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segunda-feira, julho 22, 2013

André Esteves na Veja, e Mantega cada vez mais só

Rodrigo Constantino

O editorial da revista VEJA atira sem dó nem piedade: "A conclusão é que o Brasil está tendo um triênio perdido, com as piores taxas de crescimento do PIB desde o governo Color. Má notícia para a presidente Dilma. Péssima para a candidata à reeleição em 2014. Uma tragédia para o Brasil e os brasileiros, pois, como se sabe, o estado sobrevive, mesmo que dramaticamente modificado, sem uma economia funcional, mas as economias de mercado não sobrevivem muito tempo sem que os governos propiciem e mantenham condições favoráveis à criação de riqueza".

Vira-se a página, e lá está a entrevista nas páginas amarelas com o banqueiro André Esteves, cujo alerta vem estampado como título: "Estamos perdendo o jogo". O BTG Pactual de Esteves tem feito pesadas apostas no sucesso da nossa economia, e a situação começa a colocar em xeque o retorno desses investimentos. A proximidade entre o banco e o governo, que são inclusive sócios na Caixa (uma operação muito suspeita), estreitou-se nos últimos anos. 

Mas, pelo visto, o relacionamento está azedando. O sócio de Esteves, Pérsio Arida, deu entrevista recentemente no Estadão pregando um choque de liberalismo. E agora foi a vez do próprio Esteves bater em tecla parecida. Eis alguns trechos da entrevista:


A decepção com o Brasil
A decepção dos investidores não é só com o Eike. É também com a Petrobras, que, mesmo tendo feito uma capitalização recorde, vai mal.
Sobre o BNDES
Não acho certo o BNDES dar crédito barato a empresas que têm como conseguir dinheiro no mercado. O banco é um excelente instrumento para o Brasil, mas está se tornando contraproducente. Não é bom que o país fique tão dependente dele. Trata-se de um claro sinal de que algo está errado. [...] Se todo mundo ficar pendurado no BNDES, o país perde a competitividade.
O PT e o mercado
Quando o PT assumiu, em 2003, o momento era de enormes desafios econômicos, e havia uma descrença na capacidade dos petistas em lidar com essa complexidade. O ceticismo fez com que Lula fosse muito disciplinado na condução da economia no primeiro mandato. Graças a isso, consolidamos os pilares da estabilidade. Mas o sucesso trouxe um efeito colateral negativo: o gradual desprezo às críticas do mercado, principalmente a partir de 2008, com a derrocada dos sistemas financeiros na Europa e nos Estados Unidos. Sinais importantes - como o fato de a nossa bolsa estar indo pior do que todas as outras e a perda de credibilidade da política fiscal - foram ignorados. Essa soberba econômica foi um erro. O mercado é um termômetro tão valioso quanto a voz das ruas.
A credibilidade do governo
O país tem feito muita confusão nessa seara. Outro dia mesmo o governo reafirmou o compromisso com o superávit de 2,3% do PIB e deixou todo mundo satisfeito. Dias depois, ficamos sabendo que o Tesouro estava recebendo dividendos do BNDES para cumprir essa meta. Ora, esse tipo de coisa tira toda a credibilidade. Assim fica difícil defender o país perante os investidores.
Os investidores e a confiança no Brasil
Paira uma grande incerteza sobre o rumo que o país está tomando. Nos últimos tempos, o governo lançou pacotes para ferrovias, rodovias e aeroportos que até iam na direção certa, mas resolveu definir ele mesmo a taxa de retorno do investimento – o que, além de despropositado, é tarefa absolutamente inglória. A beleza desse tipo de concorrência está justamente em cada um conseguir maneiras de obter a melhor taxa de retorno do negócio oferecendo um bom preço ao consumidor. Ao tentar tutelar essa variável, o governo afetou diretamente o apetite dos investidores. Depois disso, muita gente pôs o Brasil sob observação. Temos um cliente, um grande fundo de pensão canadense acostumado a aplicar bilhões aqui, que suspendeu temporariamente os investimentos em infraestrutura até ter mais clareza sobre o futuro. É esse o jogo – o das expectativas – que o governo está perdendo. Precisamos de racionalidade e transparência para fazer o dinheiro voltar a fluir. O que me choca é que é tudo muito fácil de resolver. As soluções estão dadas.
Se é tão fácil assim, por que ninguém faz?
Em alguns segmentos do governo, falta capacidade de gestão e, em outros, os diagnósticos, estão errados. Tem gente que ainda acha que está abafando.


Como podemos ver, até um "parceiro" próximo, amigo de Mantega, sócio na Caixa, não está mais suportando ficar em silêncio diante de tanta incompetência e esse viés ideológico absurdo. A equipe econômica do governo simplesmente não entende nada de economia! E isso precisa ser dito, e repetido, pela maior quantidade de gente possível. Quem sabe assim cai a ficha da presidente Dilma... 

sexta-feira, julho 05, 2013

Administrando a desgraça econômica

Rodrigo Constantino

A análise feita por Rogério Werneck no GLOBO hoje está perfeita, em minha opinião. Meu ex-professor da PUC argumenta que, mesmo com muitos no governo já tendo se dado conta de que o modelo macroeconômico adotado pela equipe econômica de Dilma seja uma desgraça (conforme muitos alertavam faz tempo, inclusive este que escreve), não é interessante para o PT revertê-la. Eis os motivos:

Tudo indica que os segmentos mais lúcidos do governo já notaram que o que foi pretensiosamente rotulado de “nova matriz macroeconômica” redundou em retumbante fracasso. Mas a avaliação da cúpula do governo é que já não há mais tempo para uma “guinada” na política econômica. De um lado, porque, a esta altura, a admissão do fracasso seria muito custosa. De outro, porque os benefícios da “guinada” custariam muito tempo para se fazer sentir.

O governo estaria, portanto, refém de seu próprio discurso ao longo de todo esse tempo no poder. Note-se que nem mesmo a cabeça de Guido Mantega rolou ainda! Ou seja, não há, por parte da presidente Dilma, sequer a preocupação em sinalizar ao mercado que compreende os erros de trajetória. Mantega ainda finge que está tudo bem, que não há crise, o que espanta até gente do próprio governo. 

O caminho escolhido, portanto, será o de insistir nos erros, torcendo para que dê tempo de atravessar as eleições e permanecer no poder. Se a crise não se agravar muito, impactando negativamente o emprego, a noção do governo é de que será viável superar o problema econômico e atingir seu único objetivo: continuar no poder. Para tanto, o governo já deixou claro que fará de tudo, o "diabo", como disse a própria presidente. Isso inclui mais malandragem, conforme explica Werneck:

Nesta semana, o Planalto deixou mais do que claro o quão longe está disposto a ir para “administrar no braço” a situação. Já sem qualquer preocupação com dissimulação, publicou decreto que amplia, de forma escancarada, as possibilidades de manipulação das contas fiscais, para geração de superávit primário fictício por meio da simples movimentação circular de recursos entre o Tesouro e o BNDES.

Claro que isso não vai acabar bem. A crise econômica tende a se agravar. Alguns petistas, chocados com a queda de aprovação da presidente Dilma, repetem que Lula passou pelo mesmo problema após o mensalão, mas conseguiu se recuperar e se reeleger. Como lembra Werneck, eles ignoram que foi justamente a forte economia que ajudou Lula na época. Dilma terá um quadro muito pior. Resta saber se isso vai resultar na retirada do PT do poder, e se o preço a ser pago pela população será alto demais até lá. Conclui com um alerta o professor:

É bom não ter ilusões. O que vem aí são 15 meses de mais do mesmo. Ou pior, de muito mais do mesmo. Apertem os cintos.

sexta-feira, junho 21, 2013

A volta de Meirelles

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Circulam rumores de que Henrique Meirelles seria chamado de volta para o governo, dessa vez para o lugar de Guido Mantega. O Ibovespa chegou a cair 4% nesta quinta-feira, e depois reverteu a forte queda e terminou em território positivo, basicamente por conta desses boatos. Faz sentido? Muda alguma coisa?

Em primeiro lugar, deve-se ter em mente que nossos problemas são estruturais. O modelo desenvolvimentista, que a própria presidente Dilma defende, esgotou-se. Como sempre acontece, aliás, pois ele é insustentável. O governo foi negligente com a inflação, o crédito, principalmente dos bancos públicos, cresceu demais, as contas públicas se deterioraram muito, e a fatura desses erros todos chegou.

Demitir Mantega e colocar alguém como Meirelles em seu lugar, que goza de credibilidade nos mercados, sem dúvida seria uma importante sinalização de que, ao menos, a presidente acordou para a realidade. Só mesmo no setor público tanta incompetência, como a dessa equipe econômica, pode continuar impune. Mas a pergunta relevante é: Meirelles poderia agir de forma independente?

Afinal, entre as medidas necessárias no curto prazo, estão um choque na taxa de juros, para conter a inflação e ancorar novamente as expectativas, e fechar os cofres públicos, realizando um forte aperto fiscal. Alta de juros e corte de gastos, em véspera (antecipada) de eleições? A presidente banca o risco? Com milhares nas ruas protestando contra “tudo que está aí”, sentindo os efeitos dos erros do governo?


Complicado. O mais provável, pelo visto, é o governo tentar ganhar tempo até as eleições, administrando seu fracasso. Resta saber se ele chega até lá...

segunda-feira, junho 03, 2013

Um dia a casa cai

MP Advisors - Carta de Maio

"Por que repetir erros antigos se há tantos erros novos a escolher?"
(Bertrand Russell)

Nossa presidente e sua equipe econômica parecem não concordar com a frase que abre nossa carta mensal.  A repetição dos mesmos erros é a tônica do mandato Dilma.  Como nossos leitores habituais sabem, temos alertado ad nauseam sobre esses erros.

Não é novidade para ninguém que estamos metidos numa estagflação já há dois anos, e que agora tende a se agravar.  A falta de cuidado com as contas fiscais também é algo datado, os gastos aumentam e as receitas vão se reduzindo, seja via desonerações, ou  via uma economia mais fraca mesmo.  O governo em sua obsessão com o crescimento do PIB, parece só conhecer uma nota: o estímulo do consumo interno.  Não importa que o consumidor já esteja endividado além do seu limite, o negócio é encher a casa (alienada fiduciariamente para algum banco) da classe C de automóveis, utensílios e roupas.  Tudo bem caro, comparado com o resto do mundo, mas com o crédito fácil a prestação fica mais suave.  Do lado da oferta temos uma indústria sem competitividade, pelos motivos de sempre, e a demanda furiosa tem sido atendida é pelos importados mesmo.

Se olharmos a economia como um sistema industrial, os desequilíbrios internos acabam aparecendo na forma de fissuras e vazamentos, que dão vazão a algum aumento de pressão em outro lugar.  Os pontos de vazamento atualmente são dois; a inflação (notadamente a de serviços, que não tem a concorrência dos importados) e mais recentemente o movimento do dólar, que reflete a piora acentuada nas contas externas.

A questão do dólar reflete algo além da simples piora técnica das contas externas.  Parece que os investidores estão acordando para o risco de uma 'venezualização/argentinização' no Brasil. Ainda não estamos lá, mas os movimentos intervencionistas e autoritários de Dilma em diversos setores da economia apontam nessa direção.

O último bastião no qual nosso confuso Mantega ainda se apoia é a baixa taxa de desemprego.  Até quando?  O empresariado tem suportado a compressão de margens e aumentos de custos de mão de obra e tem evitado demitir, pois sabe que nesse mercado acabará pagando mais caro por uma reposição pior.  Se a situação atual permanecer, não restará ao empreendedor alternativo que não seja a redução de quadros para preservar o seu negócio.


Com o endividamento “record” do trabalhador, um aumento da taxa de desemprego pode ter consequências funestas no sistema bancário e retro alimentar uma queda da economia maior do que o esperado.  A turma de Brasília está patinando em gelo fino e não se deu conta ainda.

O dólar mais alto trará inevitavelmente um pouco mais de inflação, que já estava passando do limite máximo tolerado.  O que fará essa gente? Aumentarão os juros ainda mais do que o previsto para combater a inflação? Se fizerem isso estarão dispostos a aceitar, politicamente falando, alguns pontos a mais na taxa de desemprego (nas portas de 2014)?  A estagflação é a situação mais hostil que um formulador de política econômica pode viver.  Mal comparando, é como se estivéssemos entrando com nosso avião em região de tempestade e descobre-se que o estagiário está pilotando a aeronave (espero que os estagiários não se chateiem com a comparação).

O que estamos começando a colher agora não é surpresa para nós; é o resultado de uma sequência de péssimas decisões.  Um dia a casa cai. Nosso objetivo, como consultores financeiros, é garantir a sobrevivência de seus investimentos a este ambiente em degradação.

Continuamos afastados da bolsa brasileira, afinal margens de lucro cadentes, intervencionismo e inflação/juros em alta não são propriamente catalisadores de valorização das ações.  Acreditamos que ainda há espaço para mais depreciação até o final do ano.

Na renda fixa os juros estão definitivamente em trajetória de alta, tentando apagar o incêndio da inflação. Os papéis pré-fixados são perigosos neste estágio, bem como os títulos atrelados ao IPCA, nestes preços.  No entanto, recomendamos a manutenção de carteira com bons papéis indexados a inflação.  Não foram poucos os bons lançamentos de CRI´s com juros reais de 6%-7% ao ano neste período.  Estes ativos apenas começam a empatar com a taxa Selic na hipótese do BC elevar os juros básicos para a casa dos 14% ao ano, o que nos parece algo bem remoto no atual governo. Quem chegou cedo à festa é bom ficar, mas os novos convidados irão pegar o buffet já devastado.

A grande questão é se o cliente que não tem ativos atrelado à moeda americana deve entrar já com a moeda no patamar atual de 2,15.  Aí entra a figura do planejador financeiro, que de acordo com o perfil de passivos e de gastos do cliente, pode contribuir muito nesta decisão.  Afinal uma coisa é o cliente que com dívida em dólar e que todo ano gaste uma quantia em viagens ao exterior, outra coisa é o cliente que está em vias de se aposentar e não tem gastos em outra moeda que não seja o real. 

De um modo geral a nossa visão é de um real ainda mais fraco, fruto da extrema (e rápida) deterioração das contas externas e da perda de confiança dos agentes internos e externos da economia no futuro do Brasil. É claro que o atual curso pode ser revertido em 2014, mas os vizinhos latinos que aderiram ao populismo de esquerda estão aí para lembrar que as coisas também podem ficar pior.  O Brasil que está se configurando para o futuro próximo é o Brasil onde queremos criar os nossos filhos?  Se a resposta for não, creio que uma parte de sua decisão de investimentos está repondida.

terça-feira, abril 02, 2013

De volta do futuro


Rodrigo Constantino, O GLOBO

O ano é 2030. Cheguei aqui com minha DeLorean, na esperança de encontrar um país mais próspero e livre. Qual não foi minha surpresa quando dei logo de cara com uma enorme estátua de Lula!
Curioso, perguntei a um transeunte do que se tratava. Um tanto incrédulo com minha ignorância, o rapaz explicou que era a homenagem ao São Lula, ex-presidente e “pai dos pobres”. Havia uma estátua dessas em cada cidade grande do país. Afinal, tínhamos a obrigação de celebrar os 150 milhões de brasileiros incluídos no Bolsa Família.
Após o susto inicial, eu quis saber quem pagava por tanta esmola, e se isso não gerava uma nefasta dependência do Estado. O rapaz parece não ter compreendido minha pergunta. Disse que estava com pressa para entrar na fila do pão, e que seu cartão de racionamento ainda dava direito a uns bons cem gramas.
Em seguida, vi na televisão de uma loja um rosto conhecido, ainda que envelhecido. Era o ministro Guido Mantega! E pelo visto ele ainda era o ministro. Ele estava explicando o motivo pelo qual sua previsão de crescimento de 5% não se concretizou. A queda de 3% do PIB havia sido culpa da crise em Madagascar. Mas tudo iria melhorar no próximo ano.
Notei então o preço do aparelho de TV: 100 mil bolívares. Assustado, perguntei ao vendedor do que se tratava, explicando que eu era de fora. O homem disse que, em 2022, após a inflação chegar em 20% ao mês, o governo cortou três zeros da moeda. Pensei logo no bigodudo. Como isso não funcionou, o governo decidiu adotar o bolívar, moeda comum do Mercosul.
Descobri que os países “bolivarianos” chegaram a adotar o escambo, depois que suas respectivas moedas perderam quase todo o valor frente ao dólar. A moeda comum foi uma medida urgente, pois estava difícil efetuar as trocas. O criador de gado argentino precisava encontrar um produtor de soja brasileiro disposto a trocar o mesmo valor de gado por soja. Era um caos!
Levantei ainda alguns dados no jornal “Granma Brasil” (parece que o “controle democrático” da imprensa havia finalmente passado, e o governo se tornou o dono do único jornal no país). A inflação oficial era de “apenas” 30%, mas todos sabiam nas ruas que ela era ao menos o triplo disso. Um centenário Delfim Netto desqualificava os críticos do Banco Central como “ortodoxos fanáticos”.
Não havia mais miserável no Brasil, pois a linha de pobreza era calculada com base no mesmo valor nominal de 2010. Mas havia mendigos para todo lado. Um desses mendigos me pareceu familiar. Eu poderia jurar que era o Mr. X! Mas não poderia ser. Afinal, ele era um dos homens mais ricos do país, e tinha ótimo relacionamento com o governo. O BNDES era um grande parceiro seu.
Foi quando decidi ver que fim tinha levado o banco estatal. Soube que, após o décimo aumento de capital na Petrobras (que agora importava toda a gasolina vendida), e vários calotes dos “campeões nacionais”, o BNDES tinha se unido ao Banco do Brasil e à Caixa, esta falida nos escombros do Minha Casa Minha Vida, para formar o Banco do Povo. O símbolo era uma estrela vermelha.
O Tesouro já tinha injetado mais de US$ 2 trilhões no banco, para tampar os rombos criados na época da farra creditícia. Especialistas gregos foram chamados para prestar consultoria.
Com fome, procurei um restaurante. Todos eram muito parecidos, e tinham a mesma estrela vermelha na entrada. Soube então que era o resultado de um decreto do governo Mercadante em 2018. Em nome da igualdade, todos os restaurantes teriam que fornecer o mesmo cardápio pelo mesmo preço. Frango era item de luxo, e custava muito caro. Continuei faminto.
Veio em minha direção uma multidão de mulheres desesperadas protestando. Quis saber o que era aquilo, e me explicaram que, em 2014, quase todas as empregadas domésticas perderam seus empregos por causa de mudanças nas leis. Havia ficado proibitivo contratá-las. Desde então, elas vagam pelas ruas protestando e mendigando, sem oportunidades de emprego. “O inferno está cheio de boas intenções”, pensei.
Um rebuliço começou perto de mim, e uma tropa de choque surgiu do nada e arrastou um sujeito até a cadeia. Descobri que ele foi acusado de homofobia e enquadrado na Lei Jean Willys, pegando 10 anos de prisão por ter dito abertamente que preferia um filho heterossexual a um filho gay. A pena foi acrescida de 2 anos pelo uso do termo gay, em vez de “homoafetivo”.
Desesperado com tudo, eu ajustei minha máquina de volta para 2013, decidido a fazer o que estivesse ao meu limitado alcance para impedir um futuro tão maldito do meu país.

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Que venha o Carnaval

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Hoje é sexta-feira, véspera do feriadão de Carnaval. O bom senso demanda que o tema desse comentário seja leve, se possível até positivo. Afinal, não queremos estragar o clima de ninguém com coisas sombrias.


Por exemplo: eu não pretendo falar de como o governo Dilma está destruindo a Petrobras. Seria triste demais lembrar que todos aqueles que acreditaram que “o petróleo é nosso”, na promessa de autossuficiência de combustível, que as ações da estatal “orgulho nacional” dariam uma boa rentabilidade, foram ludibriados, deliberadamente enganados, feitos de otários.

Tampouco pretendo falar das patéticas maquiagens contábeis do governo para fingir que ainda cumpre a meta de superávit primário. Novamente, isso iria estragar a alegria dos foliões, podendo causar indigestão e mal-estar nesse momento de festa. Quem quer saber de Mantega no Carnaval? Se ainda fosse KY...


O leitor será poupado também de outros assuntos chatos, como a “bolsa novela” que o governo quer criar para levar a televisão digital aos mais pobres, incluindo aqueles que dependem das esmolas estatais para viver (afinal, novelas são itens necessários em nossa cesta básica). Quem quer se preocupar com mais um privilégio, mais uma esmola, mais um esquema de compra de votos, tudo pago com o couro da classe média?

Nada disso. É hora de pular Carnaval, de participar dos blocos de rua, de sambar, de ver peitos siliconados na televisão. Ou, se o leitor tiver um perfil mais parecido com o meu, é o caso de aproveitar o feriado para ler um bom livro e passar tempo com a família. Qualquer coisa, menos falar das trapalhadas do governo. Por isso poupei o leitor desses temas incômodos. Que venha o Pão e o Circo! Que venha o Carnaval...

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Os Trapalhões

Rodrigo Constantino, O GLOBO

Sou uma pessoa nostálgica. Uma das boas lembranças que tenho de minha infância é ficar no colo do meu falecido avô assistindo “Os Trapalhões”. Eu adorava. É por isso que devo agradecer ao governo Dilma por resgatar lembranças tão doces de minha vida. Acompanhar os atos de seus ministros é voltar no tempo, é como ver as trapalhadas da turma do Didi.

Comecemos pelos malabarismos contábeis que o governo fez para apresentar o superávit fiscal de 2012. A coisa foi tão primária que faria um mágico de festa infantil ruborizar diante do amadorismo. Poderiam ao menos ter chamado um David Copperfield para ajudar a esconder as peripécias!

O ministro Mantega é imbatível. Sua declaração sobre a taxa de câmbio comprova: “O câmbio é flutuante, mas, se exagerar na dose, a gente vai lá e conserta.” Ou seja, o câmbio flutua, desde que na direção do valor que o governo considera “correto”.

Na mesma linha, o ministro Lobão (não confundir com o músico inteligente) nos brindou com essa pérola ao falar sobre o aumento da gasolina: “O mercado é livre, mas não deve exceder o limite do razoável.” Traduzindo: o mercado é livre, desde que coloque o preço que eu considero razoável.

Quem precisa de preços tabelados quando se tem uma “liberdade” dessas? O governo Dilma demonstra a cada dia seu forte ranço intervencionista. Pretende controlar toda a economia. Triste o país em que os preços mais importantes são todos decididos pelo governo!

Mas o nexo causal nunca foi o forte dessa equipe econômica. Eles acreditam que a economia ainda não se recuperou a despeito de suas fantásticas medidas. Não passa por suas brilhantes cabeças que é justamente o contrário: a economia patina e a inflação sobe por causa do governo!

Os investidores estão assustados com o grau de intervenção arbitrária. Também, pudera: a presidente usa seu poder para criar “campeões nacionais”, enquanto todos os privilégios e subsídios concedidos acabam prejudicando o restante, longe das graças estatais. O cobertor é curto. Para ajudar os “amigos do rei”, o governo tem destruído setores inteiros.

Basta ver o que aconteceu com o setor elétrico. As estatais foram dizimadas em bolsa, pois o governo, com foco no curtíssimo prazo, decidiu dar mais uma ajudinha aos industriais. Quem, em sã consciência, investiria em geração de energia em um cenário desses?

Mas isso não impediu a presidente de fazer propaganda eleitoral, anunciando a queda das tarifas e abusando do ufanismo boboca: quem critica a medida está contra o país!

A Petrobras tem sido utilizada para fins políticos desde o começo da gestão petista. O governo segura o preço da gasolina defasado para não impactar as taxas de inflação. Faltam recursos para a estatal investir, e sua ineficiência cria a necessidade de importação de combustível.

O Brasil perde, mas nunca se esqueçam de que “o petróleo é nosso” e a Petrobras é motivo de “orgulho nacional”.

Curiosidade: por que a presidente não fez uso da rede nacional de rádio e televisão para comunicar ao povo o aumento da gasolina, como fez para anunciar a queda das tarifas de eletricidade? Pergunta retórica, claro. Sabemos a resposta.

Mas o governo tem cartas na manga para conter a “inflação” (na verdade, o índice oficial, não a inflação verdadeira). A gasolina aumentou? Então basta aumentar a parcela de etanol na sua composição, diluindo o efeito. Se o próximo vilão for o feijão, já sabemos qual a solução: basta acrescentar mais água na feijoada!

Não devemos ficar surpresos com tais trapalhadas, quando lembramos que a Argentina é admirada por nosso governo, e que Delfim Netto é bastante influente na economia. Aliás, Delfim influencia nossa economia há décadas, sempre perto do poder. É uma espécie de Sarney da economia. O Brasil idolatra o fracasso.

O resumo da ópera bufa? Não temos mais câmbio flutuante, a Lei de Responsabilidade Fiscal foi abandonada, a inflação ameaça sair de controle, os bancos públicos criaram uma bolha de crédito, a inadimplência aumentou, os investimentos não vêm e a economia não cresce. Promissor?

O crescimento dos últimos anos, que já foi medíocre, teve boa ajuda externa. Tanto que nossa produtividade não aumentou quase nada. Tivemos um empurrão da alta das commodities. Isso acabou. E agora? Como crescer com esses trapalhões no governo?

Eu achava graça nas piadas dos Trapalhões. Elas eram inofensivas, ainda que politicamente incorretas para nossos padrões chatos de hoje. Mas as trapalhadas do governo não têm a menor graça. Elas vão custar muito caro ao Brasil.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Até quando apanhar?


Carta mensal da MP Advisors

Na Subida do Morro
Me Contaram
Que você bateu na minha nêga
Isso não é direito
Bater numa mulher
Que não é sua
Deixou a nêga quase nua
No meio da rua
A nêga quase que virou presunto

(Moreira da Silva e Ribeiro Cunha)

Se a economia brasileira fosse uma mulher, estaria apanhando tal qual na letra do samba de Moreira da Silva, o Kid Morengueira.  Definitivamente, enquadra-se na Lei Maria da Penha por agressões e maus tratos.    A "nêga" já mostra sinais de cansaço de tanto apanhar, porém o agressor continua batendo nela; insiste no mesmo remédio, crendo que a "nêga" irá ceder aos seus encantos. Ledo engano.

A "nêga" chamada "superávit primário", que nada mais é do que a economia entre receitas e despesas para pagamento dos juros da dívida, já há algum tempo não alcança sua meta de 3,1% do PIB.  Ano passado, pelos truques contábeis do Mantega, foi de 2,00% do PIB (governo central), pelos números corretos foi algo como 1,80% do PIB (também somente governo central, sem estados e municípios).  Além de ser um governo gastão, o atual comando da economia corrói a credibilidade do país por meros 0,20% do PIB.  E a gastança, ao que tudo indica, não tem conseguido gerar crescimento. 

A "nêga" chamada "meta de inflação" permanecia inconsciente num canto da sala quando começou a dar sinais de vida (tênues, por hora).  O Banco Central, em sua última ata, finalmente reconheceu que o problema da economia nacional não é falta de demanda (que sim senhor, já está bem aquecida) e sim a oferta.  A economia não cresce por falta de investimento.  Pela primeira vez, o BC (ainda que timidamente, usando seu linguajar peculiar) apresenta um discurso diferente daquele da presidente Dilma e de seu despachante, o Guido. O BC deixa claro que a falta de oferta é problema do governo e não dele.  Com isso,depreende-se que não haverá mais aventuras com os juros para baixo; porém isso não indica que o BC ganhou autonomia para subir os juros sem autorização da Dilma.

O principal motivo de preocupação com a inflação no curto prazo reside no mercado de trabalho extremamente apertado (já vivemos o pleno emprego) e um governo que a todo custo deseja o crescimento econômico. Como crescer sem mão de obra disponível?  A saída desse dilema, sem gerar inflação, é o aumento de produtividade, o que não ocorre da noite para o dia e sem investimentos em educação.  Não podemos esperar isso no curto prazo. 

É claro que o governo usa de todas as artimanhas possíveis (redução do preço de energia, postergação dos aumentos dos transportes e sangria da Petrobrás ) para manter o IPCA dentro da sua meta de 6,5% ao ano.  No curto prazo ele tem sido bem sucedido, porém sabemos que a inflação é como um imenso caminhão, tem muita inércia para sair do lugar, mas depois que sai é complicado segurar o bruto.

Voltando para o lado da oferta, sabemos que os grandes investimentos industriais analisam certos aspectos como estoque de mão de obra qualificada com custo justo e oferta de energia.  Sabemos que qualquer novo projeto de grande monta terá dificuldades em contratar e não há garantia de energia. 

É claro que a energia do Brasil era muito cara. Mas reduzir estes 20%, da maneira como foi feito e, principalmente, com a oferta limitada, é no mínimo temerário.  Se, em 2012, com o país crescendo 1% e o preço caro, o consumo cresceu 4%, imagine em 2013, se o país crescer algo como 2% e com o preço da energia 20% mais baixo. Quanto será o aumento de consumo?  Haverá oferta? 

Olhando para a última "nêga", que se chamava "câmbio flutuante",vê-se a maneira errática de agir do governo petista.  Quando quem esperneava mais alto era a FIESP, o câmbio oscilando entre 2,05 e 2,10 era interessante para o governo.  E para lá ele foi.  Quando a inflação começou a incomodar, lá veio o governo dizendo (através de leilões de swaps cambiais) que o nível era um pouco mais embaixo.  E lá foi o valor do dólar para abaixo de R$ 2,00. Nos restaurantes, há o "menu do chef" e no Brasil, o "câmbio da Dilma".

O Brasil, já há algum tempo, não tem uma política econômica baseada em regras estáveis e previsíveis; o que existe é a política do "puxadinho":uma improvisação  levando à outra  até o surgimento de uma favela com barracos amontoados no barranco.  Quando a chuva forte chegar....

Não é a toa que a imprensa internacional tem criticado a errática forma de governar de Dilma & Cia. Publicações sérias como The Economist e Financial Times parece que demoraram, mas pegaram gosto em denunciar o agressor da "nêga".  O queridinho da vez,para os investidores estrangeiros, é o México.  O vizinho dos americanos tem lá os seus problemas crônicos, mas tem feito o dever de casa e está pegando uma carona com a recuperação dos EUA. 

Não que deva haver uma catástrofe iminente, apenas uma preguiçosa (bocejando, por favor) economia, com inflação em alta, infraestrutura em pandarecos e, mais uma vez, perdendo o bonde da história para nos tornarmos uma nação decente.

Não fica difícil entender porque o Ibovespa fechou o primeiro mês do ano no território negativo enquanto o SP500 já acelera no ano com cerca de + 7%.  Quando olhamos uma empresa como a Apple, que fatura USD 157 bilhões, com margem de 27% e negocia (após a correção) com relação preço-lucro de 10, fica complicado comprar as ações de consumo brasileiras com o triplo de relação preço-lucro.  E o que ainda está barato (Petrobrás, Vale, bancos) não parece que vai começar a andar.  Não esperem um ano interessante para as ações brasileiras; há opções mais interessantes lá fora.

Na renda fixa, os prêmios estão magros e não compensam o risco de posições pré-fixadas ou mesmo compradas em ativos públicos atrelados a inflação (NTNB).  Uma NTNB para 2014 paga hoje IPCA + 1,84%.  Se os alquimistas conseguirem ajustar o IPCA para 5,5% (sem chicanas eu creio algo como 6,5¨%) teremos apenas 7,34%, bem perto do CDI.  Ainda é melhor do que ficar pós fixado, mas os grandes ganhos se deram em 2012.  Quem comeu, comeu.

Quanto às posições cambiais, o melhor a fazer é esquecer.  O câmbio vai para onde o humor do dia da Dilma mandar.  Não dá para apostar.

O momento é escorregadio.  Estamos vivendo uma era onde os ativos financeiros carregam um risco superior ao seu retorno potencial.  O poder de compra do dinheiro se deteriora numa velocidade maior do que o índice oficial de inflação.  A resposta dos indivíduos é um afluxo de dinheiro para o setor de imóveis.  Isso fica claro quando olhamos a demanda altíssima de 2 fundos imobiliários (de agências de bancos) recém-lançados.  Nos dois casos a demanda foi 10 vezes a oferta. Como o preço dos imóveis também está em seu máximo histórico, a chance de se fazer besteira também é grande.  

Hoje, após anos de juros reais altos, chegou a hora de profissionalizar a gestão dos seus investimentos e saber que mais do que os juros fáceis do CDI, o vetor de crescimento do seu dinheiro virá de bons investimentos, a boa e velha economia e aportes mensais.  Lembre-se que você agora vive em um país de juros reais perto de zero e com nível de vida bem caro.  Como você está planejando a sua aposentadoria?

sexta-feira, janeiro 11, 2013

Dança da Chuva


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Acordei no meio da noite, suando em bicas. Tivera um pesadelo daqueles. Sonhei que os ministros Edison Lobão e Guido Mantega formavam com a presidente Dilma e a médium Adelaide Scritori, criadora da Fundação Cacique Cobra Coral, um quarteto que dançava de mãos dadas ao batuque de tambores, clamando aos céus para que São Pedro derramasse chuvas torrenciais. What a nightmare!

O governo Dilma consegue errar em todas as áreas. A economia já vive em estagflação, com crescimento pífio e inflação elevada, com risco de perda de controle pelo Banco Central. E mesmo sem crescer, o país corre o risco de viver um racionamento de energia novamente. Responsabilidade direta da má gestão da “gerentona”, que não conseguiu administrar uma loja de R$ 1,99, mas pensa ser capaz de tocar toda a complexa economia nacional lá de Brasília.

Todos os pilares construídos na era FHC estão sendo destruídos. O câmbio não é mais livre, a meta de inflação é para inglês ver, e o superávit fiscal só é obtido com a ajuda de David Copperfield. Muitos celebraram a “nova era” do PT no poder, ignorando que o maná vinha de fora, especialmente do crescimento chinês, e que a farra chegou ao fim. Essas pessoas ainda vão sentir saudades do tucano. Como no poema de Millôr:

Ontem
O mundo de amanhã seria novo
Hoje,
O mundo de amanhã já constatado
E antes
Que novos amanhãs despontem
Há muitos que só pedem
O mundo de anteontem.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

Sai daí, Mantega!

A dupla está rindo de que? 

Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

A ficha já caiu para quase todo mundo. A política econômica do governo Dilma é terrível. Excessivamente intervencionista – conseqüência da ideologia arrogante daqueles que pensam ser possível controlar os mercados de cima para baixo –, a postura do governo afugentou os investidores, enquanto a estratégia de estimular o consumo com o crédito público já se esgotou.

O resultado é esse que está aí: crescimento pífio com inflação elevada. Alguns ainda tentam salvar a imagem de pragmática da presidente, alegando que o problema está na comunicação com o mercado. E dizem que ela é pró-mercado, oferecendo como evidência as demandas atendidas dos grupos de interesse como a Fiesp (mercado?).

A revista britânica The Economist, que já foi usada pelos petistas como prova do sucesso de seu governo na época das vacas gordas, resolveu colocar a presidente contra a parede: se ela é mesmo pragmática, então precisa demonstrar isso demitindo o ministro Guido Mantega. Claro que a reação dos petistas, dessa vez, não será tão amigável. Já tem gente mandando o recado de que não é a revista quem cuida da economia brasileira.

De fato não é. Quem cuida tampouco é o Mantega, mais perto de uma marionete. Sabemos que é a própria Dilma quem toca o barco e chancela tamanho intervencionismo arbitrário. Ela acredita nisso, e deve insistir no erro. Portanto, não basta demitir o Mantega. Sim, ele deveria pedir para sair. Mas tinha que levar junto com ele a presidente Dilma também. Só assim nossa economia teria uma chance de sair da mediocridade completa.


Duro choque de realidade

Rogério F. Werneck, O GLOBO
Após cinco trimestres consecutivos de queda no investimento, a expansão do PIB talvez não chegue a 1% este ano. Tendo em conta que, no ano passado, chegou a apenas 2,7%, a taxa média anual de crescimento no biênio deverá ser de pouco mais que 1,8%. A divulgação desse desempenho tão pífio, quando a presidente está prestes a completar a primeira metade de seu mandato, impõe duro choque de realidade ao governo. A dúvida é se tal choque dará lugar a uma reavaliação séria, no Planalto, da forma como vem sendo conduzida a política econômica.

O que mais preocupa é a queda persistente do investimento. O governo alimentava a fantasia de que bastaria reduzir os juros e depreciar o câmbio para que o investimento deslanchasse. Se tivesse feito só isso — e mantido uma política macroeconômica coerente —, os resultados não teriam sido tão medíocres. Mas fez muito mais que isso. E foi esse algo mais que deu lugar a um quadro pouco propício ao florescimento do investimento.

O governo começou por desmoralizar a política fiscal, não relutando em recorrer a truques contábeis de todo tipo para exibir um simulacro de austeridade. Tendo se permitido a extravagância de montar gigantesco orçamento paralelo no BNDES, bancado por endividamento do Tesouro, deu asas ao delírio de que qualquer projeto que lhe encantasse poderia ser viabilizado, desde que sobre ele se despejasse um volume suficientemente generoso de dinheiro público. Do trem-bala a frigoríficos campeões nacionais. Da produção de energia artificialmente barata na Amazônia à construção de sondas marítimas de alta tecnologia.

A possibilidade mais promissora de investimento de que dispunha o País — a exploração do pré-sal — foi transformada em verdadeira missão impossível. Sobrecarregou-se a Petrobras com a exigência de que fosse a única operadora do pré-sal e de que detivesse pelo menos 30% de qualquer consórcio que vier a explorá-lo. E, para culminar, passou-se a exigir que equipamentos utilizados no pré-sal tenham percentuais absurdamente altos de conteúdo nacional.

A exigência de conteúdo nacional acabou estendida a outros setores, como o automobilístico, que, em troca, foi agraciado com um nível de proteção equivalente ao que seria propiciado por alíquotas nominais de importação da ordem de 70%! Sob a bandeira do fechamento, já não há estímulo a investimentos que contemplem a integração do País às cadeias produtivas da economia mundial.

Some-se a tudo isso a perspectiva de todo um mandato presidencial com inflação bem acima da meta, gestão desastrosa do investimento público, carga tributária saltando de de 33,5% para 35,3% do PIB, em 2011, propensão desmedida ao intervencionismo, truculência regulatória, como agora se vê no setor elétrico, e o que se tem é um quadro claramente inóspito para investimentos.

Dentro de 15 meses Dilma Rousseff se verá na cabeceira da pista da eleição presidencial. Embora tenha tão pouco tempo pela frente, talvez ainda possa corrigir o rumo da política econômica. Mas, sem mudança drástica na equipe econômica do governo, tal correção pareceria pouco crível. Uma simples dança de cadeiras no eixo Fazenda-BNDES não resolveria. Seria preciso trazer gente de fora.

Mas mudar é difícil. Procrastinar mudanças é muito mais fácil. E não faltará quem assevere ao Planalto que a direção da política econômica está correta. Ou quem se disponha a reiterar que as dificuldades se devem, em grande medida, ao quadro adverso que enfrenta a economia mundial. Tampouco faltarão advertências sobre a inoportunidade da mudança.

Leonel Brizola, de quem Dilma foi correligionária até 2000, quando trocou o PDT pelo PT, talvez lhe lembrasse agora do preceito gaúcho que costumava repetir a torto e a direito: "Não se troca de cavalo no meio do banhado." A presidente pode até estar tentada a esperar momento mais propício. Mas é bem possível que, mais à frente, o banhado se mostre ainda mais fundo. E a verdade é que, com o cavalo que tem, não lhe vai ser fácil chegar ao outro lado.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Economist recomenda demissão de Mantega

Deu na The Economist: "Business is cautious because the government meddles too much. A prime example is its apparent desire to drive down the return on investment by diktat, not just for banks but also for electricity companies and other infrastructure-providers. Even more than her predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, Ms Rousseff seems to believe that the state should direct private investment decisions. Such micro-meddling undermines trust in macroeconomic policy as well. […] The worry is that the president herself is meddler-in-chief. But she insists she is pragmatic. If so, she should fire Mr Mantega, whose over-optimistic forecasts have lost investors’ confidence, and appoint a new team capable of regaining the trust of business."

E então, qual vai ser, presidenta? Vai demitir o Mantega, ou vai confessar que não é pragmática coisa alguma, e sim uma crente do estatismo tosco?

Eu nunca caí nessa. Dilma é quem manda. Leiam:

O fator ideológico

terça-feira, outubro 30, 2012

Ben Bernanke: Currency Manipulator


By MARY ANASTASIA O'GRADY. WSJ


The dollar is our currency, but it's your problem.
—U.S. Treasury Secretary
John Connally, 1971
In the final televised presidential debate, Mitt Romney promised that if he is elected on Nov. 6 he will "label China a currency manipulator" on "day one" of his presidency. He also pledged to pay more attention to trade with Latin America, noting that the region's "economy is almost as big as the economy of China."
To be consistent, Mr. Romney should call out the Federal Reserve on day two for engaging in its own currency manipulation by way of "quantitative easing," which undermines the value of the dollar relative to Latin American currencies. After all, no one can expect a healthy trade relationship with the region if the Fed is goading U.S. trading partners into competitive currency devaluations.
But that's not the main reason why a new U.S. president should want to rein in the Fed. The greater worry is the one that International Monetary Fund Managing Director Christine Lagarde warned about at the IMF's October meeting in Tokyo. Easy money from the central banks of developed countries, she said, creates the risk of "asset price bubbles" in emerging economies.
If history is any guide, such bubbles are likely to lead to financial crises that in turn lead to setbacks in development. Aside from the damage that does to middle-income countries like Brazil, emerging-market financial crises also undermine U.S. economic and geopolitical objectives.
From September 2008 through the end of 2011, Mr. Bernanke's Fed created $1.8 trillion in new money. But Fed policy makers were only warming up. In September they announced that they will engage in a third round of quantitative easing—that is, more money creation, ostensibly to spur growth and thus bring down unemployment—at a rate of $40 billion per month with no deadline.
With so many dollars sloshing around in U.S. banks and with a fed-funds rate set near zero, investors have found it hard to earn a decent return. The scavenger hunt for yield has sent dollars rushing into emerging markets where, as they are converted into local currency, they put upward pressure on the exchange rate.
Brazil has experienced this in spades. Brazilian Finance Minister Guido Mantega has complained bitterly about it because in his mind the higher relative value of the realmakes Brazil worse off.
Bloomberg
U.S. Federal Reserve Chairman Ben Bernanke
In Mr. Bernanke's remarks at the IMF meeting in Tokyo, he suggested that emerging economies ought to simply let their currencies appreciate rather than "resist appreciation" through "currency management." To do otherwise, he noted, can mean "susceptibility to importing inflation," which means making Brazilians poorer.
Mr. Bernanke has a point. The closed, heavily regulated Brazilian economy is held back by too much government, not a strong real.
Indeed, the quest for a weak currency to boost exports is counterproductive if the goal is development. As former Salvadoran Finance Minister Manuel Hinds wrote earlier this month for the Atlantic magazine's new online publication, Quartz, the Brazilian boom in industrial production, which stirred "the idea that [Brazil] would become the engine of the world," came from "the inflow of dollars that Mr. Mantega hates so much."
But Mr. Bernanke's dismissive posture toward emerging economies missed the larger point. As Mr. Hinds also pointed out, "the exceptional prosperity would last only as long as the dollars kept on coming." And there's the rub. The boom is an artificially high valuation of the Brazilian economy, produced only because Mr. Bernanke has made the world awash in dollars.
The sustainability issue is troubling. As Bank of England Governor Mervyn King noted in a speech last week: "When the factors leading to a downturn are long-lasting, only continual injections of [monetary] stimulus will suffice to sustain the level of real activity. Obviously, this cannot continue indefinitely."
In a perfect world, the end of the dollar flows—or a downturn in soaring commodity prices when investor expectations begin to shift—would simply mean an economic slowdown. But booms are almost always accompanied by credit expansions, and Brazil's is no different. Since 2004, bank credit has grown to 167% of gross domestic product from 97%.
What happens when a leveraged economy, living on accommodative monetary policy, suddenly finds the spigot turned off? Ask Americans who were on the receiving end of Fed tightening in 2007.
In Tokyo, Mr. Bernanke spoke to the world the way former U.S. Treasury Secretary John Connally spoke to the G-10 in Rome in 1971 after the U.S. abandoned the Bretton Woods agreement that had tied the dollar to gold: Get over it. We do what we want.
That attitude wasn't constructive for Americans or the rest of the world. If some future U.S. president intends to restore American prestige in economic leadership, restoring Fed credibility as a responsible manager of the world's reserve currency is a necessary first step.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Manada de tribufus


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Tenho uma filha com dez anos de idade que empreende uma “batalha” diária comigo na tentativa de me convencer a deixá-la assistir a novela “Avenida Brasil”, da Rede Globo. Como considero inadequado o conteúdo para a sua idade, não deixo. Seu principal “argumento” é: “Todas as minhas amigas assistem”.

Qualquer pai conhece essa estratégia. É muito difícil manter sua própria convicção sobre o certo e o errado quando há enorme pressão de grupo. Quando “todos” fazem uma coisa, ainda que seja uma coisa considerada errada, temos uma ótima desculpa para seguir com a manada. Keynes percebeu isso quando disse que a sabedoria mundana ensina que é melhor para a reputação fracassar convencionalmente do que ter sucesso não convencional.

Digo isso porque confesso que está cada vez mais difícil encontrar bons exemplos de comportamento econômico mundo afora. Sim, é verdade que nossa equipe econômica precisa melhorar muito para ser apenas medíocre. Sim, é fato que Guido Mantega e sua trupe estão plantando as sementes da próxima crise nacional. Mas um cínico (ou uma criança) poderia muito bem rebater: “Todos estão fazendo a mesma coisa!”

Como é que posso criticar o protecionismo do nosso governo, quando países mais liberais manipulam sua taxa de câmbio de forma escancarada? Como atacar nossa moeda “fixa”, quando até a Suíça resolve criar um peg com o euro? Como condenar o relaxamento do superávit fiscal, quando “austeridade” passou a ser palavrão no mundo desenvolvido? Neste concurso de feiúra mundial, o governo brasileiro consegue disfarçar seus defeitos, misturando-se aos demais tribufus na sala.

Mas os erros dos outros não justificam nossos próprios erros. Protecionismo comercial, manipulação cambial, déficit fiscal, expansão de crédito público, tudo isso deve ser condenado. Não importa que a Suíça e os Estados Unidos pratiquem cada vez mais destes expedientes nefastos. Nosso governo não conta com uma licença para fazer besteiras só porque o mundo parece ter enlouquecido de vez.

Digo ao ministro Mantega o mesmo que digo para minha filha: Não me importa que os outros sejam irresponsáveis; essa novela não é adequada e ponto final.