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sábado, julho 27, 2013

Egito em clima de guerra civil

Fonte: O GLOBO

Rodrigo Constantino

Deu no GLOBODezenas de mortos em confrontos entre partidários de Mursi e soldados no Cairo

As Forças Armadas egípcias confrontaram com violência partidários do presidente deposto Mohamed Mursi que protestavam no Cairo. Segundo o Ministério da Saúde, os confrontos na madrugada deste sábado deixaram 38 mortos, todos civis, mas a Irmandade Muçulmana, aliada de Mursi, afirma que o número de vítimas é superior a 200, além de mais de 4 mil feridos.

De acordo com Gehad al-Haddad, porta-voz da Irmandade, os confrontos foram iniciados antes da primeira oração do dia, por volta das 4h (23h de sexta-feira no horário de Brasília). Milhares de islâmicos que faziam vigília em uma mesquita no bairro de Medina Náser tentaram bloquear a ponte Seis de Outubro, uma das principais do Cairo e que atravessa o Rio Nilo, o que levou a uma reação da polícia.

— Eles não estão atirando para ferir, estão atirando para matar — disse al-Haddad.

Não há ainda versão oficial detalhada de eventos, mas as autoridades dizem que eles usaram apenas gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes. No entanto, fontes do hospital confirmaram que a maioria das vítimas morreu de ferimentos de bala. De acordo com várias testemunhas, a batalha era claramente desigual, a polícia com armas de fogo, enquanto a maioria dos manifestantes estavam armados apenas com paus e pedras.

Os líderes da Irmandade Muçulmana acreditam que a verdadeira intenção da polícia foi expulsar à força partidários de Mursi que estavam acampados em torno da mesquita de al-Audawiya Rabá, o principal foco de protestos.

Poucas horas antes do massacre, o ministro do Interior, Mohamed Ibrahim, disse que ao jornal estatal “Al Ahram” que o governo "vai acabar em breve de forma legal" com os protestos de islamitas, referindo-se especificamente às manifestações que ocorrem perto da mesquita. Ibrahim justificou a medida tendo em vista as reclamações e denúncias feitas por moradores e disse que o Ministério Público iria emitir uma ordem de desocupação, o que ainda não aconteceu.

Médicos de um hospital de campanha afirmaram à rede de televisão al-Jazeera que 75 pessoas foram mortas perto da mesquita.

O derramamento de sangue acontece um dia depois de apoiadores e opositores de Mursi terem participado de comícios rivais em todo o país, com centenas de milhares de pessoas nas ruas.


Não podemos ignorar que Mursi contou com amplo apoio popular no começo, e com os aplausos do governo americano também. Mas este parecia não querer enxergar que o conceito de "democracia" para os seguidores de Mursi era bem diferente do nosso conceito de democracia ocidental. Para a Irmandade Muçulmana, ela não passava de um instrumento para impor a sharia - a lei islâmica - a todos. 

Quando isso começou a ficar mais claro, boa parte da população do Egito tomou as ruas pedindo sua cabeça. Mas ainda há enorme parcela que deseja justamente isso. Daí o confronto inevitável. O Egito, como a Turquia e outros países da região, está em plena disputa para ver se há alguma chance de um governo democrático e eleito que seja mais secular, ou se somente regimes autoritários são capazes de segurar o ímpeto do fanatismo religioso, como tem sido nas últimas décadas.

Muitos "progressistas" acharam que era possível e até sonharam com uma grande revolução democrática nesses países, celebrando a "Primavera Árabe" como celebram a Revolução Francesa. Esqueceram como esta terminou: com sangue e terror, levando a uma ditadura. Talvez seja cedo demais para achar que os próprios povos islâmicos querem algo que se assemelhe aos modelos ocidentais de tolerância religiosa. 

Recomendo a leitura da resenha que diz do livro Spring Fever, de Andrew McCarthy. A "democracia islâmica" no Oriente Médio pode ser apenas uma ilusão ocidental, fruto de um desejo muito grande de crer que os anseios populares por lá são semelhantes aos dos próprios indivíduos que vivem na civilização ocidental. Não são!

segunda-feira, julho 22, 2013

Primavera Árabe: A ilusão democrática


 Rodrigo Constantino

A “Primavera Árabe” encantou muita gente no Ocidente. Vários celebraram o “despertar” do povo para a democracia, lutando contra regimes opressores no poder há décadas. Mas a comemoração foi precipitada demais. Os pilares culturais e institucionais que permitem o funcionamento adequado do regime democrático simplesmente não estão lá.

A “democracia”, nesse caso, pode ser apenas uma forma de teocracia disfarçada, com os fanáticos muçulmanos tomando o poder e impondo a sharia – a lei islâmica. É o que defende Andrew McCarthy em seu excelente livro novo Spring Fever: The Illusion of Islamic Democracy. McCarthy é autor também de The Grand Jihad, onde já havia exposto como os fanáticos do Islã estão sabotando os pilares da civilização ocidental de dentro do sistema.

São leituras obrigatórias para quem quer entender melhor como o radicalismo islâmico opera nos Estados Unidos, e porque a democracia no Oriente Médio ainda não passa de uma doce ilusão. Gostamos de crer que o povo islâmico da região despertou, mas isso pode ser somente uma vontade nossa de acreditar nisso.

Para o autor, muitos no Ocidente desejam crer que os povos árabes compartilham dos mesmos ideais de liberdade que nós, e acabam ignorando que a “Primavera Árabe” pode ser, na verdade, a ascendência da supremacia islâmica. O governo de Mursi no Egito deixou claro esse risco: várias medidas do governante eleito foram na direção da sharia, e o alinhamento inclusive com grupos terroristas ficou evidente.

McCarthy disseca o caso da Turquia, pois se trata do país mais ocidentalizado da região, graças ao legado de Ataturk. Erdogan, entretanto, deu demonstração de sobra de que não quer saber disso, preferindo atender aos anseios dos defensores da sharia. Nem há surpresa aqui: tais são os objetivos declarados desses governantes! Eles alegam abertamente que o estado deve ser guiado pelo Islã, e essa é a visão que eles têm de liberdade: “perfeita submissão”.

No Ocidente, especialmente na esquerda progressista, a visão muliculturalista impede a constatação desse fato. Simplesmente reproduzir o que as próprias lideranças islâmicas afirmam é suficiente para ser chamado de “islamofóbico”. Sem querer julgar qualquer coisa (à exceção de seus oponentes conservadores e os “fanáticos” do Tea Party), esses progressistas tentam remodelar o Islã à sua própria imagem: uma nobre e tolerante religião.

Para o autor, essa é a principal lição da “Primavera Árabe”: a miragem do Islã como uma força moderada e amigável à transformação democrática existe somente em nossas mentes, para nosso consumo próprio. Lá, no Oriente Médio, a mentalidade predominante não tem nada a ver com isso, como atos e pesquisas apontam. Os governantes mesmos se sentem ofendidos com o uso do termo “moderado”, pois para eles, o Islã é o Islã, e ponto. Seguir sua lei é absolutamente imprescindível. Estado laico? Nem pensar!

Por acaso o Irã tem se tornado mais moderado nos últimos anos? Por acaso o Hamas é moderado em Gaza, ou ocorreu nova eleição desde que o grupo foi escolhido? Por acaso a constituição iraquiana, aprovada sob a supervisão americana, deixa de colocar o Islã como a religião oficial que deve pautar as leis? O sucesso eleitoral do Hezbollah no Líbano mudou o país, ou serviu para que o Irã pudesse contar com um braço terrorista com o manto de “democracia” em suas provocações jihadistas?

Aplicar a nossa idéia de liberdade individual ao contexto do Oriente Médio é a grande ingenuidade que cometemos, segundo o autor. Essa cultura de povo soberano não está presente nesses países. Para eles, seguir a religião por meio do estado, sob o comando de um representante forte que irá garantir tal submissão, isso é “liberdade”. Parlamento com poderes legislativos, pesos e contrapesos, descentralização de poder, tolerância às minorias, tais são valores enraizados no Ocidente, mas não nos países islâmicos.

Outro ponto importante abordado pelo autor é que os fanáticos muçulmanos compreendem que a disputa é cultural acima de tudo. O dawa é o proselitismo da sharia, sem o uso de violência. Intimidar críticos, cultivar simpatizantes na imprensa e nas universidades, explorar a tolerância e a liberdade religiosa ocidental, infiltrar-se em nosso sistema político, retratar qualquer crítica como “islamofobia”, eis a guerra que eles estão travando e vencendo até aqui. Esses foram os ensinamentos de Hassan al-Banna, um dos fundadores da Irmandade Muçulmana, que pretende dominar todo o planeta com sua religião.

O que McCarthy mostra no livro é como vários institutos islâmicos nos Estados Unidos servem apenas como fachada para disseminar os valores radicais de sua fé, ou então fazer um elo com grupos terroristas. Não é que eles não compreendam a democracia ocidental, ou não sejam sofisticados para isso; é que eles não desejam tal modelo para eles! Eles olham com profundo desdém para o resultado do que essa democracia e essa liberdade conquistaram no Ocidente. E eles querem mudar isso.

McCarthy não tem medo de concluir que, nos termos de Samuel Hutington, trata-se de um “confronto de civilizações”. Não reconhecer isso é um perigo, pois o outro lado avança de forma agressiva. A meta das lideranças islâmicas, com o apoio da maioria do povo, é o “renascimento islâmico”, o resgate de uma época de predominância do Islã.  

Os que são considerados “moderados” pela esquerda ocidental não escondem o mesmo sonho, e simpatizam com os terroristas, retratados por eles como “resistentes”. O ódio a Israel e aos Estados Unidos está presente também, mas muitos fingem não ver. McCarthy resume sem rodeios: “Nesta região antidemocrática, a democracia real não tem a menor chance contra a supremacia islâmica”.

sexta-feira, julho 19, 2013

A Avaaz mostra sua cor... e ela é vermelha!

Rodrigo Constantino

Eu já sabia e já tinha alertado. Mas agora é oficial: a Avaaz mostra sua verdadeira cor, e ela tem cinquenta tons de vermelho. Em artigo para o GLOBO, Pedro Abromovay, o indivíduo por trás da Avaaz, já deixa toda a máscara de imparcialidade ao assinar o artigo com Lindbergh Farias, senador petista. Apartidário? Sei... Eles dizem:

Cidadãos que nunca haviam discutido a questão antes estão debatendo política com seus amigos, passaram a agir. A velha política está morrendo e existe agora um novo diálogo, horizontal e contínuo, e uma nova cultura política.

Mas essa "nova" forma de fazer política, mais "horizontal", vem com um selo de um senador pelo PT? É isso mesmo, produção? Essa maneira "moderna" de democracia sem políticos ou partidos está sendo proposta pela Avaaz ao lado de um senador petista? Eu entendi isso corretamente? Mas não é só isso. A Avaaz quer mais, e expõe seu objetivo de forma direta:

E qual a reforma capaz de dialogar com a nova realidade política? Instituir o financiamento público e reformar o sistema eleitoral é um bom começo. Mas essa nova reforma tem por meta tornar o Brasil uma democracia moderna que se destaque com orgulho no século XXI. O tamanho das manifestações públicas exige respostas ambiciosas. Podemos nos tornar uma nova Atenas.

Financiamento público de campanha? E que tipo de "gênio" pensa que isso vai reduzir o caixa dois, a corrupção, o poder financeiro de empreiteiras na política? Nova Atenas? Ah, agora estou entendendo. Ágora! Eis a solução para nossos problemas. Só um pequeno detalhe: não somos os cantões suíços, tampouco temos o tamanho da população de Atenas e a simplicidade de temas políticos a serem decididos de forma direta. 

A "nova" democracia, então, é a velha "democracia direta", só que aplicada para 200 milhões de pessoas, no modelo centralizador do estado brasileiro. Entenderam? Ainda não? Então vou facilitar com uma palavra: Venezuela. O que a Avaaz de Pedro Abromovay quer, bem ao ladinho do senador do PT, é apelar para plebiscitos manipulados para instaurar no país a "ditadura da maioria" sob o controle populista de uma seleta minoria.

Sinto muito lhe dizer isso, mas se em algum momento você assinou petição da Avaaz, saiba que você foi massa de manobra da esquerda. A Avaaz não me representa!

quinta-feira, julho 18, 2013

Democratas islâmicos?

Rodrigo Constantino

Em artigo de hoje no Estadão, Demétrio Magnoli, quem muito respeito, resgata certo otimismo com os acontecimentos ligados à "Primavera Árabe". Diz o sociólogo:

A "segunda Tahrir" revela tanto a vitalidade da revolução democrática no Egito quanto o fracasso dos profetas que condenaram de antemão a Primavera Árabe como uma queda no precipício do fundamentalismo islâmico. Em pouco mais de dois anos os egípcios derrubaram uma ditadura militar e um governo eleito que pretendia aprisionar as liberdades no calabouço da ortodoxia religiosa. Depois disso a tese do "choque de civilizações" deveria ser recolhida ao museu das relíquias ideológicas.

Eu não estaria tão certo disso. Considero a conclusão otimista precipitada. É verdade que o povo não aceitou a "democracia" islâmica (sharia) de Mursi e seus colegas fanáticos da Irmandade Muçulmana. Mas daí a concluir que há em curso uma luta por democracia, pois os egípcios derrubaram tanto a ditadura militar como a ditadura velada e disfarçada de democracia islâmica, acho que vai uma longa distância.

Eu faria uma provocação alternativa: e se esses povos ainda não estão preparados para democracia alguma, e a opção realista que se apresenta for entre regime militar secular e aliado ao Ocidente, ou "democracias" que nada mais são do que uma estratégia para o totalitarismo islâmico? E se o "choque de civilizações" é justamente o que está acontecendo por lá?

Estou lendo um ótimo livro que tem justamente essa tese. Trata-se de Spring Fever: The Illusion of Islamic Democracy, de Andrew C McCarthy, que é autor também de The Grand Jihad. O livro sobre a "Primavera Árabe" é bem interessante, e pretendo escrever mais sobre ele depois de terminar a leitura. 

Por enquanto, fica a questão: podemos mesmo afirmar que os povos árabes "despertaram" e clamam por democracia e liberdade? Ceticismo parece crucial nesse momento, para não cairmos novamente em ilusões perigosas...

quinta-feira, julho 11, 2013

Do cinismo democrático aos lobos e hienas

Rodrigo Constantino

A democracia depende de instituições que, por sua vez, dependem de pilares culturais. Quando esses pilares se mostram de areia, quando a maioria começa a condenar "tudo isso que está aí", jogar tudo no mesmo saco, ridicularizar a própria democracia, a política em si, é porque estamos sob o risco de uma aventura autoritária.

Acreditar não que a democracia é fantástica, um Deus ou algo do tipo, mas que ela é aperfeiçoável, que por meio de reformas podemos melhorá-la, parece-me uma condição fundamental para sua própria sobrevivência. Quando seu descrédito é total, o que virá em seu lugar é uma incógnita, mas com elevada chance de mudar para algo pior. 

Por isso condenei aqueles que votaram no palhaço Tiririca nas últimas eleições, como um voto de protesto contra a própria política, o Congresso como um todo. Esse tipo de postura ajuda a minar a confiança no sistema, que pode ser bastante imperfeito, mas que não pode ser substituído por poções mágicas, por soluções milagrosas. 

É essa a mensagem que acabo de ver em trecho de A Civilização do Espetáculo, de Mario Vargas Llosa. Estou em boa companhia, pelo visto. Eis o que diz o Nobel de Literatura:

É essa atitude pessimista e cínica, e não a ampla corrupção, que pode efetivamente acabar com as democracias liberais, transformando-as numa casca esvaziada de substância e verdade, aquilo que os marxistas ridicularizavam com o apelido de democracia "formal". É uma atitude inconsciente em muitos casos, que se traduz como desinteresse e apatia em relação à vida pública, ceticismo em relação às instituições, relutância em pô-las à prova. Quando consideráveis parcelas de uma sociedade devastada pela inconseqüência sucumbem ao catastrofismo e à anomia cívica, o campo fica livre para os lobos e as hienas.

Que cada um possa refletir sobre isso, e compreender aquilo que Churchill resumiu tão bem: a democracia é o pior modelo, exceto todos os outros que já foram testados. Vamos deixar o espaço livre para os lobos e as hienas? Ou vamos lutar para ocupá-lo com pessoas minimamente decentes, razoáveis, capazes? 

sexta-feira, julho 05, 2013

Inverno árabe

Rodrigo Constantino

A ficha caiu para muitos agora: a comemoração com a "Primavera Árabe" foi muito precipitada. Esqueceram que a democracia não é criada em um passe de mágica, e que sem os devidos pilares institucionais, ela pode desandar facilmente. O editorial do GLOBO constata: 

Pode-se dizer que a experiência, no Egito, não foi bem-sucedida. A Irmandade Muçulmana, organização islamista, preencheu espaços quando o Exército foi forçado a sair de cena. Um representante dela, Mohamed Mursi, elegeu-se presidente. A democratização é uma das grandes aspirações de boa parte do povo egípcio, mas Mursi não esteve à altura. Mostrou-se mais preocupado em seguir a cartilha da Irmandade rumo à islamização do que em buscar apoio político para governar e lidar com a crise econômica. Quando as multidões voltaram à Praça Tahrir, agora para pedir a saída de Mursi, o Exército se inquietou.

O que muitos "especialistas" ignoravam durante aqueles dias de fúria nas ruas árabes, é que a maioria islâmica pode desejar impor, via voto que seja, a sharia, uma "ditadura da maioria" calcada em sua religião. O mesmo risco e a mesma tendência ocorreu na Tunísia, como mostra o editorial:

Na Tunísia, onde se iniciou a Primavera Árabe, o partido islâmico local, Ennahda, ganhou as eleições após a derrubada do ditador Ben Ali. E, como no Egito, começou a desagradar a população quando começou a impor a agenda islamizante: foi acusado de tentar dominar o Estado e limitar liberdades já conquistadas pela sociedade. Sob pressão da oposição e protestos nas ruas, ele concordou em dividir o governo com dois partidos seculares. Bom começo.

A pergunta que pouca gente se fez à época da euforia das manifestações populares: quem armou com fuzis aqueles rebeldes? Fuzis não brotam pelo Facebook. Foi essa a mensagem mais cética que tentei levar para reflexão naquele momento, como nessa palestra no Fórum da Liberdade em Porto Alegre, quando tive que substituir Reinaldo Azevedo de última hora:


Acho que são reflexões válidas para os dias de hoje em nosso país também...

terça-feira, julho 02, 2013

O risco de virarmos uma grande Argentina




Rodrigo Constantino

Deu no Valor: País é diferente da Venezuela, diz Mailson

Crítico da política econômica do governo da presidente Dilma Rousseff, Mailson da Nóbrega, ministro da Fazenda entre 1988 e 1990, defende que o investidor considere disputar os leilões de infraestrutura em andamento e não "simplesmente saia correndo". "É possível provar que o risco de o país trilhar o caminho argentino ou venezuelano é muito baixo. O Brasil se destaca pela qualidade de suas instituições", diz.

Mailson é sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, que firmou uma parceria com o Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) e a Inter.B para prestar assessoria a empresas no segmento de concessões. Em entrevista ao Valor, ele não deixa de contestar o modelo de leilão elaborado a partir do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010), que prioriza menores tarifas. "O ideal seria que o governo revisse a questão da modicidade, mas duvido que isso aconteça."

Além disso, ele acredita que deveriam ser buscadas taxas de retorno mais atraentes ao mercado. O governo ainda pode receber pedidos de grupos privados por melhorias na atratividade dos projetos, diz. "Os investidores sabem lidar com situações como essa, seja demandando rentabilidade maior ou reduzindo participação a alguns projetos em específico", afirma.

Mesmo assim, ele acredita que haverá participantes em todos os projetos. "A tendência é que, exceto no caso do trem-bala [no setor, há dúvidas sobre a viabilidade do projeto], todos os leilões tenham participantes e tenham vencedores. Não tenho dúvida disso. O que se pode discutir é se serão os ideais", afirma. Segundo ele, a percepção sobre a presença de interessados é ainda mais forte no caso de rodovias e aeroportos - segmentos em que há forte concorrência. Em ferrovias, ele diz ainda haver dúvidas sobre o modelo.

Mailson ressalta que os projetos levados ao mercado são de longo prazo, e que isso deve ser considerado pelo investidor estrangeiro como um forma de se obter experiência. "Ter um pé aqui dentro, ainda que em uma ou duas concessões, é perceber as tendências do país, é avaliar. Então, ficar de fora pode significar estar fora por muito tempo, porque outros vão entrar", diz.

Comento: Ler Maílson da Nóbrega é sempre importante. O "economista do ano" (Maílson foi agraciado com este prêmio pela Ordem dos Economistas Brasileiros recentemente) merece todo o meu respeito, e tem feito ótimas análises em sua coluna da revista VEJA. Nessa reportagem do Valor, ele levanta bons pontos também. O Brasil não é a Argentina, e tem instituições mais fortes. Mas...


Isso pode mudar, e passaremos pelo grande teste justamente nos próximos meses. O Brasil tem outra dimensão, maior pluralidade, muitos grupos de interesse organizados, e tudo isso dificulta um golpe bolivariano, sem dúvida. Mas desconfio que nossas instituições não são tão sólidas assim.

Temos um Congresso de péssima qualidade (alguém achou graça na eleição do palhaço Tiririca?), sob um sistema político confuso que perde credibilidade a cada dia. O clima de revolta difusa nas ruas, "contra tudo isso que está aí", cai como um raio sobre esta fundamental instituição da República, que é a democracia participativa. São legendas de aluguel, não partidos de verdade.

O pior de tudo, em minha opinião, é a total ausência de uma oposição legítima e organizada. Isso simplesmente não existe. O DEM quase sumiu, e o PSDB é bem menos pior que o PT, sem dúvida, pois o ranço autoritário da esquerda carnívora, leia-se bolivariana, não se faz presente. Ainda assim, é uma "oposição" tímida, envergonhada, sem convicção em um modelo alternativo de fato, com menos intervencionismo e mais liberal.

Restam o Judiciário e a imprensa. Sim, até aqui o STF se mostrou uma força republicana razoável. Mas assusta a presença de alguns ministros que mais parecem petistas disfarçados, assim como não soa nada bem o discurso de "escutar as ruas"; o STF é o guardião da Constituição, e esse é seu papel precípuo. Enfim, não há garantias de que este fundamental poder está realmente blindado contra a tentação bolivariana. 

Por fim, temos a heróica imprensa independente, aquela que os golpistas chamam de "mídia golpista". Ela tem feito um papel importantíssimo para impedir esses avanços chavistas, mas até que ponto conseguirá resistir aos insistentes ataques sob o manto de "controle social" é uma incógnita. 

Falta falar que o Bolsa Família se transformou no maior programa de compra de votos da história deste país. Isso representa constante ameaça à democracia, pois o governo pode sempre fazer terrorismo eleitoral afirmando que o concorrente vai acabar com a festa. Tivemos uma idéia do que isso acarretaria quando o próprio governo fez uma tremenda confusão e permitiu que o boato de fim da mesada circulasse. 

Juntando isso tudo, receio que eu não consiga compartilhar da mesma tranqüilidade de Maílson. Nosso destino não é certo, nossa evolução não é garantida, e o risco de virarmos uma grande Argentina não é tão desprezível assim. A Argentina, não custa lembrar, contava com uma classe média razoável e mais educada que a nossa, e uma imprensa livre também. Não suportou as sucessivas crises econômicas e o populismo do casal Kirchner.

Se nossa crise se agravar nos próximos meses, como eu acredito que vá ocorrer, nossas instituições democráticas estarão em perigo. O teste para valer será agora. Espero que Maílson esteja certo em sua confiança. Mas creio que o veredicto ainda não foi dado...

quinta-feira, junho 27, 2013

O lado bom das manifestações

















Rodrigo Constantino

Tenho adotado uma postura bastante cética e critica em relação a essas manifestações no país. Isso se deve a vários motivos, entre eles:

1.     Não aprecio o clima revolucionário de que vamos mudar o mundo rapidamente, saindo às ruas contra o “sistema”, contra “tudo isso que está aí”, pretexto muitas vezes para anarquia e depois golpe autoritário;
2.     As manifestações partiram de movimentos organizados de esquerda com interesses obscuros, e por mais que agora essa turma seja minoria, a grande imprensa ainda dá espaço desproporcional a eles como interlocutores das ruas, ou seja, muitos servem como inocentes úteis para engrossar o quórum das demandas da esquerda, sempre mais tarimbada no assunto de manipulação das massas;
3.     Falta foco, a revolta é geral, as demandas são difusas, e não se governa um país sem líderes e partidos organizados, apenas escutando as “vozes das ruas” que repetem slogans simplistas;
4.     Justamente por isso, a reação do governo pode ser (e tem sido) oferecer como resposta a essa pressão toda mais governo, mais intervenção estatal;
5.     Não compro a tese de que o “gigante” acordou, e que agora todos estão conscientes da política e não vão mais tolerar coisas como o “mensalão”, deixando de lado o velho “Pão & Circo”;
6.     Receio que o tiro saia pela culatra, e que o maior prejudicado no curto prazo seja o fisiológico PMDB, que mal ou bem segura as pretensões bolivarianas do PT, abrindo espaço para um avanço ainda maior dos petiscas;
7.     Temo também que o clima de insatisfação geral criado pelas passeatas seja propício para aventureiros de plantão, para um messias salvador da Pátria que prometa ignorar as falhas instituições democráticas para resolver nossos males em uma “democracia direta”;
8.     Pelo mesmo motivo, desconfio de toda proposta que procura passar por cima do Congresso, apesar de este ser um balcão de negociatas, pois não acredito em saídas milagrosas fora da democracia representativa;
9.     O clima de baderna gerado pelas manifestações acaba dando guarida aos vândalos que, embora em minoria, conseguem fazer um estrago no tecido social da nação, estimulando a anomia, a sensação de terra sem lei, protegidos da policia justamente porque há uma maioria pacífica nas ruas e uma forte opinião pública contra as ações da força policial;
10.  Não acredito que seja possível sustentar por muito tempo essa forma de protesto, pois as pessoas precisam retornar ao trabalho, às suas vidas, com seu direito de ir e vir restabelecido, e nossos fins nobres não podem justificar meios condenáveis que prejudicam os inocentes ainda mais;

Essas são, basicamente, as razões pelas quais tenho feito ataques às manifestações, tentado trazer um pouco mais de serenidade e luz em meio a tanto calor difuso, jogado baldes de água fria em muita gente eufórica com essa situação nova no país.

Dito isso, é claro que não tenho apenas sentimentos negativos diante do quadro geral. Tenho sido o advogado do diabo, demandando mais cautela e cuidado, mostrando os enormes riscos disso tudo. Mas me parece inegável que há alguns pontos interessantes no que se passa. Para não ignorá-los e ficar parecendo que eu condeno tudo, vou listar algumas vantagens desse momento atual em que vive o Brasil:

1.     De fato, a letargia até então era algo irritante, e até chocava a postura de pacato cidadão do brasileiro, que apanha o ano inteiro do governo, com sua incrível incompetência, seu descaso total, sem nada fazer, e agora, ao menos, demonstra sua revolta, ainda que de forma desorientada;
2.     Ao obter alguma reação dos governos, essas pessoas descobrem o poder do grito, o que pode ser um perigo à frente, mas que também representa uma nova forma de evitar abusos, colocando os políticos contra a parede, temerosos até de sua integridade física daqui por diante (nunca é ruim o governante ter um pouco de medo da população);
3.     O fato de tudo isso ocorrer durante a gestão petista pode, naturalmente, fortalecer a idéia de que o governo do PT não tem absolutamente nada de fantástico como seus marqueteiros dizem e algumas pesquisas “comprovam”, deixando evidente que há um grau de insatisfação generalizada no país;
4.     Isso tudo, ainda muito caótico, pode servir para que alguns jovens, hoje encantados com soluções utópicas, descubram a importância de mergulhar mais a fundo nos problemas políticos e econômicos, de forma mais racional, o que os levará, sem dúvida, rumo ao liberalismo;
5.     Nosso patriotismo pode sair fortalecido, a sensação de que a Pátria tem salvação e de que cabe a nós, brasileiros, moldarmos nosso destino, sem termos de aceitar de forma resignada que sempre seremos uma porcaria, um país jogado às traças, aos bandidos que usam e abusam de nossos impostos sem a menor preocupação com a reação dos “bovinos” obedientes;

Portanto, como fica claro, nem tudo é desgraça. Para mim, o ideal seria que boa parte do povo tivesse realmente acordado, se dado conta de que precisamos pressionar por mudanças, e que isso resultasse em movimentos organizados dentro da democracia representativa, cujo foco no curto prazo fosse retirar o PT do governo.

Não é esse o caso, não há esse mesmo diagnóstico, os métodos adotados me incomodam e geram apreensão, pois receio que o resultado não seja do nosso agrado. Mas também não quero passar a impressão de que o melhor seria simplesmente voltar ao que era antes, colocando o “gigante” para dormir novamente, passivo diante de tantos abusos do governo.

Será possível canalizar tanta energia despertada para algo mais construtivo, respeitando-se as vias da democracia representativa? Espero que sim. E é esse o desafio homérico dos liberais.

sexta-feira, junho 21, 2013

Como Transformar um Movimento Apartidário em Mudança

  Rodrigo Adão *

Nos últimos dias tem ganhado força entre os cientistas políticos de Esquerda uma tese de que o movimento popular se aproxima do Fascismo simplesmente por se mostrar apartidário. Não permitir que partidos políticos e seus braços em movimentos sociais participem das manifestações não é Fascismo! Falar isso é perder o principal ponto das manifestações: quem saiu à rua mostrou sua indignação com a incapacidade do Estado em exercer seus diversos papéis constitucionais e esse Estado se encontra personificado nos partidos políticos que o geriram nos últimos 25 anos. Parece-me que todos são bem-vindos para compartilhar esta indignação nas manifestações, seja qual for a sua orientação política. Entretanto, a própria natureza da manifestação não permite que se tente mostrar apoio aos partidos que controlam o Estado – justamente o principal alvo de indignação. Apartidarismo era sim uma característica do Fascismo, mas está longe de ser uma condição suficiente.

Dito isso, compartilho de algumas das opiniões divulgadas por diversos cientistas políticos. Acho que sou tradicional nesse ponto, mas considero que a indignação com o Estado só vai se tornar mudança efetiva caso uma liderança seja capaz de transformar as reivindicações em uma agenda de reformas do Estado. Mais, esta agenda de reformas tem que considerar os custos e benefícios de cada medida. Não adianta clamar por educação, saúde e redução da corrupção sem propor medidas específicas. Por exemplo, mais recursos para educação básica poderiam ser obtidos com uma redução dos gastos em universidades federais, atingindo, em cheio, um benefício da classe média urbana. Ou ainda, poderiam ser obtidos com uma redução dos incentivos ao cinema e à música nacionais, atingindo a classe artística nacional que adora um lobby. Outro exemplo, melhor saúde passaria por reformar o sistema médico que permite que profissionais faltem plantões e suspendam consultas sem sofrer nenhuma punição efetiva. Só para completar, acabar com os benefícios esdrúxulos de diversas carreiras do judiciário não só ajudaria a tornar a justiça mais ágil (reduzindo corrupção), como liberaria recursos pra gastos sociais. Quero ver algum concurseiro de plantão concordar com essa última medida. A multidão nas ruas mostra sua insatisfação, uma liderança de qualidade concretiza suas demandas.

Para terminar me permito mandar dois recados. Aos manifestantes, eu digo: não existe almoço grátis. Qualquer mudança efetiva vai afetar benefícios de grupos específicos, sendo que alguns destes grupos estavam na rua nos últimos dias. Aos partidos atuais, eu digo: entendam a manifestação nas ruas e se conformem que não existe espaço para políticos tradicionais capturarem a sua liderança. Caso alguma liderança política seja capaz de emergir desde movimento, ela não vai sair dos partidos que estão no poder desde a democratização. Apesar disso, uma liderança que atue dentro do sistema politico atual será necessária para que o movimento não se perca no ar.

Mestre em Economia pela PUC-Rio e estudante de PhD em Economia no MIT. As opiniões são do autor, não dessas instituições.

terça-feira, junho 11, 2013

Leiam Mises!

Rodrigo Constantino

O economista Adolfo Sachsida engrossou o coro daqueles que vêm criticando a postura dogmática e infantil de certos "libertários". Ele escreveu um artigo condenando essa forma de agir e pensar de alguns anarco-capitalistas, que muito se assemelha aos marxistas. Sachsida ficou espantado ao saber que essas pessoas, na maioria dos casos mais jovens (mas há os tais "adolescentes crescidos", que já passaram dos 30), consideram Friedman e Hayek "socialistas". Ele diz:

Na cabeça de alguns seguidores de Von Mises apenas pessoas que defendem TODAS as implicações possíveis dos três itens listados acima são liberais. Por consequência, eles afirmam que Milton Frieman e Friederich Hayek, dois dos maiores pensadores liberais, não eram liberais. Esse tipo de radicalismo, e de tratar a todos que discordam deles de desonestos ou imbecis os aproxima, e muito, da tradição marxista. Pior, ao afastarem pensadores do calibre de Friedman e de Hayek abrem espaço para seguirem pensadores com habilidades no mínimo duvidosas.

Mas é pior! Pela lógica deles, seguindo o critério absurdo de que somente anarquistas defendem a liberdade e todos os demais são socialistas em diferentes graus, até mesmo Mises seria um socialista! E é aqui que discordo um pouco de Sacshida e preciso fazer alguns esclarecimentos, em nome da boa luta liberal. Antes disso, segue mais um trecho do texto de Sacshida importante para fazer meu ponto:

Hoje determinado grupo de seguidores de Von Mises se assemelha muito a grupos de seguidores de Marx, são intolerantes, arrogantes, e o que é pior, na esmagadora maioria das vezes são tecnicamente fracos. Nunca escreveram ou publicaram nada, acreditam honestamente que "Ação Humana" deve ser lida como uma bíblia. Esse grupo realmente se assemelha aos seguidores de Marx que consideram "O Capital" como uma bíblia.

Aqui está! Eu, como liberal, condeno qualquer leitura de um autor como bíblia, pois o liberalismo não é um sistema fechado, dogmático. Mas esses "seguidores" de Mises não lêem Mises como onisciente ou "Ação Humana" como uma bíblia. Seria errado, como disse, e eu mesmo não concordo com Mises em tudo, naturalmente. Mas seria bem menos pior do que fazem! A triste verdade é que eles falam em nome de Mises, mas eles não leram Mises direito, ou se leram, não entenderam, ou se entenderam, não ligam para o fato de que defendem coisas diametralmente opostas ao pensador austríaco.

Como eu já cansei de dizer, Mises eram um ferrenho defensor do liberalismo, ou seja, ele pregava a democracia e o estado de direito. Ele não queria saber de dogmatismo, de direito natural visto como um valor absoluto, de anarquia ou qualquer coisa do tipo. Ao contrário: ele condenava veementemente isso tudo, e abraçava uma postura realmente liberal. O que esse pessoal precisa fazer, portanto, não é deixar de ver "Ação Humana" como uma bíblia, mas sim ler direito esse e todos os demais livros de Mises, um grande defensor da liberdade.

Hayek morria de medo dos "hayekianos", pois viu o que os marxistas fizeram com Marx e os keynesianos com Keynes. É verdade que Marx e Keynes merecem muitas críticas, e liberal que se preza sabe bem disso; mas também é verdade que seus ditos seguidores conseguiram piorar e muito o legado deles. Ao que parece, Mises foi vítima do mesmo destino. Esses jovens, em busca de certezas, lêem muito mais os seguidores de Mises, anarco-capitalistas e alguns bem fanáticos, do que a própria fonte. Minha recomendação é que leiam mais Mises e Hayek, os maiores expoentes da Escola Austríaca.

Alguns acham que essas críticas que eu faço, ou que Sachsida fez, ou que outros, como Claudio Shikida, Flávio Morgenstern e Fabio Barbieri já fizeram, acaba sendo contraproducente. Curiosamente, eles dizem que não é útil essa estratégia. Para quem condena tanto o utilitarismo defendido por Mises, é no mínimo engraçado isso. Mas o ponto é que eu discordo, pela ótica utilitarista mesmo. Eu penso que essa postura dogmática e arrogante desse grupo contamina o liberalismo e afasta gente boa da causa liberal. Por isso, e apenas por isso, eu busco resgatar Mises e seu legado.

A seguir, alguns trechos retirados de vários livros de Mises, para não deixar margem à dúvidas do que ele defendia. Não são passagens isoladas, fora de contexto; são, antes, pilares fundamentais de toda a sua filosofia liberal. Vamos lá:

"O fanatismo impede que os ensinamentos da teoria econômica sejam escutados, a teimosia impossibilita qualquer mudança de opinião e a experiência não serve de base a nada." 

"The more recent writers are inclined to assume a contrast between Liberalism and Democracy. They seem to have no clear conceptions of either; above all, their ideas as to the philosophical basis of democratic institutions seem to be derived exlusively from the ideas of natural law." 

"The truth is that the significance of the democratic form of constitution is something quite different from all this. Its funtion is to make peace, to avoid violent revolutions."

"Democracy is not only not revolutionary, but it seeks to extirpate revolution. The cult of revolution, of violent overthrow at any price, which is peculiar to Marxism, has nothing whatever to do with democracy. Liberalism, recognizing that the attainment of the economic aims of man presupposes peace, and seeking therefore to eliminate all causes of strife at home or in foreign politics, desires democracy."

"Always and everywhere Liberalism demands democracy at once, for it believes that the function which it has to fulfil in society permits of no postponement. Without democracy the peaceful development of the state is impossible."

"Even where for an indefinite time to come it may expect to reap only disadvantages from democracy, Liberalism still advocates democracy. Liberalism believes that it cannot maintain itself against the will of the majority."

"Liberalism differs radically from anarchism. It has nothing in common with the absurd illusions of the anarchists. ...Liberalism is not so foolish as to aim at the abolition of the state."

"As far as the government - the social apparatus of compulsion and oppression - confines the exercise of its violence and the threat of such violence to the suppression and prevention of antisocial action, there prevails what reasonably and meaningfully can be called liberty."

"[...] the teachings of utilitarian philosophy and classical economics have nothing at all to do with the doctrine of natural right. With them the only point that matters is social utility. They recommend popular government, private property, tolerance, and freedom not because they are natural and just, but because they are beneficial. [...] The Utilitarians do not combat arbitrary government and privileges because they are against natural law but because they are detrimental to prosperity."

"It is useless to stand upon an alleged 'natural' right of individuals to own property if other people assert that the foremost 'natural' right is that of income equality. Such disputes can never be settled."

"Government means always coercion and compulsion and is by necessity the opposite of liberty. Government is a guarantor of liberty and is compatible with liberty only if its range is adequately restricted to the preservation of what is called economic freedom."

"Taxation is a matter of the market economy. It is one of the characteristic features of the market economy that the government does not interfere with the market phenomena and that its technical apparatus is so small that its maintenance absorbs only a modest fraction of the total sum of the individual citizen's incomes. Then taxes are an appropriate vehicle for providing the funds needed by the government." 

"There is, however, no such thing as a perennial standard of what is just and what is unjust. Nature is alien to the idea of right and wrong.… The notion of right and wrong is a human device."

"All moral rules and human laws are means for the realization of definite ends. There is no method available for the appreciation of their goodness or badness other than to scrutinize their usefulness for the attainment of the ends chosen and aimed at."

"It is a fact that almost all men agree in aiming at certain ends, at those pleasures which ivory-tower moralists disdain as base and shabby. But it is no less a fact that even the most sublime ends cannot be sought by people who have not first satisfied the wants of their animal body. The loftiest exploits of philosophy, art, and literature would never have been performed by men living outside of society."

"Que o governo e a polícia se encarreguem de proteger os cidadãos, e entre eles os homens de negócio e, evidentemente, seus empregados, contra ataques de bandidos nacionais ou do exterior, é efetivamente uma expectativa normal e necessária, algo a se esperar de qualquer governo. Essa proteção não constitui uma intervenção, pois a única função legitima do governo é, precisamente, produzir segurança."

Como fica claro (cristalino, na verdade), Mises era um liberal clássico, defensor da democracia (com todas as suas imperfeições), do utilitarismo (ele estava muito mais preocupado com o resultado de suas idéias em vez do gozo de ser o detentor da única Verdade em uma Torre de Marfim), que rechaçava a anarquia revolucionária, o conceito dogmático de direito natural que acabou levando seus seguidores a constatarem que existe um e somente um princípio importante e absoluto para a vida em sociedade: o de não-agressão. A coisa é muito mais complexa e o buraco é muito mais embaixo.

Enfim, considero saudável o debate e fico contente que Adolfo Sachsida tenha aderido ao front de batalha. Ela é necessária para separar o joio do trigo e ajudar a esclarecer melhor alguns que, no fundo, leram pouco ou nada do próprio Mises. Fica minha sugestão: leiam Mises!

terça-feira, janeiro 08, 2013

A crise é moral


Rodrigo Constantino, O GLOBO

            O Japão está em crise há décadas. A Europa está em grave crise. Os Estados Unidos cada vez se parecem mais com a Europa. Não seria exagero falar em uma grande crise das democracias modernas. O que pode explicar tal fenômeno?
            A esquerda vai apontar para os bodes expiatórios de sempre: o capitalismo, o liberalismo, o individualismo. E a esquerda vai errar o alvo, como sempre. Foi o capitalismo liberal com foco no indivíduo que tirou milhões da miséria e permitiu uma vida mais confortável a essa multidão. Quem está mais longe desse sistema, está em situação muito pior.
            O que explica as crises atuais então? Claro que um fenômeno complexo tem mais de uma causa. Mas eu arriscaria uma resposta por meio de um antigo provérbio conhecido: avô rico, filho nobre, neto pobre. Isso quer dizer, basicamente, que o próprio sucesso planta as sementes do fracasso, só que de outra geração.
            Somos os herdeiros de uma geração mimada, que colheu os frutos do árduo trabalho de seus pais, acostumados com vidas mais duras, com guerras, com diversas restrições. Essa geração, principalmente na década de 1960 e 70, pensou que bastava demandar, e todos os seus desejos seriam atendidos, sabe-se lá por quem.
            Acostumados com o conforto ocidental, essas pessoas passaram a crer que a opulência era o estado natural da humanidade, e não a miséria. Em vez de pesquisar as causas da riqueza das nações, como fez Adam Smith, eles acharam que bastava distribuir direitos e jogar a conta para o governo.
            O Estado se tornou, nas palavras de Bastiat, “a grande ficção pela qual todos tentam viver à custa de todos”. O conceito de escassez foi ignorado, e muitos passaram a acreditar na ilusão de que basta um decreto estatal para se obter crescimento e progresso. Vários olharam para esse deus da modernidade em busca de milagres.
            Foi assim que a impressão de moeda por bancos centrais passou a ser confundida com criação de riqueza. Ou que gastos públicos passaram a ser sinônimo de estímulo ao PIB, colocando o termo “austeridade” na lista dos inimigos mortais. O crédito sem lastro para consumo passou a ser visto como altamente desejável, e a poupança individual como algo prejudicial ao crescimento econômico.           
            Toda uma geração acreditou que era possível ter e comer o bolo ao mesmo tempo, esquecendo o alerta de Milton Friedman, de que não existe almoço grátis. Esmolas estatais foram distribuídas a vários grupos organizados, privilégios foram criados para várias “minorias” e o endividamento público explodiu.
O Estado de bem-estar social criou uma bomba relógio, mas ninguém quer pagar a fatura. Acredita-se que é possível jogá-la indefinidamente para frente. Os banqueiros centrais vão criar mais moeda ainda, os governos vão gastar mais e assumir novas dívidas, as famílias vão manter o patamar de consumo e tomar mais crédito, e todos serão felizes. E ai de quem alertar que isso não é possível: será um ultraconservador reacionário e radical.
A postura infantil se alastrou para outras áreas além da econômica. Os adultos agem como adolescentes e delegam ao governo a função de cuidar de seus filhos e de si próprios. O paternalismo estatal assume que indivíduos não são responsáveis, mas sim mentecaptos indefesos que necessitam de tutela.
Intelectuais de esquerda conseguiram convencer inúmeras pessoas de que elas não são responsáveis por suas vidas, e sim marionetes sob o controle de forças maiores e determinísticas. Roubou alguém? É vítima da sociedade desigual. É vagabundo? Culpa do sistema. Matou uma pessoa? A arma é a culpada, e a solução é desarmar os inocentes.
Notem que o mundo atual exime de responsabilidade o indivíduo de quase todas as atrocidades por ele cometidas. Sob a ditadura velada do politicamente correto, ninguém mais pode dar nome aos bois e colocar os pingos nos is. Os eufemismos são a regra, e a linguagem perdeu seu sentido. O criminoso vagabundo é a vítima, e sua vítima é o verdadeiro culpado: quem mandou ter mais bens?
Portanto, engana-se quem pensa que para sair dessa crise precisamos de mais do mesmo: mais crédito, mais dívida pública, mais gastos de governo, mais impostos sobre os ricos e mais impressão de moeda. Não! A receita proposta por Obama e companhia é o caminho da desgraça. Ela representa estender artificialmente a “dolce vita” dos filhos nobres (e mimados), como se o dia do pagamento nunca fosse chegar. Ele chega, inexoravelmente.
Os netos pobres seremos nós, ou nossos filhos, se essa trajetória não mudar logo. A crise não é apenas econômica; ela é moral.

terça-feira, novembro 06, 2012

A democracia americana

Hélio Schwartsman, Folha de SP


Os EUA vão hoje às urnas e alguns analistas mencionam a possibilidade de um candidato ser escolhido presidente mesmo sem obter a maioria dos votos populares. Essa distorção seria uma cortesia do colégio eleitoral, o sistema indireto de votação estabelecido pelos fundadores do país há mais de 200 anos e hoje considerado obsoleto e até antidemocrático.
Concordo com a avaliação, mas, antes de cravar que os "founding fathers" erraram, convém perscrutar melhor o que tinham em mente. "O modo de escolha do magistrado-chefe [presidente] é praticamente a única parte do sistema [constitucional] que escapou de censuras [...]. Não hesito em afirmar que, se a maneira não é perfeita, é pelo menos excelente". Essas palavras foram escritas em 1788 por Alexander Hamilton.
Por paradoxal que pareça, os autores da mais longeva Constituição democrática do mundo faziam parte daquela categoria de democratas aristocráticos que tem horror a povo. Hamilton diz temer a possibilidade de "tumulto e desordem" num pleito direto e proclama que o sistema foi desenhado para evitar dar força aos demagogos, que ele descreve como "talentos para a baixa intriga e as pequenas artes da popularidade". Elbridge Gerry foi ainda mais explícito, citando a "ignorância do povo".
Se há um conceito que se sobressai na democracia norte-americana, é o dos "checks and balances" (freios e contrapesos), a noção de que ninguém, nem mesmo a população, pode deter poderes absolutos e que a todo poder concedido corresponderá também um controle externo.
Com o benefício da visão de retrospecto, podemos dizer que os "founding fathers", muito embora tenham feito lambança com o sistema eleitoral, acertaram na orientação geral. A profusão de "checks and balances" é um dos principais motivos pelos quais a democracia dos EUA vem funcionando razoavelmente bem e sem interrupção há dois séculos.

Comentário: Quando Al Gore ganhou mais votos populares, mas perdeu nos colégios eleitorais, a esquerda toda veio descendo o pau no modelo americano. Agora, que Obama pode passar pela mesma situação, vencendo nos colégios, mas perdendo no voto popular, seria curioso acompanhar a mudança de postura da esquerda. Um peso, duas medidas. Esta sempre foi e sempre será a marca registrada da esquerda, desonesta por natureza...

terça-feira, outubro 30, 2012

O tamanho não conta

João Pereira Coutinho, Folha de SP


Sérgio Dávila escreveu nesta Folha a favor da polarização em política. Será que o sistema brasileiro, com seus 30 partidos, é mais desejável do que o sistema bipartidário norte-americano, onde republicanos e democratas se alternam no poder? Dávila pensa que não --e pensa muito bem.
Há anos que, em Portugal, travo a mesma batalha: a democracia lusa estaria melhor servida se existissem dois grandes partidos --um de esquerda, outro de direita-- capazes de deterem maiorias sólidas e de serem solidamente responsabilizados por seus atos.
Não é uma batalha fácil: sempre que alguém levanta a bandeira do bipartidarismo, chovem acusações de fechamento democrático e de horror ao pluralismo. Em minha defesa, só posso invocar o nome de um dos maiores apologistas da "sociedade aberta": o filósofo Karl Popper.
Em 1987, Popper, então com 85 anos, esteve em Lisboa para uma notável conferência sobre a sua vida e, em especial, a sua teoria da democracia.
Sobre a vida, os fatos são conhecidos: nascido em Viena em 1902, Popper atravessou a Primeira Guerra Mundial; encantou-se com o comunismo; desencantou-se logo a seguir; assistiu, horrorizado, à ascensão do nazismo; e construiu uma impressionante obra filosófica no exílio.
Mas nesse encontro em Lisboa, o velho filósofo concentrou-se sobretudo na sua teoria da democracia. Para Popper, a democracia é um problema eminentemente prático e técnico. Ela procura saber como remover os maus governantes sem derramamento de sangue.
Naturalmente que cabe ao povo, pela força do voto, essa punição exemplar. Mas Popper sublinhava que essa punição só é verdadeiramente exemplar --um "dia do juízo final", dizia ele-- em sistemas tendencialmente bipartidários.
A afirmação pode soar bizarra: o aumento do número de partidos deveria significar mais escolha, mais ideias em circulação, melhor distribuição de poder e influência.
Um erro, avisava Popper. Para começar, a existência de muitos partidos traz dificuldades acrescidas à formação de governos coesos --para não falar do funcionamento e da duração desses governos.
Em Portugal, esse aviso é uma evidência empírica: desde a instauração da democracia, há mais de 35 anos, o país teve oito governos de coalização. Nenhum deles --repito: nem um-- chegou ao fim do seu mandato. Só governos de um único partido o conseguiram.
Aliás, o atual governo de coalização ilustra o ponto: eleito há pouco mais de um ano, as fissuras são já gritantes. Poucos creem na sua sobrevivência a curto prazo.
Mas há mais: sistemas pluripartidários tendem a conceder aos pequenos partidos um poder que pode revelar-se, ironicamente, antidemocrático. Se a democracia significa a escolha da maioria, não cabe a uma minoria determinar a vontade livremente expressa das maiorias.
Os pequenos partidos, explicava Popper, acabam por adquirir um poder desproporcionado na formação de governos e no processo decisório desses governos.
Finalmente, o argumento de peso: enganam-se os que pensam que sistemas bipartidários têm menor flexibilidade ideológica. Os dois grandes partidos americanos, por exemplo, apresentam uma capacidade de reforma e autocrítica internas sem paralelo com qualquer outro sistema pluripartidário.
Essa capacidade --mais: esse imperativo de reforma e autocrítica-- está diretamente ligada com a dimensão e o significado das derrotas eleitorais.
Nos Estados Unidos, quem perde, perde a sério. A derrota não é apenas um prejuízo facilmente dissolúvel em dezenas de pequenos partidos. É uma derrota clara que exige uma resposta clara de explicação para essa derrota; e de busca de novas ideias para regressar ao poder.
Como dizia Popper, nas democracias bipartidárias os partidos vivem "em alerta permanente". O que significa uma atenção redobrada (e permanente) às necessidades reais do país e, claro, ao comportamento do partido rival na forma como governa e nas decisões que toma enquanto está no poder.
Bipartidarismo é maturidade, escrevia Dávila. Acrescento: maturidade e qualidade. Quem disse que o tamanho não conta estava só a pensar na quantidade das siglas partidárias.