domingo, setembro 10, 2006

A Cruzada Reversa



Rodrigo Constantino

“Existem momentos na vida onde manter-se em silêncio é um erro, e falar uma obrigação; um dever cívico, um desafio moral, um imperativo categórico do qual não podemos escapar.” (Oriana Fallaci)

Passados cinco anos do atentado terrorista que estarreceu o mundo, choca-me que muitos ainda preferem ignorar fatos da realidade sobre o que representa a verdadeira ameaça islâmica. À época do ataque coordenado por Bin Laden, a escritora italiana Oriana Fallaci escreveu um pequeno livro – um verdadeiro desabafo – intitulado The Rage and the Pride. Trazer alguns pontos da autora nessa data, para relembrar determinados argumentos esquecidos, é meu objetivo com este artigo.

O próprio Bin Laden reforça as palavras de Oriana, quando esta afirma que as pessoas não entendem, não querem entender, que há uma Cruzada reversa em andamento, uma guerra religiosa a qual os fanáticos chamam de Jihad. O Ocidente é um mundo a ser conquistado, subjugado ao Islã. Antes que os relativistas acusem, Oriana Fallaci não é uma cristã fanática, tampouco uma defensora de Bush. Ela mesma se reconhece atéia, e não poupa críticas aos governos conservadores. Porém, isso não a impede de enxergar o que os fanáticos pretendem, com o apoio de uma razoável parcela dos muçulmanos. Não se trata de um confronto militar, mas sim cultural, religioso. As vitórias militares do Ocidente não resolvem a ofensiva do terrorismo islâmico, mas encorajam-na. Elas exacerbam tal ofensiva, multiplicam-na. “O pior ainda está por vir”, prevê Oriana. Um choque de civilizações, como escreveu Huntington.

Os inimigos usam as qualidades do Ocidente como arma contra o próprio Ocidente. Quanto mais uma sociedade é aberta e democrática, mais exposta ao terrorismo ela está. Os próprios americanos costumavam enaltecer a ilusão de invulnerabilidade da América, ignorando que a vulnerabilidade advém justamente de sua força, sua riqueza. São as razões que incitam todo tipo de ciúmes e raiva. A própria essência multiétnica e sua tolerância viram-se contra ela. O que o Ocidente em geral e os Estados Unidos em particular apresentam de melhor é justamente o que é usado pelos fanáticos contra o Ocidente.

Fallaci escreve, segundo ela mesma, para as pessoas que, apesar de não serem estúpidas ou más, enganam-se na piedade e incertezas, buscando suavizar o que o Islã de fato representa. O medo de nadar contra a corrente e parecer racista – um erro gritante, já que não se trata de uma raça, mas de uma religião – cega tais pessoas, impedindo a visão da Cruzada reversa em marcha. Não querem ver que se o Ocidente não lutar, não se defender, a Jihad irá vencer. O raciocínio de Oriana, há anos, tem sido o seguinte: que lógica há em respeitar aqueles que não nos respeitam? Exatamente na mesma linha de Karl Popper, quando disse que “não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco de destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância”. Muitos que se dizem defensores da tolerância, no fundo, desejam a derrocada do modelo ocidental, torcem pelo êxito dos fanáticos. Por antiamericanismo patológico, desejam ver o colapso da América, ignorando que isso significaria o colapso da Europa, de todo o Ocidente. Seria o reino da barbárie.

Uma parte da raiva da autora é dedicada aos que tentam analisar tudo pelo prisma de “diferenças culturais” apenas. Fallaci refresca a memória dos leitores a respeito do atraso e da barbárie que tal “civilização” representa. Questiona qual a grande contribuição ao mundo que veio de lá, citando Copérnico, Galileu, Newton, Darwin, Pasteur e Einstein do lado de cá, nenhum deles seguidor do “profeta”. O motor, o telégrafo, a luz elétrica, a fotografia, o telefone, o rádio, a televisão, o computador, nada foi inventado por um aiatolá da vida, mas pelos ocidentais. O trem, o automóvel, o avião, o helicóptero e as espaçonaves, tudo criação ocidental. Os transplantes de coração e pulmão, as curas para tipos de câncer, a decodificação do genoma, tudo que é avanço medicinal, nada fruto dos seguidores de Alá. Quais as conquistas da outra cultura, da cultura dos barbados com burca que maltratam as mulheres? Nenhuma vitória nos campos da ciência, tecnologia ou bem-estar social.

Como os relativistas culturais justificam a monstruosidade da lapidação de esposas adúlteras em pleno século XXI? Como explicam a pena de morte para quem bebe álcool ou a mutilação de ladrões, a mão esquerda amputada pelo primeiro roubo, a direita pelo segundo, o pé esquerdo pelo terceiro, e por aí vai? Os esquerdistas que defendem o Islã esqueceram agora que a “religião é o ópio do povo”, como dizia Marx? Por que não acusam as teocracias orientais? As tiranias islâmicas não são igualmente inaceitáveis como o fascismo e o nazismo?

Oriana não pretende interferir nas escolhas dos outros, mas sim evitar que tais loucuras sejam impostas a nós. E eis justamente o objetivo deles, segundo as próprias palavras de Bin Laden: o mundo todo deve virar muçulmano. Não há diálogo possível com gente assim. Alguém acha que conversar com Hitler teria alguma utilidade? Mostrar indulgência é suicídio, acreditar no contrário é tolice. A duplicidade, ambigüidade e hipocrisia de muitos “pensadores” ocidentais colocam em risco a própria sobrevivência do Ocidente, a própria liberdade de expressão que hoje eles usam contra si mesmos. Reconhecer que tal Cruzada reversa existe é um primeiro passo para que o Ocidente possa se defender. Antes tarde que nunca. Já se passaram cinco anos do atentado de 11 de Setembro que assustou o mundo. Antes, vários outros aconteceram. Depois, idem. Manter os olhos fechados para a realidade não é uma opção aceitável. Quando resolverem abri-los, poderá ser tarde demais...

9 comentários:

Paulo X disse...

Rodrigo,

Os esquerdoidos seguem aquele famoso lema, "o inimigo de meu inimigo é meu amigo", esquecendo-se que eles próprios serão as próximas vítimas caso uma tirania islâmica se estabeleça pelo mundo.

O que está em jogo é a sobrevivência da civilização como a conhecemos.

J. Rodrigues disse...

Rodrigo
Sempre digo que o rato não deve dar água ao gato. Certa vez um comunista me disse o seguinte: Vocês liberais não existem, são uma farsa, pois pelos seus princípios vocês não podem impedir que nós, radicais de direita ou de esquerda, existamos num mundo governado por liberais. Já nós temos por obrigação eliminar vocês.
Respondí:É certo mas a liberdade subsistirá. Ela nasce com o homem.

C. Mouro disse...

Dois excelentes comentários!
Valem uma boa reflexão, pois dizem muito mais do se pode perceber imediatamente.
Show de bola!
- Agora vou ler o que deve ser outro ótimo artigo.
Abraços
C. Mouro

O Direitista disse...

Há uma confusão aqui. O Islam não é essencialmente fascista. O que ocorre hoje é o fenômeno do fascismo islâmico. O verdadeiro Islam é artigo raro. A religião islâmica tem sido distorcida para uso dos fascistas, da mesma forma que a religião católica foi distorcida com a "teologia" da libertação (para o uso dos marxistas) ou com as pseudo-religiões gnósticas.

Basta lembrar que os fundadores do atual fascismo islâmico tiveram formação européia. O fascismo teve origem européia, assim como o fascismo islâmico, o que deveria jogar por terra a teoria da "guerra entre civilizações". O que há é a guerra entre o fascismo e a liberdade.

Em tempo: a ignorância dos grandes pensadores do Islam, filósofos e matemáticos principalmente, não é razão para se alegar sua inexistência. De resto, é preciso ter clareza de que uma guerra está de fato em curso. É preciso saber de que lado se está.

Reginaldo Almeida disse...

J. Rodrigues,

Você disse tudo. A relação totalitarios vs liberais é exatamente a mesma que os Jihadistas e os EUA (ou o mundo "livre").

Mas o que fazer? Para mim está claro que em algum momento de sua historia os EUA buscaram para si (apesar de nao saberem o que faziam) essa classe de problemas. Quando tinha a dicotomia diplomática de que pregavam a democracia onde lhes convinha e tam apoiavam ditadores onde lhes era interessante, eles viraram uma espécie de PT mundial. O discurso nao coincidia com a prática. O mesmo pode se dizer a acerta do seu total desrespeito à regras de genebra.

Invadir o Iraque, e depois serem desmascarados também nao ajudou. Primeiro fizeram o Sadam, e depois o desfizeram, isso pega muito mal.

Penso que se movimentassem para estimular uma democracia nas petro-ditaduras árabes, quem sabe aplacariam algo do ódio das pessoas, assim como se tivessem uma participação mais imparcial no caso da Palestina.

Já o Irã, ai temos outra história. Até eu que tenho horror a guerra defenderia uma invasão do irã (decisão emocional, não racional, pois não medi as consequencias)

J. Rodrigues disse...

Reginaldo Almeida
Não penso como você, mas te entendo.Os liberais não agridem mas reagem enérgicamente às agressões. Não acho que o Irã ou a Coréia do Norte devam ser invadidos. Também não acho que devam ser impedidos de fabricar a terrível bomba. Não se pode "desinventar" o que foi inventado. Cada um que faça a sua. O que não pode é usar contra ninguém. Se usar leva a resposta em dobro. Um dia a humanidade vai ter que enfrentar essa coisa, mesmo. É so uma questão de tempo, infelizmente.

Santa disse...

Rodrigo
O som da voz de um dos terroristas pilotando um dos aviões que se chocou contra as torres anunciando: "Deus é grande!" impede-me definitivamente de ver os quadros de Caravaggio e ler a justificativa de Kierkegaard com os mesmos olhos que eu tinha quando era estudante de arte.O 11 de Setembro marca um momento de virada no curso da história recente. Ele nos mostra que os velhos fantasmas de uma intolerância religiosa que pareciam estar sepultados pelas disputas ideológicas do século XX, nunca morreram de fato.
Bjs

FERNANDO disse...

Os atentados de 11 de setembro de 2001 ainda não estão distantes, no tempo, o suficiente para que deles possamos tirar conclusões definitivas. Mesmo assim, os cinco anos que nos separam do acontecimento já são suficientes para acentuar a percepção de que a intensificação dos limites à liberdade dos cidadãos, em nome de uma suposta segurança coletiva, parece ser uma marca definitiva , deixada como herança, dos atentados.A opinião pública, os intelectuais e a mídia têm questionado se esse não seria um preço muito alto que as democracias ocidentais teriam que pagar pela sensação de segurança. O fato é que caminhamos para ter estados cada vez mais militarizados, e o controle sobre a vida individual dos cidadãos tenderá a ser cada vez maior.Por outro lado, o terrorismo passa a assumir um caráter cada vez mais globalizado, ao mesmo tempo em que o distanciamento entre o ocidente e o oriente islâmico assume uma proporção ainda inédita na História, pelo menos desde a expansão dos árabes entre os séculos VII e XI.

Demorará algum tempo ainda para que possamos compreender em toda a sua dimensão e profundidade que representaram os ataques terroristas de 11 de setembro. Não temos dúvidas, entretanto, de que representaram o marco inicial do século XXI.

ricardo disse...

Atéia?