quarta-feira, agosto 30, 2006

Conversa com Gabeira



Rodrigo Constantino

“A população já descobriu que o PT é igual aos outros que ele denunciava.” (Fernando Gabeira)

Estive em uma pequena reunião informal com o deputado Fernando Gabeira, onde pude fazer perguntas diretas sobre diversos assuntos. Em um resumo geral, ficou a imagem otimista de que seres humanos podem evoluir com o tempo. Gabeira ainda defende muitas idéias que eu condeno, colocando demasiada fé na capacidade estatal de consertar problemas – muitas vezes criados pelo próprio Estado. Mas comparado ao Gabeira que sonhava o sonho comunista e que chegou a participar do seqüestro do embaixador americano, adotando a máxima de que os fins justificam os meios, o atual é infinitamente melhor, mais amadurecido e realista.

Gabeira tem sido uma voz firme na oposição a este governo de quadrilheiros, e lutado como pode contra o corporativismo do Congresso. Saiu do PT com forte desgosto pela incompetência, antes mesmo dos escândalos infindáveis de corrupção. Reconhece que há poder demais concentrado em Brasília, e que a divisão entre esquerdistas e direitistas não é mais a crucial, e sim a que separa os republicanos dos patrimonialistas. De um lado, os que pretendem fazer algo pelo bem público, e do outro os que entram na política para aumentar o patrimônio pessoal. Gabeira entende ainda que o poder corrompe, e que a ocasião ajuda a fazer o ladrão. Afirma que confia diretamente em cerca de 10% dos congressistas, mas que vários outros não necessariamente praticariam atos ilícitos, fossem as oportunidades para tanto reduzidas. E isso passa pela redução do dinheiro que trafega pelas mãos dos políticos, assim como o poder.

O deputado defendeu que os governos não mais tenham o direito de alterar boa parte do quadro de burocratas, colocando “companheiros” nos cargos importantes por critérios políticos e prejudicando o funcionamento da máquina, que deveria ser mais independente. Em vários aspectos, Gabeira agora espelha-se no modelo americano. Deixou os dogmas ideológicos de lado e partiu para o bom senso. Até mesmo na questão ambiental – bandeira antiga – entende que há pouca compreensão por parte do governo das necessidades de se levar em conta os investimentos produtivos, muitas vezes engavetados por critérios absurdos, colocando o crescimento econômico em risco. Gabeira entende que a competitividade das empresas brasileiras precisa melhorar urgentemente, posto que a globalização pode fazer muito bem para o país, caso bem explorada. Lembrou a metáfora do leão e do antílope, onde o leão precisa correr mais rápido que o antílope mais lento, enquanto que o antílope precisa correr mais rápido que o leão mais rápido. Não importa se você é leão ou antílope, o importante é acordar e começar a correr! Duro é fazer isso com uma bola de chumbo amarrada num pé – os impostos extorsivos, e outra no outro pé – a burocracia asfixiante.

Não foram poupadas críticas ao PT no bate-papo, tampouco aos membros da esquerda retrógrada, ainda adeptos do comunismo. Gabeira condenou veementemente a postura do governo sobre a questão de Cuba, por exemplo. Quando perguntado sobre ideologias, evitou um rótulo, mas acabou por se considerar um capitalista. Sobre a citação na epígrafe acima, não faz justiça ao que foi dito por Gabeira na conversa informal. Ele parece compreender que o PT, na verdade, não fez “mais do mesmo”, e sim algo bem pior, uma verdadeira tentativa de tomar o controle de toda a máquina estatal. O “mensalão”, por si só motivo suficiente para um impeachment, é apenas a ponta do iceberg. A quadrilha, nas palavras do procurador da República, tinha objetivos muito mais amplos que a compra de deputados.

O petit comité reunido para escutar as idéias de Gabeira foi útil para eu verificar, uma vez mais, que nem tudo está perdido. O jovem Gabeira representava tudo que eu combatia, e o novo Gabeira tem idéias bem mais sensatas e racionais. Não foi suficiente para a conquista do meu voto, é verdade. Ainda tenho muitas divergências em relação ao papel que Gabeira atribui ao Estado na construção de um país mais livre e justo. Mas como já disse, perto do que ele defendia no passado, atualmente estaria inclinado a considerar Gabeira quase um aliado liberal. Quem sabe com mais alguns anos – e novas decepções com o Estado – ele não chega lá!

Perigosa Segregação

Rodrigo Constantino

A existência de uma classe média é fundamental para evitar que democracia vire sinônimo de ditadura das massas. Nos países desenvolvidos, a formação de uma grande classe média tem impedido com razoável sucesso que governantes abusem do poder de forma grotesca, diferente do caso de uma Venezuela, onde um povo segregado entre os muito ricos e os muito pobres acaba vítima do populismo autoritário de um Hugo Chávez da vida.

Em Política, Aristóteles levantou diversos riscos da democracia, e percebeu também que esses riscos seriam mitigados em uma sociedade com grande classe mediana, sem muita desigualdade, e mais educada. Ele lembrou que “em toda parte onde uns têm demais e outros nada, segue-se necessariamente que haja ou democracia exacerbada, ou violenta oligarquia, ou então tirania, pelo excesso de uma ou de outra”. Portanto, os riscos da democracia são ainda maiores nas sociedades muito desiguais, posto que a massa fica ainda mais suscetível à manipulação dos demagogos, que concentram poder quase ditatorial.

Infelizmente, o Brasil parece estar caminhando rapidamente para este cenário. Com uma carga tributária beirando os 40% do PIB e uma burocracia asfixiante, é a classe média que paga o grosso da conta, pois não dispõe de mecanismos para fuga. Os muito pobres nada têm para entregar, e os muito ricos acabam locupletando-se com os políticos poderosos. O modelo estatal hipertrofiado tem segregado o povo brasileiro, praticamente condenando a classe média à extinção. Trata-se de um perigoso quadro, favorável para radicais revolucionários, tais como o MST. Para reverter essa perigosa segregação, só mesmo reduzindo drasticamente o maior concentrador injusto de renda: o Estado. Caso contrário, o pouco que restou da classe média poderá sentir saudades até de Lula um dia, quando Pedro Stédile lograr a tomada do poder...

segunda-feira, agosto 28, 2006

Triste Época



Rodrigo Constantino

“Muitos valores vieram a parecer antiquados: falar a verdade, manter a palavra. Os bons parecem pertencer aos velhos bons tempos, embora sejam sempre queridos. Se é que ainda há alguns, são raros, e nunca são imitados. Que triste época esta, quando a virtude é rara e a maldade está no cotidiano.”

Tal comentário poderia tranqüilamente ter sido obra de qualquer brasileiro mais atento dos nossos dias. Afinal, a ética foi jogada no lixo, a impunidade anda solta e mentir virou mania nacional. Vivendo nos tempos do “mensalão”, das sanguessugas, do presidente que repete que não sabia de nada enquanto seus principais aliados envolvem-se em escândalos onde ele próprio é o grande beneficiado, não dá para deixar de compartilhar do sentimento do autor que lamenta a triste época, quando a virtude é rara – mais rara que diamante.

Mas o autor do comentário não vive em nossos dias, tampouco no Brasil. Trata-se de Baltasar Gracián, jesuíta espanhol que escreveu A Arte da Prudência em 1647. Neste mesmo livro, Gracián cunhou uma célebre frase que parece ter sido criada ad hoc para os eleitores de Lula: “A esperança é uma grande falsária da verdade”. Quem lembra da propaganda eleitoral de Lula nas eleições passadas, administrada por Duda Mendonça, sabe muito bem disso. “A esperança venceu o medo”, repetia a propaganda enganosa. Nisso que dá abolir o medo, fundamental na vida, para que busquemos mais informações na hora das decisões importantes. Sem medo, podemos pular pela janela e se espatifar no chão. Ou votar no Lula – o que dá praticamente no mesmo.

Mas vamos deixar o pessimismo de lado e focar no aspecto bom da coisa: se em 1647 já era normal este tipo de lamentação, é sinal que sobrevivemos, mesmo com os Lulas da vida. A virtude pode ser rara, ainda mais quando alguém como Lula, mesmo depois de todos os escândalos, lidera as pesquisas e apresenta boas chances de ser reeleito ainda no primeiro turno. Mas ela não é nula! E isso faz toda a diferença do mundo.

Os virtuosos conseguem sobreviver mesmo no meio dos pérfidos, e no final do dia, carregam o mundo nas costas. Parasitas e sanguessugas pegam carona e regozijam-se, como sempre. São maléficos para a saúde da sociedade como um todo, mas não são letais. Os hospedeiros, aqueles que criam a riqueza que será explorada por tais parasitas e sanguessugas, suportam o fardo. O mundo poderia ser infinitamente melhor sem tais exploradores, com certeza. Mas ele não vai acabar por conta dessa gente, por mais que se esforcem para tanto. A vida continua, com ou sem Lula no governo. Muito melhor sem, claro. Mas não vamos esquecer que a época é triste para os virtuosos...

domingo, agosto 27, 2006

Bingo!



Rodrigo Constantino

O destaque na capa do jornal O Globo deste domingo era sobre os bingos, em chamada que falava sobre o faturamento bilionário do setor obtido com liminares e possível pela tolerância policial. Desde 2003, quando a Justiça federal do Rio determinou o fechamento de todas as casas no estado, o mercado, em vez de diminuir, aumentou. São hoje 47 bingos no estado, segundo a reportagem do jornal. E a vista grossa da polícia permitiria que a exploração dos bingos seja um negócio bastante rentável.

O cerco contra os bingos fechou quando o braço direito de José Dirceu, então todo-poderoso ministro de Lula, foi flagrado numa fita acertando propina com um bicheiro ligado aos bingos. Homem de extrema confiança de Dirceu, inclusive com fortes laços pessoais devido a uma ligação de 12 anos, Waldomiro Diniz foi pego numa gravação de vídeo cobrando propina do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Waldomiro era subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência da República, e pelas evidências apresentadas extorquia dinheiro dos contraventores para engordar o caixa do partido. O esquema contava com a estrutura dos bingos. O PT se mobilizou para evitar a “CPI dos Bingos”, e, em vez de estimular o avanço das investigações, decidiu simplesmente fechar as casas de jogo, que geram vários empregos. A postura do governo Lula foi a do marido traído que, ao flagrar a esposa com outro no sofá da sala, resolve jogar fora o sofá.

O “argumento” de que há muita corrupção associada aos bingos, incluindo lavagem de dinheiro, e que por isso eles devem ser vetados, é totalmente absurdo. Por essa “lógica”, teríamos que acabar com a polícia e fechar o mercado financeiro. A fiscalização deve conter os abusos, mas estes não devem tolher o uso. O presidente da Federação Brasileira de Bingos, Carlos Eduardo Canto, estima que o setor poderia gerar R$ 2,6 bilhões em impostos por ano, e que os 500 bingos de todo o país estão dispostos a ser fiscalizados. Ele disse algo muito ignorado atualmente por várias pessoas: “Todo setor que fica na clandestinidade acaba caindo nas mãos de bandidos; os empresários sérios acabam desistindo do negócio”. O próprio governo está lançando na ilegalidade um setor que poderia estar gerando mais empregos e recolhendo tributos aos cofres públicos.

O caso do jogo do bicho é exemplar nesse ponto. O jogo recebeu esse nome quando foi lançado, em julho de 1892, por João Batista Vieira Drummond, o barão de Drummond, dono de uma chácara com um pequeno jardim zoológico localizado em Vila Isabel, Rio de Janeiro. Antes do bicho, havia outros jogos semelhantes no Brasil, como os jogos das flores, das frutas e dos pássaros. Manuel Zevada, um mexicano e influente banqueiro do jogo das flores, propôs ao barão a criação de uma réplica de tal jogo, mas no caso usando bichos. O objetivo era conseguir recursos para manter os animais e toda a estrutura do zoológico. Os visitantes eram estimulados a participar de sorteios. Cada bilhete trazia o desenho de um bicho. Tratava-se claramente de um empreendimento criativo. Mas o governo, ao que parece, não gosta de competição, e condenou os “banqueiros do bicho” à ilegalidade, ainda que o próprio governo ofereça loterias. O convite ao crime foi feito pelo próprio governo.

Na mesma linha, temos o exemplo do ramo de cervejas. Em Chicago, durante a Lei Seca, tivemos o famoso Al Capone, um criminoso que se meteu em diversos negócios ilegais, uma vez que seu contrabando de bebidas proibidas já tinha aberto o caminho para o resto. O governo havia decidido, através de uma lei, que a demanda existente da população por bebidas com álcool não mais poderia ser atendida pelo livre mercado. Ocorre que papel e caneta nunca foram capazes de alterar as leis da natureza, e a demanda continuou existindo. Alguém iria atendê-la, e este foi Al Capone. O governo o transformou num criminoso, foi o verdadeiro responsável pelo surgimento de alguém como ele. Tanto que quando o governo voltou atrás, tivemos o nascimento de grandes e importantes empresas, como a Coors, cuja família controladora pode freqüentar os mais nobres clubes.

O outro “argumento” contra a legalização dos jogos é tão absurdo quanto o primeiro. Falam que um povo ignorante e miserável será levado ao entorpecimento da jogatina, arriscando o pouco que ganham na sorte grande. Mas ora, o próprio governo vende sonhos desse tipo, através de suas loterias! Além disso, teríamos que acabar por decreto com a Igreja Universal também, que explora justamente essa fraqueza humana que busca consolo rápido para as calamidades. Apesar da tentação dessa medida, sabemos que ela não faz sentido algum, e representa um autoritarismo digno de um ditador.

Quem somos nós para decidir o que cada indivíduo fará da sua própria vida? Que direito tem a maioria, ou o Estado, de intervir numa decisão pessoal que diz respeito somente ao indivíduo? Liberdade pressupõe responsabilidade. Não podemos defender o direito de voto – infelizmente um dever no Brasil – e logo depois considerar os cidadãos como mentecaptos, incapazes de decidir sozinhos o rumo de suas vidas. Não faz sentido algum. É uma enorme contradição pregar o sufrágio universal da democracia ao mesmo tempo que o paternalismo estatal. E um Estado que proíbe o jogo porque os pobres cidadãos seriam vítimas de uma irresistível tentação é extremamente paternalista. Cidadãos não são súditos, tampouco filhos do governante do momento. Ao contrário, o governante é empregado do povo, e não tem o direito de jogar na ilegalidade um setor que atende uma demanda que afeta somente o indivíduo em si.

Acertou quem entendeu que o grande culpado pela situação criminosa no setor de jogos, incluindo o bingo e o bicho, é o próprio governo. Bingo!

sexta-feira, agosto 25, 2006

Casas de Espuma



Rodrigo Constantino

“Paradoxical as it may seem, the starting point for crises and depressions may be found in abundance rather than in scarcity, whether of money or capital.” (Burton)

O setor de casas nos Estados Unidos ganhou maior destaque na mídia internacional recentemente, com indicadores que podem estar apontando para o estouro da “bolha” imobiliária – ou “espuma”, como disse Greenspan. O setor, que tem sido considerado a locomotiva da economia global, puxando o crescimento dos países emergentes, pode estar cansando. Quais os efeitos dessa possível virada ninguém sabe ao certo. Melhor, entretanto, estar prevenido para tempos mais complicados a frente.

Do lado mais pessimista, abrigando vários analistas, o economista-chefe do Morgan Stanley, Stephen Roach, tem sido um dos que mais alardeia uma reação mais drástica por conta da queda no setor de casas dos EUA. Ele lembra que o preço das casas americanas atingiu um pico de 27 anos em 2005, e ainda estava subindo 20% no primeiro trimestre deste ano em 53 áreas metropolitanas pelo país. O estoque de casas não vendidas tem aumentado consideravelmente, subindo 40% em 12 meses terminados em julho para casas existentes e 22% para novas casas. Os preços médios ainda têm se mostrado resilientes, no entanto. Mas Stephen Roach acredita ser apenas uma questão de tempo para que desabem.

Os investidores já acusam o golpe, e 15 empresas de construção nos Estados Unidos perderam, no total, US$ 27 bilhões de valor de mercado desde o começo do ano, uma queda de 34%. Desde o pico, as ações dessas empresas caíram, na média, 44%. Segundo Roach, o setor de construção tem sido responsável por 0,5 ponto percentual ao ano no crescimento do PIB americano, e deverá subtrair algo como um ponto percentual nos próximos anos. Fora isso, há o efeito riqueza que a alta nos preços das casas gera. Pelos dados do Federal Reserve, o mercado de hipotecas sacou mais de US$ 700 bilhões no primeiro semestre de 2006, em termos anualizados. Trata-se de um enorme estímulo ao consumo. Roach estima que esse efeito riqueza tem sido responsável por mais 0,5 ponto percentual de crescimento econômico, devendo retornar para zero agora, ou mesmo cair no território negativo.

Em resumo, a economia americana, que vem crescendo 3,2% ao ano nos últimos 3 anos, poderá migrar para uma taxa mais próxima de 1% de crescimento, o que não chega a ser uma recessão, mas poderá causar um bom estrago nos mercados financeiros. O impacto nas demais economias poderá ser grande também, posto que os americanos são responsáveis por 70% do déficit comercial no mundo, ou seja, os consumidores americanos são os grandes compradores dos produtos exportados por todos os países. Nem todos compartilham dessa visão mais negativa, por diversas razões. O Goldman Sachs, por exemplo, considera que a dinâmica interna da Ásia irá permitir que a região atravesse razoavelmente ilesa esta correção americana. Outros analistas não chegam a ser tão pessimistas nem mesmo no que diz respeito ao setor de casas nos Estados Unidos, considerando que a “espuma” é mais localizada em certas regiões, e que a queda nos preços será bem gradual, sem maiores estragos para a economia.

A bolha imobiliária americana – se é que ela de fato existe – irá mesmo estourar em breve? Caso isso ocorra, qual será o verdadeiro impacto no resto do mundo? São perguntas de um trilhão de dólares, e ninguém sabe ao certo as respostas. O que sabemos, até agora, é que este tem sido um importante setor para o crescimento global, que por sua vez está em patamares bastante elevados. Os países emergentes, como o Brasil, têm surfado uma enorme onda favorável por conta disso. Os indicadores macroeconômicos melhoraram, o preço das commodities subiram, as exportações deslancharam. Será que esse cenário benigno irá perdurar por muito mais tempo? Parte dessa resposta depende justamente do setor de casas nos Estados Unidos. Afinal, os pilares são sólidos ou tratam-se apenas de casas de espuma? Façam suas apostas – e apertem os cintos!

quarta-feira, agosto 23, 2006

Simbiose Artística



Rodrigo Constantino

“Eu me sinto eufórico com os resultados do governo Lula; costumo dizer que estou indignado com os indignados.” (Wagner Tiso)

O presidente do “mensalão” participou nessa segunda-feira de um encontro com artistas na casa do ministro Gilberto Gil, em São Conrado. O apoio de boa parte da classe artística ao presidente Lula parece incondicional – ao menos no que diz respeito aos aspectos éticos. Provavelmente, tamanho apoio, mesmo depois de tantos escândalos, está condicionado somente às polpudas verbas que o governo vive despejando para esses artistas. O cão não costuma morder a mão que o alimenta...

O compositor Wagner Tiso reclamou que ninguém falou do caixa dois da reeleição do Fernando Henrique. Disse não estar preocupado com esses “detalhes” éticos, mas sim com o jogo do poder. Justificou ainda as alianças espúrias do PT, que englobam até mesmo José Sarney e Jader Barbalho. Não obstante o fato de que o PT de Lula não praticou “apenas” caixa dois, mas sim foi o arquiteto do mais nefasto esquema de corrupção visto no Brasil, parece que a mentalidade do artista é do tipo que divide os ladrões entre os que “me roubam” e os que “roubam para mim”. Até então, qualquer vestígio de corrupção era motivo para execrar os governantes – com razão. Mas de repente, quando o candidato deles chegou lá, a balança que julga passou a ter dois pesos, e duas medidas. Lula pode roubar à vontade. Os artistas não condenam. Basta soltar a verba para a “cultura nacional”.

O ator Paulo Betti afirmou que “política não existe sem mãos sujas”. Parece que quando a oposição suja as mãos, é a podridão da “direita reacionária”, mas quando é o Lula “deles”, uma luva impermeável evita que qualquer sujeira grude nas mãos. Não tem problema para os artistas que a grana para a “cultura” venha suja de bosta – contanto que não deixe de vir. Enquanto a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal forem os grandes financiadores dos artistas, Lula pode declarar amor ao ditador Fidel Castro que não tem problema algum. Pelo contrário: mais um filme enaltecendo alguma figura pitoresca como Che Guevara será produzido, enquanto a crítica irá “descer a lenha” no filme de Andy Garcia, que mostra um pouco da realidade cubana. Viva Olga! Afinal, a espiã da KGB lutava pela nossa “democracia”, a mesma que vem “elegendo” Fidel Castro por 47 anos seguidos...

O ator Zé de Abreu merece o troféu de mais patético da noite. Fez um brinde aos “Zés”, incluindo o Zé Dirceu e Zé Genoíno. Lula, ao ser questionado sobre a possível inconveniência do brinde, rebateu que não tinha problema, pois não devemos abandonar os amigos. Fica claro então que, quando Lula diz que foi traído, não trata-se dos que montaram o esquema de corrupção, mas sim dos que denunciaram o esquema. Esse é o presidente que será reeleito, ao que tudo indica, pelo povo brasileiro. Com a ajuda da classe artística, evidentemente.

Zeca Pagodinho teria dito que Lula tem a “palavra do povão”, e que é seu fã por ele falar a língua do povo. Lula, por sua vez, teria prometido ir tomar uma cachaça em Xerém depois das eleições com o cantor. Falar a língua do povo não qualifica ninguém para presidir uma nação complexa como o Brasil. Talvez ambos devessem ficar então apenas bebendo cachaça – e falando no dialeto que desejarem. Mas governar um país é coisa mais séria que isso!

A grande ausência da noite foi Chico Buarque, aquele que admira Cuba à distância, de sua milionária casa. Lula conta com o apoio de muitos “intelectuais” também, como a doutora Marilena Chauí. Os motivos são semelhantes: quando não é por ideologia dogmática, fruto de intensa lavagem cerebral na juventude, é apenas pela simbiose entre ambos, “intelectuais” dependentes da mão estatal e governantes que controlam o Estado. Entre a massa de apoio, encontramos muitos inocentes úteis, os que seguem cegamente o líder por motivos ideológicos. São como o burro na Revolução dos Bichos, de Orwell. Mas os artistas e intelectuais não. Eles sabem mais um pouco. Eles estão mais para os porcos da revolução. Seus motivadores são mesquinhos mesmo. Fazem qualquer coisa para manter o poder e as verbas estatais. Até mesmo tolerar o mais corrupto governo das últimas décadas!

Diferente de Wagner Tiso, e dispensando qualquer verba estatal para poder manter tanto minha liberdade como consciência, ainda fico indignado com os que se dizem indignados com os indignados. Uma quadrilha foi montada, e os artistas aplaudem. Figuras assim mancham o próprio conceito de arte!

terça-feira, agosto 22, 2006

Cachorro de Palha

Rodrigo Constantino

“Os humanos pensam que são seres livres, conscientes, quando na verdade são animais enganados.” (John Gray)

Em Cachorros de Palha, o professor da London School of Economics, John Gray, causa bastante polêmica ao afirmar que a técnica evolui, mas a ética humana não. Ele diz que a ciência pode ter aumentado o poder humano, mas também permitiu que o homem causasse maior destruição. O conhecimento, segundo o autor, não nos torna livres, e sim “nos deixa como sempre fomos, vítimas de todo tipo de loucura”. John Gray diz que trata-se de uma heresia moderna a crença de que o objetivo da vida é a ação, lembrando que para Platão, por exemplo, a contemplação era a mais elevada forma de atividade humana. O objetivo não era mudar o mundo, mas enxergá-lo corretamente. Apesar de podermos pescar uma ou outra mensagem interessante no livro, ele está repleto de contradições. Veremos algumas delas.

Para começo de conversa, há um tom bastante crítico sobre o conhecimento humano no decorrer do livro. Mas curiosamente, somente o conhecimento adquirido pelo autor possibilitou que a obra fosse concluída. Para condenarmos a razão, precisamos utilizá-la. E sobre o objetivo da vida ser apenas a contemplação, o autor precisa então nos explicar porque partiu para a ação de escrever um livro, já que sequer pretende tentar mudar o mundo. Isso para não entrar na seara de quanta coisa o homem teria deixado para trás se ainda estivesse apenas contemplando a natureza, desde Platão. De fato, o maior conhecimento humano não necessariamente altera a sua natureza, tampouco garante o fim das atrocidades cometidas por homens. Essa mensagem é boa no livro, principalmente quando lembramos que os genocídios cometidos pelos comunistas em pleno século XX foram supostamente calcados na razão humana. Mas a solução não é a ignorância. Pelo contrário, o próprio conhecimento humano já havia mostrado que as experiências comunistas seriam um completo fracasso. Mesmo com altos e baixos, me parece errado negar uma certa evolução não apenas no nosso conhecimento, mas no que isso representou de mudanças éticas, da barbárie para a civilização.

John Gray parte para uma visão bastante pessimista e escatológica no livro, defendendo as teses de Malthus e afirmando que o século XX poderá ser visto como um tempo de paz no futuro. Ele diz: “Se existe alguma coisa certa sobre este século, é esta: o poder conferido à ‘humanidade’ pelas novas tecnologias será usado para cometer crimes atrozes contra ela”. Cita, então, os gulags comunistas como prova do tamanho do estrago causado graças aos avanços tecnológicos. E conclui que “o progresso técnico deixa apenas um problema a resolver: a fraqueza moral da natureza humana”, problema que ele considera insolúvel. Jamais compartilhei de uma visão romântica do ser humano, como um “bom selvagem” corrompido pela sociedade, que é formada por homens mesmo. Mas também não creio que o progresso e o conhecimento não possam ir “controlando” melhor certas paixões perigosas. Se por um lado ainda corremos o risco que vem dos fanáticos muçulmanos, por outro lado uma boa parcela da humanidade está tendo cada vez mais acesso aos valores ocidentais ligados à liberdade individual. Ainda que justificado, um ataque militar que causa perdas de civis inocentes gera uma revolta enorme, forçando uma moderação por parte do governo em questão devido à pressão popular. Como ignorar um avanço nesse campo quando lembramos que, no passado, populações inteiras eram dizimadas nas guerras, as mulheres eram estupradas e as crianças mortas propositadamente? O Islã fanático com sua jihad ainda representa esse atraso, sem dúvida. Mas não podemos generalizar, tampouco ignorar o avanço relativo de outras civilizações.

A consciência humana e o livre-arbítrio também são questionados pelo autor, que dá uma grande ênfase ao poder da percepção subliminar. Sem dúvida, muito do que conhecemos não está disponível no nível da consciência, e usamos mecanismos automáticos diariamente para nossa sobrevivência. John Gray chega a afirmar que “temos acesso consciente a cerca de um milionésimo da informação que usamos diariamente para sobreviver”, concluindo que “não podemos ser os autores de nossos atos”. Mas o fato de boa parte do que conhecemos estar ocultado nas sombras da nossa mente não anula o enorme poder daquela parte a qual tomamos consciência e processamos à luz da razão. Entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha, ainda que tal liberdade sofra o impacto de forças ocultas. Ou será que o livro todo de John Gray foi escrito por acaso, sem reflexão alguma e independente de sua consciência?

Em um capítulo sobre moral, John Gray abraça com vontade o relativismo exacerbado, chegando a falar que “as idéias de justiça são tão eternas quanto os chapéus da moda”. Está certo que nosso conhecimento sobre a justiça muda com o tempo, preferencialmente evoluindo. O que ontem era visto como justo – a escravidão, por exemplo – hoje pode ser visto corretamente como injusto. Isso não torna a moral algo totalmente relativo e flexível. Os dez mandamentos do Monte Sinai ainda hoje seriam vistos como corretos, e matar um inocente do nada sempre será um ato injusto, não importa a época. Mas John Gray vai ainda mais longe: “Não é apenas que a vida boa tenha muito pouco a ver com a ‘moralidade’; ela somente floresce por causa da ‘imoralidade’”. Gray gosta do modus vivendi taoísta, onde a vida boa significa viver sem esforço, de acordo com nossas naturezas. “Os animais selvagens sabem como viver; não precisam pensar nem escolher”. Entretanto, com todas as angústias que nosso conhecimento pode gerar, eu jamais aceitaria trocar de posição com uma hiena. Será que John Gray trocaria? Até mesmo para refletir sobre isso, é preciso usar a razão, aquele instrumento que justamente nos afasta tanto de uma simples hiena.

Existem algumas partes do livro com as quais concordo. Busquei focar meu texto naquelas onde discordo, por considerar que tais contradições retiram muito o valor que o livro poderia ter. Sempre que alguém vem atacar violentamente o poder da razão humana, usando para tanto a própria razão humana, já fico desconfiado. À certa altura, John Gray diz que “os humanos nos quais a consciência é altamente desenvolvida não têm como evitar se transformarem em atores”. Faço uma última pergunta então: a consciência do próprio John Gray é pouco desenvolvida ou seu livro todo não passa de uma atuação?

segunda-feira, agosto 21, 2006

Não Somos Racistas



Rodrigo Constantino

O racismo, até então inexistente como uma característica predominante da nação brasileira, que sempre teve orgulho de sua miscigenação, pode estar florescendo por aqui. A mentalidade maniqueísta que divide o povo entre brancos e pretos está por trás desse lamentável fato. Eis a tese defendida com sólidos argumentos pelo jornalista Ali Kamel em seu recente livro Não Somos Racistas, uma leitura fundamental para quem pretende compreender melhor os rumos que o país está tomando na questão racial.

Ali Kamel deposita uma boa parcela de culpa no governo FHC, que teria avançado nessa remodelagem de uma nação bicolor, onde brancos oprimiriam negros. Tal mentalidade estaria totalmente de acordo com o defendido pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso nos anos 1950. No governo FHC foi criado o Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra, o que já denota este racismo que divide tudo em brancos e negros. Eram os primeiros passos do que viria a se transformar no regime de cotas durante a gestão de Lula, que tem até um Ministério da Igualdade Racial. As sementes que poderão germinar no até então inexistente ódio racial brasileiro foram plantadas por FHC, e bastante regadas por Lula.

O país já possui leis que previnem contra o preconceito racial, e a própria Constituição prega a isonomia das leis. Ali Kamel diz: “Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos”.

Em seguida, Ali Kamel dá continuidade à sua argumentação, lembrando que o conceito de raça sequer existe geneticamente: “Definitivamente, não existem genes exclusivos de uma determinada cor”. O próprio conceito de raça em si deve ser superado, e indivíduos devem ser julgados por outros critérios que não a cor da pele, algo totalmente irrelevante em relação ao caráter e capacidade intelectual. Não existem raças superiores ou inferiores, e abraçar tal crença é mergulhar na irracionalidade.

Dando prosseguimento aos argumentos, Ali Kamel mostra como as estatísticas têm sido mal interpretadas ou até mesmo manipuladas. O grosso da população brasileira se considera pardo, um termo vago que abrange várias tonalidades de cor. As estatísticas apresentadas para “provar” um suposto racismo como causa da miséria dos negros têm utilizado todos os pardos como negros, enquanto estes representam uma pequena minoria do total. Fora isso, há uma enorme confusão entre correlação e causalidade, onde passam a considerar como causa da pobreza a cor da pele, sendo que observando mais a fundo os números, fica claro que a pobreza não faz distinção de cor. O Pelé não é vítima de preconceito racial, assim como vários outros negros ricos. Já brancos pobres costumam ser vítimas de preconceitos. Ali Kamel diz existir um “classismo” no Brasil, onde a pobreza em si gera preconceito, mas não a cor da pele. Casos isolados sempre vão existir em qualquer lugar, mas claramente o racismo não é uma marca da nossa nação, tampouco o motivo da existência de tantos pardos e negros na pobreza. Se assim fosse, os brancos seriam oprimidos pelos amarelos, já que estes ganham o dobro do salário daqueles, na média. O racismo, na verdade, não explica a discrepância de renda. Um negro, um pardo e um branco com a mesma qualificação costumam receber o mesmo nível de salário.

Um outro livro fundamental para quem pretende conhecer mais a fundo a questão das cotas raciais é Ação Afirmativa ao Redor do Mundo, de Thomas Sowell. O próprio Ali Kamel usa em seu livro os estudos empíricos do professor negro e PhD. pela Universidade de Chicago. O trabalho de Thomas Sowell é esclarecedor sobre as conseqüências nefastas do regime de cotas. O que era para ser temporário passa a ser permanente e costuma abrigar novas minorias, pois políticos não acabam com privilégios estabelecidos. Onde não havia ódio racial este passa a existir, inclusive com casos de guerra civil, como em Sri Lanka. Apenas os mais afortunados entre a minoria privilegiada se beneficiam das cotas. Em resumo, a ação afirmativa falha em todos os sentidos. Ali Kamel conclui: “Errar, ignorando toda a experiência internacional sobre o assunto, é caminhar conscientemente para o desastre. No futuro, se se repetir aqui o que aconteceu lá fora, não haverá desculpas”.

PS: Para quem acha que o alarde é exagerado e o racismo, mesmo com todo o barulho na defesa de privilégios, ainda está longe de ser nossa realidade, pode fazer um simples exercício: imaginar qual seria a reação dos defensores de cotas e de todas as vítimas do “politicamente correto” caso um grupo de música fosse lançado com o nome “Raça Branca”.

sábado, agosto 19, 2006

O Legado de Walt Disney



Rodrigo Constantino

"We are not trying to entertain the critics; I'll take my chances with the public.” (Walt Disney)

Filho de um fazendeiro pobre, Walt Disney começou a trabalhar muito cedo. Gostava de desenhar, e costumava antropomorfizar os animais. Tinha o espírito empreendedor americano em altíssimo grau, e com 20 anos já tinha sua própria empresa, que falira – o que não o impediu de tentar novamente. A história de Walt Disney mistura-se com o desenvolvimento da indústria de entretenimento americana. Seus valores pessoais, tais como o individualismo e a importância da família, revelaram-se ingredientes fundamentais para o sucesso da nação mais rica do planeta.

Disney chegou na Califórnia em 1923, levando apenas US$ 40 no bolso. Ele teve muita dificuldade para encontrar trabalho na indústria cinematográfica, chegando a ter que pegar dinheiro emprestado até mesmo para comer. Mas tratava-se da terra das oportunidades, e de um indivíduo persistente e batalhador. Com a ajuda do irmão e de uns poucos assistentes, e com parcos recursos no bolso, seus trabalhos foram conquistando espaço pouco a pouco, e agradando o público. Disney respeitava o que era demandado pela audiência, um princípio básico que muitos, ainda hoje, ignoram, achando que as preferências podem e devem ser criadas na marra, de cima para baixo. Disney teve que se adaptar e mudar sua maneira de fazer desenhos. Chegou também a afirmar que competiu sua vida inteira, não sabendo como se sairia sem ela. Novamente, mais um conceito básico do capitalismo liberal, tanto ignorado pelos que condenam a competição, não reconhecendo que é ela que possibilita o progresso constante e a satisfação dos consumidores.

O grande divisor de águas na carreira de Disney foi sua famosa criação, o Mickey Mouse. No auge de sua popularidade, em 1933, o camundongo recebeu 800 mil cartas de fãs, um recorde jamais alcançado. Observou-se que o Mickey era uma espécie de auto-retrato de Disney, e este, de fato, chegou a afirmar que o Mickey Mouse era um símbolo de independência. Em seguida ao sucesso de Mickey, para adicionar som às animações – algo que Disney considerava fundamental para o avanço da indústria – foi gasto todo o dinheiro que os irmãos Disney tinham juntado até então, e tiveram ainda que vender o carro do pai. O primeiro desenho de Mickey com som sincronizado foi exibido no início de 1928. O desenho animado sonoro havia sido inventado, um exemplo fantástico de criatividade, além do nascimento de uma nova forma de arte. O mundo não seria mais o mesmo.

Walt Disney colocava a excelência antes de qualquer outra consideração e o estúdio gerava poucos lucros, apesar do sucesso retumbante, já que eram automaticamente reinvestidos no negócio – em novas tecnologias e na contratação dos melhores artistas. Além dos desenhos, Disney concebeu a idéia de um parque, desenvolvido em torno de um tema. A primeira Disneylândia foi inaugurada em 1955, na Califórnia. Fora isso tudo, o próprio Walt Disney treinou pessoalmente mais de mil artistas.

Como no meio artístico a ideologia comunista sempre fez mais vítimas, a empresa de Disney não ficou imune a tal pressão. Entretanto, ele recusou-se de forma obstinada a permitir que sua empresa promovesse o coletivismo ou os valores socialistas. A tensão surgiu, culminando numa greve em 1940 cujo objetivo era forçar Disney a fazer desenhos com propaganda pró-comunista ou fechar o estúdio. Por sorte dos espectadores em particular e do mundo em geral, os comunistas não tiveram sucesso. Mas o resultado disso foi o lamentável fato de escritores de esquerda tentarem demonizar a figura de Walt Disney, tanto em vida como postumamente. Mas como o próprio disse na frase da epígrafe acima, não eram os críticos o alvo para entretenimento da Disney, e sim o público. Este agradece!

Atualmente, a Disney segue sua trajetória de sucesso, com vendas anuais perto dos US$ 30 bilhões e empregando milhares de funcionários, além de levar a fantasia para milhões de lares no mundo. A obra teve começo pelas mãos de um empreendedor individualista, que encontrou um ambiente de razoável liberdade para poder lutar pelos seus ideais. Disney e América, uma combinação fantástica entre criatividade e liberdade. Eis o legado de Walt Disney.

terça-feira, agosto 15, 2006

Risco País



Rodrigo Constantino

“Sobreviver nos mercados financeiros às vezes significa bater em rápida retirada.” (George Soros)

Curiosamente, os petistas passaram a demonstrar bastante interesse no tal “risco país”, antes considerado como instrumento de “especuladores gananciosos” para prejudicar os interesses nacionais. Claro, o risco país está em níveis historicamente baixos, e os petistas, sempre com seus dois pesos e duas medidas, tentam usá-lo como “prova” das benfeitorias de Lula. Mas isso faz algum sentido? Me pergunto se os petistas têm alguma idéia do que vem a ser o risco país...

O JP Morgan criou o EMBI, um índice que calcula o retorno dos bonds de diversos países emergentes. A taxa é medida em spread sobre os títulos do governo americano. Essa taxa pode ser considerada como uma aproximação da percepção de risco dos investidores estrangeiros em relação aos países emergentes. Mas na verdade, diz respeito somente aos títulos do governo, onde o retorno depende basicamente da capacidade deste de pagamento do seu endividamento externo. Se a dívida externa de um governo é pequena, provavelmente ele pagará taxas civilizadas aos detentores de seus bonds. Logo, o fato do risco país de determinada nação ser maior que o de outra, não quer dizer, necessariamente, que o país em si está em melhor situação. O risco país do Brasil já superou o da Nigéria, e ninguém seria louco de afirmar que somos um país pior que a Nigéria, por mais que os próprios petistas, no governo, esforcem-se para tanto.

No começo de 2002, nosso risco país bateu os 700 pontos base acima dos títulos americanos. Estava em declínio após várias crises que tanto afetaram os mercados emergentes, como a da Ásia em 1997, a da Rússia em 1998 e o estouro da bolha de tecnologia em 2000. Porém, foi ficando claro que o então candidato Lula seria o próximo presidente do Brasil, e levando-se em conta todo seu histórico de pregações radicais – incluindo o calote da dívida externa – o risco país explodiu. No final de setembro, chegou a encostar nos 2.500 pontos base acima dos títulos americanos. Vários investidores, não sem razão, temiam um governo Lula. Não era apenas a Regina Duarte que tinha medo. Qualquer um que conhecesse o currículo de idéias defendidas por Lula, suas amizades e participação no Foro de SP tinha motivos de sobra para desconfiar. Na dúvida, a preservação de capital fala mais alto, e ocorre um “flight to quality”, quando os investidores buscam um porto seguro para seus investimentos, mesmo que sacrificando retorno imediato. Assim, o risco país dispara e não é suficiente para estancar a sangria de capital.

Desde então, o risco país do Brasil vem sistematicamente caindo. Atualmente, perto dos 200 pontos base, está na sua baixa histórica. Seria mérito do Lula? Quem tenta atribuir isso ao presidente do “mensalão” ou age de má-fé ou ignora os fatos. Na verdade, o risco país de todos os países emergentes vem caindo drasticamente desde então. O mundo encontra-se num cenário altamente favorável aos emergentes, com preços de commodities em alta, o fator China impulsionando as economias, a inflação contida pelas pressões deflacionárias do capitalismo global e um excesso de liquidez nos mercados. Assim, o risco país médio dos países emergentes, excluindo a Argentina em default, saiu de 900 pontos base em 2002 para baixo de 180 pontos hoje. A tendência de queda é mundial, e o Brasil ainda tem um risco país acima da média dos demais emergentes. Se a queda no Brasil foi mais acentuada, isto deve-se ao fato de que tiraram o “bode” da sala, que era o próprio Lula histórico.

Justiça seja feita, algum mérito o governo Lula teve. Foi o de não seguir aquilo que era pregado pelo PT no passado! Manter a política macroeconômica do governo anterior foi uma das poucas medidas acertadas neste governo. O Banco Central, com equipe predominantemente formada durante a gestão de FHC, e gozando de razoável autonomia, foi capaz de aproveitar o vento benigno de fora para reduzir nossa dívida externa e aumentar as reservas cambiais. Como o risco país, medido pelo EMBI, trata apenas dessa capacidade de pagamento do endividamento externo, é claro que tinha que despencar. Não foi um fato isolado do Brasil. O endividamento externo dos emergentes, como um todo, desabou, o que explica justamente a queda generalizada do risco país. Se fosse mérito de Lula, o homem deveria tentar o cargo de Deus, não de presidente do Brasil.

Em recente relatório, o Morgan Stanley reconhece essa drástica redução do risco externo dos países emergentes, concluindo que a atenção dos investidores deverá voltar-se para os fatores internos, tais como carga tributária, burocracia e flexibilidade trabalhista. Nestes quesitos, o Brasil perde feio da concorrência. Os países do Leste Europeu têm feito o dever de casa. Alguns adotaram impostos flat, com taxa única para todos, e reduziram a burocracia. No Brasil, a carga tributária, perto de 40% do PIB, é uma das maiores do mundo. A burocracia é asfixiante. As “conquistas” trabalhistas dobram os custos de contratação, jogando milhões para a informalidade. A dívida pública chega a um trilhão de reais!

Em resumo, quando saímos da fantasia do risco país, que mede apenas a capacidade de arcar com os títulos externos, para colocar uma lupa na situação interna, não resta muito o que comemorar. E Lula não fez uma reforma estrutural sequer que melhorasse a perspectiva futura do país. Mas quem liga para isso? Os petistas agora comemoram: o risco país bateu 208 pontos, seja lá o que isso quer dizer. Mais quatro anos de “mensalão”, de autoritarismo estatal, de falta de reformas básicas, de populismo irresponsável, de crescimento dos gastos públicos...