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quinta-feira, julho 25, 2013

O enigma Hollande

Rodrigo Constantino

O editorial do GLOBO de hoje mostra a perda de aprovação do presidente socialista da França. Hollande ainda não teria mostrado a que veio. Diz o jornal:

O socialista François Hollande foi eleito na França com a promessa de ser um presidente “normal”, em contraposição à agitação e à volatilidade do rival, Nicolas Sarkozy. O argumento foi bem-sucedido na eleição, mas se mostra insuficiente para governar. Pouco mais de um ano após assumir, só 26% dos franceses o aprovam, o mais baixo índice desde 1958. A persistência da estagnação econômica e do desemprego (11%) conspira contra um político cuja liderança não convence.

[...]

Hollande segue sem convencer que seu governo será capaz de recolocar o país nos trilhos. Até porque, segundo a maioria dos analistas, isso demandaria reformas para reduzir a burocracia, os gastos e o peso do Estado na economia, estimular o aumento da produtividade no setor estatal e no privado, flexibilizar leis trabalhistas e fazer reformas como a do modelo de previdência social, deficitário. Esta última vem desafiando os últimos líderes franceses, confrontados com o poder dos sindicatos, que podem parar o país ao menor sinal de perda de privilégios. Hollande quer iniciá-la em setembro.

Sua situação é difícil. A maioria socialista na Assembleia Nacional caiu para cinco cadeiras, após derrotas em eleições isoladas. Hollande depende mais do que nunca do apoio dos Verdes e de grupos de esquerda que são, no mínimo, céticos sobre a política econômica do chefe de Estado. Ele ainda tem tempo para mostrar a que veio. Não se sabe é se tem o que mostrar.

De fato, Hollande tem se mostrado um líder medíocre, na melhor das hipóteses. Mas isso não é surpresa, ou não deveria ser. Se esquerdistas como Verissimo ficaram empolgados com sua vitória, liberais como eu apontaram, logo na largada, que a França não tinha como decolar com ele. Hollande representa as idéias equivocadas e atrasadas da esquerda, que pensa ser possível produzir riqueza tirando dos ricos e dando aos pobres. Isso nunca funcionou na história, e nunca vai funcionar.

Apostar no fracasso de governos socialistas é algo tão certeiro quanto apostar nas fases da Lua. Por isso eu nem posso me gabar deste vídeo, gravado à época da vitória de Hollande. Já quanto aos esquerdistas como Verissimo, que celebraram sua vitória, terão de se fazer de desentendidos uma vez mais. É sempre assim. Não há enigma algum aqui. Socialismo não tem como funcionar, ponto.


terça-feira, julho 09, 2013

Perfume francês fedorento

Rodrigo Constantino

Reportagem no Valor mostra que investimentos na França estão recuando:

A economia francesa enfrenta um problema crescente em sua luta para criar empregos e sair da recessão: apesar dos juros baixos, companhias e empresários estão reduzindo seus investimentos. Eles estão adiando planos de ampliação de fábricas já existentes e cancelando os projetos para construção de novas unidades.

Por trás da relutância está uma combinação difícil. Os impostos mais altos e a concorrência estrangeira mais barata derrubaram as margens de lucro das companhias francesas ao menor nível desde 1985 - reduzindo a capacidade das empresas de suportar riscos. Ao mesmo tempo, líderes empresariais afirmam que os desafios das taxas de juros imprevisíveis e a burocracia francesa sempre em mutação também estão aumentando.

"Precisamos do mínimo de incerteza possível, mas em vez disso há cada vez mais", disse Pierre-André de Chalendar, diretor-presidente da firma de materiais de construção Compagnie de Saint-Gobain, em um encontro anual de líderes empresariais franceses e autoridades econômicas, realizado no domingo em Aix-en-Provence.

[...]

Economistas afirmam que o declínio é especialmente preocupante na França por causa da menor lucratividade das empresas do país. O lucro bruto por ação, ou margem bruta - uma medida padrão das margens de lucro -, das empresas não financeiras na França ficou em 25,7% no fim do ano passado, em comparação à média de 35,2% da zona do euro, segundo dados da agência europeia de estatísticas Eurostat. Com isso, as companhias francesas terão uma propensão menor a aumentar os investimentos quando a demanda melhorar, ameaçando as perspectivas de crescimento da zona do euro como um todo.

A economia francesa já está sofrendo. O PIB ficou estagnado em 2012 e a economia entrou em recessão na virada do ano. A Insee disse no mês passado que espera uma contração econômica de 0,1% em 2013, em comparação a 2012.

Um número crescente de líderes empresariais culpa as políticas imprevisíveis do governo pela falta de investimentos. Após o governo empurrar uma conta de €20 bilhões em novos impostos para reduzir o déficit fiscal neste ano, líderes empresariais temem agora uma reorganização do sistema previdenciário que poderia envolver maiores contribuições dos patrões. E na semana passada o primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault prometeu mudanças nos impostos no ano que vem, para o fornecimento de incentivos ambientais.

"O verdadeiro problema é essa mudança permanente nas regras. Isso segura os investimentos", disse Didier Lombard, presidente do conselho de administração da STMicroelectronics, a maior fabricante de semicondutores da Europa. "É preocupante."

Quando o socialista Hollande venceu as eleições na França, gravei um vídeo alertando que a situação econômica iria se deteriorar. Não deu outra. Nem é possível cobrar créditos por esta previsão; ela era fácil demais. Os socialistas têm esse dom de estragar tudo aquilo que tocam. A explicação é óbvia: quando o governo maltrata empresários, aqueles que criam a riqueza do país, eles costumam reagir. Quem paga a conta é o povo, sempre.

O modelo estatizante francês é como um falso perfume, que parece atraente de fora, mas que solta um odor terrível de perto. A expressão laissez faire surgiu justamente na França, como resposta às intervenções de Colbert. Os empresários querem ar, precisam de mais liberdade, menos impostos e burocracia, para produzir riqueza. Com socialistas no caminho, essa tarefa se torna praticamente impossível.  

sexta-feira, julho 05, 2013

Espião francês pode?

Rodrigo Constantino

Deu na Folha: França mantém amplo esquema de espionagem

O governo da França mantém um amplo esquema de espionagem usado para interceptar, sem autorização judicial, ligações telefônicas e mensagens na internet, afirmou ontem o jornal "Le Monde".
A publicação comparou a estrutura ao Prism, sistema de vigilância dos EUA cuja existência foi revelada pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden.
A revelação constrange o governo do presidente François Hollande, que havia protestado contra a coleta de dados pelos americanos.
De acordo com o "Le Monde", a espionagem feita no país é ilegal e não obedece a nenhum tipo de controle externo.
O governo francês não havia comentado o assunto até a noite de ontem.

Onde estão os esquerdistas? Onde está a revolta dos artistas e intelectuais da gauche caviar? Quando o alvo do ataque é o governo americano, sai de baixo; especialmente se for um governo Republicano! Obama tem recebido muitas críticas sim, por usar a abusar de mecanismos que, sob Bush, eram alvo de repúdio absoluto. Mas mesmo Obama já recebe uma crítica bem mais suave do que receberia Bush. E isso só porque ele não pode mais ser reeleito.

Mas quando é o governo francês... aí a turma dos "direitos civis" fica bem mais discreta, calma. Quando é o governo francês sob um socialista como Hollande então! Esse tipo de duplo padrão demonstra que falta muita imparcialidade nos debates. Governantes mais alinhados com o pensamento de esquerda gozam de uma espécie de salvo-conduto para abusar do poder. 

Isso não está certo, e precisa mudar. Mas, para tanto, é preciso colocar a busca pela verdade e a objetividade das críticas acima da ideologia. Talvez seja pedir muito desses artistas e intelectuais...

quinta-feira, maio 23, 2013

Concorrência entre governos faz bem

Rodrigo Constantino

“Nós não podemos aceitar que certo número de companhias se coloque em situações para evitar o pagamento de impostos de maneira legal. Nós devemos coordenar ações em nível europeu, harmonizar nossas regras e apresentar estratégias para acabar com essa prática”, disse o presidente socialista francês, François Hollande. O assunto veio à tona após a descoberta de que a Apple teria usado mecanismos legais para reduzir o pagamento de impostos.

O que queria o socialista? Que as empresas não tentassem minimizar pelas vias legais seus pesados impostos para sustentar o falido “welfare state” e as boquinhas de políticos? Ou talvez que usassem meios ilegais para tanto, como fazem justamente poderosos políticos, alguns apontados em escândalos recentes dentro do próprio governo Hollande?

Certo está o senador Republicano Rand Paul, que fez um duro ataque ao próprio Congresso americano, em defesa da Apple. Ele questionou se algum membro do Parlamento ali presente, por acaso, não fazia o que era possível pela lei para pagar menos impostos. Depois, lembrou que o grande responsável por isso são os próprios políticos, que criam inúmeros impostos e gastam US$ 4 trilhões dos “contribuintes”. “Querem um culpado pela situação? Que tragam um enorme espelho para o Congresso”, clamou corajosamente Rand Paul.

Quando empresas atuam num ambiente de livre concorrência, o maior beneficiado é sempre o consumidor. Afinal, a empresa precisa buscar sempre maior eficiência para sobreviver, e isso normalmente implica em menores preços finais, decorrentes dos ganhos de produtividade.

Curiosamente, esta lógica não se aplica à concorrência entre governos, segundo muitos economistas. Eles chamam de “guerra fiscal” a competição entre governos na busca por investimentos produtivos, deixando claro o tom negativo da disputa. Por trás disso, reside uma mentalidade de que menos imposto é algo ruim, ou seja, que recursos nas mãos do governo são mais bem utilizados que nas mãos privadas. Não há nem lógica econômica, nem evidência empírica para sustentar esta visão.

A globalização tem gerado incríveis avanços para a humanidade. Entre eles, uma das grandes mudanças positivas é justamente a maior competição entre governos. Com a maior mobilidade de capitais, as empresas podem transferir suas sedes para qualquer nação, mantendo a produção nos países mais competitivos. Isso força uma busca por maior eficiência por parte dos governos, levando a menores impostos e burocracia, caso contrário haverá grande perda de investimentos.

O federalismo dentro de um país é algo bom. Gera concorrência entre estados e o eleitor pode votar com o pé. A mesma lógica se aplica em nível global, entre países. Governos gastam muito mal, pois os incentivos não são adequados, e a corrupção é sempre maior. Portanto, qualquer coisa que contribua para reduzir a receita tributária é positiva, pois somente isso vai impor limites nos gastos públicos.

Nesse contexto, fica claro que o termo “guerra fiscal” só interessa mesmo aos consumidores de impostos, não aos seus pagadores. Faz mais sentido falar em “competição fiscal”, e todos os consumidores sabem que a competição é seu maior aliado. David Cameron, o primeiro-ministro conservador britânico, está certo quando diz: “Eu acredito em impostos baixos para os negócios, porque temos que encorajar investimentos. Eu quero que o Reino Unido seja vencedor na corrida global”.


Essa corrida é boa para todos, à exceção dos parasitas do estado. Hollande, como todo socialista, pensa o contrário: ele quer impedir a corrida, para que as lesmas paquidérmicas possam desfrutar do trabalho alheio sem o incômodo das ágeis lebres. Por isso detestam concorrência. A Apple merece nosso apoio; Hollande e demais socialistas, nosso repúdio. Viva a concorrência!

sexta-feira, junho 08, 2012

Esse é o Hollande!


O homem responsável pelo governo socialista da segunda maior economia da zona do euro. Cada um tem o seu Lula, não é mesmo?





Aliás, soube que o filme Madagascar 3 descasca o modelo francês. Quando o avião cai no país, os macacos saem correndo enquanto os pinguins exigem que eles trabalhem no conserto da aeronave. Os macacos, bem adaptados ao clima político francês, alegam que lá eles desfrutam de direitos trabalhistas fartos, e que não precisam trabalhar "tanto" assim. Ainda não vi o filme, mas já gostei!

Eu me remexo muito! Eu me remexo muito! Já os franceses que votam em Hollande gostam mesmo é de sombra e água fresca, de preferência bancadas pelos outros...

terça-feira, maio 08, 2012

O naufrágio da Europa

João Pereira Coutinho, Folha de SP

1. François HOLLANDE ganha as presidenciais francesas e a Europa, ou uma parte dela, respira de alívio: agora, finalmente, será possível abandonar a austeridade e abraçar o crescimento econômico.

O próprio Hollande foi alimentando as expectativas: com ele, a disciplina orçamental imposta pelos alemães aos restantes países da União Europeia seria "renegociada"; a economia francesa iria promover políticas de crescimento econômico a curto prazo; e o Estado social seria preservado, e até reforçado, com mais funcionários públicos, a diminuição da idade da reforma (dos 62 para os 60 anos) e subsídios de todo tipo (para famílias, jovens, empresas etc.).

Infelizmente, faltou a pergunta sacramental: e quem paga todos esses delírios?

Mistério. Verdade que "monsieur" Hollande, para sustentar algumas das suas propostas, acredita que a Europa será capaz de emitir "eurobonds" para financiar grandes projetos industriais ou de infraestruturas; ou até de alterar os estatutos do Banco Central Europeu para que a instituição passe a financiar diretamente os Estados.

O que Hollande desconhece, ou propositadamente ignorou, é que nada disso depende da sua exclusiva vontade. E a Alemanha, que tem a chave do cofre, opõe-se frontalmente às ambições do novo presidente francês. Por questões de princípio, interesse econômico -e eleições em 2013.

Ou muito me engano, ou as expectativas geradas por François Hollande só vão durar até as eleições legislativas de junho. Depois, será a ressaca da realidade.

2. Alguns amigos que trabalham na União Europeia não gostam das minhas posições eurocéticas. A União Europeia é sagrada, o euro, idem, as "políticas de austeridade" impostas pela Alemanha, ibidem.

E eu não passo de um dinossauro, amarrado a noções anacrônicas de "soberania nacional" que não têm mais lugar no mundo globalizado onde vivemos.

Defendo-me como posso. Digo que nada tenho contra a União Europeia. Pelo contrário: reconheço o seu papel como garantia de paz e prosperidade na Europa.

Mas reconhecer isso não me obriga a reconhecer o resto. O euro, por exemplo, foi um erro político grave -e a sua manutenção a qualquer preço, um erro político ainda maior.

Não é possível que uma moeda comum possa servir a países com estruturas econômicas tão distintas. A União Europeia não é uma federação de Estados. É apenas uma coleção de tribos com histórias, vícios e virtudes dissonantes.

O euro, que supostamente acabaria por aproximar as nações do continente, apenas revelou o fosso inultrapassável que existe entre países excedentários (Alemanha) e deficitários (Grécia ou Portugal).

De resto, e sobre as "políticas de austeridade", não me oponho a elas -em teoria: é importante que os Estados tenham controle nos gastos e moderação nos seus níveis de endividamento. A festa do euro, que possibilitou dinheiro fácil a juros baixos, não podia continuar.

O problema é que não é possível realizar ajustamentos brutais nas economias endividadas do continente quando esses países perderam soberania monetária. A austeridade só alimenta ciclos recessivos sem fim que, por sua vez, exigem novas medidas de austeridade.

A Grécia é o melhor exemplo dessa armadilha: depois de dois pacotes de resgate e de um calote negociado da dívida, o país está na mesma: quebrado. E, sem surpresa, com partidos extremistas a crescerem no Parlamento e nas ruas.

3. França, Grécia, Holanda em breve: a grande novidade nos ciclos eleitorais da Europa está no regresso dos extremismos.

No primeiro turno das presidenciais francesas, a extrema-direita da Frente Nacional obteve 17,8% dos votos; Marine Le Pen promete agora repetir o resultado nas legislativas de junho.

Na Grécia, a esquerda radical ficou em segundo lugar -e um partido abertamente neonazista elegeu duas dúzias de deputados. E, na Holanda, a extrema-direita derrubou o governo duas semanas atrás.

Qualquer pessoa que tenha uma noção da história reconhece o que se está a passar: com economia moribunda e desemprego massivo, a Europa regressa à década de 1930.

Os meus amigos euroentusiastas assobiam para o lado e fingem que não se passa nada. Essa atitude também faz parte do "déjà-vu".