que a teoria liberal faz muito sentido e é justa, mas que não seria possível colocá-la em prática, ainda mais em um país pobre e repleto de ignorantes como o nosso. Pretendo explicar a seguir porque considero esta postura errada e perigosa.

Em primeiro lugar, uma teoria racional deve ser praticável. Se a teoria estiver em confronto direto com a realidade, ela não é válida. Logo, não deveria existir esta dicotomia entre teoria e prática. O poeta Fernando Pessoa explicou bem isso: “Toda teoria deve ser feita para poder ser posta em prática, e toda a prática deve obedecer a uma teoria; só os espíritos superficiais desligam a teoria da prática, não olhando que a teoria não é senão uma teoria da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria”. O poeta conclui: “Na vida superior a teoria e a prática completam-se; foram feitas uma para a outra”. Acredito que Stephen Case capturou bem a essência disso quando disse que “no final, uma visão sem a habilidade para executá-la é provavelmente uma alucinação”.

Portanto, uma teoria sólida deve, necessariamente, estar de acordo com a realidade, ser factível, executável. Isso não quer dizer que deva ser fácil colocá-la em prática. De forma alguma. Mas se estamos diante de uma boa teoria, de uma teoria verdadeira, então ela deve ser também praticável. O grande erro das teorias socialistas foi justamente este. Elas partiam de premissas falsas, de um conceito de homem que não existe de verdade, e assim jamais poderiam se concretizar de fato. A teoria criara Utopus, mas a realidade o jogou num Gulag. A idéia altruísta de que todos iriam acordar dispostos ao sacrifício dos próprios interesses pelo bem geral não encontra respaldo na natureza humana, levando à necessidade do uso de coerção, escravidão e terror para tentar criar o “novo homem”. Muitos conservadores cometem o mesmo erro, e defendem o capitalismo apenas como um meio mais eficiente e prático para o mesmo fim altruísta e coletivista. O capitalismo seria apenas o melhor servo para o tal “bem-geral”, ainda que isso signifique o sacrifício de indivíduos, tratados como simples meios. Não há como não falhar assim, partindo de uma teoria furada.

O pragmatismo virou uma espécie de religião, como se não fosse preciso uma teoria por trás das escolhas racionais dos homens. Segundo Ayn Rand, “uma maioria sem uma ideologia é uma massa indefesa, a ser tomada por qualquer um”. Ser prático não significa ignorar teorias. Pelo contrário, deveria ser justamente buscar incessantemente uma teoria que seja verdadeira e moralmente correta. Os Estados Unidos não foram criados na base do puro pragmatismo, tampouco do desejo aleatório da maioria, mas sim de sólidas teorias liberais, pegando desde Aristóteles até os “pais fundadores”, e passando por John Locke no caminho. A defesa da liberdade individual era o principal pilar sustentando a Revolução Americana. Uma maioria pode formar um exército poderoso, mas para onde este exército aponta seus canhões depende da teoria por trás dos seus membros. “Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável”, ensinou Sêneca. Os soviéticos resolveram apontar contra a propriedade privada e o individualismo, e acabaram no completo caos e na total miséria. Os americanos apontaram na direção do liberalismo, e prosperaram. A teoria que deu o norte desses povos fez toda a diferença do mundo.

Essa mensagem deveria ser mais bem absorvida por todos aqueles bem intencionados e insatisfeitos com os rumos do país, mas que menosprezam o campo das idéias e teorias, pedindo ações práticas. Concordo que ações imediatas são fundamentais, ainda mais pelo estado caótico em que a nação se encontra. Mas não se muda a direção do país sem alterar a mentalidade do povo. “Não há nada mais forte que uma idéia cuja hora chegou”, disse Victor Hugo. O Brasil precisa de reformas estruturais, de novas instituições, de menos burocracia e impostos. Mas nada disso será possível sem uma mudança da mentalidade do povo. É fantasia esperar que um político apareça por milagre e faça tudo isso, quando a mentalidade predominante no povo é anticapitalista, e todos esperam que o Estado resolva todos os problemas. Para a prática ser outra, a teoria precisa mudar.

Tem uma frase de Jan van de Snepscheut que considero muito espirituosa: “Na teoria, não existe diferença entre teoria e prática; mas na prática, existe”. Pode ser que sim. Mas a verdade é que não deveria existir esta diferença. Enquanto ela persistir, precisamos ou mudar a prática para ajustá-la à teoria correta, ou questionar as premissas da teoria adotada. E o fato é que no Brasil a prática sempre esteve bem distante da teoria liberal. Esta, que em diferentes graus foi testada com bastante sucesso mundo afora, nunca deu o ar de sua graça por aqui. O Brasil oscila entre o patrimonialismo, o mercantilismo e a social-democracia. Mas jamais abraçou realmente a teoria mais sólida e justa de todas: o liberalismo.

sexta-feira, março 16, 2007

A Liberdade Individual



Rodrigo Constantino

“Quem deixa que o mundo, ou uma porção deste, escolha seu plano de vida não tem necessidade senão da faculdade de imitação dos símios.” (John Stuart Mill)

O “povo” que exerce o poder nem sempre é o mesmo povo sobre quem o poder é exercido, e o “autogoverno” de que se fala não é o poder de cada um por si mesmo, mas o de cada um por todos os outros. Por conseqüência, o povo pode desejar oprimir uma parte de sua totalidade e contra isso não são necessários menores precauções do que contra qualquer outro abuso de poder. Agora nas especulações políticas geralmente se inclui a “tirania da maioria” como um dos males contra os quais a sociedade exige proteção. Não basta, portanto, a proteção contra a tirania do magistrado; é necessária também a proteção contra a tirania da opinião e do sentimento dominantes, contra a tendência da sociedade a impor, por meios outros que não os das penalidades civis, as próprias idéias e práticas, como regras de conduta aos que delas dissentem.

O efeito do costume, no sentido de prevenir qualquer receio relativamente às regras de conduta que os homens impõem uns aos outros, é tanto mais completo por se tratar de um assunto para o qual geralmente não se considera necessário fornecer razões, seja por parte de uma pessoa para outras, seja por parte de cada um, para si mesmo. As pessoas estão acostumadas a acreditar, e foram encorajadas nessa crença por alguns que aspiram a ser reputados filósofos, que seus sentimentos, em questões dessa natureza, valem mais que as razões, tornando-as desnecessárias. Ninguém, com efeito, admite a si mesmo que seu padrão de julgamento seja seu próprio gosto. Porém, uma opinião a respeito de conduta que não esteja apoiada em razões pode tão-só ter importância como preferência pessoal.

O único propósito de se exercer legitimamente o poder sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra sua vontade, é evitar dano aos demais. Seu próprio bem, físico ou moral, não é garantia suficiente. Não pode ser legitimamente compelido a fazer ou a deixar de fazer por ser melhor para ele, porque o fará feliz, porque, na opinião dos outros, fazê-lo seria sábio ou mesmo acertado. Essas são boas razões para o advertir, contestar, persuadir, instar, mas não para o compelir ou castigar quando procede de outra forma. A única parte da conduta de cada um, pela qual é responsável perante a sociedade, é a que diz respeito a outros. Na parte que diz respeito apenas a si mesmo, sua independência é, de direito, absoluta. Sobre si mesmo, sobre seu corpo e mente, o indivíduo é soberano. Cada um é o guardião adequado de sua própria saúde, seja física, mental ou espiritual. A humanidade ganha mais tolerando que cada um viva conforme o que lhe parece bom do que compelindo cada um a viver conforme pareça bom ao restante.

A religião, o mais poderoso dos elementos que compõem o sentimento moral, quase sempre tem sido governada ou pela ambição de uma hierarquia que busca controlar todo departamento da conduta humana, ou pelo espírito do Puritanismo. E alguns dos reformadores modernos que se opuseram fortemente às religiões do passado não ficaram de modo algum atrás das igrejas ou seitas na reivindicação do direito de dominação espiritual. A disposição dos homens, seja como governantes ou como concidadãos, a impor sobre outros suas próprias opiniões e inclinações como regra de conduta encontra tão enérgico apoio por parte de alguns dos melhores e piores sentimentos inerentes à natureza humana, que talvez só seja possível restringi-la pela falta de poder.

Se todos os homens menos um partilhassem a mesma opinião, e apenas uma única pessoa fosse de opinião contrária, a humanidade não teria mais legitimidade em silenciar esta única pessoa do que ela, se poder tivesse, em silenciar a humanidade. Se a opinião é correta, privam-nos da oportunidade de trocar o erro pela verdade; se errada, perdem, o que importa em benefício quase tão grande, a percepção mais clara da verdade, produzida por sua colisão com o erro. Todo silêncio que se impõe à discussão equivale à presunção de infalibilidade. Há uma enorme diferença entre presumir uma opinião como verdadeira porque, apesar de todas as oportunidades para contestá-la, ela não foi refutada, e pressupor sua verdade com o propósito de não permitir sua refutação.

O único modo pelo qual é possível a um ser humano tentar aproximar-se de um conhecimento completo acerca de um assunto é ouvindo o que podem dizer sobre isso pessoas de grande variedade de opiniões, e estudando todos os aspectos em que o podem considerar os espíritos de todas as naturezas. O hábito constante de corrigir e completar a própria opinião cotejando-a com a de outros, longe de gerar dúvidas e hesitações ao pô-la em prática, constitui o único fundamento estável para que nela se tenha justa confiança. A verdade de uma opinião faz parte de sua utilidade. Se quiséssemos saber se é ou não desejável crer numa proposição, seria possível excluir a consideração sobre ser ou não verdadeira? Na opinião, não dos maus, mas dos melhores, nenhuma crença contrária à verdade pode ser realmente útil.

A história está repleta de exemplos de verdades silenciadas pela perseguição. A perseguição sempre triunfou, salvo quando os heréticos formavam um partido demasiado forte para que os perseguissem efetivamente. É um exemplo de sentimentalidade ociosa supor que a verdade, meramente por ser verdade, possua o poder inerente, negado ao erro, de prevalecer contra o calabouço e o cadafalso. A real vantagem da verdade consiste em que, quando uma opinião é verdadeira, pode-se extingui-la uma, duas ou inúmeras vezes, mas ao longo dos anos se encontrarão pessoas que tornem a descobri-la, até que uma de suas reaparições ocorra numa época em que, graças a condições favoráveis, escapa à perseguição, avançando de modo tal que resista a todas as tentativas subseqüentes de suprimi-la.

Quem é capaz de calcular tudo o que o mundo perde na multidão de intelectos promissores combinados aos caracteres tímidos, os quais não ousam seguir nenhuma cadeia de pensamento atrevida, vigorosa e independente, sob pena de alcançarem algo que lhes permita identificar como irreligiosos e imorais? Ninguém pode ser um grande pensador se não reconhece que, como pensador, seu primeiro dever consiste em seguir seu intelecto em todas as conclusões a que o possa conduzir. Onde houver uma convenção tácita de que não se devem contestar os princípios, onde se considerar encerrada a discussão acerca das grandes questões que podem ocupar a humanidade, não podemos esperar encontrar essa escala geralmente alta de atividade mental que tornou tão notáveis certos períodos da história.

O exíguo reconhecimento que a moralidade moderna dispensa à idéia de obrigação para com o público deriva das fontes gregas e romanas, não das cristãs; do mesmo modo como, na moralidade da vida privada, tudo quanto existe de magnanimidade, generosidade, dignidade pessoal, até senso de honra, deriva da parte de nossa educação puramente humana, não da religiosa, e jamais poderia originar-se de um padrão ético no qual o único valor, confessadamente reconhecido, é o da obediência. O sistema cristão não constitui exceção à regra segundo a qual num estado imperfeito do espírito humano os interesses da verdade exigem uma diversidade de opiniões. Uma grande parte dos mais nobres e valorosos ensinamentos morais foi obra não apenas dos homens que não conheciam, mas também dos que conheciam e rejeitavam a fé cristã. O mal a temer não é o conflito violento entre partes da verdade, mas a supressão silenciosa de parte dela. Se fosse necessário escolher, haveria muito mais necessidade de reprovar ataques ofensivos à infidelidade religiosa do que à própria religião.

Os trechos acima foram copiados, ipsis litteris, do livro A Liberdade, de John Stuart Mill. Estou tão de acordo com suas idéias, e reconheço minha incapacidade de melhor expressa-las, que optei por transcrevê-las aqui, tendo o trabalho apenas de selecionar as melhores passagens, em minha opinião. Deixo a conclusão com o próprio autor também:

“As pessoas de gênio, é verdade, são e provavelmente sempre serão uma pequena minoria; no entanto, para tê-las é necessário conservar o solo em que crescem. O gênio só pode respirar livremente numa atmosfera de liberdade”.

Em Defesa da Liberdade


Rodrigo Constantino

"The argument from intimidation is a confession of intellectual impotence." (Ayn Rand)

Muitos conservadores religiosos, que antes elogiavam meus artigos, estão agora criticando minha "cruzada" contra as religiões e pedindo que eu volte a falar apenas de economia. Voltar? Gostaria de saber destes quando foi que eu falei apenas de economia. Será que esqueceram dos meus artigos condenando o fanatismo islâmico ou os ataques injustos a Israel na questão com a Palestina? Isso não me parece algo sobre economia. Será que fingem não ter visto meus artigos defendendo a liberdade de expressão quando o jornal que publicou desenhos injuriosos de Maomé foi duramente condenado? Será que não lembram de um artigo condenando o uso da religião para fins políticos pelo populista Garotinho? Será que é um tema apenas econômico condenar o coletivismo e a inveja presentes na seita socialista? Será que meus artigos contra o relativismo moral podem ser incluídos no rol de assuntos sobre economia? Será que um artigo criticando a visão romântica de "bom selvagem" de Rousseau pode ser classificado como assunto de economia?

Basta uma rápida visita ao meu blog para ficar claro que jamais falei apenas de economia. Defendo algo muito maior que a liberdade econômica. Defendo a liberdade individual, que envolve não apenas a liberdade econômica, mas também a liberdade de expressão, de opinião e de conduta, limitada apenas pela liberdade dos outros. O liberalismo é muito mais amplo que impostos baixos e pouca burocracia. Na verdade, esta postura dos conservadores deixa claro que não são defensores do liberalismo, não lutam de verdade pelas liberdades individuais. Pedem liberdade estritamente econômica, pois não ligam muito para a economia, já que falam com desprezo sobre os assuntos materiais. Mas naquilo que é do verdadeiro interesse dos conservadores, as questões de comportamento, eles defendem o autoritarismo estatal, o coletivismo. São um espelho dos socialistas, que defendem o autoritarismo estatal e o coletivismo naquilo que os interessa, que é o material. Raros são os que defendem a liberdade no sentido mais amplo, tanto econômica como na conduta da vida. Esses são os liberais verdadeiros, espremidos entre coletivistas autoritários de ambos os lados.

Autores liberais que influenciaram minhas idéias, tais como Humboldt, John Stuart Mill, Mises, Hayek, Ayn Rand e Milton Friedman, nunca limitaram seus escritos ao restrito tema da liberdade econômica. A liberdade econômica é fundamental, pois sem ela, não existe liberdade individual. Mas ela não é, nem de perto, suficiente. Os indivíduos devem ser livres para viver de acordo com o que defendem, contanto que não invadam a liberdade alheia. Ora, quando a religião invade essa esfera, é uma ameaça para a liberdade, e deve ser combatida. Quando um país proíbe o consumo de carne de porco porque uma maioria considera isso repulsivo por motivos religiosos, a minoria que não liga para tal religião tem sua liberdade tolhida injustamente. Quando um indivíduo não pode fazer um desenho ironizando a figura que quiser, porque agride a fé dos outros, sua liberdade foi solapada. Quando um Papa chama de "praga social" um segundo casamento, e exige que políticos católicos votem matérias de acordo com a doutrina da Igreja, o assunto não é mais apenas do interesse dos fiéis seguidores. Quando a Inquisição manda para a estaca um ateu apenas por ser ateu, isso não é diferente do ato de mandar para a câmara de gás um judeu no regime nazista. Quando a religião sai da esfera individual e passa para medidas concretas que afetam a liberdade dos outros que não compartilham das crenças desta religião, a liberdade individual está sendo ameaçada.

A liberdade de alguém não querer ver seu ídolo sendo criticado não é da mesma natureza que a liberdade de alguém poder criticar quem quiser, assim como a liberdade de alguém que quer roubar uma bolsa não é da mesma natureza que a liberdade de alguém que não deseja ter sua bolsa roubada. Como disse Mill em A Liberdade, "a única razão de se exercer o poder legitimamente sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada contra sua vontade é prevenir danos a outros". O que eu simplesmente não gosto não é motivo suficiente para coerção. O mesmo vale para a maioria. Como o próprio Mill diz ainda, "a humanidade ganha mais tolerando que cada um viva conforme o que lhe parece bom, do que compelindo cada um a viver conforme pareça bom ao restante". Fanáticos religiosos são totalmente incapazes de compreender isso, e desejam impor aos demais a sua regra de conduta, que certamente é a correta, pois foi "revelada". Tal fanatismo religioso é incompatível com a liberdade individual.

Como fica claro, não participo de cruzada anti-religiosa alguma, tampouco tenho como alvo específico a Igreja Católica. Não luto contra alguma coisa, mas sim por alguma coisa, e esta coisa é a liberdade individual. Logo, tudo que representar obstáculo a este fim será condenado. Seja a ideologia socialista, a doutrinação religiosa que invade a liberdade dos não religiosos, a pressão do "politicamente correto" que limita a liberdade de expressão dos indivíduos ou a própria ditadura da maioria, que ignora a liberdade das minorias de viverem de forma diferente, irei continuar condenando tudo aquilo que prejudica a liberdade dos indivíduos. Os conservadores não gostam disso. Aceitam que todo o restante seja criticado com argumentos e lógica, e até aplaudiam meus artigos nessa linha. Mas quando o alvo passa a ser sua própria religião, as emoções os dominam e a reação é totalmente passional, como um torcedor fanático que admirava muitas coisas no outro mas passa a detestá-lo quando descobre que ele torce para o time adversário. Passam a tentar me intimidar na base de agressões chulas e ironias bobas, tal como faziam justamente os socialistas quando estes eram o alvo do ataque. Querem me calar de qualquer maneira.

Trata-se, como diz Ayn Rand na epígrafe, de uma clara confissão de impotência intelectual, já que não possuem argumentos sólidos para rebater as críticas às suas crenças. Agindo como um rebanho bovino, não há muita distinção entre esses conservadores e seus inimigos socialistas. E aos que pedem para concentrar a munição em um lado apenas, lembro que o inimigo do meu inimigo não é meu amigo. Considero tanto conservadores fanáticos como socialistas igualmente perigosos para a liberdade individual. E minha luta é em defesa da liberdade.

quinta-feira, março 15, 2007

A Praga Social


Rodrigo Constantino

"Que os cristãos, cujos reformadores pereceram na masmorra ou na fogueira como apóstatas ou blasfemos - os cristãos, cuja religião exala em cada linha a caridade, liberdade e compaixão... que eles, depois de conquistar o poder de que eram vítimas, exerçam-no exatamente da mesma maneira, é demasiado monstruoso." (John Stuart Mill)

Intitula-se Sacramentum Caritatis a primeira exortação apostólica do Papa Bento XVI. O documento foi redigido a partir do debate que se desenvolveu no Vaticano em 2005 durante o Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia. O ponto que merece maior destaque, em minha opinião, é aquele que condena o segundo casamento, tamanho o absurdo disso. Parece que a Igreja Católica Romana resolveu parar mesmo no tempo, e se os fiéis fossem realmente julgar quantos dogmas ignoram, restariam poucos seguidores de fato. O uso da camisinha, a pílula anticoncepcional, a masturbação, o homossexualismo e agora até mesmo um segundo casamento, tudo isso condenado pela Igreja. Quantos católicos verdadeiros, que seriam totalmente aprovados pelo crivo do Vaticano, restam no mundo? Mas vamos ao trecho completo no qual o Papa ataca o segundo casamento:

"Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrimônio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro não pode deixar de anelar. Por isso, é mais que justificada a atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações em que se encontram não poucos fiéis que, depois de ter celebrado o sacramento do Matrimônio, se divorciaram e contraíram novas núpcias. Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos."

O amor tem que ser indissolúvel para ser verdadeiro. Para o inferno com a poesia que prega o amor eterno enquanto dure! A chama jamais pode se apagar. Se um homem ama uma mulher e vice-versa, a ponto de resolverem casar, jamais podem mudar de idéia, arrepender-se e optar pelo divórcio. Isso seria prova de que não havia amor na época do casamento. O matrimônio torna ambos um único ser, indissolúvel. E a fidelidade a tal sacramento deve estar acima de tudo, inclusive da própria felicidade dos dois envolvidos. Não importa se os sentimentos mudarem, se o amor se esvair, se o que era belo virar motivo de sofrimento ou se uma nova pessoa despertar um novo amor ainda mais forte. Tudo isso deve ser esquecido em nome da fidelidade ao sacramento. Sofra, mas permaneça um fiel. Afinal, o sofrimento não é enaltecido como nobre pelos cristãos? Não é a cruz o símbolo preferido deles? Apenas egoístas colocam a própria felicidade acima disso. E tem mais:

"Enfim, caso não seja reconhecida a nulidade do vínculo matrimonial e se verifiquem condições objetivas que tornam realmente irreversível a convivência, a Igreja encoraja estes fiéis a esforçarem-se por viver a sua relação segundo as exigências da lei de Deus, como amigos, como irmão e irmã; deste modo poderão novamente abeirar-se da mesa eucarística, com os cuidados previstos por uma comprovada prática eclesial. Para que tal caminho se torne possível e dê frutos, deve ser apoiado pela ajuda dos pastores e por adequadas iniciativas eclesiais, evitando, em todo o caso, de abençoar estas relações para que não surjam entre os fiéis confusões acerca do valor do matrimonio."

Ou seja: se não tiver mais jeito, o novo casal pode até conviver junto, contanto que como simples amigos, como irmão e irmã. Sexo nem pensar. Caramba! Se fosse para isso, por que diabos iriam casar? O discurso é tão absurdo que choca até alguns cristãos. Nisso que dá proibir o padre de se casar ou manter relações amorosas com mulheres. Fica falando sobre o que não entende. Como o Papa pode ter a pretensão de aconselhar sobre o relacionamento amoroso entre homens e mulheres se nem mesmo pode experimentar tal sentimento? Acho que o Vaticano deveria dar menos importância para os católicos que descobrem a felicidade somente num segundo casamento, já que errar ou mudar fazem parte da vida, e focar mais nos crescentes escândalos de pedofilia dentro da própria Igreja. Reprimir totalmente instintos tão naturais como o sexo pode fazer a paixão retornar com uma força incontrolável. O fato de vários padres abusarem sexualmente de garotos parece infinitamente mais preocupante que o segundo casamento feliz de homens e mulheres adultos.

Eis o que considero a verdadeira praga social, em vez de casar pela segunda vez: a mentalidade medieval de alguns crentes, que condenam todos os avanços conquistados pelas mulheres recentemente; o desejo de alguns de retornar aos tempos da Inquisição, onde "hereges" seriam levados para a estaca; a postura quase criminosa de condenar o uso da camisinha no mundo moderno, com enormes riscos de contração de doenças sexualmente transmissíveis; a crescente pedofilia dentro da Igreja; a doutrinação de ignorantes desesperados por algum consolo; o fanatismo religioso, que ofusca a razão humana; a venda de caridade com o esforço alheio enquanto a Igreja nada em ricas terras e muito ouro; e por fim, toda a hipocrisia presente no mundo.