Rodrigo
Constantino, para a revista Banco de Ideias do Instituto Liberal
A
Organização das Nações Unidas, herdeira da falecida Liga das Nações, foi criada
com a melhor das intenções: servir como um instrumento em busca da paz mundial
após a Segunda Guerra. Será que ela atendeu aos anseios originais de seus
criadores? Será que o legado da ONU tem sido positivo?
A
resposta do israelense Dore Gold, que atuou em diversas funções diplomáticas, é
um retumbante “não”. Em seu livro Towerof Babble, ele argumenta que a ONU foi completamente desvirtuada, e acabou
contribuindo para instigar o caos global. O histórico da ONU, especialmente o
mais recente, após o término da Guerra Fria, é uma sucessão de fiascos: Bósnia,
Ruanda, Somália. Por quê?
De
forma bastante resumida, o fracasso da ONU se deve à perda de sua claridade
moral, presente na sua origem. Em um mundo dicotômico, com os aliados de um
lado e os fascistas do outro, era mais fácil defender o certo e o errado de
forma objetiva. Tal clareza foi substituída, com o tempo, pelo atual
relativismo moral exacerbado, onde, em nome da “imparcialidade”, ninguém mais
deve tomar partido.
Agressor
e agredido viraram conceitos muito elásticos, confusos, e o cinza absorveu
qualquer chance de divisão entre preto e branco. A ONU adotou um discurso
acovardado, politicamente correto, incapaz de julgar evidentes agressores. Ela
não se mostrou à altura do desafio de combater o terrorismo islâmico, por
exemplo, pois lhe falta convicção sobre a própria existência do inimigo.
A
democracia direta em nível global seria, hoje, transferir poder dos americanos
para chineses e indianos. Sem sólidos pilares institucionais e culturais, a
simples escolha da maioria pode representar a tirania sobre a minoria numérica.
Em parte, foi justamente isso que aconteceu com a ONU. Ela foi capturada por
países do Terceiro Mundo, e os Estados Unidos foram perdendo poder dentro da
instituição.
É
por isso que países sob regimes autoritários ocuparam o Conselho de Direitos
Humanos da ONU, esvaziando-o de qualquer sentido. É por isso também que o
pequeno Israel tem sido alvo da maioria das resoluções da ONU, recebendo
críticas absurdamente desproporcionais. Tiranos massacram seus povos, rasgam
qualquer acordo de direitos humanos, mas é Israel que sofre condenações
constantes da ONU. Não Cuba, não o Irã, tampouco a China, mas Israel, a grande
ameaça à paz mundial, segundo uma desmoralizada ONU.
Palco
para muitos discursos inflamados e poucas ações efetivas, a ONU se tornou o
paraíso dos burocratas e políticos populistas. Uma espécie de “governo mundial”
sem responsabilidade, sem eleições populares. O poder sem rosto. Para piorar, a
inoperância não tem sido punida, mas premiada! Vide a própria trajetória de
Koffi Annan. Com tal mecanismo de incentivos, a escalada da corrupção dentro do
organismo foi inevitável.
São
vários escândalos, como aquele do programa “Petróleo por Comida”, que teria
desviado US$ 10 bilhões dos petrodólares iraquianos de Saddam Hussein e
envolvia gente importante da Rússia e da França (talvez isso explique a reação
de ambos à guerra que derrubou o ditador). Há ainda casos de participação dos
funcionários da ONU em uma rede mundial de tráfico sexual, como retratado no
filme A Informante, com Rachel Weisz.
Com
essa postura de “equivalência moral” entre agressores e agredidos, tomada pela
maioria numérica de países antiamericanos e antissemitas, e envolta em
escândalos de corrupção, como encarar a ONU como uma esperança pela paz? E,
sabendo disso tudo, como condenar países como Estados Unidos, Israel e Inglaterra,
que precisam, muitas vezes, ignorar a ONU para sobreviver?
Dore
Gold está certo: aquilo virou uma Torre de Babel, uma cacofonia onde acaba
sobressaindo o viés antiamericano acima de tudo. A ONU fracassou em sua missão.