domingo, fevereiro 11, 2007

O Sermão da Montanha



Rodrigo Constantino

“A moralidade humana, até mesmo a mais elevada e substancial, não é de modo algum dependente da religião, ou necessariamente vinculada a ela.” (Humboldt)

Sei que o tema religião desperta fortes paixões que costumam suprimir a razão – o que posso atestar pela reação de muitos aos meus recentes artigos. Mas não consigo compreender porque não devemos questionar coisas sobre este assunto, se ele gera tanto impacto em nossas vidas. Devemos aceitar sem questionar? Devemos tratar como sagrada as crenças alheias mesmo sem acreditar nelas? Por que o mesmo indivíduo que reconhece objetivamente que Maomé foi humano e guerreiro, não o reconhecendo como profeta de Alá, não aceita que façam perguntas sobre Jesus Cristo? Apenas porque aprendeu a repetir a vida toda que Jesus era Deus em pessoa? E duvidar disso, ou questionar, é pecado? Por quê?

Jesus nunca escreveu nada, assim como Maomé. Outros homens escreveram sobre eles, e isso gerou o livro sagrado dos muçulmanos e o dos cristãos. Como encarar o que ali está escrito, por homens comuns? Devemos tomar literalmente o que foi supostamente dito, como fazem os fundamentalistas? Afinal, trata-se ou não da “revelação” divina? Mas se for a Verdade revelada por palavras ambíguas, que não devem ser analisadas ao pé da letra, como interpretá-la então, já que não há um critério objetivo disponível? Qual seria o objetivo de Deus em evitar falar de forma objetiva? Gerar confusão? Criar grupos que interpretam a mensagem de forma diferente e brigam entre si? Se aquelas palavras escritas por homens e atribuídas a Jesus devem ser filtradas por cada um, então estamos diante de algo bastante subjetivo, e no final das contas será a própria razão humana que irá separar o joio do trigo, que irá determinar o que é para ser seguido e o que é para ser descartado. Logo, estaríamos dependendo da própria capacidade racional humana para entender a mensagem. Ou seja, o homem mesmo é capaz de ler supostas “revelações” e descartar algumas partes, ficando com outras. Isso me parece algo bem humano, e não divino.

Se não for assim, como devemos entender o que teria sido supostamente dito por Jesus no famoso Sermão da Montanha? Vejamos alguns trechos, como este: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que olhar uma mulher para cobiçá-la, já adulterou com ela no seu coração. Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o e lança-o fora de ti; porque é melhor que se perca um de teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno”. Alguém vive assim? Devemos seguir essa “verdade” sem questionamento?

Ou então: “Ouviste o que foi dito: olho por olho e dente por dente. Eu, porém, te digo que não resistas ao mau; mas se alguém te bater na tua face direita, oferece-lhe também a outra”. O que devemos tirar dessa lição “divina”? Que a lex talionis do Código de Hamurabi deve ser rasgada, e eu seu lugar devemos oferecer amor em troca de violência? Que de fato devemos oferecer outra face para quem nos agrediu? Alguém consegue viver assim? Seria possível um mundo assim, sabendo que o homem é como é? Deveria um pai oferecer o outro filho vivo para os bandidos que acabam de tirar a vida de um de seus filhos? Amar o próprio assassino do seu filho, eis a máxima cristã no sentido literal. Isso é algo bom ou razoável?

Aqui a mensagem é ainda mais radical: “Ouviste o que foi dito: Amarás ao teu próximo e odiarás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus”. Como pode um cristão ler essa passagem, teoricamente do seu próprio Deus, e reclamar quando vê cartazes com os dizeres “Jesus ama Osama”? Não é isso que foi ensinado? Não era para os cristãos amarem Bin Laden? Ou devemos ignorar este trecho da mensagem “divina” e ficar com outros? Mas quem decide isso? Os próprios indivíduos? Com base em qual critério? Pois se a própria razão humana é capaz de criar um código de moral e ética – como eu acredito – então por que sequer atribuir caráter divino ao que outros humanos disseram? Não precisamos disso.

Jesus acrescenta no sermão um tom bastante crítico às riquezas também: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Ou então: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem guardam nos celeiros; e vosso Pai celestial as sustenta”. E mais adiante: “Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? Porque os pagãos é que se inquietam por essas coisas”. Algum leitor é cristão e não pagão? Essa mensagem não parece um consolo para os pobres, dando a entender ainda que suas necessidades mais básicas não precisam ser inquietantes, pois irão cair do céu? Depois reclamam quando dizem que a escolha da Igreja Católica é pela pobreza, e não pelos pobres. Como disse Roberto Campos: “O problema com o catolicismo brasileiro é que entende de menos o Mercado e reverencia demais o Estado. Seu desamor aos ricos excede seu amor aos pobres. Gosta de distribuir riquezas mas não se esforça por facilitar a criação delas”. Mas não estaria a Igreja apenas seguindo os mandamentos de Cristo?

Até mesmo o que se pode considerar a grande mensagem de Cristo, sobre amar os outros como a ti mesmo, não foi algo exclusivo de sua autoria. Uns cem anos antes dele, Publilius Syrus, um assírio que foi levado como escravo para a Itália, chegou a dizer que devemos esperar ser tratado pelos outros como temos tratado os outros. Uma mensagem que vai na mesma linha, pregando o respeito aos demais para poder ser tratado com respeito.

Se o tema é amargo e gera tanto ressentimento em alguns, para que tocar nele? Em minha opinião, a resposta é porque faz toda a diferença do mundo entendemos que os próprios humanos podem definir um código justo de conduta sem ter que apelar para alguma força sobrenatural. Não é preciso cair no relativismo moral onde qualquer coisa é igualmente válida, logo nada é válido como critério de justiça, ao negarmos uma autoridade divina em nosso código moral. Os homens são capazes de buscar aquilo que parece correto e justo, por conta própria e através de sua razão, como tem sido feito há milênios. Os conceitos foram evoluindo. A escravidão, que foi aceita mesmo durante tantos séculos depois de Cristo, inclusive com o aval da Igreja, é amplamente condenada hoje, por exemplo. Foram os próprios homens que chegaram à conclusão de que era totalmente injusto alguém não ter o direito sequer à propriedade do seu próprio corpo. Não é preciso um livro sagrado para tanto, tampouco alguma “revelação divina”.

O Sermão da Montanha pode ter mensagens bonitas e mensagens absurdas. Mas o importante é que, se não podemos tomar aquelas palavras como uma revelação do próprio Deus literalmente falando, será o próprio homem que terá que julgar. Logo, creio que podemos concluir que a moralidade de nossas ações independe da “divindade”. Os próprios humanos racionais é que deverão obter o código moral adequado para nossa vida neste planeta.

sábado, fevereiro 10, 2007

Liberais e Conservadores



Rodrigo Constantino

“The liberal today must more positively oppose some of the basic conceptions which most conservatives share with the socialists.” (Hayek)

Não são poucos os que confundem liberais e conservadores, colocando tudo no mesmo saco. Tamanha é a confusão, que Hayek, em seu clássico The Constitution of Liberty, acabou escrevendo um capítulo extra apenas para explicar porque não era um conservador, levantando as principais diferenças entre estes e os liberais – lembrando sempre que não se trata dos liberais americanos, mas sim dos clássicos.

Isso não o impediu de reconhecer o conservadorismo como legítimo e provavelmente necessário em oposição às mudanças drásticas. Tampouco impede que seja reconhecido o valor das tradições, ainda que estas sejam passadas de geração em geração sem argumento. As tradições são importantes para sustentar as leis e a liberdade, mas nem por isso devem ficar blindadas contra questionamentos. Liberais acreditam na liberdade de pensamento contra aqueles que pretendem impor crenças pela força. Creio que H. B. Acton resumiu bem a coisa quando disse que o tradicionalista quer poder seguir seus caminhos transmitidos, enquanto o liberal quer poder seguir novos caminhos também, sem coerção dos demais.

O liberal deveria perguntar, acima de tudo, para onde devemos nos mover, e não quão rápida deve ser a mudança. Hayek propõe um triângulo como diagrama para separar conservadores, liberais e socialistas, em vez de uma linha reta, que gera mais confusão. Em cada canto estaria um grupo diferente, o que parece mais correto do que colocar liberais no meio entre conservadores e socialistas.

A admiração dos conservadores pelo crescimento livre geralmente aplica-se somente ao passado. Falta-lhes normalmente a coragem para aceitar as mesmas mudanças não programadas pelas quais novas ferramentas para conquistas humanas irão emergir. Uma das características mais comuns na atitude conservadora é o medo da mudança, uma descrença no novo, enquanto a posição liberal é baseada na coragem e confiança, aceitando que as mudanças sigam seus cursos mesmo que não possamos prever aonde isso irá levar. Os conservadores estão inclinados a usar a força do governo para evitar mudanças, pois não possuem confiança nas forças espontâneas de ajuste que fazem o liberal aceitar as mudanças com menos apreensão, mesmo que não saiba ainda como as necessárias adaptações irão surgir. Como um exemplo que vem à cabeça, pode-se citar as pesquisas científicas com células-tronco.

O conservador sente-se seguro somente quando existe alguma forma de sabedoria superior que observa e supervisa a mudança, apenas quando ele sabe que alguma autoridade está a cargo de manter as mudanças “ordenadas”. Em geral, pode-se provavelmente dizer que o conservador não é contra a coerção em si ou o poder arbitrário, contanto que ele seja usado para aquilo que o conservador considera um propósito adequado. Ele acredita que se o governo estiver em mãos de homens decentes, então não é preciso ser muito reduzido por regras rígidas. Assim como o socialista, ele está menos preocupado com o problema de como se deve limitar o poder do governo do que com quem ocupa o poder. E ainda como o socialista, ele sente-se no direito de impor seus próprios valores aos demais pela força. Já para o liberal, a importância que ele pessoalmente deposita em objetivos específicos não é uma suficiente justificativa para forçar os outros a atender tais metas.

Seria por esta razão que o liberal não considera ideais morais ou religiosos como objetos adequados para a coerção, enquanto tanto os conservadores como os socialistas não reconhecem tais limites. Crenças morais que dizem respeito apenas à conduta individual que não interfere diretamente na esfera protegida das outras pessoas não justificam coerção. Pode-se pensar em alguns exemplos como a prostituição entre adultos responsáveis ou mesmo algo mais extremo, como a venda de um rim, que podem ser atitudes moralmente condenáveis para muitos, mas que impactam apenas as vidas dos envolvidos. O liberal, diferente do conservador e do socialista, não é autoritário. Isso pode explicar porque parece tão mais fácil para um socialista arrependido achar uma nova casa espiritual no conservadorismo que no liberalismo.

Diferente do liberalismo, cuja crença fundamental reside no poder de longo prazo das idéias, o conservadorismo está atrelado a um estoque de idéias herdadas num determinado momento. E como o conservador não acredita realmente no poder do argumento, seu último recurso é geralmente alegar uma sabedoria superior, baseada em alguma qualidade superior auto-arrogada. Hayek considera a característica mais condenável da atitude do conservador a propensão a rejeitar conhecimento bastante embasado porque ele não gosta de algumas das conseqüências que podem se seguir dali. Ora, se ficasse provado que nossas crenças morais realmente são dependentes de premissas que se mostram incorretas, seria moral defendê-las recusando-se a reconhecer os fatos?

O viés nacionalista é outro elo que freqüentemente liga conservadores ao coletivismo. Pensar em termos de “nossa” indústria ou “nosso” recurso natural é um pequeno passo de distância para começar a demandar que tais ativos nacionais sejam direcionados para o “interesse nacional”. Protecionismo, reservas de mercado, subsídios agrícolas, são algumas das medidas que podem colocar conservadores lado a lado com socialistas, ambos contra os liberais.

Por fim, Hayek escreveu algo que resume bem a diferença básica entre liberais e conservadores: “O liberal difere do conservador em sua disposição para encarar sua ignorância e admitir o quão pouco sabemos, sem alegar autoridade de fontes sobrenaturais de conhecimento onde sua razão falha”.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

O Ônus da Prova



Rodrigo Constantino

“A ignorância traz muito mais certezas que o conhecimento.” (Charles Darwin)

Os ateus e agnósticos costumam ser injustamente acusados de prepotentes. Os crentes afirmam que os ateus se acham os donos da verdade. Não poderia haver maior inversão! O ponto de partida de um ateu é justamente o reconhecimento da nossa ignorância, dos limites do nosso conhecimento. Há muito que o homem pode aprender sobre o mundo, principalmente utilizando sua principal ferramenta epistemológica, que é a razão. Foi raciocinando, e não rezando, que chegamos a tantos avanços tecnológicos e medicinais, ou mesmo às conquistas da liberdade. Mas há um limite onde nossos sentidos conseguem chegar. Além disso, resta um mar de desconhecimento.

O ateu consegue conviver com essa ignorância, com muitas dúvidas sobre o mundo, sobre as questões básicas que sempre mexeram com os homens. Como tudo começou, de onde viemos, para onde vamos, tais questões não têm resposta ainda, e o reconhecimento disso é que possibilita a eterna busca por mais conhecimento. Como disse Epíteto, “é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe”. Mas o crente religioso não suporta a dúvida. Ele não consegue apenas não saber. “A dúvida é tortura apenas para o crente, mas não para o homem que segue os resultados de sua própria investigação”, disse Humboldt. E então surgiram muitas religiões, oferecendo as respostas prontas, garantindo já saber sobre essas questões complexas. A prepotência, portanto, está justamente do outro lado, do lado dos que juram saber as respostas, pois estas teriam sido “reveladas”.

Muitos entendem que deus é uma palavra apenas para designar esse desconhecido, essa vastidão acima da nossa capacidade intelectual. Mas nesse caso, eu pegaria emprestada a frase de Frank Lloyd Wright, e diria que acredito em deus, mas soletro natureza. Não vejo porque dar outro nome então. Pois o outro nome, deus, vem carregado de outros conceitos, e gera muito mais confusão. Cada um terá sua idéia subjetiva do que venha a ser esse deus. O deus de Einstein, por exemplo, é muito parecido com o dos ateus, já que ele declarava não crer na imortalidade do indivíduo e considerava a ética uma preocupação exclusivamente humana, sem nenhuma autoridade super-humana acima. Não vejo mal algum nisso. Mas vejo riscos no deus antropomórfico que muitos homens criam e passam a acreditar. Um deus que observa os homens, que pune, que salva, enfim, no deus cristão ou no Alá dos muçulmanos. Essa crença em deus pode ser prepotente por afirmar saber as respostas, e ainda costuma ser intolerante, pois não admite competição e repudia qualquer outro deus.

Algumas perguntas delicadas são feitas pelos ateus, mas costumam ficar sem respostas objetivas por parte dos crentes. Se esse deus meio humanizado é onisciente, sabe de tudo, então ele tem que conhecer a dor e o sofrimento, para ter criado tais sentimentos. Mas como pode um ser perfeito conhecer a dor e o sofrimento? A perfeição pressupõe ainda a inércia, pois qualquer mudança, qualquer ação, irá levar inexoravelmente para uma situação pior. Como deus agiu então para criar o mundo? A ação é fruto do desconforto e da busca pela melhoria, e seres perfeitos não agem. Se o teísmo é vagamente definido como uma força superior, um ser misterioso cuja essência não podemos sequer entender, então deus seria um ateu. Ele não acredita numa força superior a ele mesmo, e seus próprios poderes, apesar de acima dos homens, seria natural para ele, e compreensíveis. Tudo seria “natural” pela sua perspectiva. É justamente o que defendem os ateus.

Muitos crentes ficam incomodados com isso tudo, e partem para a fuga mais conhecida: exigem que se prove então que deus não existe. Mas como se pode provar uma não existência? Se for uma fantasia, como será possível provar que ela é mesmo uma fantasia? A ciência busca refutar teorias, testando-as. As que suportam os testes empíricos, são consideradas válidas até que provem o contrário. Mas é impossível partir da necessidade de provar que algo não existe. Eu poderia afirmar que existe um gnomo vivendo em minha casa, e que ele é invisível e indetectável. Nenhum método que os homens conhecem seria capaz de provar a sua existência. Se eu pedisse para provarem que ele não existe, isso seria impossível. E creio que se eu insistisse muito em sua existência, era mais provável chamarem os homens de branco e me levarem para um hospício, depois de realizado um teste com o bafômetro. O ônus da prova deve estar com aqueles que afirmam sua existência, não o contrário.

Os ateus apenas não reconhecem as crenças subjetivas dos religiosos como prova da existência de um deus. Se alguém deseja que suas crenças sejam levadas a sério pelos demais, deve mostrá-las como algo mais que conceitos pessoais, que um estado da mente. Uma crença torna-se objetiva quando é justificada com razões que podem ser examinadas e avaliadas por outros. Caso contrário, não é nada mais do que uma visão pessoal das coisas, uma emoção do indivíduo que nada prova sobre o mundo externo.

Espero ter deixado mais claro que os ateus costumam ser mais humildes por aceitar a ignorância humana, enquanto os crentes assumem uma postura de prepotência e intolerância porque consideram que já sabem as respostas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O Túmulo do Fanatismo



Rodrigo Constantino

“A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil.” (Sêneca)

Muitos acham que religião não se discute, mas eu não concordo. Afinal, o tema é sagrado apenas para os que assim o consideram, e estes não têm o direito de exigir dos demais o mesmo tratamento de reverência. Acredito que a crença religiosa dogmática é a maior inimiga da liberdade, e por isso creio que o tema não só pode como deve ser debatido sob a luz da razão.

Foi o que fez Voltaire, o “Pai do Esclarecimento”, segundo Karl Popper. Em seu livro O Túmulo do Fanatismo, Voltaire liga uma metralhadora giratória, mas munida com sólidos argumentos, contra o fanatismo religioso. Trata-se de uma crítica dura, bastante pesada, que com certeza machuca qualquer crente. Aqui faço um breve resumo do que ele diz, e peço que aqueles não dispostos a questionar a própria fé sequer leiam o restante do artigo. Afinal, como dizia Carl Sagan, “não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar”.

Logo no começo, Voltaire afirma que “um homem que recebe sua religião sem exame não difere de um boi que atrelam”. Examinar, questionar, é um dever de qualquer um que respeita a razão. A diferença básica entre a ciência e a religião é essa: uma está aberta à crítica, implora para que você prove que ela está errada, enquanto a outra o condena se você tentar provar que ela está errada, mandando aceitar com fé e calar a boca. Duvidar já é pecado! Um abismo intransponível separa os dois métodos, as duas posturas.

As críticas embasadas de Voltaire foram focadas no Judaísmo e no Cristianismo, mas ele fala de forma geral, quando diz que “a desconfiança aumenta quando se percebe que o objetivo de todos aqueles que estão à frente das seitas é dominar e enriquecer quanto puderem, e que, desde os dairis do Japão até os bispos de Roma, a única preocupação foi erguer para um pontífice um trono fundado na miséria dos povos e muitas vezes cimentado com seu sangue”.

Mas centrando a mira no Cristianismo e no Judaísmo, Voltaire começa questionando se existiu mesmo um Moisés. O que se fala de sua vida seria tão fantástico como o encantador Merlin. Voltaire busca também a origem muito suspeita das histórias de Moisés, como ser salvo das águas num cesto, que poderiam ser cópias de contos muito semelhantes na Arábia. O resto todo de sua história seria igualmente absurda e bárbara, com dados fantásticos e impossíveis, exageros grosseiros etc. “Que lamentável fazer Deus descer em meio a raios e trovões, sobre uma pequena montanha calva, para ensinar que não se deve ser ladrão!”. Os judeus, de forma geral, não são poupados: “Como eles mesmos reconhecem, são um povo de ladrões que carregam para um deserto tudo o que roubaram dos egípcios”.

A vida do “bom” rei Davi é um exemplo do que Voltaire tem em mente. Tomou o trono de Isbaal, filho de Saul, mandou assassinar Meribaal, filho do seu protetor Jônatas, entregou aos gabaonitas dois filhos de Saul e cinco de seus netos para que fossem enforcados, assassinou Urias para encobrir seu adultério com Betsabéia. “A seqüência da história judaica não é mais que uma trama de crimes consagrados”, ele diz. Salomão, o sábio, começa por degolar seu irmão Adonias. Fora isso, teria setecentas mulheres e mais trezentas concubinas. Tais seriam os costumes do mais sábio dos judeus, ou como lembra Voltaire, ao menos os costumes que lhe atribuem com respeito rabinos e teólogos cristãos.

Para Voltaire, o primeiro profeta foi o primeiro embusteiro que encontrou um imbecil. O mundo esteve cheio de Nostradamus, e o Alcorão conta, segundo ele, duzentos e vinte e quatro mil profetas. As histórias dos vários “profetas” são estapafúrdias, uma mais extravagante que a outra. E várias contidas na Bíblia, como as histórias de Isaías que andava nu em pêlo no meio de Jerusalém, ou Jonas que teria passado três dias no ventre de uma baleia. Surgir alguém que transforme água em vinho no meio disso tudo parece algo bem compreensível, portanto.

Voltaire começa questionando a origem de Jesus, que nasceu numa época em que o fanatismo estava em alta. Vários que acreditaram nele escreveram Evangelhos, que quer dizer “boa nova” em grego. Cada um escrevia uma Vida de Jesus, todas discordando, mas parecidas na enorme quantidade de prodígios incríveis atribuídos ao fundador da nova seita. Num desses livros, diz-se que Jesus era filho de uma mulher chamada Mirja, casada em Belém com um pobre homem chamado Jocanam. Havia na vizinhança um soldado de nome José Panther, que teria se apaixonado por Mirja, que teria engravidado dele. Existe mais que isso na história, mas Voltaire conclui: “É mais provável que José Panther tenha feito um filho a Mirja do que um anjo tenha vindo pelos ares cumprimentar da parte de Deus a mulher de um carpinteiro”. De fato. E como não custa lembrar, Deus tinha irmãos homens, se Jesus era Deus.

Em seguida, Voltaire começa a relatar os “milagres” atribuídos a Jesus. Em um deles, Jesus manda o diabo para o corpo de dois mil porcos, numa região onde não havia porcos! Voltaire vai mostrando como a ignorância dos que inventavam essas fantasias entrega a própria falácia da coisa. Por fim, Jesus foi crucificado por ter chamado seus superiores de “raça de víboras”, o que era na época crime punido desta maneira. Foi executado em público, mas ressuscitou em segredo.

A quantidade enorme de Evangelhos que relatavam a fantástica vida de Jesus era repleta de contradições. Para Voltaire, esses Evangelhos, transmitidos para os pequenos rebanhos de cristãos, foram visivelmente forjados após a queda de Jerusalém. Um deles, atribuído a Mateus, fala em Igreja sendo que no tempo de Jesus sequer existia Igreja. Antes dos quatro Evangelhos famosos e aceitos hoje, os padres dos dois primeiros séculos quase sempre citavam os que são agora denominados apócrifos. Voltaire pergunta então: “Por que o mais escrupuloso dos cristãos ri hoje, sem qualquer remorso, de todos esses Evangelhos, de todos esses Atos, que não estão mais no cânon, e não ousa rir daqueles que são adotados pela Igreja?”. São mais ou menos os mesmos contos, mas “o fanático adora sob um nome o que lhe parece o cúmulo do ridículo sob outro”.

Está dito, em mais de um Evangelho, que Jesus enviou os apóstolos expressamente para expulsar os demônios. O próprio Jesus reconhece que os judeus tinham esse poder. Não havia nada mais fácil para o diabo do que entrar no corpo de um mendicante, que pagava para ser exorcizado. Curiosamente, os diabos jamais ousavam apoderar-se de um governador de província ou de um senador. Eram sempre os que nada possuíam que foram possuídos. As religiões são como pirilampos: só brilham na escuridão. Não é muito diferente do que vemos nas igrejas oportunistas que pululam os países mais miseráveis e com mais ignorantes. Mas o mesmo que ri do espetáculo embusteiro da Igreja Universal hoje, aceita com um respeito fanático o que lhe chega sobre Jesus, sequer tendo coragem de questionar algum dos fatos incríveis atribuídos a ele.

Todo Deus era bem vindo em Roma. As diferentes seitas conviviam entre si de forma mais ou menos pacífica. Nenhuma era louca o bastante para querer subjugar as outras. A seita cristã foi a única que, no final do segundo século, ousou dizer que queria a exclusão de todos os ritos do império, e que deveria esmagar todas as religiões. O seu Deus era um Deus ciumento. “Que bela definição do Ser dos Seres é imputar-lhe o mais covarde dos vícios!”.

Os cristãos foram com muito mais freqüência tolerados do que sujeitos a perseguições. O reinado de Diocleciano foi, durante 18 anos, um reino de paz e até de favores para eles. Prisca, mulher de Diocleciano, era cristã. Construíram templos soberbos, depois de terem dito que não eram precisos templos para Deus. A Igreja passava a ser opulenta e cheia de ostentação, com vasos de ouro e ornamentos deslumbrantes. Veio então Constantino, que fez-se reconhecer imperador no interior da Inglaterra por um pequeno exército de estrangeiros, ignorando Maxêncio, eleito pelo senado. Voltaire chama Constantino de tirano, pois seu direito era proveniente apenas da força, e por este ter mandado matar o próprio filho, Crispus, e sufocado a própria mulher, Fausta. Foi ele que convocou a assembléia em Nicéia para resolver o “assunto bem medíocre”, segundo o próprio, sobre a incompreensível Trindade cristã.

O concílio redigiu um formulário no qual o nome Trindade não é nem sequer pronunciado. Consta apenas um “cremos também no Espírito Santo”, sem maiores explicações. O mais divertido do concílio, no entanto, foi a decisão sobre alguns livros canônicos. Os Padres estavam confusos com a escolha entre os Evangelhos, e decidiu-se amontoar todos eles sobre um altar e rogar ao Espírito Santo que jogasse no chão todos aqueles que não fossem legítimos. Uma centena deles teria caído no chão. Um meio infalível de conhecer a verdade! Foi Constantino, através desse concílio, que tornou o Cristianismo a religião oficial do império romano.

A carnificina, os horrores, a ganância, as intrigas, os assassinatos, tudo que se seguiu pela Idade Média é conhecido pela história. Não é preciso sequer falar de Inquisição. Voltaire chegou a mostrar para padres essas atrocidades todas, e estes respondiam apenas que era uma boa árvore que produzira maus frutos. Voltaire rebatia que era uma blasfêmia afirmar que uma árvore que carregara tantos e tão horríveis venenos tivesse sido plantada pelas mãos do próprio Deus. “Na verdade, não existe nenhum padre que não deva corar e baixar os olhos diante de um homem honesto”.

Os horrores da religião, nem de perto, são monopólio da Igreja Romana. Esta ganhou em quantidade de crimes apenas porque teve riquezas e poder por mais tempo. Os horrores do Islã são amplamente conhecidos, e Maomé mesmo foi um guerreiro empedernido. Ainda hoje os fanáticos muçulmanos trazem o terror ao mundo civilizado. Alguns podem acusar o ateísmo pela barbárie recente do comunismo, mas eu diria que o comunismo não deixa de ser uma seita religiosa, calcado na fé dogmática e totalmente contra a razão e a tolerância, que pede o debate e o questionamento. Marx é o Jesus dos comunistas, e se a religião é o ópio do povo, o marxismo é a cocaína.

Benjamin Franklin teria dito que “o jeito de ver pela fé é fechar os olhos da razão”. De fato, os homens precisam exercitar mais a razão, e não aceitar dogmas de forma fanática e cega. Aquele que sequer aceita questionar sua fé, seus dogmas, sua crença e sua religião, perdeu a capacidade que o homem tem de raciocinar. Passa a ser um autômato que repete “verdades” reveladas, por mais absurdas que sejam. A humanidade ainda tem muito para avançar se enterrar de vez o fanatismo religioso, que tanta desgraça trouxe ao mundo.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

À Procura da Felicidade



Rodrigo Constantino

“I´m a great believer in luck, and I find the harder I work the more I have of it.” (Thomas Jefferson)

O filme À Procura da Felicidade, que conta a história de Chris Gardner, é simplesmente imperdível. Além da incrível e tocante interpretação de Will Smith, a mensagem do filme é excelente, e está em falta nesse país. Trata-se de um homem obstinado que luta para sobreviver e sustentar seu filho mesmo sob as mais árduas circunstâncias, sem que isso o faça ignorar os principais valores nem perder as esperanças. Gardner encontra-se nas mais desesperadas situações, sob constante pressão financeira, chegando a dormir no banheiro de uma estação de metrô e depois em abrigos. Nessa jornada angustiante, ainda é abandonado pela mulher, tendo que criar o filho sozinho. Mas nada disso o impede de manter o carinho e passar valiosas lições para seu filho, que depositara total confiança no pai. Os obstáculos parecem intransponíveis, mas a força de vontade de Gardner é ainda maior.

O filme retrata o “sonho americano”, onde o trabalho duro individual pode levar qualquer um longe na terra das oportunidades. Logo no começo do filme, aparece o então presidente Ronald Reagan fazendo um discurso na televisão, e não creio ser por acaso. Neste discurso, o presidente está culpando os excessivos gastos do governo pela situação delicada em que a economia do país se encontra. As reformas adotadas nesta época foram cruciais para resgatar o crescimento econômico do país. Menos intervenção estatal, mais iniciativa privada, uma receita infalível.

Em uma determinada cena do filme, quando Gardner jogava basquete com seu filho, uma preciosa lição de vida foi passada aos espectadores. O próprio pai fala para o filho desistir do sonho de ser um campeão algum dia, e ao perceber o desânimo do garoto, lhe dá uma bronca, explicando que ele não deve jamais deixar outros – inclusive o próprio pai – colocá-lo para baixo, repetir que ele não é capaz de algo. A inveja faz com que outros tentem diminuir as habilidades alheias, desestimulando qualquer um que pareça um pouco mais capaz em determinada tarefa. O pai afirma então que o filho nunca deve ligar para isso, para o que os outros falam dele, e que nada deverá ficar entre seus sonhos e a realização deles. Proteja seus sonhos sempre! A responsabilidade é individual, e isso vale ainda mais em um país onde muitos esperam passivamente soluções milagrosas através do governo.

A postura do próprio Chris Gardner enfatiza esse abismo que separa os eternos fracassados daqueles que chegam ao sucesso. Logo no começo do filme, Gardner avista um indivíduo saindo de uma Ferrari em frente a um prédio comercial. Todos à sua volta pareciam felizes. Ele pergunta ao desconhecido o que ele fazia para poder ter aquilo, e a resposta muda sua vida. O homem diz que era corretor de ações, e que para tanto bastava ser bom com números e com pessoas. Gardner coloca na sua mente então que chegará lá um dia, e parte para um processo obstinado de tentativa, superando os mais absurdos obstáculos. O grande diferencial que vejo é o fato dele olhar o sucesso alheio e admirá-lo, querendo buscar para si algo semelhante. Isso é oposto ao que vemos, infelizmente com boa freqüência, em pessoas invejando o sucesso alheio, e querendo destruí-lo ao invés de lutar para subir na vida por conta própria.

A Declaração da Independência americana é bastante citada no filme, assim como a frase que Thomas Jefferson inseriu sobre o direito de todos à procura da felicidade. A mensagem do filme é bela, é uma mensagem de esperança, de liberdade, de valores pessoais e integridade. Mesmo sob a situação mais desesperadora que se pode imaginar, Gardner jamais deixou para trás seus valores. Isso serve de lição para muitos sociólogos e intelectuais que forçam uma associação de causalidade entre a pobreza e a criminalidade, como se a pequena conta bancária automaticamente criasse bandidos. A integridade das pessoas não depende do saldo no banco. Fora isso, o filme desmonta a crença do Estado paternalista, que irá cuidar dos pobres. Pelo contrário, o governo aparece para tirar na marra e sem aviso o dinheiro que Gardner conseguiu juntar com a venda de scanners para médicos, alegando impostos atrasados. Foi a gota d’água que jogou Gardner na rua da amargura. Esse é um retrato da realidade. O governo, para dar algo, antes precisa tirar, e normalmente o fardo recai sobre os mais pobres.

Não deixem de assistir o filme. Em uma nação onde todos pensam somente no que o governo pode oferecer, onde a figura de “Che” Guevara ainda é enaltecida, e onde a iniciativa privada é vista como inimiga do povo, nada mais urgente que um relato de uma história verídica, de um sujeito que conhece bem de perto a completa miséria, e sai dela por conta própria, tornando-se um multimilionário. E lembrando ainda que o dinheiro aqui é apenas um subproduto, um indicador do sucesso que Gardner teve na vida. Pois seu valor mesmo, como homem íntegro que soube vencer barreiras inacreditáveis e educar seu filho sob tais circunstâncias, esse não pode ser mensurado pelos seus milhões de dólares.

domingo, fevereiro 04, 2007

A Doutrinação Ideológica do Itamaraty



Rodrigo Constantino

“Há um sentimento generalizado de que hoje os diplomatas são promovidos de acordo com sua afinidade política e ideológica, e não por competência.” (Roberto Abdenur)

Que o governo Lula ideologizou a política externa brasileira, qualquer um que tenha acompanhado os acontecimentos dos últimos anos sabe. Mas não deixa de ser importante a confissão e o testemunho de um insider, de um dos mais experientes diplomatas do quadro do Itamaraty. Por isso a relevância da entrevista concedida à revista Veja por Roberto Abdenur, que se aposenta depois de 44 anos de carreira, sendo seu último posto o de embaixador nos Estados Unidos.

Para o diplomata, as decisões do Itamaraty hoje têm sido pautadas pela miopia de um grupo de esquerdistas, cujo antiamericanismo infantil representa o denominador comum. As promoções internas têm como critério, segundo ele, a afinidade de pensamento, e não a competência. Em suas próprias palavras, “um processo de doutrinação assim no Itamaraty não aconteceu nem na ditadura”.

O elemento ideológico na política externa brasileira é visível a quaisquer olhos que ainda não tenham sido cegados pela ideologia. O eixo preponderante que o governo Lula tenta criar, aproximando-se dos países subdesenvolvidos do Sul, revela um antiamericanismo atrasado. Para qualquer pessoa que tenha um pouco de conhecimento da mentalidade de Samuel Pinheiro Guimarães, não há espanto algum nessa afirmação. Roberto prossegue: “Está havendo uma doutrinação. Diplomatas de categoria, não apenas jovens, são forçados a fazer certas leituras quando entram ou saem de Brasília. Livros que têm viés dessa postura ideológica. É uma coisa vexatória. O Itamaraty não é lugar para bedel.”

A trajetória do PT é autoritária do começo ao fim. Logo, também não é nenhuma surpresa a declaração do diplomata de que “há intolerância à pluralidade de opinião”. Esses líderes do partido e aliados próximos de Lula, que atualmente ocupam cargos da maior importância, nunca apreciaram muito a divergência de opinião e um debate honesto focado nos argumentos e nos fatos. Os dissidentes, pelo contrário, precisam ser calados. Não há espaço para quem pensa diferente, muito menos para quem ousa questionar os dogmas em público. Esse câncer que o governo petista tem contribuído a disseminar na política nacional afetou o Itamaraty também, que parecia blindado até então. O profissionalismo foi rasgado, o apartidarismo dos diplomatas foi solapado, e a tolerância foi destruída. Os embaixadores, pelo que consta, precisam estar totalmente alinhados com a força política do momento, servindo não aos interesses da nação, mas aos objetivos pérfidos e ideológicos de um grupo que adoraria transformar o Brasil em uma Venezuela.

A acusação do diplomata é direta: “A minha maior crítica está na dimensão exagerada dada à cooperação entre os países menos desenvolvidos como eixo básico da nossa diplomacia”. E conclui: “Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado”. Só é questionável nessa frase o termo “vagamente”, posto que a retórica dos que ditam o rumo da política externa nacional é completamente anticapitalista, antiglobalização e, principalmente, antiamericana. Sem falar dos dois pesos e duas medidas, já que o governo, através dos seus interlocutores de política externa, não hesita em acusar medidas tomadas por outros governos, especialmente quando se trata dos Estados Unidos, mas sempre alega isenção quando tem que comentar alguma atrocidade cometida pelos vizinhos amigos de ideologia. Se Bush faz algo que o governo brasileiro desaprova, a crítica é voraz. Se Chávez consegue destruir a democracia em seu país, isso é assunto interno deles, e como presente ainda vai um convite para participar do falido Mercosul. Seria cômico, não fosse trágico.

O que esperar de um partido que ajudou a criar o Foro de São Paulo ao lado do ditador Fidel Castro e de organizações revolucionárias criminosas como as FARC? O que mais espanta mesmo é o espanto que gera cada nova descoberta sobre a essência do governo Lula. Essa contaminação ideológica do Itamaraty terá seqüelas graves, e levará tempo para ser revertida. Isso sem falar das inúmeras oportunidades já perdidas por conta dessa política externa poluída pelo ranço esquerdista. Certas coisas nunca mudam e alguns povos nunca aprendem. Uma vez mais os inocentes são sacrificados no altar da ideologia.

sábado, fevereiro 03, 2007

A Opinião Pública e o Liberalismo



Rodrigo Constantino

“Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos.” (Sir Karl Popper)

Em 1954, Karl Popper proferiu uma conferência em Veneza, cujo tema era “a opinião pública à luz dos princípios do liberalismo”. Tal conferência encontra-se no livro Em Busca de um Mundo Melhor, de Popper. Aqui, pretendo fazer um breve resumo do que foi dito por este grande defensor da sociedade aberta.

Em primeiro lugar, Popper trata do mito da opinião pública, referindo-se ao mito clássico “vox populi, vox dei”, que atribui à voz do povo uma espécie de sabedoria divina, infalível. Ele lembra que o povo raras vezes fala uma só voz, devido à sua enorme pluralidade. Existem vários “homens comuns”, e mesmo o que eles decidem com unanimidade nem sempre é sábio. Contudo, Popper acredita existir um grão de verdade no mito, pois as pessoas simples são muitas vezes mais sábias do que os governantes, e, se não mais sabeis, “são freqüentemente guiadas por interesses melhores e mais generosos”.

A seguir, Popper levantou um conjunto de teses acerca dos fundamentos do liberalismo. O Estado seria um mal necessário, e seus poderes não podem ser multiplicados além da medida necessária. Mesmo num mundo com homens bons, ainda haveria homens mais fracos e mais fortes, e os mais fracos não teriam nenhum direito de ser tolerados pelos mais fortes sem um Estado que garantisse tal direito. Eles teriam que ser gratos pela bondade dos mais fortes em tolerá-los. Todos que consideram tal visão insatisfatória e crêem que qualquer um deve ter um direito de viver e uma reivindicação de ser protegido contra o poder dos fortes, reconhecerão a necessidade de um Estado que proteja o direito de todos. Entretanto, não é difícil mostrar que o próprio Estado é um perigo constante e nesse sentido um mal, mesmo que necessário. Afinal, para o Estado cumprir essa função necessária, ele deve ter mais poder do que qualquer indivíduo ou mesmo grupo de indivíduos. Tal concentração de poder sempre será perigosa para a liberdade.

Outro fundamento do liberalismo é a democracia. A diferença entre esta e um despotismo é, segundo Popper, que numa democracia é possível livrar-se do governo sem derramamento de sangue, enquanto num despotismo não. Como Popper defende para as ciências naturais o método de tentativa e erro, através da crítica racional, infere o mesmo para o modelo político, entendendo que através da democracia é, ao menos, viável derrubar um mau governante pacificamente. Mas Popper deixa claro que não devemos ser democratas porque a maioria sempre está certa, e sim porque as instituições democráticas, se enraizadas em tradições democráticas, “são de longe as menos nocivas que conhecemos”.

Popper atribui uma grande relevância às tradições também, pois meras instituições nunca são suficientes se não estão sustentadas por sólidas tradições. Instituições são sempre ambivalentes, podendo atuar segundo um propósito oposto ao que deveriam, caso não tenham o auxílio de uma tradição forte. O autor explica melhor: “Como todas as leis podem estabelecer apenas princípios universais, elas devem ser interpretadas para ser aplicadas; mas uma interpretação, por sua vez, precisa de certos princípios da prática cotidiana que só uma tradição viva pode desenvolver”. Popper considera que não há nada mais perigoso do que a destruição da moldura moral, que são justamente essas tradições mais importantes. Ela acaba levando a um niilismo cínico, “à desconsideração e dissolução de todos os valores humanos”.

Além disso, a liberdade de pensamento e livre discussão são valores últimos do liberalismo, que podem ser explicados por referência ao papel que desempenham na busca da verdade. Como a verdade não é manifesta, não cai do céu, tampouco é fácil de encontrar, é fundamental garantir tais princípios, para que a tenhamos a descoberta gradual de nossos próprios valores, através da tentativa e erro e da discussão crítica. O valor de uma discussão “depende amplamente da variedade das visões e opiniões que se enfrentam”, e o liberalismo põe sua esperança “não num consenso de convicções, mas na fertilização mútua das opiniões e em seu conseqüente desenvolvimento”. Nesse contexto é que a opinião pública pode representar um perigo para a liberdade. Pelo seu anonimato, a opinião pública “é um poder sem responsabilidade” e, por isso, especialmente perigosa. Ela pode tornar-se um poder despótico, e isso gera novamente a necessidade de proteção do indivíduo pelo Estado.

O resumo fica nas palavras do próprio autor: “A entidade vaga, mal compreendida, chamada ‘opinião pública’ é, com freqüência, mais esclarecida e sábia do que os governos; mas, sem as rédeas de uma forte tradição liberal, representa um perigo para a liberdade. A opinião pública jamais pode ser reconhecida como vox dei, como árbitro da verdade e da falsidade, mas às vezes é um juiz iluminado em questões de justiça e outros valores morais. É perigosa em questões de gosto. Infelizmente pode ser ‘elaborada’, ‘posta em cena’ e ‘planejada’. Podemos combater esses perigos apenas pelo fortalecimento das tradições do liberalismo; e qualquer um pode participar desse projeto.”

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O Ambientalista Crente



Rodrigo Constantino

“O método do conhecimento científico é o método crítico: o método da busca por erros e da eliminação de erros a serviço da busca da verdade, a serviço da verdade.” (Karl Popper)

Poucos temas atuais são tão dogmáticos como o aquecimento global. Que o planeta está experimentando um aumento na temperatura média, que a causa disso é a ação humana, e que o futuro é catastrófico se nada for feito pelos homens são “verdades” tão absolutas, pelo senso comum, que sequer merecem questionamento sério. Aquele que ousar fazer perguntas, demonstrando algum ceticismo, será logo tachado de herege, como muitos defensores da razão eram na Idade das Trevas, a era onde a superstição dominava o conhecimento racional.

Ocorre que o conhecimento objetivo, como bem nos lembra Karl Popper, evolui justamente pela crítica, pela tentativa de se refutar as teorias. O conhecimento é conjectural, “um ousado trabalho de adivinhar, mas se trata de um adivinhar disciplinado pela crítica racional”. E segundo Popper, “isso torna a luta contra o pensamento dogmático um dever”. Como as conclusões sobre o aquecimento global não parecem abertas às críticas, podemos concluir que se trata de um pensamento dogmático. É um dever lutar contra isso, portanto.

Aqui, não pretendo refutar cientificamente as principais teses dos alarmistas, até porque me falta capacidade para tanto, mas apenas estimular um maior questionamento sobre certas “verdades”, ou melhor, dogmas. Não custa lembrar o quanto os “especialistas” do passado já erraram sobre esses temas. Basta citar que na década de 1970, o pânico do momento era o esfriamento global. Podemos falar da SARS também, que iria dizimar boa parte da população mundial, tal como a peste negra no passado. Creio que podemos afirmar, com elevado grau de certeza, que os especialistas previram umas mil catástrofes das últimas dez. O exagero não é por acaso. Eles vivem disso, e se não há pânico incutido nas pessoas, não há muitas verbas para suas pesquisas.

No recente Fórum de Davos, um dos assuntos centrais foi justamente o aquecimento global. Muitos comemoraram, como se finalmente os economistas tivessem acordado para a relevância do assunto. Há, porém, uma interpretação alternativa: o mundo vive uma fase tão boa e rara de bonança, com forte crescimento econômico por anos seguidos, que as preocupações mais básicas e imediatas, como emprego e renda, cedem espaço para as elucubrações distantes. E um tom escatológico faz-se necessário, pois caso contrário, ninguém irá dar muita atenção – nem verbas. A tese malthusiana de fim do mundo sempre conquistou muitos adeptos, ainda que tenha sido refutada pela experiência.

Os ambientalistas pessimistas partem de um fato – o aumento na temperatura média do planeta – e concluem muitas coisas que não estão, nem de perto, provadas. Podemos estar diante de uma falácia conhecida como non sequitur, onde as premissas são verdadeiras, mas a conclusão não é derivada delas. Não há prova, e para muitos cientistas sequer evidências, de que é a ação humana que causa tal aumento da temperatura. Muitos cientistas renomados, mas ignorados pela mídia e público em geral, afirmam que a temperatura da Terra sempre oscilou, que já foi mais quente que a atual, e que tudo isso é normal. O diretor do Observatório Astronômico de São Petersburgo, Khabibullo Abdusamatov, afirma que a atividade do sol é que causa o aquecimento, e não o “efeito estufa”.

Ele não está sozinho nesse ceticismo. A lista é enorme, na verdade: Dr. Ian Clark, professor da Universidade de Ottawa; Dr. Daniel Schrag, de Harvard; Claude Allegre, um dos mais condecorados geofísicos franceses; Dr. Richard Lindzen, professor de ciências atmosféricas do MIT; Dr. Patrick Michaels da Universidade de Virginia: Dr. Fred Singer; Professor Bob Carter, geologista da James Cook University, Austrália; 85 cientistas e especialistas em climatologia, que assinaram a declaração de Leipzeg, a qual denominou os drásticos controles climáticos de "advertências doentes, sem o devido suporte científico"; 17.000 cientistas e líderes envolvidos em estudos climáticos, que assinaram a petição do Oregon Institute de ciências e medicina, cujo texto afirma a falta de evidência científica comprovando que os gases estufa causam o aquecimento global; e 4.000 cientistas e outros líderes ao redor do mundo, incluindo 70 ganhadores do Prêmio Nobel, que assinaram a Petição de Heidelberg, na qual se referem às teorias do aquecimento global relacionadas aos gases estufa como "teorias científicas altamente duvidosas”. E tem muito mais!

Curiosamente, quase ninguém parece interessado a escutar o que esses cientistas têm a dizer. Preferem focar a atenção toda em Al Gore, ignorando que ele é um político e que o uso do eco-terrorismo lhe rende muitos votos. Muitos aderem à religião verde por ideologia também. São socialistas que ficaram órfãos com a queda do muro em 1989, e precisam de algum substituto para atacar o capitalismo e o industrialismo. O ambientalismo vem bem a calhar, posto que prega a concentração de poderes no Estado e condena o capitalismo como grande responsável pelo aquecimento global. Estranho é ignorarem que as nações socialistas sempre foram infinitamente mais poluidoras. Os Estados Unidos, que reponde por cerca de 30% da economia global, tem uma participação semelhante na emissão total de gases. Mas a Rússia, por herança socialista, tem uma economia de apenas 1,5% da global, e emite algo como 17% do total de gases. Como podem pedir mais Estado para resolver o “problema” então? Não é por acaso que são jocosamente chamados de “melancias”: verdes por fora, mas vermelhos por dentro.

Muitos afirmam que “o seguro morreu de velho”, alegando que as conseqüências seriam insuportáveis se as previsões estiverem corretas. Há alguma lógica nisso, mas é preciso ter em mente que os recursos são escassos, e existe um claro trade-off aqui. Bilhões que migram para a causa ambientalista são bilhões que deixam de ir para outros projetos, que poderiam gerar empregos e riqueza. Quando um projeto vai para a gaveta por conta da barreira ambientalista, são empregos que deixam de ser gerados. Tudo isso deve ser levado em conta num debate mais racional e imparcial sobre o tema, deixando as paixões de lado.

Há muito mais o que ser dito sobre o tema, de extrema relevância. Poderíamos mostrar como os furacões e enchentes, agora atrelados ao capitalismo por esses ambientalistas, causaram mais estrago ainda no passado, ou então em países socialistas, como a China. Mas basta um furacão novo surgir que logo acusam o capitalismo. O rigor científico é deixado de lado quando o objetivo não é a busca da verdade, mas a alimentação da crença dogmática. Quando percebemos esse modus operandi em torno do assunto, fica mais fácil entender a celeuma e revolta que causou o livro O Ambientalista Cético, de Bjorn Lomborg, que havia sido inclusive do Greenpeace. Ele começou tentando provar muitos dos alardes, e concluiu que a maioria era pura ladainha. Crentes fanáticos não suportam essa atitude. A Inquisição é necessária para manter a fé cega. Infelizmente, estamos diante de um tipo que não pretende questionar, mas sim pregar seu dogma: o ambientalista crente.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

A Curva S



Rodrigo Constantino

"It is because every individual knows so little and, in particular, because we rarely know which of us knows best that we trust the independent and competitive efforts of many to induce the emergence of what we shall want when we see it." (Hayek)

Uma das coisas mais elementares ensinada nos cursos de administração e marketing é o formato comum da curva de vendas de um produto. Esta curva, em forma de S, diz basicamente que um produto passa por três grandes fases: a inovação, a massificação e a saturação. No primeiro momento, a empresa lança o produto ainda não testado pelo mercado, e as primeiras “cobaias” compram. Em seguida, caso o produto tenha boa aceitação, a empresa intensifica a produção, obtendo importantes ganhos de escala, que permitem uma forte redução nos preços, tornando o produto acessível ao grosso dos consumidores. Por fim, o produto já atingiu uma penetração tão grande que está saturado, dando espaço para substitutos mais modernos.

Não dá nem para listar a quantidade de produtos que experimentou essa trajetória. Basta citar alguns exemplos bastante óbvios, como o automóvel ou o computador. Na época da Ford e seu Modelo T, existiam literalmente centenas de empresas competindo por este novo mercado. Ninguém sabia ainda quais seriam os modelos vencedores. Apenas os mais ricos podiam se dar ao luxo de comprar um carro. Com o passar do tempo, e com os ganhos de escala, os preços foram caindo e as vendas explodindo. O carro era um produto popular então. O mesmo ocorreu com computadores. As antigas máquinas da IBM eram caríssimas, e poucos podiam pagar por ela. Ao decorrer dos anos, com avanços tecnológicos e ganhos de escala, milhões de usuários passaram a usufruir dos benefícios de um computador.

Isso tudo tem uma relevância enorme para o modelo econômico que deve ser adotado em um país. Em primeiro lugar, devemos entender que o processo de tentativa e erro é crucial para o progresso. O conhecimento é disperso, pulverizado na sociedade, limitado, e ninguém tem como saber a priori o que irá funcionar melhor, nem mesmo os desdobramentos das inovações. Os sonhos de voar dos irmãos Wright ou de Santos Dumont levaram ao avião, mas nem eles teriam como imaginar um Boeing 747 ou o novo Airbus gigante. As idéias têm conseqüências que nem seus próprios autores podem imaginar. Logo, o melhor meio de progredir é garantir a liberdade individual e a livre competição, para que o método de tentativa e erro vá filtrando o que funciona melhor, de acordo com as preferências dos próprios consumidores. Isso condena totalmente a alternativa de um planejamento central, feito por algum órgão de supostos “clarividentes”, que determinam o que será mais adequado ao povo.

Em segundo lugar, fica claro que os mais ricos exercem uma utilidade fundamental para os constantes avanços. Eles são as tais cobaias, que irão experimentar as inovações com preços ainda proibitivos, pela falta de escala. São eles que compram aparelhos de celular quando estes custam uma fortuna, e após ficar mais claro qual o produto mais competitivo e demandado, os produtores iniciam uma produção em massa, barateando o produto. Quando os ricos compram uma televisão de LCD, pagando milhares de dólares, estão testando as novas tecnologias disponíveis, fornecendo um importante feedback aos produtores, que passarão depois a produzir em grande escala o produto mais competitivo e demandado, tornando-o acessível ao restante dos consumidores. Logo, fica claro que a desigualdade material não é um problema em si, e que os mais ricos acabam atuando como cobaias das massas. Atualmente, qualquer família de classe média americana desfruta de um carro com segurança e conforto, um refrigerador, um computador, um microondas, enfim, de produtos que antes eram vistos como bens luxuosos para poucos.

Dito isso, fica fácil compreender porque tenho verdadeiros calafrios quando escuto governantes falando em planejamentos rígidos para o crescimento e o progresso, em “inclusão digital” e coisas do tipo. O melhor que o governo pode fazer para termos de fato isso tudo é sair do caminho, garantindo apenas a segurança contratual, a estabilidade das leis, as trocas voluntárias. Através da competição no livre mercado, as empresas, em busca do lucro, irão automaticamente testar sempre novos produtos. Nunca saberemos ex ante quais serão os bem sucedidos. São os próprios consumidores quem decidirão, através da livre escolha. Os mais ricos serão como cobaias, testando aqueles produtos que ainda são caros demais para os demais consumidores. E através da constante tentativa e erro, os melhores produtos serão filtrados, sobreviverão. E o progresso terá continuidade, beneficiando os milhões de consumidores, especialmente as massas, que poderão usufruir de produtos incríveis, que fariam qualquer rei da Idade Média morrer de inveja. Afinal, quantos nobres e senhores feudais tinham à sua disposição um ar condicionado?

terça-feira, janeiro 30, 2007

Diferenças Gritantes



Rodrigo Constantino

Analisar o mercado financeiro do Brasil e dos Estados Unidos por dentro é interessante para se concluir coisas importantes, e lamentar como nosso país está atrasado em termos gerais. Enquanto no Brasil ainda se tem a imagem de cassino da bolsa de valores, nos Estados Unidos este veículo é utilizado para a captação de recursos para inúmeras empresas, estimulando o empreendedorismo e a criação de riqueza e empregos. Fora isso, a divisão setorial dá um bom retrato do nosso atraso, mostrando como estamos distantes da era do capital intelectual.

Utilizei como fonte a Economática, incluindo sua própria definição setorial. Até a data de hoje, o valor de mercado das milhares de empresas americanas com o capital aberto chega a US$ 12 trilhões, enquanto as empresas brasileiras não chegam a US$ 700 bilhões. Em relação ao PIB, vemos que os Estados Unidos possuem um mercado de capitais bem mais desenvolvido. O maior setor, em ambos os países, é o de finanças e seguros. Tal setor tem um valor de mercado acima de US$ 3,3 trilhões nos Estados Unidos, e US$ 150 bilhões no Brasil. Ou seja, este setor é algo como 20 vezes maior nos Estados Unidos. Isso para não falar que lá existem centenas de bancos e seguradoras privadas, enquanto no Brasil são apenas poucas empresas, que cabem em uma mão, considerando ainda que uma dessas é o Banco do Brasil, que é estatal. Enquanto isso, os brasileiros ficam repetindo que banqueiros são ladrões e culpados pelos elevados juros. Os americanos sabem melhor o quão importante é este setor no século XXI.

O setor de comércio possui um valor de mercado acima de US$ 1 trilhão nos Estados Unidos, e conta com uma variedade incrível de empresas. No Brasil, este setor representa apenas 3% do valor total em bolsa, ou um terço da participação americana, e meia dúzia de empresas dominam a cena. Em contrapartida, o setor de energia elétrica no Brasil, predominantemente estatal, responde por 10% do valor total, contra apenas 3% nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, o setor de fundos tem um valor de mercado superior a US$ 350 bilhões, mais que o dobro do nosso setor de finanças e seguros. Na bolsa brasileira não existem representantes deste importante e crescente setor, cujos participantes são normalmente tachados de especuladores, com tom claramente pejorativo.

A velha economia tem mais peso relativo no Brasil. O setor de mineração, por exemplo, representa 12% do total no Brasil, com uma única empresa, a CVRD, respondendo por quase todo este valor. Nos Estados Unidos o mesmo setor tem apenas 3% do valor total das empresas. Com papel e celulose ocorre o mesmo, representando 3% no Brasil e apenas 1% nos Estados Unidos. Em petróleo e gás, o Brasil tem 16% do valor das empresas, contra 11% nos Estados Unidos. E há um enorme agravante aqui: a Petrobrás, uma empresa de controle estatal, responde sozinha por quase todo este valor, enquanto nos Estados Unidos existem dezenas de empresas privadas competindo. Mas só de mencionar a desejável privatização da Petrobrás alguém pode apanhar em nosso país, e com certeza será acusado de “entreguista”.

Uma das diferenças mais chocantes está no setor de química, que representa 15% do total americano contra somente 2% no Brasil. Para piorar a situação, a Braskem é o destaque brasileiro, enquanto nos Estados Unidos o grosso desse setor está nas mãos de laboratórios farmacêuticos. Enquanto no Brasil o falso dilema de “lucro ou vidas” é enaltecido, e a quebra de patentes é demandada e comemorada, nos Estados Unidos a busca pelos lucros é vista como um excelente meio de salvar vidas. Os laboratórios valem bilhões, lucram bilhões, e entregam em troca inúmeros remédios que reduzem o sofrimento das pessoas ou salvam suas vidas.

Por fim, a diferença mais gritante de todas está no setor de software, com um valor de cerca de US$ 1 trilhão nos Estados Unidos, com quase uma centena de empresas negociadas em bolsa, enquanto no Brasil este setor praticamente não existe. Em plena era do capital intelectual, o Brasil quer disputar os mercados mundiais com o petróleo de uma estatal. Enquanto isso, o valor de mercado da Google, sozinha, já é 50% maior que o da Petrobrás.

Não dá para negar que o mercado financeiro brasileiro tem avançado bastante, com melhoria na governança corporativa, com a abertura de capital de novas empresas em novos setores e com a maior participação dos investidores pessoa física, que começam a perceber que bolsa não é sinônimo de jogatina. Mas ainda temos muito para progredir. Não apenas no mercado financeiro, que é um reflexo da economia geral, mas na própria economia em si. O Brasil precisa se tornar um país com ambiente mais amigável aos negócios, com menos burocracia e impostos, com império das leis, com agências reguladoras independentes, com um Banco Central independente, com maior abertura comercial e com leis trabalhistas mais flexíveis. Em resumo, com menor interferência estatal na economia.

Dizem que o “caminho do meio” é sempre bom. Será que é mesmo desejável ser meio íntegro e meio desonesto, ou meio inteligente e meio burro? O Brasil precisa sair desse meio termo entre capitalismo e socialismo. A parte podre está prejudicando demais a parte boa. O Brasil precisa de reformas liberais, que tornem o país verdadeiramente capitalista. Aí sim, o mercado financeiro será um reflexo disso, com diversas empresas de diversos setores levantando capital mais barato para seus investimentos produtivos, gerando riqueza e empregos para a nação. Até lá, teremos que conviver com essas diferenças gritantes entre Brasil e Estados Unidos, usando o sucesso deles como bode expiatório para nossos males.