Rodrigo Constantino
O livro As boas intenções, do
escritor espanhol Max Aub, ilustra de forma sarcástica como medidas repletas de
bons sentimentos podem acarretar efeitos catastróficos, inclusive na vida
daqueles que tais ações mais visavam a ajudar.
Trata-se da história de Agustín Alfaro (A.A.), “o que normalmente se
chama um bom rapaz”, nas palavras do
autor. O livro retrata uma série de acontecimentos trágicos que vão ocorrendo à
medida que Agustín tenta proteger sua mãe do sofrimento.
Tudo começa quando surge na casa da família uma moça chamada Remedios,
que alega ser mãe de um filho de Agustín. O problema é que o rebento não era de
Agustín, e sim de seu pai, que usara o nome do filho com a amante.
No afã de poupar sua querida mãe de tamanho sofrimento, uma vez que ela
considerava o marido um homem exemplar, Agustín acaba aceitando a farsa. O que
se segue é uma verdadeira comédia de enganos que, naturalmente, acaba por
desgraçar ainda mais a vida de sua mãe, sem falar das demais pessoas envolvidas,
começando pelo próprio Agustín.
Pessoas
repletas de boas intenções, mas desfalcadas na razão, podem se proteger das desgraças
do mundo criando a ilusão de que basta a boa vontade para acabar com o mal.
Lembrei dessa história quando vi as declarações de outro Augustin, o secretário
do Tesouro Nacional, sobre o superávit primário. Para Arno Augustin (A.A.), a
meta fiscal não é tão importante e deve ficar à mercê do comportamento da
economia.
Em
outras palavras, o governo não deve poupar para abater o endividamento público,
e sim mirar no crescimento econômico. Claro que ninguém ousaria duvidar das
boas intenções do secretário A.A., que não poderia ser acusado de interesse
eleitoreiro de curto prazo. Suas intenções são puras, as melhores possíveis.
Caso contrário a presidenta Dilma jamais o escolheria para cargo tão
importante.
Mas
é que, faltando-lhe conhecimento econômico, suas lindas intenções vão levar a
uma comédia de enganos, no final altamente prejudicial aos mais pobres, que ele
certamente quer ajudar. São pessoas assim, como o A.A. do livro e o nosso A.A.,
que reforçam a máxima de que o inferno está cheio de boas intenções...