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quinta-feira, setembro 06, 2012

Saber fazer com o sintoma!

Por Dr. José Nazar

Mas, meu Deus, o que fazer com o sintoma desse homem? Vocês não veem que ele só consegue cantar suas óperas quando está tomando banho no chuveiro! O que fazer, ficamos paralisados, sem nada fazer?

Nada disso, temos de encontrar uma saída para este impasse, pois eu me lembro muito bem que Picasso certa vez disse: “eu não procuro, acho”. Sim, vamos pois achar uma saída, um meio para que esse desejo se realize, para que uma voz venha ser cantada, exaltada, sem medo de um sucesso, em sua revelação pública.
Mas ele só consegue cantar.... 

Ora, bolas, inventa-se alguma coisa, pense, algo deve ser possível. É isso, vamos colocá-lo em cena, cantando as suas mais lindas óperas, tomando banho num chuveiro, em público. Mas que escândalo! 

Quem poderia pensar numa loucura, tão criativa quanto iluminada, senão alguém que, certamente, fora levado em sua vida, a construir algumas saídas tão exuberantes como esta?

O que falar sobre este fantástico deslocamento, disso que leva alguém a ultrapassar suas inibições, rumo ao sucesso de uma realização? O sujeito não vai mais se acovardar diante de seu desejo, ele passa a aprender a fazer um bom uso das suas dificuldades, chega de acomodações!

Esta cena se passa no último filme de Woody Allen, “Para Roma, com amor”, onde ele diz que desejar é preciso. E ela somente foi possível em função do transcurso da vida psicanalítica. O diretor e ator, Woody Allen, submete-se à psicanálise desde sua infância. Por sofrer, ele pode criar, passar para outra coisa.

O seu entendimento do psiquismo humano permitiu a ele mostrar que é possível realizar mudanças significativas na vida de alguém, que é possível fazer algo positivo, criativo, com o sofrimento humano, no sentido de transformá-lo no melhor, mais livre, de enfrentar as angústias, os emperramentos que acometem o sujeito no mais fundo de seu ser, quebrar as amarras dos sintomas, das inibições, olhar no olho do lobo, olho no olho do furacão, dos transtornos que o abatem, aí, sim, ele pode mostrar, com todas as letras, como fazer um bom uso de seu sintoma. Isso que o molestava agora trabalha a seu favor.

O desenrolar do filme transcorre sob o matiz da busca de um certo desejo daquilo que já está ali. Um desejo que mais tarde será colocado, em sua arte de viver, na voz de um pai, que sob o manto de todas as resistências, sociais e familiares, explode ao olhar do público.

O personagem central do filme é um homem, já aposentado, que é obrigado a ouvir os absurdos insistentes da sua mulher, uma psiquiatra, que não faz outra coisa senão repetir uma mesma interpretação: “você está doente, vive associando sua aposentadoria com a morte”. 
Uma crítica séria mas, ao mesmo tempo, ilustrativa de uma realidade humana. Mas, ele estava ali, mais vivo do que nunca, e somente ele pode escutar que, por trás do ambiente cerceado pelos fantasmas de morte, a vida emerge como uma gigantesca fome de viver. É coisa de pai para pai!

Ele e a sua mulher partem para Roma para conhecer o noivo de sua filha e, de saída, sua família. O noivo é um belo italiano, jovem advogado, cujo sintoma é se esconder numa farsa do capitalismo, se acoberta nos bastidores de uma falsa ideologia de esquerda, ligada aos sindicatos trabalhistas. É evidente que o jovem não faz outra coisa senão justificar, com a sua acirrada posição socialista, o grande medo que ele e, portanto, sua família, tinha do sucesso. 

O sucesso do pai que cantava belíssimas óperas no chuveiro tomando seu banho ao entardecer. O sintoma, que se fazia recobrir de medos e fartas justificativas, o sucesso que vivia na sua alma, ao seu lado, dentro de sua casa, e que fazia tanto barulho, que era impossível não escutá-lo... na voz do pai. 

Woody Allen, o aposentado, especialista em óperas, deixa transparecer seu sintoma obsessivo, é lógico, que já por demais analisado, com seus temores de contaminação. O pai do noivo lida diretamente com a morte. Ele é proprietário de uma agência funerária, sua vida caminha às custas da morte, mas seu desejo estava à espera de uma escuta.

José Nazar é psiquiatra e psicanalista.

Artigo publicado no Jornal A Tribuna - ES

terça-feira, julho 10, 2012

Flores de obsessão

João Pereira Coutinho, Folha de SP

Woody Allen tem 47 filmes no currículo. E quando lhe perguntam se existe um único que ele compare aos melhores de Ingmar Bergman, Woody é modesto: nem um.

A frase sempre me pareceu excessiva: "Crimes e Pecados" (1990) está ao nível de "Morangos Silvestres" (1957). E "Zelig" (1983) não tem paralelo como comédia nos últimos 30 anos. O problema de Woody não é falta de obra-prima. É falta de obra-prima recorrente. Depois de "Crimes e Pecados", há coisas boas aqui e ali. E algumas joias antigas, como "Manhattan" (1979) ou "Hannah e Suas Irmãs" (1986).

Mas Bergman, admito, era capaz de fazer cinco filmes seguidos que mudavam a cultura de uma época. Quem começa com "Mônica e o Desejo" (1952) e termina o festim com os referidos "Morangos" sabe que não minto.

Por isso assisti a "Para Roma com Amor" sem expectativas homéricas. Os cínicos dirão que Woody Allen deixou de dirigir filmes. É hoje guia turístico que vai para onde lhe pagam: Londres, Barcelona, Paris. Quem sabe o Rio.

O próprio alimenta o mito: tempos atrás, de passagem por Portugal, perguntaram-lhe quando filmaria ele em Lisboa. Woody foi honesto: "E você consegue o dinheiro?".

Certo. Sem dinheiro, não há obra. Mas "Para Roma" não é mera encomenda italiana. É, como sempre acontece, um pretexto para revisitar os temas que são caros ao "autor" (e uso a palavra com o seu significado clássico).

O próprio Woody, aliás, assume essa condição metacrítica no filme. Por exemplo, quando os personagens contemplam as ruínas romanas e confessam sofrer de "Melancolia de Ozymandias".

Trata-se de uma referência erudita ao poema de Percy Shelley (1792-1822) sobre a estátua de Ozymandias, "rei dos reis", e testemunho material da inutilidade da existência quando a morte é certa.

Shelley escrevey "Ozymandias" em 1818, mas o poema deixou de lhe pertencer em 1980 quando foi apropriado por Woody "himself", em seu incompreendido "Stardust Memories - Memórias" (1980). É a primeira vez que um personagem seu é diagnosticado com a doença.

O cinema de Woody Allen é feito de evocações eruditas que se repetem de filme para filme. A tribo é a mesma: Shelley, Yeats, Rilke, sobretudo as linhas finais de "O Torso Arcaico de Apolo", presente neste filme pela boca pedante da personagem de Ellen Page (e presente em "A Outra", com força dramática decisiva).

Mas não são apenas as evocações eruditas que se repetem. Todo o resto retorna, a começar pelo amor romântico, pelos equívocos do amor romântico, pela tensão constante entre a razão e a emoção --a perpétua batalha em que a última vence temporariamente o confronto.

São incontáveis os filmes de Woody Allen em que os personagens (masculinos) se jogam pela janela amorosa, mesmo que o salto seja efêmero e suicidário. O ator Jesse Eisenberg representa em "Para Roma" o mártir sentimental da história. Eisenberg nasceu em 1983.

Mas, antes de ele nascer, muitos outros já tinham pulado pela mesma janela. A começar pelo próprio Woody Allen, como Alvy (em "Annie Hall") ou Isaac (em "Manhattan").

Não temos cura. E, para um longo cliente da psicanálise, nem o divã nos salva: haverá paciente que tenha dedicado à terapia tantas linhas de irrisão? "Se você encontrar Freud, peça-lhe o meu dinheiro de volta", diz ele à mulher psiquiatra (Judy Davis).

Finalmente, o melhor do filme: a história do cantor de ópera que só funciona no chuveiro. E que é levado para os palcos italianos com o chuveiro atrás.

É preciso ter passado décadas nas páginas da "New Yorker", a casa de S.J. Perelman ou Robert Benchley, para escrever uma gag dessas. Uma gag comparável ao casal que só conseguia transar em espaços públicos (em "Tudo o que Você queria Saber sobre Sexo"). Ou ao ator que estava fora do foco na vida real (em "Desconstruindo Harry").

Sim, são 47 filmes. Um ou dois não fazem má figura quando Bergman está por perto. Mas a obra-prima de Woody Allen não se resume a um filme ou dois. Na verdade, ela ainda está a ser retocada, ao ritmo de um filme por ano.

Um dia, quando olharmos para o conjunto, veremos que a repetição também é uma arte. E que os gênios são, como dizia Nelson Rodrigues, flores de obsessão.