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quarta-feira, julho 24, 2013

Nossos problemas mal começaram...

Rodrigo Constantino

O ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, tem sido um dos maiores críticos do modelo econômico do governo Dilma. Alguns chegaram a atribuir suas duras críticas à demissão do Banco Santander. Ela ocorreu após episódio em que o então presidente da Petrobras ficou constrangido diante das perguntas feitas pelo economista em um evento, expondo os malabarismos contábeis do governo. Tudo seria, então, fruto do "ressentimento".

Como fica claro, não era nada disso. Era uma análise acurada que o economista fazia do quadro econômico. Tenho orgulho de dizer que estive do seu lado esse tempo todo, quando éramos minoria e muitos ainda celebravam as "maravilhas" do "novo" modelo desenvolvimentista. Enquanto a turma soltava fogos de artifícios, nós e mais alguns outros apontávamos para o crescente e visível risco de inflação à frente. 

Agora que os alertas se concretizaram, o governo e os desenvolvimentistas não jogaram a toalha, não admitiram seus equívocos, não fizeram uma mea culpa, nada disso. Eles optaram pela negação da realidade, e insistem no erro. Essa é uma atitude acovardada e perigosa. Por isso é tão importante, do nosso lado, insistir nos alertas. Até a ficha cair de verdade do lado de lá.

Em sua coluna na Folha hoje, Schwartsman vai na mesma linha do meu artigo no GLOBO de ontem, ao mostrar como o governo sofre do que chamei de "fatofobia". Diz o economista:

Desde 2010, a inflação é (bastante) superior à meta (o desvio médio por ano foi de 1,6%), e, pior, espera-se que continue acima dela nos próximos anos: a inflação esperada entre 2014 e 2017 é, em média, 5,5% ao ano.

À luz desses desenvolvimentos, o que se espera da responsável pela política econômica não é a reafirmação do que já sabemos, mas, sim, o que será feito para trazer a inflação para o valor prometido à nação pelo próprio governo.

Nesse aspecto, a fala se encaixou bem no perfil do "Conselhão": entre generalidades e a negação da realidade (o gasto federal, supostamente controlado, está no nível mais alto da história), nada foi dito que sinalizasse uma estratégia consistente para lidar com a inflação alta e o crescimento baixo.

Pelo contrário, incapaz de escapar das armadilhas ideológicas em que se meteu e pressionado pela queda de popularidade, a tendência é de isolamento crescente, uma espécie de "autismo econômico" em que a realidade tem que ser ignorada a todo custo.

Serve para produzir discursos para o "Conselhão"; jamais para resolver um problema de verdade.

Concordo, claro. E por isso repito: nossos problemas não foram resolvidos. Na verdade, posso dizer que eles mal começaram... 

quarta-feira, julho 17, 2013

O fracasso órfão

Rodrigo Constantino

O sucesso tem muitos pais, o fracasso é órfão. Nunca esse ditado foi tão válido quanto agora, que economistas keynesianos "desenvolvimentistas" se fazem de neutros - ou mesmo de oposição! - em relação ao modelo que trouxe esse grande fracasso econômico. Eu comentei sobre isso aqui, e fico feliz de ver que Alexandre Schwartsman, outro dos que apontou as falhas antes, lá atrás, também não deixou passar batido essa tremenda cara-de-pau. Ele diz:

"Se minha Teoria da Relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão e a França me declarará um cidadão do mundo. Mas, se não estiver, a França dirá que sou alemão e os alemães dirão que sou judeu."

Enorme (astronômica mesmo) é a distância que vai de Guido Mantega a Albert Einstein, mas não pude deixar de me lembrar dessa frase ao ler a tentativa patética de ilustres representantes do "keynesianismo de quermesse" de renegar modelo econômico adotado recentemente no país, buscando também se distanciar do falante ministro da Fazenda.

Durante os anos em que o país adotou o chamado "tripé macroeconômico", caracterizado pelo câmbio flutuante, pelo compromis- so com as metas de inflação e pelo cumprimento das metas do superavit primário, autodenominados "desenvolvimentistas" não se vexaram de prometer um desempenho melhor caso sua estratégia fosse adotada.

Segundo esse pessoal, seria possível crescer muito mais caso a taxa de câmbio fosse administrada, a taxa de juros, reduzida, o grau de intervenção do governo na economia aumentasse (via políticas setoriais) e a política fiscal fosse relaxada.

Não é necessário nenhum grande salto de imaginação para notar que essas têm sido as vigas mestras do que se convencionou chamar de "nova matriz econômica", que entrou paulatinamente em vigor nos anos finais do governo Lula, ganhando força considerável nestes dois anos e meio da administração Dilma. Diga-se, aliás, que a transição foi aplaudida entusiasticamente por todos os que defendiam essa alternativa ao "tripé".

A tentativa de jogar a culpa em fatores exógenos também demonstra falta de hombridade para assumir os erros. Schwartsman não deixa barato:

É duro de engolir. À parte a desaceleração global ser uma pálida sombra do enfarte econômico de 2008/09, não se pode ignorar o desempenho dos demais países emergentes, em particular os latino-americanos, cujo crescimento tem sido bem mais vigoroso que o brasileiro e sem os nossos desequilíbrios, como mostra a inflação muito mais baixa nesses países.

Partindo de um diagnóstico equivocado, tentam se diferenciar das políticas adotadas como se estas tivessem atuado na direção correta, apenas em intensidade insuficiente. Em outras palavras, defendem gastos ainda maiores, sem aparentemente levar em conta que o dispêndio federal está no nível mais alto da história, muito menos perceber as consequências desse tipo de política sobre a inflação e as contas externas.

Nada esqueceram e nada aprenderam; exceto talvez que a derrota é uma órfã que precisa ser abandonada no primeiro artigo que se tenha chance.

Ouch!