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sábado, julho 27, 2013

Egito em clima de guerra civil

Fonte: O GLOBO

Rodrigo Constantino

Deu no GLOBODezenas de mortos em confrontos entre partidários de Mursi e soldados no Cairo

As Forças Armadas egípcias confrontaram com violência partidários do presidente deposto Mohamed Mursi que protestavam no Cairo. Segundo o Ministério da Saúde, os confrontos na madrugada deste sábado deixaram 38 mortos, todos civis, mas a Irmandade Muçulmana, aliada de Mursi, afirma que o número de vítimas é superior a 200, além de mais de 4 mil feridos.

De acordo com Gehad al-Haddad, porta-voz da Irmandade, os confrontos foram iniciados antes da primeira oração do dia, por volta das 4h (23h de sexta-feira no horário de Brasília). Milhares de islâmicos que faziam vigília em uma mesquita no bairro de Medina Náser tentaram bloquear a ponte Seis de Outubro, uma das principais do Cairo e que atravessa o Rio Nilo, o que levou a uma reação da polícia.

— Eles não estão atirando para ferir, estão atirando para matar — disse al-Haddad.

Não há ainda versão oficial detalhada de eventos, mas as autoridades dizem que eles usaram apenas gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. No entanto, fontes do hospital confirmaram que a maioria das vítimas morreu de ferimentos de bala. De acordo com várias testemunhas, a batalha era claramente desigual, a polícia com armas de fogo, enquanto a maioria dos manifestantes estavam armados apenas com paus e pedras.

Os líderes da Irmandade Muçulmana acreditam que a verdadeira intenção da polícia foi expulsar à força partidários de Mursi que estavam acampados em torno da mesquita de al-Audawiya Rabá, o principal foco de protestos.

Poucas horas antes do massacre, o ministro do Interior, Mohamed Ibrahim, disse que ao jornal estatal “Al Ahram” que o governo "vai acabar em breve de forma legal" com os protestos de islamitas, referindo-se especificamente às manifestações que ocorrem perto da mesquita. Ibrahim justificou a medida tendo em vista as reclamações e denúncias feitas por moradores e disse que o Ministério Público iria emitir uma ordem de desocupação, o que ainda não aconteceu.

Médicos de um hospital de campanha afirmaram à rede de televisão al-Jazeera que 75 pessoas foram mortas perto da mesquita.

O derramamento de sangue acontece um dia depois de apoiadores e opositores de Mursi terem participado de comícios rivais em todo o país, com centenas de milhares de pessoas nas ruas.


Não podemos ignorar que Mursi contou com amplo apoio popular no começo, e com os aplausos do governo americano também. Mas este parecia não querer enxergar que o conceito de "democracia" para os seguidores de Mursi era bem diferente do nosso conceito de democracia ocidental. Para a Irmandade Muçulmana, ela não passava de um instrumento para impor a sharia - a lei islâmica - a todos. 

Quando isso começou a ficar mais claro, boa parte da população do Egito tomou as ruas pedindo sua cabeça. Mas ainda há enorme parcela que deseja justamente isso. Daí o confronto inevitável. O Egito, como a Turquia e outros países da região, está em plena disputa para ver se há alguma chance de um governo democrático e eleito que seja mais secular, ou se somente regimes autoritários são capazes de segurar o ímpeto do fanatismo religioso, como tem sido nas últimas décadas.

Muitos "progressistas" acharam que era possível e até sonharam com uma grande revolução democrática nesses países, celebrando a "Primavera Árabe" como celebram a Revolução Francesa. Esqueceram como esta terminou: com sangue e terror, levando a uma ditadura. Talvez seja cedo demais para achar que os próprios povos islâmicos querem algo que se assemelhe aos modelos ocidentais de tolerância religiosa. 

Recomendo a leitura da resenha que diz do livro Spring Fever, de Andrew McCarthy. A "democracia islâmica" no Oriente Médio pode ser apenas uma ilusão ocidental, fruto de um desejo muito grande de crer que os anseios populares por lá são semelhantes aos dos próprios indivíduos que vivem na civilização ocidental. Não são!

terça-feira, julho 23, 2013

Hezbollah na lista negra

Rodrigo Constantino

A União Europeia decidiu colocar a ala militar do Hezbollah na "lista negra". Diz a reportagem:

A pressão de Reino Unido, Holanda, França e Alemanha funcionou - pelo menos em parte. Depois de meses de deliberações e divergências, os 28 ministros da União Europeia concordaram em colocar na lista negra o grupo xiita libanês Hezbollah. Mas a determinação foi feita com uma ressalva: apenas o "braço militar" do Hezbollah passará a figurar na lista de grupos terroristas banidos do território europeu. Na prática, a distinção entre uma "ala militar" e uma "ala política" vai permitir que autoridades e diplomatas europeus mantenham contatos com líderes políticos do grupo que hoje domina a política libanesa ao mesmo tempo em que é a maior força militar do país e a mais bem treinada milícia armada do mundo.

Confesso não ver tanto motivo assim para celebração. Primeiro, pois já foi tarde tal decisão; segundo, porque os países europeus insistem em uma separação que não existe de fato. Escutemos quem mais conhece os inimigos em questão:

Em Jerusalém, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu criticou a diferenciação entre as alas do grupo xiita, arqui-inimigo de Israel, com quem travou uma batalha de 34 dias em 2006.

- Para Israel, o Hezbollah é uma organização unitária e sem diferença entre alas. Eu espero que a decisão provoque medidas concretas contra a organização - queixou-se o premier.

Eu fecho com Netanyahu. O Hezbollah, militar ou político, quer a mesma coisa, uma única coisa: impor a sharia ao resto do mundo. A "democracia" é apenas mais um meio que encontraram para esse objetivo totalitário e autoritário. Uma "farsa" que serve a seus propósitos. 

Escrevi nesta segunda-feira uma resenha do ótimo livro de Andrew McCarthy sobre o assunto. Recomendo a leitura de ambos. É preciso acordar para a realidade e para a ameaça islâmica o quanto antes.

segunda-feira, julho 22, 2013

Primavera Árabe: A ilusão democrática


 Rodrigo Constantino

A “Primavera Árabe” encantou muita gente no Ocidente. Vários celebraram o “despertar” do povo para a democracia, lutando contra regimes opressores no poder há décadas. Mas a comemoração foi precipitada demais. Os pilares culturais e institucionais que permitem o funcionamento adequado do regime democrático simplesmente não estão lá.

A “democracia”, nesse caso, pode ser apenas uma forma de teocracia disfarçada, com os fanáticos muçulmanos tomando o poder e impondo a sharia – a lei islâmica. É o que defende Andrew McCarthy em seu excelente livro novo Spring Fever: The Illusion of Islamic Democracy. McCarthy é autor também de The Grand Jihad, onde já havia exposto como os fanáticos do Islã estão sabotando os pilares da civilização ocidental de dentro do sistema.

São leituras obrigatórias para quem quer entender melhor como o radicalismo islâmico opera nos Estados Unidos, e porque a democracia no Oriente Médio ainda não passa de uma doce ilusão. Gostamos de crer que o povo islâmico da região despertou, mas isso pode ser somente uma vontade nossa de acreditar nisso.

Para o autor, muitos no Ocidente desejam crer que os povos árabes compartilham dos mesmos ideais de liberdade que nós, e acabam ignorando que a “Primavera Árabe” pode ser, na verdade, a ascendência da supremacia islâmica. O governo de Mursi no Egito deixou claro esse risco: várias medidas do governante eleito foram na direção da sharia, e o alinhamento inclusive com grupos terroristas ficou evidente.

McCarthy disseca o caso da Turquia, pois se trata do país mais ocidentalizado da região, graças ao legado de Ataturk. Erdogan, entretanto, deu demonstração de sobra de que não quer saber disso, preferindo atender aos anseios dos defensores da sharia. Nem há surpresa aqui: tais são os objetivos declarados desses governantes! Eles alegam abertamente que o estado deve ser guiado pelo Islã, e essa é a visão que eles têm de liberdade: “perfeita submissão”.

No Ocidente, especialmente na esquerda progressista, a visão muliculturalista impede a constatação desse fato. Simplesmente reproduzir o que as próprias lideranças islâmicas afirmam é suficiente para ser chamado de “islamofóbico”. Sem querer julgar qualquer coisa (à exceção de seus oponentes conservadores e os “fanáticos” do Tea Party), esses progressistas tentam remodelar o Islã à sua própria imagem: uma nobre e tolerante religião.

Para o autor, essa é a principal lição da “Primavera Árabe”: a miragem do Islã como uma força moderada e amigável à transformação democrática existe somente em nossas mentes, para nosso consumo próprio. Lá, no Oriente Médio, a mentalidade predominante não tem nada a ver com isso, como atos e pesquisas apontam. Os governantes mesmos se sentem ofendidos com o uso do termo “moderado”, pois para eles, o Islã é o Islã, e ponto. Seguir sua lei é absolutamente imprescindível. Estado laico? Nem pensar!

Por acaso o Irã tem se tornado mais moderado nos últimos anos? Por acaso o Hamas é moderado em Gaza, ou ocorreu nova eleição desde que o grupo foi escolhido? Por acaso a constituição iraquiana, aprovada sob a supervisão americana, deixa de colocar o Islã como a religião oficial que deve pautar as leis? O sucesso eleitoral do Hezbollah no Líbano mudou o país, ou serviu para que o Irã pudesse contar com um braço terrorista com o manto de “democracia” em suas provocações jihadistas?

Aplicar a nossa idéia de liberdade individual ao contexto do Oriente Médio é a grande ingenuidade que cometemos, segundo o autor. Essa cultura de povo soberano não está presente nesses países. Para eles, seguir a religião por meio do estado, sob o comando de um representante forte que irá garantir tal submissão, isso é “liberdade”. Parlamento com poderes legislativos, pesos e contrapesos, descentralização de poder, tolerância às minorias, tais são valores enraizados no Ocidente, mas não nos países islâmicos.

Outro ponto importante abordado pelo autor é que os fanáticos muçulmanos compreendem que a disputa é cultural acima de tudo. O dawa é o proselitismo da sharia, sem o uso de violência. Intimidar críticos, cultivar simpatizantes na imprensa e nas universidades, explorar a tolerância e a liberdade religiosa ocidental, infiltrar-se em nosso sistema político, retratar qualquer crítica como “islamofobia”, eis a guerra que eles estão travando e vencendo até aqui. Esses foram os ensinamentos de Hassan al-Banna, um dos fundadores da Irmandade Muçulmana, que pretende dominar todo o planeta com sua religião.

O que McCarthy mostra no livro é como vários institutos islâmicos nos Estados Unidos servem apenas como fachada para disseminar os valores radicais de sua fé, ou então fazer um elo com grupos terroristas. Não é que eles não compreendam a democracia ocidental, ou não sejam sofisticados para isso; é que eles não desejam tal modelo para eles! Eles olham com profundo desdém para o resultado do que essa democracia e essa liberdade conquistaram no Ocidente. E eles querem mudar isso.

McCarthy não tem medo de concluir que, nos termos de Samuel Hutington, trata-se de um “confronto de civilizações”. Não reconhecer isso é um perigo, pois o outro lado avança de forma agressiva. A meta das lideranças islâmicas, com o apoio da maioria do povo, é o “renascimento islâmico”, o resgate de uma época de predominância do Islã.  

Os que são considerados “moderados” pela esquerda ocidental não escondem o mesmo sonho, e simpatizam com os terroristas, retratados por eles como “resistentes”. O ódio a Israel e aos Estados Unidos está presente também, mas muitos fingem não ver. McCarthy resume sem rodeios: “Nesta região antidemocrática, a democracia real não tem a menor chance contra a supremacia islâmica”.