Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
terça-feira, fevereiro 03, 2009
segunda-feira, fevereiro 02, 2009
A Primeira Lei de Obama
Rodrigo Constantino
O novo presidente americano Barack Obama assinou sua primeira lei dia 29 de janeiro, quinta-feira passada. Trata-se do Lilly Ledbetter Fair Pay Act, em homenagem à luta de Lilly Ledbetter contra a empresa Goodyear, na qual a funcionária alegava ter recebido salário menor que o dos homens pela mesma função. A essência da nova lei, aplaudida por muitos, pode ser resumida na seguinte expressão: “salários iguais para funções iguais”. A questão que automaticamente surge é a seguinte: quem foi que disse que diferentes indivíduos exercendo a mesma função apresentam o mesmo resultado?
Deve-se lembrar que o importante para qualquer empresa é a produtividade final, o valor agregado por cada funcionário. Da diferença entre esta produtividade marginal e o custo com o trabalhador é que a empresa consegue extrair seu lucro, reinvestir no negócio, sobreviver e crescer, para continuar atendendo os clientes e garantindo os empregos que gera. Os consumidores, atuando livremente num plebiscito ininterrupto chamado mercado, querem o melhor produto pelo menor preço, e votam de acordo. Como colocou Roberto Campos, “é pela automaticidade do castigo, e não por inspiração divina, que os empresários privados não param de pensar em custos”. Logo, cada empresa terá incentivos para pagar um salário dependente da produtividade ofertada pelo trabalhador. Se ela pagar algo muito acima disso, terá prejuízo e irá à falência; e se ela pagar muito menos, alguma concorrente poderá contratar seu pessoal pagando mais e ainda obtendo um bom lucro.
Quando esta lógica econômica é compreendida, fica mais fácil entender o erro dessa nova lei, no fundo de cunho populista. O economista de Chicago Thomas Sowell, no seu livro Barbarians Inside the Gates, explica como é sem sentido falar em “igualdade” quando se está comparando coisas diferentes. Para falar em igualdade, antes é preciso ter um padrão de mensuração. Uma sinfonia não é igual a um automóvel, para usar o exemplo de Sowell, tampouco é superior ou inferior. Ela é apenas diferente, e ambos não podem ser comparados. Para Sowell, muito da luta emocional para tornar as mulheres “iguais” aos homens sofre deste mesmo problema. Desde que mulheres têm filhos e os homens não, comparar os dois sexos ignorando essa diferença pode levar a um resultado sem sentido.
A diferença fundamental entre um tratamento igual e um desempenho igual é freqüentemente confundida. Em termos de desempenho, praticamente ninguém é igual a ninguém. Até um mesmo indivíduo não apresenta desempenho igual todos os dias. Muito do que chamamos de “engenharia social” vem do fato de que estatísticas para diferentes grupos são diferentes. Logo, é assumido automaticamente que a diferença estatística só pode ser explicada por um tratamento diferente. Sowell acredita que este dogma está tão enraizado que uma discussão racional sobre o tema é quase utópica. A própria expectativa de que os resultados deveriam ser iguais é totalmente arbitrária. Se existe alguma coisa que não é igualitária no mundo, essa coisa é a própria natureza. Mas existe um grupo grande de pessoas que acredita que quando o mundo não se conforma com sua teoria, então algo deve estar errado... com o mundo!
Voltando ao fato de que mulheres engravidam e têm filhos, tamanha diferença em relação aos homens não pode nunca ser ignorada numa análise correta dos resultados entre os dois sexos. Ao menos não por quem gostaria de contar com a sobrevivência da espécie humana. Tendo em mente que um dia terão filhos, as mulheres já tomam decisões levando isto em conta. Na média, as ocupações que demandam constante renovação nas habilidades tendem a atrair menos mulheres do que aquelas ocupações que permitem mais tempo para ter filhos e depois regressar ao trabalho. É possível tirar uns meses ou anos de folga para cuidar dos filhos na fase inicial do crescimento, e depois voltar para dar aulas, escrever, advogar. Mas começa a ficar mais complicado se afastar tanto quando se é uma engenheira de computação, pois na volta tudo pode ter mudado. A obsolescência da ocupação, em outras palavras, será um fator importante para atrair homens ou mulheres.
Quando os “engenheiros sociais” cospem estatísticas mostrando que as mulheres ganham menos que os homens, eles ocultam estas importantes diferenças. Na média, faz sentido mulheres ganharem menos mesmo. Claro que isso não diz nada sobre casos individuais. Mas naturalmente, não são os casos individuais que esses defensores dos “resultados iguais” se importam. Afinal, para casos isolados de injustiças, já existe a lei. Ou, como já foi explicado, o próprio mercado de livre concorrência ajuda a eliminar discrepâncias injustas, pois faz todo sentido contratar alguém pelo mesmo salário se a produtividade é a mesma. Se fosse verdade que as mulheres recebem menos de forma geral para uma mesma produtividade, então haveria um “almoço grátis” na mesa. Qualquer empresa poderia contratar essas mulheres pagando um pouco mais do que antes, mas ainda menos que paga aos homens, e pela mesma produtividade teria um lucro maior. Ao longo do tempo, essas empresas que não discriminam as mulheres seriam as vencedoras no livre mercado.
Espero ter deixado claro que a máxima “salários iguais para funções iguais” não faz muito sentido. A função pode ser a mesma, mas a produtividade pode ser bem diferente. Um atacante de um time de terceira divisão pode exercer a mesma função que Cacá, mas nem por isso eles merecem um salário equivalente. Da mesma forma, os jogadores de basquete da NBA, na maioria negros, podem ocupar a mesma função dos demais jogadores de basquete, mas nem por isso vão receber os mesmos salários. E não há racismo algum nessa diferença. Afinal, os negros da NBA não ganham milhões porque são negros, mas sim porque são os melhores no que fazem. O que importa é o valor gerado de acordo com as preferências dos consumidores.
Quando Obama assina uma lei que enxerga apenas uma característica de grupo, como o sexo, ele está ignorando as diferenças entre esses grupos, e o principal, as diferenças entre indivíduos dentro de cada grupo. Se uma mulher resolve abdicar do lado materno, se dedicar de corpo e alma ao trabalho, e se torna uma diretora bem mais produtiva que outros diretores homens, então ela terá que sofrer uma redução em seu salário em nome da “igualdade dos sexos”? Mulheres podem ganhar mais que homens numa mesma função? Essas leis apenas fomentam a segregação em grupos, seja de raça ou sexo. O ideal seria o governo não se meter nas trocas voluntárias entre empregador e empregado, e respeitar que seres humanos muito diferentes sempre irão gerar resultados muito diferentes também. E os “engenheiros sociais” fariam um favor à humanidade se abandonassem o típico “pensamento de grupo”, passando a enxergar diferentes indivíduos em vez disso.
sexta-feira, janeiro 30, 2009
Os Lobistas
Rodrigo Constantino
“Poucas coisas são mais perigosas do que deixar algumas pessoas tomarem decisões pelas quais outras pessoas pagam os custos.” (Thomas Sowell)
Milton Friedman destacou quatro maneiras básicas de se gastar dinheiro. A primeira é quando gastamos o próprio dinheiro com coisas particulares. Nesse caso, há preocupação total tanto com o custo como com o conteúdo do gasto. Trata-se de todas as compras que fazemos no mercado para nós mesmos. A segunda forma é quando gastamos dinheiro próprio com terceiros, como quando compramos um presente. Nesse caso, há uma preocupação muito maior com o custo do que com o conteúdo. A terceira opção é quando gastam dinheiro dos outros com terceiros, que comporta boa parte dos gastos governamentais. Não há preocupação nem com os custos nem com o conteúdo, pois a conta é paga pela “viúva”. E uma última forma é quando gastam dinheiro dos outros em benefício próprio. Temos aí a certeza de uma grande festa, com foco total no conteúdo, e preocupação nula com os custos. São todos os desperdícios megalomaníacos que vemos em eventos públicos, ou então aqueles gastos bilionários do governo que beneficiam alguns poucos “amigos do rei”. É justamente para viabilizar esta quarta forma de gastar, ou melhor, de torrar dinheiro, que os lobistas entram.
A expressão “lobista” parece ter sido cunhada pelo general Ulysses S. Grant, durante o governo de Abraham Lincoln. A expansão do governo central durante sua gestão criou oportunidades de lucro para as pessoas ligadas ao Partido Republicano. Entre 1860 e 1874, os impostos das 13 maiores cidades do Norte subiram cinco vezes mais que a população. Os funcionários importantes do governo passaram a ser assediados por grupos de interesse, de olho na quantia crescente de gastos públicos. O nepotismo também teria aumentado, e o próprio general Grant empregou diversos parentes no governo. O general teria criado então o termo “lobista” para se referir aos homens que passavam dias nos lobbies de hotéis em Washington aguardando uma oportunidade para subornar senadores e deputados. Os lobistas de ferrovias e bancos eram especialmente influentes, e tinham sido colaboradores importantes desde a criação do Partido Republicano. O “cargo” de lobista foi depois legalizado nos Estados Unidos.
Isso não quer dizer que os republicanos eram mais corruptos que os democratas ou qualquer outro grupo. Como fica claro na explicação de Milton Friedman, é o próprio aumento do escopo do governo, assim como a concentração de poder em Washington, que gera mais corrupção. E essa era a agenda dos partidos Whig e Republicano na época, sob forte influência de Hamilton. A crença dessas pessoas era totalmente mercantilista, e eles pensavam que cabia ao governo central um relevante papel para desenvolver a economia. Os pilares defendidos eram as tarifas protecionistas, os subsídios internos e um banco central monopolizando a emissão de moeda, para financiar todo o resto. São receitas certas para gerar mais corrupção. As empresas terão total interesse em desviar recursos produtivos para a função do lobista, pois a troca de “favores” políticos rende mais do que qualquer investimento para aumentar a competitividade. Conseguir uma tarifa nova protecionista pode significar o status de monopolista para uma empresa, livre das forças da concorrência. Isso pode valer mais do que qualquer inovação na sua técnica de produção.
O foco nas “melhorias internas” através de subsídios era um dos principais objetivos da agenda econômica de Lincoln. Para os adeptos dessa mentalidade, somente o governo central tinha condições de criar a infra-estrutura necessária para permitir o avanço econômico. No entanto, as estradas privadas proliferaram durante o começo do século XIX, e mais de 400 foram construídas até 1840 sem ajuda do governo. As ferrovias eram o carro-chefe dos subsídios propostos. Mas a experiência mostrava que as incursões do governo no ramo das ferrovias tinha sido sempre um total fracasso. A Union Pacific e a Central Pacific eram tão ineficientes que estavam quebradas assim que ficaram prontas, em 1869. Por outro lado, a iniciativa privada tinha sido capaz de criar grandes ferrovias sem nenhum subsídio. Foi o caso de James J. Hill, empreendedor que construiu uma ferrovia transcontinental sem um centavo do governo.
Aliás, um importante parêntese: Hill pagou pelo direito de passagem às comunidades indígenas, enquanto o governo partiu para um verdadeiro massacre dos índios para limpar caminho para suas ferrovias. O livre mercado opera através das trocas voluntárias, enquanto o governo utiliza a força bruta.
O “pai” da Constituição Americana James Madison compreendia muito bem os riscos de abuso no uso do governo para tais “melhorias internas”. Enquanto era presidente, Madison vetou um projeto de Henry Clay para o uso de US$ 1,5 milhão do governo como subsídio para a construção de canais e rodovias. Seu argumento foi para dar uma lição sobre o respeito à Constituição, já que não havia nada nela que permitisse tal poder ao Congresso. Alguns anos depois, Andrew Jackson vetaria vários outros projetos com o mesmo objetivo, usando os mesmos argumentos e condenando os planos de gastos inconstitucionais com o propósito de influência corrupta. Em 1861, os subsídios estatais para melhorias internas eram proibidos por emenda constitucional em inúmeros estados. A Era Lincoln representaria uma guinada em direção à centralização de poder e abandono de tais restrições.
Hoje temos em Obama o grande ícone dessa concentração absurda de poder nas mãos do governo. Seus pacotes de centenas de bilhões para “salvar” a economia fariam os “pais fundadores” ficarem em completo estado de choque. A magnitude do pacote atraiu, naturalmente, legiões de lobistas para Washington. Todos querem uma fatia do bolo. A competição acirrada deixa de ser pelo melhor atendimento ao cliente final, e passa a ser pelas verbas do governo. O critério não é mais técnico, e sim político. O dinheiro é da “viúva”, portanto, não há muita preocupação com os custos. Os lobistas disputam a preferência dos políticos em busca de medidas protecionistas para suas indústrias, sacrificando os consumidores. A ineficiência nos gastos é inevitável, pela própria natureza dos gastos públicos. Ninguém cuida de um carro alugado como cuida do seu próprio. E a corrupção é outro fator inevitável. O suborno fica tentador demais, pois uma canetada de um político sela o destino de todo um setor, definindo as empresas vencedoras. Os clientes, claro, ficam sem segundo plano.
Para bancar essa gastança desenfreada é preciso emitir papel, pois o aumento direto de impostos costuma ser muito impopular. Claro que no fundo o governo não tem como criar recursos do além; ele tem que tirar dos cidadãos de alguma forma. A emissão de moeda é apenas um imposto disfarçado, o conhecido “imposto inflacionário”. Não há grandes novidades aqui também. Em 1862, Lincoln assinou o Legal Tender Act, delegando poderes ao Secretário do Tesouro de emitir papel-moeda. Os “greenbacks” inundaram os bancos privados e a quantia de moeda em circulação dobrou já no primeiro ano. A inflação que resultou disso foi bastante severa, fazendo o dólar perder valor em relação ao ouro. Atualmente, o Fed, sob o controle de Bernanke, está imprimindo papel em velocidade espantosa. A base monetária dobrou em poucos meses. A história pode não se repetir exatamente, mas com freqüência ela rima...
Para reverter essa situação perigosa, o melhor caminho é atacar o mal pela raiz, ou seja, retirar do governo esse poder astronômico. Seria um resgate dos valores defendidos pelos “pais fundadores” americanos. Enquanto o governo desfrutar dessa montanha de recursos e desse poder infindável, os lobistas estarão no comando. A simbiose entre governo e empresários sai sempre cara demais para o povo. E não adianta sonhar com o “messias salvador”, o santo que irá chegar ao poder e consertar isso tudo de cima para baixo, impondo honestidade nos gastos públicos. Não funciona assim. É da natureza do modelo estatal esta maior ineficiência, assim como a corrupção. Não podemos esquecer jamais que são seres humanos, demasiado humanos, no poder. E como já alertava Lord Acton, o poder corrompe. E os lobistas estão à espreita, prontos para corromper, na primeira oportunidade que surgir. Ainda mais uma oportunidade de US$ 800 bilhões!
quinta-feira, janeiro 29, 2009
A Herança de Lincoln
Rodrigo Constantino
“Como alguém pode ler história e ainda confiar nos políticos?” (Thomas Sowell)
Abraham Lincoln é talvez o mais adorado dos presidentes americanos. Sua figura se tornou um mito, e ele é visto como praticamente um santo responsável pela emancipação dos escravos com base numa postura estritamente moral. O fato de ele ter sido assassinado ajudou a criar esta imagem, pois como observou Nietzsche, os mártires prejudicam a verdade, já que sua morte seduz. JFK é outro bom exemplo dessa verdade. Tentando afastar a nuvem de reverência que o envolve, o professor de economia Thomas DiLorenzo escreveu o livro The Real Lincoln, expondo através de fatos históricos o verdadeiro homem de carne e osso por trás do mito. O resultado é bastante diferente daquele imaginado por muitos.
DiLorenzo sustenta que Lincoln tinha uma agenda político-econômica centralizadora, uma herança ideológica de Alexander Hamilton que influenciou fortemente os partidos Whig e Republicano, e que pode ser resumida em uma única palavra: mercantilismo. Para o autor, foi esta agenda a verdadeira causa da guerra civil, e não a emancipação dos escravos. Inúmeros argumentos sustentam esta visão, incluindo declarações do próprio Lincoln. O direito de secessão era um pilar básico das liberdades defendidas pelos principais “pais fundadores”, que viam com enorme desconfiança toda concentração de poder no governo central. Quando alguns estados do sul ameaçaram se separar da União após a vitória de Lincoln, temendo aumento de tarifas e demais medidas econômicas prejudiciais especialmente ao sul, Lincoln simplesmente não tolerou este direito enraizado nos princípios americanos. Com o objetivo de “salvar a União”, e não os escravos, Lincoln criou as condições necessárias que levariam a uma guerra catastrófica.
Dezenas de países, incluindo a Inglaterra, territórios franceses, espanhóis e portugueses, como o próprio Brasil, conseguiram acabar pacificamente com a escravidão durante um curto período de tempo. As idéias iluministas, com base no direito natural destacado inclusive na Declaração de Independência americana, já exerciam sua força. Vários abolicionistas importantes usavam a Declaração como principal argumento contra a escravidão. Além disso, os próprios avanços na técnica, conseqüência da industrialização capitalista, tornavam a escravidão improdutiva e ineficiente. Compensações foram oferecidas em muitos casos para abolir a escravidão. Tudo isso contribuiu para a abolição relativamente pacífica em diversos países numa mesma época. Os Estados Unidos representam a grande exceção. Uma guerra civil jamais vista eclodiu, matando mais de seiscentas mil pessoas, o equivalente hoje a cerca de seis milhões de americanos, ajustando para uma população dez vezes maior. Seu custo econômico ultrapassou e muito qualquer compensação financeira que pudesse ser necessária para comprar os escravos e libertá-los. DiLorenzo argumenta que tal guerra foi totalmente desnecessária, e que no fundo serviu para o rápido avanço dos planos centralizadores de Lincoln.
Desde o começo de sua vida política em 1832, o jovem Lincoln já deixara claro sua devoção à causa das tarifas protecionistas, subsídios para “melhorias internas” e nacionalização da oferta monetária através de um banco central. Esta era a agenda de Hamilton, abraçada pelos Republicanos. Tentativas anteriores de impor esta agenda ocorreram, mas sempre barradas pela Constituição e por presidentes cientes da importância da descentralização de poder, tão defendida por Thomas Jefferson. O federalismo era o grande pilar da liberdade segundo Jefferson e outros “pais fundadores”. Mas ele representava um grande obstáculo para as ambições centralizadoras de Lincoln. O governo federal fora criado apenas para atender certas demandas dos estados, e se tratava de uma união voluntária. O consentimento era a peça fundamental da união, e até Hamilton compreendia isso. Lincoln, no entanto, estava disposto a entrar em guerra com os estados sulistas por não aceitar seu direito de secessão. Sua forma de “salvar a União” representava, na verdade, a destruição da idéia de união como uma associação voluntária de estados. Era a morte do federalismo defendido pelos “pais fundadores”.
A imagem de grande combatente moral do racismo e da escravidão não combina com algumas declarações de Lincoln. Em um debate com o Senador Stephen Douglas em 1858, Lincoln disse que não pretendia introduzir a igualdade política e social entre brancos e negros. Ele afirmou ainda que, como o Senador, ele era favorável à idéia de posição superior da raça branca, e reforçou o ponto garantindo que nunca tinha dito nada contrário. Lincoln prometeu também apoiar o Fugitive Slave Act de 1850, que obrigava o governo federal a usar seus recursos para retornar escravos fugitivos a seus proprietários. Claro que existem, por outro lado, declarações de Lincoln condenando a escravidão. Mas o ponto levantado por DiLorenzo é justamente a ambigüidade do discurso de Lincoln, um mestre da retórica, exercida desde os tempos de advogado. Lincoln era um político em busca de poder, e parecia disposto a mudar o discurso para obter o máximo de apoio político possível.
Durante os seus 23 anos como advogado, Lincoln jamais defendeu um escravo fugitivo; mas chegou a defender um proprietário de escravos. Além disso, ele casou com Mary Todd, de uma família proprietária de escravos no Kentucky. Quando era presidente, Lincoln recebeu na Casa Branca líderes negros e teria implorado para que eles liderassem um movimento de colonização de volta à África. Um plano para mandar negros para o Haiti teria sido desenvolvido. O famoso abolicionista William Lloyd Garrison denunciou Lincoln por tais tentativas de preservar os Estados Unidos para os brancos através da colonização. Em uma famosa carta para o New York Tribune, Lincoln explica que não estava particularmente preocupado com a emancipação em si, mas sim com sua luta para “salvar a União”. Ele afirma com todas as letras na carta que se fosse possível atingir tal meta sem emancipar qualquer escravo, ele faria. A emancipação nada mais era do que um meio para o verdadeiro fim: a consolidação do poder em Washington!
A gestão Lincoln foi marcada por inúmeros atos inconstitucionais. Ele lançou uma invasão ao sul sem consultar o Congresso, bloqueou os portos do sul, suspendeu o direito básico de habeas corpus, prendeu sem julgamento milhares de cidadãos e jornalistas críticos ao seu governo no norte, censurou a comunicação por telégrafo, nacionalizou ferrovias, etc. Isso sem mencionar as atrocidades praticadas por alguns de seus generais na guerra, como no caso de Sherman, que partiu para uma “guerra total” matando inúmeros civis inocentes. Inúmeros casos de estupros foram registrados. Atos como estes seriam impensáveis nas figuras de Jefferson, Madison ou Washington. O Forte Lafayette em Nova York ficou conhecido como a “Bastilha Americana”, porque abrigou milhares de prisioneiros políticos durante a administração Lincoln. Mesmo os defensores de Lincoln não conseguem negar os fatos, mas tentam justificá-los. Alguns reconhecem que tais atos são típicos dos ditadores, mas consideram Lincoln um “bom ditador”. Seu argumento é basicamente o de que os fins justificam os meios. Eles aceitam a postura contraditória de que Lincoln teve que rasgar a Constituição para salvá-la. Esta mentalidade seria uma caixa de Pandora aberta na era Lincoln, que assombra o país até hoje.
Com Lincoln, vieram também o alistamento obrigatório, o imposto de renda, o aumento da burocracia e corrupção, o dinheiro compulsório e a inflação. Para DiLorenzo, Lincoln será para sempre lembrado como o “Grande Abolicionista”. Mas o correto, segundo o autor, seria vê-lo também como o “Grande Centralizador”. O governo federal deixava de ser um servidor dos indivíduos e passava a ser seu mestre. Os impostos só aumentariam, sempre em nome do “interesse da nação”. Pensadores liberais como H. L. Mencken, Lysander Spooner e Lord Acton viram com grande preocupação as medidas de Lincoln. Eles estavam certos em temer pelo futuro da liberdade dos americanos. Uma nova era de coletivismo, justificando constantes ataques à Consituição, teria início.
Seu auge talvez seja o momento atual, com a idolatria ao presidente Obama, dono de um poder que os “pais fundadores” jamais aceitariam. O legado de Lincoln pode ser o fim da escravidão, ainda que seja importante questionar se seu custo era mesmo necessário. Tudo indica que não, que outros meios infinitamente mais razoáveis estavam disponíveis para abolir de vez a nefasta instituição da escravidão, que acompanhara a humanidade por milênios, mas que chegou ao fim em diversos países na mesma época. No entanto, uma herança maldita de Lincoln não deve ser ignorada em nome do mito: a gradual morte do federalismo e o concomitante aumento da concentração de poder no governo central. Eis a mensagem de DiLorenzo sobre o verdadeiro Lincoln.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Fórum Social Mundial - Vídeo
Vídeo comentando o Fórum Social Mundial que ocorre em Belém esse ano. Falo da montanha de recursos públicos tirada na marra dos contribuintes para financiar um bando de socialistas, algo totalmente imoral. Algumas das contradições infindáveis dos membros do FSM são expostas no vídeo, como a defesa da democracia ao lado de ditadores. Os slogans vazios e os chavões idiotas substituem qualquer debate sério. O pluralismo tão pregado da boca para fora não se faz presente. E por aí vai. Uma massa de idiotas úteis manipulada por oportunistas de plantão que demandam mais e mais poder, eis o resumo do que representa o FSM!
Link para o vídeo no YouTube
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quarta-feira, janeiro 21, 2009
A Era da Esperança
Rodrigo Constantino
“Não há erro pior na liderança pública do que alimentar falsas esperanças que logo serão frustradas.” (Winston Churchill)
A euforia que tomou conta dos Estados Unidos durante a posse de Obama foi um espetáculo constrangedor e preocupante. Milhões de pessoas idolatrando um único indivíduo, chorando de emoção em homenagem a um político. Trata-se de um sinal dos novos tempos, da era do governo Todo-Poderoso, até mesmo na “terra da liberdade”. O bordão “a esperança venceu o medo” resume a retórica do momento, abraçada por milhões de pessoas apavoradas com a pior crise econômica desde a depressão de 1929. Essa massa de desesperados deposita toda a sua esperança no presidente, visto como um “messias salvador”, um ser sobrenatural que possui o poder da cura para todos os males do mundo. O Deus moderno passou a ser o governo, e o presidente americano é seu novo profeta.
Talvez ciente do alerta feito por Churchill na epígrafe acima, o discurso de Obama foi bem mais sóbrio que o esperado, quase um balde de água fria nos mais sonhadores, pregando uma nova era de responsabilidade. Curiosa expressão, usada por aquele que defende as políticas expansionistas do governo como solução para a crise. O governo americano já possui mais de US$ 10 trilhões em dívidas, um déficit fiscal crescente, e um banco central que leva aos limites seu balanço para substituir a função dos bancos comerciais em crise. Soa no mínimo estranho o presidente que assume propondo pacotes bilionários, sem lastro para tanto, falando em responsabilidade. Obama deveria se lembrar de Sêneca, quando este disse: “longo é o caminho ensinado pela teoria; curto e eficaz é o do exemplo”. Se Obama leva a sério seu recado, poderia começar com mais responsabilidade fiscal no próprio governo, anunciando cortes em vez de expansão nos gastos públicos.
Infelizmente, os pilares ideológicos dos “pais fundadores” da nação estão cada vez mais abandonados pelos americanos. O próprio culto à presidência demonstra como o país se afastou dos princípios liberais de seus fundadores. Estes enxergavam com enorme desconfiança o governo, visto como um “mal necessário”, cuja função básica era apenas preservar as liberdades e o direito de propriedade privada. Algo muito diferente da imagem que muitos têm do governo atualmente, uma espécie de Deus capaz de criar riqueza num estalo de dedos. Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Thomas Paine e demais líderes da Revolução Americana jamais teriam defendido tanto poder concentrado em um único homem. A República americana, que no passado soube limitar os poderes do governo, acabou se transformando numa simples democracia popular, uma espécie de “ditadura da maioria”, onde as liberdades individuais ficam totalmente ameaçadas. O Estado, como já havia previsto Bastiat, virou “a ficção através da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo”.
No seu livro sobre as multidões, Gustave Le Bon tenta definir o que seria uma massa de pessoas, sob o ponto de vista psicológico. Ele escreve: "Uma massa é como um selvagem; não está preparada para admitir que algo possa ficar entre seu desejo e a realização deste desejo. Ela forma um único ser e fica sujeita à lei de unidade mental das massas. No caso de tudo pertencer ao campo dos sentimentos, o mais eminente dos homens dificilmente supera o padrão dos indivíduos mais ordinários. Eles não podem nunca realizar atos que demandem elevado grau de inteligência. Em massas, é a estupidez, não a inteligência, que é acumulada. O sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos desaparece completamente. Todo sentimento e ato são contagiosos. O homem desce diversos degraus na escada da civilização. Isoladamente, ele pode ser um indivíduo; na massa, ele é um bárbaro, isto é, uma criatura agindo por instinto".
Nelson Rodrigues, com seu poder de síntese, resumiu: “a unanimidade é burra”. Robert Menschel, autor de Markets, Mobs and Mayhem, constatou que as massas desejam ser lideradas, e freqüentemente não ligam muito para onde. O filósofo Ortega y Gasset, em A Rebelião das Massas, também tratou do assunto de forma interessante, descrevendo o “homem massa” como uma típica criança mimada que quer impor seus desejos. São como bóias à deriva, dispostos a depositar poder em quem promete atender tais anseios imediatos. Em resumo, as massas agem por instinto, delegando a responsabilidade para algum líder carismático qualquer. Eis onde reside o perigo!
A esperança não venceu o medo: ela foi criada por ele! E em vez dos americanos resolverem enfrentar os duros fatos da realidade atual, eles preferiram sonhar, depositando no governo já inchado o poder de fazer milagres. Todos repetem que Obama vai tirar a nação do atoleiro econômico. Obama é o super-homem! Esquecem que a economia funciona bem quando a “mão invisível” pode funcionar sem tantas amarras. Milhões de indivíduos decidem isoladamente suas ações, e o livre mercado se encarrega de produzir um resultado eficiente. Por outro lado, o dirigismo estatal é o caminho da ineficiência e da servidão. A história está repleta de exemplos para ilustrar isso. Por mais genial que fosse, nenhum ser humano seria capaz de absorver o conhecimento pulverizado na população toda. Basta usar a razão para compreender a lógica disso. Obama e seus aliados são apenas seres humanos, sujeitos às mesmas falhas de todos os outros. Não são oniscientes, tampouco santos dispostos a sacrificar seus interesses particulares em prol do bem-comum. São seres humanos, demasiado humanos. E nenhum ser humano deveria concentrar tanto poder assim.
Mas as multidões não querem saber disso. Elas não desejam refletir sobre tais argumentos racionais. Elas estão com medo, e precisam abraçar cegamente a esperança de que Obama irá solucionar todos os problemas, ainda que isso seja claramente falso. Vivemos na era da esperança. E como Baltazar Gracian disse, “a esperança é a grande falsária da verdade”.
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Hora de Ajustar as Velas
Rodrigo Constantino
“A esperança é a grande falsária da verdade.” (Baltazar Gracian)
O brasileiro é conhecido por seu otimismo. Não importa a gravidade da situação, ele sempre acha que tudo vai acabar bem. Afinal, Deus é brasileiro! Uma das máximas preferidas no Brasil é “deixar a vida levar”. E assim o país segue sem rumo definido, sem fazer as reformas necessárias. O “gigante adormecido” acaba hibernando, em vez de acordar para exercer todas as suas potencialidades.
Com a crise atual não poderia ser diferente. O presidente Lula chegou a chamar a crise de “marolinha”, em vez de começar os preparativos para enfrentar um possível maremoto. O otimismo como estilo de vida pode ser melhor para a saúde do que o pessimismo crônico, uma patologia que faz suas vítimas desejarem o fim do mundo. No entanto, o realismo ainda é uma conduta bem mais racional do que o otimismo infundado. Como resumiu William George Ward, “o pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas”. Ficar paralisado diante do perigo apenas esperando que ele vá embora é a receita certa para a desgraça. Foi Confúcio quem expressou de forma brilhante isso: “É melhor acender uma pequena vela do que praguejar contra a escuridão”.
Diante de uma crise com a gravidade desta atual, parece inevitável sofrer conseqüências dolorosas. Não há muito que fazer quanto a isso. Mas há algo a fazer para mitigar seus efeitos, e isso tem que ser feito! O excesso de otimismo é capaz de causar mais dano do que o pessimismo, já que a precaução tende a ser colocada de lado. E a precaução é fundamental. O governo brasileiro, aguardando apenas uma “marolinha”, evita medidas drásticas que poderiam preparar o país para enfrentar aquela que poderá ser a mais grave crise desde a Grande Depressão. Faz pior na verdade: anuncia aumento de gastos públicos, até mesmo com propaganda!
Compare-se esta postura com aquela adotada pelo governo de Cingapura. Lá, o governo irá cortar os salários dos principais funcionários públicos e dos ministros. Seus salários são atrelados ao desempenho econômico, criando um incentivo para a eficiência. A queda poderá chegar a 20% em 2009. Cingapura ostenta o segundo lugar no ranking de liberdade econômica do The Heritage Foundation, atrás apenas de Hong Kong. O país conta com ampla abertura comercial, elevada flexibilidade trabalhista, carga tributária reduzida, sistema regulatório transparente e burocracia bastante limitada. Abrir um negócio em Cingapura leva apenas quatro dias. Com este ambiente amigável aos negócios, o pequeno país, sem recursos naturais, conseguiu chegar a uma renda per capita próxima de US$ 50 mil, uma das maiores do mundo. A crise vai afetar duramente o país. Mas eles já estão fazendo os ajustes necessários para evitar o pior.
O governo brasileiro caminha na contramão. É preciso ter em mente que a crise mundial pode ser muito grave e duradoura. O fluxo de investimentos estrangeiros poderá secar, as exportações vão sofrer bastante com a queda da atividade econômica mundial, e o protecionismo comercial será um risco cada vez maior. Fechar os olhos para estes riscos e sonhar com uma mudança no quadro não irá alterar a realidade. O governo tem que agir, e rápido, de forma a criar um dinamismo próprio para a economia brasileira. Existem tantos obstáculos ao funcionamento do livre mercado no país que algumas reformas estruturais já poderiam criar as condições para um “descolamento”. Mas todo ajuste exige esforço e não costuma ser indolor. Qualquer um que já fez uma dieta séria sabe disso. Mas o resultado compensa!
O que nosso governo poderia fazer então? Eis uma sugestão: focar seriamente nas reformas tributária, previdenciária e trabalhista. Esses três pilares são fundamentais para reduzir os empecilhos criados pelo próprio governo ao crescimento econômico. A carga tributária precisa ser reduzida e os impostos devem ser simplificados. O rombo previdenciário precisa ao menos ser estancado, sinalizando uma reversão na tendência explosiva atual. E por fim, as leis trabalhistas de inspiração fascista necessitam de uma flexibilização urgente. Com essas medidas, a economia brasileira estaria bem mais preparada para enfrentar a crise.
Como diz um provérbio chinês, “espere o melhor, prepare-se para o pior e receba o que vier”. O brasileiro não precisa jogar fora sua característica de enxergar o copo sempre meio cheio, em vez de meio vazio. Mas esse otimismo não pode anular a capacidade de se preparar para o pior. Vamos esperar que os ventos mudem logo de direção. Mas enquanto isso não acontece, que tal ajustar as velas?
sexta-feira, janeiro 16, 2009
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