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segunda-feira, julho 22, 2013

O papa é pop

Fonte: Valor

Rodrigo Constantino

Vendo as imagens da chegada do papa Francisco no Rio e aquela multidão de fieis em busca de um simples toque no líder religioso, veio à mente o livro novo de Mario Vargas Llosa, A civilização do espetáculo. Para o Nobel de Literatura, vivemos na era em que tudo é transformado em espetáculo, em entretenimento. Até filosofia e religião.

Esse tipo de reação histriônica das pessoas não difere muito daquela dos fãs de um cantor de rock, ou de um jogador de futebol. O ídolo desperta fortes emoções, e só de estar perto dele ou conseguir um clique com a câmara do celular já provoca enorme satisfação. Como diz a música dos Engenheiros do Havaí, o papa é pop!

A visão que Vargas Llosa tem da religião em geral e do Cristianismo em particular é bem alinhada à minha. O escritor considera que somente uma pequena parcela das pessoas consegue conviver razoavelmente bem com a idéia de que nossa vida é finita e um tanto sem sentido, sem cair, com isso, em desespero existencial, em niilismo profundo. Diz Vargas Llosa:

Se esta vida é a única que temos, se não há nada depois dela e vamos nos extinguir para todo o sempre, por que não tentaríamos aproveitá-la da melhor maneira possível, ainda que isso significasse precipitar nossa própria ruína e semear ao nosso redor as vítimas de nossos instintos desbragados? Os homens se empenham em crer em Deus porque não confiam em si mesmos. E a história demonstra que não deixam de ter razão, pois até agora não demonstramos que somos confiáveis. 

Poucos seriam capazes, então, de levar vidas decentes mesmo sem crer na eternidade ou em uma punição pós-morte. Esta pode ser uma visão um tanto elitista, mas paciência: eu acredito nela. Minha experiência me diz que, de fato, poucos suportam este flerte com a falta de sentido sem surtar, sem aderir à melancolia. Esse seleto grupo, não necessariamente superior aos demais, encontra na filosofia, nas artes, na literatura, as "fugas" para esta ausência.

Já a maioria necessita desse Pai, dessa figura antropomórfica que irá fornecer o sentido da existência e de sua finitude, que é a morte. O tecido social e os valores morais, portanto, dependem em boa parte da religião. Ela atuaria como Ulisses ao amarrar as próprias mãos no mastro do barco, para não cair na tentação das sereias. Esta é a visão utilitarista da crença religiosa. Marx chamava de "ópio do povo", mas creio que possa ser algo menos pejorativo: um freio, um código moral positivo. Diz Vargas Llosa:

Pouquíssimos seres humanos são capazes de aceitar a idéia do "absurdo existencialista" de estarmos "lançados" aqui no mundo por obra de um acaso incompreensível, um acidente estelar, de nossa vida ser mera casualidade desprovida de ordem e coerência, de tudo o que ocorra ou deixe de ocorrer com ela depender exclusivamente de nossa conduta e vontade e da situação social e histórica em que nos achamos inseridos.

A imagem descrita por Camus em O mito de Sísifo, que leva quase todos ao desespero e à paralisia. Mas, se a religião é mesmo o ópio do povo, então o marxismo é o crack, com efeitos bem mais letais. E eis o ponto mais relevante: quando tentaram abolir as religiões na marra, o que veio em seu lugar não foi um progressismo com base na Razão (com R maiúsculo), e sim algo muito pior. O socialismo é a religião laica, e o estado passou a ser o Deus da modernidade. Progresso? Diz Vargas Llosa:

Foi um gravíssimo erro, repetido várias vezes ao longo da história, acreditar que o conhecimento, a ciência e a cultura iriam libertando progressivamente o homem das "superstições" da religião, até que, com o progresso, esta se tornasse inútil. A secularização não substituiu os deuses por idéias, saberes e convicções que desempenhassem suas funções. Deixou um vazio espiritual que os seres humanos preenchem como podem, às vezes com sucedâneos grotescos, com múltiplas formas de neurose, ou dando ouvidos ao chamado dessas seitas que, de planejamento minucioso de todos os instantes da vida física e espiritual, proporcionam equilíbrio e ordem àqueles que se sentem confusos, solitários e aturdidos no mundo de hoje.

Se essa linha de raciocínio estiver correta, talvez seja positivo o fato de alguém como o papa ainda atrair tanta gente, inclusive jovem, mesmo com esse clima de euforia típica dos ídolos pop. Ao menos se trata de uma liderança moral decente, que prega valores importantes, e não algum tipo de fuga imediata para a angústia, seja pelas drogas, seja pela ideologia utópica. Deixo com Vargas Llosa a conclusão:

[...] o certo é que essa moral laica só encarnou em grupos reduzidos. Ainda continua sendo realidade indiscutível o fato de que, para as grandes maiorias, é a religião a fonte primeira e maior dos princípios morais e cívicos que dão sustento à cultura democrática.

Acordo com o Papa

Rodrigo Constantino

O Papa está chegando no Brasil. Não se fala de outra coisa. Confesso ter até simpatia por Francisco I, um Papa que parece realmente humilde e disposto a mexer em vespeiros no Vaticano. Mas até o Papa comete seus deslizes...

Ricardo Noblat, em sua coluna de hoje no GLOBO, traz algumas passagens do Papa sobre diferentes assuntos. Não quero ensinar o Papa a rezar a missa. Quem sou eu?! Mas sobre economia, sim, acho que tenho uma ou outra palavrinha para agregar. O Papa diz:


Neoliberalismo. "A crise socioeconômica e o consequente aumento da pobreza têm suas origens em políticas inspiradas por formas de neoliberalismo, que consideram o lucro e as leis do marcado como parâmetros absolutos acima da dignidade das pessoas ou dos povos. (...)
Na predominante cultura neoliberal, o externo, o imediato, o visível, o rápido, o superficial: estes ocupam o primeiro lugar, e o real cede terreno às aparências".
Globalização. “A globalização que uniformiza é essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal, mas não é humana. Em última instância, é uma maneira de escravizar os povos. (...)
A globalização, como uma imposição unidirecional e uniforme de valores, práticas e bens, anda de mãos dadas com a imitação e a subordinação cultural, intelectual e espiritual".

Não, nobre Papa, a crise não é resultado do neoliberalismo, tampouco há essa dicotomia entre lucro e pessoas. Essa passagem, aliás, ficou parecendo do Noam Chomsky. A ganância desmedida pode ser um problema sim, mas isso não é fruto do "neoliberalismo", e sim de seres humanos sob qualquer modelo econômico. No socialismo, tal ganância é transformada em tirania da pior espécie.
Tampouco a crise foi resultado desse modelo. A crise foi resultado do excesso de intervencionismo do estado, do Banco Central praticando taxas de juros artificialmente baixas, da Casa Branca pressionando as empresas de hipoteca a emprestarem para os mais pobres em busca de votos, enfim, as impressões digitais do governo estão em todas as cenas do crime!


Globalização como instrumento liberal "imperialista"? Vossa Santidade, que isso? Parece até um marxista da Teologia da Libertação! A globalização não escraviza povo algum, ela liberta! Ela leva prosperidade, ampliação de alternativas para consumo ou estilo de vida, empregos e riqueza. Assim não, Papa...
Vamos combinar uma coisa? Eu não me meto nas questões católicas, mas o senhor evita dar pitaco em economia. Combinado? Temos um acordo?

terça-feira, março 27, 2012

Filmes de Páscoa

João Pereira Coutinho, Folha de SP

1. Brandon é um viciado. Não em drogas, não em bebida, nem sequer em pastilhas socialmente aceitáveis. O negócio dele é sexo.
O leitor sorriu com essa possibilidade: sexo é vício que não mata ninguém. E a ciência médica tem dúvidas sobre isso. "Dependência sexual" será uma compulsão patológica ou a melhor forma de aliviar a consciência da mulher traída?
Deixemos de lado essas discussões. Voltemos a Brandon. No início de "Shame", filme de Steve McQueen, ele está deitado sobre uma cama. Tronco despido. Pele branca. Rosto pálido, magro, seco. Lençóis muito azuis.
McQueen, o diretor, é também artista plástico. O plano não é inocente: uma evocação perfeita de um Cristo nas suas mortalhas, como os maneiristas o pintaram repetidamente. Aquele homem está morto. Difícil saber se haverá ressurreição.
Existe uma sequência do filme que exprime esse óbito -e peço desculpa aos leitores por revelá-la aqui (os interessados podem sempre saltar alguns parágrafos): acontece quando Brandon, o supremo predador sexual, não consegue ter relações com uma colega de escritório.
A sequência vale o filme porque é, no duplo sentido da expressão, um "turn off". Os dias de Brandon são o avesso desse fracasso: prostitutas, orgias, encontros casuais em bares -o homem é um garfo insaciável. Tão insaciável que a pornografia e a masturbação servem de aperitivo e sobremesa para os pratos principais.
Só que Brandon falha naquele prato. A razão é tão simples e trágica que qualquer admiração adolescente por ele morre ali, na cama: a moça era a única mulher com quem Brandon tivera uma sombra de envolvimento emocional.
Jantaram antes. Conversaram trivialidades. Beijaram-se, acariciaram-se. E, quando finalmente chegam aos finalmentes, há um olhar trocado entre os dois -um olhar de desejo, sim, mas sobretudo de vulnerabilidade- que acaba com o nosso garanhão.
Ele se afasta, cobre o rosto e sente vergonha, a vergonha de que fala o título. Não a vergonha de ter brochado -Brandon encarrega-se, logo a seguir, de contratar uma profissional para mostrar que ainda é homem.
Mas nós, testemunhas de tudo, sabemos que ele não é. E que a vergonha maior é esta mesma: a vergonha de ser incapaz de estabelecer com qualquer ser humano uma ligação substancial.
Essa incapacidade será amplificada pela irmã de Brandon, que chega a Nova York e instala-se no seu apartamento por uns dias. Sissy é o avesso do irmão: envolve-se muito, sente muito, magoa-se muito.
Brandon não gosta do estilo. Não por se preocupar com a irmã -isso é pedir muito para quem deixou atrofiar a linguagem básica da afeição. Mas porque a irmã devolve-lhe o reflexo da seu incomensurável vazio. "Você me encurrala", grita, na noite em que a expulsa do apartamento. Brandon precisa do seu espaço imaculadamente vazio.
"Shame" é um dos filmes do ano. Porque há muitos anos o cinema não mostrava, de forma tão sem piedade e adulta, a intransponível solidão de um homem.
2. Michael Fassbender, em "Shame", é um prodígio de representação dramática que Hollywood, na sua temporada de prêmios, não foi capaz de suportar. Mas existe um lugar "ex aequo" para Michel Piccoli em "Habemus Papam".
Sou espectador de Piccoli há vários anos e só ele me faria assistir a um filme de Manoel de Oliveira (no caso, "Vou Para Casa", em 2001).
Em "Habemus Papam", Piccoli é o cardeal Melville, eleito papa no conclave, que, na hora de apresentação aos fiéis, é acometido por um pânico paralisante.
Piccoli é magistral nessa combinação de medo, tristeza e doçura infantil. E o filme de Nanni Moretti, contrariamente ao que foi escrito na Europa, não é um ataque à igreja -ou, mais amplamente, ao cristianismo.
Arrisco mesmo dizer que, ao filmar a fragilidade de um homem sobre quem os seus pares (ou o Espírito Santo?) colocaram tão ciclópica tarefa, Moretti realizou uma obra cristã por excelência.
"Pai, por que me abandonaste?", teria suspirado Cristo nos momentos finais da sua agonia na cruz.
Se ao filho de Deus foi permitido um tal momento de fraqueza, por que não a um mero filho de homens?

segunda-feira, março 19, 2012

The Pope's Cuba Gamble

By MARY ANASTASIA O'GRADY, WSJ

Ignoring those who have suffered for their faith may win some favor for the Church, but it risks alienating the island's faithful.

With only a week to go until Pope Benedict XVI is scheduled to make the second papal visit to Cuba in 14 years, joyful anticipation ought to be buoying the island's Christians. But for those brave soldiers of Christ who have stood up against political repression, the prevailing mood is deep frustration.

For 53 years, Cuba's totalitarian regime has made life hell for the population. But Castro also has spared no expense in running a clever international propaganda campaign. Regime survival has depended on East German-style repression covered over by a smiley face for international consumption. It has worked, and Cuban human-rights defenders have suffered their indignities with little moral support from the outside world.

Cuban dissidents had hoped the pope's visit would help them expose the twisted jailors who run the island prison. So what are we to make of the fact that the pontiff will not be meeting with any of the island's Christian human-rights advocates? These communicants have endured unspeakable acts of state terror to be witnesses to the faith. They have earned papal recognition. Disappointment doesn't begin to describe their dashed hopes.

It's not that they haven't asked. They've begged. From Havana, former Cuban political prisoner Angel Moya put the dissident concerns this way: "The Cuban regime will try to manipulate the pontiff's presence in Cuba," he told the website "Pieces of the Island." "We are calling on the support of the international community and of our exiled brothers, so we, the outcast, the persecuted, are able to meet with Pope Benedict XVI and tell him what is really happening here on the island . . ."

Berta Soler — Mr. Moya's wife and the spokeswoman for the Ladies in White, who since 2003 have withstood beatings, arrests and harassment by the regime to attend Mass as a group and protest political imprisonments—has gone even further. She delivered, through the papal nuncio in Havana, a formal request from the Ladies to see the pope, "even for one minute."

Numerous other Christians on the island have made similar requests. From the U.S., Yale Prof. Carlos Eire wrote a powerful plea on behalf of the Ladies for National Review Online on March 5: "Like the Canaanite woman who cried out to Jesus, 'Lord, help me!' or the woman who touched the hem of Jesus's robe in hope of a cure, they are reaching out, full of faith, begging against all odds. In an island where everyone has been turned into a beggar, they beg for the rarest and most precious gift of all: your presence." Cuban Cardinal Jaime Ortega's office told the Ladies in White that the pope's schedule is too tight.

Some dissidents wonder whose side the cardinal is on. In recent years he was instrumental in helping the regime deport scores of political prisoners who had become a liability for the regime's image. Though he recently offered a Mass for ailing Venezuelan dictator Hugo Chávez, Ms. Soler's request for a Mass for deceased dissidents has gone unanswered.

The cardinal has said that the purpose of the trip is "a new evangelization" and of course spreading the gospel is the Lord's work. But it is hard to see how converts will be won if the pope snubs the marginalized and schmoozes with the powerful.

On Thursday, 13 Christians holed up inside Our Lady of Charity of Cobre church in Havana to demand that the pope hear their grievances against the regime were forcibly removed by police, reportedly at the request of Cardinal Ortega. Then on Friday the Vatican announced that if Fidel Castro wants to meet, "the pope will be available."

In case all this is not enough to destroy Cuban confidence in the pope as an ally, the government newspaper Granma said this in an editorial last week: "We are sure that His Holiness will affectionately treasure the memory of this Caribbean Island, which values his visit as a manifestation of trust and a renewed expression of the excellent and uninterrupted relations between the Holy See and Cuba."

All Cubans know that the "revolution" persecuted the faithful. They were sent before firing squads or to the dungeons, Catholic schools and churches were shuttered, and the island was declared an atheist paradise.

But now Fidel is reminding Cubans that relations were never broken with Rome and he is claiming that all the while he has gotten on fabulously with the pope. Will Pope Benedict, who is by no means a Castro sympathizer, allow the regime to get away with this?

Unless he has something up his sleeve, the visit may turn out to be a gross miscalculation. Cubans know that they are hostages in their own country. If the pope is perceived as going along with this big lie, it will only heighten the sense of betrayal toward Cardinal Ortega and it will do nothing to strengthen the Church in Cuba.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Só resta rezar, Merkel...


Angela Merkel pedindo uma ajudinha ao Papa para resolver a crise do euro. É, pelo visto só resta mesmo rezar, Merkel...