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terça-feira, junho 04, 2013

Quem tem Fiesp não precisa de Unicamp

Foto: IstoÉ Dinheiro

Rodrigo Constantino

Em sua coluna de hoje na Folha, o empresário Benjamin Steinbruch bate novamente na mesma tecla de sempre: não podemos subir os juros para combater a inflação. O empresário afirma que tinha outra ideia em mente, mas decidiu voltar ao tema de sempre pelos fatos ocorridos na semana:


Antes do feriadão, havia me programado para escrever sobre a burocracia que ainda assola o país e corrói a sua competitividade. Mas, na quarta-feira, duas notícias caíram como bomba.

Era melhor ter escrito sobre a burocracia, senhor Steinbruch! Infelizmente, nossos grandes empresários, na maioria dos casos, são pigmeus morais, são míopes, só querem benesses estatais. Steinbruch tem usado seu espaço na Folha para bater insistentemente na tecla "desenvolvimentista", focando basicamente nos juros. Para ele, crescimento se consegue marretando artificialmente a taxa de juros. Com imensa cara de pau, eis que ele coloca o Brasil ao lado de Rússia, Argentina e Venezuela, como se o maior problema desses países fosse fruto da alta taxa de juros!!! É muito absurdo:

O Brasil caminha na contramão das demais grandes economias mundiais, que adotam a flexibilização monetária para estimular a volta do crescimento econômico. Como companheiros nessa viagem perigosa, o Brasil tem hoje Rússia, Argentina e Venezuela, países que ainda adotam taxas básicas de juros superiores à nossa.

Não!!! O discurso de que subir juros é bandeira de "mercado financeiro" não cola mais, senhor Steinbruch! O governo seguiu seus conselhos, e deu nisso! Estagflação! Parabéns! O senhor, ao lado de Delfim Netto (o Sarney da economia), deve estar muito satisfeito. Quem tem a Fiesp não precisa de USP ou Unicamp para estragar a economia. 

Que tal atacar os problemas estruturais da nossa indústria, do nosso "custo Brasil", em vez de focar no sintoma, no preço da moeda, no custo do capital? Infraestrutura capenga, mão de obra desqualificada, lei trabalhista anacrônica, previdência estatizada e insustentável, carga tributária absurda, burocracia asfixiante, esses são os males que assolam o Brasil. 

Não a taxa de juros, que é um preço de mercado! Mas entendo que seja mais fácil pressionar o governo para mexer na Selic e deixar a inflação subir, o que alguns industriais aplaudem. Só que o mais fácil não quer dizer o certo! Por isso pigmeu moral. Precisamos de empresários com coragem para defender o difícil, porém certo. Não é o caso de Benjamin Steinbruch, naturalmente.

O pior de tudo é que empresários assim ainda mancham a reputação do capitalismo para os mais leigos, que confundem "capitalismo de estado" com capitalismo de livre mercado. Benjamin Steinbruch, Delfim Netto e Fiesp não me representam, assim como não representam o liberalismo. 

Se depender deles, o Brasil quebra, com inflação fora de controle para ferrar de vez com os mais pobres. Mas talvez a CSN consiga ganhar um bom dinheiro durante a bolha artificialmente inflada pelo governo e defendida pelo empresário...

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

A lógica do chuchu


Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal
O ministro do Turismo, Gastão Vieira, disse nesta quinta-feira que o governo vai monitorar o comportamento das diárias de hotéis para evitar preços abusivos durante a Copa das Confederações, em junho. Trata-se de apenas mais um caso entre tantos que demonstra o viés intervencionista desse governo atual.
O ministro Guido Mantega já declarou que o câmbio pode flutuar, mas perto do seu preço “justo”, assim como o ministro de Minas e Energia, Lobão, afirmou que o preço da gasolina era livre, desde que sem abusos. Na cabeça de todos os ministros de Dilma, pelo visto, a ideia de preço livre existe somente atrelada à convergência para o que eles consideram preço justo. Preço de mercado, nesse caso, seria preço de Estado.
Nenhum governo precisa de tabelamento oficial de preço quando adota essa noção de preço livre. O mais preocupante, naturalmente, é constatar que esse governo não tem o menor conhecimento sobre o funcionamento do mercado, sobre as leis de oferta e demanda. E ainda querem segurar os índices oficiais de inflação com esse tipo de malandragem, postergando ajuste de ônibus e aluguel, travando na marra tarifas de hotéis e preço da gasolina, concedendo desoneração pontual para produtos que subiram muito.
É a “lógica do chuchu”, alusão ao método com que o então ministro Delfim Netto combatia a inflação no passado. Em busca desse tal “preço justo”, o governo Dilma vai conseguir criar a prateleira vazia e o mercado negro. Socorro!

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Os Trapalhões

Rodrigo Constantino, O GLOBO

Sou uma pessoa nostálgica. Uma das boas lembranças que tenho de minha infância é ficar no colo do meu falecido avô assistindo “Os Trapalhões”. Eu adorava. É por isso que devo agradecer ao governo Dilma por resgatar lembranças tão doces de minha vida. Acompanhar os atos de seus ministros é voltar no tempo, é como ver as trapalhadas da turma do Didi.

Comecemos pelos malabarismos contábeis que o governo fez para apresentar o superávit fiscal de 2012. A coisa foi tão primária que faria um mágico de festa infantil ruborizar diante do amadorismo. Poderiam ao menos ter chamado um David Copperfield para ajudar a esconder as peripécias!

O ministro Mantega é imbatível. Sua declaração sobre a taxa de câmbio comprova: “O câmbio é flutuante, mas, se exagerar na dose, a gente vai lá e conserta.” Ou seja, o câmbio flutua, desde que na direção do valor que o governo considera “correto”.

Na mesma linha, o ministro Lobão (não confundir com o músico inteligente) nos brindou com essa pérola ao falar sobre o aumento da gasolina: “O mercado é livre, mas não deve exceder o limite do razoável.” Traduzindo: o mercado é livre, desde que coloque o preço que eu considero razoável.

Quem precisa de preços tabelados quando se tem uma “liberdade” dessas? O governo Dilma demonstra a cada dia seu forte ranço intervencionista. Pretende controlar toda a economia. Triste o país em que os preços mais importantes são todos decididos pelo governo!

Mas o nexo causal nunca foi o forte dessa equipe econômica. Eles acreditam que a economia ainda não se recuperou a despeito de suas fantásticas medidas. Não passa por suas brilhantes cabeças que é justamente o contrário: a economia patina e a inflação sobe por causa do governo!

Os investidores estão assustados com o grau de intervenção arbitrária. Também, pudera: a presidente usa seu poder para criar “campeões nacionais”, enquanto todos os privilégios e subsídios concedidos acabam prejudicando o restante, longe das graças estatais. O cobertor é curto. Para ajudar os “amigos do rei”, o governo tem destruído setores inteiros.

Basta ver o que aconteceu com o setor elétrico. As estatais foram dizimadas em bolsa, pois o governo, com foco no curtíssimo prazo, decidiu dar mais uma ajudinha aos industriais. Quem, em sã consciência, investiria em geração de energia em um cenário desses?

Mas isso não impediu a presidente de fazer propaganda eleitoral, anunciando a queda das tarifas e abusando do ufanismo boboca: quem critica a medida está contra o país!

A Petrobras tem sido utilizada para fins políticos desde o começo da gestão petista. O governo segura o preço da gasolina defasado para não impactar as taxas de inflação. Faltam recursos para a estatal investir, e sua ineficiência cria a necessidade de importação de combustível.

O Brasil perde, mas nunca se esqueçam de que “o petróleo é nosso” e a Petrobras é motivo de “orgulho nacional”.

Curiosidade: por que a presidente não fez uso da rede nacional de rádio e televisão para comunicar ao povo o aumento da gasolina, como fez para anunciar a queda das tarifas de eletricidade? Pergunta retórica, claro. Sabemos a resposta.

Mas o governo tem cartas na manga para conter a “inflação” (na verdade, o índice oficial, não a inflação verdadeira). A gasolina aumentou? Então basta aumentar a parcela de etanol na sua composição, diluindo o efeito. Se o próximo vilão for o feijão, já sabemos qual a solução: basta acrescentar mais água na feijoada!

Não devemos ficar surpresos com tais trapalhadas, quando lembramos que a Argentina é admirada por nosso governo, e que Delfim Netto é bastante influente na economia. Aliás, Delfim influencia nossa economia há décadas, sempre perto do poder. É uma espécie de Sarney da economia. O Brasil idolatra o fracasso.

O resumo da ópera bufa? Não temos mais câmbio flutuante, a Lei de Responsabilidade Fiscal foi abandonada, a inflação ameaça sair de controle, os bancos públicos criaram uma bolha de crédito, a inadimplência aumentou, os investimentos não vêm e a economia não cresce. Promissor?

O crescimento dos últimos anos, que já foi medíocre, teve boa ajuda externa. Tanto que nossa produtividade não aumentou quase nada. Tivemos um empurrão da alta das commodities. Isso acabou. E agora? Como crescer com esses trapalhões no governo?

Eu achava graça nas piadas dos Trapalhões. Elas eram inofensivas, ainda que politicamente incorretas para nossos padrões chatos de hoje. Mas as trapalhadas do governo não têm a menor graça. Elas vão custar muito caro ao Brasil.

terça-feira, dezembro 04, 2012

O espírito animal de Delfim Netto

Rodrigo Constantino

Tem gente que nunca aprende mesmo. Delfim Netto, o Sarney da economia brasileira, é um desses casos. Sempre circulando em volta do "puder" (até o ministro do STF, Luiz Fux, confessou que colou no homem quando soube que sua indicação valia ouro em Brasília), seus conselhos econômicos têm tudo a ver com o atual fracasso da economia, que deve crescer apenas algo como 1% esse ano. Mas pergunta se Delfim Netto faz algum tipo de mea culpa. Claro que não!

O problema é que os "espíritos animais" ainda não acordaram, apesar de todos os estímulos corretos do governo. Eis o que ele escreve em sua coluna do Valor hoje:

O fato realmente trágico das contas nacionais de julho-setembro de 2012 é que elas revelam o quinto trimestre consecutivo de redução do nível de investimentos. O problema é que nem a bem-sucedida política de queda da taxa de juros real, nem o controle do movimento de capitais, que levou a uma recuperação da taxa de câmbio, nem os incentivos fiscais, alguns da maior importância no longo prazo, como é o caso da desoneração da folha de salários, nem o excepcional esforço através do BNDES, nem os estímulos à inclusão social, que asseguram um aumento da demanda, foram capazes de mobilizar os investidores privados.

A verdade é que a resposta ao ativismo do governo, em geral na direção correta, foi, infelizmente, acompanhada de ruídos de comunicação por parte dos agentes públicos que interagem com o setor privado no campo fundamental da infraestrutura.


Em outras palavras, o governo fez tudo certo, mas o "mercado" não captou a mensagem. O erro foi de comunicação. Os agentes do setor privado são surdos ou burros. Não é o próprio ativismo do governo que gerou tantos problemas, criando um clima de insegurança. Imagina! Isso é teoria conspiratória de especuladores do mercado financeiro.

O Sarney da nossa economia ainda arranjou espaço no final do artigo para elogiar a nossa brilhante gestora:

Quem conhece a inteligência da presidente, sua disposição de estudar cuidadosamente cada problema e seu pragmatismo, tem muita dificuldade de entender como se chegou a tal distância de confiança entre o governo e o setor privado de infraestrutura. 

Eu, que não conheço a inteligência da presidente, só posso lamentar que o espírito animal de Delfim Netto tenha tanta influência assim nas medidas econômicas do governo.

Vejam também meu vídeo sobre essa figura onipresente na economia brasileira desde que eu nasci (por que será que somos sempre o país do futuro?):


sexta-feira, novembro 30, 2012

O mercado dos trinta


Rodrigo Constantino

O artigo de Claudia Safatle no jornal Valor Econômico hoje é elucidativo da forma de pensar deste governo. Segundo a bem informada articulista, o Palácio do Planalto acredita que “as maiores críticas e desconfianças são fomentadas pelo mercado financeiro e atribui isso aos interesses contrariados dos banqueiros, que teriam perdido o ganho fácil da alta taxa de juros que sustentava os elevados lucros do sistema”. Por isso o mau humor do mercado e os baixos investimentos no país.

O “mercado”, em outras palavras, age de má-fé ou sofre de incompreensão por acreditar que a presidente Dilma é estatizante. Na cabeça da fonte no governo, Dilma é pragmática e pró-mercado. E o mais importante vem depois, na explicação: ela é pró-mercado porque escutou Delfim Netto, o Sarney da nossa economia, e se aproximou da indústria e de grandes empresários. O governo até selecionou um grupo de 30 grandes empresários para reuniões!

Em seguida, a fonte dá a entender que políticas cambiais são decididas com base nas opiniões desses grandes empresários: "O Banco Central entrou no mercado de câmbio, porque 30 empresários vieram aqui e pediram isso à presidente". Trata-se de algo da maior importância, se for verdade. Isso significa que a Fiesp e a Firjan “assumiram” a gestão do governo, fizeram lobby para mexer artificialmente no preço de nossa moeda em busca de vantagens pontuais e insustentáveis, e que o governo cedeu. Para o inferno com o preço livre! Isso é coisa de quem acredita no... mercado!

Outro exemplo de um “pedido” atendido diz respeito ao pacote de energia recente, que visa à redução das tarifas na marra, jogando a conta para as estatais. A Fiesp e a Firjan chegaram a gastar um bom dinheiro para fazer pressão na imprensa, com anúncios enormes aplaudindo a “presidenta” (quem usa esse termo já se entrega no ato como puxa-saco, até porque Dilma não deve ter sido uma boa “estudanta”). A Eletrobrás despencou e perdeu bilhões em valor de mercado.

Resumindo, Dilma é pró-mercado porque tem Delfim Netto como guru (aquele mesmo lá de trás, daquelas ideias heterodoxas fantásticas para combater a inflação), acata pedidos da Fiesp e Firjam com foco no curtíssimo prazo, e se reúne com 30 grandes empresários em uma sala para escutar suas demandas. E o mercado financeiro não gosta, considera a presidente intervencionista, porque não compreende as coisas ou deseja a era dos altos juros de volta.

Alguém precisa explicar para a turma do governo que simbiose entre governo e grandes empresas não é pró-mercado, e sim pró-negócios grandes. Isso tem até um nome feio lá fora: capitalismo de compadres. No limite, fascismo também atende, principalmente quando lembramos que as máfias sindicais participam da farra. Conceder privilégios para o Eike Batista e para a CUT não é ser pró-mercado nem aqui, nem na China!

Em outra reportagem do mesmo jornal, o modelo do governo Dilma fica mais claro: Tesouro banca 51% dos empréstimos do BNDES. Foram quase R$ 280 bilhões entre 2009 e setembro de 2012, sendo que quase dois terços foram para grandes empresas. O banco cobra taxas subsidiadas, muitas vezes abaixo da própria inflação. Um seleto grupelho de uma dezena de grandes empresários mama nas tetas estatais, e Dilma acha que é pró-mercado assim?

Mercado é livre concorrência, ausência de privilégios, poucas barreiras à entrada de novos competidores, direito de propriedade bem definido e segurança jurídica. As intervenções arbitrárias do governo Dilma não guardam semelhança alguma com esse modelo. O “desenvolvimentismo” nacionalista de Dilma, sob a influência de Delfim Netto, da Fiesp e do “grupo dos 30”, representa o oposto de um modelo pró-mercado.

Ao que tudo indica, o pessoal do Palácio do Planalto realmente não compreende isso. E fica depois perplexo porque a reação dos investidores não é aquela esperada. Insanidade, dizia Einstein, é fazer tudo igual novamente e esperar resultados diferentes.  

quarta-feira, setembro 26, 2012

Delfim Netto, o Sarney da economia


O Sarney da economia


Rodrigo Constantino

O economista Antonio Delfim Netto escreveu um artigo realmente abjeto hoje na Folha, uma defesa patética ao ex-presidente Lula. Para o velho “czar” da economia brasileira, a “mídia” virou um partido político com poder abusivo, tudo isso porque expõe os fatos sobre o julgamento do mensalão que, ainda para Delfim, envolve o PSDB também, em processo da mesma natureza (o que é mentira).

Depois, Delfim cita um parágrafo da Constituição com o claro intuito de alerta quanto a uma ameaça velada à liberdade de imprensa, lembrando que o dispositivo previne que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”.  

Refresca a memória desses que insistem em divulgar os dados sobre o julgamento, que o Congresso tem poder para instituir o Conselho de Comunicação Social, ou seja, censura velada. Para Delfim, esses dois dispositivos “suficientemente vagos” podem acabar criando “problemas muito delicados no futuro”. Eis a sutileza de um elefante em uma loja de porcelanas tentando fazer uma ameaça aos meios de comunicação.

Mas isso não é o pior! No final, Delfim acusa de maliciosa a tentativa da oposição de, no calor das eleições, tentar destruir, “com aleivosias genéricas, a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignorando o grande avanço social e econômico por ele produzido com a inserção social, o fortalecimento das instituições, a redução das desigualdades e a superação dos constrangimentos externos que sempre prejudicaram o nosso desenvolvimento”.

Como é que é?! Em que mundo esse senhor vive? Teria Delfim ficado gagá de vez, ou recebeu algum tipo de incentivo forte o suficiente para reproduzir tanta falsidade? Em primeiro lugar, mesmo que o legado econômico-social fosse positivo, isso em hipótese alguma seria salvo-conduto para crimes e corrupção. Os fins não justificam os meios. Até hoje há quem defenda a mais longa e cruel ditadura do continente com base nesse argumento de “avanço social”, que nem verdade é.

Mas para piorar, o que Lula fez foi apenas surfar a onda chinesa com uma sorte ímpar. O vento positivo veio de fora! E somente um louco (ou um vendido) diria que Lula ajudou a fortalecer nossas instituições. Ele quase as destruiu por completo! O aparelhamento foi enorme, e Lula jamais soube diferenciar partido de governo e este de estado.

Parece que Delfim deixou passar o momento de sua aposentadoria mesmo. Não bastasse culpar o chuchu pela inflação e tantas baboseiras econômicas defendidas há décadas, o nosso Sarney da economia não se emenda: continua um eterno bajulador dos poderosos, tudo em nome do “puder”. Que lixo!