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terça-feira, julho 16, 2013

Ressentimento antiamericano

Rodrigo Constantino

O governo americano espiona, e isso vazou. O governo francês espiona, e isso também vazou. No entanto, o grau de revolta que um gera é infinitamente maior do que o outro. Por que? Talvez Raymond Aron, sociólogo francês, tenha a resposta. Em seu clássico "The Opium of the Intellectuals", ele tenta explicar o motivo de tanta revolta com os Estados Unidos, especialmente por parte dos intelectuais europeus, e mais ainda dos franceses. Em tradução livre:

Como poderíamos esperar que os europeus perdoassem aqueles que se beneficiaram com as consequências de suas loucuras - se se pode considerar uma posição de hegemonia como invejável? Mesmo que os americanos estivessem acima de qualquer suspeita, os europeus achariam difícil não se ressentir com um sucesso que foi a contrapartida do seu próprio declínio. Felizmente, os americanos não são irrepreensíveis.

[...]

O homem da rua é muito propenso ao ressentimento contra o todo-poderoso aliado, muito propenso a amargura decorrente da fraqueza nacional, a nostalgia da glória do passado e a esperança de um futuro diferente e melhor. Mas os intelectuais deveriam conter essas emoções populares, deveriam mostrar as razões inescapáveis ​​para a solidariedade permanente e a interdependência. Em vez de cumprir o papel de guias, eles preferem, especialmente na França, trair a sua missão, para incentivar os sentimentos das massas ignorantes aduzindo justificativas hipócritas para eles. Na verdade, sua briga com os Estados Unidos é uma forma de racionalizar a sua própria culpa.

[...]

Os Estados Unidos são representados como a encarnação de tudo que é mais detestado, e, em seguida, todo o ressentimento e ódio e fel que se acumula nos corações das pessoas em um momento de dificuldades é descarregado sobre esta figura simbólica.

Que ninguém venha, por favor, dizer que estou afirmando que não se pode criticar os erros dos americanos. Eles existem, em grande quantidade, e devem ser apontados. Mas o ponto aqui é outro. É apenas mostrar como há uma revolta bastante seletiva, que inexoravelmente julga com muito mais rigor tudo que vem de lá. O ressentimento parece uma boa explicação para essa postura...

PS: Tenho outros artigos sobre esse antiamericanismo e suas potenciais causas, como esse. 

sábado, julho 13, 2013

O controle da História

Cada geração tende a acreditar que os seus objetivos são completamente originais e sem precedentes e que representam os objetivos finais da humanidade. Esta vaidade é melhor do que a indiferença para com as necessidades corriqueiras da vida que surge da convicção de que todos os objetivos são igualmente inúteis. No entanto, em uma época como a nossa, isso vem carregado de potencialidades do fanatismo.

[...]

Aqueles que aspiram a comandar a história parecem sonhar ou com eliminar a intervenção de acidentes, de grandes homens e encontros casuais, ou com a reconstrução da sociedade de acordo com um plano global e descartando a herança de tradições injustificáveis​​, ou com por fim aos conflitos que dividem a humanidade e a levam até a trágica ironia da guerra. A razão nos ensina justamente o contrário - que a política será sempre a arte da escolha irrevogável por homens falíveis em circunstâncias imprevistas e de semi-ignorância. Cada impulso para o planejamento global está fadado a acabar em tirania.

[...]

Os revolucionários imaginaram que iriam controlar, não alguns elementos apenas, mas o todo. Essa ambição Prometeica é uma das origens intelectuais do totalitarismo. 

Trechos de capítulo com o mesmo título do livro "The Opium of the Intellectuals", de Raymond Aron, em tradução livre.