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segunda-feira, julho 01, 2013

O inverno brasileiro

Carta Mensal da MP Advisors 

“É o homem previamente esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas “internacionais” (…) só tem apetites, pensa que só tem direitos e não acha que tem obrigações: é um homem sem obrigações de nobreza.”

O Homem-Massa, segundo José Ortega Y Gasset

Usualmente, os estudantes escolhem o mês de outubro para a semana do saco cheio, para dar um tempo.  Este ano, não só os estudantes mas também toda sorte de gente escolheu junho para dar o seu grito de basta.  Todos foram para a rua protestar contra 'tudo isso que está aí'. Nossos leitores sabem que motivos não faltam para tanta indignação. Afinal, a conta dos 10 anos de PT está chegando, e garanto que não vai ser baratinha não. Mas o que exatamente está em curso? Esse movimento nas ruas é algo positivo ou negativo? Quais as implicações políticas do despertar do 'gigante'? E a economia? Qual a visibilidade para os investimentos?

Não se trata de uma carta mensal trivial e muito menos fácil. Quisera eu ter as certezas que as massas (reais e das redes sociais) demonstram com tanta propriedade, após descobriremo que afinal era essa tal de PEC 37.  O que me move, neste texto, é um certo assombro com o nosso tempo e mais dúvidas do que certezas em relação ao nosso futuro. De qualquer forma, pode-se inferir do processo em curso:

- As redes sociais, a exemplo do que já ocorre em outros países, agilizam e potencializam esse movimento que os especialistas chamam de swarming (comportamento migratório de manada). A democracia tradicional representativa, onde o eleitor esperava pacientemente quatro anos por um recall (reelege ou não) do seu candidato parece obsoleta no mundo em rede, onde as demandas são instantâneas. A geração predominante (Y) é mimada e deseja tudo para ontem. O grande risco é a volta dos governos populistas, agradando a qualquer custo o seu eleitor.

- O filósofo Raymond Aron definiu os protestos de Paris  em 68 como um 'psicodrama coletivo'.  Pela variedade difusa de demandas (algumas contraditórias entre si) e pela falta de lideranças, o movimento tem componentes de um certo desconforto existencial de uma geração, onde a crença em Deus (presente nas gerações passadas) foi substituída pela crença no estado babá.  Quando o provedor não atende suas expectativas, a revolta e a angústia tomam conta do indivíduo.  Eles diagnosticam corretamente o problema (o estado é corrupto e ineficiente), mas pedem, como solução, justamente 'mais estado'.  De positivo pode-se ressaltar que o brasileiro se descobre como um 'pagador de impostos'.

- Falta de conexão entre causa e efeito.  Não é de se espantar saber que quem está nas ruas agora  foi justamente quem elegeu PT & aliados nos últimos 10 anos?  A massa se comporta como se os marcianos tivessem instalado o PT na direção do país, contra a nossa vontade.

- A resposta do governo nos levará mais e mais para a esquerda.  Afinal, quando se pede para um pagodeiro tocar uma música, ele responderá tocando mais um pagode.  Assim é com a Dilma, não importa o problema. Ela responderá sempre da mesma forma.  Aliás, é bom frisar que gosto muito da Dilma e do Mantega, quando estão dormindo.  Os dois acordados, e sendo pressionados pela turba, só responderão com mais e mais gastos públicos, já em curso com o passe livre para os estudantes, a suspensão de reajustes nas concessionárias elétricas e de rodovias e um não solicitado plebiscito de custo estimado em  R$ 500 milhões. 




- Muito da 'resposta' do governo e do congresso é apenas cortina de fumaça, e sabemos que educação e saúde não irão melhorar com esse nível de competência presente no governo, vide o atraso presente em praticamente todas as obras do PAC.  No curto prazo, as ruas devem se acalmar (os protestos já reúnem menos e menos pessoas), porém no médio prazo (Copa de 2014?), essa multidão poderá voltar para as ruas,  ensandecida e não mais disposta a dar um crédito de confiança para as autoridades.  O resultado pode ser catastrófico.

É claro que não desejamos fazer a defesa das autoridades no poder, apenas questionamos se esse método das ruas é o mais eficaz.  Acreditamos na legalidade e nas regras do jogo.  O mais importante agora é termos certeza que o jogo eleitoral é limpo (porque não uma auditoria nas urnas eletrônicas?) e lutarmos por uma mudança dos rumos do país nas urnas e dentro das regras democráticas.  A baderna nas ruas só interessa aos que não tem nenhum apreço pela democracia, que fique claro. E imaginar que  colocar centenas de milhares nas ruas sem qualquer tipo de baderna é ingenuidade.

Para adicionar insulto à injúria, o ataque de nervos brasileiro ocorre bem no momento em que o banco central americano, o FED, anuncia que considera o início da redução do programa de compra de títulos (algo como USD 85 bilhões por mês) para o final de 2013 e se estendendo até meados de 2014.  Embora isso não signifique aumento das taxas de juros (que viriam em um momento posterior), o mercado global se assustou e o impacto nos ativos financeiros foi generalizado.  Títulos de renda fixa, ações, ouro e moedas tiveram oscilações negativas significativas.  O resumo é que desde 2008 o Brasil teve 5 anos para arrumar a casa, fazer as reformas e pavimentar o caminho de crescimento sustentável.  Mas qual foi a opção de Dilma? Tal qual a cigarra preguiçosa da fábula, ela optou por mais e mais gastos e estímulo ao endividamento e ao consumismo exagerado da nova classe C. Pois bem, o inverno está chegando e a cigarra não se preparou.

Na renda fixa a nossa visão mudou um pouco.  Após um tempo de tutela, o Banco Central parece que ganhou da Dilma liberdade para agir. Afinal, ela viu que aumento dos preços pode tirar voto. Esperamos um banco central um pouco mais ativo e imaginamos, no final do ciclo de aumento dos juros, uma taxa SELIC na casa de 10% ao ano.  No atual nível de preços dos títulos pré-fixados, não vemos um prêmio razoável para estas posições, bem como no mercado de papéis de curto prazo indexados à inflação.  O melhor é ficar pós-fixado e aproveitar a elevação das taxas.  No mercado internacional os preços dos títulos de renda fixa, após a correção, estão atrativos.  Teremos um longo chão até o aumento de juros nos EUA.

Temos alertado nossos amigos e clientes a se manter longe da bolsa.  A recente onda de populismo de Alckmin e Beto Richa, impedindo os reajustes dos pedágios e de energia (Copel), mostra que não existe setor seguro num país com governo socialista e oposição medrosa, que tenta agradar às ruas de qualquer maneira.  E um ambiente de aumento de juros e estagflação não é propício para aventuras com as ações brasileiras.

O dólar teve um mês nervoso, chegando a bater em R$ 2,28 e fechando o mês na casa dos R$ 2,22.  Aqui há dois fatores remando na mesma direção (desvalorização do real): a tendência do dólar  se valorizar frente a todas as moedas (crescimento nos EUA ) somada aos nossos problemas intrínsecos.  Mesmo com toda a munição do governo, a tendência do real é de uma lenta, porém constante, desvalorização.

O momento é de calma, liquidez, pouco risco e comedimento nos gastos.  O futuro nunca esteve tão incerto.

segunda-feira, junho 03, 2013

Um dia a casa cai

MP Advisors - Carta de Maio

"Por que repetir erros antigos se há tantos erros novos a escolher?"
(Bertrand Russell)

Nossa presidente e sua equipe econômica parecem não concordar com a frase que abre nossa carta mensal.  A repetição dos mesmos erros é a tônica do mandato Dilma.  Como nossos leitores habituais sabem, temos alertado ad nauseam sobre esses erros.

Não é novidade para ninguém que estamos metidos numa estagflação já há dois anos, e que agora tende a se agravar.  A falta de cuidado com as contas fiscais também é algo datado, os gastos aumentam e as receitas vão se reduzindo, seja via desonerações, ou  via uma economia mais fraca mesmo.  O governo em sua obsessão com o crescimento do PIB, parece só conhecer uma nota: o estímulo do consumo interno.  Não importa que o consumidor já esteja endividado além do seu limite, o negócio é encher a casa (alienada fiduciariamente para algum banco) da classe C de automóveis, utensílios e roupas.  Tudo bem caro, comparado com o resto do mundo, mas com o crédito fácil a prestação fica mais suave.  Do lado da oferta temos uma indústria sem competitividade, pelos motivos de sempre, e a demanda furiosa tem sido atendida é pelos importados mesmo.

Se olharmos a economia como um sistema industrial, os desequilíbrios internos acabam aparecendo na forma de fissuras e vazamentos, que dão vazão a algum aumento de pressão em outro lugar.  Os pontos de vazamento atualmente são dois; a inflação (notadamente a de serviços, que não tem a concorrência dos importados) e mais recentemente o movimento do dólar, que reflete a piora acentuada nas contas externas.

A questão do dólar reflete algo além da simples piora técnica das contas externas.  Parece que os investidores estão acordando para o risco de uma 'venezualização/argentinização' no Brasil. Ainda não estamos lá, mas os movimentos intervencionistas e autoritários de Dilma em diversos setores da economia apontam nessa direção.

O último bastião no qual nosso confuso Mantega ainda se apoia é a baixa taxa de desemprego.  Até quando?  O empresariado tem suportado a compressão de margens e aumentos de custos de mão de obra e tem evitado demitir, pois sabe que nesse mercado acabará pagando mais caro por uma reposição pior.  Se a situação atual permanecer, não restará ao empreendedor alternativo que não seja a redução de quadros para preservar o seu negócio.


Com o endividamento “record” do trabalhador, um aumento da taxa de desemprego pode ter consequências funestas no sistema bancário e retro alimentar uma queda da economia maior do que o esperado.  A turma de Brasília está patinando em gelo fino e não se deu conta ainda.

O dólar mais alto trará inevitavelmente um pouco mais de inflação, que já estava passando do limite máximo tolerado.  O que fará essa gente? Aumentarão os juros ainda mais do que o previsto para combater a inflação? Se fizerem isso estarão dispostos a aceitar, politicamente falando, alguns pontos a mais na taxa de desemprego (nas portas de 2014)?  A estagflação é a situação mais hostil que um formulador de política econômica pode viver.  Mal comparando, é como se estivéssemos entrando com nosso avião em região de tempestade e descobre-se que o estagiário está pilotando a aeronave (espero que os estagiários não se chateiem com a comparação).

O que estamos começando a colher agora não é surpresa para nós; é o resultado de uma sequência de péssimas decisões.  Um dia a casa cai. Nosso objetivo, como consultores financeiros, é garantir a sobrevivência de seus investimentos a este ambiente em degradação.

Continuamos afastados da bolsa brasileira, afinal margens de lucro cadentes, intervencionismo e inflação/juros em alta não são propriamente catalisadores de valorização das ações.  Acreditamos que ainda há espaço para mais depreciação até o final do ano.

Na renda fixa os juros estão definitivamente em trajetória de alta, tentando apagar o incêndio da inflação. Os papéis pré-fixados são perigosos neste estágio, bem como os títulos atrelados ao IPCA, nestes preços.  No entanto, recomendamos a manutenção de carteira com bons papéis indexados a inflação.  Não foram poucos os bons lançamentos de CRI´s com juros reais de 6%-7% ao ano neste período.  Estes ativos apenas começam a empatar com a taxa Selic na hipótese do BC elevar os juros básicos para a casa dos 14% ao ano, o que nos parece algo bem remoto no atual governo. Quem chegou cedo à festa é bom ficar, mas os novos convidados irão pegar o buffet já devastado.

A grande questão é se o cliente que não tem ativos atrelado à moeda americana deve entrar já com a moeda no patamar atual de 2,15.  Aí entra a figura do planejador financeiro, que de acordo com o perfil de passivos e de gastos do cliente, pode contribuir muito nesta decisão.  Afinal uma coisa é o cliente que com dívida em dólar e que todo ano gaste uma quantia em viagens ao exterior, outra coisa é o cliente que está em vias de se aposentar e não tem gastos em outra moeda que não seja o real. 

De um modo geral a nossa visão é de um real ainda mais fraco, fruto da extrema (e rápida) deterioração das contas externas e da perda de confiança dos agentes internos e externos da economia no futuro do Brasil. É claro que o atual curso pode ser revertido em 2014, mas os vizinhos latinos que aderiram ao populismo de esquerda estão aí para lembrar que as coisas também podem ficar pior.  O Brasil que está se configurando para o futuro próximo é o Brasil onde queremos criar os nossos filhos?  Se a resposta for não, creio que uma parte de sua decisão de investimentos está repondida.

terça-feira, abril 30, 2013

O brioche estragado

Carta Mensal da MP Advisors


"Se me perguntarem qual a fatalidade de nossa época, responderia que são as esquerdas.”

Nelson Rodrigues

Após a derrocada da URSS, Coréia do Norte, Leste Europeu e Cuba, alguns ainda persistem no erro.  O ser humano continua apostando num modelo que deu errado, a despeito de Darwin. Nesta carta, beberemos um pouco das águas da consultoria Gavekal para falar sobre o momento atual da França, que parece rumar para uma segunda recessão pós-crise de 2008. Faremos também um paralelo dos problemas do modelo econômico francês com o modelo para o qual o governo brasileiro caminha a cada dia que passa.

Vamos ser claros: a França de François Hollande está no meio de uma paralisia política, moral e econômica.  O desemprego alcança novas máximas, a confiança no governo entre os empresários se deteriora, a produção industrial afunda, bem como o consumo privado, que já cai para os patamares de pós-crise 2008.

O desenho rígido do sistema do euro indica que países como a França irão experimentar um brutal ajuste cíclico como nos tempos do padrão ouro (onde não se podia imprimir ou desvalorizar a moeda). Os compatriotas de Asterix chegaram longe no experimento coletivista de bem estar social e agora rumam impávidos para o abismo.

As crises daquela época (padrão ouro) seguiam um padrão bem estabelecido: começavam com investidores animados com os bons retornos aumentando cada vez mais as suas apostas, bancos afrouxando os seus padrões de crédito, dificuldade de distinguir os reais empreendedores dos charlatões e analistas comentando que 'desta vez é diferente'. Isso ocorreu entre 1995 e 2007.

Depois vinha o pânico, com alguns investidores realizando que o retorno esperado não era mais aquele e vendendo suas posições, causando medo e movimentos súbitos no mercado Fase de algumas falências.  Isso foi o que houve no biênio 2007-2008.



Na sequência, a fase de alívio com taxas de juros baixas, ajudas do governo e preços dos ativos retornando ao que eram antes da crise anterior. Então, as pessoas, erroneamente, concluem que a vida voltou ao normal. Isso foi vivido entre 2008 e 2012.

A fase que vem a seguir, em especial na França, é de depressão secundária, quando os investidores realizam que afinal o retorno dos investimentos continua bem baixo e, portanto vendem seus ativos.  Os estudiosos da época do padrão ouro falam que essa fase pode durar entre três e cinco anos.  A desvalorização da moeda, a única saída viável, está fora de cogitação pela estrutura do euro. 

Mas se o problema é de desenho do euro, porque afinal a França é que vai primeiro para o abismo?  Boa pergunta e começamos respondendo com o adágio popular (para os europeus) de que "muitas casas na Espanha, muitas fábricas na Alemanha e muitos funcionários públicos na França". O gasto público na terra de Amélie Poulain representa 57% do PIB.  Você não leu errado, é isso mesmo! Quase 2/3 do PIB vem do setor público.

É muita gente sendo sustentada por poucos. Como se sabe, o 'estado' não cria riqueza e nada produz, ele apenas redistribui (com extrema corrupção e ineficiência) uma parte de quem produz para aqueles que não produzem (por incapacidade, doença ou por preguiça mesmo). Na França, há uma relação de dois 'malandros' sendo sustentados por um 'trabalhador'. Não tem como dar certo, não é verdade?

O ciclo vicioso funciona assim: uma 'elite' captura o estado e cresce cada vez mais. Para sustentar a farra, novos impostos são criados, reduzindo a capacidade de investimento dos empreendedores, que, por sua vez, têm lucros menores e naturalmente pagam menos impostos.  Com a arrecadação em queda o que fazem os 'saqueadores' que tomaram conta do estado?  Aumentam mais os impostos e contraem mais dívida (pública) para financiar o rombo.

Chega ao ponto em que até o mais pacífico dos servos protesta, como foi o caso de Gérard Depardieu que recentemente se naturalizou russo para não ter que pagar 75% de imposto de renda.  E veja que ele foi duramente criticado por não ser 'patriota' e 'fraterno'.  Trata-se do parasita se revoltando contra o hospedeiro que resolve tomar um vermífugo. No gráfico anexo, a lenta agonia do empreendedor na França.

O irônico desse desenho político, é que na medida em que você aumenta o número de 'beneficiados', mais fácil fica de se perpetuar no poder através do voto da maioria.  Funcionários públicos, bolsistas, cotistas e alguns empresários que gostam da letra 'X', naturalmente tendem a perpetuar o sistema que lhes permite ganhar a vida sem muito esforço.  Por hora, o que há é um sistema onde o setor público saqueia continuamente o setor privado.  Esse assalto institucionalizado naturalmente cria um ciclo de queda econômica sem fim. O resultado disso será o sucateamento da indústria, fuga de cérebros para o exterior, recessão, inflação e desemprego nas alturas.

Esse avanço do estado francês sobre os empreendedores ocorre tanto em governos de 'esquerda' quanto de 'direita'.  Sarkozy, a despeito de ter um senso estético melhor do que o de Hollande, na prática tocou a mesma música. O problema é cultural, ou indo mais fundo: trata-se da falência moral de uma sociedade. As elites francesas de fato acreditam que a tecnocracia comunista é melhor do que o capitalismo, e essa crença é aceita por grande parte da população.  A música vai tocar até que o financiador dessa dívida continue aceitando isso e também até que o último empreendedor francês arrume as suas malas para Palo Alto, Nova York ou Cingapura. Um dia a farra termina.

E o que isso tem a ver com o Brasil?  Acho que não precisa ter muita imaginação para traçarmos um paralelo com os charmosos franceses.  Temos muito do que eles tem.  Um 'estado' voraz e saqueador do setor privado, baixo crescimento, inflação, uma cultura 'esquerdizante', uma dívida pública que só cresce, uma indústria decadente, muitos 'direitos', poucos 'deveres' e uma demografia que daqui para frente teremos cada vez mais menos gente trabalhando e mais gente aposentada.  Além disso, ainda temos corrupção endêmica e um nível educacional péssimo. 

De positivo o Brasil tem uma capacidade (espero, ainda) de corrigir suas rotas e seus descaminhos.  Caso não mudemos o nosso passo, seguiremos para o abismo, só quem sem a educação, charme, vinho e o TGV dos franceses.

segunda-feira, março 04, 2013

O Pesadelo


MP Advisors - Carta de Fevereiro

Dilma teve dificuldade para dormir nesta noite, o jantar ainda brigava com os sucos gástricos; os pensamentos ruins iam e vinham e nada do sono chegar.  Após muito rolar na cama, e com o auxílio de uma destas maravilhas capitalistas da indústria farmacêutica, ela finalmente pegou no sono. E logo começou a sonhar.

O sonho começou animador.  Uma linda moça, loura, elegante, ponderada e exalando sabedoria, a convidou para um passeio. Mentalmente, a presidente anotou que nunca havia visto a moça em nenhum congresso do PT.  O passeio seria pelo futuro próximo, algum lugar entre 2030 e 2040. 

O passeio começou fora do Brasil, pelos aliados bolivarianos.  A Venezuela era governada por Conchita Chávez III, neta de Hugo Chávez, que, embora vivo não governava e apenas enviava tweets do hospital.  O país virou um amontoado de miseráveis que agora importava petróleo, todos os que produziam ou tinham algum tipo de estudo agora estavam em Miami, que, com isso, viveu um novo boom econômico e já está entre as cinco maiores cidades americanas.  A próxima parada, rápida, foi a Bolívia que já não era mais um país e sim um campo de batalha de quadrilhas de cocaleros, sendo a mais poderosa aquela comandada pelo pessoal que soltou um sinalizador em um jogo de futebol há muito tempo atrás.  Estabeleceram-se na Bolívia.

Para encerrar o tour sul-americano, a linda moça levou Dilma para a Argentina.  A presidente achou que era uma peça de mau gosto que pregavam nela. Buenos Aires, tão linda, estava caquética e destruída como Havana.  Não havia mais produção rural; a carne era importada da Austrália (caríssima) e o tradicional doce de leite não existia mais.  A população fazia filas e mais filas atrás dos cupons de racionamento, que davam direito a uma porção diária de comida.  Já não havia mais moeda, corroída por uma inflação de quatro dígitos.  O escambo havia voltado e cada um se virava como podia.  O país era dirigido por uma neta do Maradona com um descendente de Perón, que tinha como plataforma de governo a recuperação das Ilhas Falklands, nesta altura já com um PIB superior ao da Argentina. 

Dilma começava a ficar zangada, achando que isso era uma pegadinha do Lobão ou do Mercadante. A moça então disse, "chega dos vizinhos, vamos ver o Brasil".  Dilma ficou feliz, "agora vamos ver a potência que eu e Lula criamos".  A visita começou por uma cidade do sul, onde tinha acabado de haver um incêndio em uma boate, ceifando a vida de 300 jovens.  Dilma ficou fula.  "Como? Nós baixamos 87 decretos e 234 artigos regulamentando a atividade de boates em 2013. Como pode?"

A próxima parada foi numa plataforma do pré-sal, da antiga Petrobrás.  A plataforma (como as outras) já não produzia mais nada há 20 anos.  Todas foram alugadas pela empresa de festas do Thor Batista e eram usadas para raves em alto mar. Tudo com open bar e passagem de helicóptero inclusos. Dilma ficou pensando no que poderia ter dado errado. Afinal, ela caprichou na proteção e no financiamento da indústria nacional.  Agora o Brasil importava petróleo dos Estados Unidos, que com sua tecnologia de extração do ouro negro do xisto betuminoso, se tornou o maior produtor mundial.

Ao passar pelas cidades Dilma levou um susto: o trânsito simplesmente parou (afinal o que esperar com quatro milhões de carros vendidos por ano e zero km de estradas construídas) e os carros estavam abandonados na rua, num grande nó.  As pessoas agora andavam a pé e as bicicletas do Itaú eram disputadas a tapas.

Ao procurar agências do Banco do Brasil e da Caixa Econômica, Dilma levou um susto ao não ver mais nenhuma.  A moça explicou que após a brutal expansão de crédito, seguiu-se uma onda de inadimplência que levou o governo a ter que fazer seguidas capitalizações nos dois bancos.  No final, o governo juntou os dois bancos num só, o Banco do Povo, que tinha no seu logo a figura do Che Guevara.  

Dilma perguntou para a sua anfitriã o que era aquela fila no centro do Rio de Janeiro.  A moça explicou que era a fila do bolsa-vela.  Afinal, o setor de energia elétrica foi dizimado em 2012 e não houve mais investimentos.  Hoje temos energia somente 4 horas por dia e a vela virou artigo caro e escasso.  O governo petista, sempre atento ao social, criou o programa de distribuição de velas para os mais desfavorecidos.

Dilma perguntou sobre os programas de cotas.  Ficou sabendo que apenas quatro cotistas conseguiram se formar verdadeiramente.  Os outros se formaram por liminar ou pelo novo sistema de cotas para aprovação automática.  Os erros de engenharia e de médicos se avolumavam, causando muitas mortes; o CREA estudava a polêmica medida de somente habilitar engenheiros paraguaios. Ela anotou de chamar o Mercadante para uma reunião.

Dilma já estava ficando realmente preocupada quando se lembrou de Brasília.  Pediu para ver a cidade do poder.  Poucas surpresas. O presidente era governado pela chapa Lindbergh Farias do PT tendo como vice o filho do Collor, do PMDB.  No Congresso, os netos de Sarney e Renan se revezavam na presidência do Senado e se divertiam fazendo fogueiras com os abaixo-assinados para que saíssem. 

A base aliada já contava com 364 partidos e a palavra oposição foi retirada do Aurélio, por falta de uso.  Naturalmente, para pagar a conta deste estado gigantesco, a carga tributária já estava em 70% do PIB.  Com isso a economia não conseguia crescer e o PIB per capita já era metade do anotado em 2013.  O governo Lindbergh estudava exportar metade da população para África, e com isso melhorar o indicador. O prédio do Banco Central virou um Fundo Imobiliário de um Shopping e agora a política monetária era decidida diretamente por Lindbergh e por Collorzinho no poker das segundas, após o expediente.  A inflação não se sabe se oscila nos dois ou nos três dígitos, tantas são as manobras e tablitas sobre o índice.  Para manter o povo feliz e o projeto político em funcionamento, os programas de transferência de renda já atingem 300 milhões de pessoas, embora a população tenha apenas 280 milhões. Um mistério.

Dilma perguntou para a moça (seria uma fada?), afinal o que tinha dado errado?  A diáfana e sábia criatura calmamente explicou; "Dilma, todos esses experimentos sociais fracassaram, um após o outro. Os seres humanos são diferentes, e tem diferentes capacidades e ambições. Quando compulsoriamente (veja bem, nada contra a caridade espontânea) os mais fortes e trabalhadores tem que sustentar os fracos e preguiçosos, a sociedade implode. Afinal, o açougueiro não sai da cama de manhã imbuído de doar a melhor carne para o seu cliente. Sua motivação é o lucro. O lucro não é feio, muito pelo contrário. A beleza do lucro é ser a expressão monetária do trabalho bem feito, da inventividade, do sacrifício de uma juventude de estudos, do risco, enfim, de trocar o prazer momentâneo por algo bem maior lá na frente. Se você monta uma estrutura social onde os empreendedores são punidos e os preguiçosos são favorecidos o que você acha que os primeiros fazem? Vão embora, é claro. E o que é uma sociedade formada por gente acomodada? O que você acha que acontece em uma economia sufocada por milhões de normas e decretos, onde é mais simples se cadastrar em alguma bolsa- qualquer-coisa do que produzir uma caneta? O que você acha de uma sociedade onde o empresário gasta mais tempo com o seu contador do que com o seu cliente? Dilma, minha querida. Não se extermina as galinhas dos ovos de ouro de um país impunemente.".

Dilma acordou sobressaltada, o dia já amanhecia em Brasília e ela anotou no post-it que deveria alterar as regras de privatização de infraestrutura. Enquanto se maquiava lembrou-se de deixar o Tombini fazer alguma coisa com a inflação, que já estava incomodando, e também de demitir o Mantega.  Mas como fazer isso sem dar o gostinho para aqueles jornalistas ingleses nojentos?  Mas a pergunta que oprimia o seu coração era; "será que vai dar tempo?".

segunda-feira, dezembro 03, 2012

A derrota do superego


Cortesia de André Leite, segue mais uma excelente carta da MP Advsirors. Recomendo a todos também a leitura de "A rebelião das massas", de Ortega y Gasset.

"O Superego, que é gradualmente formado no "Ego", se comporta como um vigilante moral. Contém os valores morais e atua como juiz moral. Inconscientemente, o Superego faz a censura dos impulsos que a sociedade e a cultura proíbem ao Id, impedindo o indivíduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos. É o órgão da repressão, particularmente a repressão sexual. Manifesta-se na consciência indiretamente, sob a forma da moral, como um conjunto de interdições e de deveres."  

Sigmund Freud, em "O Ego e o Id" de 1923.

O que um texto tão antigo de psicologia tem a ver com a economia?  Partindo do pressuposto que a economia é a soma das ações e desejos de indivíduos (nem sempre racionais), eu diria que tem tudo a ver.

Para entender melhor a profunda transformação que o mundo passa, é necessário analisar a profunda transformação (para pior) que os valores das sociedades ocidentais vêm sendo submetidos.  Começando pelo sintoma em si, a dívida.  O mundo ocidental vive hoje sob o peso de uma dívida impagável.  Parte no setor privado, parte no setor público, ambas igualmente impagáveis.   O que levou a este crescimento brutal do endividamento?  Simples. O crescimento dos gastos de pessoas e governos ter sido bem superior ao incremento das receitas.

O gráfico ao lado, das despesas do governo americano (poderia ser de qualquer país ocidental) desde o pós-guerra, ilustra bem o crescimento contínuo ao longo dos anos das despesas públicas. O fato é que, nos últimos 60 anos, nos tornarmos cada vez mais mimados e gastões enquanto sociedade. Os valores tradicionais de poupança, sacrifício e estoicismo definitivamente não fazem parte do nosso repertório.  O mantra dos dias atuais é: "o importante é ser feliz, deu vontade? Então faça".  Vivemos a ausência do superego como um freio aos nossos impulsos. Deu vontade de comprar aquele carro novo? Que se danem as 72 parcelas com juros gordinhos.  O verão está chegando e você não vai fazer aquele cruzeiro com o Rei Roberto Carlos? O cartão de crédito está aí para isso mesmo; depois se dá um jeito de pagar. Ou não.

Será que virei um “socialista chatinho”?  Não! Tudo a favor do capitalismo, da inovação e do livre mercado, mas me parece que há algo errado nas longas filas de pessoas trocando o seu Iphone X (comprado há meses) pelo novíssimo Iphone X+1. Não vejo problema com o consumo, quem sou eu para julgar se é excessivo ou não?  O problema está quando quem financia esse consumo é a dívida e não um eventual incremento de receita.

Esta geração de superego castrado parece não entender que a conta chega.  Pode demorar, mas chega.  Por hora, essa gente se enamorou do estado super provedor que está em alta por toda parte.  Ou seja, a responsabilidade por gastar menos do que ganho não é minha. Quem equilibra as minhas contas no fim do dia é o estado babá.  É bolsa disso, cota daquilo, subsídio aqui e financiamento barato acolá.  Até nos Estados Unidos, o maior sucesso da liberal democracia mundial, parece que a demografia transformou essas pessoas estado-dependentes em maioria. 

Este declínio de valores está destruindo o mundo ocidental (que um dia teve valores judaico-cristãos).  Em algum tempo, a China ultrapassará os Estados Unidos como a maior economia do mundo.  Estudos apontam que a Rússia, por volta de 2020, passará a Alemanha. 

Receio que a hegemonia econômica acabará nas mãos de povos com valores muito distintos dos nossos.  Pior do que perder uma partida disputada é entregar o jogo de bandeja.  E através desta inversão, vamos assistindo o mundo ocidental abrir mão de seus valores e adotar valores estranhos em nome de conceitos absurdos como o multiculturalismo. 

Vejamos o caso europeu.  O casal moderno mal tem um filho, que será educado e após ingressar no mercado de trabalho será taxado entre 50% e 70% de sua renda.  Esses impostos irão sustentar os quatro (ou mais) filhos do casal muçulmano (que sabemos, mal irão trabalhar).  Não há economia que resista a isso.  A conta não fecha. Alguns moderninhos irão dizer que este pensamento é xenófobo. Se uma família de imigrantes paraguaios se instala na casa de um brasileiro e essa pessoa concorda em sustentá-los, é simplesmente burrice e não multiculturalismo, em minha opinião.

Está claro que o ocidente está descendo a ladeira, e não por conta da crise de 2008.  Trata-se um longo processo em curso.  E neste ambiente de desconstrução como ficam os nossos investimentos?

Começando pelas moedas, que são, ou deveriam ser, nossa reserva de valor.  A supremacia de uma moeda não ocorre da noite para o dia e nem é fruto da vontade de alguém.  Trata-se de um processo que reflete um domínio econômico, tecnológico e mercantil. Que por sua vez teve como base uma cultura e valores sólidos.  O que está em curso é a redução da relevância do dólar e do euro.  E notem que a recente desvalorização, por conta da impressão desenfreada de numerário, não é a causa e sim o sintoma de algo maior em curso. 

Sabemos quem está perdendo relevância, mas ainda não está claro quem ocupará esses espaços.  A moeda chinesa é um candidato provável, mas é um processo muito longo e com muita volatilidade no meio do caminho.  Nestes tempos de grandes mudanças nada melhor que um bom consultor de investimentos, que pode lhe ajudar até na escolha de ativos não financeiros. O que nos parece prudente é que o investidor, neste desarranjo de referências de reserva de valor, comece a considerar uma parcela cada vez maior de ativos reais em sua carteira.  Afinal, em tempos de incerteza, para onde flui o dinheiro?  Porém, deve-se notar que esse processo deve ser feito com sabedoria pois não faltam ativos reais caros por aí.

Quando se analisa os títulos governamentais de países como Estados Unidos, França e até mesmo Alemanha, causa espanto ver que investidores aceitem juros reais negativos para carregar papéis de países bem endividados.  Já falamos aqui que essa conta será paga preferencialmente via uma maior inflação global.  Quando isto ocorrer, os títulos de renda fixa (governamentais e corporativos) irão sofrer bastante em termos de preço para que se ajustem aos novos patamares de taxa de juros.

Alguns olham para a bolsa como ativo real.  Embora eu ache as ações, como classe de ativo, mais atrativas que os títulos de renda fixa, devemos lembrar que uma ação nada mais é que um fluxo de caixa descontado a uma taxa.  Tendo isso em mente, vemos um fluxo de caixa que tende a piorar, tanto pelo aumento de taxação pelo mundo (começando com o Obama), quanto pela menor atividade (lembre-se, o mundo ainda está desalavancando).  E teremos também uma maior taxa de desconto, afinal os juros não ficarão no chão para sempre.  Nesta classe de ativos a seleção também será importante.

Nesta carta falamos dos ativos e da economia em termos globais, deixaremos as desventuras de Dilma e seus meninos para depois.  Por hora é bom saber que estamos no meio de uma complexa transformação que não deixará o mundo como nós o concebemos.