quarta-feira, junho 30, 2010

Esopo versus Dilma



Rodrigo Constantino

“Ninguém pode usar uma máscara por muito tempo: o fingimento retorna rápido à sua própria natureza.” (Sêneca)

Recentemente, a candidata Dilma Rousseff resolveu vestir nova embalagem, uma roupa costurada por Palocci para torná-la mais atraente sob os olhos da iniciativa privada. Até mesmo em imposto zero para investimentos a candidata tem falado, além de atacar o desrespeito do MST às leis, defender a liberdade de imprensa e coisas do tipo. Diante do fato de que o presidente Lula teve oito anos para fazer as reformas estruturais e não as fez, e não foi por falta de popularidade ou apoio no congresso, fica difícil acreditar nas promessas recentes de Dilma. Ainda mais quando nos lembramos de quem estamos falando!

Dilma foi uma guerrilheira que lutou para implantar no país uma ditadura do proletário. Com este fim em mente, ela se alinhou aos piores grupos revolucionários, aderindo à máxima de que os fins justificam quaisquer meios. O Colina e o VAR-Palmares foram organizações que praticaram os piores tipos de atrocidades, incluindo assaltos, ataques terroristas e seqüestro. Tudo bem: devemos levar o contexto da época em conta. Guerra Fria, muitos jovens idealistas iludidos com a utopia socialista, e dispostos a tudo pela causa. Mas o tempo passou, e vários colegas destes tempos colocaram as mãos na consciência e fizeram um doloroso mea culpa, reconhecendo os erros do passado. Dilma, entretanto, declarou com todas as letras numa entrevista à revista Veja: “eu nunca mudei de lado”.

Sabendo-se que este lado nunca foi o da democracia, e sim o lado que aponta para Cuba, resta perguntar: qual Dilma pretende governar o país se eleita? Ainda há pouco, Dilma falava das maravilhas de um Estado indutor, centralizador, assumindo a locomotiva do crescimento do país. É esta Dilma que pretende assumir o poder? Ou a Dilma “paz e amor” que foi criada pelos seus marqueteiros? A personagem não ostenta nada em comum com a realidade de uma vida inteira. Quem ainda pode se enganar com tamanha atuação?

Na fábula de Esopo sobre o gato e as galinhas, um gato tinha ouvido dizer que as galinhas de certa granja estavam doentes. Ele se disfarçou então de médico e, munido dos instrumentos necessários à arte, apresentou-se diante do galinheiro e perguntou às galinhas como elas estavam. Na fábula, elas demonstram sabedoria ao responder: “Muito bem, se tu te fores daqui”. Será que as galinhas brasileiras doentes, delirando com a prosperidade ilusória da economia, terão a mesma capacidade de enxergar a realidade?

Quanto ao abismo entre as palavras novas proferidas pela candidata e suas ações concretas durante a vida inteira, Esopo também poderia dar uma lição com a fábula da raposa e do lenhador. A raposa, fugindo de caçadores, viu um lenhador e lhe suplicou um esconderijo. Ele a convidou a entrar em sua cabana e lá esconder-se. Logo depois chegaram os caçadores, que perguntaram ao lenhador se ele vira a raposa passar. O lenhador negou em voz alta tê-la visto, mas fez um gesto com a mão indicando seu esconderijo. Os caçadores, sem notarem o gesto, ficaram com as palavras, e partiram. A raposa saiu em seguida sem dizer nada e, ao ser censurada pelo lenhador por nem sequer ter agradecido, ela disse: “Eu teria te agradecido se entre as palavras e o gesto que fizeste com a mão houvesse correspondência”.

Para aqueles mais ingênuos, que logo acreditam nas mudanças da essência, ignorando a natureza do ser, Esopo tem um importante alerta com a fábula do lavrador e da serpente congelada. Um lavrador, durante um inverno rigoroso, encontrou uma serpente congelada. Apiedou-se dela e a pôs em seu colo. Aquecida, ela voltou à vida normal, picou seu benfeitor ferindo-o de morte. E ele, morrendo, disse: “É justo que eu sofra, pois me apiedei de uma malvada”.

Chávez, em 1998, declarou que não tinha nenhuma intenção de nacionalizar empresas, de controlar a imprensa ou de destruir a democracia e permanecer no poder. Ao contrário, ele se mostrou bastante receptivo ao capital estrangeiro. Na época, ele estava prospectando clientes. Depois, era tarde demais. Ele já tinha o domínio da situação, e estava pronto para sacrificar suas vitimas ingênuas. Quem garante que Dilma e seu PT não pretendem o mesmo? O governo Lula, não custa lembrar, só não avançou mais na direção da revolução “bolivariana” porque não foi capaz. A intenção estava claramente lá, não apenas nas declarações que o próprio presidente deu em certas ocasiões, afirmando que dirige na mesma direção que o caudilho venezuelano, como em alguns atos de governo, como o Ancinav, a CNJ, a tentativa de expulsão do jornalista estrangeiro, o “mensalão”, o PNDH-3, o aparelhamento das agências regulatórias, das estatais, dos fundos de pensão, da Abin, da Receita, do Supremo, etc.

Por fim, Esopo teria uma boa lição para dar à oposição também, a todos que pretendem barrar o projeto petista de poder. A fábula dos três bois e o leão diz que os bois eram muito ligados e dividiam tudo entre si. Um leão, querendo comê-los, não o conseguia por causa de sua união. Lançando mão de palavras enganosas, conseguiu apartá-los uns dos outros. E, ao encontrar cada um deles separadamente, os devorou. Alguns empresários, encantados com as palavras da ex-guerrilheira, estão ajudando a alimentar o monstro que pretende devorá-los depois.

terça-feira, junho 29, 2010

Chávez para Dilma: eu sou você amanhã!



Chávez em 1998, Dilma em 2010... será que há muita diferença?

Agora que Dilma resolveu vestir a roupa que Palocci costurou para ela, afinando o discurso com a iniciativa privada, falando em redução de impostos (Lula com super-popularidade em 8 anos não fez, seu poste vai fazer agora?!), nada como ver esse vídeo de Chávez em 1998, tentando tranquilizar os empresários fazendo promessas que jamais iria cumprir...

Ponto para a Liberdade



Lei sobre porte de armas nos EUA vale também para estados federados, decide Suprema Corte

O Globo / Agências internacionais

RIO - A Suprema Corte dos Estados Unidos estendeu nesta segunda-feira os direitos de porte de armas para todos os estados e cidades do país, num julgamento envolvendo um caso de Chicago. Com 5 votos a 4 - uma divisão entre as linhas conservadoras e liberais -, a mais alta corte dos EUA ampliou a Segunda Emenda da Constituição, de 2008, para que os americanos tenham o direito de portar armas em todas as cidades e estados.

O direito de portar armas era aplicado anteriormente apenas para as leis federais e territórios federais, como a capital Washington DC, onde o tribunal derrubou uma proibição de arma semelhante na sua decisão de 2008.

O porte de armas tem sido uma das questões que mais dividem a poupulação social, política e juridicamente. Cerca de 90 milhões de pessoas nos EUA portam aproximadamente 200 milhões de armas de fogo.

Filhos da Liberdade

Rodrigo Constantino, O GLOBO

“O maior e principal objetivo de os homens se reunirem em comunidades, aceitando um governo comum, é a preservação da propriedade.” (John Locke)

Neste domingo, dia 4 de julho, os americanos celebrarão mais um aniversário de sua independência. O grande divisor de águas entre a era da servidão e da liberdade foi a Revolução Americana. Ali seria selado o direito do povo a um governo que respeitasse as liberdades individuais como nunca antes fora visto. A famosa passagem da Declaração de Independência, de 1776, deixa isso claro: “Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”.
A independência americana foi conquista de um povo que não aceitava a subordinação facilmente. A Grã-Bretanha, bastante endividada, tentou impor mais tributos aos colonos. A primeira tentativa foi a Lei da Receita de 1764, conhecida como a Lei do Açúcar. Em seguida foi sancionada a Lei do Selo em 1765. Isso despertou a fúria dos colonos, e houve forte reação de grupos organizados de comerciantes, conhecidos como “Filhos da Liberdade”. Os gritos ecoavam que “sem representação não há tributação”.
A Coroa inglesa insistiu com as Leis Townshend em 1767, que aumentavam as taxas alfandegárias sobre produtos básicos britânicos. Seguiram-se boicotes altamente eficazes, e o governo britânico recorreu à força. Por fim, a Companhia das Índias Orientais adquiriu o monopólio sobre a importação de chá para as colônias, culminando na famosa “Festa do Chá”, em Boston. Era a gota d’água para os americanos.
O panfleto político escrito por Thomas Paine, em janeiro de 1776, jogou lenha na fogueira revolucionária. Paine atacou a monarquia, e referiu-se ao rei como “o tirano da Grã-Bretanha”. Para ele, a escolha era simples: permanecer sob o jugo de um tirano ou conquistar a liberdade. Paine deixou claro que o papel do governo era garantir a segurança, e destacou que ele, mesmo no seu melhor estado, “não é mais que um mal necessário”.
Outro nome de extrema relevância para a independência americana é Thomas Jefferson, que ficou famoso como o autor da Declaração de Independência. Jefferson fez campanha pela separação entre a Igreja e o Estado e pela liberdade religiosa. A fermentação política nas colônias ocorria no contexto do Iluminismo, sob a influência de pensadores como John Locke. Um estado laico com foco na proteção das liberdades individuais, eis a essência da Revolução Americana.
É verdade que nem todos estavam incluídos nesses direitos individuais que os “pais fundadores” defenderam. Muitos deles, membros da elite americana, eram proprietários de escravos. Era este o contexto da época, infelizmente. Mas parece inegável que na própria Declaração de Independência estavam plantadas as sementes que levariam à abolição dos escravos. Os principais abolicionistas baseavam sua causa em princípios morais, retomando a idéia da lei natural advogada por Jefferson na Declaração.
O famoso caso “Amistad”, de 1839, foi o primeiro no qual se apelou para a Declaração. O ex-presidente americano John Quincy Adams fez uma defesa eloqüente dos africanos presos: “No momento em que se chega à Declaração de Independência e ao fato de que todo homem tem direito à vida e à liberdade, um direito inalienável, este caso está decidido”. Abraham Lincoln foi outro que apelou constantemente à Declaração para defender a causa abolicionista. Outro abolicionista conhecido, David Walker, escreveu em 1823 um texto citando os trechos da Declaração. Martin Luther King Jr., em seu mais famoso discurso contra o racismo, faz alusão direta ao trecho da Declaração onde todos os homens são criados iguais.
A Revolução Americana representou um marco na história. Combateu o excesso de tributação, assim como a ausência de representação política. Lutou pela separação entre a Igreja e o Estado. Entendeu que o governo serve para proteger as liberdades individuais, e que cada um deve ter sua propriedade preservada, assim como deve ser livre para buscar a felicidade à sua maneira. Buscou limitar ao máximo o poder estatal, protegendo os indivíduos da ameaça do próprio governo. Compreendeu que a descentralização do poder é fundamental. Em resumo, criou a primeira República com bases realmente liberais.
Infelizmente, os próprios americanos parecem ter esquecido as principais lições de seus fundadores. Que neste aniversário seu legado possa ser lembrado.

segunda-feira, junho 28, 2010

Entrevista na RedeVida

Segue parte da entrevista que fiz hoje no RedeVida, com Aristóteles Drummond. Ela vai ao ar na íntegra nesta sexta-feira, 20:30.

sexta-feira, junho 25, 2010

Palestra no I Seminário de Economia Austríaca

Eis o link para minha palestra no I Seminário de Economia Austríaca em Porto Alegre, onde comento a situação econômica do país e seus pilares insustentáveis a longo prazo.

quinta-feira, junho 24, 2010

Robin Hood



Finalmente fui ver Robin Hood. Excelente filme! Mensagem muito legal em prol da liberdade.

Quando ele pede a palavra na frente de todos os nobres e do rei, e fala que tudo que o povo quer é liberdade para se sustentar (há controvérsias na verdade, o povo quer liberdade mas também quer "segurança e proteção do papai"), foi show. Ele faz a analogia com uma catedral, lembrando que uma sociedade se constrói de baixo para cima, e que se o rei aceitar isso, numa carta de direitos declarando igualdade perante as leis, ele será não apenas respeitado, como amado! O rei retruca que ele defende um castelo para cada cidadão, e eis o ponto alto do filme, em minha opinião: "para o povo, sua casa é seu castelo!"

Muito bom mesmo. Resgataram a lenda original de Robin Hood, um fora-da-lei por conta de uma lei injusta e arbitrária, que passou a lutar contra as autoridades estabelecidas para devolver ao povo o que era seu por direito. Nota dez, apesar da escorregada no final, com a vida comunitária e igualitária criada na floresta.

terça-feira, junho 22, 2010

Brasil: uma aposta no crescimento chinês

Palavra do gestor:

O Brasil e a bolsa de valores: uma aposta no crescimento chinês

Rodrigo Constantino, Jornal Valor Econômico

O crescimento econômico brasileiro ainda é muito dependente do crescimento econômico chinês, por conta do preço das principais commodities que o país exporta. As empresas brasileiras exportam quase cinco vezes mais hoje do que faziam no começo do governo Lula, e boa parte do aumento se deve aos produtos básicos. Se isso é verdade para a economia como um todo, é ainda mais verdadeiro para o desempenho da bolsa no Brasil. O Ibovespa ainda é muito concentrado em empresas diretamente ligadas ao preço das commodities.

Quase metade do principal índice de ações do país é formada por empresas que dependem das commodities, que são cada vez mais impactadas pela demanda chinesa. A Petrobras e a Vale, sozinhas, representam algo como 25% do Ibovespa. E a China já representa quase a totalidade do crescimento na demanda mundial de petróleo e minério de ferro. Quando comparado ao índice de outros países, o Ibovespa se destaca por essa excessiva concentração em commodities.

O Dow Jones americano, por exemplo, tem menos de 15% em empresas atreladas diretamente ao preço de produtos básicos, patamar semelhante ao do CAC na França. O FTSE inglês já é mais exposto às oscilações das commodities, com quase 30% em empresas que dependem desses produtos. Já o Nikkei no Japão, o Kospi na Coreia do Sul e a bolsa de Taiwan possuem menos de 10% em empresas expostas às flutuações das commodities. São países com elevada participação de empresas de tecnologia.


Mesmo a bolsa chinesa tem baixa exposição a empresas de commodities, cerca de 20% do total. A demanda chinesa é cada vez mais relevante para determinar o preço desses produtos, mas a bolsa de ações na China possui participação maior em setores como o financeiro, por exemplo. É o crescimento chinês que dita o preço das principais commodities, mas é o Ibovespa que acaba dependendo mais de sua flutuação.

Comparando o desempenho do Ibovespa em dólar com o CRB, principal índice de commodities da bolsa de Chicago, verifica-se elevada correlação ao longo do tempo. A correlação semanal desde 2009, por exemplo, está acima de 0,95. A Austrália é outro país que acaba surfando bem esta onda chinesa, apresentando enorme correlação com o Ibovespa.

Com as principais economias desenvolvidas sem crescimento e com taxas de juros próximas de zero, os investidores buscam alternativas para alocação de capital, tentando aproveitar o crescimento ainda acelerado na China. Mas o melhor instrumento para isso nem sempre será o próprio mercado de ações chinês. Por isso o Brasil acaba se destacando como um excelente "China play", uma forma de os investidores internacionais apostarem no crescimento chinês indiretamente.

O problema disso é que o Brasil se tornou mais vulnerável a choques externos, principalmente da economia chinesa. Ninguém sabe ao certo para quanto vai o crescimento chinês. O que parece mais razoável prever é que a atual taxa não é sustentável. Existem claros sinais de espuma no setor imobiliário chinês, e até o mercado de trabalho começa a apresentar alguns problemas, pressionando os salários para cima. A inflação tem sido uma ameaça constante na China. Se o governo não for capaz de contê-la com medidas administrativas apenas, a economia poderá sofrer um baque. Não dá para descartar a hipótese de queda mais acentuada no crescimento chinês. E se isso acontecer, tanto a economia brasileira como o Ibovespa serão duramente afetados.

O ideal seria o governo brasileiro fazer as reformas estruturais para criar um dinamismo interno mais independente em nossa economia. Com a reforma previdenciária desarmando parcialmente a bomba-relógio do rombo na previdência, a reforma tributária reduzindo e simplificando os impostos, a reforma trabalhista flexibilizando o mercado de trabalho e a reforma política descentralizando o poder e oferecendo maior racionalidade à política nacional, a economia poderia decolar de forma sustentável.

Infelizmente, nenhum dos grandes partidos abraçou esta bandeira de reformas e, para agravar a situação, o governo Lula tem se mostrado muito irresponsável do ponto de vista fiscal no fim do segundo mandato. Nossa economia acaba extremamente dependente do fator China e do crédito estatal, que não pode continuar neste ritmo sem gerar mais inflação. Os gargalos internos ameaçam nossa recuperação econômica, e o Brasil acaba sendo somente uma aposta no crescimento chinês que, por sua vez, apresenta alguns sinais de esgotamento. Não é um quadro muito animador para investidores de longo prazo.

sábado, junho 19, 2010

Mises: um liberal democrata



Rodrigo Constantino

Boa parte dos membros do Mises Institute atualmente se diz libertária com viés anarquista, ou seja, prega a completa abolição do estado. São seguidores mais de Rothbard e Hoppe que do próprio Mises. O debate entre esses “anarco-capitalistas” e os “minarquistas” é legítimo e, particularmente, eu o considero inconclusivo. Mas creio que seja importante fazer a distinção entre ambos, lembrando que o próprio Mises, cujo nome, afinal de contas, o instituto utiliza, não concordava com a postura revolucionária de seus atuais seguidores.

Uma das principais diferenças diz respeito ao desprezo pela democracia. O instigante livro de Hoppe, Democracy: The God That Failed, conquistou muitos adeptos, que passaram a enxergar a democracia como um verdadeiro câncer contra a liberdade. Mas Mises jamais concordou com esta visão. Ele sempre soube das inúmeras imperfeições da democracia, que não é exatamente louvável por sua capacidade de boas escolhas, mas ainda assim defendeu com unhas e dentes o modelo democrático. O principal motivo era semelhante ao que Karl Popper tinha: a democracia é a forma mais pacífica que conhecemos para eliminar erros e trocar governantes, sem derramamento de sangue.

Popper resumiu bem a questão quando disse que “não somos democratas porque a maioria sempre está certa, mas porque as instituições democráticas, se estão enraizadas em tradições democráticas, são de longe as menos nocivas que conhecemos”. Mises estava de acordo, e defendeu a democracia em diversos livros. Em Liberalism, por exemplo, ele escreveu: “A democracia é aquele forma de constituição política que torna possível a adaptação do governo aos anseios dos governados sem lutas violentas”. Para Mises, que depositava enorme relevância no poder das idéias, somente a democracia poderia garantir a paz no longo prazo.

Em sua obra-prima, Human Action, Mises reforça esta visão em prol da democracia: “Por causa da paz doméstica o liberalismo visa a um governo democrático. Democracia não é, portanto, uma instituição revolucionária. Pelo contrário, ela é o próprio meio para evitar revoluções e guerras civis. Ela fornece um método para o ajuste pacífico do governo à vontade da maioria. [...] Se a maioria da nação está comprometida com princípios frágeis e prefere candidatos sem valor, não há outro remédio além de tentar mudar sua mente, expondo princípios mais razoáveis e recomendando homens melhores. Uma minoria nunca vai ganhar um sucesso duradouro por outros meios”.

Em Socialism, Mises escreve: "A democracia não só não é revolucionária, mas ela pretende extirpar a revolução. O culto da revolução, da derrubada violenta a qualquer preço, que é peculiar ao marxismo, não tem nada a ver com democracia. O Liberalismo, reconhecendo que a realização dos direitos econômicos objetivos do homem pressupõe a paz, e procurando, portanto, eliminar todas as causas de conflitos em casa ou na política externa, deseja a democracia". Ele acrescenta ainda: “O Liberalismo entende que não pode manter-se contra a vontade da maioria”. Logo, um liberal seguidor de Mises irá sempre lutar pelas vias democráticas, buscando persuadir a maioria de que o liberalismo é o melhor caminho.

Tampouco era Mises um anarquista com o objetivo de eliminar o governo. Longe disso! Toda a essência de sua filosofia política passa bem distante desta bandeira típica dos libertários mais radicais. Em todos os seus livros ele reconhece um importante papel para o governo. Em Bureaucracy, por exemplo, ele sustenta que a polícia deve ser uma clara função do estado. Mises escreve: "A defesa da segurança de uma nação e da civilização contra a agressão por parte de ambos os inimigos estrangeiros e bandidos domésticos é o primeiro dever de qualquer governo”.

Em Liberalism, Mises é ainda mais direto: “Chamamos o aparato social de compulsão e coerção que induz as pessoas a respeitar as regras da vida em sociedade, o estado; as regras segundo as quais o estado procede, lei; e os órgãos com a responsabilidade de administrar o aparato de compulsão, governo”. E, caso não tenha ficado claro, ele enfatiza: “Para o liberal, o estado é uma necessidade absoluta, uma vez que as tarefas mais importantes são sua incumbência: a proteção não só da propriedade privada, mas também da paz, pois na ausência da última os benefícios completos da propriedade privada não podem ser aproveitados”.

Mises ataca diretamente os anarquistas, fazendo questão de separá-los dos liberais: “Liberalismo não é anarquismo, nem tem absolutamente nada a ver com anarquismo. O liberal entende claramente que, sem recorrer à compulsão, a existência da sociedade estaria ameaçada e que, por trás das regras de conduta cuja observância é necessária para assegurar a cooperação humana pacífica, deve estar a ameaça da força, se todo edifício da sociedade não deve ficar continuamente à mercê de qualquer um de seus membros. É preciso estar em uma posição para obrigar a pessoa que não respeita a vida, a saúde, a liberdade pessoal ou a propriedade privada dos outros a aceitar as regras da vida em sociedade. Esta é a função que a doutrina liberal atribui ao estado: a proteção da propriedade, liberdade e paz”.

Portanto, está muito claro que Mises discordava dos meios anárquicos para se preservar a propriedade e a paz, e considerava o estado fundamental para exercer estas funções. Para Mises, “o anarquista está enganado ao supor que todos, sem exceção, estarão dispostos a respeitar estas regras voluntariamente”. Segundo ele, “o anarquismo ignora a verdadeira natureza do homem”, e seria praticável “apenas em um mundo de anjos e santos”.

Nenhum defensor da liberdade precisa concordar com tudo que Mises defendeu. O debate é legítimo, sempre. E, de fato, Mises não teve acesso a todos os argumentos desenvolvidos depois por seus seguidores anarco-capitalistas. Mas tais pontos, como a democracia e o monopólio das leis pelo estado, não eram detalhes do pensamento político de Mises; eram parte de sua própria essência! Portanto, seus seguidores, ao menos no nome, devem respeito a estas idéias. Especular que o pensamento de Mises teria “evoluído” hoje na direção anarquista é puro exercício de adivinhação. Mises conhecia os pilares da anarquia, mas os rejeitava veementemente. E precisamos nos ater aos fatos: Mises era um liberal democrata. Que o Mises Institute tenha sempre isso em mente, ou então mude o nome para Hoppe Institute.

sexta-feira, junho 18, 2010

A Morte de Saramago



Rodrigo Constantino, para o Instituto Liberal

Morreu aos 87 anos o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de literatura. Saramago foi defensor do socialismo a vida toda, como ocorre com muitos intelectuais. Vários pensadores liberais já tentaram explicar esta atração que intelectuais sentem pela utopia socialista. Em Mente Cativa, outro prêmio Nobel de literatura, Czeslaw Milosz, descreve como foi a vida dos intelectuais na prática sob o regime que eles costumam defender de longe. O “socialismo real” é incompatível com o livre pensar, com a criação artística genuína. O intelectual se transforma numa máquina de proselitismo, num simples instrumento do partido.

Milosz cita o exemplo de Pablo Neruda para mostrar como bons poetas acabam escrevendo sobre aquilo que não conhecem. O exemplo poderia ter sido Saramago também. Em sua defesa, vale lembrar que ele rompeu com o regime cubano em 2003, após Fidel Castro mandar fuzilar três pessoas sem antecedentes, em julgamento sumário, pelo “crime” de tentar fugir da ilha-presídio. À época, o escritor disse: “Cuba não ganhou nenhuma batalha heróica com o fuzilamento desses três homens, mas sim perdeu minha confiança, destruiu minhas esperanças e decepcionou minhas ilusões”. Até então, Saramago era um entusiasta do regime e amigo do ditador. Um “pouco” tarde para descobrir a realidade por trás da retórica humanitária do sistema socialista!

Mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca. Esta declaração de Saramago ajuda a limpar um pouco sua imagem e seu legado. O poeta Ferreira Gullar, que fora um defensor do socialismo também, vem fazendo um admirável esforço de mea culpa, reconhecendo os erros do passado e o perigo do socialismo. Seria ótimo se cada vez mais intelectuais, escritores, poetas e pensadores de forma geral acordassem para o que é o socialismo na prática. Afinal, o que mais se vê por aí é intelectual esquizofrênico, do tipo que ama o socialismo, mas bem de longe. Foi Roberto Campos quem descreveu com perfeição este fenômeno:

“É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês; trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola...”