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terça-feira, julho 02, 2013

Beautiful People e seus micos amestrados

Rodrigo Constantino

Considero João Pereira Coutinho, ao lado de Luiz Felipe Pondé, o melhor colunista da Folha, quiçá de todos os jornais. É sempre um prazer abrir a Ilustrada às segundas e terças-feiras e mergulhar na sabedoria desses dois. Hoje não foi diferente.

Em sua coluna "Amestrando proletários", Coutinho detona com precisão cirúrgica o movimento politicamente correto. O português desconstrói tijolo por tijolo a fachada do prédio oco, restando apenas a visão da arrogância hipócrita que jaz por trás dela. Vejamos os principais trechos:

O problema do pensamento politicamente correto é que ele nada tem de correto. Pior: na ânsia de impedir qualquer ofensa a grupos ou minorias, ele converte-se na mais grotesca ofensa que existe para esses grupos ou minorias.
[...]
Para os autores do guia, os alunos proletários são como certas espécies zoológicas que é necessário proteger em "habitat" adequado. E isso implica não os assustar e, logicamente, não os alimentar com doses arcaicas de conhecimento "burguês" e "reacionário".
Como é evidente, o pensamento politicamente correto das patrulhas parte de duas ideias profundamente ofensivas.
A primeira ideia é a defesa explícita de que alunos de famílias proletárias estranham e definham em ambientes eruditos. Sim, seria possível fazer uma lista de intelectuais gerados pelo proletariado --de Jack London a D.H. Lawrence-- que marcaram a história da cultura ocidental.
[...]
Mas é a segunda recomendação que impressiona pela sua evidente discriminação. Para as patrulhas, sempre que um aluno proletário abre a boca, é preciso ser condescendente para escutar as alarvidades que ele diz.
[...]
O que o pensamento politicamente correto produz não é difícil de imaginar: a perpetuação do estigma de alunos proletários e a impossibilidade de eles aprenderem alguma coisa (na universidade) para ascenderem social e economicamente (na vida profissional).
Quando se sai da universidade exatamente como se entrou, é preciso perguntar que mecanismo de atraso explica o resultado. Ironia: o atraso é promovido por aqueles que imaginam lutar contra ele.
[...]
O proletariado não existe. Os negros não existem. Os gays, as mulheres, os anões não existem.
O que existe são indivíduos diversos, com histórias ou interesses diversos. Haverá proletários que não gostam de livros. Haverá proletários que não vivem sem eles.
E haverá burgueses, genuínos burgueses, para quem ler, escrever e pensar são formas medievais de tortura. Conheço vários.
A caricatura do "proletário" como um jumento apedeuta diz mais sobre as patrulhas politicamente corretas do que sobre o proletariado que elas julgam defender.
[...]
O conhecimento verdadeiro não tem cor, sexo ou classe. E, quando tem, então não é conhecimento verdadeiro.
Um guia decente para uma universidade decente só precisava de duas mensagens: "bem-vindo" e "mostra o que vales". Nada mais.

O artigo, por si só, já foi um deleite enorme. Mas o grau de satisfação apenas aumentou devido ao fato de que, especialmente hoje, a coluna de Mônica Bergamo, pouquíssimas páginas antes, trazia um hilário "Cala a boca, Danny Glover" estampado. 


É que o ator de "Máquina Mortífera", conhecido por seu ativismo comunista (ele é fã do ditador Fidel Castro), esteve no Brasil à convite da United Auto Workers (UAW), entidade sindical das mais esquerdistas. E ele foi homenageado com um jantar, oferecido pelos empresários Wilson e Tatiana Quintela. O ator Zé de Abreu, aquele amigão do outro Zé, o Dirceu, marcou presença também.

Ah, nada como a doce vida da esquerda caviar! Tom Wolfe já retratou isso com maestria em seu livro Radical Chic, onde essa "Beautiful People" é desmascarada sem dó nem piedade, e com muita ironia. Nada pior do que uma elite culpada. Ela deveria ler Coutinho, e refletir... 

terça-feira, maio 14, 2013

Mais Lobão e menos Chico Buarque


Rodrigo Constantino, O GLOBO

“A bundamolice comportamental, a flacidez filosófica e a mediocridade nacionalista se espraiam hegemônicas. Todo mundo aqui almeja ser funcionário público, militante de partido, intelectual subvencionado pelo governo ou celebridade de televisão, amigo”. É o músico Lobão com livro novo na área. Trata-se de “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, e sua metralhadora giratória não poupa quase ninguém.

Polêmico, sim. Irreverente, sem dúvida. Mas necessário. As críticas de Lobão merecem ser debatidas com atenção e, de preferência, isenção. O próprio cantor sabia que a patrulha de esquerda viria com tudo. Não deu outra: fizeram o que sabem fazer, que é desqualificar o mensageiro com ataques pessoais chulos, com rótulos como “reacionário” ou “roqueiro decadente”. Fogem do debate.


Leia mais no GLOBO.

terça-feira, dezembro 11, 2012

O humanista que amava Stalin


Rodrigo Constantino, O GLOBO

Oscar Niemeyer era quase uma unanimidade. A reação à sua morte comprova isso. Mas será que tanta reverência se deve somente às suas qualidades artísticas? Muitos consideram que Niemeyer foi um gênio. Não sou da área, não me cabe julgar. Ainda assim, não creio que tanta idolatria seja fruto apenas de suas curvas.
Tenho dificuldade de entender por que o responsável pelo caríssimo projeto da construção de Brasília, o oásis dos políticos corruptos afastados do escrutínio popular, mereceria um prêmio em vez de um castigo. Por acaso as pirâmides do Faraó eram boas para o povo? Mas divago.
Eis a questão: por que Niemeyer foi praticamente canonizado? Minha tese é que ele representava o ícone perfeito da CHEC (Comunistas Hipócritas da Esquerda Caviar). No Brasil, você pode ser podre de rico, viver no maior conforto de frente para o mar, mamar nas tetas do governo, desde que adote a retórica socialista.
Falar em “justiça social” enquanto enche o bolso de dinheiro público, isso merece aplausos por aqui. Já o empresário que defende o capitalismo, produz bens demandados pelo povo e não depende do governo é visto como o vilão. Os discursos sensacionalistas valem mais do que as ações concretas. Imagem é tudo!
As curvas traçadas pelo “poeta do concreto”, que considerava o dinheiro algo “sórdido”, custavam caro. Quase sempre eram pagas pelos nossos impostos. Foram dezenas de milhões de reais só do governo federal. Muito adequado o velório ter sido no Palácio do Planalto, o maior cliente do arquiteto. Licitação e concorrência? Isso é coisa de liberal chato.
Niemeyer virou um ícone contra o excesso de razão nas construções, mas acabou com extrema escassez de razão em suas ideias políticas. Sempre esteve do lado errado, alimentado por um antiamericanismo patológico. Defendeu os terroristas das Farc, os invasores do MST e o execrável regime comunista, mesmo depois de cem milhões de vidas inocentes sacrificadas no altar dessa ideologia.
Ele admirava os tiranos assassinos Fidel Castro e Stalin, e chegou a justificar seus fuzilamentos. Até o fim de sua longa vida, usou sua fama para disseminar essa utopia perversa, envenenando a cabeça de jovens enquanto desfrutava do conforto capitalista.
No meu Aurélio, há uma palavra boa para definir pessoas assim, que curiosamente vem antes de “craque” e depois de “crânio”. Talvez Niemeyer fosse as três coisas ao mesmo tempo.
Roberto Campos certa vez disse: “No meu dicionário, ‘socialista’ é o cara que alardeia intenções e dispensa resultados, adora ser generoso com o dinheiro alheio, e prega igualdade social, mas se considera mais igual que os outros.” Bingo!
Para quem ainda não está convencido de que toda essa comoção tem ligação com sua pregação política, pergunto: seria a mesma coisa se ele defendesse com tanta paixão Pinochet em vez de Fidel Castro? A tolerância seria a mesma se, em vez de Stalin, fosse Hitler o seu guru?
E não me venham dizer que são coisas diferentes! Tanto Stalin como Hitler eram monstros, da mesma forma que o comunismo e o nacional-socialismo são igualmente nefastos. Que grande humanista foi esse homem que defendeu até seu último suspiro algo tão desumano assim?
Acho compreensível o respeito pela obra de Niemeyer, ainda que gosto seja algo subjetivo e que a simbiose com o governo mereça críticas. Entendo o complexo de vira-lata que faz o povo babar com os poucos brasileiros famosos mundialmente. Mas acho inaceitável misturarem as coisas e o colocarem como um ícone do humanismo. Não faz o menor sentido.
Seu brilhantismo como artista não lhe dá um salvo-conduto para a defesa de atrocidades. É preciso saber separar as coisas, o gênio artístico do homem e suas ideias. E tenho certeza de que não é apenas sua arquitetura que gera essa idolatria toda. Basta ver a reação quando questionamos a pessoa, não o arquiteto.
Sua neta Ana Lúcia deixou clara a confusão: “As ideias que ele tentou passar de humanismo, justiça social, isso é tão importante quanto as obras dele. Acho que a gente tem que preservar e difundir o pensamento dele.” Como assim?
Aproveito para avisar que sou sensível ao sofrimento das vítimas do comunismo, mas sou imune à patrulha ideológica da CHEC. A afetação seletiva da turma “humanista” não me sensibiliza. É até cômico ser rotulado de radical por stalinistas.
Por fim, espero que Niemeyer chame logo seu camarada Fidel Castro para um bate-papo onde ele estiver, e que lá seja tão “paradisíaco” como Cuba é para os cubanos comuns. Talvez isso o faça finalmente mudar de ideologia...

sexta-feira, novembro 09, 2012

O safári da miséria


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Lady Gaga está em um “bad romance” com a pobreza carioca. No Rio para um show, a cantora, cercada de seguranças, foi visitar a favela de Cantagalo e jogou bola descalça com as crianças. Ela ganha a imagem de descolada e sensível, as crianças ganham... o que mesmo? Alguns podem dizer “autoestima”, mas há controvérsias. O “romance” parece desigual. Na verdade, parece exploração da miséria alheia para autopromoção.

A esquerda caviar adora enaltecer as favelas como se fossem cool, como se a pobreza fosse charmosa. Uma elite culpada olha para os guetos como verdadeiros “zoológicos” humanos. Os gringos fazem um “safári” pelos morros cariocas, tiram fotos, e mostram para os amigos sua “aventura” depois. Como ninguém é de ferro, retornam para a civilização em seguida. Não parece hipocrisia?

Joãozinho Trinta acertou na mosca quando disse que intelectual é que gosta de pobreza, pois pobre gosta mesmo é de luxo. A autora Glória Perez, por exemplo, vem pintando um quadro positivo das favelas em sua novela “Salve Jorge”, elogiando inclusive o baile funk como um programa de família. Mães e filhos dançam juntos, uma coisa linda! Achar aquilo vulgar e de baixo nível é coisa de gente preconceituosa.

Eu, que sou preconceituoso, abomino o funk e acho aquilo deprimente para crianças. Penso também que a imensa maioria dos favelados adoraria poder se hospedar uma noite no hotel cinco estrelas na beira do mar em Ipanema, trocando de lugar com Lady Gaga ou Glória Perez. Mas o que seria dos intelectuais e artistas sem os favelados? Como eles fariam para conquistar a imagem de descolados altruístas?

Em tempo: esta valorização da periferia chegou ao Enem. Uma reportagem de O Globo mostra que várias questões abordaram, com viés ideológico, o uso de termos coloquiais na linguagem. Para a esquerda festiva, falar errado é o certo. Falta coragem a esta turma para chamar a ignorância pelo nome. 

segunda-feira, setembro 17, 2012

O Fla x Flu de Hélio Saboya Filho

Rodrigo Constantino

O advogado Hélio Saboya Filho escreveu um artigo em O Globo hoje claramente em resposta ao meu "A esquerda caviar". Segundo o advogado, eu estaria fazendo "patrulha" ao acusar de hipocrisia os artistas e intelectuais que pregam o socialismo e defendem o voto em Marcelo Freixo, do PSOL. Diz ele:

Combinação de intolerância com anacronismo, o raso raciocínio tem a "qualidade" de atingir indistintamente esquerda e direita. Transposto para o mundo do futebol equivaleria a se proibir mulambos de torcerem pelo Fluminense e almofadinhas pelo Flamengo.

Ora, meu caro Helinho Saboya (permita-me a intimidade, o senhor pode não recordar, mas foi advogado de minha mulher em nosso divórcio, hoje felizmente desfeito), comparar socialismo e capitalismo com Fla x Flu só interessa mesmo a um lado: o socialista! Não é uma simples questão de preferência, de gosto subjetivo, como gostar mais do azul que do amarelo. Não!

É uma questão de robustez teórica e ampla, farta, infindável validação empírica! O socialismo, onde foi testado, produziu apenas miséria, terror e escravidão. O capitalismo trouxe o progresso, especialmente para os mais pobres. Portanto, quem defende o socialismo defende algo "intolerante e anacrônico", para usar os termos que o senhor imputa à minha pessoa.

Aliás, ao dar o título de "patrulha" ao seu artigo, e citar Regina Duarte durante as eleições que deram a vitória ao Lula, o senhor consegue inverter tudo! A patrulha, quem faz, é o lado de lá. A esquerda dos artistas e intelectuais que operam em coro organizado contra qualquer um do bando que não abraçar a mesma cartilha sensacionalista (e hipócrita). Pergunte ao cantor Fagner, que deu uma entrevista na Veja alguns anos atrás sobre isso.

No mais, Regina Duarte estava certa em seu alerta, ora bolas. O mensalão não te convenceu disso? O Ancinav, o Conselho Nacional de Jornalismo, a tentativa de expulsar um jornalista gringo do país por acusar Lula de "bebum", o aparelhamento de quase toda a máquina estatal, nada disso foi suficiente para lhe abrir os olhos sobre as reais intenções do PT?

Por fim, seu artigo não respondeu a principal acusação que fiz no meu: nem uma palavra sobre a HIPOCRISIA de se pregar o socialismo enquanto se vive do bem e do melhor que só o capitalismo pode oferecer? O senhor realmente não vê nada demais em defender Fidel Castro de Paris, em enaltecer a igualdade material com milhões no banco?

Nesse caso, não posso lhe ajudar muito. Entendo que advogados aprendem a enxergar ambos os lados sempre, e que defender A VERDADE não costuma ser a maior qualidade da profissão. Mas eu, como juiz isento, preciso dar meu veredicto final de forma direta: os ricos defensores do socialismo são uma cambada de hipócritas!