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quinta-feira, julho 18, 2013

A barbárie do espetáculo

Rodrigo Constantino

É difícil ver a infeliz capa da "Rolling Stone" e não pensar no livro que acabei de ler de Mario Vargas Llosa, A civilização do espetáculo. Escrevi aqui sobre esse pessimismo mais "conservador" do Prêmio Nobel de Literatura. 

O fato é que ele pode ter até exagerado na dose, mas não errou na direção. Vivemos tempos estranhos, em que tudo parece voltado ao espetáculo, ao entretenimento light, até mesmo uma desgraça desse calibre, como a ocorrida em Boston.

O que a revista fez foi ajudar a glamourizar um terrorista, a tratá-lo como celebridade cool, influenciando negativamente os jovens leitores. Como alertou Andy Warhol, todos terão seus 15 minutos de fama. O lamentável é constatar que alguns conseguem buscar isso com a desgraça alheia. Diz a reportagem no G1:

A revista americana "Rolling Stone", especializada em música, cinema e televisão, apresenta na capa da mais recente edição o jovem Dzhokhar Tsarnaev, acusado dos atentados da maratona de Boston de abril, o que gerou uma avalanche de críticas.

Com o olhar melancólico, o cabelo caindo sobre os olhos e barba por fazer, Tsarnaev parece pensativo na fotografia, que não teve a data revelada. Ele usa uma camisa branca e aparece contra uma parede, também branca.

Os apresentadores do "Today Show", o programa matutino do canal NBC, afirmaram que o jovem tinha um ar de Jim Morrison, o cantor do grupo The Doors que a revista colocou na capa em 1991, no aniversário de 20 anos da morte do astro.

A imagem ilustra a principal reportagem da revista, que é quinzenal, na qual a jornalista Janet Reitman descreve Dzhokhar Tsarnaev como um "estudante brilhante e promissor, rejeitado pela família, que cedeu ao islamismo radical e virou um monstro".

Mas a foto, que dá um ar idealista a Tsarnaev, provocou uma avalanche de críticas em um país que ainda está traumatizado com os ataques de Boston.

O texto pode tratá-lo como "monstro", mas a imagem é de uma celebridade. E sabemos que a imagem vale mais hoje em dia, mais do que nunca. É triste ver essa espetaculização do terror. Creio que vivemos na era da barbárie do espetáculo. 

sábado, julho 13, 2013

Assange, por Vargas Llosa

O público e o privado *

A revolução audiovisual de nosso tempo derrubou as barreiras que a censura opunha à livre informação e à discordância crítica, e, graças a isso, os regimes autoritários têm muito menos possibilidade do que no passado de manter seus povos na ignorância e de manipular a opinião pública. Isso, evidentemente, constitui um grande progresso para a cultura da liberdade e devemos aproveitá-lo. Mas daí a concluir que a prodigiosa transformação das comunicações, representada pela internet, autoriza os internautas a saberem de tudo e a divulgarem tudo o que ocorre sob o sol (ou sob a lua), fazendo desaparecer de uma vez por todas a demarcação entre o público e o privado, há um abismo que, se abolido, poderia significar não uma façanha libertária, mas pura e simplesmente um liberticídio que, além de minar as bases da democracia, infligiria duro golpe na civilização.

Nenhuma democracia poderia funcionar se desaparecesse a confidencialidade das comunicações entre funcionários e autoridades, e nenhuma forma de política nos campos da diplomacia, da defesa, da segurança, da ordem pública e até da economia teria consistência se os processos que determinam essas políticas fossem expostos totalmente ao público em todas as suas instâncias. O resultado de semelhante exibicionismo informativo seria a paralisia das instituições, tornando mais fácil para as organizações antidemocráticas travar e anular todas as iniciativas incompatíveis com seus desígnios autoritários. A libertinagem informativa não tem nada a ver com a liberdade de expressão; ao contrário, é seu exato oposto.

[...]

Não se trata, pois, de combater uma "mentira", mas realmente de satisfazer a curiosidade mórbida e malsã da civilização do espetáculo, que é a de nosso tempo, em que o jornalismo (como a cultura em geral) parece desenvolver-se guiado pelo objetivo único de entreter. O senhor Julian Assange, mais que um grande lutador libertário, é um bem-sucedido entertainer ou animador, o Oprah Winfrey da informação.

* Trecho do capítulo com este nome do livro "A civilização do espetáculo", de Mario Vargas Llosa

quinta-feira, julho 11, 2013

Do cinismo democrático aos lobos e hienas

Rodrigo Constantino

A democracia depende de instituições que, por sua vez, dependem de pilares culturais. Quando esses pilares se mostram de areia, quando a maioria começa a condenar "tudo isso que está aí", jogar tudo no mesmo saco, ridicularizar a própria democracia, a política em si, é porque estamos sob o risco de uma aventura autoritária.

Acreditar não que a democracia é fantástica, um Deus ou algo do tipo, mas que ela é aperfeiçoável, que por meio de reformas podemos melhorá-la, parece-me uma condição fundamental para sua própria sobrevivência. Quando seu descrédito é total, o que virá em seu lugar é uma incógnita, mas com elevada chance de mudar para algo pior. 

Por isso condenei aqueles que votaram no palhaço Tiririca nas últimas eleições, como um voto de protesto contra a própria política, o Congresso como um todo. Esse tipo de postura ajuda a minar a confiança no sistema, que pode ser bastante imperfeito, mas que não pode ser substituído por poções mágicas, por soluções milagrosas. 

É essa a mensagem que acabo de ver em trecho de A Civilização do Espetáculo, de Mario Vargas Llosa. Estou em boa companhia, pelo visto. Eis o que diz o Nobel de Literatura:

É essa atitude pessimista e cínica, e não a ampla corrupção, que pode efetivamente acabar com as democracias liberais, transformando-as numa casca esvaziada de substância e verdade, aquilo que os marxistas ridicularizavam com o apelido de democracia "formal". É uma atitude inconsciente em muitos casos, que se traduz como desinteresse e apatia em relação à vida pública, ceticismo em relação às instituições, relutância em pô-las à prova. Quando consideráveis parcelas de uma sociedade devastada pela inconseqüência sucumbem ao catastrofismo e à anomia cívica, o campo fica livre para os lobos e as hienas.

Que cada um possa refletir sobre isso, e compreender aquilo que Churchill resumiu tão bem: a democracia é o pior modelo, exceto todos os outros que já foram testados. Vamos deixar o espaço livre para os lobos e as hienas? Ou vamos lutar para ocupá-lo com pessoas minimamente decentes, razoáveis, capazes? 

terça-feira, dezembro 18, 2012

As lamentações do dinossauro


João Pereira Coutinho, Folha de SP

Terminei a leitura do último livro de Mario Vargas Llosa ("A Civilização do Espetáculo", editora Quetzal, 219 págs.) exatamente como gosto de terminar um livro: com notas extensas de concórdias e discórdias, escritas pelo meu punho, ao longo de todo o livro.
Mas, primeiro, as apresentações: Vargas Llosa apresenta-se como "um dinossauro em tempos difíceis". O que significa este jurássico autorretrato?
Significa uma confissão: Vargas Llosa olha em volta e vê frivolidade, aparência --numa palavra, "espetáculo". E vê o desaparecimento da cultura como experiência ética e estética que nos permite compreender os problemas do mundo.
Hoje, esta "civilização do espetáculo", que se desdobra em livros "light", filmes "light", arte "light", religiões "light" e até relacionamentos pessoais "light", serve apenas para fugirmos dos problemas do mundo. Numa palavra, serve para nos "alienarmos".
O termo não é inocente, e Vargas Llosa sabe disso: como diria Marx e os seus discípulos, sobretudo o "situacionista" Guy Debord, existe na civilização de hoje, como existia na civilização dos séculos 19 e 20, uma vontade desesperada de remeter o pensamento e a cultura para as margens da sociedade capitalista. E aqui reside a minha pergunta primeira: não terá sido sempre assim?
Platão, na sua "República", não era particularmente entusiasta dos poetas da sua época. Shakespeare, tido agora como parte fundamental do "cânone ocidental", era considerado um dramaturgo "popular" pela "intelligentsia" da Inglaterra isabelina.
Não estaremos nós também a ver superficialidade em toda a parte e a cometer o mesmo erro dos nossos antepassados, que sempre se consideraram testemunhas de um mundo em decadência?
Woody Allen, de quem Vargas Llosa manifestamente não gosta, glosou sobre o assunto em "Meia-Noite em Paris": há nos contemporâneos de todas as eras um descontentamento com o presente que os leva a romantizar eras passadas.
Assim acontecia com o personagem do filme, o roteirista Gil (um notável Owen Wilson), que suspirava no século 21 pela Paris da década de 20. Até viajar a esse passado de "festa móvel", como lhe chamou Hemingway, e descobrir que os contemporâneos da década de 20 suspiravam pela Belle Époque; e os contemporâneos da Belle Época, pelo Renascimento italiano; e etc. etc., sempre em regressão nostálgica.
Não quero com isso dizer --Deus me livre e guarde!-- que um dia olharemos para as brincadeiras conceituais de um Damien Hirst da mesma forma que olhamos para um Cézanne ou para um Matisse. Nessa matéria, o vaso sanitário de Marcel Duchamp já encerrou há muito o capítulo dos "happenings" circenses.
Mas será preciso reproduzir aqui o que os críticos coevos de Cézanne e Matisse escreveram à época sobre os quadros desses dois reputados mestres?
Ponto de ordem. Concordo com Vargas Llosa sobre a "civilização do espetáculo" que se espalhou em volta. Concordo que a sensibilidade cultural do nosso tempo torna mais difícil o aparecimento de um James Joyce porque escasseia o público exigente e paciente para o ler. Concordo que o "eclipse" do intelectual se deve ao papel abjeto que ele teve, sobretudo no século 20, ao emprestar o seu nome e prestígio a regimes totalitários.
E concordo, de alma e coração, que o relativismo larvar que contaminou a "crítica" e as "humanidades" faz com que hoje uma ópera de Verdi ou um concerto dos Rolling Stones sejam colocados no mesmo patamar valorativo.
Mas introduzo aqui uma ligeira variação ao argumento central de Vargas Llosa: vivemos hoje uma "civilização do espetáculo" porque o nosso tempo globalizado criou os mecanismos de difusão que nos permitem assistir a esse excesso de espetáculo.
Assistimos a tudo: ao lixo cultural, mas também a raras preciosidades. Assistimos aos tubarões em formol de Damien Hirst, mas também aos retratos de Lucien Freud. Assistimos à mediocridade pirotécnica de Hollywood, mas também ao cinema de Michael Haneke. Lemos Dan Brown, mas também os romances do próprio Vargas Llosa.
Perante esta selva estética e ética, o caminho não está em jogar a toalha e decretar o fim de uma "civilização". Está, pelo contrário, em ser "um dinossauro com calças e gravata", disposto a resgatar do caos o que merece ser celebrado como nunca.

segunda-feira, junho 18, 2012

Shame


Rodrigo Constantino

Finalmente acabo de ver "Shame". Um filme impactante. O artigo de João Pereira Coutinho já resume o mais relevante. Gostaria apenas de acrescentar meus dois cents, com um toque de Mario Vargas Llosa, pela caneta de Dom Rigoberto, sobre a banalização do sexo, sobre o coletivismo pornográfico, nesses anos em que TV e Internet mostram a torto e a direito as mais variadas imagens sobre o assunto, após a caixa de Pandora aberta nos anos 60 (não por acaso a época em que o personagem do filme, um pobre coitado viciado em sexo, gostaria de viver). Será que quebrar todos os tabus quando o assunto é sexo é algo desejável? Com a palavra, Dom Rigoberto:

"Meu ódio à Playboy, à Penthouse e congêneres não é gratuito. Esse espécime de revista é um símbolo do acanalhamento do sexo, do desaparecimento dos belos tabus que costumavam rodeá-lo e graças aos quais o espírito humano podia rebelar-se, exercendo a liberdade individual, afirmando a personalidade singular de cada um, e o indivíduo soberano criar-se pouco a pouco na elaboração, secreta e discreta, de rituais, condutas, imagens, cultos, fantasias e cerimônias que, enobrecendo eticamente e conferindo categoria estética ao ato do amor, desanimalizaram-no progressivamente até transformá-lo em ato criativo.

[...] A pornografia despoja o erotismo do conteúdo artístico, privilegia o orgânico sobre o espiritual e o mental, como se o desejo e o prazer tivessem por protagonistas falos e vulvas e esses adminículos não fossem meros servos dos fantasmas que governam nossas almas, e segrega o amor físico do resto das experiências humanas."

O filme é tão bom, que mesmo nas cenas mais pornográficas, em meio às orgias todas, não há a menor condição de o espectador ficar excitado, pois a angústia do personagem principal é estampada em nossas caras, contagiando-nos. O vício no sexo é tão destrutivo quanto qualquer outro vício. É pura pulsão de morte. O vazio existencial de quem vive apenas para isso é mortal. A incapacidade de sentir e se envolver com outro, mesmo em seus desencontros e imperfeições, é um fardo insuportável. Não é preciso ser conservador carola ou moralista para reconhecer isso tudo e lamentar os rumos que a coisa toda tomou ao banalizarem o sexo dessa forma.

sábado, fevereiro 18, 2012

Em busca do Paraíso


Rodrigo Constantino

“Devemos buscar a perfeição na criação, na vocação, no amor, no prazer. Mas tudo isso no campo individual. No coletivo, não devemos tentar trazer a felicidade para toda a sociedade. O paraíso não é igual para todos.” (Mario Vargas Llosa)

Qualquer pessoa minimamente sensível ficaria estarrecida com a condição de vida da classe operária na França durante o século 19. Era o caso de Flora Tistán, feminista, socialista e autora do livro “A União Operária”. Ela dedicou os últimos anos de sua curta vida à luta pelo paraíso terrestre, por uma revolução pacifista que iria trazer dignidade aos trabalhadores e igualdade para as mulheres.

Flora era avó do pintor impressionista Paul Gauguin, que acabou seus dias isolado em uma ilha longínqua da Polinésia, consumido pela sífilis. Koke, como era conhecido entre os nativos maoris, fora para lugares exóticos em busca do paraíso terrestre, longe dos preconceitos burgueses de sua França. Avó e neto compartilhavam, além dos laços consangüíneos, este desejo incontrolável de partir em uma busca messiânica e utópica, contra a sociedade repressora e moralista de suas épocas. É este o enredo histórico romanceado por Mario Vargas Llosa em “O Paraíso na Outra Esquina”.

Com sua habilidade incomum para dar vida aos personagens históricos, Vargas Llosa faz o leitor mergulhar na consciência imaginária destas duas figuras complexas, com uma narrativa que prende do começo ao fim. O autor nos apresenta a hipótese de como o sonho de uma utopia terrena pode ser poderoso, conquistando a vítima de tal forma que ela não consegue mais controlar suas escolhas. Tudo aquilo que pareceria normal, racional perante o olhar da sociedade, acaba deixado de lado em troca de um chamado tão forte a ponto de ofuscar todo o resto.

O que leva um corretor de bolsa bem-sucedido, de 35 anos, casado e com cinco filhos, a abandonar tudo e partir para ilhas distantes em busca da obra-prima em sua recém-descoberta arte da pintura? Gauguin estava convencido de que precisava rejeitar os preconceitos burgueses de sua civilização e procurar estímulo nos bárbaros, nos selvagens que ainda não foram civilizados e, portanto, agiam por puro instinto. A Europa cristã, segundo o pintor, havia incutido angústias e remorsos, a sensação de culpa nas pessoas, especialmente em relação ao sexo. Era preciso sair à procura do instinto selvagem, livre de tais amarras moralistas.

Já a avó Flora, diante do machismo tosco de sua época, inclusive de seu marido asqueroso, e observando o sofrimento e a miséria dos pobres trabalhadores, sairia em busca de nada menos que a redenção humana. Um novo mundo de harmonia e paz seria possível, e ela recebera o chamado para liderar o processo de mudança, como uma messias. O lucro, veneno da sociedade, as armas e o Exército, tudo seria abolido neste novo mundo de paz. E quando os próprios operários não queriam saber de nada desta revolução, era porque não passavam de uns bárbaros estupidificados, dependentes da liderança de uma elite esclarecida.

Nada ficaria entre Flora e sua cruzada, nem mesmo seus filhos, que teriam de pagar um preço em nome do sacrifício da mãe. Os fins louváveis justificavam esta necessidade compreensível. O mesmo valia para seu neto, que, em nome do regresso ao selvagem, passou a defender o canibalismo e a praticar a pedofilia. Tudo era válido, pois qualquer freio não passava de um resquício do moralismo burguês e cristão, que mantinha este conceito ultrapassado de família e casamento. Junto ao então amigo Vincent van Gogh, o Holandês Louco, Gauguin iria criar a Casa do Prazer, um refúgio de liberdade plena neste mundo repleto de limitações impostas pelos valores sociais.

Se a religião de Flora era “o amor pela Humanidade” (lembrando o alerta de Nelson Rodrigues, de que amar a Humanidade é fácil, sendo o difícil amar o próximo), então a religião de seu neto pintor era a “pureza selvagem”. Ambos viveram com base nestas fortes crenças, passando por cima de tudo, confrontando todo o código de moral e religião da burguesia. O que conseguiram, na prática, nada se parecia com aquilo sonhado. Paul fora para o Panamá, para Martinica e para o Taiti, sempre querendo encontrar este índio puro, blindado contra a hipocrisia da civilização. Mas nunca achava aquilo que procurava.

O pai de Flora nascera em Arequipa, no Peru, a mesma cidade em que Vargas Llosa nasceu em 1936. O nome do livro é uma alusão a uma brincadeira peruana onde as crianças perguntavam: “O paraíso é aqui?”, e sempre escutavam a resposta: “Não, procure na outra esquina”. E assim iam sucessivamente, sem encontrar aquilo que procuravam. O jogo é uma metáfora perfeita para a vida destes dois personagens aparentados. Flora Tristán e Paul Gauguin, cada um à sua maneira, viveram em busca deste paraíso terreno, impondo enormes sacrifícios a suas vidas e a de seus familiares, sem jamais encontrá-lo.

O próprio Vargas Llosa sempre condenou utopias, e se considera um liberal pragmático. Mas reconhece, entretanto, que as artes em geral e a literatura em particular existem para nos oferecer esta fuga para o impossível, este recorte, ainda que temporário, para um mundo de imaginação sem os freios e limitações tradicionais da vida cotidiana. Não é preciso aderir a um sonho utópico para reconhecer os problemas da vida real, até mesmo do moralismo burguês e da culpa incutida pela religião. Mas é preciso ter muito cuidado com a alternativa sedutora, talvez um tanto infantil, de partir em busca da “liberdade plena”. Como alerta Vargas Llosa em uma passagem do livro, “nesta vida as coisas nunca saíam tão bem como nos sonhos”. Elas nunca sairão. Por isso sonhar é preciso, mas com os pés no chão.

terça-feira, novembro 08, 2011

Literature and the Search for Liberty


By MARIO VARGAS LLOSA, WSJ

What is lost on collectivists is the prime importance of individual freedom for societies to flourish and economies to thrive.

The blessings of freedom and the perils of its opposite can be seen the world over. It is why I have so passionately adhered to advancing the idea of individual freedom in my work.

Having abandoned the Marxist myths that took in so many of my generation, I soon came to genuinely believe that I had found a truth that had to be shared in the best way I knew—through the art of letters. Critics on the left and right have often praised my novels only to distance themselves from the ideas I've expressed. I do not believe my work can be separated from its ideals.

It is the function of the novelist to tell timeless and universal truths through the device of a fashioned narrative. A story's significance as a piece of art cannot be divorced from its message, any more than a society's prospects for freedom and prosperity can be divorced from its underlying principles. The writer and the man are one and the same, as are the culture and its common beliefs. In my writing and in my life I have pursued a vision not only to inspire my readers but also to share my dream of what we can aspire to build here in our world.

Those who love liberty are often ridiculed for their idealism. And at times we can feel alone, as there appear to be very few dedicated to the ideals of true "liberalism."

In the United States, the term "liberal" has come to be associated with leftism, socialism, and an ambitious role for government in the economy. Many who describe their politics as "liberal" emphatically favor measures which desire to push aside free enterprise. Some who call themselves liberal show even greater hostility toward business, loudly protesting the very idea of economic freedom and promoting a vision of society not so different from the failed utopian experiments of history's socialist and fascist regimes.

In Latin America and Spain, where the word "liberal" originated to mean an advocate of liberty, the left now uses the label as an invective. It carries connotations of "conservative" or reactionary politics, and especially a failure to care for the world's poor. I have been maligned in this way.

Ironically enough, part of the confusion can be pinned on some who champion the market economy in the name of old liberalism. They have at times done even more damage to freedom than the Marxists and other socialists.

There are those who in the name of the free market have supported Latin American dictatorships whose iron hand of repression was said to be necessary to allow business to function, betraying the very principles of human rights that free economies rest upon. Then there are those who have coldly reduced all questions of humanity to a matter of economics and see the market as a panacea. In doing so they ignore the role of ideas and culture, the true foundation of civilization. Without customs and shared beliefs to breathe life into democracy and the market, we are reduced to the Darwinian struggle of atomistic and selfish actors that many on the left rightfully see as inhuman.

What is lost on the collectivists, on the other hand, is the prime importance of individual freedom for societies to flourish and economies to thrive. This is the core insight of true liberalism: All individual freedoms are part of an inseparable whole. Political and economic liberties cannot be bifurcated. Mankind has inherited this wisdom from millennia of experience, and our understanding has been enriched further by the great liberal thinkers, some of my favorites being Isaiah Berlin, Karl Popper, F.A. Hayek and Ludwig von Mises. They have described the path out of darkness and toward a brighter future of freedom and universal appreciation for the values of human dignity.

When the liberal truth is forgotten, we see the horrors of nationalist dictatorship, fascism, communism, cult fanaticism, terrorism and the many savageries that have defined all too much in the modern era. The problem is less pronounced in the United States, but here there still remain problems resulting from the abandonment of these key principles.

Many cling to hopes that the economy can be centrally planned. Education, health care, housing, money and banking, crime control, transportation, energy and far more follow the failed command-and-control model that has been repeatedly discredited. Some look to nationalist and statist solutions to trade imbalances and migration problems, instead of toward greater freedom.

Yet there is reason for hope here and elsewhere. The American system still allows for open dissent, the hallmark of a free society, and in a healthy fashion both left and right practice this cherished freedom. Throughout the world, anti-Americanism and anticapitalism are in decline. In Latin America, outside of Venezuela and Cuba, dictatorship of the old socialist and fascist varieties is dead, with market reforms sweeping even nominally leftist regimes.

The search for liberty is simply part of the greater search for a world where respect for the rule of law and human rights is universal—a world free of dictators, terrorists, warmongers and fanatics, where men and women of all nationalities, races, traditions and creeds can coexist in the culture of freedom, where borders give way to bridges that people cross to reach their goals limited only by free will and respect for one another's rights. It is a search to which I've dedicated my writing, and so many have taken notice. But is it not a search to which we should all devote our very lives? The answer is clear when we see what is at stake.

Mr. Vargas Llosa, the 2010 Nobel laureate in literature, will receive the Alexis de Tocqueville Award on Nov. 15 from the Independent Institute at its 25th anniversary celebration. He wrote this essay for the occasion.

sábado, junho 25, 2011

O sonho do celta


Rodrigo Constantino

“Não é mau que ronde sempre um clima de incerteza em torno de Roger Casement, como prova de que é impossível chegar a conhecer de forma definitiva um ser humano, totalidade que sempre escapa a todas as redes teóricas e racionais que tentam capturá-la”. Eis o que pensa o escritor Mario Vargas Llosa sobre o personagem de seu último romance, “O sonho do celta”, figura controversa que lutou contra os abusos do colonialismo belga no Congo, depois contra a exploração desmesurada dos índios peruanos por uma empresa inglesa na selva de Iquitos, e por fim pela independência da Irlanda contra a Inglaterra, país que Casement serviu como diplomata e lhe concedeu o título de sir.

Vargas Llosa usa os fragmentos históricos para recriar o rico personagem, repleto de dúvidas e angústias, com um senso constante de justiça, mas invariavelmente abalado pela possibilidade de estar errado em sua estratégia de luta, especialmente ao acreditar que o inimigo de seu inimigo é seu amigo, e com isso defender a aproximação dos separatistas irlandeses com os alemães na iminência da Primeira Guerra Mundial. A imagem de mártir, que pode acender as chamas da liberdade em seus compatriotas, compensa o suicídio quase certo na batalha desigual? Os cristãos valorizavam o martírio, pois sua Igreja nasceu justamente dele. O livro está impregnado desta visão de herói que sabe caminhar rumo à provável destruição, mas que planta as sementes da liberdade no longo prazo.

O novo romance do mais recente Prêmio Nobel da Literatura não desaponta os leitores. Para quem busca histórias simplistas e maniqueístas, de heróis e vilões muito bem definidos, “O sonho do celta” não é leitura recomendada. Mas para quem busca mergulhar na região mais cinzenta e realista, onde heróis nem sempre são claramente distinguíveis de vilões, onde há argumentos razoáveis de ambos os lados, então o livro é garantia de satisfação. A colonização belga na África cometeu inúmeras atrocidades, as quais Casement se ergueu contra, mas isso não implica uma visão maniqueísta de que não ocorreram avanços com a chegada dos europeus, tampouco que antes havia algo que poderia ser chamado de civilização por nossos conceitos atuais. O mesmo vale para a selva peruana e a empresa inglesa que explorava a borracha das seringueiras. Os crimes perpetrados na lei da selva são relatados com horror pelo personagem principal, o que não quer dizer que uma imagem rousseauniana daqueles selvagens mereça algum crédito.

No mundo real, nem sempre é fácil separar o joio do trigo, à exceção dos casos limítrofes. Ainda mais quando se trata de questões delicadas, como a independência de um país, as lutas nacionalistas, as aventuras de exploradores em terras distantes onde não há nem resquício do império da lei. O ser humano é capaz dos atos mais bárbaros nestas condições mais anárquicas e selvagens. E eis justamente o que mostra Vargas Llosa com este novo romance histórico, cuja leitura recomendo.