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quinta-feira, julho 18, 2013

Leblon sitiado

Fonte: O GLOBO

Rodrigo Constantino

As cenas pareciam em Bagdá. Mas eram no Leblon, o bairro com o metro quadrado mais caro do país, palco de várias novelas da TV Globo, conhecido por sua boemia, turistas circulando, tranqüilidade. Nesta quarta-feira, tudo isso cedeu lugar para imagens de caos, baderna, vandalismo e confusão. Diz a reportagem do GLOBO:

Pelo menos cinco agências bancárias, bancas de jornal, pontos de ônibus, vitrines e alguns painéis elétricos foram vandalizados durante a confusão. Uma loja de roupas também foi saqueada na Ataulfo de Paiva. Lojas também foram saqueadas em Ipanema. O cheiro de gás ficou muito forte na região. Bombeiros também atuaram no combate às chamas.

O clima nesses bairros da Zona Sul foi de apreensão por parte de moradores e clientes de bares e restaurantes. Vários estabelecimentos comerciais fecharam suas portas e os frequentadores saíram às pressas.

Segundo a Polícia Militar, sete PMs ficaram feridos com pedradas. Uma quinta policial se feriu ao ser atingida nas costas por uma bomba de fabricação caseira. O número de manifestantes feridos não foi confirmado.


A revolta popular, em um país como o Brasil, é altamente compreensível. O que não é compreensível ou tolerável é a forma de expressá-la. Tenho sido um crítico desse viés de anomia nas manifestações que tomaram as ruas do Brasil desde o começo, fazendo alertas justamente sobre esses riscos. Parece que toda manifestação "pacífica" termina em atos como estes, de puro vandalismo e criminalidade. O direito de ir e vir dos demais fica prejudicado, e propriedades são depredadas, saqueadas. 

O pessoal precisa lembrar que ainda vivemos em uma democracia, ainda que um pouco capenga, e preservá-la é fundamental, pois a alternativa é muito pior. Sérgio Cabral incomoda, sua reação às informações de que abusa do helicóptero do estado revolta qualquer um, quando ele afirma que não faz nenhuma "estripulia" ou que faz aquilo que todos  fazem (parece até o Lula falando). Mas que ele seja punido nas urnas!

Foi o que aconteceu com César Maia, após a Cidade "fantasma" da Música. Tomar o espaço público, criar esse clima de guerra, e prejudicar a vida de várias pessoas que não têm nada com isso é absurdo, injustificável. Ver o Leblon sitiado é algo que preocupa. Se o Leblon está assim, então o Brasil é o Egito? Não se governa no grito, na violência, com bombas caseiras ou coquetéis Molotov. Isso não combina com democracia.

Por fim, não custa lembrar que Sérgio Cabral merece punição nas urnas, mas é sempre bom ter em mente quem pode vir em seu lugar. Algum aventureiro com discurso populista e messiânico, de um partido de extrema-esquerda? Algum "evangélico" safado e oportunista que manipula as massas das periferias? Todo cuidado é pouco. Esse jogo não é para amadores. 

E quem aplaude "manifestações" como a de ontem, porque sente raiva do governador e gosta de vê-lo acuado, deveria pensar duas vezes antes de celebrar, pois os fins não justificam os meios. A situação saiu de controle. Quem defende a democracia deve demandar a ação policial para restabelecer a ordem e retomar o espaço público desses criminosos disfarçados de protestantes. 

quinta-feira, julho 11, 2013

O olho do dono e os helicópteros de Cabral

Fonte: O GLOBO

Rodrigo Constantino

Deu no GLOBO: A frota exclusiva de sete helicópteros para atender o governador Sérgio Cabral, seu vice, Luiz Fernando Pezão, além de secretários e presidentes de autarquias do estado, vale hoje R$ 49,8 milhões. A estimativa é feita com base no valor do seguro de cada uma das aeronaves usadas pelo primeiro escalão. Essa frota é quase do mesmo porte da utilizada por bombeiros (dois helicópteros), PM (cinco), Polícia Civil (dois) e Secretaria de Saúde (um).


Dos sete aparelhos do primeiro escalão, três foram comprados no governo Cabral. O mais caro é o Agusta, que está estimado em R$ 19,6 milhões e foi adquirido em 2012. Outro, EC135, foi comprado em 2009 e vale R$ 11,9 milhões. Nesta quarta-feira, o governo decidiu repassar aos bombeiros uma das suas aeronaves, modelo Esquilo (R$ 1,2 milhão).

Além de Cabral, que usa os helicópteros para levar a família e babás para Mangaratiba, onde tem casa, como revelou a revista “Veja”, o vice-governador e o presidente da Alerj, deputado Paulo Melo (PMDB), usam as aeronaves para chegar às suas casas. Pezão costuma ir para Piraí de helicóptero, enquanto Melo já utilizou um para chegar a Saquarema. Em nota, a assessoria de Pezão diz que o uso da aeronave é prerrogativa do cargo, pois o vice “vem de uma cidade do interior”.


[...]

Comento: Diz o velho ditado que o olho do dono engorda o boi. O que isso quer dizer é que somente o escrutínio de quem paga a conta, de quem está com o seu na reta, é que permite o bom uso dos recursos. Quando lidamos com o dinheiro da "viúva", há uma tendência sempre maior ao relaxamento, ao uso indevido para fins pessoais. Como nas quatro formas de gasto descritas por Milton Friedman, quando usamos o dinheiro dos outros conosco, nos preocupados com o destino dele, e quase nunca com seu custo.

Claro que fatores culturais ou legais exercem influência também. O mesmo GLOBO mostra, logo abaixo da matéria sobre as "estripulias" de Cabral, que deputados e ministros suíços andam de ônibus ou trem. Helicóptero, só quando não tiver outro jeito e passar por um processo prévio de autorização. Cultura faz diferença. E punição caso for pego abusando dos recursos públicos também.

Esse caso nos remete ao livro Barbarians at the Gate, de Bryan Burrough e John Heylar, que conta o incrível caso de debacle da RJR Nabisco, empresa que chegou a ficar entre as 20 maiores dos Estados Unidos. Enquanto corporação, com seu capital pulverizado e sem um dono específico, a empresa acabou se tornando um instrumento de vida nababesca para seus executivos. Li o livro há muitos anos, mas lembro de trechos impressionantes, justamente sobre a gigantesca frota de aeronaves da empresa.

Ela tinha um hangar que intimidava o da Coca Cola, bem ao lado. Fora isso, tinha uma sede altamente suntuosa, repleta de luxo importado. O risco de principal é comum em corporações. Os acionistas, milhões espalhados sem concentração, acabam em conflito de interesses com os executivos, que têm interesse em expandir seus ganhos e mordomias. 

Mas no setor privado, mais cedo ou mais tarde, isso tem um custo elevado. Os acionistas sentem no bolso, e acusam o golpe. Oliver Stone, o comunista que idolatra Fidel Castro, retratou em seu clássico filme Wall Street a figura pejorativa do especulador que pretende lucrar com o corte dessa ineficiência nas empresas. Era Gordon Gekko, na brilhante atuação de Michael Douglas, ridicularizando uma empresa que gastava milhares de dólares para fazer memorandos de um lado a outro. Seu principal discurso ficou famoso ao afirmar que "ganância é bom". 

Sim, é a ganância, o desejo de lucrar, que faz com que acionistas não tolerem abusos com os seus recursos! Mas o problema aumenta quando falamos de governos, pois eles não quebram: eles quebram o povo! E nós, os "acionistas" do estado, não temos o devido controle sobre seus gastos. Podemos mitigar o problema exigindo maior transparência, contando com o fundamental papel da imprensa (por isso os autoritários, como os petistas, querem sempre controlar a imprensa), e punindo quem for pego abusando. 

Mas a falha é estrutural, vem do próprio mecanismo de incentivos. Por isso mesmo precisamos reduzir ao máximo os recursos que transitam pelo setor público. O governo deve ficar restrito às suas funções básicas. Quanto menos impostos arrecadar, menor a quantidade de tentações que aparecem.

Por fim, vamos lembrar que todos esses merecidos ataques a Sérgio Cabral podem ajudar a candidatura de alguém pior em todos os aspectos, que é o petista Lindbergh Farias, ele também acusado de falcatruas e ligado ao PT, o mais corrupto de todos, líder do mensalão. Alguém acha que "Lindinho" abriria mão do luxo todo que o estado fornece com o nosso dinheiro?

segunda-feira, julho 08, 2013

De Cameron para Cabral

Rodrigo Constantino

O Primeiro-Ministro britânico, David Cameron, costuma pegar o metrô para ir de casa para o trabalho. Quando não há lugar disponível, resta ao poderoso governante ficar de pé mesmo, lendo seu jornal. Isso em um país rico. 


Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a "cidade maravilhosa", mas cheia de favelas, o governador Sérgio Cabral utiliza o helicóptero do governo para passar o fim de semana em sua casa de praia em Mangaratiba, levando a família junto (isso inclui o cachorrinho). 


Será que o governador do Rio, Sérgio Cabral, poderia conversar um pouco com David Cameron para compreender a importância dos pequenos gestos? Quando será que teremos no Brasil um sentimento mais republicano, de que os governantes são nossos empregados, e não o contrário? 

O abuso de poder deve ser coibido a todo custo. E nada melhor para isso do que reduzir esse poder, descentralizá-lo, criar mecanismos eficientes de pesos e contrapesos e, finalmente, adotar severas punições para quem for pego, ainda assim, abusando deste poder. Decência Já!

quinta-feira, maio 10, 2012

A gangue do guardanapo

Contardo Calligaris, Folha de SP

A FOTOGRAFIA da semana, para mim, é a de Fernando Cavendish (dono da Delta) e Sérgio Cabral (governador do Rio), com outros políticos e empresários, alegres além da conta, todos arvorando um guardanapo branco amarrado na cabeça -isso, num restaurante de Paris (o do hotel Ritz, ao que parece), em 2009.

A cena me lembra um caso recente. Um casal de brasileiros frequenta habitualmente um restaurante de Manhattan, porque o lugar é simpático e porque o maître também é brasileiro. Uma noite, no dito restaurante, uma mesa acomoda um grupo especialmente barulhento de mais oito brasileiros: os homens competem clamando seus pedidos de vinhos caros, e as mulheres competem gritando as compras do dia.

O maître recebe o casal de "habitués" pedindo em voz baixa: "Por favor, não vamos falar português, prefiro que eles não saibam que somos brasileiros".

É difícil assumir a brasilidade quando, na boca dos emergentes, o "brado retumbante" é o barulho de quem ambiciona se apresentar ao mundo pelo chacoalho do trocado que tem no bolso.

A mobilidade social brasileira é rapidíssima: em uma geração, criam-se fortunas (com ou sem a cumplicidade do poder público corrupto). Nesse ritmo acelerado de ascensão social, os novos ricos, em regra, adotam o luxo como puro símbolo de status, sem o tempo de elaborar uma cultura que lhes permita apreciá-lo. Com isso, escreveu justamente Elio Gaspari (Folha de 2/5), tentando ser chiques, eles são bregas: sua ostentação revela a falta de um gosto próprio e a vontade de ocultar sua origem recente.

Os novos ricos se envergonham de seu passado mais humilde e tentam ocultá-lo num agito fanfarrão que, justamente, revela aquela procedência que eles gostariam de espantar. Enquanto isso, os outros, como o maître de Manhattan, envergonham-se dos privilegiados de seu país.

Mas tudo isso não nos diz ao que vêm, na festa de Cavendish e companhia, os lenços na cabeça.

Para quem não viu a foto: são guardanapos dobrados em triângulos, cuja base é amarrada ao redor da testa, de modo que o pano recaia sobre os cabelos e a ponta seja eventualmente segurada na nuca. Ou seja, são bandanas.

Pioneiros, vaqueiros e bandeirantes a caminho do Oeste usavam uma bandana, que, ao redor do pescoço, servia para proteger a boca da poeira e dos insetos ou, amarrada de baixo do chapéu, estancava o suor. Antes disso, o mesmo lenço segurava o cabelo dos piratas. Depois disso, nos anos 1960 e 1970, ele segurava o dos motoqueiros rebeldes da contracultura.

A bandana é, tradicionalmente, um apetrecho de quem se engaja (real ou metaforicamente) no vento e na poeira dos caminhos menos percorridos. O ideal do cowboy, do "easy-rider", do aventureiro, do pirata, do surfista errante ou do roqueiro pode se encarnar em usuários mais sedentários, mas não menos ousados -à condição, claro, que eles precisem segurar o cabelo (é o caso, por exemplo, dos chefes de cozinha de hoje). Mas como esse mesmo ideal se encarnaria nos clientes brasileiros do Ritz de Paris?

Talvez a bandana da foto de Cavendish, Cabral etc. seja apenas uma versão da gravata na testa daqueles primos bêbados, que, no fim de uma festa de casamento, escolhem mostrar a todos os outros ("inibidos", "caretas" e "obviamente" invejosos) que eles, sim, sabem se divertir e são os verdadeiros heróis do hedonismo -os que não recuam diante do prazer. Isso, claro, até eles vomitarem num canto (conselho: nunca fique num casamento depois da saída dos noivos).

Ou talvez Cavendish, Cabral etc. achem que eles são mesmo os novos "easy-riders", cowboys ou bandeirantes. Mas qual é, então, sua aventura? Em que jornada eles precisam segurar o cabelo para correr livres no vento?

O guardanapo branco do Ritz é uma curiosa bandana: ele diz que a aventura desses pretensos aventureiros é apenas a de esbanjar seu privilégio (mais ou menos legal), sonhando em ser o objeto da inveja de todos. Em síntese: o guardanapo do Ritz é a bandana perfeita para quem quer surfar nas costas dos bananas (que seríamos nós).

Elio Gaspari prometeu uma viagem a Dubai para quem explicasse as bandanas do grupo de Cavendish etc. Se ajudei, renuncio desde já à viagem oferecida. Receio encontrar, em Dubai, o mesmo pessoal do Ritz ou seus amigos. Prefiro que Gaspari me convide para um jantar qualquer. Aliás, nem precisa me convidar. Mas o jantar é sem bandanas, ok?