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sexta-feira, janeiro 04, 2013

Aprendendo a debater


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Nelson Motta, em sua coluna do jornal O Globo de hoje, começa colocando o dedo na ferida: "A maneira mais estúpida, autoritária e desonesta de responder a alguma crítica é tentar desqualificar quem critica, porque revela a incapacidade de rebatê-la com argumentos e fatos, ideias e inteligência". Ou seja, muitos trocam argumentos por “coices e relinchos”, título de seu excelente artigo sobre a reação de muitos esquerdistas às críticas de Ferreira Gullar ao “mito” Lula.

Foi-me impossível ler tais palavras e não pensar automaticamente na mensagem que havia recebido ontem de noite de um leitor crítico. As críticas são sempre bem-vindas, pois, como sabia o outro Nelson, o Rodrigues, “os admiradores corrompem”. O problema é quando o crítico não quer realmente debater, pois prefere se cercar de suas “certezas” obtidas não pelo raciocínio, mas pelas emoções.

E esse foi justamente o caso. O leitor inicia sua mensagem comparando meu currículo e minha idade com a sua experiência profissional. Nada mais patético do que começar fazendo um apelo à autoridade. Em seguida, ele liga uma metralhadora giratória de slogans e clichês esquerdistas, alegando que a Petrobras é um “orgulho nacional”, que eu devo ser um tucano, um “vendilhão da Pátria”, um lacaio do império americano, e devo receber dinheiro das multinacionais para defender a privatização da estatal.

Tudo isso entre um “prezado” e um “cordialmente”. Ou seja, ele pensa que educação está somente na forma, e não no conteúdo do que é dito. Deve ser influência da TV Senado, com aqueles xingamentos chulos entre um “vossa excelência” e outro.

Mas isso é o de menos. O mais triste mesmo é o sujeito demonstrar, na largada, que não quer debater de verdade, focando em argumentos. Infelizmente, essa é a regra por aqui: sobram coices e relinchos, e faltam bons argumentos!  

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Razão e relinchos


Michel Laub, Folha de SP

Existe um livro de Schopenhauer chamado "Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão" (ed. Topbooks). Um dos riscos de escrever uma coluna de jornal hoje, ou de opinar em qualquer instância pública, é o oposto: ser ignorado, quando não perseguido e açoitado num pelourinho de grunhidos, relinchos e cacarejos, a despeito da mais cuidadosa argumentação.
Convencer alguém a mudar de ideia não é algo comum em nosso tempo. Basta uma semana nas redes sociais para perceber: militantes pró e contra aborto, descriminação da maconha, eutanásia, cotas, cabras e sobrenomes Guarani-Kaiowá, a maioria está ali para confirmar certezas prévias ou se irritar com quem diz o contrário.
Uma radicalização que também nasce do meio: para que os palpites sejam ouvidos entre tantas vozes, a tendência é que o adjetivo prevaleça sobre o termo exato, a ênfase sobre a ponderação, as regras generalizantes sobre as nuances que tiram a graça e o colorido das frases e slogans.
Num cenário assim, não é difícil adotar um tom nostálgico ou apocalíptico. Talvez se possa lamentar o fim de uma suposta era de ouro dos debates elevados. Prefiro seguir achando que a humanidade não mudou tanto: apenas passamos a ouvir, graças a uma tecnologia muito mais benéfica que perniciosa, que criou possibilidades infinitas de compartilhamento de informação, as conversas antes restritas a botecos. É um choque descobrir que amigos são tão ignorantes, levianos ou idiotas, claro, mas até isso tem seu lado positivo.
De certa forma, estamos diante de um problema das democracias maduras, que já superaram -ou deviam ter superado- questões graves referentes à liberdade de discurso. Ou seja, não estou falando da lei, que proíbe censura, calúnia, injúria e difamação. Nem da ética, que repele a desonestidade intelectual sem que seu autor precise ir para a cadeia. Estou falando é de etiqueta, a "pequena ética" que em sua face menos elitista propõe tolerar os modos alheios -um caminho para, quem sabe, prestar atenção ao que eles representam.
Isso porque linguagem e tom -que são maneiras de segurar os talheres num debate- nem sempre arruínam as ideias por terem aparência tosca. Dá um pouco de cansaço, por exemplo, quando bikers defendem suas propostas para o trânsito com tamanha agressividade. Ou quando a pecha de "fascista", misturada à teoria política da salmonela, aparece na discussão sobre bisnagas de plástico proibidas em feiras e lanchonetes. Ainda assim, tudo a favor de ciclovias e meios alternativos de transporte, e abaixo aqueles saquinhos tristes de ketchup e mostarda.
Num ensaio de 2005, um nome insuspeito quando o tema é a consequência das palavras -Salman Rushdie, que passou anos escondido por causa de um livro considerado blasfemo pelo Irã- escreveu: "Na Universidade de Cambridge, me ensinaram (...) que não se deve ser grosseiro com a pessoa com quem se discute, mas se pode ser extremamente grosseiro em relação a tudo que ela pensa". Parece uma citação descabida num texto sobre etiqueta. Na verdade, é a lembrança de uma regra ideal em debates: deveria importar o que é dito, e não quem diz. É o que impede um interlocutor de ser desqualificado por gênero, crença, classe ou etnia.
Forçando um pouco a boa-fé, por que não abstrair também o partido em que o interlocutor vota, a empresa jornalística onde trabalha, os amigos que tem? Ou suas deficiências retóricas, sua ingenuidade, sua queda pelo vitimismo, pelo sentimentalismo, pelo insulto? A distinção total entre texto e autor é utópica, e o conteúdo de uma ideia pode ser indistinguível de sua forma, e às vezes tudo se resume mesmo a interesse ou tolice, mas o esforço para enxergar um pouco além disso é sempre virtuoso. Pensar com liberdade, o melhor atalho para identificar o lado certo numa disputa, passa por ouvir e aprender com vozes dissonantes. Mesmo que o timbre delas seja mais frequente em zoológicos, penitenciárias e hospícios.

quinta-feira, outubro 04, 2012

Primeiro debate americano: o massacre


Rodrigo Constantino

O primeiro debate entre Obama e Mitt Romney foi um verdadeiro massacre. Obama sofreu nocaute. O formato do debate é bastante interessante, e permitiu contestações diretas, assim como cada postura ficou evidente para os eleitores.

Romney se mostrou bem mais seguro e firme nas propostas, encurralando Obama várias vezes. As linhas ideológicas divisórias ficaram bastante demarcadas. Romney defendeu abertamente o capitalismo, a empresa privada, o lucro, a descentralização do poder, enquanto Obama sustentou sua visão mais estatizante.

Ambos visaram o eleitor da classe média, mas não resta dúvida de que Romney apresentou os melhores argumentos em defesa da criação de empregos, função básica dos pequenos empresários espremidos pela gestão Obama. Romney teve a coragem de defender bandeiras ecologicamente incorretas também, como mais licenças para extração de petróleo e até carvão.

Por outro lado, cutucou Obama várias vezes com a questão da energia verde, lembrando que Obama destinou US$ 90 bilhões para projetos que não geraram emprego algum, e ainda levaram a escândalos como o do caso Solyndra. Romney ainda citou o fato de que vários desses beneficiados foram colaboradores da campanha de Obama, um duro golpe no capitalismo de compadres do presidente.

Romney foi insistente ao negar as acusações de Obama sobre o ”seu“ projeto de corte de déficit de US$ 5 trilhões, comparando Obama aos seus filhos, que tentam transformar uma mentira em verdade com base na repetição. Obama comparado a uma criança mentirosa: não tem preço!

Obama, totalmente sem noção, afirmou que a Previdência Social está bem encaminhada nos Estados Unidos. Além disso, partiu para o jogo de culpar heranças malditas pela péssima situação econômica, incapaz de apresentar bons dados após seus quatro anos no poder. Romney soube explorar bem essa questão, frisando que Obama teve tempo para melhorar as coisas, e tudo que fez colocou o país na rota errada. Vão insistir no erro por mais quatro anos?

Sobre saúde pública, houve claras diferenças. Obama defendeu seu modelo coletivista, o ObamaCare, uma espécie de SUS, chegando a afirmar que era um problema os planos de saúde quererem lucrar (!!!). Já Romney pregou mais descentralização, liberdade para cada estado decidir suas políticas, e lembrou que o setor privado costuma ser bem mais eficiente ao prover serviços.

O excesso de regulação no setor bancário, por meio da absurda Dodd-Frank, um calhamaço de milhares de páginas aprovado sem ninguém ler, que acaba protegendo os grandes bancos, também foi atacado diretamente por Romney. Em relação ao setor de educação, Romney defendeu o direito de cada aluno escolher, ou seja, o voucher. Ponto para ele!

Em linhas gerais, Romney deixou bem mais evidente sua defesa do regime capitalista liberal, resgatou a Constituição, citou a importância da responsabilidade individual e atacou a visão centralizadora estatal, típica de Obama. Já o presidente parecia apático, em contraste com a energia do opositor, e quase gaguejou ao defender o capitalismo, que não lhe é tão caro assim.

Retórica por retórica, eis a conclusão deste primeiro debate presidencial: Mitt Romney defende a iniciativa privada movida pelo lucro, enquanto Obama defende os projetos grandiloquentes estatais por meio de planejamento central. Em outras palavras, Romney representa os Estados Unidos; Obama, a França. A diferença ficou registrada de forma evidente. Cabe aos eleitores americanos decidir qual rumo desejam para esta grande nação.