Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal
Eu desconheço casos de cariocas que nunca enfrentaram problemas durante a vistoria anual obrigatória dos carros. Quase sempre é a mesma novela: um monte de gente reclamando, sistema de informática fora do ar, informações desencontradas, descaso com os motoristas, e horas perdidas no Detran para finalmente receber o comprovante de que o carro está em condições adequadas para circular – ainda que as ruas não estejam.
Todo ano eu enfrento essa mesma novela, e vejo que não sou o único. Sempre está cheio de gente esbravejando contra a demora, a arbitrariedade dos funcionários, o mau humor, a burocracia. Esse ano eu tive que passar por este sofrimento nada menos que três vezes. Na primeira vez, soube que era obrigatório agora fazer uma alteração no documento, para constar que o carro é blindado. Naturalmente, era preciso pagar uma taxa também, acima de R$ 80. Uma manhã perdida para saber disso. Tudo feito, lá vou eu novamente para o Detran. Descubro que a mudança não é mais obrigatória.
Por mim tanto faz, só que eu havia agendado a alteração e a vistoria juntas, e como a mudança no documento caiu em exigência, pois faltava a nota fiscal das peças da blindagem (?), eu não obtive sucesso. Tentei argumentar que não fazia questão alguma de fazer a mudança, podendo aproveitar minha ida para fazer somente a vistoria, que já tinha sido feita e aprovada. Mas o funcionário me informou que isso não era possível, pois eu tinha agendado a mudança no documento também! Ele disse que era mais fácil eu simplesmente agendar uma nova vistoria, o que foi feito. Hoje, finalmente, a novela chegou ao fim, após duas horas de espera, e uma manhã de trabalho jogada no lixo.
Como o meu, existem vários outros casos. Conheço várias pessoas que não tiveram o carro aprovado por conta do farol de xenon, daquele inútil extintor de incêndio vencido, do pneu um pouco careca segundo o julgamento do funcionário, do insufilm acima do permitido (numa cidade onde o governo não oferece segurança alguma), de alguma pendência boba na documentação, etc. São horas perdidas em função do Detran. Quanto custa para a cidade tanto desperdício de tempo? Parece que todo mundo é funcionário público! É tanta burocracia, tanto descaso, tanta demora, que fiquei sabendo através de um senhor que muitas pessoas pagam uma quantia, em torno de R$ 150, para receber o documento da vistoria em casa. A velha máxima que todo brasileiro conhece bem: a burocracia cria dificuldades para vender facilidades ilegais depois.
A questão principal é: por que fazer uma vistoria obrigatória? Não é justamente para isso que serve a polícia? Nos Estados Unidos, o policial verifica na hora se o carro se encontra em bom estado, e caso contrário, dá uma notificação ou multa para o motorista. Nos demais estados brasileiros, até onde eu sei, essa vistoria anual obrigatória não existe. Além disso, o IPVA é metade daquele pago pelos cariocas, que chega a 4% do valor do automóvel. Somos mesmo o povo dos “malandros”. Carioca é esperto! E paga o dobro de IPVA, se submete ao caos infernal do Detran para fazer a vistoria anual obrigatória, e depois circular por ruas que mais parecem queijos suíços de tantos buracos, sem falar dos riscos constantes de assalto.
Não está mais do que na hora do povo demonstrar alguma revolta contra esse abuso do governo? Eu nem culpo aqueles funcionários do Detran, pois eles não contam com os incentivos adequados para mostrar eficiência e focar na satisfação dos clientes. Tanto é verdade que praticamente toda repartição pública é a mesma porcaria. Filas enormes, burocracia infindável, descaso, arrogância dos empregados, etc. No setor privado, a empresa sobrevive e lucra se conseguir satisfazer seus clientes. No setor público, esta pressão não existe. Por que a surpresa então com o péssimo serviço fornecido por todas as esferas do governo?
Por isso, a solução é acabar com a vistoria obrigatória. Essa é a única forma de livrar os cariocas dessa tortura anual. E quem acha que o fim da vistoria representaria o caos nas ruas, com carroças caindo aos pedaços circulando por aí, eu pergunto: e isso já não é a realidade atual? Ou alguém realmente confia no Detran para retirar esses carros das ruas? Essa é justamente uma das funções da polícia, que infelizmente não está muito preocupada em rebocar esses veículos, porque seus donos não contam com carteiras recheadas para subornos polpudos. Aliás, não estaria na hora de privatizar as ruas e até a própria polícia também?




