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segunda-feira, julho 22, 2013

O papa é pop

Fonte: Valor

Rodrigo Constantino

Vendo as imagens da chegada do papa Francisco no Rio e aquela multidão de fieis em busca de um simples toque no líder religioso, veio à mente o livro novo de Mario Vargas Llosa, A civilização do espetáculo. Para o Nobel de Literatura, vivemos na era em que tudo é transformado em espetáculo, em entretenimento. Até filosofia e religião.

Esse tipo de reação histriônica das pessoas não difere muito daquela dos fãs de um cantor de rock, ou de um jogador de futebol. O ídolo desperta fortes emoções, e só de estar perto dele ou conseguir um clique com a câmara do celular já provoca enorme satisfação. Como diz a música dos Engenheiros do Havaí, o papa é pop!

A visão que Vargas Llosa tem da religião em geral e do Cristianismo em particular é bem alinhada à minha. O escritor considera que somente uma pequena parcela das pessoas consegue conviver razoavelmente bem com a idéia de que nossa vida é finita e um tanto sem sentido, sem cair, com isso, em desespero existencial, em niilismo profundo. Diz Vargas Llosa:

Se esta vida é a única que temos, se não há nada depois dela e vamos nos extinguir para todo o sempre, por que não tentaríamos aproveitá-la da melhor maneira possível, ainda que isso significasse precipitar nossa própria ruína e semear ao nosso redor as vítimas de nossos instintos desbragados? Os homens se empenham em crer em Deus porque não confiam em si mesmos. E a história demonstra que não deixam de ter razão, pois até agora não demonstramos que somos confiáveis. 

Poucos seriam capazes, então, de levar vidas decentes mesmo sem crer na eternidade ou em uma punição pós-morte. Esta pode ser uma visão um tanto elitista, mas paciência: eu acredito nela. Minha experiência me diz que, de fato, poucos suportam este flerte com a falta de sentido sem surtar, sem aderir à melancolia. Esse seleto grupo, não necessariamente superior aos demais, encontra na filosofia, nas artes, na literatura, as "fugas" para esta ausência.

Já a maioria necessita desse Pai, dessa figura antropomórfica que irá fornecer o sentido da existência e de sua finitude, que é a morte. O tecido social e os valores morais, portanto, dependem em boa parte da religião. Ela atuaria como Ulisses ao amarrar as próprias mãos no mastro do barco, para não cair na tentação das sereias. Esta é a visão utilitarista da crença religiosa. Marx chamava de "ópio do povo", mas creio que possa ser algo menos pejorativo: um freio, um código moral positivo. Diz Vargas Llosa:

Pouquíssimos seres humanos são capazes de aceitar a idéia do "absurdo existencialista" de estarmos "lançados" aqui no mundo por obra de um acaso incompreensível, um acidente estelar, de nossa vida ser mera casualidade desprovida de ordem e coerência, de tudo o que ocorra ou deixe de ocorrer com ela depender exclusivamente de nossa conduta e vontade e da situação social e histórica em que nos achamos inseridos.

A imagem descrita por Camus em O mito de Sísifo, que leva quase todos ao desespero e à paralisia. Mas, se a religião é mesmo o ópio do povo, então o marxismo é o crack, com efeitos bem mais letais. E eis o ponto mais relevante: quando tentaram abolir as religiões na marra, o que veio em seu lugar não foi um progressismo com base na Razão (com R maiúsculo), e sim algo muito pior. O socialismo é a religião laica, e o estado passou a ser o Deus da modernidade. Progresso? Diz Vargas Llosa:

Foi um gravíssimo erro, repetido várias vezes ao longo da história, acreditar que o conhecimento, a ciência e a cultura iriam libertando progressivamente o homem das "superstições" da religião, até que, com o progresso, esta se tornasse inútil. A secularização não substituiu os deuses por idéias, saberes e convicções que desempenhassem suas funções. Deixou um vazio espiritual que os seres humanos preenchem como podem, às vezes com sucedâneos grotescos, com múltiplas formas de neurose, ou dando ouvidos ao chamado dessas seitas que, de planejamento minucioso de todos os instantes da vida física e espiritual, proporcionam equilíbrio e ordem àqueles que se sentem confusos, solitários e aturdidos no mundo de hoje.

Se essa linha de raciocínio estiver correta, talvez seja positivo o fato de alguém como o papa ainda atrair tanta gente, inclusive jovem, mesmo com esse clima de euforia típica dos ídolos pop. Ao menos se trata de uma liderança moral decente, que prega valores importantes, e não algum tipo de fuga imediata para a angústia, seja pelas drogas, seja pela ideologia utópica. Deixo com Vargas Llosa a conclusão:

[...] o certo é que essa moral laica só encarnou em grupos reduzidos. Ainda continua sendo realidade indiscutível o fato de que, para as grandes maiorias, é a religião a fonte primeira e maior dos princípios morais e cívicos que dão sustento à cultura democrática.

domingo, outubro 28, 2012

A religião do momento


Leandro Narloch, Folha de SP
CARO IRMÃO, você que está vivendo uma situação desesperadora, que se sente esgotado, estressado, sem saída, eis aqui um convite. Junte-se a nós, dê uma chance ao poder divino da política, venha descobrir que o Estado pode salvar a sua vida.
O jovem cheio de esperança, a senhora solitária que veio até aqui nos conhecer, tenham certeza que há um candidato olhando para vocês, um vereador proibindo alguma coisa na cidade, uma presidente com poder e sabedoria guiando o país.
É verdade, irmãos, que os últimos tempos não têm favorecido a crença no Estado. Há séculos pregamos que a educação, a saúde e o transporte público vão funcionar, e o que vemos são enfermeiras de postos de saúde injetando café com leite na veia de senhoras idosas.
Apesar disso, irmãos, o Estado nos pede que ignoremos esses problemas e perseveremos na fé -a fé de que um dia algum político nos conduzirá a um reino de paz e justiça social.
Irmãos, a mensagem mais importante a vocês é sobre dois graves riscos que nós corremos nas eleições deste domingo. O primeiro deles é que religiões influenciem a disputa para a chefia de nossos alvíssimos palácios. Isso é um absurdo, irmãos!
Religiões se baseiam em mundos imaginários, irmãos! Em ideias obscuras! Nós, ao contrário, lidamos com o mundo real! Com princípios científicos! Por exemplo, quando almejamos postos de saúde com a mesma qualidade dos melhores hospitais particulares, ou bancos estatais livres da influência de partidos: é a realidade, senhores! Nossos sonhos são perfeitamente realistas, irmãos!
A outra ameaça é eleger sacerdotes que não creem nos poderes do Estado. Gritem comigo: eles são hereges! Eles são demônios! Eles são neoliberais! Querem privatizar a Entidade Nacional do Reino Estatal! Precisamos atirá-los nos calabouços das derrotas eleitorais, irmãos!
Calma, senhora, não precisa jogar cheques e notas em nossos pés. Os sacerdotes fiscais já trataram de reter parte de seu salário e embutir nos preços do mercado a taxa de manutenção de nossas obras divinas. O valor está passando um pouco do dízimo -beira 40% de sua renda- mas acredite, minha senhora: todo ele é destinado ao bom caminho, à construção do paraíso escandinavo, ao poder infinito e sagrado do Estado.
Leandro Narloch jornalista e autor de "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" e coautor de "Guia Politicamente Incorreto da América Latina".

domingo, outubro 07, 2012

Aquém da razão

Ferreira Gullar, Folha de SP


Longe de mim o propósito de desconsiderar a crença religiosa das pessoas, muito embora não seja eu religioso. E não a desconsidero porque sei a importância que tem para elas. Se quisermos constatá-la, bastará observar que os últimos séculos, marcados pelo domínio da ciência e do pensamento objetivo, não lograram pôr fim à religiosidade dos povos que, em sua maioria, mantêm-se fiéis às suas convicções religiosas.
Haverá para isso várias explicações, mesmo porque são muitas as religiões que existem, algumas delas milenares, e cada uma com características específicas e modo próprio de explicar a existência e entender os valores espirituais. Creio, porém, que todas elas respondem a uma necessidade humana fundamental: dar sentido à existência.
E aí reside a explicação de sua sobrevivência, muito embora a cultura tenha mudado tanto e tenha o homem descoberto as leis que regem tanto a matéria inorgânica quanto as dos organismos vivos, tanto as leis do mundo infra-atômico quanto do macrocosmo.
Há, porém, algumas perguntas para as quais a ciência não tem resposta, como, por exemplo, por que existe algo em vez de nada? Teve o mundo começo ou ele sempre existiu? Que sentido tem a vida humana, se todos nós acabamos para sempre? No entanto, para quem acredita em Deus, todas essas perguntas estão respondidas. Ou sequer são formuladas.
No entanto, uma coisa é a consideração conceitual dessas questões e outra é como elas se colocam na realidade. Agora mesmo assistimos, no mundo islâmico, a sucessivas manifestações de fúria, como reação a um vídeo idiota, que ridiculariza o profeta Maomé.
É compreensível que as pessoas que professam o islamismo tenham se sentido agredidas e desrespeitadas no que mais prezam e cultuam. Não obstante, a tradução dessa indignação em atos de vandalismo --incêndio de embaixada, consulados, morte de pessoas-- parece exceder todos os limites razoáveis.
A verdade, porém, é que aconteceram e não se limitaram a um ou dois episódios incontroláveis. De fato, essa indignação furiosa se estendeu por várias semanas e por vários países. Mas por que o objetivo da fúria são embaixadas norte-americanas, se o vídeo não foi obra do governo dos Estados Unidos?
Parece impossível ter uma resposta única para essa pergunta. Uma coisa, porém, parece óbvia: o ressentimento de certas camadas islâmicas contra os norte-americanos. Isso é um fato, uma vez que o apoio dos Estados Unidos a Israel é visto como uma demonstração de hostilidade, não apenas ao povo palestino, como a toda a nação árabe muçulmana. Esse ódio aos ianques os levaria a admitir que o vídeo terá sido fruto de uma iniciativa governamental para desmoralizar o islamismo. Ninguém, com um mínimo de lucidez, acreditaria nisso. Tampouco justificaria a fúria e o número daqueles protestos.
A nosso ver, o que pode explicá-los é o fundamentalismo religioso que transforma uma indignação razoável numa fúria sagrada implacável, sem qualquer respeito pelo outro, desde que seja visto como antagonista a minha crença. Destruir e matar, se feito em nome de Deus, estaria certo.
Isso me faz lembrar uma afirmação de Bin Laden, pouco depois da destruição das Torres Gêmeas. O jornalista que o entrevistava, perguntou-lhe se não estava errado um atentado como aquele que matou milhares de inocentes, quando o Corão considera o assassinato de inocentes um grave pecado. A sua resposta foi: "Os inocentes que morreram eram os inocentes deles". Ou seja, segundo essa visão fundamentalista, basta não acreditar em Alá para ser culpado. Só que ali morreram, inclusive, muçulmanos.
Certamente, essa não é a opinião da maioria das pessoas que professam a religião islâmica e que, respeitando a opção religiosa, admitem a diversidade de crenças. Não são elas que vão para as ruas incendiar embaixadas e matar infiéis. Mas a religião, nesse particular, por lidar mais com a crença do que com a razão, pode ser campo propício à indignação sem limites.
Aqui no meu canto, sem nada que me proteja da bala perdida, não tenho dúvida de que avaliar os fatos com isenção e lucidez nos torna modestamente mais humanos.

sábado, abril 28, 2012

Decadência moral ou saudosismo idealizado?

Rodrigo Constantino

Em artigo na Folha hoje, a senadora Kátia Abreu culpa o crescente ateísmo pela crise que assola os Estados Unidos e a Europa. Segundo a senadora, a crise não é do capitalismo em si (o que concordo), mas sim de um capitalismo mais hedonista, materialista e ateu (o que discordo). Ao retirar Deus da história, diz ela, os valores morais se perderam e tudo entrou em decadência. Sem Deus, tudo é permitido!

Não creio que os dados empíricos corroboram com tal visão. A crise não seleciona de acordo com a fé. Ataca países de todos os tipos. Por outro lado, os países asiáticos seguem em melhor situação, e tampouco creio que seja por causa da fé em Deus (muito menos por causa do cristianismo). Não consta também que os muçulmanos, repletos de fé religiosa (até demais), naveguem em um mar de prosperidade.

Também questiono se há de fato este hedonismo todo nesse mundo moderno e mais laico, quando vejo tanta gente abraçando novas formas de fé na "imortalidade", postergando os prazeres do momento em nome de uma vida (qual vida?) sempre mais longa. As cruzadas anti-tabagistas e contra o açúcar e fritura ilustram bem isso. Tem muita gente com medo de viver o presente!

Mas o que eu gostaria de questionar aqui é se há mesmo uma decadência moral em curso, para começo de conversa. Sim, eu não posso negar que vejo certos valores em declínio, valores estes que eu respeito e admiro. Só que nem tudo é decadência moral. Os hábitos e costumes mudam, e muitas vezes temos dificuldade de adaptação. Quando tais mudanças ocorrem em ritmo muito acelerado, esta aceitação fica ainda mais difícil. Portanto, eu já colocaria em xeque a principal premissa da senadora (e de muitos conservadores): há mesmo este declínio moral ou estamos diante de novidades que incomodam, mas que não necessariamente vão tornar o mundo um lugar pior?

Nesse meu artigo, falo mais dessa questão dos "saudosistas". Acho que devemos tomar muito cuidado com este julgamento precipitado de que tudo vai de mal a pior com o mundo moderno. Creio que o cético David Hume, que não pode ser acusado de ingênuo e esperançoso, colocou o dedo na ferida quando disse: "O hábito de culpar o presente e admirar o passado está profundamente arraigado na natureza humana". Em seu novo livro "Civilization: The West and the Rest", Niall Ferguson arrisca uma boa explicação para este fenômeno tão comum, principalmente entre pessoas com mais idade. Ele afirma que a idéia de que estamos "fritos", que o declínio é inevitável, que as coisas só podem piorar, está altamente conectada à noção de mortalidade que temos. Como vamos degenerar enquanto indivíduos, então, de forma instintiva, nós sentimos que as civilizações em que vivemos devem seguir o mesmo destino.

Longe de mim apresentar um quadro muito esperançoso e otimista, ignorando os enormes riscos existentes e até mesmo os aspectos que considero degenerados de fato em nosso mundo atual. Mas eu iria com menos fervor neste diagnóstico e prognóstico. O crescimento da riqueza mundial pode representar simplesmente a ascensão de uma classe média, e comparar seus gostos (sempre medíocres por definição) com as preferências aristocráticas do passado é uma injustiça (Michel Teló x Mozart, por exemplo).

Não acho, portanto, que exista esse declínio moral todo e que ele se deve ao ateísmo. Até porque, como dizia Humboldt,  "A moralidade humana, até mesmo a mais elevada e substancial, não é de modo algum dependente da religião, ou necessariamente vinculada a ela". Eu concordo, e vejo isso no dia a dia. Pessoas com profunda fé espiritual que não são ícones de moralidade, e ateus ou agnósticos que se mostram pessoas rigorosamente corretas. O capitalismo depende mesmo da fé religiosa? Eu penso que não.

Por fim, e para ilustrar com um bom exemplo o alerta de Hume, segue uma constatação feita pelo jesuíta espanhol Baltasar Gracián, em "A Arte da Prudência". Detalhe: o livro foi escrito em 1647!

Muitos valores vieram a parecer antiquados: falar a verdade, manter a palavra. Os bons parecem pertencer aos velhos bons tempos, embora sejam sempre queridos. Se é que ainda há alguns, são raros, e nunca são imitados. Que triste época essa, quando a virtude é rara e a maldade está no cotidiano.  

Será que o mundo fica cada vez pior mesmo, ou será que são nossos olhos, nosso saudosismo de um passado idealizado, nossa insegurança diante das novidades, que criam esta imagem sombria do presente e futuro? Deixo com o leitor a resposta.

domingo, abril 22, 2012

Intolerância religiosa

Dráuzio Varella, Folha de SP

SOU ATEU e mereço o mesmo respeito que tenho pelos religiosos.

A humanidade inteira segue uma religião ou crê em algum ser ou fenômeno transcendental que dê sentido à existência. Os que não sentem necessidade de teorias para explicar a que viemos e para onde iremos são tão poucos que parecem extraterrestres.

Dono de um cérebro com capacidade de processamento de dados incomparável na escala animal, ao que tudo indica só o homem faz conjecturas sobre o destino depois da morte. A possibilidade de que a última batida do coração decrete o fim do espetáculo é aterradora. Do medo e do inconformismo gerado por ela, nasce a tendência a acreditar que somos eternos, caso único entre os seres vivos.

Todos os povos que deixaram registros manifestaram a crença de que sobreviveriam à decomposição de seus corpos. Para atender esse desejo, o imaginário humano criou uma infinidade de deuses e paraísos celestiais. Jamais faltaram, entretanto, mulheres e homens avessos a interferências mágicas em assuntos terrenos. Perseguidos e assassinados no passado, para eles a vida eterna não faz sentido.

Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.

Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quantas tragédias foram desencadeadas pela intolerância dos que não admitem princípios religiosos diferentes dos seus? Quantos acusados de hereges ou infiéis perderam a vida?

O ateu desperta a ira dos fanáticos, porque aceitá-lo como ser pensante obriga-os a questionar suas próprias convicções. Não é outra a razão que os fez apropriar-se indevidamente das melhores qualidades humanas e atribuir as demais às tentações do Diabo. Generosidade, solidariedade, compaixão e amor ao próximo constituem reserva de mercado dos tementes a Deus, embora em nome Dele sejam cometidas as piores atrocidades.

Os pastores milagreiros da TV que tomam dinheiro dos pobres são tolerados porque o fazem em nome de Cristo. O menino que explode com a bomba no supermercado desperta admiração entre seus pares porque obedeceria aos desígnios do Profeta. Fossem ateus, seriam considerados mensageiros de Satanás.

Ajudamos um estranho caído na rua, damos gorjetas em restaurantes aos quais nunca voltaremos e fazemos doações para crianças desconhecidas, não para agradar a Deus, mas porque cooperação mútua e altruísmo recíproco fazem parte do repertório comportamental não apenas do homem, mas de gorilas, hienas, leoas, formigas e muitos outros, como demonstraram os etologistas.

O fervor religioso é uma arma assustadora, sempre disposta a disparar contra os que pensam de modo diverso. Em vez de unir, ele divide a sociedade -quando não semeia o ódio que leva às perseguições e aos massacres.

Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão, preconceito que explica por que tantos fingem crer no que julgam absurdo.

Fui educado para respeitar as crenças de todos, por mais bizarras que a mim pareçam. Se a religião ajuda uma pessoa a enfrentar suas contradições existenciais, seja bem-vinda, desde que não a torne intolerante, autoritária ou violenta.

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

Comentário: Eu acho o Dráuzio Varella um chato de galocha, principalmente por causa de sua cruzada anti-tabagismo e por seu claro viés esquerdista. Mas o artigo é bom! Fosse ele realmente um sujeito tolerante, que não tentasse ele mesmo abraçar uma seita laica (socialismo) que monopoliza as virtudes, os fins nobres, tudo ficaria tão mais verdadeiro. Vejamos esse trecho, por exemplo: "Para o crente, os ateus são desprezíveis, desprovidos de princípios morais, materialistas, incapazes de um gesto de compaixão". Tenho certeza que é exatamente a postura do "crente" socialista quanto aos defensores do capitalismo liberal. O socialismo, não custa lembrar, muito se parece com uma seita religiosa, com profetas (Marx, Gramsci), promessa de paraíso (terrestre) e inimigos hereges e ímpios (os capitalistas). Resta ao Dráuzio Varella largar esta religião também...

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Sinais

Rodrigo Constantino

(O texto abaixo é o primeiro conto que o autor deste blog resolveu escrever, navegando por mares até então desconhecidos. Não se sabe se outros virão após esta estréia)

Ricardo abriu os olhos de repente. Ver ou não ver o relógio, eis a questão! Tomado por um intenso receio, ele já sabia não ter mais alternativa. Esticou a mão em meio à escuridão e puxou o relógio, colocando-o bem em frente aos seus olhos arregalados. 3:00. Não era 2:59, tampouco 3:01, mas sim 3:00, com uma precisão suíça. Tudo o que ele não desejava, ou achava que não desejava.

Subitamente, um forte calafrio tomou conta de seu corpo, da ponta dos pés até o último fio de cabelo. Estava suando frio. Ele não podia acreditar no que via. Em nítido desespero, cutucou com a delicadeza de um ogro sua mulher, Alissa, que dormia profundamente. Com brados apavorados, disse em sua voz rouca e trêmula:

- Acorda, Alissa! Acorda! Veja! São três em ponto! O que isso quer dizer? Será Ele? Caramba! Uma vida inteira de crenças puramente racionais colocada abaixo em um segundo! Não pode ser. Meu Deus!

- Calma, Ricardo! Você é muito bobo... fica calmo! Isso não é nada. Acontece. É pura coincidência. Seu relógio biológico foi programado para te despertar nesta hora. Deixa eu dormir que amanhã tenho que acordar cedo para trabalhar.

Mas a adrenalina já tinha consumido cada milímetro do corpo de Ricardo, totalmente retesado. Antes de ir dormir, na noite anterior, ele ainda tinha dito para Alissa, com ar jocoso:

- E se eu acordar às três horas em ponto? Isso vai ser claramente um sinal, um aviso.

Alissa bem que tinha alertado, com um toque de clarividência, que se isso acontecesse mesmo, tudo que ela queria era ser deixada em paz, dormindo. Mas isso já era pedir demais. Naquele momento, Ricardo soube a definição de medo, de uma forma que palavras não podem explicar.

Também, pudera: tudo conspirou contra o pobre coitado naquela noite! Parecia que os deuses tinham apenas sua existência em mente. Ele queria ler um livro leve, algum conto de humor de Tchékhov, algo que o fizesse relaxar para dormir melhor. Mas na minúscula travessia do escritório ao quarto, ele deparou com sua mulher e um filme instigante. Tratava-se de “O Exorcismo de Emily Rose”. Tinha que ser justo naquela noite! Com isso ele não contava.

De forma quase automática, sentou-se ao lado de Alissa e começou a acompanhar com interesse o filme. Ali, possivelmente, ele já sabia ter cometido um erro. Ou não seria um erro? Mas o fato é que não desgrudou mais os olhos da tela. E uma das partes que mais lhe chamou a atenção foi justamente quando o padre explicou o significado bíblico daquele horário, três horas da madrugada, que a sua advogada havia acordado ao som da gravação de uma suposta possessão de Emily. Era nada menos que a hora dos demônios, o inverso das três horas da tarde, um horário divino, quando Jesus teria sido morto. Neste horário, 3:00, os gatos costumam miar pois vêem os espíritos malignos.

Em qualquer outro dia, em qualquer outra hora, isso tudo teria sido motivo de piada para Ricardo. Ele sabia melhor! Já tinha lido Hume sobre as origens naturais das religiões, sabia com Popper que buscamos sempre confirmar nossas teorias em vez de refutá-las, conhecia com Nietzsche as motivações humanas, demasiado humanas por trás dos misticismos. Ou não sabia? Era justamente esta dúvida, novidade trazida bruscamente pela curiosa rede de coincidências daquela noite, que tanto o assustara. Pois tinha um detalhe extra: era noite de fortes ventos uivantes, prenúncio da tempestade que se aproximava. As portas de sua casa batiam como se uma mão invisível quisesse deliberadamente zombar de seu pavor. O assobio do vento forte remetia diretamente aos filmes de terror de sua infância. E justo naquela madrugada! Era acaso demais até para um ateu racional feito Ricardo!

Naquela madrugada, Ricardo foi salvo pelo Valium de sua mulher. A medicina poderia, uma vez mais, conter os arroubos místicos do ser humano. Mas a semente da dúvida já havia sido plantada na mente cética de Ricardo. Suas certezas davam lugar à angústia. E se aquilo foi um aviso? E se foi uma mensagem? Afinal, a racionalização serve justamente para encaixar os fatos em nossas teorias, mas nada pode mudar a imagem que os olhos remelentos de Ricardo captaram naquela madrugada: 3:00. Se ao menos fosse 2:59! Por que não 3:01? Mas não! Tinha que ser exatamente 3:00. Que baita relógio biológico esse, sendo que Ricardo sequer sabia que horas tinha se deitado para dormir. Um legítimo Hublot natural, só se for!

Desde então, quando Ricardo acorda no meio da madrugada, sente-se tentado a olhar o relógio, talvez em busca de um novo “sinal”, talvez para se convencer de que coincidências, por maiores que sejam, de fato existem. Mas na maioria das vezes, ele prefere simplesmente ignorar o relógio e tentar retomar o sono, pensando em outra coisa qualquer – quando isso é possível. Vai que ele olhe aquele maldito 3:00 novamente! Para que produzir “prova” contra si mesmo? Para que desafiar os demônios que hibernam em um canto esquecido de sua mente? Quem procura, acha! Afinal, já diz o famoso ditado: “No creo en las brujas, pero que las hay las hay”. Ainda que seja uma bruxa criada das profundezas de uma mente perturbada. Quem poderia realmente dizer?

O fato é que um ano depois desta fatídica noite, Ricardo vai dormir novamente com esta história na cabeça. Ele havia conversado sobre religião durante o dia, defendendo seu ateísmo publicamente e ridicularizando o poder das orações. Nada como o tempo para apagar aquelas lembranças do medo, do verdadeiro pavor que sentira naquela madrugada, desafiado pelo Desconhecido em suas mais sólidas crenças. Antes de dormir, ele pensa no horário mágico, e questiona qual seria sua reação se acordasse uma vez mais às três horas em ponto. Sorri e vai para a cama, razoavelmente relaxado.

Na madrugada, sua cadela de estimação, que sempre dorme no quarto do casal, começa a andar de um lado para o outro, fazendo um barulho irritante com suas patinhas sobre o piso de madeira, extremamente agitada. Ricardo acorda, abre os olhos e pensa se olha ou não a maldita hora. Afinal, seu suposto relógio biológico não pode controlar também as vontades de sua cachorrinha, pode? Olhar ou não olhar a hora, eis a questão! Há escolha? Ricardo tateia com a mão sua cabeceira, acha seu telefone, e clica no botão para ver o horário digital e luminoso. Lá estava estampado, bem diante de seus olhos incrédulos: 3:00.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Senhorita Christina

LUIZ FELIPE PONDÉ, Folha de SP

Há algumas semanas, eu escrevia sobre "exus" e sua "ciência das mulheres". Muitos leitores estranharam a conversa entre o niilista e uma entidade sobrenatural. Lamento dizer que também já conversei com (supostos) "extraterrestres".
Sempre nutri um interesse específico por almas penadas. Não por acaso, tornei-me, entre outras coisas, um estudioso de religião.
Para alguém como eu, dado a uma sensibilidade monotonamente cética, espanta como há 300 mil anos (desde o Paleolítico), mais ou menos, a humanidade crê em e vive cercada de seres sobrenaturais atormentados que nos atormentam.
As almas que padecem como se fossem vivas me encantam. Uma amiga minha costuma dizer que o mundo do além é pior do que este em que vivemos. Esta forma de crença em espíritos me apetece.
A forma segundo a qual, como apresenta o horroroso filme "Nosso Lar", espíritos desfilam seus modelitos batas hippies à la Roma antiga e suspiram ares de amor por toda a humanidade me entendia profundamente.
Portanto foi a agonia do sobrenatural, o possível desespero sem fim da alma humana nas suas variadas formas, desde o pecado original judaico-cristão até o abismo sem fundo de espíritos condenados às paixões humanas mais baixas e eternas (enfim, o mal na sua forma encarnada) o que me levou ao estudo das religiões, e não qualquer forma de fé em divindades ou ódio ideológico (comum em especialistas em religiões) contra as religiões.
Sou imune à dependência ou necessidade psicológica que caracterizam a maioria dos crentes. Tampouco partilho da falsa virtude intelectual que alimenta o orgulho infantil de muitos ateus.
Parece ter sido algo semelhante que levou o romeno Mircea Eliade (1907-1986) a se tornar um dos maiores historiadores da religião.
Eliade começou sua carreira escrevendo, junto com seu doutorado, sobre mística hindu, ficções de terror, e o título desta coluna tem a ver com uma boa notícia para quem aprecia a obra desse grande intelectual romeno.
A editora Tordesilhas acaba de publicar entre nós, numa edição muito bem-acabada, o romance gótico "Senhorita Christina", de 1936, de Mircea Eliade ("Domnisoara Christina", em romeno).
A edição traz um excelente posfácio analítico assinado por Sorin Alexandrescu (especialista em literatura romena e sobrinho de Mircea Eliade). Para Alexandrescu, Eliade descreve um mundo entre a carne, a morte e o diabo. E seu romance nos leva para esse mundo.
Senhorita Christina, a personagem principal do romance que carrega seu nome, é uma "strigoi".
"Strigoi", em romeno, significa um ser sobrenatural maldito, meio humano, meio monstro, um morto-vivo. O famoso vampiro é uma forma de "strigoi".
A cultura ancestral romena é saturada de narrativas de "strigoi".
O pessimismo na Romênia brota do solo dos Cárpatos e da Transilvânia. Vem junto com o leite materno. Basta lermos outros romenos ilustres da mesma geração de Eliade, como o filósofo Cioran e o dramaturgo Ionesco.
"Strigoi" são sedentos de sangue humano, assim como da vida dos mortais, que são consumidos por esses infelizes atormentados para quem o fardo maior é saber que a morte pode não ser um descanso.
Christina, uma mulher linda, sensual e rica, morta aos 20 anos por um amante, depois de uma vida devassa, atormenta a propriedade onde vivia e que, agora (quase 30 anos após sua morte), é habitada por sua irmã e duas filhas.
Igor, um pintor famoso, apaixonado por uma das sobrinhas da vampira Christina, se hospedará na propriedade. A infeliz vampira se apaixonará por ele e tentará desesperadamente seduzi-lo.
A obra foi considerada por muitos um livro pornográfico, devido às cenas eróticas entre a morta Christina e o pintor Igor.
Ao contrário do que se espera, Christina sofrerá como qualquer mulher apaixonada devorada pelo desejo erótico negado. Suas habilidades monstruosas emudecem diante do amor impossível pelo mortal Igor.
O livro é uma história de amor e desejo como maldição eterna, por isso é uma obra romântica que fala da alma sempre presa entre o corpo e o mal. Sem a esperança da morte, Christina sofrerá.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Saudades de Deus

LUIZ FELIPE PONDÉ, Folha de SP

Tem coisa mais monótona do que discutir sobre a existência ou não de Deus? Ninguém crê em Deus "por razões lógicas". Isso é papo furado. Ninguém "decide" ter fé.
Tentar provar que Deus existe porque ele seria "uma necessidade da razão" me parece um engodo.
Primeiro porque a razão é risível em suas necessidades, como diria o cético Michel de Montaigne (século 16). A pergunta pela origem de tudo que existe (como numa espécie de aristotelismo aguado) não prova nada. Temos inúmeras necessidades que não são autoevidentes -por exemplo, que o bem deva vencer ao final das coisas.
Muitas vezes o mal vence e pronto. Quase sempre. Por outro lado, é interessante se pensar de onde veio a matéria que explodiu um dia e o lugar onde ela explodiu.
Mas isso nada prova acerca do Deus ocidental. O princípio pode ser uma mecânica estúpida.
Aliás, o chamado "argument from evil" (argumento a partir do mal) do ateísmo é famoso. Autores grandes como Dostoiévski e Kafka, entre outros, já o frequentaram de forma brilhante.
O argumento basicamente é o seguinte: se Deus é bom, por que o mundo é mau? Alguns já chegaram a supor que Deus seria mesmo mau, como o próprio Kafka.
Duas questões são importantes apontar nesse debate, uma com relação aos crentes, outra aos ateus.
Primeiro os crentes. Uma falácia comum por parte dos crentes é supor que seria impossível você ser uma pessoa razoavelmente moral sem alguma forma de religião. A história prova que ateus e crentes dividem o mesmo lote de miséria moral. Pouco importa ser ou não crente.
Pessoalmente, acho que o acaso decide: o temperamento (o acaso de você ter nascido "assim ou assado") é quase sempre o juiz do comportamento humano e não "valores" religiosos ou éticos seculares (não religiosos).
Portanto, a tentativa de afirmar que, se você é ateu você necessariamente não é "bom", é pura falácia. Tampouco penso que uma religião faça falta para todas as pessoas. Muita gente vive sem crise sem acreditar em coisa nenhuma "do outro mundo". Isso não significa que ela seja sempre feliz (tampouco os religiosos o são), a (in)felicidade depende de inúmeros fatores.
E mais: "crer ou não crer" não é algo que você escolhe, "acontece". Grandes teólogos como Santo Agostinho, Lutero e Calvino diziam que a "fé é uma graça" (simplificando a coisa), alguns receberam o dom e outros não (portanto, ela "acontece", como eu dizia acima, não é você quem escolhe ter ou não). Acho essa ideia bem mais elegante do que esse papo furado acerca das necessidades racionais, sociais, morais ou psíquicas da crença.
Quanto aos ateus, acho risível a ideia de que o ateísmo seja uma "conquista" da razão ou de alguma forma de rigor moral ou "coragem cosmológica".
Nada disso, como já disse antes, e repito, até golfinhos conseguem ser ateus em sua maravilhosa vida aquática. Fiquei ateu quando tinha oito anos.
O ateísmo me parece, entre todas as hipóteses sobre o universo, a mais fácil, simples, rápida e quase "fast food theory" (teoria fast food).
Não precisamos nos esforçar muito para perceber que podemos talvez um dia descobrir a causa "natural" do universo, ou acabarmos como espécie antes de descobrir qualquer coisa. E "who cares" se sumirmos um dia?
E mais: é quase evidente que somos uma raça abandonada na face da Terra e a indiferença dos elementos naturais para conosco (sejam eles externos ou internos ao nosso corpo) salta aos olhos.
E mais: a possibilidade de estarmos sozinhos é sempre mais fácil do que acompanhados por um ser maravilhoso, dono do universo e que sabe cada fio do cabelo que você tem na cabeça.
Não há nenhuma evidencia definitiva de que Deus ou que qualquer outra entidade divina exista. O ônus da prova é de quem crê. Além do fato de que os japoneses, caras bem inteligentes, não creem em Jesus na maioria das vezes.
Acho Deus uma hipótese acerca da origem das coisas mais elegante do que a dos golfinhos. Mas, por outro lado, a ideia de que um dia o pó tomou consciência de si mesmo e constatou sua dolorosa solidão cósmica é bela como uma ópera.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Outro golpe de Dawkins nas religiões


Por Neville Hawcock | Do Financial Times

"Mostre-me a criança e lhe darei o homem", diz a máxima jesuíta. Isso se Richard Dawkins não chegar lá primeiro. O novo livro do ateu-mor, "The Magic of Reality", é elaborado para imunizar de uma vez por todas mentes tenras contra o sobrenatural e seus apologistas.

Na verdade, não só mentes tenras. Embora destinado a crianças de 10 anos para cima, o texto é persuasivo em qualquer idade. Afinal, Dawkins é um popularizador e um proselitista; seu argumento, magnificamente complementado aqui pelas ilustrações ricas de Dave McKean, possui uma clareza maravilhosa.

Ele começa definindo seus termos. "Realidade" é tudo o que pode ser compreendido diretamente por nossos cinco sentidos ou indiretamente por instrumentos e modelos científicos. (As emoções, que podem parecer excluídas por essa definição, também são parte da realidade, dependendo para sua existência de "cérebros... ou algo equivalente a cérebros".) A "mágica" cai em três categorias: mágica sobrenatural, as bobagens dos contos de fadas e mitos (muito ruim, manuseie com cuidado); a mágica de palco, à la "Penn and Teller" (que na maioria das vezes tem uma certa graça); e a mágica poética, quando a natureza nos toca (muito bom, mergulhe nessa).

O propósito de Richard Dawkins é demonstrar que o mundo real, entendido cientificamente, está embebido do tipo de mágica mencionada neste último tópico. "Comparados com a beleza e mágica do mundo real, a magia sobrenatural e os truques de palco parecem baratos e de mau gosto", escreve.

Cada capítulo subsequente consiste de duas partes. Uma abertura curta pergunta, por exemplo, "O que é o sol?", e Dawkins percorre rapidamente vários mitos antigos, sobre Huitzilopochtli [que pode ser traduzido como "Beija-Flor Azul" ou "Beija-Flor Canhoto", que era o deus asteca do Estado e da guerra], Hélio e o "deus tribal de YHWH" [Jeová]

Esses deuses de palha, invocados para ser destruídos por Dawkins, não estão à altura da tarefa de explicar a realidade, mas pelo menos proporcionam ao ilustrador McKean um grande tema. (A divindade tem as melhores ilustrações?) Em seguida, a maior parte do capítulo lida com a questão "O que é o sol de fato?" e Dawkins faz suas exposições.

E ele é muito bom nisso. O capítulo sobre arco-íris apresenta a explicação mais clara, entre todas as que já vi, sobre como eles aparecem, enquanto em "Quem foi, de fato, a primeira pessoa?" faz um enorme uso de uma vasta linha de instantâneos sobre cada um de nossos ancestrais: tudo parece bem com seus bisavós de 4 mil anos; mas com seus bisavós de 50 mil anos, não; e com seus bisavós de 185 milhões de anos - bem, vamos dizer que há algo estranho com ele.

Os dois últimos capítulos tratam mais diretamente das preocupações com as religiões organizadas. "Por que coisas ruins acontecem?" conclui que elas simplesmente acontecem, especialmente quando você é parte de uma cadeia alimentar. Os milagres também não merecem muita consideração. Dawkins elabora o argumento de Hume de que você deve apenas acreditar em relatos de milagres quando a probabilidade de eles realmente terem acontecido é maior que a probabilidade de alguma informação estar sendo transmitida de maneira errada - uma condição que nunca se alcança.

"A verdade", conclui Dawkins na última página, "é mais mágica - no melhor e mais instigante sentido da palavra - do que qualquer mito ou mistério ou milagre fabricados". Ou, conforme Cristo (também conhecido como "um pregador judeu errante chamado Jesus") disse: "A verdade o libertará". (Tradução de Mario Zamarian)

sexta-feira, setembro 23, 2011

O país dos feriados

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Lendo os jornais hoje para escolher um tema para este comentário, a lista de opções pareceu vasta: o agravamento da crise mundial com a queda abrupta dos mercados acionários; a “comissão da verdade” que busca revanchismo ideológico e não a verdade histórica; o discurso repleto de clichês da presidente Dilma na ONU; a questão Israel x Palestina que está na ordem do dia; o descaso dos hospitais públicos enquanto o governo demanda mais recursos para o setor. Todos eles assuntos sérios, que merecem comentários.

Mas fiquei com uma alternativa mais suave, talvez por ser sexta-feira. O editorial do jornal O Globo fala sobre a Lei Geral da Copa, que foi enviada pelo governo federal para o Congresso. Entre as providências para o país receber milhares de pessoas de forma razoavelmente organizada, consta a possibilidade de a União, o Distrito Federal, estados e municípios decretarem feriado nos dias de jogos. Como diz o editorial, a medida causa apreensão, pois sinaliza o “reconhecimento prévio de inaptidão do poder público, notadamente o governo federal, diante de um compromisso assumido com a sociedade”.

Este compromisso, vale lembrar, seria “aproveitar a chance histórica de utilizar o fantástico aporte de recursos no país, carreados pelo Mundial, para enfrentar com ações duradouras demandas urbanísticas e administrativas”. Claro que, em se tratando de Brasil, isso era apenas sonho. Eis o que teremos, na verdade: obras tocadas em cima da hora, com pouco escrutínio e muito roubo; elefantes brancos que ficarão sem grande utilidade após os eventos; e uma pesada conta pública para ser paga pelos “contribuintes”.

Ah sim, já ia me esquecendo: e teremos também os feriados, que o povo adora! Ao ler o editorial, pensei imediatamente em Nelson Rodrigues. O dramaturgo dizia que “o brasileiro é um feriado, temos alma de feriado”. E quem pode negar? Brasileiro gosta mesmo é disso: samba, futebol, domingão do Faustão e praia. Pelo brasileiro típico, o ano teria uns cem feriados! E não faltaria um economista keynesiano, com PhD e tudo, para afirmar que isso gera riqueza, pois estimula o comércio dos shoppings.

Era apenas esta a mensagem de hoje: o brasileiro é um feriado. E fico por aqui, pois milhares de brasileiros estão eufóricos com a abertura hoje a tarde do Rock in Rio, que tem de tudo, até mesmo um pouquinho de rock. Segundo Roberto Medina, organizador do evento, o público pode ficar tranqüilo, pois não deve chover. Quem afirma é o cacique Cobra Coral, que presta serviços até para a Prefeitura. O que me remete a Nelson Rodrigues novamente, para finalizar. Ele também dizia que o brasileiro é um povo extremamente religioso. Tão religioso que é capaz de manter umas cinco religiões simultâneas.

Façamos então uma macumba e uma reza para que o feriado nos dias de jogos seja aprovado, sem chuva graças às danças do cacique, e tudo com muito samba, se Deus quiser! Amém.