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segunda-feira, julho 23, 2012

A falácia da utopia


Rodrigo Constantino, para a revista VOTO

Poucas coisas são tão perigosas para a liberdade como uma mentalidade utópica. Os utópicos não se caracterizam simplesmente por erros pontuais de raciocínio lógico; eles adotam todo um método mental que de uma forma misteriosa é indiferente à verdade. De certa forma, a utopia pode ser um substituto laico da religião para aqueles inconformados e incapazes de lidar com as limitações da vida imperfeita.

Em seu livro The Uses of Pessimism, Roger Scruton dedica um capítulo para derrubar a falácia da utopia e mostrar como ela está a um passo do totalitarismo. Parte da explicação para movimentos utópicos seria, segundo o autor, um resíduo de heresia religiosa em um mundo sem religião, ou seja, a expectativa de criar um paraíso terrestre, colocando um fim nas imperfeições do mundo.

Os utópicos podem ignorar a aprendizagem com experiências passadas e até o bom senso, abraçando um projeto absurdo e impraticável. Nada pode refutar uma utopia, e nisso reside seu fascínio. As milhões de vidas perdidas ou escravizadas nas tentativas de tornar a utopia realidade não negam a utopia; apenas provam que maquinações perversas ficaram no caminho como obstáculos indesejados. É preciso redobrar o esforço.

É exatamente com esta postura que socialistas podem ignorar todas as desgraças causadas em nome de sua utopia. A União Soviética nunca foi comunista, eles alegam. Era um “socialismo real”, ou pior, um “capitalismo de estado” (assim conseguem jogar a culpa para o lado do capitalismo). O fim, sendo inviável, jamais chega. A utopia está, desta maneira, totalmente imune a qualquer tipo de refutação.

Utopias são visões de um futuro em que todos os conflitos e problemas da vida humana são resolvidos completamente. As pessoas viverão em harmonia, felizes. O desejo dos utópicos é por uma “solução final”, não para alguns problemas, mas para todos os problemas. Tudo aquilo que cria conflitos e tensões será eliminado. A raça será pura, não haverá mais classes ou hierarquia, o mundo será um lugar de “liberdade, igualdade e fraternidade”. Cada utopia tem sua versão.

Mas o ponto importante das utopias, como frisa Scruton, é o fato de que elas não podem se concretizar. No fundo, talvez de forma subliminar, os utópicos sabem disso, e por isso se negam a descrever em maiores detalhes e de forma crítica o que exatamente eles têm em mente. As utopias acabam empacotadas de forma vaga, ainda que com a embalagem “científica”.

Karl Marx, que criticava o socialismo utópico e considerava o seu científico, jamais foi capaz de entrar em detalhes sobre o funcionamento de seu modelo. Todos poderiam atender a seus múltiplos desejos, caçar pela manhã, pescar na parte da tarde e até virar crítico literário de noite, pois não haveria mais divisão de trabalho nem propriedade privada. Como exatamente fazer isso sem tais mecanismos não vem ao caso. Quem produz as ferramentas necessárias para a caça e a pesca? Marx não responde. Talvez elas brotassem do solo.

Esta meta inalcançável serve como poderosa arma para negar tudo aquilo que é real. Se eu defendo algo que não pode existir, que jamais existiu e que sequer pode ser refutado, então coloco-me em uma Torre de Marfim e, do alto de minha utopia, passo a atirar em todos os modelos atuais. Qualquer defeito, qualquer problema existente passa a ser indício de que o modelo vigente fracassou. A utopia serve como uma condenação abstrata de tudo que nos cerca, e justifica a postura intransigente e violenta do utópico.

O ideal dos utópicos jamais é refutado, jamais é testado. Ele permanece para sempre como um horizonte distante, imaculado, oferecendo um julgamento rigoroso de tudo que existe, como um sol que não pode ser observado mas que cria uma sombra em tudo aquilo que ele lança seu brilho. E as sombras são os inimigos da pureza do sol, que precisam ser eliminados do caminho para que venha a luz.

Utópicos costumam aderir facilmente às teorias conspiratórias e simplistas, que dividem de forma maniqueísta o mundo entre bom e mau. Todos aqueles que recusam a utopia são seus inimigos. Eles não podem discordar por convicção; devem ser traidores, opressores ou, na melhor das hipóteses, alienados.

Foi assim que os jacobinos encararam todos que criticavam a Revolução Francesa, como “inimigos do povo”. Hugo Chávez, em busca de seu “socialismo do século 21”, adota a mesma tática.

Os inimigos variam de acordo com a utopia. Para os nazistas eram os judeus; para os comunistas, os burgueses; para os anarquistas, os políticos. O importante é ter um bode expiatório, de preferência bem definido, aquele que impede a realização da utopia. O crime, a violência e a destruição são justificáveis como meios para um sonho tão puro e lindo como o utópico.

A revolta e o desejo de vingança contra a realidade alimentam a utopia revolucionária. Esta sede destrutiva costuma derivar de um profundo ressentimento direcionado àqueles que, de alguma forma, conseguem contemporizar com as restrições da vida. O caminho do totalitarismo está aberto se os utópicos conseguem chegar ao poder.  

quarta-feira, julho 04, 2012

Fim da utopia

João Luiz Mauad, O GLOBO

São inúmeras as explicações para os atuais problemas europeus. Uns apontam para a rigidez com que o BCE administra o Euro, outros para especulação dos mercados ou para a moderna engenharia financeira. Até mesmo o surrado espantalho neoliberal aparece de vez em quando como culpado. Embora evidências saltem aos olhos, essas análises constumam ignorar que, muito além de mera crise monetária ou de crédito, o que está em xeque é o próprio modelo de bem estar social, sob o qual sucessivos governos, tanto à direita quanto à esquerda, têm financiado “direitos” generosos com altos impostos e pilhas enormes de dívidas. Tudo isso sem que as economias do velho continente consigam crescer o bastante para manter a farra.

Malgrado sua concepção eminentemente coletivista, a experiência social-democrata que floresceu na Europa Ocidental após a Segunda Guerra manteve o modelo econômico capitalista, pelo menos no sentido de que a propriedade privada dos meios de produção era permitida, ainda que altamente concentrada nas mãos de poucos. O arquétipo do “capitalismo selvagem” foi substituído por um sistema híbrido, que combina grandes conglomerados industriais e financeiros, freqüentemente patrocinados e tutelados pelo Estado, uma agricultura altamente subsidiada, além de empresas miúdas – quase sempre comerciais ou de prestação de serviços. Para completar, a hipertrofia dos governos formou um enorme contingente de funcionários públicos que, em alguns países, chega perto de 50% da população economicamente ativa.

O apogeu da social-democracia européia ocorreu em meio à Guerra Fria, num período marcado pela limitação à livre movimentação de pessoas, capitais e produtos, quase sempre mediante rígidos controles burocráticos e barreiras tarifárias. Com queda do Muro de Berlim e a aceleração do processo de globalização, conseqüência direta da profusão de novas tecnologias que permitiram a movimentação muito mais dinâmica da informação, dos capitais, dos produtos e do próprio trabalho, as sociedades européias se viram, da noite para o dia, numa sinuca de bico, obrigadas a promover uma reavaliação profunda do modelo, algo até então impensável.

E não é para menos: enquanto a taxa de natalidade não pára de cair e os velhos vivem cada vez mais, os gastos com saúde e aposentadorias ficam cada vez mais caros. Por outro lado, a relação entre trabalhadores ativos e inativos segue diminuindo rapidamente. Tudo isso em meio ao baixo crescimento econômico que já dura décadas. Uma eventual mudança de rumo, entretanto, não deixará de ser traumática, notadamente para aqueles que se acostumaram com privilégios “sociais” abundantes e pouco trabalho.

Uma das primeiras a entender que as políticas da social-democracia precisavam ser revistas foi Margareth Thatcher, que compreendia a natureza daquela armadilha econômica em seus dois aspectos principais. Em primeiro lugar, não é possível manter um mercado de trabalho baseado na estabilidade do emprego, especialmente em vista da evolução tecnológica que cria e destrói ofícios e profissões numa velocidade tremenda. Em segundo lugar, as instituições de proteção social, concebidas fundamentalmente para compensar o fracasso individual, fomentam de modo inexorável a ineficiência, num mundo globalizado cada vez mais competitivo.

Thatcher concluiu, há trinta anos, que as premissas do “marco social” – que imperou a partir da 2ª Guerra – haviam sido derrubadas e, a menos que o modelo então vigente se transformasse profundamente, seria varrido pelo furacão da globalização. As reformas liberais que seu governo produziu, no entanto, se deram algum fôlego à economia britânica por algum tempo, já foram completamente revertidas pelos governos esquerdistas que o sucederam - preocupados, como sempre, não com os baixos índices de crescimento e produtividade, mais com a utopia do “bem comum”.

Evidentemente, a falência do “welfare state” não se dá de forma uniforme. Dependendo das instituições e da cultura de cada país, ela é mais lenta ou mais rápida. O modelo é mais resistente nos países nórdicos, germânicos e anglo-saxãos - ancorados numa ética severa, na primazia da responsabilidade individual e na valorização do trabalho - do que nos países mediterrâneos, mais chegados ao patrimonialismo e à cultura de privilégios. Mas não se iludam: a médio prazo, mesmo esses países precisarão promover mudanças liberalizantes que tornem suas economias mais dinâmicas e competitivas.

sábado, fevereiro 18, 2012

Em busca do Paraíso


Rodrigo Constantino

“Devemos buscar a perfeição na criação, na vocação, no amor, no prazer. Mas tudo isso no campo individual. No coletivo, não devemos tentar trazer a felicidade para toda a sociedade. O paraíso não é igual para todos.” (Mario Vargas Llosa)

Qualquer pessoa minimamente sensível ficaria estarrecida com a condição de vida da classe operária na França durante o século 19. Era o caso de Flora Tistán, feminista, socialista e autora do livro “A União Operária”. Ela dedicou os últimos anos de sua curta vida à luta pelo paraíso terrestre, por uma revolução pacifista que iria trazer dignidade aos trabalhadores e igualdade para as mulheres.

Flora era avó do pintor impressionista Paul Gauguin, que acabou seus dias isolado em uma ilha longínqua da Polinésia, consumido pela sífilis. Koke, como era conhecido entre os nativos maoris, fora para lugares exóticos em busca do paraíso terrestre, longe dos preconceitos burgueses de sua França. Avó e neto compartilhavam, além dos laços consangüíneos, este desejo incontrolável de partir em uma busca messiânica e utópica, contra a sociedade repressora e moralista de suas épocas. É este o enredo histórico romanceado por Mario Vargas Llosa em “O Paraíso na Outra Esquina”.

Com sua habilidade incomum para dar vida aos personagens históricos, Vargas Llosa faz o leitor mergulhar na consciência imaginária destas duas figuras complexas, com uma narrativa que prende do começo ao fim. O autor nos apresenta a hipótese de como o sonho de uma utopia terrena pode ser poderoso, conquistando a vítima de tal forma que ela não consegue mais controlar suas escolhas. Tudo aquilo que pareceria normal, racional perante o olhar da sociedade, acaba deixado de lado em troca de um chamado tão forte a ponto de ofuscar todo o resto.

O que leva um corretor de bolsa bem-sucedido, de 35 anos, casado e com cinco filhos, a abandonar tudo e partir para ilhas distantes em busca da obra-prima em sua recém-descoberta arte da pintura? Gauguin estava convencido de que precisava rejeitar os preconceitos burgueses de sua civilização e procurar estímulo nos bárbaros, nos selvagens que ainda não foram civilizados e, portanto, agiam por puro instinto. A Europa cristã, segundo o pintor, havia incutido angústias e remorsos, a sensação de culpa nas pessoas, especialmente em relação ao sexo. Era preciso sair à procura do instinto selvagem, livre de tais amarras moralistas.

Já a avó Flora, diante do machismo tosco de sua época, inclusive de seu marido asqueroso, e observando o sofrimento e a miséria dos pobres trabalhadores, sairia em busca de nada menos que a redenção humana. Um novo mundo de harmonia e paz seria possível, e ela recebera o chamado para liderar o processo de mudança, como uma messias. O lucro, veneno da sociedade, as armas e o Exército, tudo seria abolido neste novo mundo de paz. E quando os próprios operários não queriam saber de nada desta revolução, era porque não passavam de uns bárbaros estupidificados, dependentes da liderança de uma elite esclarecida.

Nada ficaria entre Flora e sua cruzada, nem mesmo seus filhos, que teriam de pagar um preço em nome do sacrifício da mãe. Os fins louváveis justificavam esta necessidade compreensível. O mesmo valia para seu neto, que, em nome do regresso ao selvagem, passou a defender o canibalismo e a praticar a pedofilia. Tudo era válido, pois qualquer freio não passava de um resquício do moralismo burguês e cristão, que mantinha este conceito ultrapassado de família e casamento. Junto ao então amigo Vincent van Gogh, o Holandês Louco, Gauguin iria criar a Casa do Prazer, um refúgio de liberdade plena neste mundo repleto de limitações impostas pelos valores sociais.

Se a religião de Flora era “o amor pela Humanidade” (lembrando o alerta de Nelson Rodrigues, de que amar a Humanidade é fácil, sendo o difícil amar o próximo), então a religião de seu neto pintor era a “pureza selvagem”. Ambos viveram com base nestas fortes crenças, passando por cima de tudo, confrontando todo o código de moral e religião da burguesia. O que conseguiram, na prática, nada se parecia com aquilo sonhado. Paul fora para o Panamá, para Martinica e para o Taiti, sempre querendo encontrar este índio puro, blindado contra a hipocrisia da civilização. Mas nunca achava aquilo que procurava.

O pai de Flora nascera em Arequipa, no Peru, a mesma cidade em que Vargas Llosa nasceu em 1936. O nome do livro é uma alusão a uma brincadeira peruana onde as crianças perguntavam: “O paraíso é aqui?”, e sempre escutavam a resposta: “Não, procure na outra esquina”. E assim iam sucessivamente, sem encontrar aquilo que procuravam. O jogo é uma metáfora perfeita para a vida destes dois personagens aparentados. Flora Tristán e Paul Gauguin, cada um à sua maneira, viveram em busca deste paraíso terreno, impondo enormes sacrifícios a suas vidas e a de seus familiares, sem jamais encontrá-lo.

O próprio Vargas Llosa sempre condenou utopias, e se considera um liberal pragmático. Mas reconhece, entretanto, que as artes em geral e a literatura em particular existem para nos oferecer esta fuga para o impossível, este recorte, ainda que temporário, para um mundo de imaginação sem os freios e limitações tradicionais da vida cotidiana. Não é preciso aderir a um sonho utópico para reconhecer os problemas da vida real, até mesmo do moralismo burguês e da culpa incutida pela religião. Mas é preciso ter muito cuidado com a alternativa sedutora, talvez um tanto infantil, de partir em busca da “liberdade plena”. Como alerta Vargas Llosa em uma passagem do livro, “nesta vida as coisas nunca saíam tão bem como nos sonhos”. Elas nunca sairão. Por isso sonhar é preciso, mas com os pés no chão.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Realismo e utopia

Meu novo artigo para o OrdemLivre.org sobre os perigos da utopia, com base no livro "Missa Negra" de John Gray.

segunda-feira, novembro 07, 2011

A dialética contra a utopia

Meu novo artigo para o OrdemLivre.org sobre utopias, com base nas críticas de Hayek e Marx.

"Em sua busca por um mundo ideal, os utópicos partem da premissa de que é possível dominar todas as complexidades sofisticadas da vida social."

domingo, setembro 18, 2011

Baderneiros e mimados

Imperdível a entrevista das páginas amarelas da revista VEJA desta semana, com o filósofo inglês Roger Scruton. Sem medo da patrulha politicamente correta, ele mete o dedo em algumas feridas. Abaixo, alguns trechos da entrevista:

"Ninguém mencionou como uma das causas da baderna a deformação causada nesses jovens pelas políticas de estado do bem-estar social. Diversos estudos mostram como clareza a vinculação desses programas assistencialistas com a proliferação de uma classe baixa ressentida, raivosa e dependente. Não quero ser leviano e culpar apenas as políticas socialistas pelos tumultos. As pessoas promovem arruaças por inúmeras razões. Entre os jovens, a revolta é uma condição inerente, um padrão de comportamento. Mas é preciso um pouco mais de honestidade intelectual para buscar uma resposta mais concreta sobre o que ocorreu em Londres. Por debaixo do verniz civilizatório, todo homem tem dentro de si um animal à espreita. Infelizmente, se este verniz for arrancado, o animal vai mostrar a sua cara. A promessa de concessão de direitos sem a obrigatoriedade de deveres e de recompensas sem méritos foi o que arrancou o verniz nessa recente eclosão de episódios de vandalismo na Inglaterra."

"Desculpe-me, mas é resultado de exclusão depredar uma cidade porque você tem só um carro, um apartamento pequeno pelo qual não paga aluguel, recebe mesada do governo sem ter de fazer nada para embolsá-la, compra três cervejas, mas gostaria de beber quatro, e acha que ter apenas um televisor em casa é pouco? Não. Ver exclusão nesses episódios só faz sentido na cabeça de um professor de sociologia."

"O otimismo prejudicial é o desmedido ou, como disse o filósofo Arthur Schopenhauer, o otimismo mal-intencionado, inescrupuloso. É o tipo de pensamento que está por trás de todas as tentativas radicais de transformar o mundo, de superar as dificuldades e perturbações típicas da humanidade por meio de um ajuste em larga escala, de uma solução ingênua e utópica, como o comunismo, o fascismo e o nazismo. Otimismo e utopia em excesso geralmente acabam em nada, ou, pior, dão em totalitarismo."

"Como impor a mesma moeda, o mesmo sistema e o mesmo modo de vida ao alemão trabalhador, cumpridor das leis, respeitador da hierarquia, e ao grego fanfarrão e avesso às normas? Arrisco-me a dizer que a União Europeia é um fracasso porque contém as insanidades institucionais do velho experimento comunista."

"O pensamento utópico sobrevive porque não se trata de uma idéia de fato, mas de um substituto de uma idéia, algo que serve de alívio para a difícil - e geralmente depressiva - tarefa de ver as coisas como elas são realmente. É uma forma de vício, um curto-circuito que afasta os indivíduos da razão e do questionamento racional efetivo. O pensamento utópico nos remete diretamente para um objetivo, passando por cima da viabilidade do projeto. É fácil digeri-lo e se embeber do seu otimismo mal-intencionado e sem fundamento. O problema vem depois, quando a utopia termina em fiasco."

"O problema é que a questão ambiental foi parar nas mãos erradas. A esquerda transformou a proteção ao meio ambiente em uma causa, em um movimento que necessita de intervenções estatais, em um assunto no qual há culpados e vítimas. No caso, os culpados são os capitalistas e a vítima é o planeta. A esquerda adora o culto à vítima."

"Os Estados Unidos, a maior economia do mundo, o maior poderio militar, se tornaram o alvo principal dos ressentidos, dos que se consideram fracassados por causa do sucesso alheio. O ataque às Torres Gêmeas, há dez anos, é uma mostra do que o ressentimento coletivo estimulado pela falácia da soma zero é capaz de causar."

"Eu acordei do meu delírio socialista durante os tumultos de maio de 1968, em Paris. No meio da destruição, das barricadas e das janelas quebradas, percebi que aqueles estudantes estavam intoxicados pelo simples desejo de destruir coisas e idéias, sem a mínima preocupação em colocar algo relevante no lugar. [...] quando uma pessoa começa a pensar sobre as grandes questões que afligem o homem e a sociedade, tende a aceitar as posições da esquerda, pois elas parecem oferecer soluções. Ao pensar além, ao se aprofundar, a pessoa aprende a duvidar e rejeita o argumento esquerdista."

"O conservador reflete sobre coisas reais e sabe que a liberdade verdadeira é obtida sob leis e regras, pois sem instituições não há liberdade, mas selvageria."

terça-feira, setembro 13, 2011

Ponto de chegada

Rodrigo Constantino, OrdemLivre.org

"No transcurso de sua existência, o ser humano só possui uma certeza: a da morte. Por silogismo, é fácil deduzir o desejo inconsciente de morte metaforicamente contido em toda busca de certeza." (Pierre Rey)

O liberalismo clássico rejeita utopias. Ele rejeita dogmas. Uma das premissas mais básicas de um liberal é que o mundo é um lugar complexo demais para ser compreendido por modelos simplistas. Seres imperfeitos não são capazes de produzir sistemas perfeitos. Falíveis e com razão limitada, os homens precisam tatear com certa humildade temas delicados, tais como a ética e a justiça, abandonando qualquer meta mais ambiciosa de construir uma sociedade “plenamente” livre ou justa.

Nunca vai existir algo parecido com um “paraíso terrestre” onde um ambiente de liberdade “plena” seja real. Sequer seria possível definir de forma racional e irredutível o que é uma liberdade plena. Visões conflitantes sobre isso poderiam ser igualmente razoáveis. Liberais, portanto, rejeitam a tentativa de monopolizar os fins nobres, como se apenas um único destino final fosse compatível com a “verdadeira” noção de liberdade. A existência de visões conflitantes sobre a própria liberdade faz parte da doutrina liberal.

A causa liberal consiste, então, numa luta contínua pelo máximo de liberdade individual possível, que jamais será total. Viver em sociedade é abrir mão de parte das liberdades, aceitando divergências inclusive sobre certos valores e princípios. Liberais não pensam ter encontrado uma “pedra filosofal”, um princípio absoluto que seja capaz de fornecer respostas em quaisquer circunstâncias. Ainda que respeitem conceitos como o “direito natural”, os liberais não costumam ignorar a utilidade de suas crenças. De nada vale pregar a “liberdade” dentro de um Gulag. Os fins podem não justificar os meios, mas os resultados importam.

O rancho de Galt, na novela “A Revolta de Atlas”, de Ayn Rand, só pode ser criado no mundo da ficção. Sua existência e sobrevivência dependem da condição de que todos os habitantes compartilhem o mesmo princípio. É como nas comunidades hippies de “paz e amor”: ignora-se o que acontece quando alguém, de dentro ou de fora, discorda do estilo de vida das pombas, e decide ser um gavião. As pombas acabam devoradas.

No rancho, os empresários que compartilhavam os mesmos princípios libertários abandonaram o mundo e buscaram refúgio, isolados do restante. Todos ali dividiam os mesmos ideais, respeitavam voluntariamente o mesmo princípio. Era um paraíso de inúmeras figuras praticamente iguais à própria Ayn Rand. Narciso acha feio o que não é espelho.

Mas, no mundo real, precisamos conviver com pessoas que não compartilham os mesmos ideais, ou até os mesmos valores. A postura mais arrogante – e intolerante – é aquela que trata essas divergências como fruto da pura alienação ou má-fé, e que acha que a liberdade é necessária apenas como um meio para que todos possam, finalmente, chegar às mesmas conclusões e abraçar o mesmo ideal de mundo. A liberdade, para estes, nada mais é do que o instrumento para que um consenso possa ser formado; o consenso que convirja para o que eu acredito, naturalmente. Divergências costumam ser motivo para brigas feias, pois são todos “inimigos da liberdade”.

Outra postura possível diante do problema, aquela que considero mais alinhada com o liberalismo clássico, é respeitar as diferenças inclusive sobre o que seria uma sociedade livre, dentro de certas fronteiras. Claro que isso não é o mesmo que aderir ao relativismo total, que rejeita qualquer possibilidade de conhecimento objetivo. Tampouco é sinônimo de flexibilizar tanto o liberalismo a ponto de ele perder qualquer sentido lógico. É apenas negar a possibilidade de certezas sobre algo tão complexo. Parece evidente que o socialismo jamais será visto como compatível com qualquer concepção de sociedade livre. O mesmo vale para o nazismo e o fascismo. Mas existem regiões mais cinzentas que os liberais não são capazes de evitar.

Deixa de ser livre uma sociedade que impede o discurso racista que incita o ódio e a violência contra minorias étnicas? O direito de propriedade privada pode ser claramente prejudicado nesse caso, mas como fica o direito destas minorias, na prática, sem tal impedimento? Uma sociedade que proíbe um partido nazista perde seu status de liberal por conta disso? A legalização de drogas pesadas como o crack, com rápida capacidade de vício, representa necessariamente uma bandeira liberal, independentemente dos seus resultados práticos? Qualquer um pode portar a arma que desejar, com base no direito de propriedade privada? Imposto é sempre roubo e, portanto, incompatível com a liberdade? Permitir o aborto é uma postura liberal? A propriedade intelectual é incompatível com a liberdade individual, ou, ao contrário, necessária para garanti-la?

Enfim, podemos pensar em inúmeros exemplos onde visões da liberdade conflitam, e não há resposta simples para decidir qual partido tomar. Ambos os lados podem ser razoáveis e racionais. Diante de questões tão complexas, o liberal terá a humildade para evitar posturas radicais e intransigentes. O menos razoável talvez seja responder enfaticamente essas perguntas, como se fosse algo muito simples e evidente. Não é.

O liberal não pretende posar como o dono da razão. Ele sabe que esta pode levar a caminhos diferentes ou mesmo conflitantes, sem solução aparente. O que o liberal vai defender, nestas ocasiões, são “soluções” imperfeitas. O debate aberto e civilizado, a democracia, ainda que carregada de riscos de abusos, a convivência pacífica entre as visões discordantes. O liberal não precisa enxergar como um inimigo aquele que adota visões diferentes sobre a própria liberdade, desde que suas liberdades individuais mais básicas não estejam ameaçadas. À exceção destes casos extremos e evidentes, onde basta bom senso, há toda uma zona nebulosa, em que parece legítimo discordar. O pluralismo é uma bandeira liberal.

Em suma, o liberal não prega e não acredita num ponto de chegada, no destino final de uma sociedade perfeitamente livre. Ele está mais preocupado com o caminho, com o processo inesgotável de busca por melhorias e por mais liberdade, mas sempre sob a restrição de que nossa razão é falível e limitada para fornecer todas as respostas. Nos termos de Karl Popper, o liberalismo é uma “grande sociedade aberta” permanentemente em construção, que não negocia com seus princípios mais básicos, mas que tolera divergências razoáveis com a mente aberta. O liberal está ciente de que o melhor lugar para as utopias e as ideologias intransigentes é a lata do lixo.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Ponto de Chegada

Meu novo artigo para o OrdemLivre.org, sobre a visão pluralista, humilde e tolerante do liberalismo, que rejeita dogmas e utopias.

terça-feira, setembro 06, 2011

Tenho saudade de mim

Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo

Estava a ler o texto de Adauto Novaes (nosso filósofo sem torre de marfim) sobre a preguiça - tema de seu seminário/livro atual. Na realidade, são estudos sobre a lentidão, neste mundo cada vez mais veloz. E, aí, tive saudades da calma, do princípio, meio e fim, tive saudade das "geladeiras brancas e dos telefones pretos", das manhãs, tardes e noites, separadas pela luz que se coloria do rosa ao negro e se apagava aos poucos, tive saudade das mortiças casas de família, até da infelicidade de antigamente - de novela de rádio -, de lágrimas furtivas, dos casais com olhos sem luz, depois de casamentos esperançosos com buquês arrojados para um futuro que ia morrendo aos poucos.

Estou com saudades de tudo. De mim, inclusive. "Saudades" ou "saudade"? Tenho saudade (s) de meu velho professor de português, magrinho, irritadiço e doce, Luis Vianna Filho, que me bradava: "O senhor não tem acento circunflexo!", apontando meu nome que meu avô árabe registrara "Jabôr". E continuava: "Jabor é o certo. A única palavra dissílaba da língua terminada em "or" que tem circunflexo é "redôr", para diferenciar de "redor, em volta de", pois redôr é o pobre-diabo que fica puxando o sal nas salinas, com um rodo".

Lembrei-me dos miseráveis "redôres" de Cabo Frio, lembrei de minha juventude quando achei, por acaso, uma velha fotografia de jornal, em preto e branco, da passeata dos Cem Mil em 1968 na Cinelândia. No meio da multidão da foto, vi emocionado um pequeno rosto granulado - eu mesmo, ali, sentado no chão, ouvindo os discursos de Vladimir Palmeira e (talvez) de Dirceu -, bonito, cabelo longo, hippie guerreiro.

Tive uma nostalgia do passado até com a recente "reprise" de José Dirceu na mídia como poderoso chefão dos soviéticos que, aliás, aproveitaram os últimos escândalos para reciclar o lixo bolchevista de "controlar a Imprensa". (Eles não desistem). Fiquei nostálgico porque Dirceu era também uma sobrevivência do passado em minha vida. E tive uma bruta saudade da utopia. Sempre critiquei o Dirceu porque ele, do passado em preto e branco, tinha querido invadir o presente com uma subversão regressista, que poderia nos jogar de volta a um tempo morto. Muito mais do que os milhões desviados do "mensalão", critiquei-o ideologicamente, porque ele liderava uma tendência, viva ainda hoje, de se "tomar o Estado", "desapropriando" o dinheiro público pelo "bem do povo". Dirceu caiu por uma tentativa que mais uma vez falhou, em nossa esquerda de trapalhões, como foi em 63 ou em 68, no Congresso de Ibiúna.

Mas, mesmo assim, fiquei com saudade de mim mesmo. Tenho saudade de mim ali, com o rosto cheio de esperança na passeata, achando que mudava a história e que o mundo era fácil de mexer.

Como eu gostaria de explicar aos jovens de hoje o que era a infalível "certeza" daquela época remota, o que era a delícia de viver sentindo-se no "bom caminho", na "linha justa", salvando o futuro. Hoje, ninguém sabe o que era o sentimento de harmonia, de totalidade, em um mundo fragmentado e frio. Hoje, os meninos vivem em galáxias de informações, quando não há mais lugar para "A Verdade". Os jovens que nascem no grande deserto virtual não sabem que vivíamos num rio que corria para o futuro, em direção a uma felicidade completa, com lógica, com Sentido. Tenho saudade do futuro que hoje se espraia como uma grande enchente suja, sem foz, um deserto sem ponto final. Hoje sabemos que não há mais futuro nem chegada - só caminho.

Tenho saudade do amor da juventude, da minha namorada comunista - nós dois no sofá-cama do "aparelho" clandestino do PCB em Copacabana, o sofá-cama rasgado, com a mola aparecendo, onde nos amávamos antes da reunião da "base" com medo que chegasse o supervisor, um "camarada" com um doce nariz de couve-flor rosado e tristes sapatos pretos com meias brancas, que nos falava, melancólico, do imperialismo norte-americano. Tenho saudades dela, linda, corajosa, no apartamentinho com o cartaz dos girassóis do Van Gogh e uns livros da Academia Soviética, numa prateleira sobre dois tijolos.

Para nós, comunas, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada de nariz rosado: "O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!" E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...

Tenho saudade das madrugadas cheias de esperança, as madrugadas políticas, a boemia de esquerda, soldados de uma guerra imaginária. Meu Deus, como eu era importante, como me senti útil quando ajudei um pouco a luta armada, quando levei no meu fusca um casal de feridos sangrando no banco de trás, até um "aparelho", quando o líder da célula pegou o volante e eu fui ao lado, de olhos fechados para não saber onde estávamos - se bem que espreitei pela fresta das pálpebras e vi o casal mancando em direção a um prédio. Tenho saudades dessa trágica solidariedade, mas tremi nesse dia, pois comecei a entender que não havia apenas um deserto à nossa frente, mas uma avalanche de obstáculos imensos e que íamos acordar de um sonho para um pesadelo. Entendi que éramos fracos demais para moldar a realidade e que a vontade não bastava, pois as coisas comandavam os homens e a vida tem um curso próprio e misterioso. Entendi que ser político e lutar pelo futuro exige vagar e respeito pela insânia do mundo e que a tragédia é parte essencial da vida e que tentar saneá-la pode levar-nos a massacres piores. Entendi que luta política se faz com humildade e que só a democracia é revolucionária no Brasil. Fora isso, é o desastre. Mas, tenho saudade da mistura de poesia com revolução que era nossa vida, tenho saudade desse narcisismo onipotente e inocente, tenho saudade da esperança e da ilusão.