João Ubaldo RIbeiro, O GLOBO
“Totalitarismo”, que já teve sua grande voga, é uma palavra hoje pouco usada. Levado pela experiência, fico com receio de que o leitor mais jovem não saiba a que me estou referindo e então dou uma rápida explicação, só para o gasto. Há totalitarismo quando uma organização, geralmente um Estado (“Estado”, no caso, são todos os países politicamente organizados), mas pode ser qualquer outra, como um partido político, pretende assumir controle sobre toda a vida do cidadão, não somente quanto a ideias e sentimentos, mas quanto a comportamento e observação de valores. O totalitarismo já mostrou sua carantonha algumas vezes na História e talvez se tenha pensado que, com a derrocada do nazifascismo e das ditaduras socialistas, ele tenha ido embora.
Mas não foi e está botando as manguinhas de fora cada vez mais. Cada vez mais se tenta regular a conduta do cidadão, mesmo em áreas imemorialmente reservadas a arbítrio e atos da sua exclusiva alçada. E é “científico” porque costuma apoiar-se nas fugazes verdades supostamente inatacáveis da ciência, que, como sabemos, mudam praticamente todo dia. Subitamente, há um afã por proteger-nos de nós mesmos e, muito pior, impor-nos “verdades” científicas que na realidade estão no terreno dos valores e permitem a convicção em outras “verdades”, por motivos culturais, psíquicos, religiosos ou o que lá seja. Isso se deu, por exemplo, com a lei da palmada, que, aliás, parece que não colou, considerada descabida por muitos pais.
O fumo é um bom caso. Não estou a soldo da execrada indústria do tabaco, sou a favor de que não se fume (contanto que se faça esta escolha livremente), mas ninguém que tenha um pensamento consequente pode aceitar o que já se começa a fazer (ainda mais que está na moda nos Estados Unidos e o nosso ideal é ser americano). É possível agora – e parece que alguns poucos já fizeram isso – que um condomínio residencial, por decisão de maioria simples, resolva abolir o fumo em suas dependências e aplicar pesadas multas aos moradores que fumarem – atenção -, mesmo trancados em seus próprios apartamentos ou casas. Fala-se na instalação, que já ocorre nos Estados Unidos, de detectores de fumaça nos apartamentos. Não sei o que acontecerá com quem queime incenso em casa, mas provavelmente acionará uma sirene e convocará uma brigada do Comando de Caça ao Tabagista. Cada casa vai virar banheiro de avião e qualquer fumacinha que seu dono fizer será denunciada e implacavelmente castigada.
Que é isso? Aonde chegamos? O infeliz compra uma casa, faz dela seu lar supostamente inviolável e não tem liberdade em seu próprio território, sem prejudicar ninguém, a não ser ele mesmo? O condômino que for voto vencido vai ter de parar de fumar, pitar ao relento ou vender o apartamento e se mudar? Vive-se em cidades poluídas como Rio e São Paulo, mas o cigarro do vizinho, trancado em seu escritório, é o que prejudica o condomínio? E se fumaça e cheiro começarem a ultrapassar os limites do cigarro e do charuto? Deverão em breve manifestar-se os que se sentem incomodados com cheiro de carne assada – e assim poderão ser banidos os churrascos na cobertura. Talvez várias plantas também venham a ser proscritas, pois há muitos alérgicos a pólen que padecem com flores. Caprichando, dá para proibir tudo.
Já previ aqui, e continuo acreditando que vai acontecer, que, no futuro, para proteger nossa saúde, seremos obrigados a seguir restrições alimentares baixadas pelo Ministério da Saúde e, em certos casos, o supermercado só nos poderá vender alimentos de uma lista carimbada por uma nutricionista oficial. Como essas coisas mudam a cada instante, todo mês sairia uma lista revista do que é cientificamente aconselhável comer e, portanto, devia ser obrigatório e, mais dia menos dia, pelo visto, será.
Se haverá detectores de fumaça, não sobra muita razão para não se instalarem câmeras de tevê, a fim de monitorar pelo menos certos casos, como na área da educação. Os pais estabeleceriam os horários em que ajudariam os filhos com os deveres de casa e aí um funcionário do Ministério da Educação acompanharia os acontecimentos em tempo real, para ver se o pai se interessa mesmo pela educação do filho, se segue a metodologia traçada pelo Ministério e se não faz observações politicamente incorretas, levando-se também em conta que linguagem chula está fora de cogitação. E, na hora em que os pais dessem um livro para os filhos lerem, a leitura só poderia ser realizada depois que os pais ouvissem do governo a contextualização do livro e como ele deverá ser corretamente entendido e explicado.
Talvez não seja simples atuar em outras áreas, mais delicadas, como a da conduta sexual do cidadão (sim, claro, e da cidadã, da cidadã também; eu esqueço que agora o certo é escrever assim). Sabe-se que, dentro de uma gama razoável de ação, muitas práticas sexuais pouco ortodoxas são aceitas, desde que mutuamente consentidas. Mas o problema está aí. Serão mesmo mutuamente consentidas, ou um dos cônjuges é na verdade violentado? Para ter certeza, só monitorando tudo com câmeras, o que poderá ser feito a pedido de qualquer um dos cônjuges, ou causado por uma denúncia feita junto ao Ministério Público. Aliás, deverá ser possível que a d. Marta, do sexto andar, suspeite da trilha sonora que, certas horas da noite, se esgueira da alcova de seus vizinhos do sétimo e recorra ao Disque Denúncia para que a escabrosa situação seja monitorada. Sei que muitos de vocês talvez pensem que deliro. Mas não deliro, já está acontecendo e a tecnologia facilita o controle sobre qualquer indivíduo. É daqui para pior e – nunca se sabe – dentro em breve estará em graves apuros quem der um punzinho na sala.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
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domingo, outubro 02, 2011
terça-feira, agosto 30, 2011
A deusa da modernidade
Rodrigo Constantino, para a revista VOTO
Muitos são aqueles que depositam uma fé quase absoluta no poder da ciência. De fato, o avanço obtido nos últimos séculos graças à ciência é realmente espantoso. Para ficar num único exemplo, a expectativa média de vida nos países mais desenvolvidos dobrou em tempo relativamente curto, ultrapassando hoje a marca de 80 anos. Pode-se falar também das inúmeras doenças que antes matavam e atualmente possuem tratamento e cura. Mas será que isso tudo produziu um otimismo exacerbado com o poder da ciência?
Acredito que sim. E vou além: penso que um dos sintomas da modernidade é justamente esta esperança religiosa na onipotência científica. Com a “morte” de Deus decretada por Nietzsche, muitos órfãos foram buscar na ciência uma nova deusa, capaz de nos oferecer algo próximo de uma vida “eterna” e também feliz. Constatar isso não é o mesmo que atacar a ciência, mas sim o cientificismo, ou seja, o mal uso da ciência. Quando se trata das ciências humanas, esta postura que eleva a ciência ao patamar divino é extremamente perigosa.
Quem talvez melhor antecipou esta tendência moderna foi Aldous Huxley, com seu “Admirável Mundo Novo”, escrito em 1932. O livro faz um importante alerta contra a esperança desmesurada na ciência para organizar sociedades e garantir a felicidade dos homens. Na distopia de Huxley, todos seriam condicionados desde cedo, acostumando-se a se sentir feliz com as imposições do Estado. Ao contrário de George Orwell em “1984”, não nos tornaríamos escravos pela vigilância ininterrupta do Grande Irmão, mas sim pela nossa própria fraqueza: a busca incondicional da “felicidade”.
A conversa entre o poderoso Administrador e o Selvagem, aquele que vivia à margem desta nova sociedade, reflete a essência da coisa quando o primeiro diz: “O mundo agora é estável. As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes, por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma. Que o senhor atira pela janela em nome da liberdade, Sr. Selvagem. Da liberdade!”
Mas se não é esta liberdade, esta consciência da morte, esta imprevisibilidade da vida, estas aflições em família, estas paixões todas que nos fazem justamente humanos! O que a sociedade “científica” retratada por Huxley produz são seres autômatos, robotizados, que apenas aparentam felicidade. Uma felicidade bovina, conquistada, quando necessário, à base de soma, a “droga da felicidade”. Reclamar o direito de sofrer, de viver as angústias da vida, isso era a postura absurda ali. Será que a sociedade atual, voraz consumidora de Prozac sob o mínimo sinal de sofrimento, não caminha nesta mesma direção? Quem suporta a angústia do outro atualmente?
O mundo moderno parece tão obcecado com esta “felicidade” a qualquer custo que um país, o Butão, chegou a criar o indicador de Felicidade Interna Bruta, em substituição ao Produto Interno Bruto. O renomado economista Jeffrey Sachs tenta exportar a idéia para o mundo todo. Não importa que felicidade seja algo totalmente subjetivo. Não importa que nem tudo na vida seja a felicidade, ou pior, a aparência de felicidade. O objetivo é criar uma legião de “happy people”, que acha graça de tudo e foge das angústias como o diabo foge da cruz. Quando bate algum sofrimento, não tem problema: temos o soma, o Prozac, os programas de televisão, o Ipad. Quem liga para a concentração de poder no governo quando se pode assistir em paz o futebol ou o carnaval?
É proibido sofrer. Este parece ser o lema da atualidade. Adicionaria mais um: é proibido morrer! A ciência vai nos trazer a sonhada imortalidade. Viveremos 150 anos em breve, ou mais! Esquece-se de perguntar apenas uma coisa: qual vida? A paranóia com a saúde perfeita é outro claro sintoma da modernidade. A obsessão com os alimentos, a cruzada moral anti-tabagista, tudo isso aponta para uma sociedade doente. Não do corpo, mas da mente. Não vamos esquecer que os nazistas também compartilhavam dessa meta da “higiene total”.
Recentemente, assisti a um ótimo filme, “Sem Limites”, com Bradley Cooper e Robert De Niro. Trata-se da história de uma nova droga que aumenta exponencialmente a inteligência e a concentração do usuário. Uma espécie de metanfetamina elevada a enésima potência. Uma vez mais, é a ciência oferecendo o sonho da onipotência humana. Hoje em dia, loucos são os que desconfiam deste poder divino da ciência. Tal qual o alienista de Machado de Assis, aguardamos ansiosos o sábio Simão Bacamarte para nos curar da loucura. Qualquer sinal de desequilíbrio emocional, detectado pela ciência e pela Razão, será suficiente para ser trancafiado na Casa Verde. Como no livro, o mais louco de todos acaba sendo aquele que pensa ser o mais racional e científico.
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