segunda-feira, janeiro 09, 2012

An Exit Strategy From the Euro


By ROBERT BARRO, WSJ

Until recently, the euro seemed destined to encompass all of Europe. No longer. None of the remaining outsider European countries seems likely to embrace the common currency. Seven Eastern European countries that recently joined the European Union (Bulgaria, Czech Republic, Hungary, Latvia, Lithuania, Poland and Romania) have announced their intention to revisit their obligations to adopt the euro.
Two non-euro members of the EU, the United Kingdom and Denmark, have explicit opt-out provisions from the common currency, and popular opinion has recently turned strongly against euro membership. In Sweden, which lacks a formal "opt-out" provision (but has cleverly refused to fulfill one of the requirements for membership), a November poll on whether to join the euro was overwhelmingly negative—80% no, 11% yes.
In light of the political response to the ongoing fiscal and currency crisis—which is leaning strongly toward a centralized political entity that will likely be even more unpopular than the common currency—I suggest that it would be better to reverse course and eliminate the euro.
When the United Kingdom debated whether to join the path to a single currency in the mid-1990s, my view was that the benefits of euro membership—enhancements for international trade in goods and services and financial transactions—were offset by required participation in its poor social, regulatory and fiscal policies. Still, I thought the U.K. should join if it could get just the common currency.
Now I think that the option of a monetary union without the rest of the baggage is an impossible dream. The single money is inevitably linked to a common central bank with lender-of-last-resort powers. This setup creates important features of fiscal union, showing up recently as bailouts in Greece, Portugal, Ireland, Italy and Spain.
The political reaction at each step of the ongoing crisis has been to strengthen this union—bailout money from the EU and the International Monetary Fund, fiscal involvement by the European Central Bank, and more EU influence on each government's fiscal policies. A common currency loaded on top of a free-trade zone is leading toward a centralized political entity.
Despite some scale benefits from having larger countries, the cost of forcing heterogeneous populations with disparate histories, languages and cultures into a single nation could be prohibitively high.
One legitimate counterexample is to point to the United States. It has prospered with fiscal union, despite the continuing potential for federal bailouts of state governments (such as through explicit rescue programs or the kinds of transfers contained in the stimulus package of 2009-10).
The main saving grace is that, except for Vermont, the states have long histories of balanced-budget requirements. However, with the growing unfunded programs for pensions and health care for state government workers, the balanced-budget requirements have become less meaningful. Structural fiscal problems in the U.S. federal system may eventually become as serious as those in Europe.
The EU specifies with great detail how candidate countries can qualify for euro membership, but it offers no recipe for exit or expulsion. A natural possibility would be to start by throwing out the least qualified members, based on lack of fiscal discipline or other economic criteria. Greece is an obvious candidate—it has been increasingly out of control fiscally since the 1970s. But instead of expulsion, the EU reaction has been to provide a sufficient bailout to deter the country from leaving.
A better plan is to start from the top. Germany could create a parallel currency—a new D-Mark, pegged at 1.0 to the euro. The German government would guarantee that holders of German government bonds could convert euro securities to new-D-mark instruments on a one-to-one basis up to some designated date, perhaps two years in the future. Private German contracts expressed in euros would switch to new-D-mark claims over the same period. The transition would likely feature a period in which the euro and new D-mark circulate as parallel currencies.
Other countries could follow a path toward reintroduction of their own currencies over a two-year period. For example, Italy could have a new lira at 1.0 to the euro. If all the euro-zone countries followed this course, the vanishing of the euro currency in 2014 would come to resemble the disappearance of the 11 separate European moneys in 2001.
A key issue for the transition is to avoid sharp reductions in values of government bonds for Italy and other weak members of the euro zone. After all, the issue that has prompted ever-growing official intervention in recent months has been actual and potential losses of value of government bonds of Greece, Italy and so on. Governments and financial markets worry that these depreciations would lead to bank failures and financial crises in France, Germany and elsewhere.
Worries about values of government bonds are rational because it is unclear whether—even with assistance from the center—Italy and other weak members will be able and willing to meet their long-term euro obligations. A new (or restored) system of national currencies would be more credible, because Italy should be able and willing to meet its obligations denominated in new liras. This credibility underlay the pre-1999 system in which the bonds of Italy and other euro-zone countries were denominated in their own currencies. The old system was imperfect—notably in allowing some countries to have occasionally high inflation—but it's become clear that it was better than the current setup.
My prediction is that an announcement of the new system would raise the value of German bonds, because Germany has strong individual credibility and would no longer have to care for its weak neighbors. Even Italian and other weak-country bonds are likely to rise in value because concerns about individual credibility would be offset by the improved functioning of the overall system.
The euro was a noble experiment, but it has failed. Instead of wasting more money on expanding the system's scope and developing ever larger rescue funds, it would be better for the EU and others to think about how best to revert to a system of individual currencies.

Mr. Barro is an economics professor at Harvard University and a senior fellow of Stanford University's Hoover Institution.

domingo, janeiro 08, 2012

O encanto das teorias conspiratórias


Rodrigo Constantino

O escritor Umberto Eco completou 80 anos no último dia 5, e está de volta às manchetes literárias com seu novo romance O Cemitério de Praga, livro que acabo de ler (e recomendo). Trata-se de uma história envolvente, cujo personagem principal, o único importante que é criado pelo autor, não passa de um pulha, um canalha que aceita qualquer coisa em troca de dinheiro. Sua vida é uma série de farsas e crimes, a cada momento atendendo a um cliente de lado diferente, algumas vezes simultaneamente.

Mas eis o que eu gostaria de destacar do livro: o alerta de como é perigoso selecionar uma “raça” como bode expiatório para todos os males do mundo é válido e sempre atual. Os homens parecem inclinados a crer em teorias conspiratórias que simplificam um mundo complexo e jogam a responsabilidade de nossos problemas para ombros alheios. Se tais ombros forem de um povo minoritário e facilmente identificável, então o trabalho é mais fácil ainda.

O personagem principal, Simone Simonini, escreve em seu diário: “Sempre conheci pessoas que temiam o complô de algum inimigo oculto – os judeus para vovô, os maçons para os jesuítas, os jesuítas para meu pai garibaldino, os carbonários para os reis de meia Europa, o rei fomentado pelos padres para meus colegas mazzinianos, os Iluminados da Baviera para as polícias de meio mundo – e, pronto, quem sabe quanta gente existe por aí que pensa estar ameaçada por uma conspiração... Aí está uma forma a preencher à vontade, a cada um o seu complô”.

Por trás do encanto pelas teorias conspiratórias, jaz o ressentimento: “A que aspira cada um, tanto quanto mais desventurado for e pouco amado pela sorte? Ao dinheiro e, conquistado esse sem fadiga, ao poder (que volúpia em comandar um semelhante e em humilhá-lo!) e à vingança por todos os agravos sofridos (e todos sofreram na vida ao menos um agravo, por menor que tenha sido). [...] Afinal, pergunta-se cada um, por que fui desfavorecido pela sorte (ou ao menos não tão favorecido quanto gostaria), por que me foram negados benefícios concedidos a outros menos merecedores do que eu? Como ninguém pensa que suas desventuras possam ser atribuídas à sua mediocridade, eis que se deverá identificar um culpado”.

Logo, muitos desejam encontrar este grupo, esta classe, esta raça responsável por seus problemas, suas misérias. O trabalho do criador de complôs fica então bastante facilitado, pois ele encontra um público ávido por suas invenções e mentiras. “Convém que as revelações sejam extraordinárias, perturbadoras, romanescas. Somente assim tornam-se críveis e suscitam indignação”. Além disso, “você jamais deve criar um perigo de mil faces, o perigo deve ter uma só, senão as pessoas se distraem”. Os judeus, povo durante muito tempo sem Pátria e, portanto, minoritário, relativamente fácil de ser identificado, e com muitos casos de sucesso material (até porque a Igreja sempre os ajudou, condenando a prática da usura entre seus seguidores), eram um alvo evidente para as teorias conspiratórias.

Como o russo Rachkovsky explica no livro: “Para ser reconhecível e temível, o inimigo deve estar em casa ou na soleira de casa. Eis por que os judeus. Eles nos foram dados pela Divina Providência, então vamos usá-los, meu Deus, e rezemos para que haja sempre um judeu a temer e a odiar. É necessário um inimigo para dar ao povo uma esperança. Alguém já disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: quem não tem princípios morais costuma se enrolar em uma bandeira, e os bastardos sempre se reportam à pureza da sua raça. A identidade nacional é o último recurso dos deserdados. Muito bem, o senso de identidade se baseia no ódio, no ódio por quem não é idêntico. É preciso cultivar o ódio como uma paixão civil. O inimigo é o amigo dos povos. É sempre necessário ter alguém para odiar, para sentir-se justificado na própria miséria. O ódio é a verdadeira paixão primordial”.

Foi desta forma que nasceu Protocolos dos Sábios de Sião, um conjunto de textos mentirosos que imputavam aos judeus um complô para dominar o mundo. Ele fora forjado pela polícia secreta do Czar Nicolau II, e ganhou inúmeras traduções pelo mundo todo, ajudando a disseminar o antissemitismo. Em 1921, o London Times descobriu as relações com o livro de Joly, publicado muitos anos antes, e denunciou os protocolos como uma falsificação. Mas o encanto pelas teorias conspiratórias falou mais alto, e o livro foi publicado várias vezes como autêntico depois disso. Hitler, em Minha Luta, chega a escrever que os protocolos são verdadeiros, e a melhor prova é que os judeus negam sua veracidade. Para o nazista, quando todos tiverem conhecimento dos incríveis planos judaicos, o mundo estará perto da “solução final”, ou seja, o extermínio desta “raça”.

O horror do Holocausto, resultado desta campanha antissemita intensiva ao longo de décadas, ainda está fresco na memória de muitos. Mas o risco é sempre real, especialmente em tempos de crises, pois os homens são suscetíveis a teorias conspiratórias mirabolantes, e os judeus sempre serão um alvo fácil. Nada mais reconfortante para os medíocres do que crer que seus infortúnios são obra de uma cúpula pequena reunida em locais secretos para construir complôs e dominar a humanidade. É tudo culpa “deles”. E assim os fracassados alimentam o ódio que aquece suas almas.

sexta-feira, janeiro 06, 2012

The dangers of demonology


Coluna Schumpeter, The Economist

Hatred of bankers is one of the world’s oldest and most dangerous prejudices

HURLING brickbats at bankers is a popular pastime. The “Occupy Wall Street” movement and its various offshoots complain that a malign 1%, many of them bankers, are ripping off the virtuous 99%. Hollywood has vilified financiers in “Wall Street”, “Wall Street 2”, “Too Big to Fail” and “Margin Call”. Mountains of books make the same point without using Michael Douglas.

Anger is understandable. The financial crisis of 2007-08 has produced the deepest recession since the 1930s. Most of the financiers at the heart of it have got off scot-free. The biggest banks are bigger than ever. Bonuses are flowing once again. The old saw about bankers—that they believe in capitalism when it comes to pocketing the profits and socialism when it comes to paying for the losses—is too true for comfort.

But is the backlash in danger of going too far? Could fair criticism warp into ugly prejudice? And could ugly prejudice produce prosperity-destroying policies? A glance at history suggests that we should be nervous.

Scorn for moneymen has a long pedigree. Jesus expelled the moneychangers from the Temple. Timothy tells us that “the love of money is the root of all evil.” Muhammad banned usury. The Jews referred to interest as neshek—a bite. The Catholic church banned it in 1311. Dante consigned moneylenders to the seventh circle of hell—the one also populated by the inhabitants of Sodom and “other practisers of unnatural vice”.

For centuries the hatred of moneylending—of money begetting more money—went hand in hand with a hatred of rootlessness. Cosmopolitan moneylenders were harder to tax than immobile landowners, governments grumbled. In a diatribe against the Rothschilds, Heinrich Heine, a German poet, fumed that money “is more fluid than water and less steady than air.”

This prejudice has proven dangerous. Without money to grease them, the wheels of commerce turn slowly or not at all. Civilisations that have eased the ban on moneylending have grown rich. Those that have retained it have stagnated. Northern Italy boomed in the 15th century when the Medicis and other banking families found ways to bend the rules. Economic leadership passed to Protestant Europe when Luther and Calvin made moneylending acceptable. As Europe pulled ahead, the usury-banning Islamic world remained mired in poverty. In 1000 western Europe’s share of global GDP was 11.1% compared with the Middle East’s 8.6%. By 1700 western Europe had a 13.5% share compared with the Middle East’s 3.4%.

The rise of banking has often been accompanied by a flowering of civilisation. Artists and academics railing against the “agents of the Apocalypse” might also learn from history. Great financial centres have often been great artistic centres—from Florence in the Renaissance to Amsterdam in the 17th century to London and New York today. Countries that have chased away the moneylenders have been artistic deserts. Where would New York’s SoHo be without Wall Street? Or the great American universities without the flow of gold into their coffers?

Prejudice against financiers can cause non-economic damage, too. Throughout history, moneylenders have been persecuted. Ethnic minorities—most obviously the Jews in Europe and America but also the Chinese in Asia—have clustered in the financial sector first because they were barred from more “respectable” pursuits and later because success begets success. At times, anti-banking prejudice has acquired a strong tinge of ethnic hatred.

In medieval Europe Jews were persecuted not only because they were not Christians but also because killing them was a quick way to expunge debts. Karl Marx, who came from a Jewish family, regarded Jews as the embodiments of capitalism who could only be rescued from their ancestral curse through revolution. The forgers of the “Protocols of the Learned Elders of Zion” wanted people to believe that Jewish financiers were engaged in a fiendish global conspiracy. Louis McFadden, the chairman of the United States House Committee on Banking and Currency in the 1930s, claimed that “the Gentiles have the slips of paper while the Jews have the lawful money.” The same canards have been used against Chinese minorities across Asia.

This is not to say that the Occupy protesters are guilty of ethnic prejudice: they belong to a class and a generation that is largely free from such vices. But demonisation can easily mutate into new forms. In the August issue of the Journal of Business Ethics one Clive Boddy argues that the financial sector has been taken over by psychopaths: “people who, perhaps due to physical factors to do with abnormal brain connectivity and chemistry”, lack a “conscience, have few emotions and display an inability to have any feelings of sympathy or empathy for other people”.

Caged emotions

Railing against the 1%—particularly when so many of them work for companies with names like Goldman Sachs and N.M. Rothschild—can unleash emotions that are difficult to cage. A survey in the Boston Review in 2009 found that 25% of non-Jewish Americans blamed Jews for the financial crisis, with a higher percentage among Democrats than Republicans. Ethnic hatreds are even rawer in parts of Asia. The Asian financial crisis of 1997-98 sparked murderous riots against rich Chinese in places such as Indonesia. Today, the combination of hard times and harsh rhetoric could also produce something nasty.

The crisis of 2008 showed that global finance requires tough medicine. Banks must be forced to hold bigger reserves. “Weapons of mass destruction” must be defused. The culture of short-term incentives needs to be revised. But demonising bankers will not solve these problems—and may well, if unchecked, bring a lot of ancient ugliness back to life.

The Danger Debt Poses to the Western World



Reportagem muito interessante de Alexander Jung no SPIEGEL sobre o excesso de alavancagem no Ocidente. Trata-se basicamente de um imenso esquema Ponzi de pirâmide, com cada governo emitindo mais dívida para refinanciar os rombos, sacrificando as gerações futuras. Um dia a casa cai...

Bullseye


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

O IBGE divulgou hoje a inflação oficial de 2011, medida pelo IPCA. O acumulado no ano ficou em 6,50%. A meta do Banco Central é de 4,50%, com tolerância de dois pontos percentuais para cima e para baixo. Ou seja, a inflação oficial cravou o topo da meta, incluindo a segunda casa decimal. Se a inflação ficasse acima do teto, o presidente do BC, Alexandre Tombini, teria que escrever uma carta com explicações para o ministro Guido Mantega. Que diferença uma casa decimal faz! A chamada dos jornais não precisa afirmar agora que a inflação rompeu a meta do BC no ano.

Na competição de tiro ao alvo, o centro do alvo é conhecido como “bullseye”. Se aceitarmos a meta oficial do governo, então o alvo seria 4,5% de inflação. Mas os investidores já perceberam há muito tempo que a meta verdadeira do BC tem sido os 6,5% do topo da banda de tolerância mesmo, e não o centro. Este é um governo que tolera “mais inflação” para ter “mais crescimento”, ainda que a inflação suba, mas não o crescimento, mostrando se tratar de uma falsa dicotomia. A inflação oficial foi a mais alta desde 2004, e o crescimento do PIB não vai chegar nem aos míseros 3%.

Mas, o ponto aqui é que podemos afirmar que o BC fez um “bullseye”. Se o IPCA fechasse o ano com alta de 6,55%, então todos os jornais publicariam que a inflação estourou a meta, e teria aquela cartinha incômoda do presidente do BC. No imaginário do povo ficaria esta mensagem: a inflação superou a meta. Perda de controle? Agora, nada disso é necessário. Inflação dentro da meta. O comunicado do BC diz: “A meta para a inflação foi cumprida em 2011 pelo oitavo ano consecutivo”. Lindo. E olha que não precisou nem arredondar a segunda casa decimal. Foi pura coincidência?

Talvez. Tudo é possível. Mas se Hugo Chávez pode achar “muito, muito, muito estranho” os vários casos de câncer dos líderes latino-americanos, insinuando que o governo americano pode estar por trás desta coincidência (quem precisa de comediante quando se tem caudilhos assim?), então acho que posso ao menos levantar a suspeita: estranho, muito estranho! O governo trocou o presidente do IBGE faz pouco tempo, os pesos dos produtos no índice serão recalculados favorecendo o resultado final, o BC usou o modelo SAMBA (do crioulo doido) para reduzir na marra a taxa de juros, e agora a inflação oficial fica exatamente no topo da meta.

Analisando cada caso isolado, nada demais. Mas tudo junto, e com este governo “desenvolvimentista” que claramente tolera mais inflação, ainda mais tendo o exemplo da Argentina ao lado, então é legítimo ter calafrios. Não quero ser leviano. Mas que esse “bullseye” é estranho, isso é!

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Vivemos no melhor dos tempos


Entrevista nas páginas amarelas da revista VEJA com o psicólogo e professor de Harvard Steven Pinker. Reportagem de Gabriela Carelli.

Por que os ataques de 11 de setembro de 2001 ou o massacre de quase uma centena de inocentes na Noruega em julho passado não desmentem sua tese?
As estatísticas são imprescindíveis para justificar qualquer argumento científico. Elas são um método válido e seguro de avaliação. É o que torna a minha tese ligítima. Nenhum cientista sério poderia afirmar que vivemos o período mais pacífico da humanidade só com base em impressões que ele próprio ou os outros têm sobre determinados eventos. A mente humana é vulnerável a enganos e ilusões. Nossas impressões sobre quão violento e cruel é um determinado episódio devem-se à nossa memória, que sempre é contaminada pelas emoções que sentimos quando presenciamos ou algo. Hoje em dia, grande parte da elite intelectual, principalmente na sociologia, psicologia e antropologia, menospreza a estatística e o raciocínio lógico. Esse preconceito só contribui para proliferação de uma pseudociência e suas análises mal fundamentadas. O fato é que,desde 1945, o número de mortos em guerras ou de vítimas de assassinatos e estupros é menor dos últimos 5000 anos, quando se leva em conta a relação com o total da população.

Para quem tem um parente morto de forma violenta, as estatísticas não valem muita coisa, certo?
Desde o lançamento do livro, fui surpreendido por reações inesperadas. Algumas pessoas duvidaram do meu trabalho, outras puseram em xeque minha idoneidade. Houve quem se enfureceu e considerou minha tese obscena. Muitos acadêmicos se revoltaram. Por isso, é sempre bom esclarecer alguns pontos. Em nenhum momento eu disse que a violência desapareceu. Quando esta entrevista for publicada, tragédias e crimes estarão na primeira página dos jornais. Também não quis minimizar eventos trágicos recentes, como a guerra do Iraque ou o massacre de Darfur, nem as grandes guerras ou as atrocidades cometidas por ditadores e genocidas. Tudo isso é condenável e doloroso. Mas não invalida a constatação de que o mundo já foi muito pior do que é agora. Grandes pensadores teorizam sobre como teria sido a vida dos homens no estado natural antes do advento das leis e das formas mais rudimentares de governo. Com ajuda da alta tecnologia podemos agora não apenas teorizar sobre o grau de barbárie da pré-história, mas estimar com precisão o número altíssimo de pessoas que morriam massacradas por inimigos. Nada autoriza a ideia tão disseminada de que o passado humano foi bucólico, pastoril e pacífico. Há poucos séculos matavam-se pessoas com base em superstições avalizadas pela hierarquia religiosa, a escravidão era oficial e apenas discorda da opinião vigente podia equivaler a uma sentença de morte.

Alguns cientistas acreditam que o declínio da violência se deve a uma mudança na própria natureza humana. O senhor acha isso possível?
É improvável. A reação violenta foi um traço incorporado à humanidade durante o processo evolutivo. Ser violento foi determinante para a sobrevivência da espécie na defesa contra as feras, na caça e, claro, na disputa por uma mulher no acasalamento. Até os dois anos as crianças são extremamente violentas. Só não matam umas às outras porque não damos a elas revólveres ou facas e porque estamos presentes para ensiná-las a se comportar. Elas se valem da violência para disputar espaço com os irmãos e a atenção dos pais. As mães ficam furiosas quando leem isso, mas a neurociência comprovou que as pessoas aprendem a ser menos violentas com a maturidade. Isso coincide com o desenvolvimento do lóbulo frontal, a região do cérebro responsável pela linguagem, pelo domínio motor, mas principalmente pela personalidade, a consciência de si mesmo e da existência do outro. O prazer com a violência é uma realidade. As pessoas são coibidas de praticá-la nos moldes da pré-história ou da Idade Média, mas dão vazão a ela em games, assistindo a filmes de Mel Gibson ou a lutas de vale-tudo. As pesquisas mostram que de 70% a 90% dos homens já se imaginaram matando alguém. Entre as mulheres esse número varia de 40% a 60%.

Por que o mundo se tornou mais pacífico?
Meu livro mostra que uma sucessão de eventos históricos fez com que o lado bom do homem sobressaísse ao violento e animalesco. Todos temos demônios e anjos dentro de nós. O processo civilizatório, com o advento do estado, a institucionalização da Justiça, a difusão e o aprimoramento da cultura, permitiu que os anjos derrotassem os demônios. Foi o que livrou a espécie humana da barbárie. No século XVII, o filósofo Thomas Hobbes enunciou no seu Leviatã que, na ausência de regras de convivência sob leis e imposições da sociedade, a vida humana era “solitária, miserável, repugnante, brutal e curta”.

A constatação de que o “estado natural do homem é a violência encerra a discussão sobre o que influi mais no comportamento humano, a natureza ou o aprendizado?
Estamos longe de pôr um ponto final na questão sobre o que pesa mais, a genética ou o que aprendemos no decorrer da vida. Mas, no estado natural, quem tem razão é Hobbes, e não o suíço Jean-Jacques Rousseau, cujo argumento era que o ser humano nasce bom e é, posteriormente, corrompido pela sociedade. Durante toda a minha carreira, tentei derrubar essa falácia de que a mente é uma tabula rasa e de que qualquer traço humano é fruto do meio em que ele vive ou é moldado pelas instituições sociais

O senhor despertou fúria ao afirmar que o Holocausto não foi o primeiro genocídio da história...
Eu sou judeu também e sou sensível a essa questão. O Holocausto tem características únicas, terríveis, que o tornam um ato de horror incomparável. Os nazistas estavam tão empenhados em matar os judeus e em varrê-los do mapa que os buscavam a milhares de quilômetros de distância para serem mortos em câmara de gás. O extermínio dos judeus não foi o primeiro genocídio da história, ma foi o mais cruel. Há um outro ponto em relação à II Guerra. Sem dúvida, foi o evento no qual mais se mataram pessoas desde o surgimento da espécie humana. Mas não está claro se, em porcentagem de população, morreram naquela guerra mais pessoas do que em outras.

A que se deve a emergência do nazismo na Europa na plenitude da civilização do século XX?
O declínio da violência através dos séculos deu-se de forma cíclica. Aos picos de violência, como as grandes guerras do século passado, sempre se seguiu o retorno ao estado pacífico. As estatísticas comprovam que, com o passar dos séculos, aos picos de violência se sucedem períodos cada vez mais duradouros de paz. No caso da Alemanha, é preciso observar que, por baixo da fina camada de verniz civilizatório da República de Weimar, o curto período democrático depois da I Guerra, fervia o nacionalismo retrógrado baseado na ideia da superioridade racial teutônica que descambaria no nazismo. Foi algo tão forte que apagou a noção do bem e do mal. Muitos dos carrascos nazistas se consideravam bons soldados e cidadãos que apenas cumpriam seu dever.

Em que situações as pessoas se tornam cegas a ponto de compactuar com atrocidades como as cometidas pelos nazistas?
A filósofa alemã Hannah Arendt foi uma das primeiras a tentar explicar esse fenômeno, que ela definiu como “a banalização do mal”. Em seu trabalho, de 1963, ela defendeu a tese de que as maiores atrocidades da história não foram de responsabilidade de sociopatas ou fanáticos, mas de pessoas comuns que se deixaram levar por lideres carismáticos. Essas pessoas cometeram as maiores atrocidades sem se dar conta do grau de maldade de suas ações. Hoje as ideologias fazem o papel dos líderes carismáticos nesse processo de arrastar pessoas normais para a prática de atos insanos.

Ainda fica de pé a ideia de que o bem e o mal são definidos culturalmente?
Em geral, as pessoas entendem que o mal está em produzir sofrimento nos outros por meio de atos premeditados e sem uma razão muito forte. O mais interessante, no entanto, é que a maioria dos indivíduos que cometem atos perversos não acha que agiu com maldade. O cérebro humano evoluiu de forma a sempre advogar a favor de si próprio. Somos os mais devotos defensores de nós mesmos. A primeira reação aos sermos confrontados com o fato de termos feito algo ruim é tentar nos convencer e aos outros de que aquilo não foi tão grave. A segunda é transferir a responsabilidade. Nosso cérebro quer sempre nos fazer acreditar que se agimos mal foi porque fomos provocados.

O neurocientista americano Sam Harris defende a ideia de que existe uma “ciência da moral”, ou seja, que o bem e o mal podem ser definidos com rigor metodológico. O senhor concorda?
Entendo o argumento de Sam Harris. A suposição de Harris se baseia no fato de que a moral é tradicionalmente definida pela religião ou pela filosofia. Nessas duas cátedras, as definições de bem e de mal estão dissociadas de algo imprescindível, a questão do sofrimento humano. No conceito de ciência da moralidade. Sempre que há sofrimento o mal está presente. Quando há felicidade, o bem prevaleceu. De fato, se tomamos o fenômeno por essas características de apuração simples, é possível obter uma resposta objetiva e mais científica do que sejam o bem e o mal.

Na sua visão, quais foram as razões que levaram ao fracasso os sistemas políticos movidos pela ideia de estabelecer a igualdade entre os homens?
O comunismo é outros governos fundados sobre utopias encorajaram as pessoas a ser violentas quanso as convocaram para lutar por um sonho. Pelo sonho vale tudo. Aqueles sistemas políticos levaram as pessoas a acreditar que fora da utopia não existe o bem. Por essa razão, tanto o comunismo como o nazismo e o fascismo degeneraram no assassinato coletivo de enormes proporções. A lição aqui é que a violência inata do homem está sempre à espreita e que os governos democráticos são a forma mais eficaz de impedir que ela se manifeste na sua pior forma.

Como o senhor avalia o impacto dos avanços tecnológicos e da internet na violência?
A suposição de que o maior acesso a armas mais potentes aumenta a violência é equivocada. Ao ler notícias como a do massacre na Noruega, muita gente pode ter a impressão de que a tecnologia contribuiu para que um só indivíduo matasse quase uma centena de pessoa. Episódios desse tipo distorcem a percepção da realidade. Depois de Hiroshima e Nagasaki, nunca mais um país ousou acionar seu arsenal nuclear – não por questões técnicas, mas pela imposição moral.

O senhor é um otimista incurável?
Sou pessimista e otimista ao mesmo tempo. Acredito que a violência deva aumentar no futuro próximo. A história mostra que a mudanças culturais e sociais, crises econômicas, novas ideologias e tecnologias podem incitar guerras, conflitos, rebeliões e enfurecer determinados grupos sociais. Mas sou otimista em relação ao fortalecimento dos períodos de paz depois de surtos de violência extrema. Os períodos de paz tendem a ser cada vez mais longos e duradouros.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Viver sempre também cansa

João Pereira Coutinho, Folha de SP

E PRONTO: aqui estamos nós em 2012, o ano em que o mundo vai acabar. Existem cenários para todos os gostos. O mais conhecido foi fornecido pelos maias, uma encantadora civilização bárbara que marcou encontro com o fim para dia 21 de dezembro próximo. Se o leitor gosta de comprar os seus presentes de Natal com alguma antecedência, o melhor é segurar as rédeas. O gasto pode ser inútil.

Até porque há muito por onde escolher: se o mundo não acabar a 21 de dezembro, pode acabar antes. Sem aviso prévio. Um cometa. Uma explosão solar. Um terremoto. Um maremoto. Uma guerra mundial (e nuclear). O primeiro pensamento inteligente de Hugo Chávez -tudo pode acontecer. Mas a humanidade não chega a 2013.

Deprimido, leitor? Não esteja. Ninguém está: lemos páginas e páginas dessas apocalípticas visões, espalhadas pela internet ou pela imprensa da virada do ano, e o tom é expectante, febril. Quase festivo.

E então concluímos como o milenarismo pós-moderno é bastante semelhante ao milenarismo antigo. Vaidade, tudo é vaidade.

Norman Cohn, um gigante do pensamento político contemporâneo (hoje esquecido), escreveu há mais de meio século uma obra fundamental sobre o assunto. Intitula-se "Na Senda do Milénio: Milenaristas Revolucionários e Anarquistas Místicos da Idade Média" (Editorial Presença, 1981, 334 págs.) e a ambição de Cohn foi, precisamente, mostrar o que havia de soberbo nas seitas revolucionárias e milenaristas da Europa medieval.

Os textos bíblicos anunciam a segunda vinda de Cristo e a instituição de um reino milenar antes do Julgamento Final? Amém.

Mas as seitas milenaristas, recrutadas no lúmpen da sociedade medieval por autointitulados profetas, não estavam dispostas a esperar que a história humana cumprisse o seu curso inexorável.

Tal como os bolcheviques na Rússia de 1917, era preciso "apressar" essa vinda redentora, o que implicava "remover" os obstáculos "impuros" (leia-se: judeus, membros do clero, grupos abastados etc.) que impediam a consumação da escatologia cristã.

Os massacres que se cometeram na Europa do Norte entre os séculos 11 e 16, e que Cohn recria magistralmente no livro, acabariam por ter a sua réplica, com o mesmo espírito utópico, mas uma redobrada violência e apuro técnico, pelos movimentos totalitários do século 20.

Hoje, o homem pós-moderno já não está interessado em precipitar "o paraíso na Terra", talvez por ainda ter presente os resultados pavorosos da última tentativa.

E, verdade seja dita, também não espera que, no termo da sua caminhada mundana, haverá a salvação dos justos e a perdição dos injustos.

Mas persiste ainda, na sua alma rigorosamente descrente, essa fagulha de vaidade milenarista: a vaidade típica de quem se considera um sujeito único na história; e, por isso mesmo, merecedor de assistir ao maior espetáculo do mundo sentado na primeira fila.

Fantasiar o fim do mundo é uma forma de nos fantasiarmos a nós como testemunhas desse fim do mundo.

E, além disso, é também uma forma conveniente de sacudirmos um pouco o tédio existencial da nossa condição pós-moderna, da mesma forma que os nossos antepassados medievais procuravam libertar-se da miséria material que os rodeava pela violência utópica.

Vaidade e tédio, eis a combinação dos nossos namoros apocalíticos. Que, às vezes, divertem.

A esse respeito, lembro-me bem do Réveillon de 1999, quando soaram as doze badaladas. A ansiedade estava ao alto: foram meses e meses com notícias tenebrosas de que um "bug" informático iria paralisar o mundo na chegada do ano 2000.

E, quando 2000 chegou, nada de nada. Ou, melhor dizendo, tudo de tudo: a mesma vida para viver; o mesmo trabalho para fazer; as mesmas contas para pagar; a mesma mulher, ou o mesmo homem, para suportar.

Na festinha onde me encontrava, lembro-me até da pergunta de um colega pasmo: "Era isso o bug?" Pergunta de desânimo, não de alívio.

Razão tinha o poeta. Viver sempre também cansa.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Eles não morreram de overdose

João Luiz Mauad, O GLOBO

A repercussão da morte de Steve Jobs e as merecidas homenagens a ele prestadas, inclusive e principalmente aqui no Brasil, são dignas de registro, pois mostram talvez uma mudança profunda na opinião pública, historicamente avessa ao capitalismo em geral e aos capitalistas em particular. Devido a uma persistente cultura de privilégios e do intenso compadrio entre agentes públicos e privados, vigente por aqui desde priscas eras, a imagem dos empresários sempre foi a pior possível, não raro considerados ladrões, sonegadores ou exploradores do trabalho alheio.

O egoísmo é outra pecha frequentemente lançada contra os empreendedores para desmerecer seu trabalho e as realizações. Os detratores anticapitalistas esquecem que quase todos nós trabalhamos somente em proveito próprio. A única diferença é que a compensação pelo trabalho, seja ele de um humilde servente ou de um renomado cientista, é o salário, enquanto a dos empresários é o lucro. Aliás, há outra importante diferença: o risco. Os assalariados recebem pelo trabalho executado independentemente do resultado alcançado, mas os capitalistas serão recompensados apenas caso os seus investimentos e esforços se tornem lucrativos.

No verdadeiro capitalismo - onde a eficiência é recompensada, a ineficiência é punida e os favores do Estado estão fora do alcance -, a luta pela sobrevivência é tão dura que o bom empresário não pode se dar ao luxo de olhar o interesse social, mas unicamente os seus próprios interesses, sob pena de sucumbir ante a concorrência alheia ou a ineficiência própria. Contudo, foi justamente este famigerado "egoísmo" o responsável pela criação de produtos e serviços que transformaram o mundo num lugar muito melhor para viver.

Por mais que possa parecer estranho, foi graças à ambição de homens como Steve Jobs que a imensa maioria dos nossos contemporâneos goza hoje de um padrão de vida bem acima do que, há apenas poucas gerações, era impossível até aos mais abastados. Ou alguém duvida que o autointeresse dos capitalistas está por trás de quase todas as inovações tecnológicas que, de alguma forma, concorreram para satisfazer boa parte das carências humanas?

Convido-o a pensar algumas das maravilhas já criadas pelo engenho humano. Pense nos automóveis, locomotivas, navios e aviões, que possibilitam deslocamentos cada vez mais rápidos e seguros. Pense nos eletroeletrônicos que facilitam a vida e entretêm bilhões de indivíduos: geladeiras, televisores, máquinas de lavar, micro-ondas, condicionadores de ar, computadores, telefones celulares. Pense nos equipamentos que ajudam a tornar a medicina muito mais eficiente e prática, como tomógrafos, centrífugas, aparelhos de ultrassonografia, de ressonância magnética, microscópios eletrônicos, microchips, marca-passos. Pense na indústria farmacêutica, seus avanços e descobertas. Pense, por exemplo, que, há poucos anos, a maior parte dos doentes com úlcera gástrica terminava numa mesa de operações e hoje aquela é uma doença facilmente tratável com medicamentos. Pense na agricultura e nos avanços de produtividade que permitem alimentar um contingente humano que cresceu de forma geométrica, contradizendo as previsões catastróficas de Thomas Malthus e seus seguidores.

Esses avanços, e toda a fantástica geração de riquezas conseguida pelo homem, foram obtidos graças à divisão e à especialização do trabalho e, acima de tudo, ao interesse pessoal dos indivíduos, principalmente dos execrados capitalistas. Sem isso, talvez a maior parte da população ainda estivesse labutando de sol a sol, morando sem qualquer conforto e sujeita a condições extremas de insalubridade. Sem falar do cotidiano monótono, restrito a atividades básicas de sobrevivência.

Sem a recompensa pessoal, seja ela fruto da remuneração do trabalho ou do capital (lucro), não há incentivo para que os indivíduos produzam, invistam, pesquisem, desenvolvam novas tecnologias, criem e coloquem novos produtos e serviços à disposição dos demais. Analisem a relação de ganhadores do Prêmio Nobel nas áreas de ciência e tecnologia. Onde está (ou esteve) domiciliada a imensa maioria deles? Sem dúvida, em países onde há liberdade econômica (capitalismo) e, consequentemente, a busca pelo lucro. Será que isso acontece por acaso?

Dilemas morais


Minha resenha do livro "Justiça", de Michael Sandel, de Harvard.

Why Ron Paul Matters

By EDWARD H. CRANE, wSJ

The controversy surrounding decades-old newsletters to which GOP presidential aspirant Ron Paul lent his name is regrettable. First, it is regrettable because the sometimes bigoted, intolerant content of those newsletters is inconsistent with the views of the congressman as understood by those of us who know him. Yet, while Mr. Paul disavows supporting those ideas, he refuses to repudiate his close association with their likely source, Lew Rockwell, head of the Alabama-based Mises Institute.

Second, the New York Times editorialized recently that these unsavory writings "will leave a lasting stain on . . . the libertarian movement." That is wishful thinking on the part of the Times, but it adds to the background noise surrounding Mr. Paul's candidacy, obscuring the real libertarian policy initiatives that have made his candidacy the most remarkable development of the 2012 campaign.

Ron Paul's libertarian campaign has traction because so many Americans respond to his messages:

• Tax and spending. If ever there were sound and fury signifying nothing, it has to be the recent "debate" over the budget. Covered by the media as though it was negotiations on the Treaty of Versailles, the wrestling match between Republicans and Democrats centered on the nearly trivial question of whether the $12 trillion increase in the national debt over the next decade should be reduced by 3% or 2%.

Mr. Paul would cut the federal budget by $1 trillion immediately. He can't do it, of course, but voters sense he really wants to. As Milton Friedman once explained, the true tax on the American people is the level of spending—the resources taken from the private sector and employed in the public sector. Whether financed from direct taxation, inflation or borrowing, spending is the burden.

• Foreign policy and military spending. As the only candidate other than Jon Huntsman who says it is past time to bring the troops home from Afghanistan, Mr. Paul has tapped into a stirring recognition by limited-government Republicans and independents that an overreaching military presence around the world is inconsistent with small, constitutional government at home.

The massive cost of these interventions, in treasure and blood, highlights what a mistake they are, as sensible people on the left and right recognized from the beginning. Of course we want a strong military capable of defending the United States, but our current expenditures equal what the rest of the world spends, which makes little sense. It is futile to try to be the world's policeman—to try to create an American Empire as so many neoconservatives promote. And we can't afford it.

• Civil liberties. Libertarians often differ with conservatives over issues related to civil liberties. Mr. Paul's huge support among young people is due in large part to his fierce commitment to protecting the individual liberties guaranteed us in the Constitution. He would work to repeal significant parts of the so-called Patriot Act. Its many civil liberties transgressions include the issuance by the executive branch of National Security Letters (a form of administrative subpoena) without a court order, and the forbiddance of American citizens from mentioning that they have received one of these letters at the risk of jail.

The Bush and Obama administrations have claimed the right to incarcerate an American citizen on American soil, without charge, without access to an attorney, for an indefinite period.

President Obama even claims the right to kill American citizens on foreign soil, without due process of law, for suspected terrorist activities. Meanwhile, the Stop Online Piracy Act moving through the House is a clear effort by the federal government to censor the Internet. Mr. Paul stands up against all this, which should and does engender support from limited government advocates in the GOP.

• Austrian economics. Mr. Paul is often criticized for references to what some consider obscure economists of the so-called Austrian School. People should read them before criticizing. Nobel laureate Friedrich von Hayek and his mentor Ludwig von Mises were two of the greatest economists and social scientists ever to live.

Modern Austrian School economists such as Lawrence H. White, now at George Mason University, and Fred Foldvary at Santa Clara University predicted the housing bubble and the recession that followed the massive, multitrillion-dollar malinvestment caused by government redirection of capital into housing. Mr. Paul, like Austrian School economists, understands that we would be better off with a gold standard, competing currencies or a monetary rule than with the arbitrary and discretionary powers of our out-of-control Federal Reserve.

Mr. Paul should be given credit for his efforts to promote these ideas and other libertarian policies, all of which would make America better off. He'd be the first to admit he's not the most erudite candidate to make the case, but surely part of his appeal is his very genuine persona.

Which is not to say that Mr. Paul is always in sync with mainstream libertarians. His seeming indifference to attempts to prevent Iran from obtaining nuclear weapons, his support for a constitutional amendment to deny birthright citizenship to children of illegal aliens, and his opposition to the Nafta and Cafta free trade agreements in the name of doctrinal purity are at odds with most libertarians.

As for the Ron Paul newsletters, the best response was by my colleague David Boaz when the subject was raised publicly in 2008. About them he wrote in the Cato Institute's blog:

"Those words are not libertarian words. Maybe they reflect 'paleoconservative' ideas, though they're not the language of Burke or even Kirk. But libertarianism is a philosophy of individualism, tolerance, and liberty. As Ayn Rand wrote, 'Racism is the lowest, most crudely primitive form of collectivism.' Making sweeping, bigoted claims about all blacks, all homosexuals, or any other group is indeed a crudely primitive collectivism. Libertarians should make it clear that the people who wrote those things are not our comrades, not part of our movement, not part of the tradition of John Locke, Adam Smith, John Stuart Mill, William Lloyd Garrison, Frederick Douglass, Ludwig von Mises, F. A. Hayek, Ayn Rand, Milton Friedman, and Robert Nozick. Shame on them."

Support for dynamic market capitalism (as opposed to crony capitalism), social tolerance, and a healthy skepticism of foreign military adventurism is a combination of views held by a plurality of Americans. It is why the 21st century is likely to be a libertarian century. It is why the focus should be on Ron Paul's philosophy and his policy proposals in 2012.

Mr. Crane is co-founder and president of the Cato Institute.