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sexta-feira, dezembro 07, 2012

Razão e relinchos


Michel Laub, Folha de SP

Existe um livro de Schopenhauer chamado "Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão" (ed. Topbooks). Um dos riscos de escrever uma coluna de jornal hoje, ou de opinar em qualquer instância pública, é o oposto: ser ignorado, quando não perseguido e açoitado num pelourinho de grunhidos, relinchos e cacarejos, a despeito da mais cuidadosa argumentação.
Convencer alguém a mudar de ideia não é algo comum em nosso tempo. Basta uma semana nas redes sociais para perceber: militantes pró e contra aborto, descriminação da maconha, eutanásia, cotas, cabras e sobrenomes Guarani-Kaiowá, a maioria está ali para confirmar certezas prévias ou se irritar com quem diz o contrário.
Uma radicalização que também nasce do meio: para que os palpites sejam ouvidos entre tantas vozes, a tendência é que o adjetivo prevaleça sobre o termo exato, a ênfase sobre a ponderação, as regras generalizantes sobre as nuances que tiram a graça e o colorido das frases e slogans.
Num cenário assim, não é difícil adotar um tom nostálgico ou apocalíptico. Talvez se possa lamentar o fim de uma suposta era de ouro dos debates elevados. Prefiro seguir achando que a humanidade não mudou tanto: apenas passamos a ouvir, graças a uma tecnologia muito mais benéfica que perniciosa, que criou possibilidades infinitas de compartilhamento de informação, as conversas antes restritas a botecos. É um choque descobrir que amigos são tão ignorantes, levianos ou idiotas, claro, mas até isso tem seu lado positivo.
De certa forma, estamos diante de um problema das democracias maduras, que já superaram -ou deviam ter superado- questões graves referentes à liberdade de discurso. Ou seja, não estou falando da lei, que proíbe censura, calúnia, injúria e difamação. Nem da ética, que repele a desonestidade intelectual sem que seu autor precise ir para a cadeia. Estou falando é de etiqueta, a "pequena ética" que em sua face menos elitista propõe tolerar os modos alheios -um caminho para, quem sabe, prestar atenção ao que eles representam.
Isso porque linguagem e tom -que são maneiras de segurar os talheres num debate- nem sempre arruínam as ideias por terem aparência tosca. Dá um pouco de cansaço, por exemplo, quando bikers defendem suas propostas para o trânsito com tamanha agressividade. Ou quando a pecha de "fascista", misturada à teoria política da salmonela, aparece na discussão sobre bisnagas de plástico proibidas em feiras e lanchonetes. Ainda assim, tudo a favor de ciclovias e meios alternativos de transporte, e abaixo aqueles saquinhos tristes de ketchup e mostarda.
Num ensaio de 2005, um nome insuspeito quando o tema é a consequência das palavras -Salman Rushdie, que passou anos escondido por causa de um livro considerado blasfemo pelo Irã- escreveu: "Na Universidade de Cambridge, me ensinaram (...) que não se deve ser grosseiro com a pessoa com quem se discute, mas se pode ser extremamente grosseiro em relação a tudo que ela pensa". Parece uma citação descabida num texto sobre etiqueta. Na verdade, é a lembrança de uma regra ideal em debates: deveria importar o que é dito, e não quem diz. É o que impede um interlocutor de ser desqualificado por gênero, crença, classe ou etnia.
Forçando um pouco a boa-fé, por que não abstrair também o partido em que o interlocutor vota, a empresa jornalística onde trabalha, os amigos que tem? Ou suas deficiências retóricas, sua ingenuidade, sua queda pelo vitimismo, pelo sentimentalismo, pelo insulto? A distinção total entre texto e autor é utópica, e o conteúdo de uma ideia pode ser indistinguível de sua forma, e às vezes tudo se resume mesmo a interesse ou tolice, mas o esforço para enxergar um pouco além disso é sempre virtuoso. Pensar com liberdade, o melhor atalho para identificar o lado certo numa disputa, passa por ouvir e aprender com vozes dissonantes. Mesmo que o timbre delas seja mais frequente em zoológicos, penitenciárias e hospícios.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Marketing francês

LUIZ FELIPE PONDÉ, Folha de SP

Nada há na Revolução Francesa que remotamente tenha a ver com liberdade, igualdade e fraternidade

A Revolução Francesa (1789-1799) é um fenômeno de marketing. Foi importante para medirmos a febre de um país sob um rei incompetente e não para nos ensinar a vida cotidiana em democracia.
Nada há na Revolução Francesa que tenha a ver com liberdade, igualdade e fraternidade. Essas palavras são apenas um slogan que faz inveja a qualquer redator publicitário.
Esse slogan, aliado ao que os revolucionários fizeram (mataram, roubaram, violentaram, enfim, ideologizaram a violência em grande escala), é uma piada.
É uma aula de marketing político: todo mundo cita a Revolução Francesa como ícone da liberdade.
O marketing da revolução ficou a cargo da filosofia. Primeiro caso na história de um fato claramente ideologizado para vermos nele outra coisa. Os "philosophes" do Iluminismo contribuíram muito para essa matriz do marketing político de todos os tempos, a Revolução Francesa.
Começa com a criação da ideia de que existe uma coisa chamada "povo que ama a liberdade" para além da violência que ele representa quando desagradado.
"Povo" é uma das palavras mais usadas na retórica democrática e mais sem sentido preciso.
A única precisão é quando há violência popular ou quando muitos morrem de fome por conta da velha miséria moral humana.
As "cheerleaders" da primavera árabe têm orgasmos nas ruas de Damasco, Trípoli, Cairo e Tunis. Já imaginam os árabes lendo Rousseau, Marx e Foucault (que, de início, "adotou" a revolução iraniana).
Dançam para esses movimentos como se ali não estivessem em jogo divisões religiosas atávicas do próprio islamismo, quase total ausência de instituições políticas, tribalismo atroz, grupos religiosos fanáticos muito próximos do crime organizado, para não falar do óbvio terrorismo.
De vez em quando, o "povo" mata, lincha, violenta e destrói cidades, a casa dos outros e o diabo a quatro.
Mas como (e isso é um dado essencial do efeito do marketing da Revolução Francesa) pensamos que o mundo começou em 1789, achamos que o "povo" nunca destruiu tudo o que viu pela frente antes da queda da Bastilha.
A historiadora americana Gertrude Himmelfarb, em seu livro essencial "Caminhos para a Modernidade", publicado no Brasil pela É Realizações, chama o iluminismo francês de "ideologia da razão", com toda razão.
Os "philosophes" criaram um fantasma chamado "la raison", que seria a deusa dos revolucionários.
Se no plano bruto "la raison" justificaria assassinatos nos tribunais populares (que deixam as "cheerleaders" dos movimentos populares até hoje em orgasmo), no plano sofisticado do pensamento, seria a única capaz de entender e organizar o mundo desde então.
Esse fantasma da "la raison" nada tem a ver com a necessária faculdade humana de pensar para além dos desejos e medos humanos, que é muito dolorosa e rara.
Ela é uma deusa mítica que ficaria no lugar do Deus morto, dando a última palavra para tudo.
Foram muito mais os britânicos e americanos que nos ensinaram a vida cotidiana em democracia. Mas o iluminismo anglo-saxão não foi marqueteiro.
Nas palavras de Himmelfarb, os britânicos, com sua "sociologia das virtudes", buscavam compreender como as pessoas e as sociedades geram virtudes e vícios. Entre elas, a benevolência e o hábito de respeito à lei comum.
Os filósofos americanos criaram uma "política da liberdade", nas palavras de Himmelfarb.
Eles associavam a qualidade de pensadores a de homens políticos práticos que investigavam a liberdade, não como uma ideia abstrata, mas como algo a ser preservado pela lei da tentativa contínua do homem em destruí-la em nome de qualquer delírio.
Daí as instituições americanas serem as mais sólidas, até hoje, em termos de defesa dos indivíduos contra os delírios do governo e do Estado.
Os britânicos e os americanos nos ensinaram a liberdade que conhecemos e que dá a você o direito de dizer e pensar o que quiser nos limites da lei.
É hora de deixar nossos alunos lerem mais Locke, Hume, Burke, Tocqueville, Stuart Mill, Oakeshott, Berlin, os federalistas e antifederalistas, Rawls, Strauss e não apenas Rousseau, Marx e suas crias.

terça-feira, agosto 30, 2011

A deusa da modernidade


Rodrigo Constantino, para a revista VOTO

Muitos são aqueles que depositam uma fé quase absoluta no poder da ciência. De fato, o avanço obtido nos últimos séculos graças à ciência é realmente espantoso. Para ficar num único exemplo, a expectativa média de vida nos países mais desenvolvidos dobrou em tempo relativamente curto, ultrapassando hoje a marca de 80 anos. Pode-se falar também das inúmeras doenças que antes matavam e atualmente possuem tratamento e cura. Mas será que isso tudo produziu um otimismo exacerbado com o poder da ciência?

Acredito que sim. E vou além: penso que um dos sintomas da modernidade é justamente esta esperança religiosa na onipotência científica. Com a “morte” de Deus decretada por Nietzsche, muitos órfãos foram buscar na ciência uma nova deusa, capaz de nos oferecer algo próximo de uma vida “eterna” e também feliz. Constatar isso não é o mesmo que atacar a ciência, mas sim o cientificismo, ou seja, o mal uso da ciência. Quando se trata das ciências humanas, esta postura que eleva a ciência ao patamar divino é extremamente perigosa.

Quem talvez melhor antecipou esta tendência moderna foi Aldous Huxley, com seu “Admirável Mundo Novo”, escrito em 1932. O livro faz um importante alerta contra a esperança desmesurada na ciência para organizar sociedades e garantir a felicidade dos homens. Na distopia de Huxley, todos seriam condicionados desde cedo, acostumando-se a se sentir feliz com as imposições do Estado. Ao contrário de George Orwell em “1984”, não nos tornaríamos escravos pela vigilância ininterrupta do Grande Irmão, mas sim pela nossa própria fraqueza: a busca incondicional da “felicidade”.

A conversa entre o poderoso Administrador e o Selvagem, aquele que vivia à margem desta nova sociedade, reflete a essência da coisa quando o primeiro diz: “O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma. Que o senhor atira pela janela em nome da liberdade, Sr. Selvagem. Da liberdade!”

Mas se não é esta liberdade, esta consciência da morte, esta imprevisibilidade da vida, estas aflições em família, estas paixões todas que nos fazem justamente humanos! O que a sociedade “científica” retratada por Huxley produz são seres autômatos, robotizados, que apenas aparentam felicidade. Uma felicidade bovina, conquistada, quando necessário, à base de soma, a “droga da felicidade”. Reclamar o direito de sofrer, de viver as angústias da vida, isso era a postura absurda ali. Será que a sociedade atual, voraz consumidora de Prozac sob o mínimo sinal de sofrimento, não caminha nesta mesma direção? Quem suporta a angústia do outro atualmente?

O mundo moderno parece tão obcecado com esta “felicidade” a qualquer custo que um país, o Butão, chegou a criar o indicador de Felicidade Interna Bruta, em substituição ao Produto Interno Bruto. O renomado economista Jeffrey Sachs tenta exportar a idéia para o mundo todo. Não importa que felicidade seja algo totalmente subjetivo. Não importa que nem tudo na vida seja a felicidade, ou pior, a aparência de felicidade. O objetivo é criar uma legião de “happy people”, que acha graça de tudo e foge das angústias como o diabo foge da cruz. Quando bate algum sofrimento, não tem problema: temos o soma, o Prozac, os programas de televisão, o Ipad. Quem liga para a concentração de poder no governo quando se pode assistir em paz o futebol ou o carnaval?

É proibido sofrer. Este parece ser o lema da atualidade. Adicionaria mais um: é proibido morrer! A ciência vai nos trazer a sonhada imortalidade. Viveremos 150 anos em breve, ou mais! Esquece-se de perguntar apenas uma coisa: qual vida? A paranóia com a saúde perfeita é outro claro sintoma da modernidade. A obsessão com os alimentos, a cruzada moral anti-tabagista, tudo isso aponta para uma sociedade doente. Não do corpo, mas da mente. Não vamos esquecer que os nazistas também compartilhavam dessa meta da “higiene total”.

Recentemente, assisti a um ótimo filme, “Sem Limites”, com Bradley Cooper e Robert De Niro. Trata-se da história de uma nova droga que aumenta exponencialmente a inteligência e a concentração do usuário. Uma espécie de metanfetamina elevada a enésima potência. Uma vez mais, é a ciência oferecendo o sonho da onipotência humana. Hoje em dia, loucos são os que desconfiam deste poder divino da ciência. Tal qual o alienista de Machado de Assis, aguardamos ansiosos o sábio Simão Bacamarte para nos curar da loucura. Qualquer sinal de desequilíbrio emocional, detectado pela ciência e pela Razão, será suficiente para ser trancafiado na Casa Verde. Como no livro, o mais louco de todos acaba sendo aquele que pensa ser o mais racional e científico.