Rodrigo Constantino
Importante entrevista nas páginas
amarelas de VEJA essa semana, com o matemático Nuno Crato, ministro da Educação
e da Ciência em Portugal (favor não comparar seu currículo ao de Aloizio
Mercadante, para não humilhar tanto a ex-colônia). Crato tem atacado o “eduquês”,
a pedagogia romântica e construtivista nas escolas. Ele está certo! Logo no
começo, ele explica melhor o que está condenando:
Minha crítica bate de frente com uma linha muito celebrada nas escolas
de hoje. É uma corrente que dá ênfase excessiva às atitudes e à formação cívica
do aluno e deixa em segundo plano o conhecimento propriamente dito. Pergunto:
como investir em educação cívica se o estudante não consegue nem ler o jornal?
Infelizmente, muitos educadores
levaram suas ideologias esquerdistas para dentro da sala de aula. Antigamente,
ensinava-se a ler e a escrever, a fazer contas, enquanto hoje se “ensina” que é
preciso ter “consciência social”, sem falar de toda a doutrinação ideológica
absurda.
Alunos, cada vez mais cedo, são
expostos à visão de mundo desses professores, que enfiam goela abaixo desses
imberbes indefesos a noção marxista de “opressores e oprimidos”, tão
disseminada por Paulo Freire e sua “pedagogia do oprimido”. Pelo visto,
“aprender” que o homem branco ocidental era malvado e dominou as pobres
minorias é mais importante do que saber ler direito e fazer contas.
Além disso, os métodos
tradicionais de ensinar e cobrar dos alunos são atacados por esses pedagogos
modernos. Eles partem da premissa de que os alunos não devem ser tão cobrados,
que cada um tem seu próprio ritmo, que não é correto instaurar competição em
sala de aula por meio de provas e coisas do tipo. Crato responde:
Muitos batem na tecla de que prova faz mal. Acham que ela submete o
aluno a um alto grau de stress, sem necessidade. Vão aí na contramão do que
afirmam os grandes pesquisadores. Eles já sabem que, ao ser questionada e posta
a refletir sobre um conteúdo, a criança consegue absorvê-lo melhor, avançando
no conhecimento.
Mais à frente, ele argumenta que
essa visão que, no fundo, parece idealizar a criança e rejeitar qualquer forma
de autoridade em sala de aula, acaba produzindo apenas desordem:
Esse grupo de educadores admite que o aluno pode ser no máximo
incentivado a respeitar a ordem na sala de aula, mas nunca, sob nenhuma
hipótese, ele deve ser forçado a fazer isso. Nesse caso, não é preciso de muita
ciência para saber que o resultado final será muita bagunça e pouco aprendizado.
O construtivismo, ou a modalidade
atual da idéia de Piaget, é alvo de mais ataques legítimos na entrevista:
Um mestre tem o dever de transmitir a seus alunos os conteúdos nos
quais se graduou. E, sim, precisa ter objetivos bem claros e definidos sobre o
que vai ensinar. É ingênuo achar que o estudante vai descobrir tudo por si
mesmo e ao seu ritmo, quando julgar interessante. Quem de bom-senso tem dúvida
de que, se a criança puder esperar a hora que bem lhe apetecer para mergulhar
num assunto, talvez isso nunca aconteça?
Nuno Crato ainda defende a
memorização, a imposição de leitura, algum grau de decoreba, a importância de
excessivos exercícios de matemática para fixar bem a matéria, que é cumulativa,
enfim, trata-se de um resgate dos métodos mais tradicionais de ensino, hoje tão
rechaçados pela pedagogia moderna. Crato reconhece o obstáculo:
As sociedades hoje frequentemente não valorizam o conhecimento
rigoroso, aquele que exige método, empenho e exercício para ser bem
sedimentado. Acham que as crianças vão acabar aprendendo matemática por osmose.
Mas elas não aprendem. As avaliações costumam ser impiedosas ao escancarar as
deficiências.
Por fim, como não poderia faltar,
Nuno defende a meritocracia, repudiada pelos “igualitários” da atualidade. Ele
diz:
A utopia do igualitarismo, essa que muitos na educação defendem, só
seria possível num único e não desejável cenário – aquele em que todos são
medíocres. Esse é ainda um tabu. Dizer que uma criança precisa de um apoio
especial não significa que ela será excluída. Num outro espectro, os ótimos
alunos também não devem ser escondidos, mas, sim, radicalmente incentivados a
seguir em frente. É um fundamento básico da meritocracia, de eficiência provada
no setor privado.
Ou, como dizia Thomas Sowell,
“Você não pode ensinar a todos no mesmo ritmo, a não ser que esse ritmo seja
reduzido para acomodar o menor denominador comum”. Complicado é enfrentar os
sindicatos corporativistas, que detestam a idéia da meritocracia em sala de
aula e fora dela. Mas é necessário partir para esse enfrentamento, caso
contrário, seremos medíocres. E não adianta jogar mais dinheiro público nesse
modelo falido, como o próprio Nuno Crato reconhece:
Acho que nossos desafios dependem menos de dinheiro e mais de objetivos
claros, ambiciosos e de organização. Para avançarmos, precisamos formar mais e
mais engenheiros, médicos e cientistas. As crianças devem ser despertadas desde
cedo para o interesse por essas áreas. Não será à base do velho e empolado
“eduquês” que conseguiremos dar o grande salto.
Enfim, precisamos de mais
engenheiros, médicos e cientistas, e menos gente das “ciências humanas” que
adora divulgar ideologias ultrapassadas e igualitárias. Portugal parece ter a
pessoa certa para lutar por esse caminho. Espero que consiga. Cá no Brasil, com
o PT no poder e Mercadante como ministro da Educação, acredito que teremos de
esperar mais um pouco para ao menos sair da direção errada e apontar na
correta. O problema é que esse tempo custa caro. Muito caro.