Rodrigo
Constantino, revista VOTO
A
França é um país com enorme riqueza cultural, mas que sempre alimentou idéias políticas
e econômicas esquisitas. À exceção de pensadores brilhantes como Voltaire, Frederic
Bastiat, Alexis de Tocqueville, Jean-François Revel, Raymond Aron, Guy Sorman e
alguns outros, o fato é que quase todas as ideologias estatizantes possuem um
DNA francês. O Estado é adorado por lá. Escrevi no capítulo “Décadence avec
élégance” do meu livro “Privatize Já” (editora LeYa):
Se tem um importante
país europeu onde a mentalidade estatólatra é predominante, esse país é a
França. Desde os tempos de Luís XIV, a quem é atribuída a frase L’État c’est
moi (o estado sou eu), a França é palco de regimes concentradores de poder e
recursos no estado. O ministro de Luís XIV, Colbert, daria inclusive nome a
esse modelo mercantilista controlador. Seu oposto, o laissez-faire, teria
surgido como um grito de desespero dos empresários frente a essa asfixia
causada pelo “colbertismo”.
Isso
tudo me veio à mente nesses dias, quando o ator Gerárd Depardieu decidiu abrir
mão de sua cidadania francesa e passou a ser um cidadão russo. Quando alguém
prefere abandonar a “cidade das luzes” em troca da gélida Rússia sob o comando
de Vladimir Putin é porque a coisa está realmente feia na França. E de fato
está!
Muitos
resolveram criticar não o governo francês e sua sede insaciável por recursos,
mas o ator, acusado de antipatriotismo. Depardieu rebateu com uma carta aberta,
alegando que trabalha desde cedo e que já pagou, segundo seus cálculos, quase
US$ 200 milhões em tributos ao longo de sua vida. Realmente, se alguém acha
pouco, é porque perdeu completamente o juízo.
O
presidente socialista François Hollande venceu com uma plataforma populista de
taxar mais ainda os ricos. Ao subir para 75% o imposto daqueles que ganham mais
de um milhão de euros por ano, o governo francês está declarando que os ricos
são escravos. Ninguém em sã consciência pode considerar razoável uma pessoa
trabalhar três quartos do ano apenas para sustentar a máquina estatal.
Claro
que muitos ricos possuem inúmeros privilégios e esquemas para burlar parte
desse fardo absurdo. A França, nesse e em outros aspectos, parece-se muito com
certo país tupiniquim da América do Sul. Subsídios estatais, brechas legais,
favorecimentos de todo tipo, enfim, os grandes grupos aliados do “rei”
conseguem sobreviver nesse capitalismo de compadres. Mas um ator, um
esportista, um profissional liberal que ganha muito dinheiro nem sempre
desfruta das mesmas regalias.
Com
suas medidas cada vez mais socializantes, a França acabou criando uma casta de
privilegiados e uma reduzida mobilidade social. As mesmas grandes empresas
existem há décadas. Não há casos de empresas inovadoras que nascem em garagens
e ficam gigantes. Não há casos de gigantes que vão à falência, como deveria
ocorrer em um sistema capitalista de livre mercado. Os vencedores de antes se
protegem com as muletas estatais da concorrência, engessando a economia.
John
Bagot Glubb, em seu livro de 1978 “The Fate of Empires and the Search for
Survival”, tenta definir um padrão comum de ascensão e declínio de impérios.
Seus estudos apontam para os seguintes estágios: 1. Era da explosão com os
pioneiros; 2. Era das conquistas; 3. Era do comércio; 4. Era da abundância; 5.
Era do intelecto; 6. Era da decadência; 7. Era do declínio e colapso.
Outros
pesquisadores, como Will Durant, chegaram a conclusões semelhantes: o próprio
sucesso planta as sementes do fracasso. Após uma era da abundância,
intelectuais começam a colocar em xeque os valores que permitiram tais
conquistas, e vendem ilusões, utopias, sistemas abstratos desligados da
realidade. Uma decadência moral toma conta do império, os heróis deixam de ser
os empreendedores, e passam a ser artistas e intelectuais cujas vidas são
exemplos de imoralidade. Os bárbaros vêm de dentro!
O
Estado de bem-estar social é criado com os frutos das velhas conquistas, e
prepara o terreno para os escombros a seguir. A França não está sozinha nessa
trajetória. Mas ela pode ser vista como seu grande ícone. Os Estados Unidos vêm
atrás, com mais tempo para desperdiçar, mas seguindo o mesmo caminho fadado ao
fracasso.
Em
crise existencial, a Europa pós-moderna, liderada pela França, possui
estudantes de 30 anos e aposentados de 50 anos, e ainda se questiona por que o
pequeno grupo de trabalhadores entre eles não consegue fazer as contas
fecharem.
É
triste ver a civilização ocidental, especialmente a França, representante de um
incrível legado cultural, passar por isso. Mas estamos diante de uma profunda
crise de valores, e enquanto estes não mudarem, o destino não parece nada
promissor. A debandada de Gérard Depardieu é apenas um sintoma da doença. Se
ela continuar sendo ignorada, a decadência será inevitável.
*
* *
Esta
é minha última coluna para a revista VOTO, após anos de colaboração. Não
gostaria de me despedir do leitor de forma tão sombria, mas acredito que, ao
deixar tal alerta, cumpro com minha obrigação moral de relatar o que enxergo,
sem dourar a pílula. Tomara que eu esteja errado!

