João Luiz Mauad, O GLOBO
O movimento Occupy Wall Street é um sucesso — nem tanto de público, eu diria, mas certamente de mídia. Como qualquer iniciativa de esquerda, sua principal queixa é a desigualdade de renda produzida pelo malvado capitalismo. Dizendo-se representantes dos 99%, destilam todo seu ódio contra o 1% mais rico da população, segundo eles os responsáveis exclusivos e principais beneficiários da crise econômica que assola o mundo há três anos.
Suas diatribes, no entanto, carregam um enorme paradoxo, pois os maiores perdedores, em qualquer crise econômica, são justamente os mais ricos. De acordo com o Departamento do Tesouro americano, a renda bruta dos Top 1% era equivalente a 22,83% do total, em 2007. Depois do estouro da bolha, em 2009, caiu para 16,93%. Logo, pela ótica da desigualdade, não há como maldizer as crises, pois elas derrubam a renda dos mais ricos numa proporção muito maior que a dos demais.
Contradições à parte, é sintomático de uma grave doença da alma que essa gente não esteja propriamente protestando contra a pobreza, mas efetivamente contra a riqueza. É por essas e outras que, quando alguém lamenta o famigerado abismo entre ricos e pobres, pergunto se estaria disposto a admitir que os milionários se tornassem ainda mais ricos, desde que isso significasse um aumento significativo da renda dos mais pobres. Quando a resposta é “não”, ela equivale à admissão de que a verdadeira preocupação do meu interlocutor é com o que os mais ricos possuem, e não realmente com o que falta aos miseráveis. Se, por outro lado, a resposta for “sim”, restará demonstrado que a desigualdade é irrelevante.
Outro ponto importante a destacar é que riqueza e bem-estar são coisas diferentes. Nos EUA, 1% população é dona de 38% da riqueza (dados de 2001). Porém, tal distribuição mudaria drasticamente se os bens de capital fossem excluídos da equação, pois 95% da riqueza do 1% mais rico referem-se à propriedade desses bens. Não por acaso, os níveis de consumo e bem-estar das famílias americanas são muito menos desiguais do que a distribuição da riqueza.
O empresário Eike Batista, por exemplo, é milhões de vezes mais abastado do que um cidadão de classe média, como eu. No entanto, provavelmente nós dois ingerimos quantidades equivalentes de calorias diariamente. Além disso, sua comida não deve ser assim tão mais saborosa que a minha. Suas muitas casas devem ser extremamente confortáveis, mas duvido que sejam milhões de vezes mais aconchegantes que a minha. Será que seus filhos são muito mais bem educados que os meus? Não creio. Também é improvável que a sua saúde seja milhões de vezes melhor que a minha.
Desigualdade só é algo injusto quando o status de alguém é medido não pelo que ele tem, mas pelo que os outros têm. Infelizmente, esse é o padrão dos igualitaristas, que sonham com uma inalcançável uniformidade, independentemente da capacidade de cada um de gerar bens e serviços de valor para os demais. É o padrão da inveja, que denota um grande rancor pelo simples motivo de que alguns têm mais, de qualquer coisa, do que a maioria.
Ademais, a desigualdade é um efeito. Sua causa é a diferença de produtividade. Não há uma cesta fixa, preexistente, de riquezas que, de alguma forma injusta, escorrem para os bolsos dos nababos, em detrimento dos pobres. Numa economia livre, a riqueza é constantemente criada, multiplicada e trocada de forma voluntária.
Graças a esse fenômeno, nos últimos 200 anos houve um aumento exponencial do padrão de bem-estar no mundo e, consequentemente, uma redução espetacular dos níveis de pobreza. Só para se ter uma ideia desse milagre, 85% da população mundial viviam com menos de um dólar por dia (a preços correntes), em 1820, enquanto hoje são 20%. Será que esta verdadeira revolução pode ser atribuída à distribuição de recursos dos ricos para os pobres, ou será que isso se deve ao efeito multiplicador da produtividade capitalista?
Proibir um Steve Jobs de ser fabulosamente rico, de fato, reduz a desigualdade, mas não melhora a vida dos pobres. Numa economia verdadeiramente capitalista, na qual o governo não interfere escolhendo vencedores e perdedores, a profusão de milionários, longe de ser algo a lamentar, é altamente benéfica. Em condições de livre mercado, riqueza pressupõe investimentos em empreendimentos rentáveis, onde os recursos disponíveis foram utilizados de forma eficiente na produção de coisas necessárias e desejáveis. Num sistema desse tipo, os ricos criam um monte de valor para um monte de gente, além, é claro, de um monte de empregos.
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
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quarta-feira, novembro 02, 2011
quarta-feira, outubro 26, 2011
Don't Just Bash the Bankers
A Commentary by Thomas Tuma, Der SPIEGEL
Enraged crowds have been gathering in New York and other cities around the world to protest against presumed bank misconduct. Many in politics have sought to profit from their anger. But blaming the financial industry misses the point. It is the politicians themselves who are to blame.
For all of our knee-jerk sympathy for the protesters that have recently been gathering on Wall Street as well as in cities like Frankfurt and Barcelona, it would be interesting to know whether they're actually in favor of rescuing Greece or of booting it out of the euro zone. Likewise, are they fighting speculation and the power of the markets -- or simply capitalism as such?
So far, the signals have been ambivalent. The cluelessness of the elites has become the cluelessness of the street, and now average people are creating what might be called their own befuddlement. Given this situation, congratulations are in order for our completely overwhelmed politicians, who have managed to divert attention away from their own impotence by joining forces with the protesters against the easiest common enemy to target: the evil bankers!
Bashing banks has always been popular, though it has often, since the 19th century, come with anti-Semitic overtones. Even today, some crackpots are convinced that Goldman Sachs is part of some global Jewish conspiracy.
Banks are, of course, responsible for things like excessive bonuses, the bankruptcy of Lehman Brothers and financial instruments ranging from the murky to the devastating. But others have failed as well, including economists, journalists and, most of all, those politicians who, feigning understanding, are currently aligning themselves with the young protesters.
Economists have failed because they predicted neither the 2007 nor the 2011 crisis -- and because now they are talking each other to death in ideological trench warfare. We in the media must also admit to having failed because we've hardly been able to explain the crisis and because, now that a whiff of resistance is developing against "those at the top," we are looking forward to an anti-capitalist global revolution with greedy enthusiasm.
The Total Failure of the Political Class
But all of this is nothing when compared with the total failure of a political class that, for decades, has been spending more money than it takes in. Washington is merely the most egregious example to date. Since 1971, when the United States stopped pegging the dollar to gold, it has flooded its own country and the rest of world with its cash while its own public debt has only continued to pile up.
Of course, other governments haven't been much better. Germany's current debt troubles really began to take shape under Helmut Schmidt, the Social Democratic chancellor of Germany from 1974 to 1982 who is now in great demand as someone who can supposedly interpret crises well. Greece simply deceived the rest of the euro zone with falsified financial data. And even before Lehman Brothers collapsed in the fall of 2008, 11 of the 15 countries that belonged to the euro zone then were not fulfilling the stability criteria of the Maastricht Treaty limiting gross government debt as a percentage of GDP.
Just Going Through the Motions
Today, the nations of the world have accumulated the almost unfathomable sum of more than $50 trillion (€36 trillion) in debt. And that figure even ignores other foreseeable burdens, such as old-age benefits and pension payments.
Almost all parliamentary democracies tend to greatly overdo it when handing out gifts to voters. The shouting only starts when, in the great circus of subsidies, a particularly frivolous clown routine is to be eliminated for cost-cutting reasons.
It's a political world chronically addicted to debt. And it's one that pats itself on the back whenever it merely succeeds in reducing the net amount of fresh borrowing -- in other words, diving just a bit less into the red. It's a political world that didn't have the courage to address the urgently pressing issue of regulating global financial markets even in the years when everything was still booming.
Likewise, it's also a political world that has been stumbling from one crisis summit to the next over the last four years, one that turns a blind eye, underestimates, appeases and delays. After European leaders met in Brussels, the European Financial Stability Facility (EFSF) was born. In addition to being virtually unpronounceable, it also stands for the elites' inability to at least drum up support among their own citizenry.
Confusing Our Enemies
For the last four years, the members of this political world have portrayed themselves as being driven -- but by what? The evil markets, which simply want to know whether they will get their money back?
In the end, these markets -- and this is where we come full circle -- also represent those enraged citizens, the small investors now camped out in front of the European Central Bank (ECB) in Frankfurt, who don't even understand that this bank is the last fire brigade standing rather than the arsonist.
Perhaps those holding up banners saying "Down with interest and compound interest" are hoping -- like some politicians -- that the debts will somehow just disappear if they just keep their eyes closed long enough.
In 1992, when Bill Clinton was campaigning to become president of the United States, one of his best-known campaign slogans against George H.W. Bush read: "It's the economy, stupid!" Today, the slogan ought to read: "It's politics, stupid!"
Translated from the German by Christopher Sultan
segunda-feira, outubro 24, 2011
Economia e moral
Denis Lerrer Rosenfield, Estadão
As manifestações contra Wall Street, como símbolo do capitalismo contemporâneo em seu aspecto financeiro, expõem ações que permitem lançar uma luz particular sobre a natureza, digamos, "moral" (ou imoral) de determinadas práticas capitalistas atuais. Práticas capitalistas que, convém ressaltar, se voltam contra o próprio espírito do capitalismo.
Na crise de 2008-2009, o que chamou moralmente a atenção foi o fato de os executivos das grandes corporações financeiras e bancárias usufruírem grandes dividendos sob a forma de salários, bônus e vantagens dos mais diferentes tipos. Note-se que não se trata de um argumento contra dividendos e bônus, sempre e quando estejam assentados na responsabilidade. Se um executivo tem mérito, tanto melhor para ele, pois está colhendo os frutos do seu trabalho. O lucro é a recompensa pelo trabalho, não cabendo nenhum argumento ressentido dos que simplesmente invejam os bem-sucedidos. O problema é de outra ordem. Os executivos que levaram seus bancos à falência por operações extremamente arriscadas, utilizando os modernos meios digitais, não têm mérito. Cobraram por aquilo que não entregaram. Ou melhor, entregaram a poucos que lhes pagaram os polpudos rendimentos graças a ações de caráter imediato, porém a longo prazo criando para suas empresas situações pré-falimentares.
A crise econômica atual, de perfil financeiro, tem um forte componente moral. O mecanismo financeiro que levou à insolvência dos créditos, particularmente na bolha imobiliária, estava baseado em concessões várias vezes repetidas de créditos, assentados em avaliações que se tornaram fictícias dos imóveis postos em hipoteca. Enquanto o mecanismo funcionava, empurrando o problema com a barriga, numa ciranda que mais se assemelhava a uma jogatina, certos analistas de mercado e economistas cantavam loas a esse novo mercado.
Acontece, contudo, que esse mercado estava alicerçado num pressuposto, o de que o pagamento dos créditos se faria por novos créditos, criando a ilusão de que os créditos não seriam, na verdade, pagos. Dívidas se pagariam com novas dívidas, num acordo, na verdade, fictício, entre financiadores e os que contraíram empréstimos, numa relação contratual aparentemente correta. O problema está na aparente correção desse tipo de contrato, porque o componente moral é dele evacuado, como se não existisse ou não contasse.
Vejamos. Se um empréstimo é contraído para não ser pago, é porque tanto o credor como o tomador assumem a irresponsabilidade de suas ações. O agente bancário torna-se irresponsável por seu crédito e o tomador, por seu empréstimo, embora o contrato seja perfeitamente legal. Empréstimos são ações que pressupõem, como qualquer forma de ação, responsabilidade. Mas esse tipo de operação financeira está baseado na irresponsabilidade, do credor e do tomador.
No momento, porém, em que sua falha moral irrompe, ambos os contratantes procuram transferir suas respectivas irresponsabilidades ao governo, como se este devesse ser o responsável pelas irresponsabilidades alheias. Do ponto de vista dos bancos, surgem os supostos argumentos de que estes não podem quebrar, ou seja, traduzindo essa formulação em termos morais, os bancos têm todo o direito de ser irresponsáveis. Segundo o princípio da irresponsabilidade, o conjunto dos contribuintes deve se responsabilizar pelos bancos cujos dirigentes e acionistas usufruem os maiores dividendos e bônus.
Os tomadores de empréstimos também pedem socorro ao governo, exigindo, em troca do seu voto, refinanciamento de suas dívidas, ajuda para situações de insolvência, seguro-desemprego, e assim por diante. Políticas sociais são demandadas. Politicamente, ameaçam por uma solução, culpando os bancos por seus infortúnios, enquanto estes culpam aqueles pelas dívidas não pagas. Temos, então, uma situação assaz estranha, pois a irresponsabilidade moral se traduz em exigências políticas dos desfavorecidos, devendo o governo atendê-las.
Ato contínuo, os governos salvam seus bancos e procuram atenuar os efeitos da insolvência, via estímulo da economia, para que o mecanismo financeiro volte a funcionar. O instrumento utilizado é o aumento da dívida pública. Ou seja, para assumir a irresponsabilidade alheia, os governos tornam-se ainda mais irresponsáveis, transferindo uma dívida impagável para as próximas gerações, como se estas, aliás inexistentes nesse momento, devessem ser responsáveis pelo que não fizeram. Nesse contexto, a máxima de Keynes de que "a longo prazo estaremos todos mortos" é um elogio à irresponsabilidade, uma ode à imoralidade. E essa ode à imoralidade é citada por vários economistas como uma forma de sapiência - a sapiência dos irresponsáveis que auferem lucros por sua própria irresponsabilidade.
Ressalte-se que banqueiros e altos executivos, após a crise, continuaram usufruindo os mesmos privilégios e apresentaram como argumento que se trata de uma prática privada de mercado. O argumento é hilário. Quando confrontados com uma situação de quebra virtual, o argumento de mercado, no caso, a falência por maus negócios, não valeu. É o Estado, isto é, os contribuintes, que deveria arcar com seus maus negócios. Impostos deveriam ser destinados a eles para se salvarem. O privado, aí, tornou-se público. Nem o que ganharam individualmente foi devolvido. Passada a tormenta, voltam aos mesmos supostos argumentos - surrados, aos olhos da opinião pública - de que o mercado estipula esses valores de bônus e dividendos. O argumento é especialmente vicioso, mostrando, na verdade, o "vício" dos que assim agem. Pervertem o espírito do capitalismo em proveito próprio. Não deveriam, pois, causar estranheza as manifestações contra Wall Street.
As manifestações contra Wall Street, como símbolo do capitalismo contemporâneo em seu aspecto financeiro, expõem ações que permitem lançar uma luz particular sobre a natureza, digamos, "moral" (ou imoral) de determinadas práticas capitalistas atuais. Práticas capitalistas que, convém ressaltar, se voltam contra o próprio espírito do capitalismo.
Na crise de 2008-2009, o que chamou moralmente a atenção foi o fato de os executivos das grandes corporações financeiras e bancárias usufruírem grandes dividendos sob a forma de salários, bônus e vantagens dos mais diferentes tipos. Note-se que não se trata de um argumento contra dividendos e bônus, sempre e quando estejam assentados na responsabilidade. Se um executivo tem mérito, tanto melhor para ele, pois está colhendo os frutos do seu trabalho. O lucro é a recompensa pelo trabalho, não cabendo nenhum argumento ressentido dos que simplesmente invejam os bem-sucedidos. O problema é de outra ordem. Os executivos que levaram seus bancos à falência por operações extremamente arriscadas, utilizando os modernos meios digitais, não têm mérito. Cobraram por aquilo que não entregaram. Ou melhor, entregaram a poucos que lhes pagaram os polpudos rendimentos graças a ações de caráter imediato, porém a longo prazo criando para suas empresas situações pré-falimentares.
A crise econômica atual, de perfil financeiro, tem um forte componente moral. O mecanismo financeiro que levou à insolvência dos créditos, particularmente na bolha imobiliária, estava baseado em concessões várias vezes repetidas de créditos, assentados em avaliações que se tornaram fictícias dos imóveis postos em hipoteca. Enquanto o mecanismo funcionava, empurrando o problema com a barriga, numa ciranda que mais se assemelhava a uma jogatina, certos analistas de mercado e economistas cantavam loas a esse novo mercado.
Acontece, contudo, que esse mercado estava alicerçado num pressuposto, o de que o pagamento dos créditos se faria por novos créditos, criando a ilusão de que os créditos não seriam, na verdade, pagos. Dívidas se pagariam com novas dívidas, num acordo, na verdade, fictício, entre financiadores e os que contraíram empréstimos, numa relação contratual aparentemente correta. O problema está na aparente correção desse tipo de contrato, porque o componente moral é dele evacuado, como se não existisse ou não contasse.
Vejamos. Se um empréstimo é contraído para não ser pago, é porque tanto o credor como o tomador assumem a irresponsabilidade de suas ações. O agente bancário torna-se irresponsável por seu crédito e o tomador, por seu empréstimo, embora o contrato seja perfeitamente legal. Empréstimos são ações que pressupõem, como qualquer forma de ação, responsabilidade. Mas esse tipo de operação financeira está baseado na irresponsabilidade, do credor e do tomador.
No momento, porém, em que sua falha moral irrompe, ambos os contratantes procuram transferir suas respectivas irresponsabilidades ao governo, como se este devesse ser o responsável pelas irresponsabilidades alheias. Do ponto de vista dos bancos, surgem os supostos argumentos de que estes não podem quebrar, ou seja, traduzindo essa formulação em termos morais, os bancos têm todo o direito de ser irresponsáveis. Segundo o princípio da irresponsabilidade, o conjunto dos contribuintes deve se responsabilizar pelos bancos cujos dirigentes e acionistas usufruem os maiores dividendos e bônus.
Os tomadores de empréstimos também pedem socorro ao governo, exigindo, em troca do seu voto, refinanciamento de suas dívidas, ajuda para situações de insolvência, seguro-desemprego, e assim por diante. Políticas sociais são demandadas. Politicamente, ameaçam por uma solução, culpando os bancos por seus infortúnios, enquanto estes culpam aqueles pelas dívidas não pagas. Temos, então, uma situação assaz estranha, pois a irresponsabilidade moral se traduz em exigências políticas dos desfavorecidos, devendo o governo atendê-las.
Ato contínuo, os governos salvam seus bancos e procuram atenuar os efeitos da insolvência, via estímulo da economia, para que o mecanismo financeiro volte a funcionar. O instrumento utilizado é o aumento da dívida pública. Ou seja, para assumir a irresponsabilidade alheia, os governos tornam-se ainda mais irresponsáveis, transferindo uma dívida impagável para as próximas gerações, como se estas, aliás inexistentes nesse momento, devessem ser responsáveis pelo que não fizeram. Nesse contexto, a máxima de Keynes de que "a longo prazo estaremos todos mortos" é um elogio à irresponsabilidade, uma ode à imoralidade. E essa ode à imoralidade é citada por vários economistas como uma forma de sapiência - a sapiência dos irresponsáveis que auferem lucros por sua própria irresponsabilidade.
Ressalte-se que banqueiros e altos executivos, após a crise, continuaram usufruindo os mesmos privilégios e apresentaram como argumento que se trata de uma prática privada de mercado. O argumento é hilário. Quando confrontados com uma situação de quebra virtual, o argumento de mercado, no caso, a falência por maus negócios, não valeu. É o Estado, isto é, os contribuintes, que deveria arcar com seus maus negócios. Impostos deveriam ser destinados a eles para se salvarem. O privado, aí, tornou-se público. Nem o que ganharam individualmente foi devolvido. Passada a tormenta, voltam aos mesmos supostos argumentos - surrados, aos olhos da opinião pública - de que o mercado estipula esses valores de bônus e dividendos. O argumento é especialmente vicioso, mostrando, na verdade, o "vício" dos que assim agem. Pervertem o espírito do capitalismo em proveito próprio. Não deveriam, pois, causar estranheza as manifestações contra Wall Street.
quinta-feira, outubro 20, 2011
Jovens e indignados
Rodrigo Constantino, para a revista VOTO
"Um dos tristes sinais de nosso tempo é que nós temos demonizado quem produz, subsidiado aqueles que se recusam a produzir, e canonizado aqueles que se queixam." (Thomas Sowell)
Movimentos de protesto têm se espalhado por vários países. Nos Estados Unidos, o “Tea Party” cresceu de forma impressionante, e agora surgiu o “Ocupar Wall Street”, com viés de esquerda. Na Europa, várias passeatas têm ocorrido nos países em crise, sendo as mais violentas na Espanha e agora na Grécia. As inspirações são diferentes em cada caso, mas, em comum, há uma enorme raiva canalizada contra o “sistema”. Eles falam em nome dos “excluídos”, contra os privilegiados. E pregam o radicalismo.
Muitas demandas e queixas dessa “massa de ressentidos” são legítimas, ainda que seja difícil separar o joio do trigo. Há uma mistura muito grande, e nem sempre coerente, em tais protestos. Sobra ataque ao capitalismo, à globalização, ao setor financeiro, aos governos, enfim, atira-se para muitos lados distintos, mas o diagnóstico não costuma ser preciso. Palavras de ordem e slogans substituem reflexões mais aprofundadas.
Uma crise desta magnitude atual sempre tem inúmeras causas. Devemos evitar a tentação do reducionismo, em busca de bodes expiatórios simples. Sem dúvida há a impressão digital dos governos em todas as cenas de crime. Mas até onde o governo não é um reflexo do povo? Wall Street e os grandes bancos também abusaram, e merecem duras críticas. Mas o abuso não deve tolher o uso, e atacar o sistema financeiro como um todo é estupidez ideológica. Os bancos centrais também erraram feio, e seu papel deve ser revisado. Mas não há panacéia aqui também.
Eis o que eu queria dizer: apesar de conter demandas legítimas e a raiva ser justificável, este clima crescente carrega sementes perigosas para a democracia. A revista britânica “The Economist”, que fez uma reportagem de capa sobre o fenômeno, trouxe importante alerta: As pessoas estão certas de estarem com raiva, mas também é certo estar preocupado com onde o populismo pode levar a política. Como dizia Nelson Rodrigues, “a multidão é inumana porque não tem cara”.
Literalmente. Basta ver a quantidade de gente mascarada nos protestos. A máscara do conspirador Guy Fawkes, que pretendia explodir o Parlamento inglês no começo do século 17, ganhou o mundo, popularizada pelo filme “V de Vingança”. Uma turba revoltada é sempre uma ameaça às liberdades. O ambiente fica fértil para “soluções mágicas”. Os oportunistas de plantão vestem o manto de salvador da pátria e oferecem milagres. Este é o maior risco que vejo nesses protestos.
Há um agravante: a quantidade de jovens nas passeatas. O jovem apresenta naturalmente uma tendência maior ao radicalismo e às crenças utópicas. Ele é contra a autoridade por natureza; precisa confrontar o “pai” para estabelecer sua identidade. E, convenhamos, o mundo moderno anda mal das pernas quando se trata de impor limites aos jovens. Pais culpados, que não sabem dizer “não” e tentam ser “coleguinhas” dos filhos, delegando a educação ao estado, este não é um quadro animador.
Mas há um fator mais prosaico que explica parte desta revolta atual: o imenso desemprego entre os jovens. Nos Estados Unidos são mais de 17% de desempregados abaixo de 25 anos. Na União Européia essa taxa fica na média de 20%, sendo que na Espanha chega a impressionantes 46%. Quando quase metade dos jovens procura, mas não encontra emprego, pode ter certeza de que o clima vai esquentar. E os pais destes jovens têm boa parcela de culpa nisso.
As gerações anteriores foram plantando as sementes deste caos atual. Como crianças mimadas, passaram a crer que o estado de abundância é o natural, e que basta exigir do governo seus “direitos” que tudo fica bem. O “welfare state” é a maior evidência de que Bastiat estava certo quando, já em 1850, afirmou que “o estado é a grande ficção pela qual todos tentam viver à custa de todos”.
Para os jovens, este modelo é especialmente cruel, pois cria inúmeras barreiras ao mercado de trabalho, visando à “proteção” dos trabalhadores (aqueles já empregados). Um salário mínimo, por exemplo, vai prejudicar justamente os jovens menos produtivos, que aceitariam ganhar salário menor nesta fase da vida, mas são impedidos pelo governo. O elevado desemprego dos jovens é apenas mais uma conseqüência não-intencional das bandeiras altruístas de esquerda.
Ninguém sabe como esta revolta toda vai acabar, nem tenho bola de cristal para tentar prever. Pode ser que em alguns casos ela leve a reformas decentes; pode ser que em outros casos leve ao despotismo, após uma fase mais anárquica. Ainda é cedo para dizer. Mas, o que podemos adiantar é que épocas que combinam elevada deterioração de valores morais com ampla crise econômica costumam ser explosivas.
Quando vejo milhões de jovens indignados tomando as ruas do mundo todo, confesso que tenho calafrios. Fecho com Nelson Rodrigues, uma vez mais: “Esse misterioso ‘jovem’, vago, difuso, impessoal, sem cara, sem caráter, só me convence como um monstro”.
domingo, outubro 16, 2011
Tempos perigosos
Vídeo onde comento os crescentes movimentos de protesto mundo afora, cada vez mais radicais, capturando toda a indignação (em parte legítima) das pessoas contra o "sistema". Alguns culpam o capitalismo, outros Wall Street, e outros o welfare state. O fato é que este clima é propício para "soluções mágicas", revoluções que muitas vezes levam a sistemas ainda piores.
quarta-feira, outubro 12, 2011
Wall Street's Gullible Occupiers
The protesters have been sold a bill of goods. Reckless government policies, not private greed, brought about the housing bubble and resulting financial crisis.
By PETER J. WALLISON, WSJ
There is no mystery where the Occupy Wall Street movement came from: It is an offspring of the same false narrative about the causes of the financial crisis that exculpated the government and brought us the Dodd-Frank Act. According to this story, the financial crisis and ensuing deep recession was caused by a reckless private sector driven by greed and insufficiently regulated. It is no wonder that people who hear this tale repeated endlessly in the media turn on Wall Street to express their frustration with the current conditions in the economy.
Their anger should be directed at those who developed and supported the federal government's housing policies that were responsible for the financial crisis.
Beginning in 1992, the government required Fannie Mae and Freddie Mac to direct a substantial portion of their mortgage financing to borrowers who were at or below the median income in their communities. The original legislative quota was 30%. But the Department of Housing and Urban Development was given authority to adjust it, and through the Bill Clinton and George W. Bush administrations HUD raised the quota to 50% by 2000 and 55% by 2007.
It is certainly possible to find prime borrowers among people with incomes below the median. But when more than half of the mortgages Fannie and Freddie were required to buy were required to have that characteristic, these two government-sponsored enterprises had to significantly reduce their underwriting standards.
Fannie and Freddie were not the only government-backed or government-controlled organizations that were enlisted in this process. The Federal Housing Administration was competing with Fannie and Freddie for the same mortgages. And thanks to rules adopted in 1995 under the Community Reinvestment Act, regulated banks as well as savings and loan associations had to make a certain number of loans to borrowers who were at or below 80% of the median income in the areas they served.
Research by Edward Pinto, a former chief credit officer of Fannie Mae (now a colleague of mine at the American Enterprise Institute) has shown that 27 million loans—half of all mortgages in the U.S.—were subprime or otherwise weak by 2008. That is, the loans were made to borrowers with blemished credit, or were loans with no or low down payments, no documentation, or required only interest payments.
Of these, over 70% were held or guaranteed by Fannie and Freddie or some other government agency or government-regulated institution. Thus it is clear where the demand for these deficient mortgages came from.
The huge government investment in subprime mortgages achieved its purpose. Home ownership in the U.S. increased to 69% from 65% (where it had been for 30 years). But it also led to the biggest housing bubble in American history. This bubble, which lasted from 1997 to 2007, also created a huge private market for mortgage-backed securities (MBS) based on pools of subprime loans.
As housing bubbles grow, rising prices suppress delinquencies and defaults. People who could not meet their mortgage obligations could refinance or sell, because their houses were now worth more.
Accordingly, by the mid-2000s, investors had begun to notice that securities based on subprime mortgages were producing the high yields, but not showing the large number of defaults, that are usually associated with subprime loans. This triggered strong investor demand for these securities, causing the growth of the first significant private market for MBS based on subprime and other risky mortgages.
By 2008, Mr. Pinto has shown, this market consisted of about 7.8 million subprime loans, somewhat less than one-third of the 27 million that were then outstanding. The private financial sector must certainly share some blame for the financial crisis, but it cannot fairly be accused of causing that crisis when only a small minority of subprime and other risky mortgages outstanding in 2008 were the result of that private activity.
When the bubble deflated in 2007, an unprecedented number of weak mortgages went into default, driving down housing prices throughout the U.S. and throwing Fannie and Freddie into insolvency. Seeing these sudden losses, investors fled from the market for privately issued MBS, and mark-to-market accounting required banks and others to write down the value of their mortgage-backed assets to the distress levels in a market that now had few buyers. This raised questions about the solvency and liquidity of the largest financial institutions and began a period of great investor anxiety.
The government's rescue of Bear Stearns in March 2008 temporarily calmed the market. But it created significant moral hazard: Market participants were led to believe that the government would rescue all large financial institutions. When Lehman Brothers was allowed to fail in September, investors panicked. They withdrew their funds from the institutions that held large amounts of privately issued MBS, causing banks and others—such as investment banks, finance companies and insurers—to hoard cash against the risk of further withdrawals. Their refusal to lend to one another in these conditions froze credit markets, bringing on what we now call the financial crisis.
The narrative that came out of these events—largely propagated by government officials and accepted by a credulous media—was that the private sector's greed and risk-taking caused the financial crisis and the government's policies were not responsible. This narrative stimulated the punitive Dodd-Frank Act—fittingly named after Congress's two key supporters of the government's destructive housing policies. It also gave us the occupiers of Wall Street.
Mr. Wallison is a senior fellow at the American Enterprise Institute. He was a member Financial Crisis Inquiry Commission and dissented from the majority's report.
By PETER J. WALLISON, WSJ
There is no mystery where the Occupy Wall Street movement came from: It is an offspring of the same false narrative about the causes of the financial crisis that exculpated the government and brought us the Dodd-Frank Act. According to this story, the financial crisis and ensuing deep recession was caused by a reckless private sector driven by greed and insufficiently regulated. It is no wonder that people who hear this tale repeated endlessly in the media turn on Wall Street to express their frustration with the current conditions in the economy.
Their anger should be directed at those who developed and supported the federal government's housing policies that were responsible for the financial crisis.
Beginning in 1992, the government required Fannie Mae and Freddie Mac to direct a substantial portion of their mortgage financing to borrowers who were at or below the median income in their communities. The original legislative quota was 30%. But the Department of Housing and Urban Development was given authority to adjust it, and through the Bill Clinton and George W. Bush administrations HUD raised the quota to 50% by 2000 and 55% by 2007.
It is certainly possible to find prime borrowers among people with incomes below the median. But when more than half of the mortgages Fannie and Freddie were required to buy were required to have that characteristic, these two government-sponsored enterprises had to significantly reduce their underwriting standards.
Fannie and Freddie were not the only government-backed or government-controlled organizations that were enlisted in this process. The Federal Housing Administration was competing with Fannie and Freddie for the same mortgages. And thanks to rules adopted in 1995 under the Community Reinvestment Act, regulated banks as well as savings and loan associations had to make a certain number of loans to borrowers who were at or below 80% of the median income in the areas they served.
Research by Edward Pinto, a former chief credit officer of Fannie Mae (now a colleague of mine at the American Enterprise Institute) has shown that 27 million loans—half of all mortgages in the U.S.—were subprime or otherwise weak by 2008. That is, the loans were made to borrowers with blemished credit, or were loans with no or low down payments, no documentation, or required only interest payments.
Of these, over 70% were held or guaranteed by Fannie and Freddie or some other government agency or government-regulated institution. Thus it is clear where the demand for these deficient mortgages came from.
The huge government investment in subprime mortgages achieved its purpose. Home ownership in the U.S. increased to 69% from 65% (where it had been for 30 years). But it also led to the biggest housing bubble in American history. This bubble, which lasted from 1997 to 2007, also created a huge private market for mortgage-backed securities (MBS) based on pools of subprime loans.
As housing bubbles grow, rising prices suppress delinquencies and defaults. People who could not meet their mortgage obligations could refinance or sell, because their houses were now worth more.
Accordingly, by the mid-2000s, investors had begun to notice that securities based on subprime mortgages were producing the high yields, but not showing the large number of defaults, that are usually associated with subprime loans. This triggered strong investor demand for these securities, causing the growth of the first significant private market for MBS based on subprime and other risky mortgages.
By 2008, Mr. Pinto has shown, this market consisted of about 7.8 million subprime loans, somewhat less than one-third of the 27 million that were then outstanding. The private financial sector must certainly share some blame for the financial crisis, but it cannot fairly be accused of causing that crisis when only a small minority of subprime and other risky mortgages outstanding in 2008 were the result of that private activity.
When the bubble deflated in 2007, an unprecedented number of weak mortgages went into default, driving down housing prices throughout the U.S. and throwing Fannie and Freddie into insolvency. Seeing these sudden losses, investors fled from the market for privately issued MBS, and mark-to-market accounting required banks and others to write down the value of their mortgage-backed assets to the distress levels in a market that now had few buyers. This raised questions about the solvency and liquidity of the largest financial institutions and began a period of great investor anxiety.
The government's rescue of Bear Stearns in March 2008 temporarily calmed the market. But it created significant moral hazard: Market participants were led to believe that the government would rescue all large financial institutions. When Lehman Brothers was allowed to fail in September, investors panicked. They withdrew their funds from the institutions that held large amounts of privately issued MBS, causing banks and others—such as investment banks, finance companies and insurers—to hoard cash against the risk of further withdrawals. Their refusal to lend to one another in these conditions froze credit markets, bringing on what we now call the financial crisis.
The narrative that came out of these events—largely propagated by government officials and accepted by a credulous media—was that the private sector's greed and risk-taking caused the financial crisis and the government's policies were not responsible. This narrative stimulated the punitive Dodd-Frank Act—fittingly named after Congress's two key supporters of the government's destructive housing policies. It also gave us the occupiers of Wall Street.
Mr. Wallison is a senior fellow at the American Enterprise Institute. He was a member Financial Crisis Inquiry Commission and dissented from the majority's report.
domingo, outubro 09, 2011
Ocupação de Wall Street
Vídeo onde comento os protestos em Wall Street, aproveitando para explicar quais considero as principais causas da crise atual.
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